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Esta semana fui pela segunda vez a um presídio. Na terça-feira, passei o dia no Evaristo de Moraes, no Rio, unidade prisional que fica dentro do Morro da Mangueira, bem pertinho do estádio do Maracanã. Depois de ter estado lá em novembro passado para fazer uma ministração, recebi novamente um convite da penitenciária para ministrar, desta vez, duas palestras, para 300 detentos. Fiquei lá de manhã até o fim da tarde. Como da primeira vez, foi uma experiência inesquecível. 

Se você nunca foi a um presídio, fica a recomendação: vá. É tão importante passar um dia numa penitenciária quanto passar um dia numa conferência teológica. É algo que mexe com nossa espiritualidade e nos faz refletir profundamente sobre questões centrais da fé cristã, como a extensão do pecado, a possibilidade de arrependimento, a viabilidade da metanoia bíblica, o significado de amor pelos inimigos, perdão, graça. Lá discussões sobre questões como calvinismo x  arminianismo, pedobatismo x credobatismo, cessacionismo x continuísmo e outros temas periféricos da fé simplesmente ficam dos portões para fora. No universo prisional, gastar tempo com debates sobre temas como “o cerne do pensamento de Armínio”, “a epistemologia do ser” e “o que é um reformado” é tão relevante quanto querer ensinar as funções do bóson de Higgs ou discutir sobre as propriedades do top quark. Você não sabe o que é isso? Pois é. 

O choque de realidade é enorme, pois um presídio parece um universo paralelo. Pense em um lugar no coração de uma metrópole em que ninguém tem celular e não existe acesso à Internet. Quem está preso ali há alguns anos nunca segurou um smartphone, não faz ideia do que é whatsapp e não consegue entender que graça tem esse tal de Facebook. Na falta de cursos profissionalizantes, atividades artísticas ou outras iniciativas de enriquecimento epistêmico ou intelectual, num lugar como esse resta às pessoas ocupar o tempo com ações que deixaram há bastante tempo de fazer parte da rotina de muitos que estão do lado de fora: ler e refletir. A biblioteca do Evaristo de Morais é a meca do passatempo dos detentos e tive a alegria de doar livros meus para ela, a fim de serem lidos pelos internos ao longo dos anos que virão. 

Cheguei ao presídio para fazer duas palestras, levando dez exemplares de livros que escrevi para presentear os detentos e, naturalmente, achei que eu é que estava levando algo para eles. Mas, na realidade, eu é que saí de lá enriquecido, principalmente pelas conversas que tive. Vivi momentos incríveis no cárcere. Tive a oportunidade de bater papo com um dos detento sobre – acredite – Nietzsche, Eça de Queiroz e Aldous Huxley. Ouvi histórias de gente presa pelos mais variados crimes, do estelionato ao assassinato, passando pelo estupro e o tráfico de drogas. Ouvi experiências horripilantes de gente que esteve no coração das facções criminosas. Escutei relatos sobre vivências que você acha que só existem nos filmes de Hollywood, de pessoas que reconhecem sem dar justificativas a maldade de seus atos passados. Ninguém sai o mesmo de conversas como essas. 

Algo que ir a um presídio e conversar com os internos faz é dar ao “bandido” uma identidade. De repente, você está sentado ao lado de um daqueles caras que só vê no telejornal ou escondendo o rosto, algemado, no Cidade Alerta e descobre que ele tem nome, sonhos, pensamentos, arrependimentos, sentimentos e ideias. Descobre que todos são gente. Gente que cometeu atos atrozes, mas que ainda carrega em si a semente da imagem e semelhança de Deus. Conversei com alguns que hoje demonstram repulsa pelos crimes que cometeram e têm um desejo verdadeiro de se tornarem pessoas produtivas e de bem quando saírem da prisão. Um dos detentos com quem bati papo quer fazer faculdade de medicina. Outro quer se formar em psicologia e ajudar a criar projetos que ajudem a ressocializar presos. Dois querem pregar o evangelho a jovens envolvidos no tráfico de drogas.

É incontestável que há, sim, os que almejam prosseguir no crime sem arrependimentos, nem todo mundo se emenda. Mas, com toda certeza, os relatos de seres humanos verdadeiramente arrependidos que conheci ali me fazem considerar expressões como “bandido bom é bandido morto” uma das maiores aberrações que a humanidade já criou. Esse pensamento é algo absolutamente alienígena ao que o evangelho propõe e é o cúmulo do absurdo um cristão pensar tal coisa, pois acreditar nisso é desconsiderar a possibilidade de uma pessoa desencaminhada arrepender-se, mudar de vida e construir uma nova história, após ter pago junto à justiça pelo crime que cometeu. 

Chama a atenção no Evaristo de Moraes a quantidade de detentos evangélicos, fruto da ação evangelística especialmente de membros de denominações pentecostais e neopentecostais. Lá dentro há uma igreja e um pavilhão inteiro de presos que se identificam como protestantes. Não sou ingênuo de achar que todos são verdadeiramente convertidos, há os meros simpatizantes e os inconversos aproveitadores, mas, com absoluta certeza, muitos de fato tiveram um encontro real com Jesus no cárcere. Negar isso é negar a ação do Espírito Santo. São pessoas presas pelos mais variados crimes e que, sim, hoje são meus irmãos em Cristo. E seus. Não posso desconsiderar que Jesus salva e transforma bandidos cruéis em homens da paz entre as paredes de uma prisão. 

