Arquivo da categoria ‘Fruto do Espírito’

azedo 1Você já passou por aquela situação em que decide comer um doce acompanhado de um suco e, depois de saborear aquela bomba de açúcar, virou o copo e descobriu que a bebida estava totalmente amarga? Bem, na verdade, o gosto dela estava exatamente igual ao de todas as outras vezes em que você a tomou; porém, desta vez, o fato de ter ingerido aquele montaréu de açúcar antes fez com que o doce do suco fosse anulado. De igual modo, se você põe a mão dentro de um balde de água gelada e depois a enfia em um balde de água quente, ou vice-versa, perceberá que a sensação térmica muda, dependendo da temperatura do meio em que ela estava antes. Ou, ainda, se você vem de uma rua calorenta e entra no ar-condicionado, o alívio é grande; mas, se você sai da neve e entra em um ambiente com ar-condicionado, vai morrer de calor. E se você passa de um lugar escuro para um bem claro, fica ofuscado e dificilmente consegue enxergar direito; mas se sai de um local claro para outro não percebe tanta diferença. Que conclusão tiramos dessas experiências? A condição em que nos encontrávamos antes de determinada situação influenciará de forma decisiva como a viveremos.

Essa também é uma realidade bíblica. O capítulo 7 de Lucas relata certa ocasião em que Jesus foi comer na casa de um fariseu chamado Simão e lá uma mulher que vivia de modo pecaminoso se aproximou, chorando, e passou a lavar e ungir os pés de Cristo com as próprias lágrimas e com unguento. O dono da casa começou a murmurar por esse fato e recebeu uma lição de Jesus, que finalizou dizendo: “Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama” (v. 47). Esse episódio mostra que as situações que vivemos antes sempre influenciarão espiritualmente o que viveremos depois. No caso daquela mulher, o perdão do ontem influenciou o amor do hoje.

Se tivermos uma compreensão clara sobre isso, conseguiremos extrair lições importantes para nossa caminhada cristã, que nortearão nosso pensamento e nossas atitudes de forma mais ajustada ao que o evangelho propõe. E isso, especialmente, no que se refere à forma como lidamos com pessoas que têm falhas e problemas. Vejamos alguns exemplos.

cruz no olho 1Com essa compreensão, seremos mais misericordiosos ao ver um novo convertido ter dificuldades para se consertar em certas realidades da vida de santidade, por compreender que ele acabou de sair de uma vida inteira de práticas pecaminosas. Ou olharemos com mais compaixão e paciência uma irmã que se fanatiza ao descobrir a sã doutrina, por entender que ela vem de uma longa passagem por igrejas cujas práticas são alheias ao cristianismo puro e simples. Ou, ainda, cuidaremos com muito mais amor e carinho de alguém que se encontra desviado da igreja por ter sido ferido por pastores ou membros e, por isso, ter traumas quanto ao meio eclesiástico. Também desenvolvemos muito mais paciência ao ver jovens cheios de testosterona entrarem em debates intermináveis nas redes sociais por questões secundárias da teologia, por compreender que foram adestrados a se comportar dessa forma devido a experiências anteriores. E por aí vai.

Enfim, o entendimento de que cada ser humano é, hoje, fruto de tudo o que viveu no passado nos conduz a um olhar muito mais misericordioso com relação a suas atitudes. Por isso, fica aqui a recomendação: nunca olhe para alguém somente por aquilo que ele é. Tente entender tudo o que ele viveu antes, para compreender como se tornou aquilo que é. Com essa percepção, você conseguirá ser mais paciente, misericordioso e amoroso com pessoas que apresentam falhas ou dificuldade de se ajustar a uma nova realidade.

E fica o desafio: o que você pode fazer por essas pessoas? Gente que se tornou mentirosa por ter crescido num ambiente em que a mentira era valorizada; gente arrogante, que foi mimada na infância e criada sem preparo para o mundo real; gente materialista, que conviveu a vida inteira com uma família que supervalorizava os bens materiais; gente fofoqueira, que transitou por ambientes em que a fofoca era uma arma de sobrevivência; e tantos outros tipos de gente com falhas. O que fazer por elas?

Primeiro, amá-las.

Segundo, não condená-las.

Terceiro, aproximar-se delas.

Quarto, admoestá-las, com compaixão.

Quinto, influenciá-las, pelo discipulado.

Sexto, ser um instrumento de Deus para transformá-las.

Ninguém nasceu como é hoje. Todos vivemos experiências variadas que nos moldaram ao longo de anos. Se você conhece pessoas que se tornaram problemáticas, quem sabe se tudo o que você viveu na sua vida até hoje não foi para moldá-lo a ser justamente o coração misericordioso de que elas precisam para mudar?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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servo 1Servo, por definição, é alguém que presta serviços a outra pessoa na função de um criado, um serviçal. Em outras palavras, é o indivíduo que está presente para prover a outro indivíduo aquilo de que ele precisa. Olhando por esse ângulo, todo pai é um servo de seus filhos. Em geral, desde que nascemos somos servidos por nossos pais, que dispuseram de tempo, dinheiro, energias, horas de sono e muitas outras coisas para estar à nossa disposição, ao nosso serviço. O pai de uma criança tem de ser servo 24 horas por dia e estar sempre alerta às necessidades de sua prole, preparado para fazer das tripas coração caso haja a necessidade de suprir o que o filhote precisa. Se você é pai ou mãe sabe do que estou falando.

Meus pais desempenharam o papel de meus servos tantas vezes que não tenho nem como dimensionar. Eles me serviram ao trocar minhas fraldas, me dar de comer, acalmar o choro depois do dodói, me levar e pegar na escola… foram tantos serviços prestados que seria impossível listar tudo. Eu dependia deles para quase tudo, por isso, meus pais foram meus servos por muitos anos. E se submeteram a isso por puro amor.

servo 2Meu pai completou 83 anos semana passada. Aquele jogador de futebol atlético e vigoroso, professor de educação física, que gostava de andar a cavalo e escalar árvores altas para comer frutas no pé agora é um senhor idoso. Suas forças já não são as mesmas. A barriga proeminente dificulta alguns movimentos, os joelhos extremamente doloridos o desanimam na hora que o convidamos para fazer caminhadas. O homem que por toda a vida dirigiu incontáveis vezes até outro estado do país e voltou pela estrada para visitar parentes vendeu o carro e agora só anda de táxi, pois a visão limitada não permite mais que dirija. A verdade é que meu pai se depara hoje com muitas limitações impostas pelos cabelos brancos. No dia de seu aniversário, fui encontrá-lo em sua casa para jantarmos fora. Na hora em que ele foi se vestir para sair, vi uma situação inédita até então: ele não estava conseguindo calçar os sapatos. Vi que ele fazia um esforço grande para se abaixar e tentar alcançar os pés, mas é como se a idade tivesse removido toda a sua elasticidade. Na mesma hora, eu fiz algo inédito em 43 anos de convivência: carinhosamente segurei em seu braço, pedi que se sentasse na cama e disse, sorrindo:

– Deixa que eu faço isso pra você, papai.

Ajoelhei-me aos seus pés. Comecei, então, a calçar nele os sapatos, ajustando-os delicadamente para que não o machucassem. Ao final, amarrei os cadarços, com o cuidado de perguntar se não estavam apertados ou frouxos demais. Enfim nos levantamos e partimos para o jantar.

servo 3Esse momento aparentemente corriqueiro e sem grande importância foi um marco para mim, pois ali senti muitas emoções diferentes e tive algumas percepções importantes. Senti, naturalmente, tristeza por ver que o meu sempre bem disposto pai, aquele homem que cresci admirando por suas muitas proezas na área da educação física e do atletismo, agora não consegue mais calçar nem amarrar os sapatos sozinho. Mas, por outro lado, fui inundado por um profundo senso de gratidão a Deus por agora ser eu o servo em nossa relação. Foi uma grande alegria poder servi-lo, ajoelhando-me aos pés do homem que me deu a vida, me alimentou, limpou minhas sujeiras numa época em que não havia fraldas descartáveis, passou madrugadas acordado cuidando de minhas febres, trabalhou em três ou quatro empregos ao mesmo tempo para pagar minha escola e tantas outras ações que fazem um pai servir o filho. Ali, de joelhos aos pés do homem a quem não há dinheiro no mundo que pague os serviços que me prestou, pela primeira vez tive a clara percepção: a situação agora se inverteu e chegou a hora de eu servi-lo. E isso não me fez me sentir nem um pouco mal ou inferiorizado: pelo contrário, fui tomado por um profundo senso de gratidão e de privilégio por poder servir aquele homem.

Jesus foi nosso servo. Pode ser que eu dizer isso provoque em você certa desconfiança e até mesmo indignação. “Que história é essa de dizer que Deus foi nosso servo?! Que blasfêmia, ele é o soberano, o Todo-poderoso, o único digno de abrir os selos, a quem toda honra e glória!”. É verdade, ele é isso sim. Mas leia o que Paulo escreveu: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo…” (Fp 2.5-7). Sim, Jesus assumiu a forma de um serviçal. E para quê? O que faz um servo? Ele serve.

servo 4“O Filho do Homem […] não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.28). Sim, Jesus nos serviu, ao se entregar por nós na cruz. Ali, humilhado, agonizante e nu, ele nos deu de presente a vida eterna, nos alimentou com esperança, limpou a sujeira de um pecado que nenhuma fralda do mundo daria conta, sacrificou-se para que por suas pisaduras fôssemos sarados, pagou com cravos e uma coroa de espinhos a nossa entrada em novos céus e nova terra e fez muito mais do que um pai faria para servir seus filhos.

“[Jesus] levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, e este lhe disse: Senhor, tu me lavas os pés a mim? Respondeu-lhe Jesus: O que eu faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu não te lavar, não tens parte comigo. […] Depois de lhes ter lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes: Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13.4-8; 12-15).

servo 5Sim, Jesus foi nosso servo. Mas a sua servidão teve um propósito: mostrar que devemos servir as outras pessoas. Cristo foi Mestre e, como tal, nos ensinou que mais do que buscar pessoas que nos sirvam, a excelência se encontra em lavar os pés do próximo, o que significa contribuir de algum modo para o bem-estar, a edificação, a consolação e a transformação de todos os que se aproximarem de nós. Que nossa vida seja devotada a tornar melhor a vida dos outros. O que nos leva a uma reflexão: o que você tem feito em benefício do próximo? Você tem servido? Se não, o que pretende fazer a esse respeito?

Mas nossa servidão não para aí. Assim como meu pai me serviu primeiro e hoje chegou a vez de eu servi-lo, é com alegria, gratidão e profundo senso de devoção que me ajoelho aos pés do Senhor para ser seu servo em tudo o que eu puder. E servir o Deus que me serviu jamais será um ato de humilhação ou motivo de desconforto: eu me prostro diante daquele de quem não sou digno de desatar as correias da sandália, para, humildemente e diariamente lhe prestar culto, adorar e servir. Como disse o próprio Cristo: “Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará” (Jo 12.26).

Sirva Cristo de toda a sua alma, com seus dons e talentos, com lealdade inegociável, com suas palavras e ações, e com toda a força do seu ser. Sirva-o como gostaria de ser servido por um filho. E é promessa de Jesus: quando você fizer isso, o Pai o honrará.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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leoesPeço desculpas a você que acompanha o APENAS, pois escrevo sempre aqui no blog com a intenção de edificar, exortar ou consolar a sua vida, mas, hoje, gostaria de abordar um assunto que tem ferido a minha alma. Já explico, mas, para chegar ao ponto principal da minha reflexão, antes tenho de apresentar alguns argumentos. Se você tiver paciência de ler até o final, sigamos juntos. O fato é que, já há alguns anos, algo tem me incomodado muito. Mas muito. Muito. Demais. A desunião da Igreja de Jesus Cristo em nosso país alcançou patamares elevadíssimos. Para mim, preciso dizer, insuportáveis. Viramos uma família abençoada, porém, em enorme parte, problemática. Por mais que me doa muito dizer isso, nós, evangélicos, somos um povo desunido. O que ainda não é o pior: não satisfeitos em vivermos entre inimizades, porfias, […] discórdias, dissensões, facções” (Gl 5.20), tratamos os irmãos em Cristo de quem discordamos com um nível de agressividade, arrogância, desrespeito e falta de amor que considero espantoso para quem segue Jesus.

Essa constatação, atrelada à angústia que ela provoca, já me acompanha há um bom tempo. Quando abandonei as redes sociais, há uns dois anos, fiquei bem melhor, pois parei de ter acesso a muitos dos debates, videos, textos, vlogs e posts que promovem a segregação e o esquartejamento do Corpo de Cristo. Com o lançamento de meu livro Perdão Total, em outubro passado, retornei ao facebook por orientação da editora, como forma de manter o diálogo com leitores e irmãos a quem porventura eu pudesse vir a abençoar pelo que escrevo. Nesse sentido, foi ótimo, pois de fato foi possível interagir, conhecer novas pessoas, ter diálogos interessantes, divulgar a mensagem do perdão e da restauração. Mas isso teve um efeito colateral, um preço a pagar: voltei a ter acesso a posts, comentários, vídeos, vlogs e tudo o mais que, em nome “de Jesus”, da suposta “sã doutrina” e da “apologética”, promove dissensão, a compartimentalização e a ira entre as diferentes facções da Igreja. 
ovelha 1Assim, tenho visto calvinistas numa discussão eterna com arminianos, com troca de acusações, desrespeito e ofensas dos dois lados. Também cessacionistas em discussões antigas e insípidas com pentecostais. Ou, ainda, pedobatistas e credobatistas se pegando nos ringues virtuais. Adeptos da Missão Integral e adversários da Missão Integral quase comendo o fígado uns dos outros. Gente que não crê que Deus está no controle de tudo gritando e salivando contra quem crê que Deus está no controle de tudo e quem crê respondendo com igual ímpeto. Isso além de muitos outros grupos divergentes. Tudo “em defesa da sã doutrina”, claro.
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Sabe o que percebo que há em comum a todos esses grupos que polemizam na Internet e outros ambientes? São irmãos em Cristo tratando irmãos em Cristo com desrespeito, desamor, doses de agressividade, muita arrogância e outras posturas que são características do mundo, não de filhos de Deus – claro que, como acreditam estar fazendo isso em nome da sã doutrina, os que entram nesses debates creem que tudo podem, que o Senhor lhes dá carta branca para serem pessoas desagradáveis, já que acreditam verdadeiramente que o estão “defendendo”. Agem, talvez sem perceber, não segundo o  amor que o evangelho propõe, mas segundo a máxima do filósofo Maquiavel: “o fim justifica os meios”.
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Nas divergências, me assombro com a forma com que os “defensores da sã doutrina” atacam quem eles acreditam estar errados. Cheguei a ver irmãos em Cristo criticando irmãos em Cristo de quem discordam usando elogios como “paspalho”,  “idiota” e “palhaço”. Estou estarrecido com o que tenho visto e profundamente abatido por ver que meus irmãos acham que isso é justificável. Não é. É um absurdo bíblico. Só para lembrar: “Quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.22). Ou Jesus não quis dizer o que disse? Que outra interpretação haveria?
leos 2Repare que não estou falando de cristãos criticando hereges. Refiro-me a cristãos que discordam de cristãos. É briga familiar. Irmão contra irmão. Caim e Abel dos dias atuais. Se já me choco quando vejo a maneira horrível e mundana como muitos irmãos em Cristo tratam hereges e pessoas que discordam do evangelho, quanto mais quando observo as brigas entre os irmãos na fé. Muitos dos que põem o dedo na cara dos hereges falam deles com ira, chacotas, sarcasmo e ódio, muito ódio, em suas palavras e, naturalmente, no coração. “O que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem” (Mt 15.18). Sempre que vejo, leio ou ouço, por exemplo, cristãos falando de forma agressiva e cheia de ódio contra quem considera inimigo da fé, lembro-me do que Jesus nos ordenou: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?” (Mt 5.43-46). Se recebemos de Jesus o mandamento de amar os inimigos (e nunca vi tratar mal, xingar, ofender, desrespeitar ou agredir quem se ama), os inimigos da fé não se encaixariam na categoria “inimigos”? Ou inimigo não significa inimigo? Então não deveríamos tratá-los com amor? Jesus não quis dizer o que disse? Ou “não é bem assim”?
dallas willardMuitos cristãos acreditam que a defesa da fé (contra hereges ou contra cristãos dos quais se discorda) deve ser feita com agressividade, com testosterona, como cruzados numa batalha. Agem como zelotes, guerreiros da sua “sã doutrina”. Então, para os tais, vale tudo, inclusive tratar de quem discordam por nomes desrespeitosos e agredi-los da forma que der. Confesso que há alguns anos eu acreditava nisso também. E agi dessa forma, reconheço o meu pecado. Mas, então, fui percebendo o absurdo e o mundanismo presente nessa postura. Até que, há alguns meses, li a obra The allure of gentleness (“O fascínio da gentileza”, numa tradução livre), livro póstumo de Dallas Willard (foto), onde ele prova que a defesa da fé (com relação a hereges e também a cristãos de quem se discorda) para dar resultados tem de ser feita com educação, polidez, afeto e respeito. O que li foi a gota d’água para revolucionar de vez minha visão sobre o assunto. Hoje, meu estômago embrulha quando leio, vejo ou ouço qualquer cristão “defender a fé” com agressividade, altivez, ofensas, termos deselegantes, xingamentos e petulância – sempre “em nome de Jesus”, claro.
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Não é possível que as pessoas não percebam que algo feito em nome de Jesus mas que contraria o caráter de Jesus… tem qualquer origem, menos Jesus.
boko haram 1Venho observando e suportando tanta divergência feita sem amor por esses últimos quatro meses sem falar nada, mas, semana passada, aconteceu algo que me lançou em uma reflexão profunda e me conduziu a este desabafo. Por algumas razões, passei a buscar informações sobre a perseguição sangrenta e cruel que vem ocorrendo em nossos dias contra os cristãos em determinados países do mundo. Não sei se você sabe disso, mas nossos irmãos e nossas irmãs em Cristo estão sendo mortos como porcos em muitas nações dominadas pelo Isam. Hoje. No exato momento em que você está lendo este texto, confortável e despreocupadamente, milhares de irmãos na fé estão sendo estuprados, desapossados de seus bens, vendidos como escravos sexuais, espancados e assassinados. A forma preferida de matança de cristãos, por serem cristãos, é a decapitação.
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O grupo terrorista Estado Islâmico tem dizimado todo e qualquer cristão que encontra pelo caminho em países como Síria, Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Chipre e Turquia. E isso por enquanto, logo eles estarão em outros países. Talvez o Brasil. O Estado Islâmico obriga as pessoas que vivem nas regiões que controla a se converter ao islamismo, e aqueles que se recusam sofrem torturas, mutilações e estupros. E são executados.
boko haram 2Na Nigéria, o problema é semelhante. A organização Boko Haram (expressão que significa “a educação ocidental ou não islâmica é um pecado”) é um grupo  fundamentalista islâmico de métodos terroristas, que busca impor a lei muçulmana no norte do país. O Boko Haram opera com caminhões e carros blindados, cerca vilas cristãs e mata a população inteira, além de sequestrar e estuprar todas as meninas. Vídeos têm sido divulgados pela internet e mostram pastores e membros de igrejas sendo decapitados por espadas, simplesmente por ser cristãos e se recusar a negar sua fé. Volto a dizer: isso está ocorrendo agora, hoje, nesta época da história e debaixo do mesmo sol que eu e você. No exato mesmo segundo em que cristãos aqui no Brasil se ofendem e entram em discussões mal-educadas por questões secundárias da fé; em países como Nigéria, Síria e Jordânia pastores e membros estão sendo postos de joelhos e decapitados por espadas. As imagens são tão terríveis que foi difícil encontrar fotos para ilustrar este post que fossem publicáveis, a maioria é de embrulhar o estômago.
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E, finalmente, quero chegar ao ponto principal de tudo o que escrevi aqui. Eu li muitos textos e assisti a uma grande quantidade de vídeos sobre a perseguição e a devastação imposta a esses milhares de irmãos pelo Estado Islâmico e pelo Boko Haram. Sabe o que mais chamou minha atenção? Em nenhum deles, em nem um único sequer, vi qualquer designação desses mártires da fé que não fosse cristãos. Nenhuma manchete de jornal escreveu algo como “Reformados são assassinados” ou “Estupradas a meninas que se opõem à Missão Integral”. Tampouco “Milhares de pentecostais decapitados na Nigéria”, nem “Vilas de cessacionistas são invadidas por terroristas”. Ou “Batistas e presbiterianos são caçados por islâmicos, mas pentecostais e metodistas não”. Nada disso. O que leio é “Cristãos são mortos…”; “Cristãs são estupradas…”; “Cristãos foram decapitados…”. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos.
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Sabe a que conclusão cheguei? Quando vem a perseguição, todas as discussões sobre assuntos secundários deixam de importar. Os bate-bocas denominacionais desaparecem. As rusgas doutrinárias evaporam. Se a sua cidade for invadida por radicais islâmicos, você não vai dar a mínima para as questiúnculas periféricas que nos dividem e jogam irmão contra irmão. Assim como duvido que os cristãos de Iraque, Nigéria, Síria e outros países que sangram pela perseguição estejam dando a mínima para isso neste momento. Eles só sabem que são filhos de Deus e irmãos em Cristo. Porque, no instante em que o principal é posto no foco, as questões periféricas e menos importantes da fé desaparecem.
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O que sobra é o centro de tudo: a cruz. Nessas horas, nos lembramos dos temas fundamentais da fé, como amor a Deus e ao próximo, graça, perdão, restauração, evangelismo, negar-se a si mesmo, vida eterna, fruto do Espírito e tantos outros que permanecem esquecidos por muitos em tempos de paz.
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Eu tenho pavor que isso aconteça, mas a história das perseguições religiosas ao longo dos séculos mostra que a perseguição une, purifica e derruba as divisões da Igreja. Não que eu queira o Estado Islâmico ou o Boko Haram invadindo Copacabana, Deus nos livre! Jamais desejaria isso. Mas, no rumo em que estamos, seria uma das poucas coisas que poderiam remover os rótulos inúteis e unir, aqui no Brasil, as denominações, os adeptos das distintas linhas teólogicas e doutrinárias, os diferentes grupos soteriológicos, os que professam ideologias cristãs diferentes, os que divergem em assuntos periféricos e menos importantes da fé. As igrejas de países como Nigéria, Síria, Iraque e Jordânia que o digam.
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Não importa se você é batista, presbiteriano, pentecostal, anglicano,  metodista, cessacionista, emergente, pedobatista ou o que for. Se você foi alcançado pela graça divina, crê em Jesus como Senhor e Salvador pessoal e vive em piedade, passará a eternidade na presença de Deus, em novos céus e nova terra. E, sinceramente… você acha que qualquer uma dessas coisas importará lá? Então fica aqui a minha recomendação: importe-se aqui com o que importa na eternidade.
boko haram 5Desfrute da liberdade que você tem. Mas faça isso todos os dias como se vivesse num país em que te cortariam a cabeça só de saber que você é cristão. Porque, aí, todo rótulo deixará de importar e você poderá se orgulhar de ter como título simplesmente… cristão. Um cristão que ama e une e não um que promove a discórdia e polêmicas que gerarão bate-bocas e nenhum benefício. E peço a Deus de todo o meu coração que jamais seja preciso que seu pescoço esteja encostado na lâmina de uma espada para que isso aconteça.
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Amemo-nos. Unamo-nos. Deixemos de lado as rusgas sobre aspectos secundários da fé. Vamos dar as mãos naquilo que nos une, voltar os olhos para a cruz e começar, de fato, a amar o próximo. Sejamos, de fato, irmãos. Deus estende sua graça salvífica para um único tipo de pessoas: pecadores perdidos. Ou seja: antes de sermos salvos éramos todos iguais. Por que depois de sermos salvos temos de começar a nos segmentar, odiar, atacar? Pentecostais, tradicionais, cessacionistas, continuístas, pedobatistas, credobatistas, calvinistas, arminianos etc., etc., etc… nada disso importará no dia em que virmos Jesus face a face. O que Deus verá nesse dia é se temos o sangue do Cordeiro aspergido sobre nós. Somos todos cristãos, somos todos irmãos: que comecemos a agir como tal, para que cumpramos a oração de Jesus a nosso respeito. “Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um” (Jo 17.11).
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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imageNas últimas horas de vida antes da crucificação, Jesus sofreu todo tipo de dor: a dor do corpo, a da humilhação, a do abandono, a da traição, a da negação. Dor em cima de dor. Mas eu, pessoalmente, acredito que uma das dores que mais doeram nele foi a da ingratidão. Ele estava ali, entregando-se pela humanidade, oferecendo-se em sacrifício pelo pecado do mundo… mas aqueles por quem ele se deu não lhe agradeceram nem o reverenciaram; pelo contrário, viraram-lhe as costas, cuspiram em seu rosto, esbofetearam sua dignidade, zombaram de seu sofrimento, rasgaram sua carne, conduziram sua alma a uma tristeza mortal. Não demonstraram um pingo sequer de agradecimento. E essa, a dor da ingratidão, é uma das dores mais dolorosas que há.

Nas minhas ultimas férias fui com minha mulher e minha filha a Cabo Frio (RJ), onde gosto de ir à Praia das Dunas (foto). Como o nome diz, para se chegar à beira d’água é preciso subir e descer duas dunas. Normalmente, essa caminhada é extremamente prazerosa, com aquela areia fina acariciando os pés e algumas paradas durante o trajeto para – literalmente – deitar e rolar. Num dos dias, resolvemos ir a outra praia, a das Conchas, mas não foi uma escolha feliz: estava lotada, a areia era dura, o vento estava gélido. Decidimos almoçar por ali e retornar para passar a tarde na nossa preferida. E assim fizemos.

Cabo Frio 2015Chegamos tarde à Praia das Dunas, já cansados por toda a aventura da manhã. Tudo o que eu queria era relaxar e descansar nas minhas águas e areias prediletas. Brinquei bastante com o filhota, mergulhamos, pulamos ondas e nos cansamos ainda mais. Por volta de cinco horas estávamos todos exaustos, mas felizes. Foi quando minha filha de 4 anos se aninhou no meu colo e, em meio aos carinhos do papai, adormeceu. Não foi um soninho leve, não: ela dormiu profundamente. Fiquei aguardando por um bom tempo, para ver se a pequena acordava. Nada. O tempo passou, o sol começou a cair, a temperatura esfriou e vimos que era hora de retornar ao apartamento. Mas, aí, veio o dilema: acordar a filhinha ou não? Confesso que tentei, mas sem efeito: ela estava profundamente adormecida.

Foi quando tomei a decisão: pelo bem-estar dela, eu me sacrificaria e carregaria no colo aqueles 16 quilos de filha da beira da água até o nosso apartamento, localizado a um quarteirão da praia. Levantei-me com ela nos braços, enquanto minha esposa recolhia nossas coisas. Pendurei em um ombro a barraca, encaixei uma das cadeiras no braço e iniciei a caminhada.

Foi quando começou o sofrimento.

Se você acompanha o APENAS há algum tempo sabe que sofro de fibromialgia, uma doença que faz todos os músculos e tendões do corpo inflamarem e doerem o tempo inteiro. Isso me limita ou impede de fazer uma série de coisas, que me são extremamente dolorosas, como dirigir, digitar no computador, praticar exercícios e… carregar peso. Agora, imagine eu, com fibromialgia, tendo uma criança de 16 quilos nos braços, uma barraca de praia no ombro e uma cadeira pendurada no braço. Acredite: não é fácil. Dói – e dói muito. Mas, por amor a minha filhinha, eu me entreguei voluntariamente a esse sacrifício.

peso 1A coisa ficou pior. Se carregar esse peso todo já me é doloroso, imagine andando na areia fofa. Parece que o esforço necessário triplica. Depois de algum tempo, quintuplica. Comecei a arfar e bufar. O suor escorria. As pernas tremiam a cada passo. Cheguei ao sopé da primeira duna e comecei a escalada. Cada centímetro percorrido era um sacrifício. A sola dos pés doía e latejava. Os músculos queimavam. Tive de fazer diversas paradas. Parecia que estava carregando um elefante rumo ao cimo do Everest. Quando venci a primeira duna, as lágrimas escorriam pelo canto dos olhos. As pernas fibrilavam. A respiração faltava. As costas arqueavam. Enfim, já deu para ter uma ideia do que custou para mim carregar minha filha, a fim de deixá-la mais confortável. Por ela e por amor eu estava passando por maus bocados. Péssimos, na verdade.

Resumamos a história: lentamente transpus as duas dunas, passo ante passo, caminhei pela trilha que leva até a avenida de acesso e me arrastei pela calçada até a entrada do nosso prédio. Nessa última parte, adivinhe você, a pequena acordou. Sensibilizada pelo meu estado, assim que viu a filhota acordar, minha esposa perguntou:

– Filhinha, você não quer ir andando um pouquinho, para deixar o papai descansar?

Sonolenta, sua resposta foi agarrar-se ainda mais ao meu pescoço. Diante da negativa, continuei minha via-crúcis até a porta do prédio. Confesso que, ao chegar à portaria, em meio ao oceano de dores eu sentia uma gota de orgulho de meu feito. Por dentro imaginava minha filha dizendo algo como:

– Papai, você é meu herói! Muito obrigada por se sacrificar por mim! Obrigada por sentir tanta dor para que eu ficasse bem! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada!

Só que não foi assim. Quando subi os degraus de entrada, a cadeira de praia que eu carregava no braço esbarrou de leve num dos pés de minha filha. E o que saiu de seus lábios emburrados de sono foi:

– Ai, papai… Tá me machucando…

Parei. Tentei sorrir com as forças que me sobravam. E minha atitude foi uma só: dei um beijo em minha filhinha ingrata e dei a única resposta que poderia dar:

– Eu te amo, bebê…

cristoJesus sofreu pela humanidade. Muito. De forma dolorosa. Foi dilacerado física e emocionalmente. E experimentou em sua vida terrena a ingratidão de forma indizível. Mas a coisa não parou no dia de sua crucificação. Hoje, eu e você muitas vezes fazemos a mesma coisa. Jesus sofreu tudo o que sofreu por você, meu irmão, minha irmã. Ele carregou o peso do nosso pecado, caminhou nas areias da traição, escalou a duna da humilhação, sofreu a dor da cruz, transpirou a angústia da nossa maldade. E, ainda assim, muitas e muitas vezes, em vez de sermos eternamente gratos, de suportarmos as cadeiras da vida que cutucam nosso pé tendo em nós o entendimento do preço enorme que Jesus pagou pelo nosso bem-estar eterno, murmuramos e reclamamos com uma atitude de extrema ingratidão:

– Ai, papai… Tá me machucando…

Fico imaginando Jesus ouvindo isso e pensando, com infinito amor no coração, sabendo de tudo o que passou e do tão pouco que representa o nosso pequeno sofrimento em comparação ao dele:

– Eu te amo, bebê…

“Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” (2Co 4.17-18).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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compartilhar 1Desde que retornei ao facebook, tenho visto com frequência aquele tipo de postagem em que o autor escreve coisas como “Se você gostou, compartilhe”, “#Compartilhe”, “Se achou o animal escondido na foto, compartilhe”. Confesso que me soa bastante estranho isso, pois entendo que o gesto de se compartilhar algo que você considera abençoador ou edificante deve ser espontâneo, uma atitude voluntária de alguém que julga que vale a pena compartilhar determinada postagem do facebook. Compartilhar porque alguém mandou é mais ou menos como aqueles momentos constrangedores na igreja, em que quem está conduzindo o culto nos diz para virar para o lado e dizer a pessoas que não conhecemos frases como “eu te amo” ou algo do gênero. Confesso que o faço com certo embaraço, pois penso que demonstrações de amor e similares não têm valor algum se não forem espontâneas. Por isso, é incômodo quando alguém de certo modo “manda” que compartilhemos algo nas redes sociais. Pensar sobre isso me fez refletir sobre o ato de compartilhar como um todo, em diferentes âmbitos da vida.

Compartilhar faz parte da caminhada cristã. A expressão máxima da importância desse gesto encontramos na celebração da Ceia, quando compartilhamos o pão e o vinho. Muitos acham que a Ceia resume-se à ingestão desses elementos, mas não é verdade: a beleza do memorial do sacrifício de Cristo está no fato de que o fazemos em comunidade, no meio do grupo, o que demonstra um sentimento de coletividade, de corpo. Membros de um corpo precisam estar conectados, senão o que temos é uma aberração, um corpo desmembrado. Assim, a Ceia é muito mais do que ingerir pão e vinho: é fazê-lo de modo compartilhado.

compartilhar 2O evangelho nos manda compartilhar o tempo todo, mas sempre de modo voluntário. Jesus elogiou a senhora que compartilhou suas poucas moedinhas com o templo. A descrição da Igreja primitiva mostra como seus membros compartilhavam de coração tudo o que tinham: “Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham” (At 4.32). Quando Ananias e Safira mentem ao Espírito Santo no compartilhar daquilo que venderam, seu senso de “obrigação” é considerado pecado e acaba provocando a morte de ambos. Ao escrever aos cristãos de Roma, Paulo revela uma disposição voluntária de espírito ao dizer: “Anseio vê-los, a fim de compartilhar com vocês algum dom espiritual, para fortalecê-los” (Rm 1.11). Já aos crentes de Corinto, o apóstolo mostra-se esperançoso de que eles compartilhem de seu sentimento (repare que ele não impõe, mas anseia, o que demonstra que ele espera uma atitude espontânea): “Estava confiante em que todos vocês compartilhariam da minha alegria” (2Co 2.3). Mais do que tudo, compartilhar é um gesto de generosidade e, por definição, generosidade é algo que ocorre sem obrigações: “Por meio dessa prova de serviço ministerial, outros louvarão a Deus pela obediência que acompanha a confissão que vocês fazem do evangelho de Cristo e pela generosidade de vocês em compartilhar seus bens com eles e com todos os outros” (2Co 9.13).

Devemos compartilhar. O quê? Tudo o que for possível. Compartilhar nossos bens com os que têm menos, compartilhar nossas alegrias com quem conosco se alegra, compartilhar nossas tristezas em busca de consolo, compartilhar o evangelho por amor aos perdidos, compartilhar nosso tempo com quem precisa de nós, compartilhar nossos momentos com o Deus que gosta de conversar conosco, compartilhar esperança com os abatidos, compartilhar a paz que temos com os atribulados. Cristo compartilhou a vida eterna conosco, é importante lembrarmos. Mas tudo isso deve ter como única motivação um coração generoso e uma disposição voluntária. Eu ousaria parafrasear a famosa passagem de João 3.16-17 e apresentá-la de uma outra perspectiva, dizendo que Deus tanto amou o mundo que compartilhou com esse mesmo mundo seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus compartilhou seu Filho com o mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.

Perceba o que motiva Deus a compartilhar conosco o seu Filho: “tanto amou o mundo”. Amor. E amor não se impõe.

compartilhar 3Acho muito estranho mandar que alguém compartilhe algo, simplesmente porque, em essência, compartilhar implica em iniciativa própria. Por isso, por exemplo, nunca pedi a ninguém que compartilhasse no facebook o que posto. Tudo bem que criei minha página nessa rede social somente há poucas semanas, então deixe-me pegar este blog como exemplo. Desde que criei o APENAS, em maio de 2011, nunca pedi a nenhum leitor que compartilhasse com ninguém os textos que aqui escrevo. Embora haja ao final de cada post um botão de “compartilhar no Facebook” a postagem (inserido automaticamente pelo WordPress, não por mim), jamais solicitei a ninguém que o fizesse, tampouco pedi a nenhum assinante que enviasse por e-mail para os seus amigos os posts que recebem. Também nunca pedi a quem quer que fosse que se tornasse assinante do blog.

E há em meu coração uma razão clara para isso: desde o nascimento do APENAS, oro constantemente a Deus para que as reflexões que aqui compartilho por amor só sejam compartilhadas pelos leitores com seus amigos se for igualmente por amor a eles, mediante o toque do Espírito Santo. Jamais quero que seja algo imposto,  forçado ou solicitado. Se não fosse assim, minha escrita não seria feita por amor a você, que me lê; e o seu compartilhamento do que escrevo não seria feito por amor às pessoas que você deseja que leiam os textos. Abençoar não pode nunca ser uma decisão imposta. Abençoar é um gesto voluntário de amor. Por isso, se posso pedir algo é: por favor, jamais compartilhe qualquer post do APENAS pelo facebook, por e-mail ou pelo meio que for se você não tiver como motivação amor e desejo voluntário e sincero de abençoar.

cor 8Do mesmo modo, recomendo que você jamais compartilhe absolutamente nada por obrigação. Compartilhe sempre com um coração generoso – sejam sentimentos, sejam bens, sejam palavras, seja tempo, seja sua companhia, seja o que for. Pois esse é um princípio bíblico: “Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria” (2Co 9.7). Devemos compartilhar alegres; jamais contrariados. E, nesse sentido, precisamos estar constantemente em sintonia com o Senhor, por meio de oração e do estudo das Escrituras. Pois, assim, teremos intimidade com ele e, naturalmente, a generosidade que Deus carrega em si se manifestará em nós e por meio de nós.

Compartilhe essa ideia. Se quiser, é claro, e não porque eu te disse para fazer isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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cor 1Nós podemos tocar profundamente o coração de Deus. Cada vez mais, minhas experiências de vida, associadas ao que vejo nas Escrituras, têm me mostrado com mais e mais clareza a essência do nosso Pai – o modo como ele pensa, age, sente e se move. Como já compartilhei em diversos posts aqui do APENAS (como ESTE), as circunstâncias que mais têm me ajudado a enxergar em profundidade e intimidade o ser divino, nos últimos anos, são as ligadas à paternidade. É impressionante como ser pai nos faz entender melhor o Pai. Recentemente vivi com minha filha de 3 anos mais uma situação que me fez experimentar um lampejo daquilo que Deus vive conosco, seus filhos. Permita-me compartilhar, na esperança de que este relato de algum modo edifique você.

Nas últimas duas semanas, eu e minha esposa tivemos de enfrentar um mal até então desconhecido para nós: nossa filha pegou pneumonia. Assim que soube do diagnóstico, fiquei bem preocupado, pois, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa é a doença que mais mata crianças menores de 5 anos em todo o mundo, e chega a ser responsável por 18% do total de mortes nessa faixa etária. Imediatamente pedi orações a minha rede de intercessores e a levamos ao hospital. Radiografia feita, exames concluídos, iniciamos rigorosamente o tratamento, que inclui antibióticos bem fortes. De início não houve muito efeito e minha filha chegou a ter uma infecção no ouvido direito, que a fez sentir muita dor. Após nova ida aos médicos, a dose do antibiótico teve de ser aumentada e recebemos a recomendação: pôr uma compressa quente algumas vezes por dia, durante vinte minutos, sobre o ouvido afetado. Assim começamos a fazer e, felizmente, a pequenininha começou a melhorar.

Na quinta-feira passada, ela foi liberada para voltar à escola, ainda sob certos cuidados: nada de tomar banho quente e ficar no vento, evitar tomar gelado, fugir do ar-condicionado, não fazer natação, esse tipo de coisa. E, claro, os antibióticos e a compressa se mantiveram no cardápio diário. Justamente nesse dia eu tinha de levá-la ao colégio. Dei o remédio sem problemas e chegou a hora de pôr a compressa aquecida sobre o ouvido. E aí começou o drama. Com sono e irritadiça, a pequena não queria de jeito nenhum deixar que eu pusesse a compressa. Com voz chorosa e birrenta, começou a dizer que estava quente demais, que não conseguia ouvir, que não queria e tudo aquilo que uma criança diz quando não quer algo. A hora passava, chegou o horário limite para sair de casa a tempo de levá-la, voltar e começar a trabalhar e eu ainda estava ali, tentando convencê-la na base do diálogo a pôr a bendita compressa. Mas nada adiantava: era manha, birra e desobediência; ela se revirava no sofá, deixava a compressa cair no chão, gemia com voz chorosa, resmungava… ufa! Se você é pai ou mãe sabe do que estou falando. Chegou um momento, então, em que, totalmente exausto, tive de dar um basta. Virei para minha filha e disse algo mais ou menos assim:

– Filha, isso é para o seu bem. Mas eu não vou ficar aqui discutindo com você, pois tenho responsabilidades e precisamos sair. Já passou da hora. Você não quer pôr a compressa, ok, não ponha, mas saiba que a sua decisão pode fazer você ficar com dor. Se é isso que você quer, vai ter de arcar com as consequências da sua escolha. Eu vou me arrumar para sairmos e estou muito triste com o que você fez. Amo você, mas a sua desobediência é errada e pode te prejudicar. A sua atitude me entristeceu muito.

Dito isso, saí da sala bastante irritado e fui para o quarto me vestir. Eu estava bem chateado, tanto pela desobediência dela quanto pelo fato de não ter conseguido tratá-la corretamente aquela manhã. Passados uns cinco minutos, eis que a pequenininha aparece à porta, se arrastando junto à parede (como costuma fazer quando percebe que pisou na bola) e, com voz bem baixinha e em tom normal, sem choro, sussurrou alguma coisa que não compreendi. Parei o que estava fazendo e, meio irritado, pedi que repetisse, pois eu não tinha conseguido ouvir. Ela chegou mais perto e disse:

– Papai… eu queria dizer uma coisa. Mas não briga comigo, tá?

Minha vontade, de tão irritado que eu estava, era falar algo do tipo “como é que eu não vou brigar com você, você desobedeceu, blablablabla…”. Naquela hora, eu só pensava em discipliná-la, pelo cansaço que me dera e pelas atitudes erradas que optou tomar. Meio sem paciência, respondi:

– Tá bem, o que é?

Foi quando ela disse as três palavras que tocaram profundamente o meu coração.

– Estou arrependida… Desculpe…

puss in bootsAssim, com essas exatas palavras. Consegue imaginar uma criancinha de três anos dizendo isso para você com aqueles olhinhos de gato de botas do Shrek e totalmente sincera naquilo que diz? Naquele momento, foi como se toda a irritação evaporasse por completo e eu fosse transportado a um patamar completamente diferente da realidade. Ainda estava triste porque não havia mais tempo para pôr a compressa e não queria que ela piorasse, mas a minha reação diante daquelas palavras não foi de brigar, reclamar, passar uma descompostura, nada disso: eu fui inundado de amor. Caminhei até minha filha, a peguei no colo e disse:

– Bebê, é claro que papai te desculpa. E tem mais: estou profundamente orgulhoso do que você acabou de me falar. Você fez a coisa certa. Quando a gente percebe que errou, o que tem de fazer é exatamente o que você fez: se arrepender e pedir perdão. Infelizmente, sua desobediência terá consequências, pois não temos mais como pôr a compressa e isso pode fazer você sentir dor. Mas parabéns por reconhecer que errou, pelo arrependimento e pelo pedido de desculpas, estou muito feliz que você tenha dito isso.

A enchi de beijos e abraços e confesso que fiquei tão feliz pela postura dela de reconhecer o erro, confessá-lo e pedir perdão que devo ter dito umas cinquenta vezes que estava muito orgulhoso dela daquele momento até chegarmos à escola.

cor 3O rei Davi errou no episódio de Urias e Bate-Seba. Mas, quando ele se deu conta do erro, a Bíblia relata que ele imediatamente se arrependeu e confessou o pecado: “Então Davi disse a Natã: ‘Pequei contra o Senhor!’” (2Sm 12.13). Repare a resposta que o profeta Natã lhe deu apenas um segundo depois: “E Natã respondeu: ‘O Senhor perdoou o seu pecado. Você não morrerá'”. Fico imaginando Deus olhando aquela situação. O coração do Senhor deve ter sangrado ao ver as ações de Davi durante o processo do adultério e do complô para assassinar Urias. Deus amava aquele homem, mas as atitudes dele despedaçaram o coração do Pai. Ele esperava que Davi fosse obediente e amoroso, mas seu filho foi desobediente, birrento e fez coisas que prejudicaram não só os demais envolvidos, mas, acima de tudo, a si próprio. Creio que a experiência que tive com minha filha me fez compreender com mais clareza o que o Senhor sentiu diante das atitudes de Davi – que, imagino, é o que ele sente sempre que o desobedecemos. Mas também consigo me identificar com o que aquele Pai entristecido sentiu quando o filho se arrependeu e disse “Pequei contra o Senhor!”. Que linda confissão! Consigo ver o Pai pegando Davi nos braços, o enchendo de beijos e abraços e dizendo:

– Bebê, é claro que papai te desculpa. E tem mais: estou profundamente orgulhoso do que você acabou de me falar. Você fez a coisa certa. Quando a gente percebe que errou, o que tem de fazer é exatamente o que você fez: se arrepender e pedir perdão. Infelizmente, sua desobediência terá consequências, pois terei de trazer seu filho para junto de mim e isso pode fazer você sentir dor. Mas parabéns por reconhecer que errou, pelo arrependimento e pelo pedido de desculpas, estou muito feliz que você tenha dito isso.

cor 4Se você peca, meu irmão, minha irmã, o caminho é um só: Arrependimento (“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para que sejam apagados os vossos pecados” – At 3.19) seguido de Confissão, que significa assumir a culpa (“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” – 1Jo 1.9) e o estabelecimento de um Firme propósito de não mais pecar (“O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” – Pv 28.13).  Em outras palavras:

– Estou arrependido… Desculpe…

Se você fizer isso com a sinceridade de uma criança, pode ter certeza absoluta de que a reação do Pai, motivado por um profundo sentimento de amor em seu coração divino, será tomar você nos braços, enchê-lo de beijos e dizer:

-  Papai perdoou o seu pecado.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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