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Deus está no controle 1­Deus está realmente no controle das coisas? Ele já tem tudo previsto ou existe margem para mudanças nos planos divinos? Se o Senhor está no controle, até onde vai sua esfera de intervenção nas coisas do mundo? Livre-arbítrio é uma heresia arminiana? Ou determinismo é uma heresia calvinista? É fato que o Todo-poderoso não está por trás das catástrofes, como alega o teísmo aberto? Como se explica a história de Ezequias, o rei israelita que ganhou 15 anos a mais de vida após orar a Deus? Se o Senhor já sabia que a humanidade pecaria, por que a criou? Se Jesus veio à terra para morrer por nossos pecados, por que pediu ao Pai que afastasse dele o cálice do sofrimento? Se Jesus é descendente de Davi por meio de Bate-Seba, a mulher com quem o rei adulterou, Deus queria que esse adultério ocorresse? Questões como essas dão nó nos neurônios de muita gente, para quem a grande equação por meio da qual Deus conduz o universo é um enigma incompreensível e insolúvel. Esta semana vivi uma experiência que me fez pensar muito sobre como o Senhor age em nossa vida.

Perdão Total_Capa 3D em altaDesde que foi lançado meu mais recente livro, Perdão Total — Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar, tenho sido convidado para pregar ou palestrar sobre o assunto em diferentes cidades do país. Domingo passado, estava agendado para que eu pregasse na Igreja Batista Jardim Icaraí, em Niterói (RJ). Como eu não dirijo, um casal querido, Ana e Renato, se dispôs a sair de Niterói e me pegar em casa, em Botafogo, bairro do Rio de Janeiro. Ficou combinado que eles me pegariam às 18h, pois o culto começava às 19h30. Iríamos eu, minha esposa e minha filha de 4 anos. Só que o imprevisto ocorreu, com toda força.

No meio da tarde, um temporal desabou sobre a cidade. Foi um daqueles aguaceiros que dão reportagem em jornais, com ruas alagadas, trânsito parado e caos. Resultado: depois de muito penar para chegar até meu prédio, fugindo de bolsões de água e trechos intransitáveis, Ana e Renato conseguiram estacionar, ilesos, no posto de gasolina em frente ao meu edifício. Só que já eram 19h e a chuva não dava sinal de trégua. Assim que chegaram, Ana me telefonou e tentei ir até eles, mas minha rua tinha virado um rio e era impossível dar um passo fora da portaria. Conversamos, então, por telefone e, depois de eles terem consultado o seu pastor, todos vimos que não conseguiríamos chegar à igreja a tempo do culto. Resultado: de comum acordo, decidimos adiar minha ida para outro dia. Depois de um tempo, as águas começaram a baixar e consegui fazer um malabarismo para ir até eles. Conversamos pessoalmente e a decisão foi reafirmada.

Confesso que subi de volta para meu apartamento decepcionado e questionando Deus. Já no elevador, eu comentava com o Senhor que não entendia aquilo. Será que ele não queria que eu compartilhasse a mensagem do perdão com os membros daquela igreja? Claro que tenho o entendimento de que o temporal não caiu só por minha causa, mas, como eu também sou uma letra na equação divina, entendo que minha vida também é incluída nas decisões de Deus. Assim como a sua. Assim como a de qualquer pessoa. Fato é que fiquei triste por não poder ir até Niterói pregar sobre um assunto que considero extremamente urgente.

E foi então que a história deu uma guinada.

Deus está no controle 2Cerca de vinte minutos depois de ter chegado em casa, minha filha, que passou o dia inteiro bem disposta, estava arrumada e animada para sair e ficou bem triste por não termos ido à igreja, começou a reclamar de dor de cabeça. Em minutos, a dor ficou extremamente forte e ela passou a sentir um mal-estar generalizado. De repente, o susto: a pequena se revirou na cama e vomitou em profusão. Enquanto eu limpava a sujeira, sua mãe a levou ao banheiro para lavá-la. Lá, mais vômitos. Achei que a crise tinha acabado. Dei-lhe um pouco de água para beber e deitamos no sofá da sala para assistir a uma apresentação de balé. Em poucos minutos, a pequena começou a acusar nova dor de cabeça e mal-estar. Virou-se para o lado e vomitou pela terceira vez, agora no chão da sala.

Foi quando percebi que a coisa ia além de um simples enjoo e tomei a decisão de levá-la para o hospital. Como alguém que já passou três dias internado em um CTI por infecção intestinal grave, levo muito a sério esse tipo de sintomas. Assim, nos vestimos rápido, descemos, vimos que a água já tinha baixado o suficiente para sairmos, pegamos um táxi e disparamos para a emergência pediátrica. Chegamos ao hospital e logo fomos atendidos. Assim que entrou na sala do médico, minha filha vomitou novamente, com espasmos bastante fortes. Seu estômago estava vazio e quase não saía mais nada. Depois dos exames preliminares, entramos na sala de atendimento de emergência, onde, enquanto aguardava para tomar uma injeção, a pequena vomitou pela quinta vez. A dor de cabeça era grande. O mal-estar e a moleza, generalizados. O médico decidiu fazer uma tomografia computadorizada da cabeça.

Vou resumir as três horas e meia seguintes, passadas entre exames e tratamentos, em um parágrafo: graças ao atendimento rápido, minha filha pôde ser liberada naquela mesma madrugada do hospital. Os médicos não conseguiram determinar o que ela teve, mas as suspeitas vão de intoxicação alimentar a viroses. A medicação rápida contribuiu muito para seu quadro não piorar. Ela ficou dois dias em casa, de repouso, ainda com dores, febre e enjoos, mas, com o tempo, o problema passou.

Deus está no controle 3Fiquei pensando. Se tivéssemos ido a Niterói, minha filha passaria mal longe de casa, talvez presa em algum engarrafamento, talvez momentos antes de eu subir ao púlpito para pregar. Imagine como teria sido. Tudo é um grande “talvez”, mas uma coisa é certa: o fato de estarmos em casa quando ela passou mal foi decisivo para que fosse rapidamente socorrida e, seja lá o que a tenha acometido, o mal ter sido debelado com o mínimo de dor e desconforto. Quem sabe, até, uma demora no socorro poderia ter agravado o quadro e gerado problemas mais severos.

E aí fica a pergunta: será que Deus me impediu de ir a Niterói para que eu pudesse socorrer minha filha? Teria ele sacrificado a pregação naquele dia específico em prol do que ele sabia que aconteceria com minha pequena? A resposta é que não sei, é muito complexo pensar sobre isso e eu não sou onisciente. Não tenho como afirmar nada. Mas, quando olho para a Bíblia, vejo que “O Senhor faz tudo com um propósito” (Pv 16.4). Mais ainda, percebo que “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Rm 8.28). Então, ao ler verdades como essas, solidifico em meu coração uma realidade: nada do que aconteceu foi à toa.

O acaso não existe. Sorte é um conceito antibíblico. O que prevalece é a soberania de Deus. E, nessa soberania, o Senhor fez com que, em meio a milhões de cariocas e niteroienses afetados pelo temporal de domingo, eu não fosse pregar conforme tinha sido planejado e, assim, estivesse em casa para socorrer com agilidade minha filha. Se você me perguntar se foi coincidência, vou sorrir, com toda a certeza do mundo de que Deus teve um propósito no que ocorreu e que ele agiu para o nosso bem.

Meu irmão, minha irmã, preste mais atenção às coisas que acontecem em sua vida. Não digo só as grandes; as pequenas e insignificantes também. Pois, se tudo Deus faz com um propósito e em todas as coisas ele age pelo bem dos que ama, lembre-se que tudo significa tudo. E todas as coisas significa todas as coisas. Não uma parte, não uma parcela, não umas e não outras. Tudo. Todas as coisas. Esse é o Deus da Bíblia.

Deus está no controle 4Com essa percepção, você vai passar a perceber a ação de Deus no engarrafamento, no chuveiro que pinga, no calor abrasador, no mendigo que lhe pediu dinheiro, no atraso do dentista, na gata que fugiu de casa, na topada do pé. Há gente que brinca com quem atribui tudo ao Diabo, criticando quem diz que “queimou o arroz, é culpa do Diabo”. Eu discordo. A “culpa” é de Deus. Pois ele tinha em mente aquele arroz queimado. Para quê? Sei lá! Mas ele sabe. A vida é uma grande engrenagem, que tem como finalidade nos conduzir à vida eterna, em Cristo. Como tudo isso funciona eu não faço ideia, os pensamentos do Senhor são muito mais elevados do que os meus para que eu consiga compreender. Mas de uma coisa eu sei: eu não preciso saber todos os mistérios do Senhor nem conseguir explicá-los, pois basta compreender que Deus sabe tudo. Peço apenas que ele me tome pela mão e conduza meus passos. Em outras palavras, “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

Digam o que quiserem, Deus está no controle. Uns chamam de sorte, eu chamo de Deus. Uns chamam de acaso, eu chamo de Deus. Uns chamam de livre-arbítrio, eu chamo de Deus. Uns chamam de determinismo, eu chamo de Deus. Chamem do que desejarem, elaborem as teorias teológicas que quiserem, a resposta será sempre uma só: Deus. E, com isso em mente, devemos fazer a nossa parte e, em seguida, agir como recomendou o salmista: “Entregue o seu caminho ao SENHOR; confie nele, e ele agirá” (Sl 37.5).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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barrigaGostaria de refletir sobre um assunto altamente espiritual: minha barriga. Calma, não ria, é sério: pensando sobre minha barriga aprendi algumas coisas interessantes sobre nossa vida espiritual. Para você entender aonde meus pensamentos me levaram, primeiro preciso dizer que, até os 27 anos, eu fui magro. Mas muito magro. Imagine que eu tinha 1,80 metro e 55 quilos. E era uma magreza de origem genética, pois, por mais que eu tentasse engordar (e eu tentei), era inútil. Nada do que eu fizesse ou comesse alterava meu peso, que me acompanhou desde que terminou minha fase de crescimento até eu completar 27 anos.

Naturalmente, essa condição me proporcionava muitas vantagens. A principal delas é que eu não tinha limitações para comer: podia mandar para dentro de tudo e mais um pouco, que não engordava um grama sequer. Então eu cometia atrocidades, como ingerir uma lata inteira de leite condensado enquanto assistia a um filme, devorar um balde de pipoca doce sem drama de consciência, comer quanto quisesse nos rodízios de pizza… era uma vida livre de preocupações alimentares.

Mas aí chegou o dia em que meu DNA disse “é agora!”. Sem que me desse conta, minha barriga começou a crescer. Meu umbigo, que era uma bolinha estufada, desapareceu nas profundezas de um buraco que surgiu sabe-se lá de onde. E, assim, tudo mudou. Eu, que nunca me preocupara com balanças, passei a ir regularmente a uma farmácia para me pesar, assustado com essa realidade inédita. E foi quando comecei a perceber que, dependendo do que, a partir de então, eu comia, a barriga crescia ou diminuía.

Tive de comprar calças novas. Mudar o buraco do cinto. O terno que usava desde os 18 anos foi doado. Comecei a sentir uma dor na lombar que nunca sentira antes, fruto do peso extra que agora transportava na grande pochete abdominal. Tudo mudou. Tive de formatar minha mente e recalibrá-la para entender que não dava mais para comer como antes comia, nem viver como antes vivia. Essa nova realidade me forçou a transformar o modo como eu pensava e agia.

Falando desse modo parece fácil, não é? Mas não foi. 27 anos acostumado a comer do jeito que queria, o que queria, quantas vezes por dia quisesse e, de repente, se ver obrigado a mudar tudo. Foi duro. Minhas refeições, antes descontroladas, passaram a ser planejadas. Alimentos tiveram de ser repensados, bem como a quantidade e a frequência de sua ingestão.

Hoje, aos 43 anos e com 83 quilos, continuo com aquela barriga protuberante, que, se eu seguir os passos de meu pai e meus tios, vai ficar ali para sempre, me presenteando com um perfil hitchcockiano. Nesses 16 anos, imergi em uma nova realidade alimentar e é até difícil, hoje, pensar em como era viver do jeito que vivi por 27 anos. Somou-se à protuberante barriga uma taxa nada simpática de colesterol, de origem genética, e o resultado teve de ser uma total renovação na minha maneira de me relacionar com a comida. Mudei. E é um caminho sem volta.

A conversão nos leva a algo parecido. Ser chamado por Cristo das trevas para a luz muda tudo. Mas, ao contrário do que muitos pregam, não é uma mudança que ocorra sem esforço. Vivemos por muitos anos de modo descontrolado e, de um dia para outro, somos obrigados a repensar toda a nossa existência. Práticas pecaminosas têm de ser abandonadas. Passamos a nos pesar diariamente em uma balança chamada “Palavra de Deus”, que denuncia quando saímos do rumo. O novo nascimento nos leva a isto: uma total renovação da mente e do coração.

Pecados que antes eram práticas naturais ao homem perdido precisam ser avaliados e deixados de lado. A maneira de nos relacionarmos conosco e com o próximo necessariamente se transformam. Precisamos pensar não mais por nossa conta, mas segundo a mente de Cristo. É metanoia, a transformação da mente e do coração.

Se você foi chamado por Cristo para a salvação por meio de sua graça, é preciso reavaliar tudo. Amizades, atividades, gostos, práticas, preferências… é uma lista extensa. O novo nascimento, como é um fenômeno sobrenatural, muda instantaneamente muito de nós, de um jeito que nem entendemos. Mas não há como fugir desta realidade: muitas inclinações ao que foi pensado e praticado por muitos anos permanecem, como um eco indesejado que se propaga mesmo depois de o grito ter cessado. E só conseguimos vencer essas inclinações mediante a renovação da mente e do coração.

A boa notícia: é possível. A má notícia: muitas vezes não será fácil. Eu, hoje, não tomo mais uma lata inteira de leite condensado de uma vez só, mas, às vezes, dá uma vontade! Olho para a pizza salivando, mas me restrinjo a uma pequena quantidade – e de vez em quando. Não dá para ser como antes, pois as coisas mudaram. Na vida espiritual é a mesma coisa: hoje não é mais você quem vive, mas Cristo vive em você. Você não tem mais como senhor o príncipe deste século, mas o Príncipe da paz. Você não é mais escravo do pecado, mas habitação do Espírito Santo. Sua condição mudou; portanto, suas ações precisam mudar.

Eu sei que você quer fazer o bem, mas o mal ainda reside em ti. Porque, no tocante ao homem interior, tem prazer na lei de Deus; mas vê, nos seus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da sua mente, te faz prisioneiro da lei do pecado que está nos seus membros (Rm 7.21-23). Por isso, é preciso se reinventar, se repensar e lutar para abandonar as antigas praticas e as inclinações que seguem o eco da natureza carnal.

Quando eu tinha 55 quilos, comia tudo o que queria. Mas minha aparência era a de um homem doente, seco, esquelético. Hoje, com 83 quilos, tenho de abrir mão de prazeres que antes tinha, mas meu aspecto é muito mais saudável. O homem sem Deus é um cadáver ambulante; o homem com Deus é a vida eterna sobre duas pernas. Acredite: vale a pena qualquer esforço por isso. E você? O que ainda precisa mudar?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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espanto 1Embora não tenha esta intenção, este post pode chocar você. Então, se você não deseja ser levado a refletir sobre o que não quer refletir, recomendo que pare a leitura agora. É sério: não quero que ninguém que se incomoda com aspectos da humanidade de Cristo se sinta ofendido, portanto se discutir essa questão ofende sua sensibilidade, por favor, não leia.
Se decidiu prosseguir, tenho de perguntar: preparado para pensar sobre alguns aspectos da pessoa de Jesus sobre os quais provavelmente nunca tinha pensado antes? Então vamos lá: Jesus soltava gases. Tirava meleca. Fazia xixi e popô. Ficava grudento de suor. Sem usar bálsamos, tinha cheiro de suor. Arrotava. Tinha cera no ouvido. E por aí vai. Se você ficou abismado por eu estar falando essas coisas e agora me acha um grande herege ou, no mínimo, um enorme desrespeitoso, gostaria de dizer que estou sendo, simplesmente, bíblico. E, acredite, não estou usando o nome de Deus em vão: eu quero chegar, sim, a algum lugar com esta reflexão.
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As Escrituras falam sobre Jesus que “ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana” (Fp 2.6-7). Isso nos mostra que o Criador do universo, o temível e poderoso Deus, o único digno de abrir os selos, aquele diante de quem todo joelho se dobrará, o Rei dos reis e Senhor dos senhores… fez-se como um homem. E, como tal, carregou em si absolutamente todas as características de um ser humano, com exceção de uma: ele nunca pecou. 
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E se, como homem, Jesus tinha todas as características humanas, é natural concluir que ele flatulasse, arrotasse, assoasse o nariz, tivesse cheiro de gente, fizesse necessidades fisiológicas e tudo o mais que eu, você e qualquer ser humano na face da terra fazemos. Quando você acorda de manhã, seu hálito tem aroma de rosas? Nunca teve aquelas reações naturais ao final de uma refeição? Os seus gases têm cheiro de perfume francês? Não? E sabe por quê? Porque você é 100% homem. Assim como Jesus. 
espanto 2Posso ir além? Se está escandalizado, recomendo de coração que pare esta leitura agora, pois a humanidade de Cristo será ainda mais exposta a partir deste ponto. Se continuar, será por sua conta e risco. Quer prosseguir? Então vamos lá: há um aspecto da pessoa de Jesus que poucos falam, com medo das reações, que deixa muitas pessoas de queixo caído e cabelos em pé, mas do qual não se pode fugir: Jesus sofreu tentações em todas as áreas. “Tá maluco, Zágari!?!?!?!?!”. Bem… não, eu não estou maluco. Posso afirmar isso porque as Escrituras afirmam isso. Veja: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.14-15). Repare: “ele foi tentado em TODAS as coisas”, assim como ocorre com qualquer um de nós, seres humanos. E “todas” significaria, por acaso “umas mas não outras”? Ou “todas” significa… “todas”? Se “todas” significa “todas”, posso afirmar que Jesus foi tentado para roubar, mentir, desonrar os pais, ser arrogante, sonegar imposto e se relacionar sexualmente sendo solteiro, entre tantos outros milhares de tipos de tentação.
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Não se escandalize por isso. Entenda que ser tentado é diferente de cometer o pecado. Ter sido tentado em todas as coisas não quer dizer que ele pecou em qualquer uma delas. Pelo contrário: a Bíblia afirma que em tudo Jesus foi tentado e afirma que em nada ele pecou. Então Jesus ter sido tentado não é nenhum problema. Problema teria sido ele pecar. Jesus foi tentado no deserto para cometer enorme abominação: prestar adoração ao Diabo. E isso não escandaliza ninguém. Por que, então, dizer que ele sofreu outros tipos de tentação deveria escandalizar?
espanto 3Agora vamos ao que de fato interessa nesta reflexão: precisamos ter muito claro que Jesus é totalmente humano. Totalmente. Totalmente. A ausência de pecado é o porém: exclua o pecado e ele é igualzinho, em sua humanidade, ao resto da humanidade! Se assim não fosse, ele jamais poderia ter morrido pelo pecado de todos, pois um Deus não-humano não teria como sofrer em nosso lugar. Uma das maiores discussões entre os teólogos dos primeiros séculos de Igreja era exatamente esta: seria Cristo só espírito, só carne, dois em um, um em um…? Como seria a essência do Salvador? Após muitas discussões e concílios (reuniões dos líderes da Igreja) concluiu-se, a partir das Escrituras, que ele abrigava em si, simultaneamente, as duas naturezas: humana e divina. Foi preciso a Igreja passar pelos concílios de Niceia (ano 325), Constantinopla (381) e Éfeso (431), para finalmente, no concílio de Calcedônia (451), sacramentar a afirmação da existência de duas naturezas na única pessoa de Cristo (o que a teologia chama de “diofisismo”). O texto final desse concílio estabeleceu:
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“Na linha dos santos Padres, ensinamos unanimemente a confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, o mesmo perfeito em divindade e perfeito em humanidade, o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto de uma alma racional e de um corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, consubstancial a nós segundo a humanidade, ‘semelhante a nós em tudo com exceção do pecado'(Hb4.15); gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nesses últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus, segundo a humanidade. Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é de modo algum suprimida pela sua união, mas antes as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas em uma só pessoa e uma só hipóstase”(DS 301-302).
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Qual é a grande beleza dessa realidade? De que maneira saber que Cristo é totalmente homem, nos mínimos detalhes, influencia nossa vida? Simples: Jesus nos entende. Ele é plenamente o que nós somos. Assim, compreende com exatidão tudo o que tem a ver com o ser humano. Você solta gases? Jesus entende. Você tira meleca? Jesus entende. Você tem mau hálito de manhã? Jesus entende. Seu desodorante venceu? Jesus entende.
espanto 4De igual modo – e este sim é o ponto que realmente importa -, se Jesus te entende nessas besteirinhas sem importância, ele te entende também nas grandes. Você pecou? O perdão dele é total. “Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó” (Sl 103.12-14). Você está sendo tentado? Ele nos ensina o caminho: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação” (Mt 26.41). Você tem vontade de dar na cara de quem te fez mal? Aquele que foi esbofeteado, cuspido e humilhado mostra como reagir: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus” (Mt 5.44-45). E por aí vai. Cristo tem total identificação conosco, porque se fez como um de nós. O gigante se fez como um anão e, assim, compreende plenamente o que é ser anão.
cruzMeu irmão, minha irmã, compreender a humanidade de Cristo não tem nada a ver com saber que ele fazia isso ou aquilo que todo homem faz. Isso em nada importa, é irrelevante. O que é extraordinário é entender que essa compreensão nos revela um Deus que sabe onde dói a nossa dor; que entende o que é a tentação; que viveu na pele a fome e a sede, a dor e a angústia, o sofrimento e o abandono, a vida e a morte. Jesus ser homem é a grande maravilha do milagre da encarnação: ele entende. Ele entende você. Ele compreende pelo que você está passando. Ele sente nele a aflição da sua alma. Ele tem empatia pelas suas dores. E, por tudo isso, Cristo não dá as costas quando você mais precisa dele. Nunca. Essa é uma das mais lindas consequências da cruz.
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Deus te ama. E quis ser como você é, para que você pudesse entender que ele te entende. E, ao vestir-se de homem, morrer e ressuscitar, Cristo deu a você o poder de passar a eternidade na companhia desse magnífico, extraordinário e belo Deus de amor.
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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pecado 1Será que existe algum pecado que seja pior do que todos os outros? Que seja mais terrível, abominável, repulsivo e condenador? Que seja mais grave, que ofenda mais a Deus, que gere consequências espirituais mais destrutivas que os demais? Entre todos os tipos e variações de pecado haveria um que superasse todos os outros quanto a sua peçonha? Assassinato? Adultério? Idolatria? Soberba? Ganância? Mentira? Suborno? Desonra a pai e mãe? Cobiça? Semear contenda entre os irmãos? São muitas as possibilidades. Claro que não incluímos neste raciocínio a blasfêmia contra o Espírito Santo, pelo fato de que essa é uma transgressão sem perdão. “Em verdade vos digo que tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferirem. Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de pecado eterno” (Mc 3.28-29). Logo, a blasfêmia contra o Espírito Santo é uma categoria totalmente à parte, que não entra no nosso raciocínio. Mas e quanto a todos os outros milhares de tipos de pecados, algum é pior do que os outros?

Sim. Há um pecado absolutamente devastador. Um pecado terrível e assassino. Que está acima de qualquer outro na escala de horror. Se você não sabe qual é, anote: o pior de todos é o pecado sem arrependimento. Qualquer que seja.

pecado 2Jesus não encarnou para condenar, ele se fez homem precisamente para salvar. Jesus é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). A meta de Cristo ao subir à cruz era conduzir pecadores ao arrependimento e, assim, possibilitar o perdão de milhões de vidas. Deus tem um enorme prazer no arrependimento: “Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15.7). Essa percepção é absolutamente transformadora e libertadora, e explico por quê: muita gente acredita, por mil razões diferentes, que Deus não perdoará seu pecado, embora esteja verdadeiramente arrependida de seu erro. Quem pensa assim ainda não alcançou a compreensão, infelizmente, de que o perdão mediante o arrependimento é exatamente o motivo que levou Jesus a despir-se de sua glória para entrar no mundo como um de nós, sofrer e morrer na cruz.

Não falo isso só por teoria: eu mesmo já fiz parte desse grupo. Por um bom tempo vivi com o terrível peso de culpa por enxergar minha enorme pecaminosidade após a conversão, já conhecendo a Verdade. E percebi que aquele era um sentimento que muitos e muitos de meus irmãos e irmãs em Cristo experimentavam: não se enxergavam dignos do perdão de Deus, por terem pecado sendo já cristãos, justificados e chamados pela graça. Foi quando resolvi mergulhar nas Escrituras para compreender com a maior profundidade possível o que elas dizem sobre o processo pecado-perdão-restauração. Foram meses de leitura, estudo e reflexão. Por fim, acredito que consegui compreender com clareza a realidade que envolve essa dinâmica e, consequentemente, passei a ver como existem multidões de cristãos assolados desnecessariamente pela culpa. São homens e mulheres arrependidos, que abandonaram o pecado que outrora cometeram, não querem mais cometê-lo e, ainda assim, se veem culpados e esmagados pelo peso de um pecado que já não pesa sobre eles.

Foi a compreensão das verdades bíblicas acerca dessa realidade que me libertou das garras da culpa. E se você vive uma enorme culpa por algum pecado que cometeu e acha que não há perdão para você, saiba que basta cumprir o que a Palavra de Deus estipula e você será totalmente liberto desse fardo. O arrependimento é o primeiro passo, como disse Pedro: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados” (At 3.19). Esse arrependimento não pode ser produzido por vontade humana, é o Espírito Santo quem nos convence do pecado. Portanto, se você está arrependido, saiba que é Deus agindo com o intuito de perdoá-lo.

Após o arrependimento, vem a confissão. É hora de abrir o coração e confessar a Deus seu pecado, sem desculpas, sem subterfúgios; mas com transparência e sinceridade. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Em seguida, é preciso deixar a prática desse pecado, o que significa estabelecer o firme propósito de não mais cometê-lo. “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13).

pecado 3Uma vez que você tenha passado pelo processo de arrependimento, confissão e abandono, o perdão total vem sobre a sua vida. Você será livre. Todo fardo de culpa será lançado no fundo do mar. Deus te abraçará e dirá, sorrindo, que nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo Jesus. E, então, feito alvo, mais que a neve, você deve continuar sua caminhada de fé, inocentado do pior pecado de todos. A partir daí, seu papel é ajudar quem está achatado pelo peso da culpa, ensinando o caminho do perdão total mediante o arrependimento. E, para aqueles que não se arrependeram ainda, deve pregar o arrependimento e interceder por sua vida, para que, mediante a sua proclamação do evangelho e a ação do Espírito Santo, tais pessoas encontrem a paz, o perdão e a restauração.

Seja um agente em favor do arrependimento. Ao fazer isso, você pode ser o canal para que Deus apague uma multidão de pecados.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari <facebook.com/mauriciozagariescritor >

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teimoso 1Ao longo de toda a minha vida, sempre ouvi pessoas próximas dizerem a mesma coisa sobre mim: eu sou muito teimoso. Minha mãe dizia isso, minha esposa diz isso. Então creio que não tem para onde fugir: eu sou teimoso. Esse adjetivo sempre me perseguiu, como um mosquito que teima em ficar zunindo perto da nossa orelha quando queremos dormir: incomoda e parece que nada faz ir embora. Recentemente resolvi, então, pensar sobre o assunto, porque, se é um defeito, preciso fazer algo para mudar. Minhas reflexões me levaram a perceber duas coisas: primeiro, precisamos definir o que exatamente significa ser teimoso. Segundo, se isso é algo realmente ruim ou se pode ser visto como uma qualidade. Você é teimoso? Então me acompanhe nesse raciocínio, que pode lhe ser útil.

A Bíblia só menciona a palavra “teimosia” uma única vez, num contexto não muito agradável: “O meu povo não me quis escutar a voz, e Israel não me atendeu. Assim, deixei-o andar na teimosia do seu coração; siga os seus próprios conselhos. Ah! Se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos!” (Sl 81.11-13). Nessa passagem fica claro que a teimosia é algo ruim, sim, mas quando ela significa a persistência em contrariar a vontade de Deus. Logo, se você é teimoso por saber que as Escrituras estipulam algo e você insiste em fazer diferente… cuide-se.
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Você sabe que não deve namorar em jugo desigual mas insiste nesse namoro? Seu trabalho te leva a praticar pequenas ações ilegais? Você dá propina a fiscais, presta serviços sem emitir nota fiscal ou faz caixa dois? Você é arrogante e teima que não tem nada de errado com isso? Você sabe que não deve devolver mal com mal, mas não consegue deixar de dar aquelas alfinetadas? Você persiste em “defender a fé” com agressividade, porque, afinal, aquele pastor que você admira também é agressivo com “os ímpios”? Você vive fazendo o contrário daquilo que seus pais determinam? Você pratica regularmente atividades sexuais ilícitas e não se interessa em buscar ajuda? Enfim, você teima em fazer algo ou em ter um tipo de comportamento que não se encaixa no padrão bíblico?
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Então a resposta de Deus para você é: “Ah! Se o meu povo me escutasse…”.
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A Bíblia usa com mais frequência um sinônimo de teimosia: “obstinação”. Vemos povos e pessoas serem chamadas nas Escrituras de “obstinadas”, como em “Disse o SENHOR a Moisés: O coração de Faraó está obstinado; recusa deixar ir o povo” (Êx 7.14) e “Ouvi-me vós, os que sois de obstinado coração, que estais longe da justiça” (Is 46.12). Esses casos sempre apontam para pessoas que são criticados por Deus porque a sua teimosia é em fazer justamente o contrário da vontade divina.
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A coisa ficou feia, não é? Bem, não necessariamente. A boa notícia para os teimosos é que a teimosia pode ser algo positivo. Quando? Justamente quando ela nos leva a fincar o pé naquilo que está de acordo com a vontade divina.
teimoso 2Assim: você é teimoso porque persiste em ser cristão em meio a uma família que vive reclamando porque você vai à igreja? Você insiste em fazer o que é certo no trabalho, embora todos os colegas do seu setor tenham práticas erradas? Você é tratado mal por colegas de escola porque se recusa a dar cola? Você não entra em debates e discussões teológicas secundárias nas redes sociais porque prefere pacificar do que polemizar, embora muitos insistam que você se pronuncie? Você se recusa a revidar, por mais que te agridam? Você teima em ser bom, justo e fiel; embora viva numa sociedade que prega que vale tudo para se dar bem? Você se submete ao marido em amor, embora as suas amigas feministas achem isso o fim da picada? Você ama a sua esposa como Cristo amou a Igreja, embora os seus amigos fiquem fazendo piada e te chamando de “banana”? Enfim, por mais que ponham muita pressão, você é teimoso o suficiente para fazer o que é biblicamente correto?
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Então, parabéns. O que Deus tem a dizer a você é: “Ah! Que bom que o meu povo me escuta…”.
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No que se refere a ser teimoso para fazer o que é certo diante de Deus, o que muitos chamam de “teimosia”, eu chamo de “ter convicções firmes”. É não negociar aquilo que é inegociável. É ser uma casa construída sobre a rocha, que não barganha suas crenças e seus valores.
teimoso 3Você é considerada uma pessoa teimosa? Então está na hora de refletir, com total e absoluta honestidade e transparência, sobre para onde sua teimosia está apontando: em direção à vontade de Deus ou na direção contrária? A sua teimosia faz de você uma pessoa melhor ou alguém intratável? Pense, à luz da Bíblia, e, a partir das suas conclusões, tome a atitude certa. Se for preciso mudar, faça isso o mais rápido possível. Se for para permanecer fiel à verdade, não a negocie. Como distinguir? Na dúvida, procure bons conselheiros, que te vejam de fora e possam dar um parecer honesto e sincero.
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Afinal, ser fiel até a morte é ser teimoso até a morte. O que o espera como resultado dessa teimosia? Nada menos que a coroa da vida.
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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inferno 1Eu vi o inferno. Calma. Antes que você ache que vou contar mais uma dessas experiências de gente que afirma ter sido arrebatada e levada para um passeio pelo temido local de tormento eterno, deixe-me tranquilizá-lo; não é nada disso. Tampouco pretendo escrever um livro com “divinas revelações” do que há do outro lado da morte. A visão que tive do inferno na verdade é metafórica, fruto de um episódio simples que me fez ter um lampejo da terrível realidade de quem após esta vida adentra nesse ambiente tão misterioso onde há choro e ranger de dentes. Minha filha é muito apegada aos pais. Talvez pelo fato de não ter irmãos ou primos por perto e de conviver essencialmente comigo e minha esposa todos os dias e noites, ela aprecia muito estar em nossa companhia e detesta ficar longe de nós. Com a virada do ano, sua turma na escola ganhou novas professoras, que ela não conhecia antes. Bem aclimatada ao colégio, já há bastante tempo ela não faz escândalos quando a deixamos para a aula, acostumada que está aos coleguinhas e ao ambiente escolar. Até que…

No primeiro dia de aula deste ano, minha esposa é quem a levou para a escola. Tudo certo, sem incidentes. Mas, no segundo dia, foi minha vez. Pus a filhota na cadeirinha de minha bicicleta e fomos pela ciclovia, cantando e conversando, até o colégio. Cheguei, estacionei, descemos da bicicleta e caminhamos para o pátio em que eu a entregaria para a professora. Tudo normal, sem problemas. Só que, então, fui me despedir. Em vez do beijinho e do abraço usuais, seguido de um “tchau, Jesus te abençoe”, naquele dia a reação dela foi diferente. Pediu colo. Agarrou-se em meu pescoço com todas suas forças e começou a lamentar baixinho:

– Papai… papai… papai… papai…

Como um filhote de coala, ela se atracou em mim com braços e pernas e não desgrudava por nada. Desacostumado a esse tipo de comportamento já havia muitos meses, fui pego de surpresa. Tentei conversar. Usei muitos argumentos. Mas as palavras foram vãs e minhas tentativas, infrutíferas.

– Papai… papai… papai… papai…

Olhei para a professora nova com um olhar de “me ajuda” e ela veio em meu socorro. Tentamos fazer minha filha desgrudar e se juntar aos coleguinhas, mas foi pior. Quando percebeu que estavam tentando separá-la de mim, a filhota começou a chorar e a gritar. Foi um escândalo. Eu tentava argumentar, a professora oferecia convites e opções de atividades, mas absolutamente nada surtia efeito.

– Bebê, papai precisa ir…

– Papaaaaaaaaaaiiiiii!!!!!!! – a coisa só piorava.

Quando me dei conta, ela entrou em desespero. Por nada do mundo queria ficar longe de mim. O grito virou um urro. As lágrimas banhavam o rosto, que inchava e se avermelhava. O suor empapava a camisa. O cabelo começou a ficar desgrenhado, de tanto ela resistir. Eu tentava. A professora tentava. Uma auxiliar tentava. Até coleguinhas se aproximaram com olhar assustado para ver o que estava acontecendo. Nada adiantava.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaieeeeeeee!!!!!!

Consegui, com monumental esforço, puxá-la para longe do abraço e a pus no chão. Com um salto, ela se atracou a uma de minhas pernas e o choro piorou.

– Papaaaaaaaaaaiiiiiiii!!!!! Coloooooooooooo!!!!!!!

Olhei para o relógio e vi que, se não saísse dali naquela hora, me atrasaria para o trabalho. Olhei para a professora, que me olhou de volta. Pelo olhar decidimos que teríamos de desgrudar minha filha à força. E foi o que fizemos. Com o máximo de delicadeza que consegui, afastei os bracinhos dela de mim e a professora a segurou, enquanto eu caminhava apressadamente para a porta. Com o coração dilacerado pelos urros da minha filha, que dobraram de volume ao me ver me afastando, olhei para trás.

E foi quando tive a visão do inferno.

Separada do pai, aquela pobre alma babava e chorava, com as mãos estendidas em minha direção, os dedos contristados, gritos que clamavam pela presença do pai, olhos arregalados em desespero. Nada no mundo importava para ela naquele momento: a única coisa que desejava era estar com seu pai. Mas ela não podia. Apesar de todas as fibras do meu ser me impulsionarem para correr em sua direção, tomá-la em meus braços e levá-la comigo de volta para casa, eu sabia que não seria possível. Então assoprei um beijo de longe e gritei:

– Papai te ama! Muito!

E saí do pátio, em direção à bicicleta, enquanto ouvia os gritos e o choro da minha filhinha.

– Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!

inferno 2O que é o inferno? Esqueça todas as imagens simbólicas que já ouviu sobre isso. Esqueça diabinhos vermelhos cutucando pessoas com tridentes. Esqueça divinas revelações, esqueça livros de gente que afirma ter sido arrebatada, esqueça tudo. Inferno é uma coisa só: querer estar com o Pai e não poder. Só quem viu nos olhos de alguém o mais absoluto desespero por desejar ficar com o pai e não ter essa possibilidade, como eu vi, compreende o que significa o choro e o ranger de dentes.

Fomos criados para viver com Deus. Viver longe dele é algo totalmente antinatural. Por isso, nossa natureza clama angustiadamente por sua presença. Quando o Pai pôs Adão no Éden, insuflou nele o desejo de conviver diariamente consigo. Isso é o natural. O pecado, porém, criou o abismo entre Criador e criatura e, a partir daí, passamos a viver com um vazio do tamanho de Deus na alma. Fomos expulsos do jardim, e não fomos criados ou preparados para isso. Deus fez o homem para estar junto de si e qualquer coisa diferente disso é uma distorção astronômica da ordem original das coisas. O inferno foi criado para Satanás e seus anjos, lá não é nosso lugar. Não pertencemos ao inferno, mas ao Éden, à convivência permanente com o Pai. Por isso, é completamente artificial estar longe de Deus, não faz sentido, não encaixa, o mundo vira de cabeça para baixo numa situação dessas.

cruzMas, então, veio a cruz. Ela nos tirou dessa realidade irreal e surreal que é viver longe do Pai. Ao sermos adotados como filhos de Deus, mediante Cristo, retornamos ao estado original para o qual fomos formados: temos acesso ao Senhor, passamos a viver com ele – não mais em um jardim, mas em nós mesmos, feitos habitação do Santo Espírito. Ingressamos no reino do qual nunca deveríamos ter saído. Nossa comunhão com o Pai volta a ser constante, como sempre deveria ser e como nunca deveria ter deixado de ser, não fosse pela entrada do pecado em nosso coração.

Quem não tem Cristo, todavia, vive outra realidade. Na vida desses, a separação do Pai segue do nascimento até a morte. Distraídos com as alegrias desta vida, os prazeres, as festas e os benefícios que as riquezas proporcionam, seu foco torna-se o que está ao redor. O afastamento de Deus os cega a tal ponto que chegam a crer em outros deuses ou mesmo a não crer em nenhum. E, assim, a necessidade de retornar àquele estado original de comunhão constante com o Criador é embaçada pelas coisas desta vida. Consciência cauterizada.

Só que aí chega a morte.

E, após a morte, todas as distrações, todos os prazeres, tudo aquilo que ocupava a mente e o coração dos que deram as costas para Cristo durante seus anos na terra… desaparece. Simplesmente deixa de existir. O que resta? A ausência do Pai. Um vazio que nunca será preenchido. E isso leva, inevitavelmente, ao sofrimento. À dor. Ao desespero. Ao choro. Ao ranger de dentes. Sem as distrações da vida terrena, a alma sedenta da presença de Deus percebe que jamais a terá. Pelos séculos dos séculos, sua existência será marcada pela ausência do Pai. E tudo o que lhe resta é o tormento eterno que essa percepção gera.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!!!!!

Só que aí não adianta mais nada clamar. O Pai não tem mais o que fazer, pois a cruz foi rejeitada. Aquela pobre alma deu as costas para Jesus. O Pai só pode olhar de longe e, cheio de amor e compaixão por aquela vida, afastar-se, ouvindo seus gritos do mais absoluto desespero, pois a justiça teve de ser cumprida: sem Deus nesta vida, sem Deus na eternidade. O que sobra? O nada. O nada absoluto.

Ao final da tarde, voltei à escola para pegar minha filha. Assim que ela me viu, correu em minha direção e, de um salto, pulou no meu pescoço. Ficou agarrada um longo tempo, enquanto eu, meio espremido em seu abraço, dava dezenas de beijos no seu rosto. Sem desgrudar, ela disse baixinho no meu ouvido:

– Papai… eu tava com saudade.

E respondi, com amor:

– Eu também, bebê. Mas agora o papai está aqui. E a gente vai ficar juntinho, viu? Vou te levar pra casa e vamos ficar agarradinhos.

Ela abriu um sorriso radiante. Deu um longo suspiro, relaxou os braços e apoiou a cabecinha no meu ombro. E foi quando eu percebi: agora, ali, no abraço do pai, minha filha estava… no céu.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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