Saí do presídio Evaristo de Moraes mais rico do que entrei. Eu vi a besta face a face, olhei dentro de seus olhos e constatei que é possível ela se tornar mansa como um cordeiro, conformada à semelhança do Cordeiro. Diante de crimes horríveis e hediondos, minha carne pede apenas punição e justiça, mas não posso negar o poder do evangelho de tornar o violento alguém que se opõe à violência. Por isso, hoje, meu espírito pede mais que justiça: pede justificação. 

A maioria dos 300 homens que me ouviram – entre eles, três travestis, diversos umbandistas e kardecistas – escutou com atenção e respeito as preleções. Muitos vieram falar comigo ao final de cada ministração. Vi nos olhos e nas palavras de muitos o desejo sincero por um recomeço. E, a partir de hoje, esta será minha oração: que cada presídio se torne não um depósito de gente ou um purgatório cuja única função seja a sádica punição de bestas-feras humanas, mas um verdadeiro local de transformação. Se o Estado não é capaz de criar meios eficientes de regeneração ética e social da massa carcerária, tenho inabalável certeza de que o Espírito de Deus é extremamente eficaz em regenerar espiritualmente os degenerados, fazendo muitos deles nascerem de novo. Por isso eu oro. 

Um dos detentos com quem conversei me disse que o presídio é “a porta do inferno”. Felizmente, acredito que, enquanto uma alma não atravessa os umbrais do inferno, pode ser resgatada pela graça e ouvir do Senhor: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Portanto, não ouso dizer que bandido bom é bandido morto. Meu cristianismo me mostra que bandido bom é bandido morto, sim, mas morto para o mundo, o diabo, a carne e o pecado – e renascido em Cristo como nova criatura. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

(Nenhuma das fotos que ilustram este post foi tirada por mim por ocasião da visita. São fotos ilustrativas, tiradas por outras pessoas, em outras ocasiões, e disponíveis livremente na Internet)

Confiança inabalável_Banner ApenasClicando nas imagens acima e abaixo você vai para a livraria virtual das lojas Saraiva.

APENAS_Banner três livros Zágari

leoesPeço desculpas a você que acompanha o APENAS, pois escrevo sempre aqui no blog com a intenção de edificar, exortar ou consolar a sua vida, mas, hoje, gostaria de abordar um assunto que tem ferido a minha alma. Já explico, mas, para chegar ao ponto principal da minha reflexão, antes tenho de apresentar alguns argumentos. Se você tiver paciência de ler até o final, sigamos juntos. O fato é que, já há alguns anos, algo tem me incomodado muito. Mas muito. Muito. Demais. A desunião da Igreja de Jesus Cristo em nosso país alcançou patamares elevadíssimos. Para mim, preciso dizer, insuportáveis. Viramos uma família abençoada, porém, em enorme parte, problemática. Por mais que me doa muito dizer isso, nós, evangélicos, somos um povo desunido. O que ainda não é o pior: não satisfeitos em vivermos entre inimizades, porfias, […] discórdias, dissensões, facções” (Gl 5.20), tratamos os irmãos em Cristo de quem discordamos com um nível de agressividade, arrogância, desrespeito e falta de amor que considero espantoso para quem segue Jesus.

