Arquivo da categoria ‘Glória de Deus’

Esta semana Jesus comeu um bauru e bebeu refrigerante. Tudo aconteceu quando cheguei à igreja para o culto de domingo passado e encontrei Luan. Ele estava pedindo dinheiro na porta da igreja. “Qualquer trocadinho, para eu comer”, dizia. Menino mirradinho, de cabelos grandes e despenteados, pés descalços e uma crosta preta de sujeira em toda parte visível de sua pele mulata. Seu rosto era sisudo. Meu primeiro impulso foi fazer o que todo mundo faz, quase que por reflexo: ignorar, balançar negativamente a cabeça sem olhar nos seus olhos e seguir meu caminho. Mas minha esposa cutucou meu braço e meu senso de amor ao próximo: “Não pode dar nada a ele?”, questionou. Foi quando parei de enxergar aquele garoto como um incômodo e passei a ver nele o que ele verdadeiramente é: um ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus.
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– Você está com fome? – indaguei.
– Estou. – respondeu.
– Você quer que eu te compre algo para comer?
– Quero.
– O que você quer?
– Um bauru. Tem ali na lanchonete x.
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Olhei para minha esposa e minha filha e pedi que elas seguissem para o culto, enquanto eu comprava o sanduíche para o menino. E assim foi.
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Comecei a andar com Luan até a lanchonete, a dois quarteirões dali. E fui puxando papo. Será que eu poderia dizer algo que contribuísse com sua vida e que fizesse a diferença para além de apenas matar momentaneamente a sua fome? Foi quando comentei que eu queria saber de sua vida. E ele, sempre com olhar sério, quis contar. Luan tem 12 anos. Nasceu no Complexo do Alemão, conjunto de comunidades carentes do Rio dominadas pelo tráfico de drogas. Filho de pais miseravelmente pobres, nascido numa família de cinco irmãos, sua história não é muito diferente da de milhares de outros meninos de rua que vivem debaixo das marquises de nosso Brasil. Perguntei há quanto tempo ele estava na rua.
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– Não sei, não lembro.
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Aquilo me impressionou. Ficou claro que Luan morava pelas ruas de Copacabana havia muito tempo. Calculei pelas informações que me deu que havia anos que perambulava pelas ruas.
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Perguntei como era a sua vida. Ele me fez um relato de rasgar um coração, sobre o qual não quero entrar em detalhes. Só me preocupei em ouvi-lo, um luxo que Luan não costuma ter – quem dá ouvidos para uma criança de rua? Quem quer ouvir criatura tão “desimportante” e potencialmente criminosa? Não é o que pensamos ao ver um “pivete” assim? Eu quis que ele falasse sobre sua vida, suas experiências, sua visão de mundo. E, nas minhas respostas, busquei fazer com que ele se enxergasse como indivíduo, como ser humano importante e valioso.
Na lanchonete, nos sentamos e ele pediu um bauru com refrigerante. Enquanto esperávamos a comida ficar pronta, passei a falar. Disse a ele que queria lhe contar a história da minha família. Contei sobre meus bisavôs, que migraram da Itália para o Brasil para ter o que comer, pois viviam em total miséria em sua terra natal – tanto que, quando minha bisavó Cristina morreu, os vizinhos tiveram de fazer uma vaquinha para pagar o enterro. Relatei a Luan a história de meu avô, que, sem estudo, trabalhou a vida toda como camelô, vendendo bilhetes de loteria federal. Com muito esforço, ele foi juntando dinheiro e conseguiu comprar quatro casinhas em Olaria, bairro de subúrbio no Rio de Janeiro, três das quais ele alugava para pagar os estudos de minha mãe. Expliquei a Luan como mamãe ralou a fim de se tornar professora, fazer mestrado, subir na vida e pagar meus estudos e os de meu irmão.
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Em resumo, tudo o que procurei lhe contar foi para que Luan percebesse que, se hoje tenho a possibilidade de ter dinheiro para lhe comprar um lanche, é porque pessoas de minha família não se conformaram com sua situação e se esforçaram, estudaram, trabalharam, foram à luta e, da miséria absoluta, conseguiram construir uma vida digna. Expliquei a Luan que estava contando isso como incentivo para que ele tomasse as atitudes que estão ao seu alcance para mudar sua realidade. Voltar para casa. Ir à escola. Fugir da vida de crimes. Aprender uma profissão honesta. Construir uma vida digna.
Sempre sério, ele ouviu tudo com atenção. Falamos até mesmo da importância da higiene e eu lhe disse que ele poderia tomar banho na igreja, se desejasse. Enfim, falei muito sobre muitas coisas para aquele menino de rua que sonha ser salva-vidas. Até que chegou a sua comida, para viagem.
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– Você promete que vai pensar no que te falei?
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– Prometo. Eu não quero viver na rua, não, moço, nem fazer parada errada. Quero ter meu dinheiro, minha casa e uma esposa. Filhos, não, mas uma mulher, sim.
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Apertei a mão imunda de Luan e lhe disse que, sempre que quisesse, poderia ir à igreja em cuja porta nos conhecemos e perguntar por mim, pois, se ele desejasse sair da rua, bastava falar e a gente se mexeria para ajudá-lo e tornar isso possível. Com o rosto sério como sempre, ele agradeceu, pensativo. E nos despedimos. Saí e parei na calçada, esperando o sinal de trânsito abrir, olhando Luan ir embora na direção oposta.
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Naquele momento, me vieram à mente aqueles pensamentos que assolam todos nós numa situação como essa: será que fui um otário? Será que algo do que falei adiantou de alguma coisa? Será que ele só me ouviu para ganhar a comida e se lixou para tudo o que eu disse? Será que, ao alimentar aquela criança, eu incentivei a mendicância e ajudei a piorar o problema? Será que perdi meu tempo? Dúvidas como essas inundaram meus pensamentos. Até que…
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Subitamente, Luan, já distante, parou. Olhou para trás. E, pela primeira vez, sorriu. Luan sorriu em minha direção e acenou com a mão, dando tchau. Eu sorri de volta e acenei com a mão no ar, enquanto ele prosseguia em seu caminho. Esse gesto de Luan teve um enorme significado. Se tudo aquilo foi inútil e ele só queria mesmo o prato de comida… não precisaria ter se virado. Muito menos dado aquele sorriso inédito. Percebi que seu gesto foi fruto de uma conexão verdadeira que se estabeleceu entre nós – algo que acontece sempre que um ser humano mostra para outro ser humano que ele é valioso e importante.
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Definitivamente, Luan  não precisava ter se conectado a mim por meio do sorriso e do aceno. Afinal, ele já tinha conseguido a comida. Foi quando percebi que, de algum modo, aquela conversa de fato teve nem que seja um pequenino efeito sobre a vida daquele menino, que o fez pensar em mim a ponto de interromper sua caminhada e buscar uma última conexão comigo – ou, melhor, com aquilo que representei para ele naquele momento.
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Voltei para a igreja. Cheguei quase no final do louvor, o que gerou uma certa culpa, mas, então, me dei conta de que, naquela meia-hora, Deus havia sido louvado por meio de minha vida como poucas vezes antes.
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Gosto de conversar sobre teologia. Faço isso com frequência. Mas, naquela meia-hora, tudo o que vivo discutindo intelectualmente com meus amigos ou mesmo com gente que não concorda com minhas opiniões teológicas caiu para segundo plano. Naquela meia-hora pelas ruas e em uma lanchonete de Copacabana, as discussões teológicas e ideológicas sobre Missão Integral ser ou não um caminho biblicamente ideal, sobre a oposição política entre a esquerda e a direita, sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro e a violência, sobre as causas e as soluções para a miséria, enfim, todas as minhas discussões intelectuais sobre temas que têm a ver com a realidade de gente como Luan se resumiram a uma coisa:

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, vocês que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o reino que ele lhes preparou desde a criação do mundo. Pois tive fome e vocês me deram de comer. Tive sede e me deram de beber. Era estrangeiro e me convidaram para a sua casa. Estava nu e me vestiram. Estava doente e cuidaram de mim. Estava na prisão e me visitaram’. Então os justos responderão: ‘Senhor, quando foi que o vimos faminto e lhe demos de comer? Ou sedento e lhe demos de beber? Ou como estrangeiro e o convidamos para a nossa casa? Ou nu e o vestimos? Quando foi que o vimos doente ou na prisão e o visitamos?’. E o Rei dirá: ‘Eu lhes digo a verdade: quando fizeram isso ao menor destes meus irmãos, foi a mim que o fizeram.’” (Mt 25.34-40).

Por que estou lhe relatando essa história e deixando minha mão esquerda saber o que minha direita fez? Porque gostaria imensamente que você vivenciasse o que vivi naquela meia-hora. Muitos cristãos acham que a emoção maior da vida com Deus é sentir arrepios na hora do louvor, saltitar de alegria com uma boa pregação e coisas assim. Se é o seu caso, permita-me dizer-lhe que não há emoção espiritual maior do que dar um bauru a Cristo manifestado na forma de uma pessoa imunda e faminta. Mais do que isso: instruir essa pessoa, ajudá-la a evoluir, fazer algo concreto no sentido de que ela cresça e consiga mudar a trajetória de sua existência.

Amar os necessitados e agir em favor deles não tem nada a ver com a sua ideologia política, com ser de esquerda ou de direita: tem a ver com quanto você vive a caridade cristã em sua vida, como decorrência do amor que há em seu coração. “Se um irmão ou uma irmã necessitar de alimento ou de roupa, e vocês disserem: ‘Até logo e tenha um bom dia; aqueça-se e coma bem, mas não lhe derem alimento nem roupa, em que isso ajuda? Como veem, a fé por si mesma, a menos que produza boas obras, está morta” (Tg 2.15-17). Lembre-se, sempre: nenhum pequeno gesto, nenhuma palavra de edificação, nenhum copo d´água são pouca coisa para alguém em necessidade quando é feito com amor cristão.
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Você poderia me perguntar: e por que você não aproveitou e evangelizou aquele menino? E eu lhe responderia: e não foi exatamente isso o que eu fiz ao alimentá-lo, amá-lo com conselhos práticos para uma mudança de vida, ouvi-lo com real preocupação e interesse por sua vida? Enquanto esperávamos o bauru ficar pronto, perguntei a Luan o que mais entristecia seu coração. Ele respondeu: “Quando as pessoas passam por mim e fingem que não estão me vendo”. E eu, um cristão que se encontrou com ele na porta de uma igreja, me importei não só em olhar para ele, mas, também, em querer saber o que se passava no seu coração e em dar-lhe dignidade como ser humano. Será possível que alguém é capaz de achar que isso não disse a ele nada sobre o amor cristão?
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Amar como Cristo amou não exige muito. O cristianismo é descomplicado. O evangelho se traduz em pouca coisa. A teologia acadêmica só faz sentido se você é capaz de pegar tudo o que aprendeu ao longo de quatro ou mais anos de estudos e usar tudo aquilo para comprar um bauru para uma criança faminta. Faça isso! Não deixe de se aprofundar na fé, na teologia, no conhecimento das doutrinas centrais dos ensinamentos de Cristo; mas se não conseguir botar o pé no chão e traduzir toda a sua bagagem de conhecimentos em dar pão a quem tem fome, dar água a quem tem sede e chorar com quem chora… todo tempo, dinheiro e energias investidos em aquisição de conhecimento foram vaidade e correr atrás do vento.
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A verdade, meu irmão, minha irmã, é que, sim, eu dei comida a Luan naquele dia. Mas quem saiu maravilhosamente bem alimentado daquele encontro fui eu. E quem saiu de lá glorificado foi aquele que concede a mim e a você a dádiva de conseguir derramar uma lágrima quando o nosso próximo sente fome, sede, dor, frio e tristeza. Porque eu desconfio seriamente que o sorriso que recebi ao final do meu encontro com Luan veio diretamente dos lábios de Jesus de Nazaré…
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Tudo o que Jesus pregou e ensinou durante seu ministério terreno foi teologia pura. Quando analisamos os sermões e as falas públicas de Cristo fica claríssimo que ele discorreu sobre escatologia, soteriologia, pneumatologia, eclesiologia, cristologia, hamartiologia e outras áreas de conhecimento da fé cristã. Isso é inegável. Por isso, desde a minha conversão, há 22 anos, me apaixonei pela teologia de Cristo e passei a devorar tudo o que pudesse a fim de aprender mais e mais. Porém, o que mudou tudo na minha vida cristã e refletiu diretamente naquilo que escrevo e prego foi analisar, há cerca de seis anos, a forma como Jesus abordou sua teologia: de maneira simples, em linguagem popular, usando metáforas do dia a dia das pessoas de seu tempo, contando historinhas de ficção… enfim, Jesus raramente complicou sua mensagem; pelo contrário, preferiu na maior parte do tempo simplificá-la. Logo, se somos imitadores de Cristo, devemos imitá-lo nisso também.
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Alguns exemplos: quando Jesus quis falar sobre o nosso exemplo pessoal para o mundo, usou a imagem do sal, algo que todos usavam no dia a dia de Israel para conservar seus alimentos (Mt 5.13). Também recorreu à imagem de uma lâmpada, usada por todos naquela cultura para iluminar suas casas (Mt 5.14). Simples. Compreensível. Ao alcance do entendimento de todos.
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Jesus flores pássarosQuando Jesus expôs verdades sobre a soberania e o cuidado de Deus na vida de seus filhos, falou sobre… passarinhos. “Por isso eu lhes digo que não se preocupem com a vida diária, se terão o suficiente para comer, beber ou vestir. A vida não é mais que comida, e o corpo não é mais que roupa? Observem os pássaros. Eles não plantam nem colhem, nem guardam alimento em celeiros, pois seu Pai celestial os alimenta. Acaso vocês não são muito mais valiosos que os pássaros?” (Mt 6.25-26). Outra imagem a que ele recorreu para tratar do mesmo assunto foi a de… flores. Belas e delicadas flores: “E por que se preocupar com a roupa? Observem como crescem os lírios do campo. Não trabalham nem fazem roupas e, no entanto, nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como eles. E, se Deus veste com tamanha beleza as flores silvestres que hoje estão aqui e amanhã são lançadas ao fogo, não será muito mais generoso com vocês, gente de pequena fé?” (Mt 6.28-30).
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Coisas simples. Cotidianas. Compreensíveis. Fáceis.
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As parábolas, por sua vez, são um exemplo espetacular da simplicidade da forma de Jesus apresentar as mais profundas verdades da espiritualidade cristã. Ao falar sobre assuntos teologicamente profundos – como pecado, arrependimento, justificação, Igreja e a doutrina de Deus -,  Jesus falou sobre família, um filho rebelde, herança, prostitutas, chiqueiro, festa, enfim, coisas que absolutamente todos que o escutavam entendiam. Enquanto os religiosos judeus de então se perdiam em complicadas, elaboradas e intermináveis discussões teológicas, com partidarismos rabínicos e segmentações doutrinárias, Jesus inventava histórias sobre alguém que perdeu dinheiro e sobre um pastor que busca uma ovelha que se desgarrou – brilhantes tratados soteriológico e hamartiológicos, elaborados para serem compreendidos por qualquer pessoa, da mais erudita à analfabeta (Lc 15).
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Confesso que me assusto quando vejo pessoas discutindo sobre o evangelho usando palavras incompreensíveis, com estruturas e esquemas rebuscados e dificílimos, em abordagens que simplesmente complicam aquilo que Jesus simplificou, indo na contramão do jeito de Cristo de expor sua teologia. Há espaço para o rebuscamento? Claro que há! Numa sala de aula de um seminário teológico ou num congresso acadêmico, onde todos os que ali estão falam aquela linguagem difícil e entendem os malabarismos de raciocínio utilizados, não há nenhum problema em se recorrer a um jeito erudito e complicado para um reles mortal. Mas, publicamente, não consigo enxergar absolutamente nenhuma razão para se complicar o que Jesus não complicou. O evangelho de Cristo foi anunciado e discutido por Cristo de modo fácil, falasse ele para pescadores, pastores, prostitutas, pedintes ou autoridades do governo.
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As pessoas que ouviam Jesus podiam não compreender plenamente as realidades espirituais que ele anunciava, por serem muito elevadas, mas ainda assim Cristo recorria a um formato e um linguajar facílimo para explicar tais realidades (como no vocabulário, na estrutura de exposição e no uso de imagens cotidianas de sentido simplificado). E por que não deveríamos nós fazer assim também? Jesus falava às multidões. E “multidão” pressupõe um grupo numeroso e diversificado de pessoas, entre elas, com absoluta certeza, gente simples, que precisava entender o evangelho com simplicidade. Afinal, uma mensagem que não é compreendida não é uma mensagem – são sons e palavras sem significado e, logo, são inúteis. Repito: inúteis.
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Fui confrontado recentemente com essa questão, ao ser convidado pela editora Mundo Cristão a escrever os estudos e os comentários de uma Bíblia, em parceria com meu amigo e editor Daniel Faria. Aceitei o desafio. Toda essa necessidade de simplificar, tudo o que escrevi até aqui neste post, martelou diariamente em minha mente durante o processo de escrita dos textos da Bíblia Sagrada Na Jornada com Cristo. Confesso que a tentação de escrever de forma difícil para ser admirado entre os intelectuais e acadêmicos foi grande. Já vi pessoas desdenharem quem escreve com simplicidade dizendo que “fulano é raso”, “beltrano é superficial” e acusações ignorantes semelhantes, pois confundem simplicidade com superficialidade. E ninguém gosta de ser desdenhado, não é? Mas precisei me agarrar à consciência de que, se temos de caminhar nos passos de Jesus, precisamos negar nosso ego, rejeitar nossa vaidade e pensar na eficiência da transmissão da mensagem e não no nosso status junto aos eruditos.
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Por essa razão, tudo o que escrevi na Bíblia Sagrada Na Jornada com Cristo tem como objetivo transmitir a mais profunda teologia cristã da maneira mais simples e compreensível possível, em textos que procurei tornar gostosos e prazeroso de ler, a fim de não só transmitir conhecimento teórico, mas conduzir o leitor a viver o evangelho na prática.
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Este mês é o lançamento da Bíblia Sagrada Na Jornada com Cristo. Se você me permite, gostaria de convidá-lo a lê-la e a presenteá-la ou indicá-la aos seus amigos que precisam entender mais sobre a fé cristã – em especial os recém-convertidos, a quem recomendo com ênfase a Bíblia Sagrada Na Jornada com Cristo. Não falo isso por interesse comercial nem nada do gênero, acredite, mas por real convicção de que os estudos e textos dessa obra podem auxiliar no crescimento e no conhecimento de todos aqueles que amam a Deus e sua Palavra mas têm dificuldade de entender teologia acadêmica ou não tiveram oportunidade de se aprofundar nela. Creia: você terminará a leitura compreendendo muito mais da fé cristã, por desfrutar de profundidade com simplicidade. Se desejar mais informações, clique neste link: < Bíblia Sagrada Na Jornada com Cristo >.
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Peço a Deus que, se vier a ler a Bíblia Sagrada Na Jornada com Cristo, seja muito edificado pelos textos e estudos que ela contém. Todos foram escritos com muito temor, tremor e amor. E com a preocupação de torná-a uma leitura agradável e fácil, simples na forma e profunda no conteúdo.
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Meu irmão, minha irmã, invista na simplicidade em sua vida de fé. Olhe os passarinhos. Olhe as flores do campo. Descubra as realidades da vida e da eternidade pelas belezas com que a graça de Deus nos presenteia. Ame o próximo do modo mais simples que puder: com um copo d´água no calor, um sorriso na tristeza, um abraço na solidão, uma lágrima solidária na dor. Ore com simplicidade. E lembre-se de que o Criador de tudo o que há nos bilhões de galáxias do espaço infinito escolheu salvar você não por meio de um gigantesco e complexo evento cósmico, mas por meio da morte de um carpinteiro pobre e maltratado em uma rude cruz de um canto distante e esquecido do mundo. Simples. Mas com resultados que ecoarão por toda a eternidade.
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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Comprei no início deste ano um apartamento novo, a fim de trazer meus pais para morar comigo. Pelo valor que eu podia pagar, só consegui encontrar um apartamento caindo aos pedaços, que teria de passar por uma grande reforma para ser habitável. E assim foi: em janeiro começamos a obra, prevista para acabar em abril. Porém, chegamos ao último dia de outubro e a reforma ainda não terminou. E isso por uma série de razões, todas ligadas ao pecado e à falibilidade humanos. Vou lhe contar um pouco dessa saga.

Mandamos fazer uma escada com um serralheiro. Depois de mais de um mês esperando a dita cuja ficar pronta, o que aquele profissional aprontou foi algo que seria melhor definido como um “troço”. Tivemos de desfazer o negócio e arcar com um grande prejuízo. Depois, o profissional que contratamos para laquear e pintar as portas fez um serviço sofrível e danificou paredes, chão e outras partes do apartamento. Mais tempo perdido. Mais dinheiro jogado fora. E por aí foi: tivemos pintores desqualificados, marceneiros que não cumpriram o que prometeram… e muito mais. O resumo da ópera é que tivemos de lidar com uns profissionais que não cumpriram o que prometeram, outros que maldosamente tomaram atitudes que nos prejudicaram e outros, ainda, que muitas vezes fizeram da reforma algo mais estressante do que feliz. Ainda assim, a reforma era indispensável, apesar de pessoas afetadas pelo pecado terem participado do processo.

Hoje celebramos 500 anos da Reforma Protestante, movimento deflagrado em 1517 pelo monge agostiniano Martinho Lutero, que tinha por objetivo reformar a Igreja Católica Apostólica Romana, instituição que ao longo dos séculos saiu dos trilhos e se distanciou dos princípios da Igreja apostólica. Lutero, junto com outros pensadores, tais como Calvino e Zuínglio, promoveram um trabalho de resgate dos princípios do evangelho de Jesus, com retorno à centralidade de Cristo, ao conceito da salvação somente pela graça e mediante a fé, ao entendimento de que a Escritura é a única e suficiente regra de fé e prática do cristianismo, e à compreensão de que a glória deve ser dada somente a Deus.

Esse movimento não purificou a Igreja Católica, pois seus líderes não o aceitaram, mas levou o papa Leão X a excomungar Lutero. Em outras palavras, Lutero foi expulso. Com isso, surgiu a Igreja reformada, da qual é herdeira hoje uma série de denominações cristãs, que se chamam de “reformadas”, “protestantes” ou “evangélicas” (há divergências sobre o significado exato de cada um desses termos, que não vêm ao caso para os propósitos deste texto). Claro que estou simplificando enormemente o que aconteceu, mas, em resumo, foi isso.

Nos últimos 500 anos, no entanto, muitos homens e mulheres que fazem parte desse ramo da Igreja agiram do mesmo modo que os pintores, pedreiros, laqueadores e serralheiros que participaram da reforma de meu apartamento e mais estragaram e atrapalharam do que ajudaram. A ignorância, a maldade ou a falibilidade humana levaram ao surgimento de crenças e práticas erradas, como teologia da prosperidade, confissão positiva, autoajuda gospel, aceitação da agressividade como forma de posicionamento supostamente cristão, bizarrices neopentecostais, doutrinas antibíblicas de batalha espiritual, canonização de usos e costumes, e outras práticas e teologias equivocadas.

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Sob a influência de tais maus descendentes da Reforma, muitos membros dessa igreja oriunda das ações dos reformadores passaram a acreditar em uma espécie de “evangelho” esquisito, como tipos de “cristianismo” que põem o homem no centro, que hipervalorizam o dinheiro, que estabelecem o sucesso pessoal como a medida de bênção de Deus, que fazem parecer que é possível ser grosseiro e cristão ao mesmo tempo e por aí vai.

Assim como o serralheiro que atrapalhou minha reforma, há quem desuna a Igreja de Cristo considerando que só sua denominação é a certa. Assim como os pintores que fizeram trabalhos mal feitos, há quem ensine evangelhos só de bênção e não de arrependimento e contrição. Assim como os pedreiros que deixaram a desejar, há quem creia que o Deus glorificado na Reforma aprova uma apologética bruta e agressiva. Assim como os profissionais que nos decepcionaram em diversos momentos no processo de reforma do apartamento, há aqueles que trazem “segundas revelações” apócrifas ao evangelho resgatado pela Reforma. E assim por diante.

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Louvo a Deus pois, hoje, a Igreja de Cristo prossegue adiante, pregando a mensagem da cruz, investindo em missões, discipulando, divulgando as doutrinas da graça, incentivando a santidade, denunciando o pecado, edificando a noiva de Cristo, glorificando a Deus. Porém, passados 500 anos da Reforma, devemos continuar como Igreja que se reforma continuamente. A começar por nós mesmos, pessoas. Pois de nada adianta reformar ideias e instituições e deixar indivíduos como estão. Alguns dos maus profissionais que prejudicaram minha reforma não reconheceram seus erros. Não podemos fazer o mesmo. O melhor meio de você contribuir com a reforma da Igreja de nossos dias é fazendo um mea culpa, reconhecendo seus erros, mudando seu modo de agir, voltando às boas práticas.

Você acha que seguir reformando a Igreja é apenas combater o erro dos outros? Não é. O que de melhor você pode fazer pela Igreja é parar de olhar para o lado e consertar os seus erros; arrepender-se das suas falhas; confessar os seus pecados; e abandonar a arrogância doutrinária, a agressividade apologética, a soberba denominacional, a vaidade teológica, o sectarismo espiritual. Mude-se. É um bom começo. Às vezes, as suas intenções são ótimas, mas a sua pintura está péssima, a escada que você está construindo está torta, o cano que você instalou está vazando. O que você precisa fazer? Antes de querer reformar algo, sua urgência maior é reformar a si mesmo.

Como eu posso defender isso? Com base na minha própria experiência de reforma de mim mesmo. Na época em que eu dedicava meu tempo, minhas energias e minha saliva para ficar metendo o malho nos outros em vez de promover as belas virtudes do evangelho, praticamente não consegui promover mudança alguma em ninguém. Só gerei ódio. Eu era só um brigalhão esbravejando pela Internet. Mas, no dia em que decidi mudar a mim mesmo, procurando aproximar-me mais do caráter e do temperamento do manso Cordeiro, vi e colhi muitos frutos, que ecoaram na vida de muitas pessoas. E isso tendo por base bíblica passagens como: “Não imitem o comportamento e os costumes deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma mudança em seu modo de pensar, a fim de que experimentem a boa, agradável e perfeita vontade de Deus para vocês” (Rm 12.2, NVT), “E não pequem ao permitir que a ira os controle. Acalmem a ira antes que o sol se ponha, pois ela cria oportunidades para o diabo” (Ef 4.26-27, NVT), “Da mesma forma, suas boas obras devem brilhar, para que todos as vejam e louvem seu Pai, que está no céu” (Mt 5.16, NVT), “Se amarem apenas aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os cobradores de impostos fazem o mesmo. Se cumprimentarem apenas seus amigos, que estarão fazendo de mais? Até os gentios fazem isso” (Mt 5.46-47, NVT), e “Eu, porém, lhes digo que basta irar-se contra alguém para estar sujeito a julgamento. Quem xingar alguém de estúpido, corre o risco de ser levado ao tribunal. Quem chamar alguém de louco, corre o risco de ir para o inferno de fogo” (Mt 5.22, NVT).

Parabéns a todos os filhos da Reforma Protestante: presbiterianos, batistas, metodistas, pentecostais, continuístas, cessacionistas, calvinistas, arminianos, credobatistas, pedobatistas… enfim, todos os meus irmãos e irmãs em Cristo que, por mais que cometam um ou outro erro teológico, continuam acreditando em cada tópico do Credo Apostólico. Embora derrapem em um ou outro equívoco teológico, ainda assim são meus irmãos. Que mais nos unamos pelo que temos de igual do que nos distanciemos pelo que nos diferencia. Nosso Deus é o mesmo, o de Abraão, Isaque e Jacó. Nossa cruz é a mesma, a do Calvário. Nossos pecados nos igualam. Nossa esperança é o mesmo céu. Jesus é o mesmo Jesus em todas as igrejas que não negociaram o evangelho, apesar de suas diferenças.

Não me venha falar da reforma do meu apartamento, por favor, pois ela tem me estressado e, sinceramente, às vezes acho que seria melhor que ela não tivesse acontecido. Mas falemos todos os dias sobre a reforma da Igreja, que começa pela reforma de nós mesmos. Pois essa, se não acontecer, nos conduzirá para longe dos ideais resgatados pela Reforma Protestante: os ideais do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Minha filha viu esta foto no meu facebook e me perguntou: “Papai, por que não estou nessa foto?”. Eu olhei bem para o retrato, me lembrei das circunstâncias em que ele foi tirado e respondi: “Bebê, você sempre precisa ver além daquilo que se pode enxergar. É óbvio que você está nessa foto”. Ela fez uma cara intrigada, como se fosse uma detetive tentando decifrar um enigma. Ficou um longo tempo examinando a imagem. Depois de muitos segundos de análise, a filhinha fez um beicinho e disse: “Papai, não estou não. Não estou!”  Foi quando eu indaguei, baixinho: “E quem foi que tirou a foto?”. Depois de refletir um pouco, ela escancarou um sorriso luminoso e satisfeito e respondeu: “Fui eu! Fui eu!”. 

Existem duas formas de se enxergar as coisas da vida: ou nos prendemos ao visível, ao que está evidente, ou entramos em uma dimensão diferente, na qual podemos perceber aquilo que os olhos não mostram. A diferenciação entre essas duas maneiras de enxergar o cotidiano depende do grau de intimidade que temos com Deus. Se em tudo inserirmos o Senhor e sua Palavra, veremos tudo à luz do plano divino para a existência humana. Se, porém, optarmos por uma caminhada distante do Todo-poderoso, os fatos do dia a dia serão vistos sempre à parte do mundo espiritual e da mente divina. 

Vou explicar o que quero dizer, usando como exemplo a foto que chamou a atenção da minha filha. Um olhar distanciado de Deus verá o quê? Um grupo de pessoas posando para uma foto. Só. Mais uma entre milhares de outras fotos que vemos ou tiramos rotineiramente. Dá para ver uma senhora de rosto manchado, ao lado de uma jovem mulher e um casal de pé. Nada de mais, não é? Uma foto comum, corriqueira, mais uma entre muitas. Porém, se você desperta e dorme com fome e sede da divina presença, enxergando tudo pelos olhos do Espírito, essa foto revela mundos sobre Deus. Como assim? Eu explico. 

A foto me mostra o cuidado de Deus com seus filhos. Afinal, nela está minha mãe, com o rosto ainda manchado pelo hematoma causado pelo tombo que levou, mas bem, viva e saudável. O retrato foi feito no dia em que mamãe chegou ao hospital. Também vejo minha prima Andréia, que veio nos visitar e, assim, compartilhar de seu amor. A presença dela nesse momento me mostra o amor ao próximo, a solidariedade, a compaixão, presentes de Deus para aquecer o coração, aplacar a solidão e nos fazer alegrar-nos com quem se alegra e chorar com quem chora. 

A foto me mostra ainda minha esposa, o que me fala sobre a bênção do casamento, instituição divina que nos permite ter aconchego e vínculos, perpetuar nossa linhagem e viver a vida dentro de um projeto conjunto e de auxílio e afeto mútuos. Providência divina para, na dificuldade da vida a dois, sermos moldados cada dia mais à semelhança de Cristo. Enxergo nessa foto também a minha casa, comprada porque Deus me abençoou e à minha esposa com saúde que nos permite trabalhar e com dons e talentos que nos permitem fazer bem nosso trabalho e receber o justo salário que nos permitiu comprar nosso apartamento. 

Vejo ao fundo uma foto de uma viagem de férias que fizemos, presente de Deus para que tivéssemos a alegria do lazer, do descanso e da renovação de forças. A foto me mostra, ainda, o telefone espanhol da década de 1940 que meu irmão me deu. Ao olhá-lo, sou lembrado de que Deus me deu a graça de ter gente que, mesmo distante, me ama e pensa em mim, dando-me até mesmo mimos supérfluos mas que revelam laços fraternos inquebráveis e eternos. 

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Eu poderia dizer muitas outras coisas sobre Deus que enxergo nesta foto, mas creio que já deu para ter uma ideia. O resumo é que, se buscamos a intimidade com Deus, passamos a vê-lo e à sua ação em nossa vida em tudo. Tudo. Tudo. Ao olhar essa foto tão trivial, vejo amor, cuidado, família, alegria, vida, fraternidade, projetos, bençãos de todo tipo, sonhos, capítulos abençoados da jornada… vejo Deus. Sim, eu vejo Deus. E como vejo!

Se você está lendo este texto, acredito que é porque se interessa por assuntos da vida cristã. Então, concluo que você ama a Cristo. E, se ama, é porque ele soberanamente o chamou por sua graça. A partir daí, cabe a você mergulhar nas profundezas desse amor ou ficar apenas sentado à beira do oceano, olhando de longe as marolas do Eterno. Deus fez a parte dele, digamos assim, e trouxe você para si. Porém, quão perto dele você viverá depende de uma busca pessoal, que definirá o tom e o som desse relacionamento. Deus quer fazer uma sinfonia, mas, se você ficar satisfeito em apenas tocar flauta doce, a música da sua vida espiritual ficará muito aquém do que poderia. 

Olhe em volta. O que você vê? 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Minha filha de 6 anos tem um coração admirável. Ela é bondosa, amável, generosa, carinhosa e gentil. Gosta de dar presentes para as amigas e professoras, tem prazer em servir o papai (fazendo café, massagem e outros mimos), procura pacificar quando coleguinhas criam confusões na escola, não revida quando um amiguinho a machuca, esse tipo de coisa. Sou muito grato a Deus por ter-me dado uma filha com características que admiro tanto num ser humano e que me fazem suspeitar que ela tem a semente do Espírito Santo no coração. Mas há um momento da vida de minha filha em que não me sinto feliz com ela e fico profundamente incomodado com seu procedimento: os minutos seguintes a ela chegar da escola.

Minha bebê retorna do colégio de condução escolar, por isso vem junto com crianças de todas as idades, a maioria mais velha. E esse contato tem sido bastante prejudicial, pois ela aprende montes de coisas erradas, ouve e repete funks hediondos, aprende comportamentos mundanos, escuta e repete todo tipo de palavrões, vê e imita formas de falar desagradáveis e reprováveis. Com certa frequência, logo que chega em casa, no embalo da bagunça e do ambiente nada cristão do ônibus, ela entra porta adentro repetindo o que ouve e vê das demais crianças na condução. Sei que ela não se dá conta com total clareza de quão reprovável é tudo isso, então, geralmente, eu nessas horas preciso sentá-la, conversar com ela, orientar, explicar por que aquilo tudo é errado e chamá-la de volta ao seu modo habitual de ser. E ela escuta. Se dá conta do erro. E obedece. Em poucos minutos, a filhota volta a ser a criança de coração admirável que me faz sorrir. Com frequência, porém, após um ou dois dias ela volta a ser influenciada pelo meio que a cerca e novamente fala ou age de um jeito reprovável. E, novamente, tenho de pará-la, lembrá-la de que aquilo é errado e esperar que ela caia em si e volte a agir de modo que me faça orgulhoso e me deixe feliz. 

Um pai sempre quer que seus filhos ajam da maneira que ele considera correta. Se você é pai ou mãe sabe do que estou falando. Por essa razão, meu coração transborda quando minha bebê age com amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Fico exultante quando ela fala com gentileza, quando me relata que o amiguinho a mordeu mas ela conversou com ele e o perdoou, quando age como mediadora de colegas para acabar com brigas e levá-los a fazer as pazes. Nessas horas, fico orgulhoso e sinto um júbilo especial, uma sensação difícil de descrever. Por outro lado, quando a vejo imitar comportamentos que não estão de acordo com o que acho correto, fico triste, incomodado e sou impulsionado a fazer algo para que a filhota perceba que aquilo que está fazendo não é bom e não reflete quem ela é. 

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Se você acompanha há algum tempo o APENAS, sabe da minha cruzada pessoal para alertar meus irmãos e minhas irmãs em Cristo de que um cristão que se diz nascido de novo obrigatoriamente tem de manifestar as virtudes do fruto do Espírito. Não vejo base bíblica alguma que justifique alguém que se diz salvo ser destemperado, agressivo, bruto na forma de falar, se posicionar e discordar. Em minha visão bíblica, cristãos professos que se comportam dessa forma ou não nasceram de novo ou se deixaram enganar pelos “colegas do ônibus escolar”. Acreditam que podem ser cristãos e ao mesmo tempo arrogantes, debochados, maldizentes, depreciadores, semeadores de discórdia entre irmãos em Cristo, agitadores ou ofensivos. Isso é tão coerente quanto dizer que o fogo pode ser molhado. São conceitos imiscíveis, incompatíveis. 

Como pai, detesto quando minha filha fala de jeito reprovável ou age de modo que entristeça meu coração. Por essa razão, consigo sentir um lampejo do que Deus sente ao ver aqueles que se dizem seus filhos agirem como multidões têm agido, com destempero, descontrole, deboche, espírito faccioso e montes de outras obras da carne.

Você pode estar pensando: “Lá vem o Zágari de novo falar sobre esse assunto”. Desculpe, meu irmão, minha irmã, mas não consigo não falar. Pois, do mesmo modo que eu, por amor, jamais cessaria de apontar à minha filha os erros em sua forma de falar e agir até que ela se corrigisse, não consigo ficar inerte ao ver membros do mesmo Corpo que eu agindo e falando como mundanos e dar as costas a isso, fingindo que está tudo certo. Pois amo Deus demais para ver tantas atitudes que entristecem o coração divino e deixar por isso mesmo. Não dá. Não tenho como. Não consigo. Quero ver Deus sorrindo ao olhar para aqueles que se dizem seus filhos, e não entristecido pela forma desviada como muitos têm se comportado “em nome de Jesus”. 

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Assisti recentemente a um vídeo no YouTube em que dois manos conversam sobre islamismo. O vídeo foi ótimo. O meu erro foi decidir ler os comentários. Fiquei horrorizado com a forma como vi diversos cristãos discordando do que foi dito no vídeo. Quanta deselegância. Quanto mundanismo. Quanta ofensa gratuita. Meu intelecto limitado não consegue  compreender o que leva alguém que diz seguir os ensinamentos do Príncipe da Paz e do Manso Cordeiro a se comportar como o pior dos mundanos na hora de se posicionar, expor suas crenças e discordar de outras pessoas. Raiva, desdém e rancor no conteúdo. Palavras torpes, sentimento faccioso e descontrole na forma. Em suma: um jeito totalmente anticristão de ser. 

Meu irmão, minha irmã, pode ser que a ênfase da sua vida espiritual esteja em coisas como tentar transformar arminianos em calvinistas, pré-milenistas em amilenistas ou cessacionistas em pentecostais, não sei. Vejo muitos que fazem desse tipo de coisa a bandeira de sua missão. Eu respeito essa escolha, embora não a veja como prioritária. A minha missão é tentar mostrar que o amor com que Deus quer que nos amemos é indispensável para quem se diz cristão. Em tudo. Até mesmo na divergência de ideias.

Amar é o mandamento maior. E uma gigantesca parte da Igreja está ocupada demais para amar; ocupada atacando irmãos em Cristo que pensam de forma diferente, discutindo o sexo dos anjos, coando mosquitos e engolindo camelos, irando-se e se engajando em discussões áridas e infrutíferas. Amar pressupõe instruir e não desqualificar. Amar pressupõe ensinar com carinho e não fuzilar. Amar pressupõe ouvir o discordante com paciência e mansidão e não com cabeças balançando e olhares revirados. Amar pressupõe ver o bem do próximo e não tentar mostrar que o próximo é um burro que não entende nada daquilo sobre o que você acha que sabe tudo. Amar é algo muito mais elevado do que aquilo que muitos aprenderam no ônibus escolar e replicam achando que está tudo bem.

Eu sou um chato, eu sei. Vivo repetindo essa chatice que é a necessidade prioritária e urgente de amar. Tudo bem, já entendi que, para muitos, amor não é um tema tão empolgante como debates acadêmicos sobre o sexo dos anjos. Amar está muito fora de moda na era das redes sociais, na qual todo mundo se acha o ensinador dos não iluminados e que, em nome da defesa da sã doutrina que manda amar até mesmo os inimigos, é justificável agir com total desamor. Amor se tornou um assunto brega em muitos círculos teológicos. O negócio é discutir em congressos o que seria a igreja relevante (quando a Bíblia já diz há séculos que a igreja relevante é a que ama), debater em programas de TV doutrinas soteriológicas (quando não adianta nada ser calvinista ou arminiano se você não ama quem crê na doutrina em que você não crê), ridicularizar quem crê de maneira divergente quanto aos dons (quando Paulo deixa claro que o dom supremo é o amor).  E por aí vai. 

Não, meu irmão, minha irmã, amor não é assunto para revistas femininas adolescentes e para poesias infantiloides. Amor é a coluna vertebral do evangelho de Jesus Cristo. É pelo amor que somos identificados como discípulos do Nazareno. Mas, infelizmente, como muitos não amam, devotam a vida a assuntos menos importantes da fé, defendendo sua visão com total desamor. E isso não é cristianismo. 

A vida no útero materno não é um fim em si mesma, nós passamos nove meses na barriga de nossa mamãe em preparação para viver décadas do lado de fora, sendo formados, construídos. Do mesmo modo, esta vida terrena é uma preparação para a eternidade: vivemos poucas décadas aqui sendo forjados, moldados, lapidados a fim de viver bilhões de anos futuros na realidade vindoura. Fico pensando como seria a vida em novos céus e nova terra junto com pessoas desagradáveis, briguentas, ofensivas, intolerantes, tolas e que falam e se comportam como quem acabou de sair do ônibus escolar.

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A conclusão a que sou obrigado a chegar é que gente assim nunca viveria em novos céus e nova terra. Não foram transformadas. Dizem amar Cristo mas se comportam e falam como anticristos. Mas consigo imaginar com extrema facilidade aqueles que, por terem sido verdadeiramente transformados pela graça salvadora da cruz, devotaram suas décadas sobre a terra a viver de modo amoroso, amável, bondoso, caridoso, gentil, pacificador e manso circulando pelas ruas da cidade futura, onde Deus brilhará com sua luz de puro amor.   

Meu irmão, minha irmã, se Deus o chamou por sua graça, mas você percebe que ainda é uma pessoa bruta, ou sarcástica, ou iracunda, ou ofensiva, ou que gosta de ver o circo pegando fogo, ou que destrincha o Corpo de Cristo e semeia desunião e discórdias, ou que fala de modo agressivo, ou que é altiva, ou que devota seus dias a só ficar apontando o erro alheio mas arrogantemente não aceita reconhecer os próprios erros… eu só poderia lhe dizer uma coisa, por amor: arrependa-se.

Arrependa-se desses pecados e abra-se para o labor do Espírito Santo em sua vida. Abandone essas práticas carnais e mundanas, que não estarão presentes em novos céus e nova terra, e devote-se a ser aquilo que Deus espera ver naqueles que tomará para si na eternidade. Por favor, arrependa-se, enquanto ainda é tempo. E passe a amar com verdadeiro amor cristão, aquele que você não encontra nas poesias de Vinicius de Moraes e Renato Russo, mas vê, com total clareza, transbordar de cada página das Sagradas Escrituras.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Não sei se você já tomou conhecimento disso, mas há poucos meses foi lançado um par de óculos especiais que permite a pessoas daltônicas enxergar as cores. Um daltônico é alguém que sofre de um tipo de deficiência visual que não lhe permite ver algumas cores específicas. Por essa razão, ele não consegue ver o verde, o vermelho, o azul ou o amarelo (dependendo do caso) e, no lugar dessas belas cores, enxerga tons sem graça, como cinza e marrom. Você consegue imaginar como se sente alguém que viveu anos ou décadas  enxergando o mundo com cores monocromáticas e apagadas e, de repente, põe os tais óculos e passa a ver a vida em todo o seu esplendor de cores? Pois bem, não é preciso mais imaginar. Isso tornou-se realidade quando esses óculos especiais chegaram ao mercado, há poucos meses.

Para continuarmos nossa reflexão, eu pediria, por favor, que, antes, você assistisse a um vídeo que mostra daltônicos enxergando por meio desses óculos e vendo as cores em toda a sua vivacidade pela primeira vez. Veja neste link: https://youtu.be/TROCGz5qvmw. Só depois de ver pelo menos uma parte do vídeo, por favor, continue a ler este texto, para que ele faça sentido.

Eu espero, pode ir lá assistir. 

Pronto.

Assistiu ao vídeo? Então vamos adiante.

Foi emocionante, não? Eu confesso que derramei lágrimas nas duas vezes em que o vi. O que mais tocou meu coração foi tentar me pôr no lugar daqueles homens e mulheres e imaginar como foram impactados pela diferença de sua percepção da vida antes e depois de pôr os óculos. 

É importante lembrar que nenhuma dessas pessoas jamais havia visto o mundo de modo diferente do que sempre viram: cinzento, amarronzado, monocromático, sem graça. Para eles, aquilo era a normalidade. Eles não tinham como compreender plenamente o que significava enxergar a vida com todas as suas cores verdadeiras. Por essa razão, visto que nasceram e cresceram tendo como único referencial aquela realidade distorcida, se acostumaram a ela e não conseguiam nem ao menos conceber que o mundo fosse qualquer coisa diferente do que sua concepção lhes mostrava. 

Até que puseram os óculos. 

Pense na emoção que sentiram. Eles se deram conta de que, pela primeira vez, estavam vendo as coisas como elas verdadeiramente são. A verdade é vibrante, é vivaz, é vermelho-sangue, laranja, verde em tons diferentes, é magnífica! Porém, como seus olhos jamais tiveram a capacidade de enxergar a realidade como ela é, aqueles daltônicos estavam acostumados à pasmaceira de sua percepção monocromática, sem graça, monótona. A vida daquelas pessoas era uma sombra da realidade, pois elas não conseguiam enxergar as verdadeiras cores da realidade. Em outras palavras, seu mundo era uma mentira – o que não as incomodava, visto que estavam totalmente acostumadas à sua concepção inverídica da própria existência. Mas, depois que puseram os óculos especiais, com toda certeza sua vida nunca mais foi a mesma.

Aqueles óculos me lembram o evangelho de Cristo. Nascemos mortos em delitos e pecados, satisfeitos com nossa vida de miséria. Acreditamos piamente que aquele mundo cinzento e amarronzado em que vivemos é a única realidade possível e não conseguimos conceber que haja uma realidade melhor, mais verdadeira, extraordinária e vibrante do que o nosso universo cinza. Nos conformamos em achar que os múltiplos tons de verde nas árvores da existência são de uma única tonalidade, que o céu do pecado é maravilhoso em sua cor pálida e sem graça, que os balões da festa da eternidade são ótimos do jeito que estão. Não achamos que nada precisa mudar. Estamos acomodados com a realidade irreal em que habitamos desde sempre. 

Até que…

Um dia, o Espírito Santo de Deus põe em nosso rosto os óculos da graça. E, quando nos damos conta… uau! Uau! Tudo muda! A reação de quem consegue pela primeira vez enxergar a vida pelas lentes do evangelho da graça não é muito diferente da que tiveram os daltônicos do vídeo ao se dar conta de que a vida real era infinitamente mais extraordinária do que a sua percepção distorcida da vida. Se passamos por um real novo nascimento, a emoção é similar. Percebemos que tudo o que vivemos até ali era uma mentira. Um simulacro. Vivíamos na caverna e achávamos que as sombras eram vida. Ficamos pasmos. Assombrados. Estupefatos. É o que a graça faz: nos mostra a beleza daquilo que jamais havíamos percebido antes. E estamos maravilhosamente condenados a nunca mais olhar para a vida da mesma maneira. 

Durante os minutos em que assisti ao vídeo, dois pensamentos ficaram em minha mente:

O primeiro foi ficar refletindo sobre a genialidade de quem criou esses óculos. Se as pessoas do vídeo estavam tendo aquela experiência extraordinária, não era por mérito delas, mas do criador daquela tecnologia. Alguém que se dedicou, provavelmente por anos, a decifrar como criar óculos que permitissem a daltônicos ver as cores como realmente são. O mundo que aqueles homens e mulheres descobriram foi por puro mérito do criador dos óculos. Assim como, no evangelho de Cristo, ver a vida pelas lentes da salvação é algo que recebemos por mérito único e exclusivo do Criador. Isso é graça. Nós estávamos parados, felizes com nossa vida cinzenta de pecado, sem desejar nada diferente das folhas marrons das árvores da vida, quando Deus pôs os óculos da graça em nosso olhos e passamos a ver tudo de modo novo, extraordinário e verdadeiro. 

O segundo pensamento foi sobre o fato de que as pessoas do vídeo que receberam os óculos os ganharam de presente de alguém, a mãe, o pai, a esposa ou um amigo. Alguém foi o responsável por levar ao daltônico a boa-nova de que aqueles óculos lhe permitiriam ver o mundo de modo diferente. No evangelho de Cristo, isso também ocorre. Para que as pessoas consigam ter acesso aos óculos da graça salvadora, alguém como eu e você tem de levar até elas essa boa-nova. O nome disso, você já sabe, é evangelismo. 

Você não ficou emocionado ao ver aqueles daltônicos sendo tocados na alma por descobrir a verdade da vida? Não agradece a Deus por alguém ter tido a ideia de dar-lhes aqueles óculos? Se a sua resposta a essas perguntas foi positiva, gostaria de estender esse questionamento à pregação do evangelho: você tem o mesmo tipo de emoção ao ver uma pessoa convertida a Cristo? Se não tem, deve se perguntar por que um daltônico ver cores o emociona mais do que uma alma ser salva do inferno. Se tem, eu perguntaria quantas vezes você já foi o canal para pessoas sentirem esse tipo de emoção. Em outras palavras: quanta gente você já evangelizou? A quantas almas cinzentas você já estendeu os óculos da realidade espiritual?

A cruz e a sepultura vazia são os óculos que nos deram acesso às cores desta vida e da vida eterna. Mas, se não formos até os daltônicos espirituais e lhes estendermos esses óculos por meio da proclamação do evangelho, eles continuarão eternamente achando que o vermelho é cinza e que o verde é marrom. Como embaixador do reino de Deus, você tem proclamado a salvação por meio de Cristo? Tem aberto a boca para chamar pecadores ao arrependimento e à remissão de seus pecados? De nada adiantará haver óculos disponíveis se você não os levar aos daltônicos espirituais. 

Termino com uma reflexão. Imagine que um daltônico tivesse outro amigo daltônico. O primeiro ganha de presente os óculos especiais mas jamais conta ao amigo o que aqueles óculos são capazes de fazer por ele. O que você pensaria desse cara? Gostaria dele? O consideraria uma pessoa legal? Ou o consideraria um egoísta desalmado, que desfruta de todos os benefícios e todas as emoções proporcionados por ter e usar aqueles óculos sem compartilhar com o amigo? Assim é, também, com quem desfruta de toda a espetacular experiência que é ver o mundo pelos óculos da graça e ter a salvação por meio de Cristo e guarda para si essa boa-nova. Como tem sido com você? Você compartilha o evangelho com quem não conhece o amor de Cristo ou o guarda só para si? O que a sua atitude fala a seu respeito?

Se você percebe que tem sido silencioso e não compartilha a maravilhosa e multicolorida graça de Cristo com o mundo cinzento e triste, alguma coisa está errada. Algo precisa mudar. E só depende de você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Hoje gostaria de refletir com você sobre um mal que assola todos nós. Para tanto, preciso começar explicando que semana passada recebi um prêmio por um livro que escrevi. O Prêmio Areté é uma premiação anual da Associação dos Editores Cristãos do Brasil, uma espécie de “Oscar” da literatura cristã em nosso país. Meu livro “Confiança inabalável: Um livro para quem quer vencer o medo e a ansiedade” foi escolhido o melhor do ano na categoria “Melhor livro de meditação, oração e comunhão”. Você pode imaginar a avalanche de elogios e congratulações que recebi. E, com eles, começaram a brotar em meu coração alguns dos sentimentos mais destrutivos para um ser humano: vaidade e orgulho. Sim, é feio confessar isso, mas é a pura verdade e negar seria hipocrisia: por alguns instantes, eu cri que era digno de receber os louvores por esse feito. Felizmente, isso durou pouco tempo, pois, logo, o Espírito Santo soou o alarme. Quando me dei conta de que tais sentimentos estavam brotando em meu coração, parei. Silenciei. Afastei-me das vozes. E me pus em meu devido lugar. Sabe… absolutamente todos nós somos tentados na vaidade, na soberba, no orgulho. Todos! Eu, você e o resto da humanidade. A questão é: o que fazer quando essa erva daninha germina em nossa alma?

Como devemos lidar com as nossas qualidades? Quais são os pensamentos mais secretos que passam pela sua cabeça quando alguém diz que você é uma bênção, alguém maravilhoso, com capacidades extraordinárias? Como fica o seu coração quando dizem que a sua pregação foi sensacional, que você canta como ninguém, que o livro que escreveu mudou vidas, que seu conhecimento teológico é inigualável, que você é ótimo no que faz, que seus talentos o destacam dos demais? Essa é uma questão muito delicada e sempre presente na vida de um cristão, pois sabemos que a Bíblia nos ensina a humildade, enquanto nosso ego vive querendo nos exaltar. 

O grande problema da vaidade, do orgulho, da soberba, da altivez é que tais sentimentos fazem de nós idólatras e ladrões. Deus disse: “Não permitirei que meu nome seja manchado e não repartirei minha glória com outros” (Is 48.11, NVT). Toda glória e toda exaltação pertencem ao Criador e, se passamos a nos glorificar e a acreditar que devemos ser exaltados, nos tornamos ídolos no altar do nosso coração e roubamos a glória que pertence única e exclusivamente a Deus. Portanto, ao nos envaidecermos e nos ensoberbecermos, ferimos o primeiro e o sétimo mandamentos. Conclusão: vaidade e orgulho são cânceres para a alma. Se aceitamos isso em nossa vida, nos tornamos como Satanás, que, de modo prepotente, quis ser exaltado à revelia do Criador. 

Você poderia pensar: mas se eu tenho tais qualidades, qual seria o problema de aceitar os elogios, as bajulações, a exaltação? A resposta bíblica a essa questão veio de Tiago: “Toda dádiva que é boa e perfeita vem do alto, do Pai que criou as luzes no céu. Nele não há variação nem sombra de mudança” (Tg 1.17, NVT). O que isso quer dizer é que tudo o que temos de bom em nós não nos pertence, mas é concessão de Deus. Vou dar um exemplo. 

Você abre o filtro de água em sua casa num dia de calor escaldante e sacia a sua sede com aquele líquido maravilhoso, fresquinho e refrescante que sai da torneira. Então, vira-se para o cano que leva a água do rio até sua cozinha e começa a elogiá-lo: “Cano, como você é maravilhoso! Devo tanto a você, seu cano talentoso, que produz uma água tão gostosa! Bendito é você, cano, que gera a água que me dá vida!”. O cano vaidoso pode pensar: “Sim! Eu sou demais, veja como a MINHA água é inigualável!”. Já o cano humilde estranhará e responderá: “Mas, meu amigo, essa água não é minha, eu não tenho nenhum mérito na produção dela, tudo o que faço é ser um canal para que ela venha da fonte até você”. Meu irmão, minha irmã, eu e você somos o cano. Deus é quem tem o mérito por produzir a água, construir o cano e o instalar no lugar certo, a fim de que funcionasse corretamente. Nosso papel é apenas conduzir a água da vida do manancial até os sedentos. Nosso mérito nisso? Nenhum. Assim como o cano não tem mérito algum pela água que transporta. 

Receber orgulhosamente o mérito por isso é querer ser manancial quando somos apenas cano. Também é roubar de quem nos criou e criou a água toda a glória pela existência da água e por nos ter posto na posição certa para conduzi-la. Somos canos rachados e enferrujados. Toda honra e toda glória são da fonte de águas vivas. 

Meu irmão, minha irmã, você fará muitas coisas bem feitas ao longo da vida. E isso é ótimo! Prepare-se da melhor forma possível e esforce-se ao máximo para realizar tudo com excelência. E tenha a certeza de que ações bem realizadas receberão elogios. Prêmios. Troféus. Muitos “parabéns” e louvores. E, nessas horas,  a semente da vaidade vai germinar. O orgulho brotará. Isso é líquido e certo. E não adianta negar, porque esses sentimentos brotam queiramos nós ou não. A questão é: regamos e adubamos essa planta comedora de almas ou a arrancamos pela raiz? A Bíblia responde: “O orgulho leva à desgraça, mas com a humildade vem a sabedoria” (Pv 11.2, NVT); “A arrogância precede a destruição; a humildade precede a honra” (Pv 18.12, NVT); “O orgulho termina em humilhação, mas a humildade alcança a honra” (Pv 29.23, NVT); “Se vocês são sábios e inteligentes, demonstrem isso vivendo honradamente, realizando boas obras com a humildade que vem da sabedoria” (Tg 3.13, NVT). 

A tentação, esse broto recém-saído da semente, não é o problema. Nem novidade. É certo que imediatamente após o elogio virá a vaidade, pode ter certeza. Mas o grande xis da questão é que você não pode permitir que ela se instale em seu coração, pois, se permitir, o broto crescerá e se transformará na terrível árvore do pecado. E seus frutos são venenosos. Portanto, assim que você perceber a vaidade, o orgulho e a arrogância brotando dentro de si, esmague esses sentimentos antes que seja tarde. Sufoque-os. Mostre-lhes quem é que manda. E quem manda, lembre-se, não é você: é Deus. 

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O prêmio que recebi pelo “Confiança inabalável” não é meu. Foi Deus quem iluminou minha mente para que eu pusesse as ideias no papel. Uma equipe de 40 pessoas da editora Mundo Cristão trabalhou para que o livro existisse, da edição do texto à distribuição nas livrarias, eu não fiz o livro sozinho. Hernandes Dias Lopes escreveu o prefácio e William Douglas, a apresentação. E é o Espírito Santo quem usa as palavras do livro para tocar corações e transformar vidas. É uma obra cheia de contribuições e de dedos de outras pessoas, além de vir de Deus e ser usada por Deus no coração de cada leitor. Por que, então, eu deveria ter vaidade? O que justificaria eu ter orgulho? Sou cano! Deus é quem idealiza, distribui os dons e talentos, ilumina mentes, usa o resultado na edificação de vidas… Tudo vem dele, para ele. A Deus a honra, a glória, o louvor, a exaltação. Ele é digno, bom, justo, soberano, maravilhoso, inigualável. E eu? Eu sou indigno, mau, falho, imperfeito, pecador, desesperadamente carente da graça de Deus. 

Meu irmão, minha irmã, quando vier a vaidade, lembre-se de que você é cano. Quando muitos te elogiarem e te abraçarem com os olhinhos brilhando, lembre-se: cano. Quando te exaltarem, te seguirem aos milhares no facebook, te abraçarem emocionados por tirar uma foto com você, escreverem e falarem palavras de louvor às tuas grandes qualidades, sussurre baixinho para não se permitir esquecer: “CANO…”. 

Cano… 

Cano…

Cano. 

Só a Deus a glória. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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