Posts com Tag ‘redes sociais’

Tenho sentido falta de sorrisos. O mundo anda pesado, denso, carrancudo. E não só o mundo, nós, que não somos mundo mas vivemos nele, também. As redes sociais andam tristes. Sinto falta de que meus irmãos e minhas irmãs compartilhem alegrias, carinhos, gentilezas. Se o que o universo virtual transmite é a realidade dos bastidores, sou obrigado a concluir que uma enorme parte de meus amigos virtuais está tensa, irritada, assoberbada por uma caminhada cinzenta, nublada. Todos parecem ter uma lição de moral a dar, uma crítica ácida a fazer, uma exortação a cajadar, uma reclamação a expor. As redes sociais estão chatas, talvez porque eu esteja chato, talvez porque todos estejamos chatos. Talvez porque a vida esteja pesada e todos precisem desabafar.

Claro que a vida não é só alegria. Nunca foi e nunca será. Mas a nuvem está escura demais. Além do ponto. Você não tem essa impressão? Gostaria de ver mais gente falando e postando sobre coisas bonitas, como a poesia que leu, o entardecer que apreciou, o gesto de gentileza de que foi alvo ou com que alvejou alguém. Está faltando beleza, sabe? Tenho tido dificuldade de encontrar prazer no telejornal, nas postagens da minha timeline, na fala de muitos amigos. Os assuntos parecem sujeitar-se a uma ditadura do ruim, do feio, do errado, da maldade, do ódio. O cheiro do rancor parece impregnar as roupas e os cabelos de muitos. A raiva está demais. Antipatias. A humanidade parece doente, com uma febre e uma tosse que não passam nunca. 

Não temos nos visto como complementares, mas como antagonistas. É claro para mim que a maioria das pessoas tem entrado nas redes sociais não com o desejo de amar o próximo, mas com a vontade de pôr o outro no seu devido lugar. Sabe… não estou com vontade de pôr ninguém no seu devido lugar. Prefiro me pôr em algum lugar ao lado das pessoas e trocar uma ideia, saber o que pensa o outro, achar graça dos pensamentos de que discordo e influenciar mais com um sorriso, um abraço e muita paciência e tolerância do que com intermináveis discursos cheios de pretensa superioridade. 

 Talvez seja uma fase meio esquisita, não sei. Mas estou um pouco cansado das frases de para-choque de caminhão que estão enchendo as redes sociais e dos muitos que se pensam mestres quando ainda têm tanto a aprender. Tanto. Assim como eu, que tenho tão pouco a ensinar, creia. Você não precisa entrar no facebook apenas para dar lições, acredite. Pode apenas sorrir. Elogiar. Fazer um afago no seu amigo. Dar uma palavra bonita para deixar o dia de alguém mais feliz. É só uma sugestão que dou, nada muito sério. Só uma sugestão. 

Não me acho capaz de lhe ensinar nada neste momento, meu irmão, minha irmã. Hoje, pelo menos, não sinto vontade de fazer discursos teológicos, exposições doutrinárias, dissertações sobre dogmas e escolas de pensamento. Hoje, pelo menos, quero apenas conviver, sorver da existência do próximo e me deixar deleitar pelas enormes contrariedades que compõem cada ser humano. Sem brigas. Sem fazer das minhas falas discursos de palanque. Hoje, pelo menos, quero me restringir a olhar as flores do campo e os passarinhos, como Jesus ensinou.

Estou um pouco cansado de tantos pretensos mestres, tantas lições de moral, tantos convencedores, tanta gente que acha que veio ao mundo com a missão de corrigir a humanidade ignorante. E não sei como as outras pessoas também não estão, pois os relacionamentos são muito, mas muito mais do que só ensinar, ensinar, ensinar e corrigir, corrigir, corrigir. Os outros não estão tão mais errados assim do que nós, acredite. 

Fica a sugestão, meu irmão, minha irmã: deixe um pouco de lado seu smartphone. Só por um tempo. Abstenha-se por alguns dias de querer ensinar e convencer os outros. Economize frases de efeito e amaine a alegria de receber curtidas. As nossas lições e os nossos ensinamentos não farão falta por um tempo, acredite. O mundo ficará bem sem nossas exortações. Sei disso porque ficou sem as minhas, eu, que fiquei duas semanas sem escrever neste blog e acredito piamente que isso fez pouca falta. Abracei pessoas esses dias, e foi bom demais. Conversei mais, e foi bom demais. Ouvi mais, e foi bom demais. Cuidei de gente que amo, e foi bom demais. Fechei mais os olhos, e foi bom demais. Aprendi mais do que ensinei, e foi bom demais. Precisamos disso. Eu preciso, você precisa.

Tenho gostado de me achegar ao Cordeiro. Tenho me deleitado no silêncio. Quando o coração dispara e uma incômoda eletricidade parece percorrer perenemente a pele, com o sistema nervoso em 440 volts, é nele que encontro abrigo. Que dádiva é a presença do manso amigo! Nele, toneladas saem de nós. Embora Cristo tenha tantas lições de moral a dar, tanto a ensinar, tantos a convencer, tantos a corrigir e exortar, ele apenas me convida a reclinar-me em seu peito: “Descansa, Mauricio”. E eu descanso.

Não há nada igual. É apenas estar. É dar e receber afeto. E, por fim, suspirar e respirar… em paz. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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perfeito 1Confesso que acho muito, muito, muito estranho quando vejo pessoas perfeitas. Ou… aparentemente perfeitas. Na era das redes sociais, quando virou hábito criarmos um personagem idealizado de nós mesmos para apresentar ao mundo via Internet, tornou-se comum ver irmãos e irmãs que parecem viver numa espécie de país das maravilhas. Sua vida é fantástica, o casamento é espetacular, ele é o príncipe dos contos de fadas da esposa, as viagens que faz são coisa de cinema, o prato do almoço parece feito por computação gráfica, o culto em sua igreja é sempre uma bênção… fico de queixo caído. A vida perfeita. A pessoa perfeita. Mas, então, desligo o computador, olho no espelho e percebo que minha vida é cheia de problemas, meu casamento já teve muitos altos e baixos, eu estou mais para Shrek do que para príncipe de conto de fadas, minhas viagens têm diversos dias de chuva, o prato do meu almoço é um feijão com farofa meio desmontado e o culto…  bem, o culto foi uma bênção (algum culto não é?). Poxa, Deus, por que eu sou tão imperfeito?, resmungo. Mas, então, acontece de eu ter um pouco mais de contato com a realidade de vida daquele irmão ou irmã e descubro que toda aquela perfeição era apenas uma fachada, uma máscara. A verdade era bem diferente, bastante imperfeita, e isso por um fato óbvio: é vivida por pessoas imperfeitas. E essa percepção me leva a refletir sobre duas necessidades do evangelho: perfeição e transparência. 

perfeito 2Paulo é um dos meus personagens preferidos da Bíblia. Eu o vejo nas Escrituras em uma constante busca pela perfeição, porém, sem jamais deixar de ser transparente acerca de suas fragilidades, fraquezas e… imperfeições. Dificilmente você veria nas redes sociais dele algo como “Eu sou perfeito, vivo em total santidade e tudo na minha vida é impecável”. Não. Paulo não usava filtros. O que você leria na postagem matinal do Facebook dele seria: “Nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto”. Após o almoço, mais um post do irmão Paulo: “Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço”. E, à noite, o sincero Paulo publicaria em sua timeline: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado”.

Todas essas postagens de Paulo, que estão em Romanos 7, me mostram um homem que não tenta ser o que não é e que nem ao menos tenta aparentar  uma perfeição fingida. Mais ainda: alguém que, no que se refere à sua total imperfeição, é absolutamente transparente.

Jesus disse: “sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.48). Se dizemos que algo é perfeito, isso significa, ao pé da letra, que é “acabado”, “pronto”, “completo”, “sem defeito”, “primoroso”. Mas eu não sou alguém pronto, estou em constante aperfeiçoamento; não sou completo, muitas qualidades ainda me faltam. Primoroso? Nem de longe! E… sem defeito? Fala sério. Não, definitivamente, “perfeito” não me define. Aliás, sejamos francos? Não define ninguém. O único homem que pisou na terra e merece ser chamado de “perfeito” é Jesus de Nazaré, homem completo, cordeiro sem mancha, irretocável, acabado e pronto. A grande questão é: mas e aí? Como o Mestre nos mandou ser algo impossível? 

Voltando a Paulo, o encontramos em Filipenses confessando: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo” (Fp 3.12). Outra tradução diz: “Não estou querendo dizer que já consegui tudo o que quero ou que já fiquei perfeito, mas continuo a correr para conquistar o prêmio, pois para isso já fui conquistado por Cristo Jesus”. Paulo sabia que não era perfeito, mas, mesmo assim, prosseguiria se esforçando. Repare o verbo que usei: “se esforçando“. “Continuo a correr para conquistar o prêmio” revela claramente um esforço contínuo. 

perfeito 3A esse respeito, é muito interessante você observar o contexto de quando Jesus nos diz que devemos ser perfeitos. Ele vem falando, desde Mateus 5.43, sobre a importância de amarmos nossos inimigos, de orar por quem nos persegue, de não amar somente quem nos ama. E conclui, dizendo: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”. Repare a palavra “portanto”. O uso desse termo significa que a proposta de perfeição de Cristo é uma consequência do que ele disse imediatamente antes: amar quem não é amável, o que é algo extremamente difícil. Logo, o que enxergo, novamente, é que a perfeição (alvo inatingível), deve nos motivar a sermos esforçados (alvo atingível). Ao máximo. Com todas as nossas forças. Combater o bom combate não significa combater com perfeição, mas com todo esforço possível. “Seja fiel até a morte” é uma exortação que aponta para a necessidade de se esforçar para permanecer fiel. Empenho. Perseverança. Esforço. 

perfSer perfeito é impossível. Esqueça, as postagens supostamente perfeitas nas redes sociais não mudarão essa realidade. Mas ser esforçado é totalmente possível. Mais que isso, é desejável. O que devemos fazer é nos esforçar para alcançar aquilo que nunca alcançaremos. Por loucura? Não, por saber que, no decorrer desse esforço, obteremos muitas conquistas espirituais. E, sabe, acredito piamente que ser transparente como Paulo foi  é um componente indispensável nessa jornada rumo à utópica perfeição. Pois, se existe alguém imperfeito, esse alguém é aquele que esconde as suas verdades – tais como os fariseus e mestres da lei que Jesus tanto criticou. Em outras palavras, os hipócritas. 

Você quer ser perfeito? Comece sendo transparente. Revele suas fragilidades. Não oculte seus erros. Seja autêntico e pare de tentar aparentar ser quem você nunca será. Garanto que o seu esforço para alcançar esse patamar  de sinceridade fará de você alguém que, aos olhos de Deus, estará muito, mas muito mais próximo da perfeição. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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e dai 1O pastor e escritor Tim Keller foi indagado certa vez por um jovem que estava ingressando em um seminário teológico sobre que conselho ele poderia lhe dar, tendo em vista que começaria a se aprofundar em teologia. A resposta de Keller foi: “Sempre se pergunte ‘e daí?'”. Desde que li esse conselho, ele passou a fazer parte constante das minhas reflexões e começou a nortear minha autocrítica. Toda vez que leio um artigo ou um livro, que ouço um sermão ou escuto um palestra, que assisto a um vídeo ou sou convidado para um evento, invariavelmente me pergunto: “E daí?” – ou seja: é realmente importante e relevante? Se a resposta não for muito frutífera, descarto, ignoro ou passo para a próxima. Mas não só no que se refere ao que os outros produzem, isso vale especialmente para mim. E deixo a sugestão: que passe a valer para você também.

Deixe-me, primeiro, cortar na própria carne. Confesso que é bem frequente acontecer o “e daí?” quando escrevo os textos para o APENAS: começo a redigir um post sobre algo que me parece interessante, mas, de repente, me pergunto “e daí?”… e desisto de prosseguir escrevendo. O mesmo vale para ideias que tenho para livros. Meu pensamento é que, se aquilo não tem uma consequência real na vida das pessoas, se não vai promover edificação, exortação ou consolo, o melhor é não ir adiante. Não quero ser conhecido pelo que escrevo: quero que o que escrevo seja conhecido. E que tenha consequência.

A tentação de entrar por temas teológicos cabeludos, por exemplo, é grande, mas, então, percebo que discutir determinados assuntos será apenas demonstração de vaidade intelectual, sem aplicações práticas… e desisto. Deleto o texto e procuro tratar de algo que de fato tenha consequência na vida de quem me lê. O conflito do “e daí?” é constante, mas tem me poupado de fazer parte do grupo das pessoas que falam, falam e falam sobre temas que não vão fazer nenhuma diferença na vida da dona Maria ou do seu José. Pior: não vão glorificar Deus. Serão puro blá-blá-blá destinado ao envaidecimento pessoal.

Outra área em que o “e daí?” tem sido um magnífico filtro é a das polêmicas. É difícil transitar pelo universo virtual sem deparar com todo tipo de controvérsia ligada à fé. Dá vontade de emitir opinião, criticar, se posicionar para defender a “minha verdade”, como já fiz muito no passado. Mas… sabe o que descobri? Que, quando ligo o interruptor do “e daí?”, percebo que 99% das polêmicas só me farão entrar em debates agressivos contra irmãos em Cristo, sem gerar nenhum resultado de fato produtivo para a Igreja ou o reino de Deus. Claro que polêmica dá ibope, faz você ser visto e comentado, te põe em evidência; por isso tantos cedem à tentação de ir por esse caminho. Para mim? Não, obrigado.

e dai 2Nosso tempo é muito curto, meu irmão, minha irmã. As horas do nosso dia são preciosas demais e o tempo não volta atrás. Por isso, cada hora da sua vida é valiosa e precisa ser vivida com aquilo que é pão. E isso vale tanto para o que produzimos quanto para o que absorvemos. Por exemplo: existem bilhões de livros no planeta, como selecionar aquele que ocupará suas horas livres esta semana? Na dúvida, acione o “e daí?”. Programas de televisão: vale a pena perder uma hora vendo aquilo que te faz gaguejar na hora do “e daí?” ou seria melhor fazer outra coisa? Passeios, amizades, viagens, eventos, congressos, palestras, programações, prioridades, postagens, redes sociais, escolhas: “E daí?”. Só então tome decisões.

Como vivemos numa cultura em que a mídia, os valores e as pessoas nos dizem o tempo todo que muitas coisas irrelevantes são relevantes, sei que é difícil ter distanciamento suficiente para responder diante de certas atrações: “É… isso não vai somar nada à minha vida ou à dos outros”, e ir fazer outra coisa. Mas, se não começarmos a exercitar a reflexão do “e daí?”, viveremos para o que os outros nos dizem que tem importância e não para o que de fato tem. E, assim, jogaremos no lixo momentos insubstituíveis desse tesouro chamado “vida”.

O “e daí?” tem um nome mais elegante: senso crítico. Ligar o botão do “e daí?” significa, na verdade, ter capacidade crítica de analisar as coisas e saber o que de fato importa e o que é correr atrás do vento. Se conseguir pôr seu senso crítico em prática diariamente, afirmo sem medo de errar que você se tornará uma pessoa mais culta e ponderada, que absorve aquilo que de fato vale o nosso tempo, que produz o que fará diferença no mundo e que passará pela vida deixando um legado que não será comido pela traça e a ferrugem, mas que permanecerá pelas gerações. O senso crítico na hora das suas decisões é, em grande parte, o que fará de você alguém que valeu a pena vir ao mundo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari
facebook.com/mauriciozagariescritor

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volta 1Sim, cristão volta atrás. Eu diria mais: se não volta atrás, não é cristão, pois nossa fé pressupõe que vivamos constantemente examinando a nós mesmos, reconstruindo quem somos, refazendo nossas crenças, reavaliando nossas práticas, abandonando pecados, renovando nossa mente. Ser cristão pressupõe uma mutação constante e por uma razão básica: nossa meta enquanto estamos neste mundo é nos conformar à imagem de Cristo. Bem, eu ainda estou bem longe de ter uma imagem perfeita do puro e santo Cristo em mim, portanto preciso continuar me transformando e me deixando transformar pelo Espírito Santo, para que termine a carreira sabendo que o bom combate foi combatido da forma mais parecida possível com a que Jesus combateria. Ou seja: se o Mestre foi amoroso, devo viver estendendo graça; se o Cordeiro foi abnegado, preciso caminhar em humildade; se o Rei amou o próximo, devo ajudar meu semelhante; se o Todo-poderoso perdoou, quem sou eu para não fazer o mesmo? E por aí vai. Então, sim, preciso mudar a cada dia, numa tentativa de ser transformado ao máximo possível em quem Deus quer que eu seja.

Um dos lemas dos reformadores, aliás, é “Igreja reformada, sempre se reformando” (Ecclesia reformata, semper reformanda). Vemos, então, que tanto nos escritos paulinos (Rm 12.2) quanto nos pressupostos da Reforma Protestante, as mudanças de curso são uma constante. Com isso, jamais devemos ver o reexame de antigas crenças e práticas como um erro, mas sim como uma possibilidade desejável (desde que, claro, a mudança seja para melhor). A querida irmã Elis Amâncio postou há alguns dias no facebook uma frase atribuída a Juscelino Kubitschek em que ele diz: “Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro”. Gostei disso e essa afirmação casou com uma decisão que tive de tomar recentemente.

dubaNão é segredo para quem me acompanha pelo APENAS que sou um crítico do mau uso das redes sociais, já expressei isso claramente aqui no blog. E falo por experiência, pois eu mesmo já errei muito no uso dessas ferramentas, a ponto de prejudicar a mim e outras pessoas. Aprendi a lição. Pois bem: há algumas semanas fui convidado para pregar no congresso de uma igreja e o tema de minha ministração foi Os perigos da internet. No processo de preparação dessa mensagem, refleti muito sobre o assunto, conversei com muitas pessoas e preciso reconhecer que tive de reavaliar algumas posições quanto ao uso de ferramentas como o facebook, por exemplo, contra as quais estive refratário por muito tempo. Em alguns pontos, quero deixar claro que mantenho as mesmas ideias de antes: continuo não gostando de quando o contato virtual substitui o pessoal; sigo achando triste dar parabéns por, por exemplo, um aniversário “curtindo” um post em vez de telefonar para o aniversariante ou visitá-lo; preservo minha convicção de que a exposição da vida privada pela web é um enorme problema; continuo vendo muita gente se manifestando com agressividade e ódio pelo ambiente virtual (as reações às últimas eleições que o digam); e, acima de tudo, ainda considero que as redes sociais abrigam uma quantidade gigantesca de conteúdo irrelevante e, até mesmo, nocivo, que toma demais o tempo de quem não as usa com critério e não produz nenhum tipo de benefício. Em resumo: sim, ainda acredito que o mau uso da internet pode causar enormes problemas.

Perdao total_pilhaDito isso, preciso dar a mão à palmatória, pois, após muito refletir e me aconselhar, reconheço que há formas positivas de usar as redes sociais, desde que de forma refletida, cautelosa e comedida. Eu já vinha ponderando sobre isso há algum tempo e conversando com pessoas equilibradas que fazem um uso bastante saudável de suas mídias sociais. Comecei, então, a observar as redes sociais com um olhar mais atento. A gota d’água foi quando, no início de outubro, com o lançamento do meu livro “Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar“, conversando com profissionais da editora Mundo Cristão, fui convencido a criar uma página no facebook que permitisse transmitir informações sobre a obra e sobre minha atuação como escritor. Confesso que, ainda um pouco ressabiado, concordei e a criei, mas mediante a condição que me autoimpus de que fosse um espaço de fato em que eu pudesse edificar vidas e não apenas “fazer divulgação”. Planejei-me para usá-la de modo que eu ficasse o menor tempo possível logado e que seu uso não atrapalhasse meu trabalho e, principalmente, o tempo com minha esposa e minha filha – pois minha família foi a maior prejudicada pelo meu mau uso da internet no passado e não quero repetir o erro. E preciso reconhecer que tem dado frutos. A conclusão de tudo isso é que, se usamos as redes sociais com equilíbrio, planejamento e priorizando o que tem de ser priorizado (como o contato humano; o consumo do que é relevante; e a dedicação de tempo e atenção à família), ela pode ser algo que soma e não que subtrai.

Assim, há alguns dias pus no ar um perfil de facebook que tenho usado exclusivamente para falar como escritor e como cristão. Em outras palavras: eu voltei atrás, porém com uma enorme ressalva: desta vez consciente de que preciso usar essa rede social de modo extremamente diferente do que da primeira vez. Sem dúvida alguma o APENAS continua sendo meu espaço preferido, pois é aqui que desenvolvo pensamentos mais profundos e complexos, aos quais me dedico com mais reflexão – como prefiro. Lá o que tenho compartilhado são informações sobre o processo de escrever, projetos nos quais trabalho e, naturalmente, pensamentos e reflexões bíblicas. Será um espaço mais informativo do que reflexivo. Se você desejar, basta entrar em facebook.com/mauriciozagariescritor e “curtir” a página, para passar a acompanhar as postagens. Já está no ar.

volta 3Essa mudança me fez pensar muito sobre o processo de voltar atrás à luz da Bíblia. Minha conclusão é que, se precisamos retroceder, devemos usar a maturidade e a experiência que adquirimos para agir com mais equilíbrio e de modo mais aperfeiçoado – e, por que não dizer, mais santo. Não cometer os erros do passado. Não prejudicar ninguém. Buscar informações que nos ajudem a ser melhores naquilo. Enxerguei isso, por exemplo, na história de Moisés. Certamente, ele partiu do Egito sem a intenção de voltar, mas, quando Deus o mandou retornar para libertar seu povo, ele era um homem mais maduro, sofrido, amassado pela vida e pelos erros do passado. Foi preciso Moisés passar 40 anos cuidando de ovelhas para voltar atrás – dessa vez, como alguém diferente. Também penso em José, o filhinho de papai que dedurava os irmãos. Foi necessário que ele passasse pela escravidão e pela prisão para que estivesse habilitado a voltar atrás e, com isso, retomar o contato com seu povo e sua família e cumprir os propósitos de Deus. Também Pedro, que, após trair Jesus, achou que voltaria a ser um pescador mas teve de voltar atrás quando Jesus o chamou para apascentar as suas ovelhas.

São muitos os exemplos bíblicos de personagens que voltaram atrás. Em comum entre eles, o que vejo é que as pessoas tiveram de passar um tempo sofrido e reflexivo em atividades ou situações diferentes, amadurecendo, crescendo, se santificando, se arrependendo, se perdoando e passando por muitos outros processos para poder retornar ao que faziam antes. Comigo não foi diferente.

cruzE na sua vida? Você teve de passar por algum período de provações, foi removido de algo, deixou alguma atividade, precisou se reavaliar e se reexaminar para, depois reassumir? Está passando por isso agora? Tem decisões a tomar? Então fique atento aos sinais de Deus. Dedique-se à oração e ao estudo das Escrituras, para que o Senhor mostre a você se, no seu caso específico, será preciso voltar atrás ou prosseguir sem jamais retroceder. Esteja aberto à voz de Cristo, pois as ovelhas conhecem a voz do bom pastor – e a doce e suave voz do Cordeiro te guiará. E, sempre, que a glória da segunda casa seja maior do que a da primeira, para que, naquilo em que você precisa se reavaliar, o caminho te conduza mais para perto de Jesus, em santidade, propósito e missão. Se voltar atrás vai te afastar de Cristo ou dos planos dele para a sua vida, meu irmão, minha irmã, o melhor é continuar onde você está ou seguir um rumo diferente. Mas, se vai edificar a Igreja e abençoar o corpo de Cristo, faça o que Deus manda, saia da zona de conforto carregando consigo todo o amadurecimento na bagagem e volte ao início. E que o Senhor te abençoe.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

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tedioTenho viajado com certa frequência para outras cidades, por conta do meu trabalho. Isso tem me levado a passar algum tempo em salas de embarque de aeroportos. Como me interesso muito pelo comportamento humano, gosto de ficar observando as pessoas à minha volta. Estive recentemente em São Paulo e passei algumas horas no aeroporto. Poucos anos atrás, se eu estivesse numa situação semelhante, veria ali muita gente com cara de tédio, cochilando, lendo livros ou, simplesmente, pensando. Nos últimos anos, porém, a coisa mudou. Reparei que a esmagadora maioria de quem estava próximo a mim na sala de embarque mantinha-se profundamente entretida com seus smartphones, iPads, notebooks e outros aparelhos eletrônicos. Curioso, me levantei a caminhei um pouco ao redor do salão, espiando com o que exatamente estavam ocupando seu tempo. Muitos estavam em redes sociais, outros jogavam games, alguns batiam papo em programas de chat. Uma minoria fazia algo que parecia ligado a trabalho. Em resumo, o que percebo nas minhas viagens é que as caras de tédio estão se tornando quase que extintas nos aeroportos. Agora, os recursos eletrônicos ocupam com bastante competência o tempo e a mente das pessoas. Fiquei me perguntando: isso é bom ou mau?

tedio0Claro que é bom. Quem gosta de ficar entediado? Quem gosta de passar horas sem nada o que fazer? É muito melhor ter algo com o que ocupar a mente enquanto se espera o avião chegar. Na verdade, enquanto se espera por qualquer coisa, pois tédio não é exclusividade de aeroportos. No trajeto do ônibus até o trabalho, na fila do supermercado, na sala de espera do médico… as ocasiões em que o tédio se manifesta não têm limites. Surgem a qualquer momento e por todo lado. E se antigamente o não-ter-nada-o-que-fazer nos proporcionava como única alternativa passar o tempo pensando ou no máximo lendo um livro ou fazendo palavras cruzadas, agora temos ao nosso dispor bugigangas eletrônicas de todos os tipos, tamanhos e formatos, com uma infinidade de softwares e aplicativos, que chegaram para ocupar nossa mente, enxotar o tédio e nos livrar da penosa e irritante atividade que é pensar.

tedio2Epa. Percebeu algo estranho no que acabou de ler? Não? Então permita-me chamar a atenção: eu disse “penosa e irritante atividade que é pensar”.  Este é um fenômeno de nossos tempos: consideramos que “pensar” é sinônimo de “não ter nada o que fazer” e, portanto, é algo chato e incômodo. Logo, se não nos entretivermos e “apenas” ficarmos pensando, acabamos descontentes. A consequência? Temos procurado tão desesperadamente dar tarefas ao nosso cérebro que está sobrando muito menos tempo para a reflexão – estamos pensando incomparavelmente menos. Alguns anos atrás podíamos dedicar nossos momentos de espera e ócio à reflexão, a pensamentos sobre a vida, à análise de fatos e ideias, a muitas coisas importantes que exigem a nossa meditação – exigem cérebros direcionados exclusivamente para o pensamento. Os momentos de tédio nos davam espaço para devotar nossa mente não apenas a se ocupar, mas a elaborar. A ponderar. A investir tempo no questionamento. Isso nos permitia ser pessoas mais críticas, reflexivas, analíticas, criativas e inovadoras. Pois tínhamos tempo ocioso para fazer mais do que absorver informações: conseguíamos processá-las, pô-la sob os holofotes e examinar seus muitos ângulos, com cuidado e bastante reflexão. Mas, se “nos livramos da penosa e irritante atividade que é pensar”, estamos nos tornando seres que não pensam . Logo, aceitaremos tudo o que nos é apresentado como verdade, pois não teremos mais o hábito de parar e questionar: “Será verdade mesmo?”.

Assim, vemos que espantar o tédio é ótimo, mas pensar menos é uma tragédia. Em especial para o cristão.

cabeça oca1Se mantemos nossa mente ocupada em todos os momentos entediantes com atividades lúdicas (como games e redes sociais), sentiremos muito menos tédio, mas exercitaremos infinitamente menos nossa habilidade de pensar. Com isso, ao recebermos um ensinamento religioso, por exemplo, simplesmente o incorporaremos ao nosso grupo de verdades absolutas – pois não pararemos para refletir até que ponto ele é de fato bíblico. Nos dirão que a prática X ou Y deve fazer parte da nossa vida de fé e você aceitará sem senso crítico. Vão dizer que você pode ser um cristão agressivo porque “afinal, Deus respeita o seu temperamento” e você aceitará esse confortável absurdo sem questionar. Cantarão louvores cheios de erros bíblicos e você nem ao menos perceberá, visto que não pensou muito sobre eles. Você passará meses sem ouvir pregações que falem sobre assuntos centrais da fé – como amor ao próximo, graça, perdão, arrependimento, inferno, negar-se a si mesmo, preferir os outros em honra, e não devolver mal com mal – e achará que está tudo bem (pois não parou para pensar sobre o assunto). E por aí vai.

Pensar é uma atividade vital do ser humano. Mas não apenas pensar por pensar ou pensar de qualquer maneira: pensar, isto sim, de forma reflexiva, critica, analítica, demorada, focada. A questão é que, para podermos pensar de um modo que nos fará crescer e ser mais consequentes em nossa vida, precisamos de tempo. Uma boa conclusão ou decisão jamais é tomada em segundos: exige ponderação, olhar todos os lados da situação, concluir, questionar a conclusão, voltar a analisar, concluir de novo. Nesse sentido, os momentos de tédio são preciosos.

Einstein1A filosofia grega revolucionou o mundo pelos 2.400 anos seguintes ao seu surgimento. Tales de Mileto, Sócrates, Platão, Aristóteles e outros pensadores que mudaram os rumos de toda civilização ocidental só puderam criar seus conceitos porque viveram em um momento histórico em que podiam se dedicar ao pensamento. Albert Einstein só criou a teoria da relatividade porque trabalhava num escritório de marcas e patentes em que dava conta de todo o serviço na parte da manhã e tinha a tarde ociosa, sem ter nada a fazer exceto sentar-se no beiral de uma janela e matar o tédio… pensando. Os avanços da humanidade só surgiram quando pessoas começaram não a se entreter e ocupar a cabeça com informações irrelevantes, mas a pensar.

Na própria história do cristianismo vemos isso. O escolasticismo (movimento de reflexão e produção teológica iniciado no século 12 e que sucedeu a Idade Média) foi marcado por uma riqueza enorme de criatividade intelectual, promovida por um contexto sociocultural que estimulava o pensamento. E, sem esse movimento, não teríamos os pré-reformadores e muito menos a reforma protestante. Ou seja: sem o pensamento e a reflexão não haveria Igreja evangélica. Às vezes fico imaginando se os dois discípulos na estrada de Emaús, em vez de ocupar o tédio daquela longa caminhada conversando com Jesus, tivessem ficado com a cara enfiada em seu iPad durante todo o trajeto. O que não teriam perdido?

Você vai deparar com muitos momentos de tédio ao longo da próxima semana, do próximo mês, do resto de sua vida. É totalmente possível ocupá-los todos com aquilo que vê em seu smartphone, notebook ou tablet. Não tenha dúvidas de que conseguirá espantar o tédio com eficiência, vai se distrair, entreter-se e manter seu cérebro bem ocupado. Vai rir, ver vídeos legais no YouTube, admirar milhões de selfies dos seus amigos no Facebook, gastar horas jogando Candy Crush. Coisas do gênero. Nada contra. Mas se você não tomar a decisão de desfrutar de pelo menos parte desse tédio com a leitura de livros ou com a arte de pensar, corre o sério risco de se tornar alguém que não avança nem contribui – apenas reproduz o que alguém que pensa te falou. E isso seria muito triste. Improdutivo. E desastroso para você, a Igreja e a sociedade.

Tedio3Quer ser uma pessoa relevante? Quer ter opiniões bem formadas e refletidas e não apenas copiadas do que ouviu da boca de alguém que admira? Quer ter senso critico? Quer conseguir analisar algo que todo mundo diz que está certo e concluir que está errado? Então recomendo que dedique-se ao pensamento. E os momentos de tédio são preciosos e propícios para isso. Não perca a oportunidade. Use a chatice das horas entediantes para se tornar uma pessoa que usará suas reflexões para auxiliar vidas, formar uma igreja mais íntima de Cristo e construir um mundo melhor.

E, agora que acabei de escrever esta reflexão, surgida em um momento de tédio na sala de embarque de um aeroporto de São Paulo, peço licença mas vou ler um bom livro – afinal, ninguém é de ferro.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Biblia1Você já parou para pensar por que Deus decidiu se revelar justamente por meio de um livro – a Bíblia? Haveria centenas de maneiras diferentes de ele se apresentar à humanidade e de expôr o plano de salvação, mas a estratégia adotada pelo Senhor foi justamente tinta sobre papel. Claro, ao longo dos 1.500 anos em que as Escrituras foram escritas, não havia o formato de livro que conhecemos hoje, com páginas coladas ou costuradas, capa e quarta capa. A coisa era mais rústica, os textos eram registrados em pergaminho ou em pele de animais curtida, em rolos enormes. A coisa evoluiu e o formato chegou ao que temos em nossos dias. Mas, independente da forma, o fato é que o conteúdo do que Deus tinha a transmitir à humanidade foi gravado para as gerações futuras com tinta sobre uma superfície. Contextualizando: livros. Teria sido à toa? Será que o Senhor não é criativo o suficiente para ter bolado montes de outras maneiras de se apresentar? Essa realidade nos desperta para a importância que têm os livros. E não, este não é um post literário, o assunto é altamente espiritual.

Recebi um comentário aqui no APENAS de um irmão, que, democraticamente, expôs sua visão – que respeito, mas da qual discordo com absoluta veemência. Escreveu ele: “NÃO LEIAM O QUE ” HERNANDES DIAS LOPES ” OU QUALQUER OUTRO ” SUPOSTO ” AUTOR CRISTÃO DIZEM ESTAR NA ESCRITURA , MAS LEIAM AS ” ESCRITURAS SEM NENHUM — A C R É S C I M O — OU SEJA : ” SEM COMENTÁRIOS , SEM ESTUDOS OU QUALQUER OUTRO ACRÉSCIMO QUE TE SUGIRAM QUE ISTO ACRESCENTAR LHE Á UM ACRÉSCIMO A SUA VIDA ESPIRITUAL ! ! ! ISTO É UMA GRANDE MENTIRA ! ! !” (sic). Confesso que pisquei bastante olhando isso, refleti por um longo tempo e fiquei realmente triste por ver que ainda há aqueles que têm esse tipo de visão. Por isso, decidi compartilhar alguns pensamentos sobre esse assunto tão vital.

Primeiro, vamos falar sobre literatura em si, para depois tratarmos da questão espiritual.

Biblia2Sem livros, a humanidade ainda caçaria com lanças e se vestiria de pele de animais. Não teríamos medicamentos, muito menos tecnologia, a educação seria extremamente limitada e viveríamos em cavernas ou, se muito, em tendas. Por uma simples razão: a escrita é o meio que permite transmitir conhecimento entre as gerações. Se hoje conseguimos mapear o genoma humano e o dos animais é porque as descobertas na área da genética ficaram registradas em livros desde que Mendel analisou suas ervilhas. A coisa funciona assim: eu dou um passo no conhecimento sobre algo, e registro em livros. Daqui a pouco eu morro e meu filho vai pegar aquele conhecimento e levá-lo um pouco mais além. Em seguida, ele morre e meu neto usa o conhecimento registrado e o leva a um novo patamar. É assim que a humanidade evoluiu: conhecimento transmitido em livros para futuras gerações, que pegaram aquelas informações, leram e as levaram a novos níveis. Como bem analisou Alberto Moravia, “Um livro não é um livro, mas sim um homem que fala através do livro”. Já Jorge Luis Borges disse, com muita sabedoria: “O livro é a grande memória dos séculos… se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem”.

Sem livros, não teríamos a medicina, viagens espaciais, arquitetura, engenharia, computadores, cinema, automóveis… nada! Pois a transmissão oral é limitada: as pessoas se esquecem do que ouviram, transmitem com erros naturais do telefone-sem-fio e a coisa não avança muito. É preciso registrar o conhecimento adquirido de forma precisa: livros são a solução. Histórias do passado, poesia, avanços da matemática, até mesmo as historinhas que você lê para seus filhos. Tudo chegou a nossos dias graças aos livros.

Monteiro Lobato escreveu: “Um país se faz com homens e livros”. Homem sábio.

Biblia3Além da óbvia preservação do conhecimento, a leitura proporciona um benefício adicional. Malba Tahan escreveu: “Quem não lê mal fala, mal ouve, mal vê”. O hábito de ler tem efeitos diretos sobre o nosso cérebro e, logo, sobre as estruturas e os modelos de pensamento. Ler sobre matemática desenvolve seu raciocínio lógico, treina sua mente na solução de problemas da vida cotidiana. A leitura de obras de poesia estimula nosso lado emocional e treina as habilidades mentais em uma série de áreas. Ler romances de ficção trabalha nosso poder imaginativo, criativo e lúdico. E por aí vai. Quando você assiste a um filme na TV, por exemplo, tudo já está ali, pronto, exige-se pouquíssimo do cérebro, é como se o puséssemos em pause. Não é necessário imaginar nada quando vemos um longa-metragem. Mas, quando você lê em um livro palavras que descrevem uma paisagem, uma pessoa, um cenário ou uma situação, seu cérebro trabalha profundamente para construir todo esse mundo inexistente em sua mente: literalmente, você cria um universo a partir do nada, constrói realidades inteiras a partir de palavras, tira seu pensamento do zero e o leva a 2.000 km/h no virar de uma página. A ciência já conhece os efeitos benéficos da leitura, tanto que pessoas em idade avançada são estimuladas a ler livros, escrever e até fazer palavras-cruzadas, como forma de manter pleno o seu vigor mental.

Em resumo: ler é essencial para a vida – do indivíduo e da sociedade. E, claro, da igreja.

É por isso que sou um crítico bem ranheta no que se refere ao abandono de ler livros para ficar ciscando textinhos inócuos e minúsculos em redes sociais. Esse hábito vai resultar em uma geração (ou mais de uma) mentalmente flácida, sem capacidade crítica, destituída de novas ideias, que não vai avançar seus sistemas de pensamento. Uma tragédia para a humanidade. E muitos não enxergam isso, infelizmente. Ironicamente, o próprio Bill Gates afirmou: “Meus filhos terão computadores, mas antes terão livros”. Claro, ele não é bobo.

Pois bem, tendo visto a importância da leitura para a perpetuação do conhecimento na humanidade e para o nosso desenvolvimento mental, lógico, criativo e dedutivo, abordemos agora a questão espiritual.

biblia0Sim, a revelação de Deus está completa na Bíblia. Nenhum outro livro acrescenta nenhuma nova revelação, crer nisso seria uma heresia. Só que tem uma coisa: ler a Bíblia sem que haja quem a explique gera milhões de erros de entendimento. Como você vai compreender para quem cada profeta escreveu, em que período, em que contexto, sem ter alguém que lhe ensine isso? E, creia, o grande comentarista bíblico John Gill não retornará do túmulo para lhe explicar. Mas se você ler os escritos que ele deixou vai compreender muito. Livros cristãos trazem insights valiosos e formas de abordagens que jamais teríamos tido sozinhos. A percepção de irmãos acerca das coisas de Deus, registradas no papel, são extremamente úteis para edificação, conserto, crescimento espiritual. A Editora Mundo Cristão, onde trabalho como editor, tem como filosofia que cada livro que publicamos tenha o propósito de transformar vidas à luz do evangelho. E basta ler um pouco sobre a história da humanidade para ver o quanto livros transformaram vidas, países, culturas e civilizações inteiras. E seguirão transformando.

Lendo “O livro dos mártires”, de John Foxxe, fui para sempre impactado acerca do tipo de espiritualidade que eu deveria viver mas não vivo. Lendo “O sorriso escondido de Deus”, de John Piper, percebi quanto o Senhor age em nós em meio às maiores dificuldades da vida. Lendo “Cristianismo puro e simples”, de C.S.Lewis, meus olhos foram abertos para a essência da vida cristã. Lendo “O cristianismo através dos séculos”, de Earle E. Cairns, acompanhei a evolução da Igreja desde a era apostólica até nossos dias. Cada livro que lemos é uma galáxia a mais que acrescentamos ao nosso universo.

Esta semana, uma irmã que conheci algum tempo atrás, quando ela estava em crise espiritual, me escreveu um e-mail que muito me emocionou. Ela relatou que hoje está viva na sua fé, crescendo cada vez mais, e que o estopim para essa transformação em sua espiritualidade foi a leitura do livro que escrevi, “A Verdadeira Vitória do Cristão”. Isso é nada menos do que vidas sendo tocadas por Deus por meio da literatura cristã. Desprezar esse potencial transformador seria uma insanidade.

Biblia01A Bíblia é um livro que se basta. Mas – entenda bem o que vou dizer, para não soar como heresia – que, muitas vezes, não traz em si explicações importantes para sua compreensão. Como entender a geografia bíblica sem ler bons livros sobre o assunto? O que aconteceu entre Malaquias a Mateus? Como assim, Israel era dominado por Roma (até Malaquias, Roma não tinha nenhuma expressividade)? A quem Jeremias está falando e sobre o quê? Por que Esdras e Neemias entram no cânon fora da ordem cronológica? Com que motivação João escreveu as suas três epístolas? Colossenses foi escrito a partir de um contexto local específico, como entendê-lo sem entender o que se passava em Colossos naquela época? Os hábitos e os costumes bíblicos serão compreendidos como, sem bons livros que os expliquem a nós? O que significa aquela confusão toda de taças e selos de Apocalipse? Xerxes e Assuero eram a mesma pessoa? Etc., etc., etc. São milhões de pontos de interrogação que ficariam no ar se não houvesse instrução, transmitida por pessoas que estudaram por anos e se especializaram em suas áreas de conhecimento bíblico. E que nos presenteiam com seu conhecimento por meio de… livros.

Tal qual o irmão que deixou o comentário reproduzido acima, já ouvi outras pessoas criticarem, por exemplo, Bíblias de estudo. Acreditam que não se deveriam publicar “Bíblias de estudo femininas”, por exemplo. Que bobagem… É extremamente produtivo ler o texto bíblico acompanhado de estudos que nos clarifiquem as ideias, que nos mostrem como podemos viver uma vida espiritual mais sadia e rica a partir do que lemos com focos específicos. Direcionar a leitura das Escrituras não é pecado, é rico, é esclarecedor. Já contei em outros posts que cerca de um ano e meio atrás reli os evangelhos com foco nas palavras de Jesus, para tentar compreender o cerne da mensagem de Cristo. E se eu tivesse escrito as minhas conclusões, as inserido no rodapé do texto bíblico e publicado uma Bíblia focada nas palavras do Senhor? Que mal haveria nisso, exceto se eu escrevesse heresias?

Devo muito a autores como Luiz Sayão, Alister McGrath, C.S.Lewis, John Piper, Darren Patrick, Dallas Willard, Augustus Nicodemus Lopes, Martin Lloyd-Jones, Charles Spurgeon, Tim Keller, David Wraight, John Wesley, Max Lucado, Jonathan Edwards, John Foxxe, John MacArthur, Mark Driscoll e tantos e tantos outros, que se dispuseram a investir tempo e esforço para pôr no papel conhecimento, ensinamentos, reflexões, exortações, consolações e outras virtudes importantes para a fé cristã. São homens que, a partir da Bíblia, criaram obras literárias extraordinárias, que ajudaram a forjar muito do pouco que há de bom em mim. A eles só tenho gratidão.

Meu irmão, minha irmã, não deixe que nada roube de você o tesouro que são os livros. Nada. Pois a literatura cristã é um tesouro que vai contribuir para que você se torne um servo de Deus melhor; mais versado na Palavra; mais sólido na fé; mais refratário aos falsos ensinamentos; mais capacitado para evangelizar; mais frutífero para a obra de Deus; e, em última mas não menos importante instância, mais íntimo de Deus.

“Além de ser sábio, o mestre também ensinou conhecimento ao povo. Ele escutou, examinou e colecionou muitos provérbios. Procurou também encontrar as palavras certas, e o que ele escreveu era reto e verdadeiro. As palavras dos sábios são como aguilhões, a coleção dos seus ditos como pregos bem fixados, provenientes do único Pastor” (Ec 12.9-11).

Leia. E leia muito! Leia o máximo de livros que puder. Leia sem parar, um atrás do outro. Invista seu dinheiro em livros, pois são um investimento em você mesmo e no reino de Deus. Você só tem a ganhar – e, com isso, a contribuir para a qualidade da Igreja de Nosso Senhor Jesus.

Acredito que a diferença entre ler livros e não ler livros é a mesma diferença entre a grandeza e a mediocridade. Pense grande. Aja grande. Leia.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

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