Essa constatação, atrelada à angústia que ela provoca, já me acompanha há um bom tempo. Quando abandonei as redes sociais, há uns dois anos, fiquei bem melhor, pois parei de ter acesso a muitos dos debates, videos, textos, vlogs e posts que promovem a segregação e o esquartejamento do Corpo de Cristo. Com o lançamento de meu livro Perdão Total, em outubro passado, retornei ao facebook por orientação da editora, como forma de manter o diálogo com leitores e irmãos a quem porventura eu pudesse vir a abençoar pelo que escrevo. Nesse sentido, foi ótimo, pois de fato foi possível interagir, conhecer novas pessoas, ter diálogos interessantes, divulgar a mensagem do perdão e da restauração. Mas isso teve um efeito colateral, um preço a pagar: voltei a ter acesso a posts, comentários, vídeos, vlogs e tudo o mais que, em nome “de Jesus”, da suposta “sã doutrina” e da “apologética”, promove dissensão, a compartimentalização e a ira entre as diferentes facções da Igreja. 
ovelha 1Assim, tenho visto calvinistas numa discussão eterna com arminianos, com troca de acusações, desrespeito e ofensas dos dois lados. Também cessacionistas em discussões antigas e insípidas com pentecostais. Ou, ainda, pedobatistas e credobatistas se pegando nos ringues virtuais. Adeptos da Missão Integral e adversários da Missão Integral quase comendo o fígado uns dos outros. Gente que não crê que Deus está no controle de tudo gritando e salivando contra quem crê que Deus está no controle de tudo e quem crê respondendo com igual ímpeto. Isso além de muitos outros grupos divergentes. Tudo “em defesa da sã doutrina”, claro.
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Sabe o que percebo que há em comum a todos esses grupos que polemizam na Internet e outros ambientes? São irmãos em Cristo tratando irmãos em Cristo com desrespeito, desamor, doses de agressividade, muita arrogância e outras posturas que são características do mundo, não de filhos de Deus – claro que, como acreditam estar fazendo isso em nome da sã doutrina, os que entram nesses debates creem que tudo podem, que o Senhor lhes dá carta branca para serem pessoas desagradáveis, já que acreditam verdadeiramente que o estão “defendendo”. Agem, talvez sem perceber, não segundo o  amor que o evangelho propõe, mas segundo a máxima do filósofo Maquiavel: “o fim justifica os meios”.
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Nas divergências, me assombro com a forma com que os “defensores da sã doutrina” atacam quem eles acreditam estar errados. Cheguei a ver irmãos em Cristo criticando irmãos em Cristo de quem discordam usando elogios como “paspalho”,  “idiota” e “palhaço”. Estou estarrecido com o que tenho visto e profundamente abatido por ver que meus irmãos acham que isso é justificável. Não é. É um absurdo bíblico. Só para lembrar: “Quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.22). Ou Jesus não quis dizer o que disse? Que outra interpretação haveria?
leos 2Repare que não estou falando de cristãos criticando hereges. Refiro-me a cristãos que discordam de cristãos. É briga familiar. Irmão contra irmão. Caim e Abel dos dias atuais. Se já me choco quando vejo a maneira horrível e mundana como muitos irmãos em Cristo tratam hereges e pessoas que discordam do evangelho, quanto mais quando observo as brigas entre os irmãos na fé. Muitos dos que põem o dedo na cara dos hereges falam deles com ira, chacotas, sarcasmo e ódio, muito ódio, em suas palavras e, naturalmente, no coração. “O que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem” (Mt 15.18). Sempre que vejo, leio ou ouço, por exemplo, cristãos falando de forma agressiva e cheia de ódio contra quem considera inimigo da fé, lembro-me do que Jesus nos ordenou: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?” (Mt 5.43-46). Se recebemos de Jesus o mandamento de amar os inimigos (e nunca vi tratar mal, xingar, ofender, desrespeitar ou agredir quem se ama), os inimigos da fé não se encaixariam na categoria “inimigos”? Ou inimigo não significa inimigo? Então não deveríamos tratá-los com amor? Jesus não quis dizer o que disse? Ou “não é bem assim”?
dallas willardMuitos cristãos acreditam que a defesa da fé (contra hereges ou contra cristãos dos quais se discorda) deve ser feita com agressividade, com testosterona, como cruzados numa batalha. Agem como zelotes, guerreiros da sua “sã doutrina”. Então, para os tais, vale tudo, inclusive tratar de quem discordam por nomes desrespeitosos e agredi-los da forma que der. Confesso que há alguns anos eu acreditava nisso também. E agi dessa forma, reconheço o meu pecado. Mas, então, fui percebendo o absurdo e o mundanismo presente nessa postura. Até que, há alguns meses, li a obra The allure of gentleness (“O fascínio da gentileza”, numa tradução livre), livro póstumo de Dallas Willard (foto), onde ele prova que a defesa da fé (com relação a hereges e também a cristãos de quem se discorda) para dar resultados tem de ser feita com educação, polidez, afeto e respeito. O que li foi a gota d’água para revolucionar de vez minha visão sobre o assunto. Hoje, meu estômago embrulha quando leio, vejo ou ouço qualquer cristão “defender a fé” com agressividade, altivez, ofensas, termos deselegantes, xingamentos e petulância – sempre “em nome de Jesus”, claro.
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Não é possível que as pessoas não percebam que algo feito em nome de Jesus mas que contraria o caráter de Jesus… tem qualquer origem, menos Jesus.
boko haram 1Venho observando e suportando tanta divergência feita sem amor por esses últimos quatro meses sem falar nada, mas, semana passada, aconteceu algo que me lançou em uma reflexão profunda e me conduziu a este desabafo. Por algumas razões, passei a buscar informações sobre a perseguição sangrenta e cruel que vem ocorrendo em nossos dias contra os cristãos em determinados países do mundo. Não sei se você sabe disso, mas nossos irmãos e nossas irmãs em Cristo estão sendo mortos como porcos em muitas nações dominadas pelo Isam. Hoje. No exato momento em que você está lendo este texto, confortável e despreocupadamente, milhares de irmãos na fé estão sendo estuprados, desapossados de seus bens, vendidos como escravos sexuais, espancados e assassinados. A forma preferida de matança de cristãos, por serem cristãos, é a decapitação.
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O grupo terrorista Estado Islâmico tem dizimado todo e qualquer cristão que encontra pelo caminho em países como Síria, Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Chipre e Turquia. E isso por enquanto, logo eles estarão em outros países. Talvez o Brasil. O Estado Islâmico obriga as pessoas que vivem nas regiões que controla a se converter ao islamismo, e aqueles que se recusam sofrem torturas, mutilações e estupros. E são executados.
boko haram 2Na Nigéria, o problema é semelhante. A organização Boko Haram (expressão que significa “a educação ocidental ou não islâmica é um pecado”) é um grupo  fundamentalista islâmico de métodos terroristas, que busca impor a lei muçulmana no norte do país. O Boko Haram opera com caminhões e carros blindados, cerca vilas cristãs e mata a população inteira, além de sequestrar e estuprar todas as meninas. Vídeos têm sido divulgados pela internet e mostram pastores e membros de igrejas sendo decapitados por espadas, simplesmente por ser cristãos e se recusar a negar sua fé. Volto a dizer: isso está ocorrendo agora, hoje, nesta época da história e debaixo do mesmo sol que eu e você. No exato mesmo segundo em que cristãos aqui no Brasil se ofendem e entram em discussões mal-educadas por questões secundárias da fé; em países como Nigéria, Síria e Jordânia pastores e membros estão sendo postos de joelhos e decapitados por espadas. As imagens são tão terríveis que foi difícil encontrar fotos para ilustrar este post que fossem publicáveis, a maioria é de embrulhar o estômago.
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E, finalmente, quero chegar ao ponto principal de tudo o que escrevi aqui. Eu li muitos textos e assisti a uma grande quantidade de vídeos sobre a perseguição e a devastação imposta a esses milhares de irmãos pelo Estado Islâmico e pelo Boko Haram. Sabe o que mais chamou minha atenção? Em nenhum deles, em nem um único sequer, vi qualquer designação desses mártires da fé que não fosse cristãos. Nenhuma manchete de jornal escreveu algo como “Reformados são assassinados” ou “Estupradas a meninas que se opõem à Missão Integral”. Tampouco “Milhares de pentecostais decapitados na Nigéria”, nem “Vilas de cessacionistas são invadidas por terroristas”. Ou “Batistas e presbiterianos são caçados por islâmicos, mas pentecostais e metodistas não”. Nada disso. O que leio é “Cristãos são mortos…”; “Cristãs são estupradas…”; “Cristãos foram decapitados…”. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos.
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Sabe a que conclusão cheguei? Quando vem a perseguição, todas as discussões sobre assuntos secundários deixam de importar. Os bate-bocas denominacionais desaparecem. As rusgas doutrinárias evaporam. Se a sua cidade for invadida por radicais islâmicos, você não vai dar a mínima para as questiúnculas periféricas que nos dividem e jogam irmão contra irmão. Assim como duvido que os cristãos de Iraque, Nigéria, Síria e outros países que sangram pela perseguição estejam dando a mínima para isso neste momento. Eles só sabem que são filhos de Deus e irmãos em Cristo. Porque, no instante em que o principal é posto no foco, as questões periféricas e menos importantes da fé desaparecem.
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O que sobra é o centro de tudo: a cruz. Nessas horas, nos lembramos dos temas fundamentais da fé, como amor a Deus e ao próximo, graça, perdão, restauração, evangelismo, negar-se a si mesmo, vida eterna, fruto do Espírito e tantos outros que permanecem esquecidos por muitos em tempos de paz.
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Eu tenho pavor que isso aconteça, mas a história das perseguições religiosas ao longo dos séculos mostra que a perseguição une, purifica e derruba as divisões da Igreja. Não que eu queira o Estado Islâmico ou o Boko Haram invadindo Copacabana, Deus nos livre! Jamais desejaria isso. Mas, no rumo em que estamos, seria uma das poucas coisas que poderiam remover os rótulos inúteis e unir, aqui no Brasil, as denominações, os adeptos das distintas linhas teólogicas e doutrinárias, os diferentes grupos soteriológicos, os que professam ideologias cristãs diferentes, os que divergem em assuntos periféricos e menos importantes da fé. As igrejas de países como Nigéria, Síria, Iraque e Jordânia que o digam.
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Não importa se você é batista, presbiteriano, pentecostal, anglicano,  metodista, cessacionista, emergente, pedobatista ou o que for. Se você foi alcançado pela graça divina, crê em Jesus como Senhor e Salvador pessoal e vive em piedade, passará a eternidade na presença de Deus, em novos céus e nova terra. E, sinceramente… você acha que qualquer uma dessas coisas importará lá? Então fica aqui a minha recomendação: importe-se aqui com o que importa na eternidade.
boko haram 5Desfrute da liberdade que você tem. Mas faça isso todos os dias como se vivesse num país em que te cortariam a cabeça só de saber que você é cristão. Porque, aí, todo rótulo deixará de importar e você poderá se orgulhar de ter como título simplesmente… cristão. Um cristão que ama e une e não um que promove a discórdia e polêmicas que gerarão bate-bocas e nenhum benefício. E peço a Deus de todo o meu coração que jamais seja preciso que seu pescoço esteja encostado na lâmina de uma espada para que isso aconteça.
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Amemo-nos. Unamo-nos. Deixemos de lado as rusgas sobre aspectos secundários da fé. Vamos dar as mãos naquilo que nos une, voltar os olhos para a cruz e começar, de fato, a amar o próximo. Sejamos, de fato, irmãos. Deus estende sua graça salvífica para um único tipo de pessoas: pecadores perdidos. Ou seja: antes de sermos salvos éramos todos iguais. Por que depois de sermos salvos temos de começar a nos segmentar, odiar, atacar? Pentecostais, tradicionais, cessacionistas, continuístas, pedobatistas, credobatistas, calvinistas, arminianos etc., etc., etc… nada disso importará no dia em que virmos Jesus face a face. O que Deus verá nesse dia é se temos o sangue do Cordeiro aspergido sobre nós. Somos todos cristãos, somos todos irmãos: que comecemos a agir como tal, para que cumpramos a oração de Jesus a nosso respeito. “Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um” (Jo 17.11).
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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volta 1Sim, cristão volta atrás. Eu diria mais: se não volta atrás, não é cristão, pois nossa fé pressupõe que vivamos constantemente examinando a nós mesmos, reconstruindo quem somos, refazendo nossas crenças, reavaliando nossas práticas, abandonando pecados, renovando nossa mente. Ser cristão pressupõe uma mutação constante e por uma razão básica: nossa meta enquanto estamos neste mundo é nos conformar à imagem de Cristo. Bem, eu ainda estou bem longe de ter uma imagem perfeita do puro e santo Cristo em mim, portanto preciso continuar me transformando e me deixando transformar pelo Espírito Santo, para que termine a carreira sabendo que o bom combate foi combatido da forma mais parecida possível com a que Jesus combateria. Ou seja: se o Mestre foi amoroso, devo viver estendendo graça; se o Cordeiro foi abnegado, preciso caminhar em humildade; se o Rei amou o próximo, devo ajudar meu semelhante; se o Todo-poderoso perdoou, quem sou eu para não fazer o mesmo? E por aí vai. Então, sim, preciso mudar a cada dia, numa tentativa de ser transformado ao máximo possível em quem Deus quer que eu seja.

Um dos lemas dos reformadores, aliás, é “Igreja reformada, sempre se reformando” (Ecclesia reformata, semper reformanda). Vemos, então, que tanto nos escritos paulinos (Rm 12.2) quanto nos pressupostos da Reforma Protestante, as mudanças de curso são uma constante. Com isso, jamais devemos ver o reexame de antigas crenças e práticas como um erro, mas sim como uma possibilidade desejável (desde que, claro, a mudança seja para melhor). A querida irmã Elis Amâncio postou há alguns dias no facebook uma frase atribuída a Juscelino Kubitschek em que ele diz: “Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro”. Gostei disso e essa afirmação casou com uma decisão que tive de tomar recentemente.

dubaNão é segredo para quem me acompanha pelo APENAS que sou um crítico do mau uso das redes sociais, já expressei isso claramente aqui no blog. E falo por experiência, pois eu mesmo já errei muito no uso dessas ferramentas, a ponto de prejudicar a mim e outras pessoas. Aprendi a lição. Pois bem: há algumas semanas fui convidado para pregar no congresso de uma igreja e o tema de minha ministração foi Os perigos da internet. No processo de preparação dessa mensagem, refleti muito sobre o assunto, conversei com muitas pessoas e preciso reconhecer que tive de reavaliar algumas posições quanto ao uso de ferramentas como o facebook, por exemplo, contra as quais estive refratário por muito tempo. Em alguns pontos, quero deixar claro que mantenho as mesmas ideias de antes: continuo não gostando de quando o contato virtual substitui o pessoal; sigo achando triste dar parabéns por, por exemplo, um aniversário “curtindo” um post em vez de telefonar para o aniversariante ou visitá-lo; preservo minha convicção de que a exposição da vida privada pela web é um enorme problema; continuo vendo muita gente se manifestando com agressividade e ódio pelo ambiente virtual (as reações às últimas eleições que o digam); e, acima de tudo, ainda considero que as redes sociais abrigam uma quantidade gigantesca de conteúdo irrelevante e, até mesmo, nocivo, que toma demais o tempo de quem não as usa com critério e não produz nenhum tipo de benefício. Em resumo: sim, ainda acredito que o mau uso da internet pode causar enormes problemas.

Perdao total_pilhaDito isso, preciso dar a mão à palmatória, pois, após muito refletir e me aconselhar, reconheço que há formas positivas de usar as redes sociais, desde que de forma refletida, cautelosa e comedida. Eu já vinha ponderando sobre isso há algum tempo e conversando com pessoas equilibradas que fazem um uso bastante saudável de suas mídias sociais. Comecei, então, a observar as redes sociais com um olhar mais atento. A gota d’água foi quando, no início de outubro, com o lançamento do meu livro “Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar“, conversando com profissionais da editora Mundo Cristão, fui convencido a criar uma página no facebook que permitisse transmitir informações sobre a obra e sobre minha atuação como escritor. Confesso que, ainda um pouco ressabiado, concordei e a criei, mas mediante a condição que me autoimpus de que fosse um espaço de fato em que eu pudesse edificar vidas e não apenas “fazer divulgação”. Planejei-me para usá-la de modo que eu ficasse o menor tempo possível logado e que seu uso não atrapalhasse meu trabalho e, principalmente, o tempo com minha esposa e minha filha – pois minha família foi a maior prejudicada pelo meu mau uso da internet no passado e não quero repetir o erro. E preciso reconhecer que tem dado frutos. A conclusão de tudo isso é que, se usamos as redes sociais com equilíbrio, planejamento e priorizando o que tem de ser priorizado (como o contato humano; o consumo do que é relevante; e a dedicação de tempo e atenção à família), ela pode ser algo que soma e não que subtrai.

Assim, há alguns dias pus no ar um perfil de facebook que tenho usado exclusivamente para falar como escritor e como cristão. Em outras palavras: eu voltei atrás, porém com uma enorme ressalva: desta vez consciente de que preciso usar essa rede social de modo extremamente diferente do que da primeira vez. Sem dúvida alguma o APENAS continua sendo meu espaço preferido, pois é aqui que desenvolvo pensamentos mais profundos e complexos, aos quais me dedico com mais reflexão – como prefiro. Lá o que tenho compartilhado são informações sobre o processo de escrever, projetos nos quais trabalho e, naturalmente, pensamentos e reflexões bíblicas. Será um espaço mais informativo do que reflexivo. Se você desejar, basta entrar em facebook.com/mauriciozagariescritor e “curtir” a página, para passar a acompanhar as postagens. Já está no ar.

volta 3Essa mudança me fez pensar muito sobre o processo de voltar atrás à luz da Bíblia. Minha conclusão é que, se precisamos retroceder, devemos usar a maturidade e a experiência que adquirimos para agir com mais equilíbrio e de modo mais aperfeiçoado – e, por que não dizer, mais santo. Não cometer os erros do passado. Não prejudicar ninguém. Buscar informações que nos ajudem a ser melhores naquilo. Enxerguei isso, por exemplo, na história de Moisés. Certamente, ele partiu do Egito sem a intenção de voltar, mas, quando Deus o mandou retornar para libertar seu povo, ele era um homem mais maduro, sofrido, amassado pela vida e pelos erros do passado. Foi preciso Moisés passar 40 anos cuidando de ovelhas para voltar atrás – dessa vez, como alguém diferente. Também penso em José, o filhinho de papai que dedurava os irmãos. Foi necessário que ele passasse pela escravidão e pela prisão para que estivesse habilitado a voltar atrás e, com isso, retomar o contato com seu povo e sua família e cumprir os propósitos de Deus. Também Pedro, que, após trair Jesus, achou que voltaria a ser um pescador mas teve de voltar atrás quando Jesus o chamou para apascentar as suas ovelhas.

São muitos os exemplos bíblicos de personagens que voltaram atrás. Em comum entre eles, o que vejo é que as pessoas tiveram de passar um tempo sofrido e reflexivo em atividades ou situações diferentes, amadurecendo, crescendo, se santificando, se arrependendo, se perdoando e passando por muitos outros processos para poder retornar ao que faziam antes. Comigo não foi diferente.

cruzE na sua vida? Você teve de passar por algum período de provações, foi removido de algo, deixou alguma atividade, precisou se reavaliar e se reexaminar para, depois reassumir? Está passando por isso agora? Tem decisões a tomar? Então fique atento aos sinais de Deus. Dedique-se à oração e ao estudo das Escrituras, para que o Senhor mostre a você se, no seu caso específico, será preciso voltar atrás ou prosseguir sem jamais retroceder. Esteja aberto à voz de Cristo, pois as ovelhas conhecem a voz do bom pastor – e a doce e suave voz do Cordeiro te guiará. E, sempre, que a glória da segunda casa seja maior do que a da primeira, para que, naquilo em que você precisa se reavaliar, o caminho te conduza mais para perto de Jesus, em santidade, propósito e missão. Se voltar atrás vai te afastar de Cristo ou dos planos dele para a sua vida, meu irmão, minha irmã, o melhor é continuar onde você está ou seguir um rumo diferente. Mas, se vai edificar a Igreja e abençoar o corpo de Cristo, faça o que Deus manda, saia da zona de conforto carregando consigo todo o amadurecimento na bagagem e volte ao início. E que o Senhor te abençoe.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

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perdao totalVocê, que acompanha o blog APENAS, deve ter percebido que tenho falado nos posts mais recentes sobre meu livro Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar, em função do seu lançamento, este mês. Se você lê o que escrevo já há algum tempo, espero que perceba que minha intenção ao divulgar uma obra de minha autoria não é mercadológica ou financeira, mas, sim, missional, pois eu acredito com convicção que a mensagem contida nesse livro pode abençoar muitas vidas – uma vez que entendo que compreender o que a Bíblia de fato explica sobre o processo pecado-perdão-restauração é uma necessidade urgente entre os cristãos. Muitos não perdoam quem os ofendeu, o que os faz carregar toneladas de ressentimento. Muitos não se perdoam por pecados que cometeram no passado, o que os faz carregar toneladas de culpa. E todos precisamos ser perdoados. Porém, encontro em todo lugar por onde passo centenas e centenas de pessoas que vivem soterradas por ressentimento, culpa e pecados não perdoados simplesmente por não compreender com exatidão como se processa essa dinâmica do perdão (e, consequentemente, da restauração de quem pecou). É justamente isso o que procurei explicar no livro, para que você, que se vê numa situação de falta de perdão, ou alguém que conhece e que precise ouvir essa mensagem sejam libertos desse fardo. Falta de perdão mata. Já o perdão liberta, transforma, dá paz, revoluciona vidas, reconcilia pessoas e nos aproxima de Deus.

O assunto do perdão e da falta de perdão é extremamente sério. Eu não conseguiria tratar tudo o que precisa ser dito sobre o assunto para trazer paz à sua vida em um ou dois posts, por isso optei por escrever um livro que, pela vontade de Deus, foi aprovado e está sendo lançado este mês pela editora Mundo Cristão. Eu o considero como mais um dos posts do APENAS, só que muito mais completo e profundo, uma análise bíblica detalhada, escrita numa linguagem muito fácil e compreensível a qualquer um.

Por isso, se você costuma ser abençoado pelo que escrevo no blog, recomendo a leitura do “Perdão Total”. Se você conhece alguém que precise perdoar ou se perdoar, dê de presente. A obra já está disponível em grandes livrarias seculares como a Saraiva, pela internet (NESTE LINK) ou em livrarias evangélicas de todo o Brasil. Para quem vive no exterior, ele está em formato e-book em diferentes livrarias virtuais, como Amazon, Google, Kobo, Livraria Cultura e outras.

Banner Leitor CristaoCaso você queira saber mais sobre o livro, compartilho AQUI uma entrevista que concedi para o site Leitor Cristão, onde entro em mais detalhes. Ou poderá assistir a uma entrevista que dei ao vivo à jornalista Leda Nagle no programa Sem Censura (TV Brasil), no dia 27/10, às 16h, para falar sobre o perdão bíblico e, naturalmente, sobre o livro. Aliás, aproveito para pedir as suas orações, pois tenho concedido entrevistas à mídia secular para falar sobre o livro e sobre o perdão bíblico (como as rádios Globo e Inconfidência), e preciso de muita sabedoria para falar sobre o tema a não cristãos. Necessito muito das suas orações.

Também deixo aqui um vídeo que a editora Mundo Cristão me pediu que gravasse para que eu explicasse em dois minutos do que trata o Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar e a quem ele se destina, caso queira assistir e compartilhar:

Peço a Deus que a leitura deste livro abençoe muito a sua vida e a das pessoas que você conhece e enfrentam problemas para perdoar. Ele foi feito para ser lido, promover reflexão e, até mesmo, conduzir debates sobre o tema em pequenos grupos e estudos bíblicos.

O perdão é um dos alicerces do evangelho. Sem perdão, não há cristianismo nem vida com Deus. Jesus veio à terra para perdoar. O perdão está estendido para você. Não perdoar traz graves consequências, enquanto perdoar traz grande liberdade, paz e intimidade com Deus. Perdoe. Perdoe-se. Peça perdão. Pois Deus jamais perdoa alguém pela metade, o perdão dele… é total.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

Perdao Total_News cortado

 

teologia1Tive uma conversa com um amigo que me incomodou profundamente. Já conto o que aconteceu, mas antes me permita dizer algo, por favor. Eu amo teologia. Poucas atividades me dão tanto prazer quanto sentar com amigos e discutir as coisas de Deus, falar sobre livros de bons autores cristãos, discorrer sobre aspectos variados da fé, remoer sobre filosofias, ideologias e sistemas de pensamento. Tanto que cursei com muito prazer dois seminários teológicos, dei aulas em uma instituição acadêmica cristã por nove anos e sinto enorme alegria em ler com constância obras teológicas. Penso que tentar viver uma vida de fé sem conhecimento teológico é como dirigir um carro sem ter estudado as leis do trânsito – um perigo. Portanto, quero deixar bem claro que considero o estudo da teologia enriquecedor, prazeroso e, por que não dizer, indispensável. Incentivo que todos estudem a boa teologia ortodoxa. Mas vou te confidenciar uma coisa: tenho andado um pouco cansado de certas discussões teológicas que não me parecem ter nenhuma aplicação prática na vida de fé das pessoas e aparentam ter como principal objetivo mostrar que as pessoas que se envolvem nos referidos debates sabem muito. Sem falar que muitos desses debates e exposições são feitos num tom tão arrogante de superioridade intelectual que não consigo enxergar neles, de jeito nenhum, um espírito cristão – pois Cristo não tem parte com quem usa de arrogância e/ou agressividade no falar, mesmo que seja para defender Jesus e a sã doutrina.

Jesus falou o tempo inteiro sobre teologia. O Sermão do Monte é um belíssimo tratado teológico. A leitura atenta das palavras de Cristo nos evangelhos mostra que ele abordou temas de diferentes áreas da teologia sistemática: eclesiologia, escatologia, cristologia, pneumatologia, soteriologia, hamartiologia… o Senhor foi, de fato, um grande Mestre, um pensador, um teólogo. Portanto, viva a teologia! Mas há uma particularidade que chama minha atenção: tudo o que ele disse tem uma função. Uma aplicação no dia a dia. E ele fugia constantemente do rebuscamento: Jesus simplificava sempre o seu discurso: explicava profundas realidades teológicas por meio de simples parábolas, usava aspectos do dia a dia do povo como metáfora de conceitos teológicos complexos, e agia de fato a partir do que falava.

teologia2Este, aliás, é um ponto nevrálgico das atitudes do grande teólogo Jesus de Nazaré: seus ensinamentos “em sala de aula” eram sempre seguidos de “aulas práticas”. Jesus punha a mão na massa: andava com as pessoas, sentia o cheiro do povo, comia com os pecadores, dialogava com mestres da lei e com prostitutas, botava cuspe nos olhos do cego… ele suava a camisa. Mais ainda: o Senhor vivia a teologia que ensinava e, com isso, demonstrava a todos ao seu redor que ela fazia sentido e existia por uma razão consequente. Não eram apenas belas palavras formuladas e debatidas por um cérebro privilegiado: eram vida.

É por ver esse exemplo magnífico de Jesus que me espanta a enorme frequência com que vejo irmãos entrarem em debates, discussões e assuntos que te levam a pensar: “Tá, mas… e daí?”. Muitas vezes são até temas bem saborosos, dos que fazem o cérebro trabalhar a mil por hora, mas que não têm nenhuma consequência para o mundo real. E, diante disso, confesso meu nefasto pecado: por vezes, chego a supor que o único interesse dessas pessoas é mostrar que sabem muito e, com isso, alimentar sua vaidade. É maldade minha, eu sei, não deveria pensar isso. Mas penso. Perdoe-me.

Já me perguntaram algumas vezes por que uso neste blog uma linguagem tão popular. Esta semana fui questionado por um amigo acadêmico, em uma conversa, acerca do que escrevi no último post que publiquei aqui no APENAS, O futebol e a religião. Como citei no texto alguns aspectos teológicos relacionados ao pensamento de Anselmo de Cantuária sobre fé e razão, esse amigo querido disse coisas como “Finalmente você falou sobre teologia em um texto seu”, “Já que você é formado em Teologia, por que você não entra em questões teológicas mais acadêmicas?” e “Você não deveria estar escrevendo coisas mais profundas?”. Bem… eu explico: é porque não consigo enxergar nada que seja mais profundo do que refletir sobre verdades bíblicas fundamentais numa linguagem e num formato que sejam compreendidos por todos e que conduzam à transformação de vidas e a uma aproximação de Cristo na prática diária. Não me contento com nada menos do que isso.

PlatãoNo meu pequeno círculo de amigos amantes de teologia deixamos a mente voar solta e as conversas trafegam em outros trilhos, vamos de Karl Barth aos irmãos Boff, passando por Platão e Schaeffer; debatemos de Tertuliano a McGrath, trafegando por Tozer e Dallas Willard. Mas em situações e ambientes públicos como a internet, em palestras, pregações, programas de rádio, livros voltados para o grande público e similares eu não consigo me ver me posicionando de forma que as pessoas não me compreendam. Todas. Minha vaidade teológica nessas horas precisa permanecer muito bem trancafiada e amordaçada, porque ela impediria que eu fosse um proclamador do evangelho e me restringiria ao triste e deplorável papel de um intelectual que quer mostrar que sabe muito e usa palavras difíceis.

Na conversa que tive esta semana, ouvi que eu deveria “entregar os pontos”, porque “é impossível discutir teologia de forma acessível a todos”. Bem, eu discordo. Claro que é possível. Não é exatamente o que fazemos aqui no APENAS? E, se você leu o livro A Verdadeira Vitória do Cristão, viu que procurei fazer uma abordagem de conteúdo extremamente teológico e histórico, mas com uma linguagem conscientemente escolhida para ser a mais coloquial possível – pois desejo que qualquer pessoa entenda o que quero dizer e, assim, que meus escritos tenham consequência real em sua vida. Não me interessa ser aplaudido por poucos intelectuais, entrar em um pequeno círculo de notáveis, participar de eventos e debates teológicos se nada disso gerar frutos concretos para o reino de Deus. Se os resultados forem concretos, podem me chamar e debateremos com alegria. Mas se for apenas para ficar discutindo o sexo dos anjos, prefiro usar esse tempo para chorar abraçado a um homem que perdeu um filho num acidente de moto ou para falar do amor de Cristo a uma mulher que pensa em cometer suicídio.

O que me parece é que muitos excelentes pensadores perdem grandes oportunidades de se fazer entender porque se recusam a abandonar o academicismo de seu discurso. São teólogos falando para teólogos e não para pessoas comuns. Fico pensando em como seria se Jesus tivesse optado por falar numa linguagem tão elitizada que só os mestres da lei o compreenderiam. Você acha que ele não era capaz disso? Claro que era. Mas Jesus sabia que seria ineficaz, e ele não estava ali para mostrar apenas o que sabia, estava ali para mostrar, acima de tudo, quem era e o que fazia – salvar, perdoar, amar, curar, restaurar e por aí vai.

william_holman_hunt-the_shadow_of_deathEm círculos restritos, como na sala de aula, em uma conferência teológica ou em um evento de uma universidade, é compreensível que se adote o “teologuês”. Faz sentido e é natural que nesses ambientes seja assim, não tenho absolutamente nada contra. Faz parte do contexto. Mas, em foro público, em ambientes abertos a quantidades maiores de pessoas… para quê? Que voltemos à simplicidade do evangelho. Às palavras compreensíveis. Amo a teologia, ela é indispensável. Mas se vier a tornar-se um fim em si mesma, passa a ser dispensável. Embora eu ame teologia, sei que jamais devemos amá-la mais do que amamos Cristo – pois, se assim fizermos, nos tornamos idólatras teológicos. E quem ama Cristo usa a teologia meramente como uma ferramenta a serviço do reino de Deus, o que pressupõe proclamar o reino de modo que o próximo compreenda. Palavras bonitas, ideias complexas e discursos rebuscados jamais levaram ninguém para perto de Deus: a simplicidade da cruz é que leva.

A proclamação do evangelho, para ocorrer como Jesus fez, deve vir montada num jumentinho. Mais ainda: deve ser feita na linguagem de um carpinteiro.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício