Arquivo da categoria ‘Vida eterna’

o fimNasci. O primeiro olhar para fora do ventre de minha mãe me assombrou: que mundo pavoroso era esse que se descortinava diante de meus olhos, acostumados ao conforto, à segurança e à certeza do útero materno? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas saí para o mundo e logo vi que aquela novidade não era o fim.

Comecei a engatinhar e meus pais passaram a me incentivar a andar sobre duas pernas. Me apavorei. Estava acostumado à segurança dos quatro pilares sobre os quais engatinhava; as alturas me amedrontavam. Achei que não sobreviveria a aquela mudança. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a caminhar e vi que aquela novidade não era o fim.

Minhas fraldas foram removidas e notei que, a cada vez que fazia o que sempre antes fizera na cama, tomava uma bronca dos meus pais. Como seria possível viver sem fazer xixi na hora em que bem entendo, no conforto da minha caminha?, espantei-me. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a fazer pipi no peniquinho e vi que aquela novidade não era o fim.

Fui matriculado numa escola e, no primeiro dia de aula, me desesperei quando vi meus pais saindo pela porta. Nunca tinha ficado sozinho, longe deles, com pessoas estranhas. Gritei e chorei, esperneei e dei escândalo. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas fui descobrindo as novidades do colégio, fazendo novas amizades e vi que aquela novidade não era o fim.

Aos poucos, as brincadeiras das aulas foram substituídas por lições e, em vez de me divertir, passei a ser cobrado, tinha de responder o que sabia numa prova, era muita cobrança e olhares tortos quando a nota aparecia em caneta vermelha em vez de azul. O que é isso, por que não posso simplesmente brincar? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a descobrir o prazer de aprender e vi que aquela novidade não era o fim.

Peguei caxumba. Sarampo. Catapora. Febres altíssimas faziam minha cabeça ficar como um balão. Como é possível, se nunca antes tive isso? Que sofrimento, que dor, que desamparo… “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas depois de remédios e repouso eu me recuperava e vi que aquela novidade não era o fim.

Mudei de escola. No primeiro dia de aula saí da sala para ir ao banheiro e o inspetor veio me dar bronca. Espantei-me por perceber que precisava, agora, pedir permissão até para isso. Gente nova. Cadeiras duras. Cadernos e livros. Cobranças e mais cobranças. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas o estudo foi adiante, a disciplina passou a ser praxe e vi que aquela novidade não era o fim.

Começaram a nascer pelos no meu rosto. Descobri que teria de roçar uma lâmina afiada na cara com frequência. O que tinha acontecido com aquela pele que nunca me dera trabalho, para que bastava lavar o rosto e estava tudo certo? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a me barbear com agilidade e ver que podia usar aquela habilidade para mudar minha aparência de tempos em tempos e vi que aquela novidade não era o fim.

Espinhas! Montanhas amarelas gigantescas passaram a brotar como erva daninha em minha pele, causando dor, abrindo crateras, sangrando, me deixando mais feio do que já era, me obrigando a ir a uma dermatologista e esfregar cremes fedorentos pelo corpo. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas passei a fazer limpeza de pele, evitar alimentos que estimulavam o nascimento de espinhas e a me acostumar com a nova aparência e vi que aquela novidade não era o fim.

Vestibular. O destino de uma vida sendo definido na ponta da caneta. Estresse. Estudos diários. Livros, cadernos, pilhas de anotações. Que desespero, os colegas se apavorando, os pais tensos. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas fiz as provas, passei e vi que aquela novidade não era o fim.

Faculdade. Novas pessoas. Novas disciplinas. Novo ambiente. Novos itinerários. Tudo novo. Tinha de tirar média sempre acima de 7 para manter a bolsa. O primeiro dia de aula me deu calafrios. Primeira nota: 3,5. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a estudar, descobrir as alegrias da carreira, a fazer novos amigos e vi que aquela novidade não era o fim.

Primeiro estágio. Convivência com profissionais. Ter chefe. Ter responsabilidades. A coisa agora era séria. A primeira reportagem que escrevi foi riscada de cima a baixo pelo meu chefe, que reescreveu tudo. Sentimento de incompetência. Será que dou para essa profissão? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo aprendi as tarefas, meus textos deixaram de ser tão rabiscados, o trabalho foi sendo reconhecido e vi que aquela novidade não era o fim.

Fui acordado certa noite pela minha família. Minha avó, morta em sua cama. Ajudei a trocar sua roupa, lágrimas saltando dos olhos. Desesperei-me com a perda de minha grande amiga. Como é possível nossos amados partirem assim? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas a dor da perda com o tempo tornou-se uma gostosa lembrança e vi que aquela novidade não era o fim.

Primeiro emprego. Agora eu era um repórter e redator de um dos principais jornais do país. Responsabilidade maior, rotina diferente, plantões de fim de semana, entrevistas com pessoas importantes; um espanto. Tive medo dessa nova realidade, que prometia durar até a aposentadoria. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo me tornei um jornalista com domínio sobre a profissão e vi que aquela novidade não era o fim.

Meu único irmão partiu para uma viagem de dois meses para a Europa. Inesperadamente, conseguiu uma bolsa de pós-graduação e tornou-se residente fixo de um país do outro lado do oceano, numa era em que não havia internet. O vazio foi enorme: eu tinha perdido a unha da minha carne. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo aprendi a ser “filho único” e vi que aquela novidade não era o fim.

Mudança de emprego. De um jornal para outro. Do outro para a televisão. No primeiro dia na emissora, a apresentadora me pede paras “esqueletar um texto”. Que diabos é “esqueletar um texto”? Quem são essas pessoas ao meu lado? Como assim, tenho que pensar nas imagens para meus textos? Não sei nada! Socorro! “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo aprendi a fazer programas de televisão, depois virei editor e vi que aquela novidade não era o fim.

Dor. Diagnóstico: fibromialgia. Abrir mão de tocar violão, dirigir automóveis, carregar peso, digitar no computador. Prognóstico: incurável. Depressão. Dor. Tristeza. Dor. Mudanças. Dor. Falta de perspectiva. Dor. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo descobri que ou aprendia a lidar com aquilo ou desistia de viver e, assim, encontrei caminhos e vi que aquela novidade não era o fim.

