Arquivo da categoria ‘Amor ao próximo’

descanso 1Se você acompanha regularmente o APENAS, deve ter percebido que passei quatro semanas sem postar reflexões aqui no blog. Agradeço demais o carinho de todos os amigos que entraram em contato para saber se estava tudo bem comigo e questionaram o meu silêncio nesse período. Sim, está tudo ótimo, agradeço demais a gentileza da preocupação. Fato é que precisei tirar um mês sabático para me dedicar prioritariamente a outras coisas. Sem desmerecer de modo algum a importância que o blog tem na minha pequenina contribuição para o reino de Deus e a vida dos irmãos e irmãs que se sentem abençoados pelo que escrevo, existem momentos em que precisamos parar, respirar, mudar um pouco o foco. E, depois, voltar. Acredite: sem silêncio, não se valoriza o som. Sem pausas, não se compõe uma sinfonia. Sem descanso à noite, não se trabalha bem pela manhã. Se tem algo que Deus valoriza é o descanso. Mas… será que você descansa de forma bíblica? Mais ainda: será que existe uma forma bíblica de descansar? Eu acredito que sim.

Depois de três anos longe do Brasil, meu irmão de sangue, minha cunhada e meus dois sobrinhos, que moram na Espanha, vieram passar férias aqui. Quis Deus que, no mesmo período, eu assinasse contrato com a editora Mundo Cristão para escrever o que considero meu mais importante projeto literário até hoje, uma obra que será lançada no segundo semestre do ano que vem e que exige muito foco, oração, pesquisa, concentração, criatividade e tempo de escrita. Somando as duas coisas, percebi que eu não daria conta de dedicar-me simultaneamente à família, a esse projeto e ao APENAS com excelência. E, sem excelência, não gosto de fazer nada. Por isso, tirei alguns dias de férias para ficar junto das pessoas que amo e, também, para me dedicar com todo o empenho ao novo projeto literário. Preferi silenciar aqui no blog durante essas quatro semanas, pois, para escrever de qualquer maneira, sobre qualquer coisa, sem pensar e refletir apropriadamente… melhor não fazer. Agora, com metade dos textos do novo projeto literário já escritos, chegou a hora de voltar. Eis-me aqui.

descanso 2Deus nos ordenou guardar um dia na semana. Em linguagem figurada, até ele “descansou”. Quando lemos a lei mosaica, vemos que o Senhor deu diversas ordenanças acerca de períodos sabáticos. Sim, a pausa é algo que Deus valoriza e estimula. Trabalhe o ano inteiro sem tirar semanas de férias e você logo será um péssimo (e exausto) profissional. Sem recarregar as baterias, sua vida não anda. Sem parar para abastecer no meio da corrida, nenhum piloto de fórmula 1 ganha a disputa. Parar não é um luxo: é uma necessidade e um mandamento divino. Pare. Respire. Relaxe. Repense. Assim, você será muito melhor naquilo que se dedica a fazer.

Em meio ao turbilhão de seu ministério, Jesus tirou muitos momentos para ficar sozinho, orar, se conectar ao Pai. Jesus não só valoriza o descanso, ele próprio é o descanso: “Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28). Como Jesus poderia dar algo ruim a alguém? Como ele proporia ser fonte de águas amargas? Desejar repouso não é reprovável, é fundamental. É sobrevivência. É o impulso necessário para ir adiante. É a inspiração profunda que o atleta dá antes da largada. Não tenha vergonha de repousar. Repouse. Organize-se para repousar. Ponha o descanso na sua agenda. Deus quer isso.

descanso 3Claro que não se deve usar esse argumento para se entregar à preguiça. A preguiça é o extremo do descanso e, como todo radicalismo fanatizado, é prejudicial. “Aprenda com a formiga, preguiçoso!” (Pv 6.6), é o alerta bíblico. “O preguiçoso logo empobrece, mas os que trabalham com dedicação enriquecem” (Pv 10.4). O descanso deve ser na medida certa, assim como a refeição deve parar antes de se tornar gula. Quem come em excesso passa mal, vomita. A preguiça é o vômito de quem descansa, que vai muito além do que deveria. O repouso fortalece, a preguiça enfraquece; o repouso enrijece, a preguiça torna flácido; o repouso lança para o alto, a preguiça esmaga contra o chão. “O preguiçoso muito quer e nada alcança, mas os que trabalham com dedicação prosperam” (Pv 13.4). E ninguém é capaz de trabalhar com dedicação se não desfrutar do descanso que dá gás ao empenho. Você tem reservado momentos de sua vida para descansar? Se não tem, recomendo que o faça.

E, aqui, cabe uma pergunta: de que maneira você tem descansado? Como exatamente é seu descanso? Porque, creia, aquilo que você faz enquanto descansa é fundamental para que esse período seja útil de fato – e bíblico. Descansar enfiando a cara em joguinhos de smartphone pode ter seu valor, mas… só isso? Descansar navegando pelo facebook por horas seguidas talvez o irrite mais do que relaxe. Uma coisa é descansar lendo um bom livro, outra é descansar lendo a revista de fofocas sobre artistas da TV. Repousar pastando a mente, sem que ela seja direcionada para algo realmente válido e produtivo, torna o descanso um tiro no pé. É quando ele se torna ociosidade, inatividade. E isso é maligno.

Aceita uma sugestão? Use seu tempo de descanso para pôr em prática o grande mandamento.

descanso 4Ao ser indagado sobre qual é o mandamento mais importante da lei de Moisés, “Jesus respondeu: ‘Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de toda a sua mente’. Este é o primeiro e o maior mandamento. O segundo é igualmente importante: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Toda a lei e todas as exigências dos profetas se baseiam nesses dois mandamentos” (Mt 22.37-40). Sim, é possível descansar amando o Senhor. Como? Só ama quem se relaciona com a pessoa amada. E a forma de se relacionar com Deus é batendo papo com ele, criando intimidade, trocando ideias, desabafando. Em linguagem bíblica: orando. Não ponha sua mente no que não presta durante o descanso, aproveite para fortalecer – sem exigências, cobranças, mecanismos ou estresse – seus laços e vínculos com teu Pai. E, sim, é possível descansar amando o próximo. Como? Só ama quem se relaciona com a pessoa amada. E a forma de se relacionar com o próximo é batendo papo com ele, criando intimidade, trocando ideias, desabafando. Em linguagem bíblica: comungando.

É na oração e na comunhão que enxergo a forma mais bíblica, rica e produtiva de repouso.

Você precisa descansar. Mas precisa descansar bem. Da forma adequada. Minha recomendação é que tire períodos de repouso nos quais fique a sós com Deus e deite em verdes pastos, junto a águas tranquilas, com a cabeça no colo do Pai, trocando ideias em paz. E que encontre seus amigos e jogue conversa fora, conte piadas, toque violão, cante, divirta-se, desfrute de calor humano. E lembre-se que “o próximo” é também a sua família. Descanse passando períodos divertidos com seus filhos, namorando seu cônjuge, abraçando seus pais. Não consigo conceber forma mais bíblica de repousar, pois descansar sem se relacionar não se encaixa na fé cristã.

Se fizer isso, acredito que estará vivendo, hoje, um pouco do que viverá na eternidade, quando, enfim, estará face a face com o Senhor e com os irmãos em Cristo no estado perfeito, desfrutando do repouso eterno enquanto faz aquilo que Deus nos chamou a fazer ainda nesta terra: se relacionando, interagindo, dando e recebendo afeto e amor. Pois, se repouso sem amor é correr atrás do vento, descanso com amor é, literalmente, divino. Descanse amando. Garanto que você será muito mais feliz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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escandalo gospelNo meio cristão volta e meia somos surpreendidos por um escândalo. Como nossa fé prega a santidade e o apego inegociável aos valores éticos, ficamos profundamente chocados quando tomamos conhecimento de falhas morais ou atitudes reprováveis de algum irmão ou irmã – seja de nosso círculo próximo de relacionamentos, seja alguém com mais notoriedade. É compreensível. O pecado nos choca, confronta, entristece, abate, revolta. Nessas horas, nosso senso de justiça nos leva a querer sangue, exigir punição dos pecadores, hereges e canalhas. A minha pergunta é: como exatamente devemos proceder quando explode um escândalo no meio cristão?

Pastores que falharam em sua santidade, irmãos que pecaram na sexualidade, líderes que desonraram pai e mãe, cristãos famosos que disseram ou fizeram algo estranho em público, bons pregadores que passaram a pregar heresias… a lista das causas de um escândalo entre nós é interminável. No centro de todas, uma única causa: pecado. Deus é santo e não tem parte com o pecado, é certo. Mas Deus também é gracioso e sua misericórdia dura para sempre. Diante dessa realidade, eis minha sugestão sobre como devemos nos posicionar diante de um escândalo:

1. Não tenha prazer no escândalo. Quedas morais, pecados e heresias são tragédias. São desastres. Não são motivo de piada. Devemos tratá-los como o horror que representam: com lamento, choro e profunda tristeza. O pecado jamais deve se tornar motivo para tricotadas, fofocadas, “você soube da última?” ou disse-me-disse. Não faça piada com o horror. Não se deleite na tragédia. Isso é papel do Diabo.

2. Fale com Deus. Converse sobre o escândalo com as demais pessoas apenas o estritamente necessário. A pessoa com quem você deve conversar intensamente e longamente sobre o escândalo é o Senhor. O nome disso é oração. Portanto, ore a Deus, peça misericórdia sobre a vida dos envolvidos, clame por arrependimento e restauração. Ficar de tititi com as pessoas, pessoalmente ou nas redes sociais, não adianta absolutamente nada; orar adianta tudo.

3. Não conclua antes de saber de todos os fatos. Cansei de ver escândalos em que as pessoas criam mil conjecturas acerca do que houve sem saber direito as informações. “Ouviram falar” e, por causa disso, tomam comentários colhidos ao vento como verdades absolutas. Para emitir uma opinião, assumir uma postura, tomar lados, se posicionar, antes é preciso ter total conhecimento da situação. Nesse sentido, uma das virtudes do fruto do Espírito é essencial: a paciência. Espere. Não corra para emitir uma opinião. Deixe a verdade ser exposta totalmente e, só então, se posicione.

4. Olhe para os culpados com firmeza, mas com misericórdia. A ética de Cristo não é a da punição, é a da restauração. Como filhos de Deus, o desejo do nosso coração deve ser sempre ver os que erraram arrependidos e restaurados espiritualmente. Não queira mandar os hereges e os pecadores para o inferno, queria vê-los de lágrimas no pó e coração sinceramente compungido. Como embaixadores do reino daquele que veio para os doentes, devemos ser médicos da graça e não carrascos da desgraça. Uma vez que se comprove a culpa, seja movido por compaixão pela vida dos culpados, para que sejam resgatados do poço de trevas em que se enfiaram e que, se tiverem de arcar com as consequências humanas de seu pecado, que pelo menos sua alma seja salva.

5. Entenda que a disciplina dos culpados é necessária. Determinados tipos de escândalos vão gerar consequências no plano humano. Um pastor que adultera precisa ser afastado do cargo até que sua vida esteja restaurada. Um pregador que diz uma heresia precisa se retratar em público. Um líder que desonra pai e mãe tem de ser tratado fora dos púlpitos e cargos antes de continuar liderando. Uma pessoa qualquer que comete um crime deve ser punida de acordo com o que prevê o código penal, mesmo que esteja arrependida e tenha sido perdoada por Deus: há consequências no plano humano para nossos atos, e devemos enfrentá-las.

6. Olhe para as vítimas com compaixão. Esposas traídas, pessoas enganadas, ovelhas feridas… muitas pessoas ficam machucadas quando explode um escândalo. As vítimas devem ser abraçadas, devemos chorar com elas, conduzi-las a perdoar quem as machucou, amparar seu coração em frangalhos. Nunca se aproxime dos feridos para obter mais detalhes sobre o escândalo ou algo assim. O nosso papel é amar, sofrer com quem sofre e auxiliar na sua restauração física, emocional e espiritual.

7. Lembre-se dos seus próprios pecados. Jesus presenciou um escândalo. Mais do que isso: ele foi instigado a emitir um parecer sobre o escândalo. Afinal, uma mulher fora flagrada em adultério. Adúltera! Pecadora! Escandalosa! Opróbrio! Digna de apedrejamento aos olhos da Lei! Mas a resposta de Jesus aos que queriam apedrejá-la foi que cada um olhasse para si. Afinal, em maior ou menor intensidade, todos temos telhado de vidro. E isso ele nos diz, hoje: olhe para si. Quando ocorre um escândalo, devemos agir com humildade, sem nos considerarmos megassantos, pessoas acima do bem e do mal. Mais do que jogar pedras, precisamos usar o escândalo alheio para ver como nós mesmos somos frágeis e passíveis de errar. Se há algo de positivo no escândalo é o alerta que ele lança sobre nós, para que, estando de pé, não caiamos. Vigie sempre.

8. Seja parte da solução e não do problema. Que tudo o que você pensar, falar ou fizer em relação ao escândalo seja para edificação das pessoas e para a glória de Deus. Fora disso, o melhor é não fazer nada, manter-se calado e ficar quieto.

Meu irmão, minha irmã, infelizmente sempre haverá escândalos entre nós, pois vivemos debaixo do pecado. Devemos saber como falar e agir no momento que isso acontecer, sempre com amor, graça e palavras temperadas, chorando com quem chora e pacificando. Nosso papel não é chutar quem está caído. Muito menos execrar vítimas. Exerça misericórdia. Busque a justiça, sim, mas que seja em amor e não com ira, vingança, ódio, destempero. Fale e faça aos outros como gostaria que falassem e fizessem a você se a queda fosse sua. E, acima de tudo, ore a Deus. Pois ele é quem tudo sabe, quem exerce a perfeita justiça e quem governa a nossa vida como Justo juiz e Príncipe da paz. Como ordena a Palavra do Senhor: “Amados, nunca se vinguem; deixem que a ira de Deus se encarregue disso, pois assim dizem as Escrituras: ‘A vingança cabe a mim, eu lhes darei o troco, diz o Senhor’. Pelo contrário: ‘Se seu inimigo estiver com fome, dê-lhe de comer; se estiver com sede, dê-lhe de beber. Ao fazer isso, amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele’. Não deixem que o mal os vença, mas vençam o mal praticando o bem” (Rm 12.19-21).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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misericordiaSinto muita dor nas costas. Sofro de fibromialgia há vinte anos e já se tornou previsível que, a cada manhã, quando eu abrir os olhos, terá início um ritual doloroso. Depois de algumas horas parados, meus músculos estarão completamente rígidos e extremamente doloridos, o que fará com que cada pequeno movimento do corpo seja uma ação difícil, lenta e doída. Começo a me mexer aos poucos e tento me revirar para os lados até me sentar na cama. Curvado. Em câmera lenta. Eu me levanto e faço alguns alongamentos, como a tentativa utópica de tocar com as mãos a ponta dos pés. Giro o tronco para os lados, me estico para onde der e me arrasto até o banheiro, para as abluções matinais. Depois de um tempo me movimentando, a rigidez e a dor diminuirão e poderei me dedicar às atividades do dia. Ao final da jornada diária, me deitarei na cama, já sabendo que no dia seguinte tudo será igual. É previsível. Tem sido assim há vinte anos. É garantido que as minhas dores virão no dia seguinte, pois elas não têm fim;
renovam-se cada manhã. 

Certas realidades da vida são absolutamente previsíveis. Realidades que não têm fim; renovam-se cada manhã. São aquelas coisas que, como a minha dor nas costas, inevitavelmente acontecerão. É como o sol nascer: você sabe que será exatamente daquele mesmíssimo jeito. São fatos e situações que não têm fim; renovam-se cada manhã. E isso, embora minha persistente fibromialgia possa fazer parecer que não, é, muitas vezes, algo alentador. Especialmente para as pessoas que carregam um peso enorme de culpa nas costas, para as que acreditam que não há perdão para erros que tenham cometido.  

Dor-nas-Costas 2Se você sente-se esmagado pelo peso dos seus erros, é importante que conheça uma realidade bíblica extraordinária em relação a isso: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã” (Lm 3.21-23). O que podia dar esperança ao salmista? A lembrança de que as misericórdias do fiel Senhor não têm fim e renovam-se a cada manhã. E essa mesma lembrança, se trazida à memória, é capaz de trazer a cada um de nós paz, alívio, esperança, alegria. Perceba o que a Bíblia está dizendo: que há misericórdia de Deus para você hoje, houve ontem, haverá amanhã. A manifestação da misericórdia de Deus não é um evento pontual, é uma constante. Não é um lago estático, é um rio contínuo. Flui sempre. Para sempre. Nunca terá  fim. É um recurso renovável. Renovável e não escasso: Muitas, SENHOR, são as tuas misericórdias” (Sl 119.156). 

Naturalmente, isso não pode ser confundido com permissividade. Não é pelo fato de Deus ter misericórdias renováveis e abundantes que podemos viver errando desbragadamente e sem arrependimento. Mas o cristão sincero, que amarga viver constantemente sua pecaminosidade, encontra alento num fato extraordinário: “Rejeita o Senhor para sempre? Acaso, não torna a ser propício? Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações? Esqueceu-se Deus de ser benigno? Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias?” (Sl 77.7-9). A resposta a cada uma dessas perguntas retóricas é um estrondoso não. E aqueles que têm intimidade com o Espírito Santo sabem que “Benigno e misericordioso é o SENHOR, tardio em irar-se e de grande clemência. O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Sl 145.8-9).

Dor-nas-Costas 3Se você pensa que Deus o rejeitou em razão de seus muitos pecados, lembre-se sempre de que “O Senhor não rejeitará para sempre; pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias; porque não aflige, nem entristece de bom grado os filhos dos homens” (Lm 3.31-33). Portanto, clame a ele do meio do seu pecado: “Responde-me, SENHOR, pois compassiva é a tua graça; volta-te para mim segundo a riqueza das tuas misericórdias” (Sl 69.16). E, ao orar, use de total sinceridade. Reconheça seus erros e confesse-os sem esconder nada: “Lembra-te, SENHOR, das tuas misericórdias e das tuas bondades, que são desde a eternidade. Não te lembres dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgressões. Lembra-te de mim, segundo a tua misericórdia, por causa da tua bondade, ó SENHOR. Bom e reto é o SENHOR, por isso, aponta o caminho aos pecadores” (Sl 25.6-8).

Quando o profeta Natã foi ter com Davi, depois de haver ele possuído Bate-Seba, o rei pecador clamou: “Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado” (Sl 51.1-2). Do mesmo modo, se formos flagrados por nossa consciência em quaisquer que sejam os pecados, devemos orar: “Não retenhas de mim, SENHOR, as tuas misericórdias; guardem-me sempre a tua graça e a tua verdade. Não têm conta os males que me cercam; as minhas iniquidades me alcançaram, tantas, que me impedem a vista; são mais numerosas que os cabelos de minha cabeça, e o coração me desfalece” (Sl 40.11-12).

O que Deus espera de você, em se constatando o pecado? Sinceridade no reconhecimento da transgressão, confissão e mudança de rumo. O arrependimento virá pelo convencimento do Espírito. Pecou? Então reconheça, assim como fez Jacó: “sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo” (Gn 32.9-10). Entenda que todos somos indignos das misericórdias de Deus. Nenhum de nós é merecedor delas. Mas misericórdia não depende de ser digno ou merecedor, depende de graça. Depende da fidelidade do Senhor e não da nossa infidelidade. 

Dor-nas-Costas 4Por isso, lembre-se de que você encontrará sempre um lar em Deus. Seus braços abertos são como as suas misericórdias: sempre estendidos a nós. E, ao encontrar abrigo nelas, você poderá exultar, assim como fez o salmista: “Cantarei para sempre as tuas misericórdias, ó SENHOR; os meus lábios proclamarão a todas as gerações a tua fidelidade” (Sl 89.1). Pode ser que um dia a medicina descubra a cura para a fibromialgia, o que fará com que minhas previsíveis dores nas costas matinais cessem totalmente. Já as misericórdias do Senhor… essas nunca terão fim. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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cuspe 1Quem acompanha o noticiário deve ter percebido que a saliva ganhou lugar de destaque nas manchetes brasileira nos últimos tempos. Primeiro, foi um deputado federal que cuspiu em outro. Depois, foi um ator que cuspiu em um casal em um restaurante. Na semana seguinte, um homem foi agredido e cuspido na Universidade Federal do Ceará porque estava usando a camisa de um político do qual um grupo de estudantes discordava. Mais recentemente, um deputado teve seu carro coberto de escarros de opositores ao sair de um evento em Niterói. Que coisa. É interessante percebermos o significado desse gesto, o de lançar a saliva sobre outra pessoa. Principalmente porque a Bíblia tem muito a dizer sobre ele. 

“Levantando-se o sumo sacerdote, perguntou a Jesus: Nada respondes ao que estes depõem contra ti? Jesus, porém, guardou silêncio. E o sumo sacerdote lhe disse: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu. Então, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou! Que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfêmia Que vos parece? Responderam eles: É réu de morte. Então, uns cuspiram-lhe no rosto e lhe davam murros, e outros o esbofeteavam, dizendo: Profetiza-nos, ó Cristo, quem é que te bateu!” (Mt 26. 62-68)

cuspe 3Sim, assim como aqueles deputados, o casal no restaurante e o estudante universitário, o próprio Cristo foi alvo de cusparadas. Já parou para pensar por quê? Naquele momento, Jesus era visto como blasfemador, uma das categorias mais desprezíveis de pessoas no judaísmo. Como “réu de morte”, era visto pelos que estavam ali como alguém cuja vida é descartável, isto é, não vale nada. Então, a saliva  vinha de pessoas aos olhos de quem aquele homem era desprezível e não valia nada. Esse é o significado de lançar saliva sobre alguém: é um gesto que diz: “Eu te desprezo, pois você é insignificante para mim. Você não vale nada”. 

Dentro dessa perspectiva, é doloroso olhar para as manchetes de jornal e ver que, nos três casos citados, o que os cuspidores demonstraram foi um total desprezo pelo próximo. “Eu te desprezo, pois você é insignificante para mim. Você não vale nada”, disseram com seu gesto o deputado, o ator, o estudante, os opositores políticos. O que mais me assusta é saber por que essas pessoas fizeram isso. Nos quatro casos, a  causa foi a mesma: a divergências de ideias. 

cuspe 4Repare que, nas quatro situações, os conflitos que levaram à aplicação de saliva foram motivados porque os cuspidores discordavam das ideias dos cuspidos. Então, naquele momento, pessoas foram menos importantes que ideias. Repito: pessoas foram menos importantes que ideias. E isso é totalmente anticristão. “Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 22.36-39).  O evangelho nos leva a amar o próximo como a nós mesmos e não a tratar alguém como um ser desprezível. Nem mesmo os inimigos, aliás. “Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai.” (Lc 6.35-36). Tratar o próximo com desamor por causa de ideias é possivelmente uma das atitudes menos cristãs que alguém pode ter, pois está invertendo as prioridades do Cristo que subiu à cruz não por ideias, mas por pessoas. 

Como bom cristão,  provavelmente você desaprova o que o deputado, o ator, o estudante e os opositores fizeram. Certo? Afinal, como bom cristão jamais você poria ideias acima de pessoas, não é? Mas… será que, em algum momento, você também não considerou pessoas menos importantes do que ideias? Será que você também já não tratou mal pessoas que discordavam de você politicamente? Será que você já não brigou ou alfinetou seres humanos porque eles votaram no partido politico no qual você não votou? Mais ainda: será que você já destratou gente cujas ideias teológicas ou doutrinárias divergiam das suas? Então, permita-me dizer: se em algum momento ideias foram mais importantes que pessoas para você, ao ponto de levá-lo a brigas, discussões, piadinhas, cutucadas, alfinetadas, indiretas e atritos… você cuspiu nelas.  Metaforicamente, claro, mas sua saliva está sobre aquelas pessoas. E isso é muito grave, pois mostra que suas prioridades estão diferentes das prioridades de Deus. 

Não aplique sua saliva sobre quem discorda de você. Ao fazer isso, não importa qual for o motivo, você estará pondo ideias acima de indivíduos e desobedecendo ao maior mandamento. Se me permite, eu gostaria de dar uma sugestão sobre o que você pode fazer com a sua saliva: 

“Então, lhe trouxeram um surdo e gago e lhe suplicaram que impusesse as mãos sobre ele. Jesus, tirando-o da multidão, à parte, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e lhe tocou a língua com saliva; depois, erguendo os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá!, que quer dizer: Abre-te! Abriram-se-lhe os ouvidos, e logo se lhe soltou o empecilho da língua, e falava desembaraçadamente” (Mc 7.32-35). 

“Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. […] cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego, dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo” (Jo 9.1, 6-7). 

cuspe 5Nessas duas ocasiões, Jesus usou sua saliva para simbolizar a cura. Havia algo especial na saliva dele? Seria a saliva de Cristo radioativa ou possuidora de efeitos medicinais, algo assim? Não, claro que não, a baba de Jesus era baba como qualquer baba. Mas vejo na aplicação de saliva no processo de cura um simbolismo grande. A saliva de Cristo era algo que vinha de seu interior, que partia de sua intimidade. Normalmente, só tem acesso à saliva de outra pessoa um cônjuge que a beija na boca, ou um pai que limpa a baba de seu filhinho – é um sinal de proximidade, de grande intimidade. E não há nada mais intimamente intrínseco ao Deus homem do que seu amor, sua misericórdia, sua graça. Então, o que enxergo nessas passagens é que, ao aplicar sua saliva sobre aqueles homens, Jesus lhes dizia: “Receba a cura mediante a aplicação de algo que é extremamente íntimo. Receba meu amor e meu cuidado, junto com minha intimidade”.

Assim, meu irmão, minha irmã, temos duas possibilidades diante de nós: agir como os judeus que aplicaram sua saliva no Cristo como sinal de desprezo ou agir como o Cristo que aplicou sua saliva nos enfermos como sinal de amor. Como você usará a sua “saliva”? Para dizer “Eu te desprezo, pois você é insignificante para mim. Você não vale nada” ou para dizer “Receba meu amor e meu cuidado”? E aí, o que você escolhe?

cuspe 6O que você tem dentro de si pode ser usado de maneiras diferentes. Assim como a mesma saliva pode ser sinal de desprezo ou de amor, seus pensamentos, suas palavras, suas atitudes e suas motivações podem ser canalizadas para questões completamente diferentes, positivas ou negativas. Diante de alguém cujas ideias discordam das suas, seus pensamentos são de concórdia ou de discórdia? Suas palavras edificam ou desmerecem? Suas atitudes abençoam ou abatem? Suas conversas são para orientar ou para detonar?

Você tem sempre diante de si dois caminhos. Deus nos mostrou isso: “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais” (Jr 29.11). Paz ou mal. Amor ou egoísmo. Bênção ou maldição. Construção ou destruição. Perdão ou punição. O que será? A decisão é sua. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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sofrimento 1Não deveria ser assim. Mas a realidade é que existem milhares de cristãos que se sentem sozinhos, sofrem calados, vivem achatados pelo peso da angústia sem ter quem os ajude a solucionar seus dramas, sem ter nem ao menos com quem desabafar sobre seus sofrimentos e dores. Fico muito triste ao ver a enorme quantidade de irmãos e irmãs em Cristo que me procuram pelo APENAS, pelas redes sociais ou nos eventos em que prego e palestro em busca de orientações para suas angústias silenciosas e solitárias. Na maioria das vezes, o que detecto é que muitos só queriam mesmo era pôr para fora. Desabafar. Não têm com quem chorar, esmagados por suas dores e duplamente esmagados por não ter com quem falar sobre elas. Sofrem calados, devorados por dentro. O único ombro amigo que têm é o de Jesus, pois os servos de Jesus não estão dando conta do recado. 

Não são poucos, acredite. Tenho visto uma enorme quantidade de irmãos e irmãs que ostentam sorrisos de aparência e se mantêm heroicamente calados na frente das demais pessoas, mas que, na verdade, tudo o que queriam era gritar, chorar e pedir pelo amor de Deus que alguém os ajude, aconselhe ou, pelo menos, os escute e chore com eles. Mas… ninguém parece se importar de fato. Esses sofredores respondem a cada “Tudo bem?” com um sofrido “Tudo bem, graças a Deus”, por perceber que a pergunta foi, na verdade, uma saudação educada e não uma indagação sincera sobre o estado de sua alma. E, assim, seguem sofrendo, calados, angustiados e solitários, na esperança de um milagre que parece nunca chegar. 

sofrimento 2Maridos desonrados e desrespeitados, irmãs abusadas e carentes, adolescentes rejeitados, cônjuges infelizes, cristãos  deprimidos… os sofredores solitários não encontram limites de sexo, idade, ministério ou o que for. Alguns não encontram com quem se abrir porque todos esperam que eles sejam super-heróis espirituais, imunes a problemas. Outros, porque ninguém demonstra um interesse real por sua vida. Há, ainda, os que até buscam com quem conversar, mas tudo o que encontram é um anticristão “vamos orar” que não ajuda em nada. Pessoas feridas, aprisionadas pela agonia de sua solidão, escravas do desinteresse alheio. “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12.5) são, para elas, apenas palavras vazias, pois não encontram aplicação prática na sua vida. Afinal, ninguém dá um passo à frente para chorar com elas. 

De quem é a culpa por esse problema epidêmico dentro das igrejas? Minha e sua.

sofrimento 3Eu e você somos os culpados pela dor dessas pessoas. O marido que é obrigado a conviver com uma esposa arrogante, agressiva, briguenta e desrespeitosa, por exemplo, não tem muito o que fazer, pois nenhuma esposa sem sabedoria muda por pressão do marido. Mas a Igreja de Cristo poderia agir na vida dele, dando amparo, amor, conselhos, ombro e a consequente orientação para essa esposa rixosa, a fim de que ela enxergue seus erros e mude de fato. Porém, como existe a filosofia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, ninguém quer se envolver, intervir, aconselhar, orientar. Nós optamos por permanecer omissos. Muitas vezes, tudo de que aquela esposa briguenta e mandona precisava era de alguém de fora que lhe dissesse que, sim, ela está errada, e apontasse caminhos, como a Bíblia orienta: “Exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3.13). O mesmo vale para maridos que não lutam pelo bem-estar do lar, claro. 

Pastores e líderes, então, muitas vezes são pessoas extremamente solitárias, que sofrem caladas com preocupante frequência. Como a igreja espera que sejam quase homens de gelo, sem emoções ou problemas, donos de uma fé acima de toda humanidade, eles acabam se isolando na solidão de seu cargo, vivendo em santa hipocrisia imposta, porque nós, membros sem coração de suas igrejas, não admitimos que pastores tenham dúvidas, dores ou angústias, que sejam gente como a gente. Culpa nossa. E, por isso, eles seguem, sofrendo em seu ministério, muitos em processo de depressão, com problemas no casamento, com agonias causadas pela pressão do pastoreio, com milhões de preocupações… mas sem encontrar apoio em ninguém. 

Vemos pessoas que saem do culto sozinhas e caminham a passos tristes e arrastados para a solidão de sua casa, sem nos importarmos com elas, enquanto saímos sorridentes com a nossa patota de sempre para comer uma animada pizza pós-culto. Afinal, já que estamos satisfeitos e acomodados com nossa vidinha cristã que não estende a mão a ninguém, para que nos dedicarmos aos outros, não é mesmo? Deixa como está. Por que abrir mão de nosso precioso tempo para ofertá-lo aos sofridos? E assim seguimos, sem viver de fato o que Jesus espera de sua igreja. E, apesar de ler este texto e sentir certo incômodo no coração, você continuará agindo exatamente do mesmo modo, sem nenhuma real mudança. Ou não?

sofrimento 4Muitos desses sofredores solitários até se inscrevem em departamentos da igreja, na esperança de viver um pouco do calor humano que, supõem, deveria haver entre os irmãos, mas só encontram um interesse pouço real por sua vida, aquela coisa meio obrigatória, afinal, “ele faz parte do grupo e a gente tem de dar atenção a ele”. Se um dia ele se desligar do grupo, porém, perceberá que o interesse por sua vida era meramente institucional e não verdadeiro. Ninguém mais o procura, o chama para sair, liga para saber como ele está. E assim seguimos, cercados por legiões de cristãos sofredores, que se calam pelas mais variadas razões e vivem suas angústias com, no máximo, o famigerado “vamos orar”.  Acredite: há muitos desses ao nosso redor, perfumados e maquiados, ostentando sorrisos pré-fabricados no rosto, mas carcomidos emocionalmente. 

Meu irmão, minha irmã, o evangelho é sobre relacionamentos. É sobre se intrometer, sim, na vida do outro, como um médico que intromete seu bisturi na carne do paciente para encontrar debaixo da pele, naquele lugar em que ninguém consegue ver além das aparências, onde está a causa da dor do próximo. E tratá-la. Individualismo não existe no cristianismo, o que existe é coletividade, onde todos sentem a dor de todos. Fora disso não há reino de Deus, não há evangelho, não há Igreja. Sim, a coisa mais importante no cristianismo são os relacionamentos: com Deus, primeiro, e com o próximo. Esse é o maior mandamento, apresentado em outras palavras. 

Ao falar sobre aquele grande dia, que a todos nós espera, Jesus profetizou: “… então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me” (Mt 25.34-36).  Essa passagem fala sobre o quê? Caridade? Não. Fala sobre relacionamentos.

sofrimento 5Fala sobre interferir na vida do próximo, saciando a sede e a fome não só de comida e bebida, mas de amor, preocupação, interesse, calor humano. Há entre nós irmãos e irmãs desesperados e silenciosos, mirrando pela falta do nosso interesse amoroso e genuíno. Muitos estão enfermos de alma, esperando em agonia  por uma visita, uma conversa ou um abraço que ajude a aliviar a dor de seu coração. No culto  a que você vai todo domingo, cruza com irmãos e irmãs que se encontram presos em jaulas de solidão, em presídios de angústia, apenas esperando por alguém que se importe. Também somos cercados por legiões de forasteiros, gente que dorme debaixo das marquises da falta de ter com quem conversar, que pedem socorro em idiomas que parece que ninguém entende, apenas aguardando por um servo bom e fiel que, com preocupação real, os hospede em seu coração e em sua vida.

O que você tem feito pelos famintos, sedentos, enfermos, presos e forasteiros? Nada? Então ouça o que Jesus tem a lhe dizer: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me” (Mt 25.41-43). 

Meu sonho é parar de receber desabafos e pedidos de socorro pelo blog e inboxes pelo Facebook de gente que sofre em silêncio. Não aguento mais ver tanta dor, pois a dor deles dói em mim. Quando leio um “me ajude, pelo amor de Deus, não tenho a quem recorrer”, meu coração rasga. Onde estão os seres humanos que convivem com esses meus irmãos e irmãs em Cristo? O fato de cristãos recorrerem a um escritor que mal conhecem e mora a centenas de quilômetros de distância para desabafar, pedir ajuda e tentar compartilhar um pouquinho que seja de sua dor é um sintoma gritante de que a igreja não está sendo Igreja. E à distância é difícil eu fazer qualquer coisa por eles. Onde estão os pastores e os irmãos em Cristo deles? Onde está você?

Este é um texto sobre amor. Amar de verdade significa doar-se. O contrário de amor não é ódio, como muitos pensam, mas egoísmo. Eu fico louco quando ouço um pregador dizer à igreja: “Quem veio aqui esta noite para receber a sua bênção?”. Por quê? Porque culto não foi feito para ser um evento de recebimento de bênçãos. Nós não vamos ao culto a fim de buscar bênção coisíssima nenhuma, vamos para cultuar Deus em conjunto com os irmãos. Em coletividade. Dando as mãos não só fisicamente, mas espiritualmente. Olhando para quem está ao nosso lado e enxergando-o de fato, preocupando-se com ele, imergindo nas angústias dele. A pergunta certa deveria ser “Quem veio aqui esta noite para abençoar os seus irmãos?”. Aí teríamos uma pergunta cristã. 

sofrimento 6Perdoe-me, por favor, o desabafo. Mas o APENAS é, para mim, também um meio de compartilhar o que sofro na minha solidão. E tem me angustiado profundamente o sofrimento solitário de tantos cristãos que recorrem a mim porque dizem não ter mais a quem recorrer. Eu vinha vivendo isso calado, mas hoje resolvi pôr para fora. Você compartilha da minha dor? Você está disposto a chorar comigo? Então, por favor, o melhor meio de fazer isso é sendo parte da solução. Viva a partir de hoje observando os calados, os que choram nos últimos bancos, os que sorriem com a boca mas não com os olhos. Preste atenção aos maridos desrespeitados, às esposas abandonadas, aos adolescentes solitários, aos idosos sofredores, aos líderes deprimidos. Pense naqueles que deixaram o convívio e você nem sabe por quê. Telefone para eles. Oferte-se ao próximo. Mergulhe na vida dessas pessoas. Ouça-as com real interesse e não por obrigação. Intervenha, sim, na vida delas, assim como Jesus interveio na nossa ao meter a colher nas lutas da humanidade e se fazer carne para sanar nosso maior problema. É bíblico. Faça isso, pelo amor de Deus e por amor ao próximo. Os sofredores silenciosos e solitários estão à sua espera. O que você vai fazer a respeito?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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delete 3Esta semana o APENAS completa cinco anos de vida. Ao longo desses 1.825 dias, publiquei mais de 470 posts, 3.489 amigos e amigas optaram por assinar as postagens do blog para recebê-las diretamente por e-mail, e 24.484 comentários foram escritos a respeito dos textos, praticamente todos respondidos. Que jornada! Escrever no APENAS tem sido uma alegria, uma responsabilidade, por vezes motivo de lágrimas ou sorrisos, um meio de fazer novas amizades e, acima de tudo, um serviço que me esforço por prestar ao reino na esperança de edificar e abençoar o meu próximo. Sou grato a Deus pelo APENAS e por cada irmão e irmã que me acompanha por aqui. Há um aspecto específico do blog que eu gostaria de abordar na reflexão de hoje: os textos que escrevi e depois deletei. 

Criei o APENAS numa época complicada de minha vida, como um meio de extravasar meus pensamentos. Naquela época, eu estava muito raivoso, contaminado por toda uma circunstância de vida que me fez agir como a palmatória do mundo. Por isso, muitos dos textos que escrevi carregavam ira, eram judiciais, usavam sarcasmo e palavras belicosas. Eu queria queimar os hereges, transformar quem eu considerava estar errado por meio de ataques e confrontos, entrar em discussões teológicas que levavam do nada ao lugar nenhum. Em suma, eu era um bobalhão. 

delete 2A Bíblia ressalta incontáveis vezes quanto o Senhor abomina a arrogância, e eu tinha virado abominação, visto que havia me tornado um arrogante do pior tipo no que se refere às questões teológicas e da vida cristã. Por isso, chegou um momento em que o Pai deu um basta. Ele me virou do avesso e me deu umas lambadas bem dadas. Apanhei, mas foi bom. Quando me tornei uma massa disforme de barro, o Misericordioso olhou para mim e disse: “Agora vamos esculpir de novo esse vaso”. E iniciou a reconstrução. O novo eu era alguém totalmente diferente, que felizmente conseguia enxergar como o antigo eu era horrendo, tamanha era a distância entre quem Deus queria que eu fosse e quem eu era. 

O Senhor não quer que seus filhos o defendam mediante agressividade, sarcasmo, ataques, dureza; mas quer homens e mulheres que mudem o mundo pelo transbordar do amor e por brilhar uma luz tão intensa de graça que espante as trevas da ira por onde passarem. Deus quer filhos conformados à imagem de seu Filho: mansos, humildes, pacificadores, bondosos, amáveis, que preferem o outro em honra, que devolvem o mal com o bem, que sejam gentis, cordatos e compassivos. 

Hoje eu luto por ser um tiquinho parecido com essa descrição. Ainda estou muito longe disso, mas me esforço bastante. E, quando meus olhos foram abertos para o horror que eu era aos olhos do Pai por ser um servo da ira crendo ser um servo de Deus, decidi reler tudo o que tinha escrito até então no APENAS. E o antigo eu deixou o novo eu chocado. 

delete 1Confesso que me horrorizei com coisas que tinha escrito, com a forma como tinha atacado filhos de Deus que discordavam de mim em certos aspectos da fé, com o tipo de linguagem que eu usava nas pendengas teológicas, com todo o ódio que eu havia destilado “em nome de Jesus”.  Por isso, não tive dúvidas: deletei muitos textos que não representavam mais quem eu era. Hoje, entendo que os textos que apaguei apontam para um aspecto basilar do cristianismo: estar na jornada com Cristo significa estar constantemente se reavaliando. O bom cristão é aquele que se pergunta diariamente: até onde as minhas certezas estão certas? 

A vida, meu irmão, minha irmã, é uma mutação constante. Hoje, eu olho com desconfiança para quem diz que não muda nem precisa mudar. Pessoas assim me assustam e preocupam, pois mostram ter decidido fincar âncora e se recusar a continuar crescendo e melhorando. Não acredito em um servo de Deus que julgue já ter chegado ao ponto ideal de sua caminhada e pense que tudo em que crê é certeza eterna. Pois somos transformados dia a dia, lutamos o combate da fé prova após prova, num constante aperfeiçoamento que nos leva a novas percepções e novos patamares de entendimento espiritual.

O Mauricio Zágari da época da conversão era completamente diferente do que começou seu primeiro seminário teológico, que era completamente diferente do que iniciou o segundo seminário teológico, que era completamente diferente do que começou a escrever livros, que era completamente diferente do que está escrevendo hoje estas linhas. E, peço a Deus, o Mauricio Zágari de amanhã será completamente diferente do que está escrevendo estas linhas – tomara, com mais amadurecido, conhecimento e sofrimento nas costas e mais quilômetros rodados. Essa é a minha oração. Peço a Deus que o Mauricio  Zágari que partir desta vida seja um homem muito melhor e um cristão muito mais gracioso, amoroso e bondoso do que este que hoje fala com você. 

E você? Como tem agido na jornada com Cristo? Será que se acomodou em ser como é? Será que está confortável em pensar como pensa, fazer o que faz, agir como age? Será que a pessoa que você é hoje já é aquela que Deus deseja que você seja? Que textos você precisa deletar do blog da sua vida? 

delete 4Fica aqui a recomendação deste maninho que já errou, e muito: faça constantes reavaliações de sua vida. Autoanalise quem você é, o que pensa, no que crê, o que faz, como dialoga, como trata as pessoas que discordam de você, como lida com seu conhecimento bíblico e teológico. E que isso seja uma disciplina espiritual, algo a ser feito regularmente. Para tanto, ouça pessoas diferentes das que sempre ouve. Procure gente que pensa diferente de você, para deixar a dialética lapidá-lo. Leia livros de autores que você considera indignos da sua leitura. Busque confrontar suas certezas, seja para fortalecê-las, seja para pô-las abaixo e começar tudo de novo. Não se acomode. Peço a Deus que o seu acomodamento o incomode. Pois no acomodamento não há crescimento, só estagnação. E, se você está estagnado no erro… triste é a sua vida e péssimo será o seu legado. 

Muito obrigado por você que me fez companhia ao longo desses cinco anos. É uma honra para mim caminhar ao seu lado. Oro constantemente a Deus para que tudo o que eu escreva no APENAS e nos meus livros contribua para fazer de você uma pessoa cada vez mais conformada à imagem de Cristo. Que meus textos o edifiquem, confrontem, incomodem, abençoem e, sempre, provoquem algum tipo de reflexão e transformação para melhor. Pois, se de algum modo as palavras que aqui compartilho contribuem para empurrá-lo um tiquinho que seja mais perto de quem o Senhor deseja que você seja, posso dizer com um sorriso emocionado:

Missão cumprida. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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paoA única foto que ilustra o post de hoje é a deste pão, pois todo o texto gira em torno dele. Permita-me explicar. Como antecipei em post recente aqui no APENAS, minha mãe submeteu-se há poucos dias a uma cirurgia para extrair um câncer de mama. Aos 82 anos, tendo sofrido um infarto havia alguns anos, não enfrentaria uma operação tranquila; afinal, riscos são grandes em pacientes com esse perfil. Como meu pai está senil, fui escolhido para ser o responsável por minha mãe. Se houvesse alguma complicação durante a operação, caberia a mim tomar decisões que poderiam ser de vida ou morte. Passamos a manhã realizando exames e procedimentos pré-cirúrgicos, saímos do laboratório e seguimos para o hospital. A cirurgia estava marcada para 14h. Atrasou. Até então, eu não havia almoçado. Estava faminto, mas, a despeito dos apelos de minha mãe para que eu a deixasse sozinha na sala de espera do hospital e fosse comer, fiquei ali, segurando sua mão, conversando e fazendo piadas, até o momento da cirurgia. Estávamos confiantes e de bom humor – mas morrendo de fome. 

Enfim chegou a hora e, às 14h45, finalmente minha mãe entrou na sala de operações. Por isso, foi só por volta de 15h que pude comer algo, na única lanchonete que vendia alguma comida no hospital. A birosca não oferecia refeições, apenas salgados e alguns sanduíches. Por isso, o que você vê nesta foto foi o meu almoço naquele dia: um pão com ovo e queijo. No momento em que tirei a fotografia, estava pensando no que aqui compartilho com você: este sanduíche simboliza algo muito maior do que um sanduíche. 

Aquele pedaço de pão simbolizou para mim o cuidado com minha mãe. Ele era o resultado de eu ter sacrificado o meu bem-estar em prol dela. Eu poderia perfeitamente tê-la deixado sozinha e saído do hospital em busca de um bom restaurante, na hora em que eu quisesse. Mas optei por lhe fazer companhia, dar amor, ofertar solidariedade, compartilhar calor humano, ser um filho que honra seus pais ao preferi-los em honra a si mesmo. E, se você acha que sou grande coisa ao dizer isso, saiba que não sou, minha nobreza não é maior do que a de ninguém: tudo o que fiz foi por amor e em reconhecimento aos anos de cuidados que minha mãe dedicou a mim. Não, ficar faminto para acompanhá-la não foi mérito meu, foi mérito dela. Pois tudo o que fiz foi em respeito às décadas de preocupação, entrega, abnegação e sacrifícios de minha mãe por mim. Não houve nenhuma magnanimidade no que fiz. 

paoAo olhar para aquele pão com ovo e queijo lembrei-me das noites que minha mãe e meu pai passaram em claro, cuidando de minhas febres e meus pesadelos; das muitas horas que gastaram lavando o cocô e o xixi das minhas fraldas de pano, numa época em que ainda não havia fraldas descartáveis; dos dias e mais dias em que tiveram de ir correndo de um emprego para outro, numa ralação exaustiva, a fim de me dar qualidade de vida; das madrugadas em que ficaram acordados durante minha juventude, preocupados com meu retorno seguro após alguma festa; da noite em que saíram esbaforidos para me abraçar, após eu ter capotado com o carro… enfim, de tudo de que dona Irene e seu Wilson abriram mão em meu benefício. Um pão com ovo e queijo que significava tão pouco em comparação ao amor e ao sacrifício que aqueles dois devotaram ao filho caçula. Orei ao Senhor antes de devorar aquele sanduíche, entregando minha mãe em suas mãos e agradecendo por tão singelo mas tão significativo alimento. E, naquele instante, percebi que cada mordida que dava no pão tinha o mesmo nome.

Gratidão. 

Quando celebramos a ceia do Senhor, o que demonstramos é a mesma coisa: gratidão, por tudo o que Jesus suportou em nosso benefício. Cada mordida no pão da ceia me recorda dos açoites que ele aguentou em meu lugar; cada gole no vinho me lembra dos bofetões e das cusparadas que ele tomou por mim; o esfarelar das migalhas me identifica com o rasgar da carne das mãos; o sabor acre do vinho me remete ao sabor amargo do sangue escorrido da coroa de espinhos. A ceia não deve ter em primeiro plano o medo de tomá-la em pecado, mas o júbilo por tomá-la em gratidão por quem nos livrou do pecado. Ao reunir-me com meus irmãos e irmãs para tomar a ceia, trago à memória o cenho abatido do Salvador na cruz do monte Calvário. Ceia é isto: gratidão pelo sacrifício que nos beneficiou. O sanduíche do hospital é isto: gratidão pelo sacrifício que me beneficiou. Assim, o pão tem sabor de uma única palavra: obrigado. 

Uma hora e meia depois, meu telefone soou e uma integrante da equipe médica me avisou que a cirurgia havia terminado e sido um sucesso. Eu deveria ir para o quarto aguardar minha mãe. Assim foi. Quando ela chegou na maca, ainda zonza pelo despertar da anestesia, antes mesmo de perguntar como tinha sido a cirurgia, virou-se para mim e, com preocupação materna, indagou: “Você comeu?”. 

Conversei com os médicos, que me informaram que tudo havia ido bem: eles removeram apenas um quarto do seio e nem precisaram pôr um dreno. O exame dos nódulos linfáticos da axila deu negativo, o que sugeria que não havia ocorrido metástase. Três dias depois, eu deveria levar minha mãe ao consultório do cirurgião para ver como estava a recuperação. Assim, no terceiro dia após a possibilidade da morte, levei-a ao médico, que avaliou o quadro e deu o ultimato: vida! De igual modo, no terceiro dia após a morte de Cristo, veio o ultimato: vida!

paoPassei dias cuidando dela no pós-operatório, com gratidão a Deus por poder fazer por minha mãe o que décadas antes ela fizera por mim. Hoje, dia 26 de abril, dona Irene volta ao médico a fim de remover os pontos da cirurgia. Esperamos apenas o resultado da biópsia do tumor. Fora isso, é vida que segue. As cicatrizes  ficarão, mas, por trás delas, o que há é vida. E, de hoje em diante, nunca mais olharei para um pão da mesma maneira que antes, pois ele sempre me lembrará de tudo o que meus pais fizeram por mim e da gratidão que devo demonstrar-lhes, não como resultado de valor próprio, mas como reconhecimento pelo mérito deles ao se sacrificarem por mim. Do mesmo modo, nunca você deve olhar para o pão da ceia sem um sentimento de gratidão a Cristo pelo mérito dele ao sacrificar-se por você. As cicatrizes dos cravos, dos açoites, da lança e da coroa de espinhos ficarão, mas, por trás delas, o que há é graça e vida.

Vida… eterna. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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