Casamento. Casa nova, bairro novo, obrigações novas, igreja nova, contas, pregos na parede, reuniões de condomínio, responsabilidade, amar a esposa como Cristo amou a Igreja… ufa! “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo descobri as alegrias da vida a dois e vi que aquela novidade não era o fim.

Arrisquei escrever um livro. Recusado por todas as editoras do universo. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Descobri que eu era um escritor medíocre. Incapaz. Desinteressante. Pensei em desistir. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, enfim, uma editora decidiu apostar no livro, que ganhou dois prêmios Areté, e vi que aquela novidade não era o fim.

Parabéns, você vai ser papai! De repente, surge um bebê nos meus braços. Choro. Fraldas. Choro. Dodói. Choro. Noites em claro. Choro. Responsabilidades. Pavor por ser responsável por uma vida. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas logo conheci as maravilhas da paternidade, senti o afeto de uma filha, descobri um amor que não se iguala a nada no mundo e vi que aquela novidade não era o fim.

Mudança de rumo: do jornalismo para o mundo editorial. De editor de televisão passei a ser chamado de editor de livros. Universo novo. Tarefas diferentes. Detalhes desconhecidos. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, logo, descobri a alegria de editar livros e vi que aquela novidade não era o fim.

Envelheci. Os cabelos ficaram brancos. A barba também. A pele perdeu o viço. O corpo deixou de acompanhar o ritmo da mente. Limites novos. Dificuldades crescentes. Agora eu era um senhor idoso. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, logo, descobri que a vivência e a maturidade trazem muita felicidade e vantagens e vi que aquela novidade não era o fim.

O tempo passou correndo. Onde está minha juventude? Cadê os anos, que não vi passarem? Espantei-me com a chegada do futuro e a distância cada vez maior entre o hoje e a aurora da minha vida. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, enfim, vi que minha vida tinha sido bem vivida, apesar de erros, pecados, tristezas e decepções, e vi que aquela novidade não era o fim.

Aposentadoria. Sentimento de inutilidade. Para que eu sirvo agora? Passei a ser tratado como um bibelô ou como um débil pelas pessoas. Olhares tortos de uma sociedade que despreza os mais velhos. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas descobri a alegria de ter tempo para viver, netos para desfrutar, coisas nunca antes realizadas a realizar e vi que aquela novidade não era o fim.

E, afinal, chegou o fim. Os olhos escureceram, o mundo sumiu, o corpo desmoronou, uma dor aguda seguida de silêncio. A única certeza da vida agora era um fato. Morri. Sim, a morte, finalmente, chegara. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, de repente, em meio à escuridão surge uma luz, e um homem sorridente aparece diante de mim. Com furos nas mãos e nos pés, e um olhar de puro amor, ele segura a minha mão.

E vi que aquela novidade não era o fim. Era apenas o começo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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imageNas últimas horas de vida antes da crucificação, Jesus sofreu todo tipo de dor: a dor do corpo, a da humilhação, a do abandono, a da traição, a da negação. Dor em cima de dor. Mas eu, pessoalmente, acredito que uma das dores que mais doeram nele foi a da ingratidão. Ele estava ali, entregando-se pela humanidade, oferecendo-se em sacrifício pelo pecado do mundo… mas aqueles por quem ele se deu não lhe agradeceram nem o reverenciaram; pelo contrário, viraram-lhe as costas, cuspiram em seu rosto, esbofetearam sua dignidade, zombaram de seu sofrimento, rasgaram sua carne, conduziram sua alma a uma tristeza mortal. Não demonstraram um pingo sequer de agradecimento. E essa, a dor da ingratidão, é uma das dores mais dolorosas que há.

Nas minhas ultimas férias fui com minha mulher e minha filha a Cabo Frio (RJ), onde gosto de ir à Praia das Dunas (foto). Como o nome diz, para se chegar à beira d’água é preciso subir e descer duas dunas. Normalmente, essa caminhada é extremamente prazerosa, com aquela areia fina acariciando os pés e algumas paradas durante o trajeto para – literalmente – deitar e rolar. Num dos dias, resolvemos ir a outra praia, a das Conchas, mas não foi uma escolha feliz: estava lotada, a areia era dura, o vento estava gélido. Decidimos almoçar por ali e retornar para passar a tarde na nossa preferida. E assim fizemos.

Cabo Frio 2015Chegamos tarde à Praia das Dunas, já cansados por toda a aventura da manhã. Tudo o que eu queria era relaxar e descansar nas minhas águas e areias prediletas. Brinquei bastante com o filhota, mergulhamos, pulamos ondas e nos cansamos ainda mais. Por volta de cinco horas estávamos todos exaustos, mas felizes. Foi quando minha filha de 4 anos se aninhou no meu colo e, em meio aos carinhos do papai, adormeceu. Não foi um soninho leve, não: ela dormiu profundamente. Fiquei aguardando por um bom tempo, para ver se a pequena acordava. Nada. O tempo passou, o sol começou a cair, a temperatura esfriou e vimos que era hora de retornar ao apartamento. Mas, aí, veio o dilema: acordar a filhinha ou não? Confesso que tentei, mas sem efeito: ela estava profundamente adormecida.

Foi quando tomei a decisão: pelo bem-estar dela, eu me sacrificaria e carregaria no colo aqueles 16 quilos de filha da beira da água até o nosso apartamento, localizado a um quarteirão da praia. Levantei-me com ela nos braços, enquanto minha esposa recolhia nossas coisas. Pendurei em um ombro a barraca, encaixei uma das cadeiras no braço e iniciei a caminhada.

Foi quando começou o sofrimento.

Se você acompanha o APENAS há algum tempo sabe que sofro de fibromialgia, uma doença que faz todos os músculos e tendões do corpo inflamarem e doerem o tempo inteiro. Isso me limita ou impede de fazer uma série de coisas, que me são extremamente dolorosas, como dirigir, digitar no computador, praticar exercícios e… carregar peso. Agora, imagine eu, com fibromialgia, tendo uma criança de 16 quilos nos braços, uma barraca de praia no ombro e uma cadeira pendurada no braço. Acredite: não é fácil. Dói – e dói muito. Mas, por amor a minha filhinha, eu me entreguei voluntariamente a esse sacrifício.

peso 1A coisa ficou pior. Se carregar esse peso todo já me é doloroso, imagine andando na areia fofa. Parece que o esforço necessário triplica. Depois de algum tempo, quintuplica. Comecei a arfar e bufar. O suor escorria. As pernas tremiam a cada passo. Cheguei ao sopé da primeira duna e comecei a escalada. Cada centímetro percorrido era um sacrifício. A sola dos pés doía e latejava. Os músculos queimavam. Tive de fazer diversas paradas. Parecia que estava carregando um elefante rumo ao cimo do Everest. Quando venci a primeira duna, as lágrimas escorriam pelo canto dos olhos. As pernas fibrilavam. A respiração faltava. As costas arqueavam. Enfim, já deu para ter uma ideia do que custou para mim carregar minha filha, a fim de deixá-la mais confortável. Por ela e por amor eu estava passando por maus bocados. Péssimos, na verdade.

Resumamos a história: lentamente transpus as duas dunas, passo ante passo, caminhei pela trilha que leva até a avenida de acesso e me arrastei pela calçada até a entrada do nosso prédio. Nessa última parte, adivinhe você, a pequena acordou. Sensibilizada pelo meu estado, assim que viu a filhota acordar, minha esposa perguntou:

– Filhinha, você não quer ir andando um pouquinho, para deixar o papai descansar?

Sonolenta, sua resposta foi agarrar-se ainda mais ao meu pescoço. Diante da negativa, continuei minha via-crúcis até a porta do prédio. Confesso que, ao chegar à portaria, em meio ao oceano de dores eu sentia uma gota de orgulho de meu feito. Por dentro imaginava minha filha dizendo algo como:

– Papai, você é meu herói! Muito obrigada por se sacrificar por mim! Obrigada por sentir tanta dor para que eu ficasse bem! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada!

Só que não foi assim. Quando subi os degraus de entrada, a cadeira de praia que eu carregava no braço esbarrou de leve num dos pés de minha filha. E o que saiu de seus lábios emburrados de sono foi:

– Ai, papai… Tá me machucando…

Parei. Tentei sorrir com as forças que me sobravam. E minha atitude foi uma só: dei um beijo em minha filhinha ingrata e dei a única resposta que poderia dar:

– Eu te amo, bebê…

cristoJesus sofreu pela humanidade. Muito. De forma dolorosa. Foi dilacerado física e emocionalmente. E experimentou em sua vida terrena a ingratidão de forma indizível. Mas a coisa não parou no dia de sua crucificação. Hoje, eu e você muitas vezes fazemos a mesma coisa. Jesus sofreu tudo o que sofreu por você, meu irmão, minha irmã. Ele carregou o peso do nosso pecado, caminhou nas areias da traição, escalou a duna da humilhação, sofreu a dor da cruz, transpirou a angústia da nossa maldade. E, ainda assim, muitas e muitas vezes, em vez de sermos eternamente gratos, de suportarmos as cadeiras da vida que cutucam nosso pé tendo em nós o entendimento do preço enorme que Jesus pagou pelo nosso bem-estar eterno, murmuramos e reclamamos com uma atitude de extrema ingratidão:

– Ai, papai… Tá me machucando…

Fico imaginando Jesus ouvindo isso e pensando, com infinito amor no coração, sabendo de tudo o que passou e do tão pouco que representa o nosso pequeno sofrimento em comparação ao dele:

– Eu te amo, bebê…

“Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” (2Co 4.17-18).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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post apenasFui convidado a pregar em uma igreja, no Rio de Janeiro, onde compartilhei uma mensagem acerca da urgência de perdoar e se perdoar, como venho fazendo em muitas igrejas desde o lançamento do meu livro “Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar”. Ao final do culto, estava planejado um momento para confraternizar com os irmãos e escrever dedicatórias a quem tivesse adquirido a obra na livraria do local. E assim aconteceu: ministrei a palavra, o culto terminou e me sentei a uma mesa, onde haviam posto exemplares do livro. Ela ficava localizada junto a uma janela que dava para a rua. Foi quando tive a experiência que me levou a esta reflexão. Eu estava trocando ideias com os irmãos e escrevendo dedicatórias nos livros quando reparei em uma senhora que estava parada na calçada, debaixo de chuva fina, do lado de fora da igreja. Ela me chamou especial atenção pelo seu jeito: solitária, séria, meio deslocada, olhando atenta para dentro do prédio, com uma atitude nitidamente diferente da dos irmãos e irmãs que conversavam animadamente à porta… algo nela captou meu olhar. Na foto que abre este post você pode vê-la, de óculos, atrás de uma esquadria preta da janela. Senti um impulso muito forte de conversar com aquela senhora, por isso levantei-me da mesa, pedi licença aos manos que estavam ao meu redor e caminhei para a rua. Parei ao lado dela e comecei a puxar papo.

Assim que ela falou a primeira palavra, notei de cara que estava bastante alcoolizada. O cheiro de cerveja era bem forte e sua fala estava arrastada, com palavras mal articuladas. Ainda assim, consegui entabular uma conversa. Comecei perguntando seu nome [que manterei em sigilo, vou chamá-la apenas de Maria]. Eu, então, me apresentei e indaguei se ela tinha acompanhado o culto, mesmo ali da rua. Ela me respondeu que estava no bar que fica exatamente ao lado da igreja, imersa em cerveja, quando começou a escutar a mensagem, o que a fez se levantar e ficar do lado de fora, mas sem coragem de atravessar a porta. Dali, não conseguia escutar muito bem a pregação. Que pena. Perguntei por que ela não tinha entrado e Maria respondeu que “não se sentia digna” de entrar no santuário. A meu pedido, aquela senhora passou a me relatar sua vida. Ela tinha sido membro justamente de uma das igrejas da denominação em que congrego. Por desavenças com pessoas da igreja e conflitos dentro da congregação que frequentava, acabou se afastando da comunidade de fé, desistindo de ir aos cultos e  se entregando a uma vida de pecados. Em resumo, ela tornou-se a típica “desviada”.

Confesso que meu coração sangrou ao ouvir sua história. Vi aquela preciosa vida ali, entregue às futilidades da existência, machucada por filhos de Deus, ouvindo o chamado do Pai, mas… sentindo-se indigna de entrar no santuário. Comecei, então, a lhe falar do amor de Cristo e da paz que só ele pode dar, do perdão e de tudo o que a entrega de uma vida a Deus realiza. Ela escutou atentamente. Ao final, perguntei se não gostaria de restabelecer os vínculos com Jesus, mas ela deu uma resposta que é muito comum ouvirmos:

– Primeiro eu preciso ficar limpinha… minha vida tá toda errada…  eu estou imunda…

sujeiraAquelas palavras foram como um soco no meu estômago. Tentei argumentar, explicando que Deus é quem limpa e purifica, mas ela fincou pé. Por saber que não é o homem quem convence do pecado, da justiça e do juízo, mas o Espírito Santo, perguntei, então, se não gostaria que orasse por ela. Mas Maria mostrou-se refratária. Parecia que estava se sentindo tão suja na alma que qualquer coisa relacionada à pureza divina a fazia se sentir indigna. Diante de sua recusa, compartilhei algumas palavras mais sobre Cristo e terminei dizendo que ele a estava esperando de braços abertos, independente de ela não estar “limpinha”. Ao me despedir, ela olhou fundo em meus olhos e segurou minha mão. Não disse palavra alguma. Apenas ficou ali, me olhando por longos segundos. Depois virou-se e foi sentar-se à mesa do bar. Eu retornei para a igreja e continuei com as dedicatórias nos livros.

Quando chegou a hora de ir embora, minha esposa foi pegar-me de carro. Abracei os irmãos e entrei no banco do carona. Foi quando olhei para o bar e vi que Maria permanecia sentada e olhava para mim pela janela do veículo com um olhar fixo. Partimos e fomos embora, mas notei que aquele par de olhos me seguiu enquanto o automóvel se afastava. Eu sei que, na verdade, aquela senhora não estava olhando para mim, mas para o que eu representei naquela noite: palavras de pureza, em Cristo.

sujeira 2Maria é uma em meio a uma incontável multidão. Você encontra milhões de marias pelas ruas, pelos shoppings, na escola, na faculdade, no trabalho, na sua família. Maria convive conosco, diariamente, e, muitas vezes, não a enxergamos. É invisível à nossa insensibilidade espiritual. Em todo o planeta há pessoas que se encontram distantes de Cristo e, por isso, buscam paz e felicidade em montes de coisas que não preenchem. Mortos na putrefação dos delitos e na imundice do pecado, sabem que precisam de algo, que não entendem bem o que seja; algo que sopre vida em suas almas e encha seus lábios mortos de sorrisos de alegria. Algo que as purifique e as faça ficar “limpinhas”. Nós sabemos que esse algo, na verdade, é alguém. E que ele não espera que vão ao seu encontro pessoas “limpinhas”: quem ele mais busca abraçar são as imundas.

Maria não quis o abraço de Cristo aquela noite. Eu fiz o meu papel: proclamei a salvação, a paz, o caminho, a verdade, a vida. Ela não quis receber nada daquilo naquele momento, embora estivesse absurdamente sedenta de tudo o que lhe apresentei. Sua alma, suja e malcheirosa pelo pecado, berrava, clamando por socorro, limpeza e purificação. No entanto, o sentimento de inadequação foi mais forte. Isso ocorre muito e é um alerta para nós: precisamos mostrar aos filhos pródigos que a casa do pai não os aguarda com castigos e recriminação, mas com festa, um anel no dedo e roupas novas e limpas. Temos de incluir em nossa proclamação das verdades sagradas que o evangelho é para os bêbados, os depravados, os assassinos, os ladrões, os corruptos, os indignos. Cristo não busca os purificados; ele purifica os que busca.

Sabe… Jesus veio à terra acostumado à imundície. Um aspecto interessante do Natal é que, geralmente, ao vermos presépios, o que encontramos são representações de estrebarias como lugares bonitinhos, com uma estrelinha no topo e bichinhos fofinhos rodeando um menino Jesus limpinho. Só que não foi assim o primeiro Natal. Um bebê nasce sujo dos líquidos corporais da mãe. Para ser limpo, imagino que Jesus deva ter sido lavado com a água destinada a ser bebida pelos animais (que outra água há numa estrebaria?). E o ambiente não era nada fofo: se você já visitou estábulos em hotéis-fazenda ou outros lugares similares, sabe que cheiram mal, têm fedor de estrume, xixi de vaca e muitas moscas. Então entenda: Jesus veio ao mundo num local imundo, indigno, insalubre. Os primeiros cheiros que nosso Deus sentiu na vida terrena foram de excremento e urina de animais. Insetos devem ter pousado em seu rostinho com as patas salpicadas daquilo em que eles gostam de pousar. Meu irmão, minha irmã, Cristo sabe o que é sujeira. Ele viveu desde o nascimento em contato direto com a sujeira. Ele conhece o cheiro de podridão. E entende o que é o fedor da miséria humana.

sujeira 3A boa notícia é que, ao subir aos céus, Jesus ascendeu com um corpo glorificado, incólume, sem sujeira ou mancha alguma. Puro. Digno. Limpo. Em paz. E isso é um sinal para nós. Neste Natal, busque as marias que você conhece, do jeito que elas estiverem, sujas e malcheirosas pelo fedor do pecado, e diga-lhes que, se elas não se sentem “limpinhas”, Deus tem para elas uma glória maior do que tudo o que se pode supor e imaginar. O Pai tem para elas pureza. Dignidade. Limpeza. E paz.

Faça isso e o Natal ganhará um significado totalmente novo em sua vida. E, mais ainda, na das milhões de marias que estão por aí, apenas esperando que alguém como você as conduza à fonte purificadora da água da vida. “Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida” (Ap 22.17).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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imageAbrir mão é um dos maiores desafios que Deus nos propõe. Não se engane: se você quer ser um bom cristão terá de abdicar de muitas e muitas coisas. Frequentemente, coisas de enorme importância em sua vida. É interessante pensar que, ao fazer isso, você se aproxima de Cristo e reproduz o padrão divino. Afinal, quando o Criador se fez humano para viver entre uma humanidade que não merecia nada, ele estava, exatamente, abrindo mão de sua glória celestial para se tornar como um de nós – por amor a nós. Assim, quando você renuncia algo simplesmente porque é o certo e por amor ao Senhor, possivelmente vai sofrer enormes perdas e, com elas, virá certa dose de sofrimento. Mas eu gostaria de encorajá-lo a perder. Acredite: vai valer a pena, pois o que você ganhará com sua abnegação será algo de valor incalculável: a aprovação de Deus.

Em nossa sociedade, pôr o outro em primeiro lugar é visto como fraqueza, talvez tolice, para não dizer burrice. No evangelho não. Paulo escreveu: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.10). Portanto, abrir mão aos olhos de Deus é sinal de grandeza. É virtuoso. É nobre. Se for pelo bem do próximo, você trilhou o caminho mais excelente. Se for por amor a Cristo, você alcançou a grandeza.

Pode ser que você tenha amado muito uma pessoa, mas abriu mão de prosseguir no relacionamento porque teria representado jugo desigual. O adeus certamente foi doloroso, mas foi o certo. Tenho certeza de que Deus abençoará a sua vida por ter se recusado a prosseguir por amor a Cristo. Se foi o caso, jamais olhe para trás, deixe o que passou no passado, com a absoluta certeza de que você fez o certo. Outro exemplo: possivelmente você já teve a chance de colar em uma prova. Se o tivesse feito, sua nota teria sido maior. Mas o sorriso de Deus quando você abriu mão da fraude compensou, pode ter certeza. Deixou de ganhar pontos no teste, mas recebeu muitos no céu. É possível, ainda, que tenha sofrido graves perdas financeiras por ter se recusado a dar propina a fiscais. Garanto que todo o dinheiro que você abriu mão de ganhar será convertido em muito galardão na eternidade. Também pode ter sido o caso de você ter se afastado de amigos que o arrastavam para o pecado, por mais que gostasse deles. Jesus, o seu melhor amigo, ficou feliz, acredite.

Ou ainda, pode ser que  você tenha aberto mão de seu orgulho para perdoar alguém que não merecia seu perdão. Talvez essa pessoa nem mesmo tenha lhe pedido desculpas… mas você perdoou assim mesmo. Acredite: abrir mão de si para perdoar é uma atitude celestial, pois, quando você estende perdão total a alguém, está fazendo o que Jesus faz com todo aquele que chama das trevas para a luz. Perdoar significa abrir mão de si para ganhar a natureza de Cristo.

Se você abriu mão de algo muito importantes – muitas vezes à custa de sofrimento, não pense que Cristo não valoriza o que você fez. Ele está ciente.

E percebeu uma coisa? Tudo de que você tem de abrir mão por amor a Jesus se converte em aprovação divina e, logo, em bênção para sua vida. “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna” (Mt 19.29). O Senhor está falando aqui exatamente sobre abrir mão das coisas mais preciosas que podemos ter nesta vida por amor a ele.

Em muitos momentos de sua caminhada você se verá frente a frente com situações em que terá de abrir mão de algo muito valioso para ser fiel ao seu Salvador. Enxugue as lágrimas, sacuda a poeira e vá em frente de cabeça erguida. Sem arrependimento. Sem olhar para trás. Sem pensar “como teria sido se…?”. Esqueça. Foi por amor a Deus? Então foi pela razão certa. No dia em que você entrar na glória do Pai, o abraço que receberá dele compensará tudo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

apostolos1Você já parou para pensar sobre o que os amigos dos doze apóstolos pensaram quando eles decidiram seguir Jesus? O que será que os primeiros seguidores de Cristo tiveram de enfrentar em seu círculo de amizades para dedicar a vida ao Mestre? A Bíblia praticamente não menciona como foi a reação dos amigos e dos parentes dos apóstolos quando esses se tornaram cristãos, mas, se nos permitirmos um exercício de imaginação, podemos tentar supor como teria sido e ver que implicações essa reflexão geraria para nossa vida.

Tomemos por exemplo os irmãos Pedro e André. Eles eram pescadores e, por isso, provavelmente lidavam com dezenas de pessoas diariamente para vender o pescado, uma vez que, naquela época, o trabalho dos pescadores ia até a comercialização daquilo que caía em suas redes. De certo modo, os pescadores de então eram também feirantes, o que proporcionava a eles contato com muita gente e os tornava pessoas bem conhecidas em sua comunidade. Além disso, como bons judeus, certamente iam frequentemente à sinagoga, onde comungavam com outros israelitas e, assim como fazemos em nossas igrejas, eles se relacionavam com um amplo grupo. É de se supor que não fossem poucas as pessoas que os conheciam. Por isso, um dia…

– Onde estão Pedro e André? Não tem peixe hoje?

– É verdade, os filhos de Jonas também não foram à sinagoga, será que estão doentes?

A resposta deve ter impactado os amigos:

– Não, eles abandonaram o trabalho e pararam de ir à sinagoga.

– Ué, por quê?

– Estão seguindo um carpinteiro que diz ser o Messias.

– Mas estão vivendo de quê?

– Não sei… abandonaram as redes e o barco. E não guardam mais o sábado.

– Ih! Estão loucos. E desviados!

Penso, também, em Mateus. No caso dele, o homem deveria ter bem menos amigos sinceros, por ser coletor de impostos – uma categoria odiada pelos judeus daquela época. Mas, por isso mesmo, sua comunidade sabia quem ele era.

– Sabe Mateus, aquele cabra safado que fica pegando nosso dinheiro para dar aos romanos?

– Nem fala desse cidadão, o miserável me deixou no vermelho depois que veio cobrar os impostos.

– Bem, acontece que ele não está mais na coletoria. Largou tudo para seguir um carpinteiro que diz ser o Messias.

– Não brinca! De ladrão o cidadão virou herege?

E por aí vai. Se começamos a imaginar tudo o que os apóstolos enfrentaram no convívio social para assumir seu papel como seguidores de Jesus possivelmente teríamos muitas histórias de rejeição, ofensa, acusações e deboches. É difícil supor que a sociedade judaica de então tenha visto com bons olhos a “cristianização” daqueles doze judeus. Mesmo assim, os apóstolos não deram para trás, enfrentaram todo tipo de oposição social e ficaram firmes em sua decisão de seguir o Mestre.

apostolos2Você pode achar que foi uma decisão fácil. Mas não foi. Ninguém gosta de ser hostilizado pelos amigos, parentes e conhecidos. É só ver como Pedro se comportou diante dos seus acusadores na noite em que Jesus foi preso para ver como os olhares dos outros o afetavam. Ocorre que a mensagem da cruz é clara: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim. Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 10.37-39). Nessa passagem, Jesus está dizendo que devemos valorizá-lo acima de qualquer outra pessoa e que essa priorização tem um custo. Mas, ao final, valerá a pena, pois perdemos aqui para ganhar mais adiante.

Agora pensemos em você. Como foi a reação da sociedade ao fato de você seguir Jesus? A sua conversão foi tranquila ou teve um custo? Você perdeu amigos? Tornou-se motivo de chacota ou preconceito? As pessoas passaram a hostilizá-lo? Talvez essa reação negativa tenha ocorrido até mesmo dentro da sua família. Ou no ambiente de trabalho. De repente, o seu cônjuge foi bem contrário à sua decisão de seguir Jesus. Se de algum modo sua opção por Cristo trouxe algum prejuízo social, saiba que você não está só. Desde os primeiros discípulos, dois mil anos atrás, isso é uma realidade.

cruzA grande questão não é se você será perseguido por amor a Cristo. Isso é previsível, vai acontecer, pois o mundo não aceita a proposta revolucionária do evangelho. A cruz é uma ofensa para os valores seculares. A grande questão é como você reage diante da perseguição, da oposição, do desprezo, da chacota, da depreciação. Vivemos dias de muito preconceito contra os cristãos. Somos acusados de homofóbicos, fanáticos, ignorantes, atrasados, otários e muitos outros nomes que você já sabe. Esses ataques sempre existiram e sempre existirão, até Jesus retornar. Tenho visto muitos irmãos em Cristo reagirem a isso com violência. Somos atacados e, por isso, atacamos. Nesse período em que vivemos, em que a religião e sua oposição a certas agendas de grupos anticristãos está na pauta do dia, os ânimos afloram, os embates se multiplicam. As redes sociais fervilham com verborragia e indelicadeza de todos os lados. Minha pergunta a você é: será que estamos certos em nos defender revidando? Em usar das mesmas armas que o mundo usa contra nós? Você crê realmente que Jesus se orgulha quando nos posicionamos contra quem discorda de nós igualmente com deboches, ironia, ofensas, termos ofensivos e atitudes similares? Será que não estamos agindo com estupidez acreditando ser apologética? Sim, porque, no dia em que acharmos (se é que muitos já não acham) que a defesa da fé se dá descendo ao nível de agressividade e verborragia dos que não têm fé… estaremos perdidos.

A tendência natural do ser humano é reagir a ataques com certa dose de agressividade e violência. Mas, se queremos ser chamados de cristãos com “C” maiúsculo, devemos ter atitudes contrárias ao que determinam os impulsos humanos. Em outras palavras, seguir o exemplo de Jesus: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is 53.7). Quando Pedro cortou com espada a orelha de Malco, Jesus o repreendeu, pois ele não quer que seus discípulos reajam como nossos perseguidores agem. Deixe o revide, a agressividade, os ataques verbais e o descontrole emocional para os do mundo. Pense nas coisas do alto. Mansidão. Paciência. Domínio próprio. Graça. Menos contra-ataques, mais pacificação. Eis o material que deve pavimentar nosso caminho rumo ao céu.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

castigo1A Supernanny do Brasil, a educadora argentina Cris Poli, é uma das autoras da editora em que trabalho, o que me permite o privilégio de editar os livros dela. Para um pai de uma menina de 3 anos, como eu, isso é ótimo, pois posso aprender muito sobre a criação de filhos enquanto trabalho. Confesso que, apesar da gritaria contra a Lei da Palmada, não sou adepto de bater em filhos, por isso adotei com minha bebê a técnica do Cantinho da Disciplina, defendida pela Cris, que nada mais é do que uma forma elaborada do bom e tradicional castigo: se há uma desobediência e a filhota não obedece depois da primeira advertência, tem de ficar três minutos sentadinha numa cadeira de minha casa, pensando sobre o que fez (é um minuto para cada ano de vida da criança). Ao final, a pequena precisa pedir desculpas e o pai termina a disciplina dando muitos beijinhos e abraços, com afirmações de “eu te amo”. Dá muito certo, recomendo. Houve um episódio recente que me fez ir além do que está na cartilha, para ensinar à pequena mais do que apenas obedecer.

Sempre que tenho oportunidade, procuro ensinar a ela valores cristãos, naturalmente utilizando recursos e linguajar adequados à sua idade. Concordo com um pastor conhecido, que diz que costumamos em nossas igrejas valorizar muito o ensino de histórias da Bíblia para as crianças, em detrimento da ética bíblica. Eu procuro, sim, contar as historinhas de Sansão, Ester, Jonas, Daniel e Jesus, mas também me esforço para transmitir as verdades sagradas fundamentais. Afinal, as Escrituras dizem o que devemos fazer: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Pv 22.6). Repare que o texto bíblico não diz que devemos ensinar histórias, mas apontar princípios. Então é o que tento fazer, sempre que surge oportunidade.

graça1Recentemente minha filha teve um dia complicado. Dormiu pouco, estava com sono e muito ranzinza. Por isso, acabou me desobedecendo e, por sua insistência em não fazer a coisa certa, decidi que deveria pô-la no Cantinho da Disciplina. Naquele dia, ela estava especialmente cabeça dura e se recusou a ficar sentada no lugar designado, pensando. Era eu colocá-la na cadeira e ela descia, se negando a ficar no local. Cumpri toda a cartilha da Cris: reconduzi minha filha à tal cadeira algumas vezes, com paciência e sem perder o autocontrole, mas a pequena sempre voltava a sair. Foi quando tive uma ideia e resolvi subverter a estratégia, aproveitando para ir além da pedagogia, a fim de ensinar princípios cristãos fundamentais.

– Filha, esta é a última vez que eu falo: você não vai ficar no castigo?

– Não – deu o ultimato, desafiadora.

Então eu respondi:

– Então quem vai ficar no seu lugar sou eu.

Sob o olhar espantado dela, caminhei até a cadeira do castigo e me sentei. Expliquei:

– Você desobedeceu e deveria ficar em disciplina. Bem, alguém precisa ficar de castigo por causa da sua desobediência. Então eu vou ficar. E como tenho 42 anos, vou ficar 42 minutos.

Sentei e me calei.

O efeito foi imediato e surpreendente. Ela ficou me olhando, estática, sem dizer uma palavra, por um longo tempo. Como viu que eu não estava brincando, percebi que ficou muito confusa com minha atitude. Como assim, o papai ficar no castigo em meu lugar?, eu lia claramente nos seus olhos. Mas foi o que aconteceu. Como avisei que faria, ali permaneci. Ela caminhou devagarinho para fora do quarto. Não deu um minuto e ela tinha voltado, se arrastando junto à parede. Chegou à porta e ficou espiando de canto de olho. Sumiu. Voltou de novo. Eu estava ali havia alguns minutos quando ela veio, apoiou as mãos na minha perna e falou, bem baixinho:

– Pa-paaaai?

– Sim, minha filha?

– Você vai ficar aí?

– Vou, filhinha.

– Por quê?

– Porque você desobedeceu e alguém tinha de ficar de castigo por isso. Então eu decidi que vou ficar no seu lugar.

Ela piscou algumas vezes, em silêncio, e percebi que tudo aquilo parecia muito estranho. Não fazia sentido. Notei quão reflexiva ela ficou ao ver minha atitude. A pequena saiu devagarinho do quarto, de novo. Passou um tempinho e ela retornou.

– Papai, já pode sair? Quer vir brincar comigo?

Eu respondi:

– Filhinha, eu até queria sair, mas não posso. Tenho de cumprir o castigo no seu lugar até o fim. Se eu sair antes dos 42 minutos não vou ter feito a minha parte e a disciplina não terá efeito.

Ela pensou um pouco, tentando entender a lógica de tudo aquilo. Quando, finalmente, parece que captou a razão de eu estar ali em seu lugar, ela se aproximou, deitou a cabeça no meu colo e ficou fazendo carinho nos pelos da minha perna. Ficamos ali, em silêncio, por mais de dez minutos. Ela, então, novamente se virou para mim e perguntou:

– Já acabou, papai?

Olhei para o relógio e respondi:

– Não, bebê, estou só na metade do tempo do castigo.

Ela voltou a se aninhar no meu colo, desta vez se encolhendo toda. E ali ficou. Quando me dei conta, estávamos abraçados, esperando, juntos, o tempo passar. De vez em quando ela me olhava, como se quisesse dizer “Já acabou?”, e eu apenas sorria, demonstrando que ainda faltava tempo. Até que os 42 minutos chegaram ao fim.

– Pronto, filhinha, papai já pode sair do seu castigo.

Ela abriu um largo sorriso. Abraçou-me e me beijou e, para minha surpresa, disse o que eu costumo dizer a ela ao final de um momento de disciplina:

– Eu te amo, papai.

Em seguida, imediatamente se empertigou e me puxou pela mão.

– Vem, papai, vem ler um livro pra mim!

E lá fomos nós, para uma tarde bastante agradável de intimidade entre pai e filha. Passadas umas duas horas do fim da disciplina, em um momento em que ela estava menos agitada, aproveitei e lhe perguntei:

– Filha, você sabe o nome daquilo que o papai fez, quando ficou no castigo em seu lugar?

Ela olhou, em silêncio, à espera da resposta.

– Aquilo se chama “graça”. Significa que eu fiz por você o que eu não precisava fazer e que você não merecia, mas por amor eu decidi pagar o preço da sua desobediência. Sabe quem também fez isso? Jesus.

E comecei a explicar, num linguajar adequado para sua idade, o que Jesus fez na cruz pela humanidade transgressora. Eu já havia falado sobre a cruz antes, mas acredito que, dessa vez, o relato do sacrifício do Senhor teve uma compreensão muito mais aprofundada.

Eu e minha esposa temos o hábito de, sempre que a pequena come o alimento todo nas refeições, celebrar com festinha e cantando uma musiquinha que inventamos com o nome dela. Se ela come tudo, cantamos; se não come, não tem música. No dia seguinte a eu ter sofrido o castigo no lugar dela, na hora do almoço minha filha não comeu tudo o que estava no prato. Ela pediu para cantarmos a musiquinha, mas eu respondi que não, porque ainda tinha ficado papá. Foi quando ela fez uma carinha fofa e sincera e disse:

– Papai, e por graça? Por graça vocês cantam?

graca0Eu sorri. Olhei para minha esposa e cantamos a música. Percebi que minha filha, hoje, compreende melhor o conceito principal da nossa fé: a graça de Deus. Ela sabe que Jesus é mais do que um desenho em uma Bíblia infantil ou um nome que a gente fala ao final da oração, antes de comer. Ela agora percebe que Jesus é alguém que fez de fato algo concreto por ela, num gesto de amor em que ele pagou o preço por algo de ruim que ela fez. E que nós recebemos as bênçãos do alto não necessariamente por retribuição a algo de bom que façamos, mas porque o coração de Deus é cheio dessa coisa chamada graça, que o levou a sofrer o castigo que ele não merecia, por compaixão por cada um de nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

escravo1Você é a favor da escravidão? Pode parecer estranho e até ofensivo eu te perguntar isso, afinal, nenhum ser humano civilizado considera a escravidão humana algo correto, não é mesmo? Bem, na verdade, até pouco mais de um século, aqui mesmo no Brasil, milhões de pessoas civilizadas e cultas acreditavam que ter escravos humanos era algo totalmente normal e cabível. Como pode? Como pode tantos indivíduos bons e até mesmo cristãos terem visto essa prática abominável como aceitável? Eu estava vendo fotos do acervo do Instituto Moreira Salles que mostram escravos no Brasil há apenas cerca de 130 anos. As imagens me impactaram e comecei a refletir sobre a escravidão. Meu primeiro impulso foi o de condenar aquela sociedade, que abraçava como natural a ideia de que pessoas podem ser donas de outras e fazer com elas o que quiserem. Mas, pensando mais um pouco, acabei chegando à conclusão de que, se eu vivesse no Brasil daquela época, também não teria problemas com a escravidão. Possivelmente, eu mesmo teria alguns escravos. Por quê? Porque estaria tão inserido naquela realidade que nem gastaria muito tempo pensando sobre a validade daquilo. Na verdade, estaria tão acostumado com aquela situação que minha mentalidade seria: sempre foi assim, sempre será; é como é, não há o que questionar. E essa constatação me conduziu a uma percepção espiritual: eu sou a favor da escravidão. Permita-me explicar.

Você já assistiu ao filme “O show de Truman”? Se não, recomendo que o faça, é um dos longa-metragens mais interessantes a que já assisti. Narra a história de um homem que viveu toda sua vida num gigantesco estúdio de televisão. Todas as pessoas com quem convive são atores, num grande reality show. Sua vida não passa de uma enorme mentira, mas ele vive anos nessa loucura sem perceber. Em certo momento do filme, um repórter pergunta para o diretor e idealizador do show: “Por que o senhor acredita que Truman nunca percebeu que está num programa de televisão?”. A resposta dele é muito significativa: “Nós aceitamos a realidade do mundo conforme nos é apresentada”. Isso explica com clareza por que milhões de pessoas boas acatavam a escravidão como normal: elas nasceram numa realidade em que aquilo era natural, cresceram aprendendo que não havia nada de mais na escravidão e, por isso, nunca questionaram aquela barbárie.

escravo0Nascemos escravos do pecado. Crescemos escravos do pecado. No mundo, enxergamos a escravidão ao pecado como algo aceitável. Enquanto as correntes da transgressão prendem nossos pés, não questionamos essa situação. Vemos como algo natural a desobediência a Deus, afinal, a realidade que nos foi apresentada pela sociedade ao nosso redor é a da escravidão ao pecado – e a temos como normal. Até que, um dia, uma alternativa se descortina diante de nossos olhos: Jesus nos dá carta de alforria. Percebemos, então, que é viável uma vida que se desagrada do pecado. É impossível nos livrarmos totalmente das algemas que nos prendem à transgressão, mas o Espírito Santo nos mostra que podemos não nos conformar a ela. “Porque, se fomos unidos com ele [Jesus] na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos […] Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Rm 6.5-6, 17-18).

Até aqui nenhuma novidade. Tenho certeza de que você já sabia que a salvação em Cristo no torna livres da escravidão do pecado. Você é chamado pela graça de Deus e, com isso, torna-se absolutamente, totalmente, inquestionavelmente livre, certo?

Errado.

Eis o ponto fundamental: na verdade, a salvação não vem para nos tornar livres da escravidão. Ela vem apenas para mudar o nosso dono. Continuamos escravos, mas não mais do pecado: de Cristo. “O que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente, o que foi chamado, sendo livre, é escravo de Cristo” (1Co 7.22). Ou seja: deixamos de ser escravos do pecado para nos tornarmos escravos de Jesus. Nesse sentido, sou, sim, totalmente a favor da escravidão e me contento com essa realidade, apresentada não mais pelo mundo, mas pelas Escrituras sagradas. “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.22).

A grande diferença entre esses dois tipos de escravidão é que o pecado nos torna apenas escravos – seres abatidos, sem vontade própria, destituídos de liberdade. Porém, ao nos tornarmos escravos de Cristo, recebemos também outros títulos: somos feitos filhos de Deus, amigos de Jesus, herdeiros da eternidade, verdadeiramente livres! “Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado. O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.34-36). Ser escravo de Cristo significa receber alforria não para ser um indivíduo autônomo e independente, mas totalmente acorrentado à liberdade que a vida eterna nos concede. Portanto, aceite a escravidão, ela é uma realidade inevitável.

escravo2Infelizmente, mesmo ao nos tornarmos escravos de Cristo algumas correntes de nosso antigo senhor continuam atadas aos nossos membros. Por isso, embora tenhamos sido chamados pela graça à servidão a Deus, continuamos sendo puxados de volta à senzala do pecado. É o que Paulo escreveu: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Rm 7.14-25).

Não tem jeito, meu irmão, minha irmã, você é e será sempre escravo. A questão é: de quem? Se Cristo te chamou pela graça, você pertence ao Senhor, mas saiba que o pecado não ficou feliz com essa mudança. O pecado quer você de volta. Não permita que isso aconteça, lute pela sua servidão ao único amo que oferece a paz, Jesus Cristo. A cruz te libertou, mas o Diabo quer manter você acorrentado. O que te manterá longe da senzala da transgressão é a sua santidade. Muitas vezes fraquejamos, caímos, perdemos a batalha, nos arrastamos como cães ao antigo vômito da escravidão ao pecado. Mas Jesus não se conforma com isso, pois você pertence a ele. Então ele te chama constantemente ao arrependimento e, se você rende sua vontade a ele, o perdão sempre está ao seu alcance.

Você é cristão mas tem cedido ao pecado? As correntes da desobediência o têm arrastado de volta ao lugar de onde saiu? Você tem praticado novamente aquilo de que Jesus já te libertou? Então a hora é esta: ouça a voz do Bom Pastor chamando-o de volta. Peça perdão. Abandone essa prática. Você pertence a Cristo e foi chamado para habitar não mais nas imundas senzalas do pecado, mas nas puras mansões celestiais. Você é escravo da liberdade. Não abra mão disso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício