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Você quer ouvir a voz de Deus? Deseja ardentemente que ele lhe fale e transmita profundas realidades espirituais, que se apliquem de forma prática à sua vida? Será que você tem feito de tudo para que Deus revele sua vontade, explicando aquilo que você não está entendendo, mas… não tem ouvido nada? O silêncio é total? Você vai às Escrituras e parece que nada se aplica à sua vida? Se é o caso, permita-me dizer-lhe o que você precisa fazer para ouvir a voz do Senhor.

Jesus morreu na cruz. Três dias depois, dois discípulos dele, desanimados, tristes e desencorajados, seguem de Jerusalém para o povoado de Emaús, a alguns quilômetros de distância. Eles conhecem as Escrituras, mas não enxergam aplicação prática daquele conteúdo ao que estavam vivendo. É quando acontece um fato aparentemente corriqueiro. “No caminho, falavam a respeito de tudo que havia acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a andar com eles” (Lc 24.14-15). Aqueles três homens começam, então,  a entabular uma conversa sobre os fatos recentes de seu dia a dia e acabam discutindo sobre teologia e coisas da vida cristã: “Então Jesus lhes disse: “Como vocês são tolos! Como custam a entender o que os profetas registraram nas Escrituras! Não percebem que era necessário que o Cristo sofresse essas coisas antes de entrar em sua glória?”. Então Jesus os conduziu por todos os escritos de Moisés e dos profetas, explicando o que as Escrituras diziam a respeito dele” (v. 25-27).

Algumas coisas chamam minha atenção nessa extraordinária passagem da Bíblia. Primeiro, é quando aqueles homens conversam de forma trivial sobre as coisas da vida que acabam aprendendo profundas realidades espirituais e teológicas. Segundo, isso ocorre num momento qualquer, nada especial, enquanto caminham por uma estrada, e não quando eles estão desesperados, se virando do avesso para que Deus lhes dê respostas. Terceiro, Jesus só fala com aqueles homens porque os três começam a caminhar juntos, conversando e discutindo. O resultado? “Não ardia o nosso coração quando ele falava conosco no caminho e nos explicava as Escrituras?” (v. 32).

Essa passagem magnífica das Escrituras nos ensina que as profundidades da nossa fé podem ser aprendidas em momentos corriqueiros da vida. Tudo o que é preciso fazer é deixar Jesus “falar conosco no caminho”, isto é, em qualquer lugar por onde caminhemos. Perceba que aqueles dois homens aprenderam realidades espirituais espetaculares e transformadoras, que fizeram arder seu coração, simplesmente por caminhar junto com Jesus num momento da vida absolutamente normal e trivial. Simples. Cotidiano. Trivial. Mas transformador.

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Muitas vezes, tentamos “subornar” Deus para que ele fale conosco. Realizamos ações para tentar comprar o favor do Senhor por meio de nosso mérito pessoal e, com isso, ouvir sua voz. É quando muita gente se lança em “campanhas de setenta semanas”, jejuns intermináveis, “sacrifícios”, ofertas em dinheiro à igreja, subidas ao monte, busca de “profetas” e coisas semelhantes. Achamos que a voz de Deus só se fará ouvir se ganharmos o direito de ouvi-la por meio de esforço próprio. Mas Deus não se vende, meu irmão, minha irmã.

Você já ouviu alguém dizer que “vai ao culto para ouvir a voz de Deus”? Ou já ouviu algum pastor dizer que você vai à igreja “para receber a sua bênção”? Bobagem. Nós vamos ao culto exclusivamente para adorar a Deus em comunidade e não como meio de comprar o direito de ouvir sua voz. A vida com Cristo é um culto constante e ele pode falar ao seu coração em qualquer momento trivial da vida. Afinal, Deus se relaciona conosco não por nosso mérito, mas por sua graça.

Entenda: Cristo quer que você ouça a sua voz. Aqueles dois homens nem sabiam que era Jesus quem estava falando, mas ainda assim ouviam a voz dele. Você não precisa comprar o direito de ouvi-lo, pois ele é gracioso e amoroso. Tudo o que necessita fazer é “começar a andar com ele”. E a sua estrada, meu irmão, minha irmã, não se restringe a duas horas semanais de culto. Seu caminho é este exato momento. Esteja você onde estiver, este é o seu caminho. Talvez você esteja lendo este texto no ônibus, no sofá de casa, no trabalho, no trem ou no metrô. Talvez no banheiro! Sem problema. Saiba que é exatamente aí, onde você se encontra, que Jesus deseja “se aproximar e começar a andar com você”. E, ao fazê-lo, você, natural e consequentemente, ouvirá a sua voz.

Para isso, basta que recorra às Escrituras, onde a voz de Deus se faz presente. E, por caminhar com ele, o Senhor vai “explicar o que as Escrituras diziam a respeito dele”, iluminando o seu entendimento acerca das realidades bíblicas em momentos em que você menos espera. O trono de Cristo se faz presente na sua vida a cada segundo, e sua divina voz habita o seu coração, desde que você esteja andando com ele e atento ao texto das Escrituras.

Homileo_arteCom esse entendimento, permita-me fazer-lhe um convite. A partir de hoje, começo a compartilhar em minha página do Facebook vídeos curtos com reflexões sobre a vida cristã, a fim de fazer em audiovisual o que normalmente faço aqui nos textos do APENAS (o primeiro vídeo está AQUI). E gostaria de convidar você a passar a assistir aos vídeos curtos da série que intitulei HOMILEŌ. Você poderia perguntar: o que significa essa palavra estranha? Eu explico.

A palavra em grego “homileō” foi utilizada duas vezes nos textos originais dessa passagem de Jesus com os dois discípulos e foi traduzida como “falavam” e “conversavam”: “No caminho, falavam a respeito de tudo que havia acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a andar com eles”. No original em grego, o termo significa “estar em companhia de alguém”; “comungar” e, por implicação, “conversar”.

Escolhi esse nome para a série de vídeos que começo esta semana a postar porque “homileō” retrata exatamente o que desejo fazer por meio das reflexões. A ideia é caminharmos juntos (eu, você e o Senhor), sem formalidades, para prosear e refletir sobre questões da nossa jornada com Cristo. E peço a Deus que, durante os poucos minutos em que você assistir a esses curtos vídeos, o Senhor ilumine seu coração para que consiga entender realidades da Escritura que venham a edificá-lo. Em outras palavras, que sejam momentos em que você ouça a voz de Deus. Minha ideia é fazer nesses vídeos exatamente o que faço aqui pelo APENAS: não falar sobre teologia acadêmica, mas prosear sobre os mais variados aspectos da vida cristã. 

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Postarei os vídeos em minha página do Facebook: facebook.com/mauriciozagariescritor. Se você me permitir, sempre que postar um vídeo da série HOMILEŌ, divulgarei por meio de um post aqui no blog. Se você é assinante do APENAS, receberá por e-mail o link e bastará clicar nele para assistir. Se achar as reflexões edificantes e assim desejar, peço que ajude a divulgar e encaminhe os vídeos para pessoas que precisem ouvir aquela reflexão específica. Curta as postagens e compartilhe, para que elas alcancem o maior número possível de pessoas. Meu objetivo é tão somente edificar vidas, não há nenhum dinheiro envolvido nem vou lucrar um centavo sequer com os vídeos, assim como não ganho dinheiro com este blog. Gerarei a semente, de acordo com o que Deus me levar a refletir, e, se você sentir o desejo, peço que ajude a semeá-la.

Muito obrigado por caminhar comigo na jornada com Cristo. Peço a Deus que ele fale muito ao seu coração, iluminando as verdades bíblicas, por meio do que escrevo no APENAS e, agora, pelo que gravo no HOMILEŌ. Se desejar assistir ao primeiro vídeo, basta clicar AQUI (caso o link não abra, você pode ir para https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2190313531188513&id=1558886794331193). Depois que assistir, eu gostaria de ouvir a sua opinião, pois ninguém melhor do que você para me aconselhar o que posso fazer para melhorar e, assim, edifificá-lo melhor. E que a voz de Cristo ilumine as verdades reveladas na Escritura em cada passo do seu caminho.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Acordei de manhã, cheguei na janela e vi esta triste cena: um belo passarinho morto em minha varanda. Seu aspecto era pacífico, deitadinho de costas, as asas cruzadas sobre o peito, como se tivesse repousado no chão, achado uma posição confortável, suspirado e deixado a vida escapulir devagarinho. Assim que o vi, fiquei longamente em silêncio e, imediatamente, veio um texto da Bíblia em minha mente: “Por isso eu lhes digo que não se preocupem com a vida diária, se terão o suficiente para comer, beber ou vestir. A vida não é mais que comida, e o corpo não é mais que roupa? Observem os pássaros. Eles não plantam nem colhem, nem guardam alimento em celeiros, pois seu Pai celestial os alimenta. Acaso vocês não são muito mais valiosos que os pássaros?” (Mt 6.25-26). Parecia uma contradição. Se Deus cuida dos pássaros, por que aquele pobrezinho estava morto em minha varanda? Esta pergunta passa constantemente pela mente de quem perdeu um ente querido: se Deus existe e é bom, por que quem eu amo morreu?

Essa semana tomei conhecimento de que uma irmã com quem caminho junto no Facebook perdeu dois filhos de forma muito triste: a vida deles foi tomada por assassinos enquanto dormiam. Como tomar conhecimento de algo assim e permanecer sereno, crendo que, sendo mais valiosos que os pássaros, Deus cuidará de nós? Será que cuidará mesmo? Como descansar diante do fato de que os pássaros do céu e gente amada de Deus morre? Estará a Bíblia mentindo? Como ficam as promessas de Deus diante dos duros fatos da vida?

Muitas pessoas se revoltam com Deus porque pensam que o cuidado divino tão mencionado na Bíblia seria uma promessa de imortalidade em vida. Leem o salmo 23 e entendem que Deus os blinda das maldades do mundo; em especial, da morte. A ideia é: se Deus cuida de nós e nos ama, não permitirá que morramos, em especial, “fora de hora”. Entender isso é muito importante, pois, se não compreendemos as realidades que envolvem esse fenômeno, seremos assolados por revolta, dúvida e depressão a cada pessoa amada que partir.

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Diante desse quadro, não podemos nos esquecer de três verdades bíblicas:

1. A morte é a grande certeza da vida. Embora a morte de seus santos seja custosa ao Senhor, um dia morreremos. Fato. Não é uma questão de “se”, mas de “quando”: “o Senhor Deus lhe ordenou: ‘Coma à vontade dos frutos de todas as árvores do jardim, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Se você comer desse fruto, com certeza morrerá’.” (Gn 2.16-17).

2. Nossa vida não escapa das mãos de Deus. Ele a tem muito bem conduzida debaixo de sua soberania e o momento da nossa morte não pega Deus de surpresa: “cada dia de minha vida estava registrado em teu livro, cada momento foi estabelecido quando ainda nenhum deles existia” (Sl 139.16).

3. O fato de morrermos não quer dizer que Deus não cuida de nós, nos abandonou ou não nos ama. Para quem está em Cristo, a eternidade ao lado do Senhor é uma certeza. “Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: ‘Vejam, o tabernáculo de Deus está no meio de seu povo! Deus habitará com eles, e eles serão seu povo. O próprio Deus estará com eles. Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Todas essas coisas passaram para sempre’.” (Ap 21.3-5).

Lembre-se de algo: aquilo que conhecemos por “vida” é apenas a porta de entrada da existência eterna. Se vivemos 20, 40, 60 ou 80 anos nesta terra, viveremos bilhões de anos, vezes bilhões de anos, na eternidade. Esta vida pesa muito para nós porque é o que conhecemos. E é normal, o próprio Cristo entrou em agonia no Getsêmani ao antever seu sofrimento e morte. O temor ante à morte faz parte, pois Deus nos deu o instinto de sobrevivência, que luta contra a ideia da mortalidade. Mas, se conseguimos olhar pelos olhos de Deus e contemplar o peso da eternidade, da vida que começa depois da vida, teremos mais paz ante à partida de pessoas queridas.

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E mais: se nós e nossos entes queridos vivemos em Cristo, morreremos em Cristo e com Cristo estaremos por toda a eternidade. Isso nos dá uma certeza extraordinária: a expectativa do reencontro. Para essa certeza, a morte não é um “adeus para sempre”, mas um “vou ali e já volto”. Devemos pensar sobre isso.

Meu coração apertou quando vi o passarinho em minha varanda. Fiquei pensando que nunca mais eu o ouviria piar, que no dia seguinte não seria alegrado pela beleza de seu voo, que as alegrias do convívio com aquele animalzinho cessavam ali. Isso entristece, claro, pois sempre queremos mais momentos com quem tem o dom da vida. Mas em nenhum momento questionei o amor de Deus. Sofri porque eu queria mais da vida daquele passarinho. Porém, pensativo, entendi que a boa, agradável e perfeita vontade do Senhor era que não mais tivesse isso. O Senhor deu, o Senhor tomou. Bendito seja o nome do Senhor.

Meu irmão, minha irmã, se você questiona o amor e o cuidado de Deus porque ele decidiu levar desta vida alguém que você ama, receba meu abraço apertado e sentido, mas lembre-se das verdades listadas neste texto. É natural que você chore de saudade, isso não é pecado nem demonstra falta de fé. Sim, saudade não é pecado. Chore mesmo, vai te fazer bem. Mas não questione o amor do Senhor ou o seu cuidado em razão da sua perda. Deus é bom. Ele segue sendo Deus. Ele segue no controle. Ele segue sendo amor.

Que Deus console o coração de todos que estão enlutados. Que, em seu infinito e perfeito amor, ele amaine a dor da saudade e dê paciência para aguardar pelo reencontro. E que, acima de tudo, o Senhor lembre a todos os que vivem o luto que ele mesmo deu o próprio Filho para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Você crê? Então lembre-se de que a vida eterna é a maior prova de todas do cuidado e do amor de Deus por você.

(A reflexão de hoje é dedicada a Irani e Laercio. Seus passarinhos voaram para longe, e eu sei que a saudade dói. Mas tenham a certeza de que voltarão a ouvi-los cantar…).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

Uma grande parte dos divórcios ocorre porque a pessoa não suporta atitudes, posturas, pensamentos, prioridades e gostos do cônjuge. Em geral, quando isso acontece, a separação é justificada como “incompatibilidade de gênios”, um termo elegante que, em outras palavras, quer dizer: “eu não aguento mais tantas coisas que meu cônjuge faz e que me incomodam ou o jeito dele de ser”. Eu me entristeço quando isso ocorre, porque, sem se dar conta, tais pessoas estão desperdiçando oportunidades extraordinárias de cumprir o propósito primordial e bíblico do casamento. Falemos um pouco sobre isso.

Para que nós casamos? Essa pergunta é fundamental, pois, sem respondê-la biblicamente, seremos guiados em nossa vida conjugal por razões diferentes das do Criador. Uma resposta muito comum é: “Eu casei para ser feliz” – e essa é uma resposta errada. Ao ler isso, você imediatamente tenta outra alternativa e parte, então, para aquela frase que virou moda no meio evangélico: “Eu não casei para ser feliz, mas para fazer meu cônjuge feliz”. O grande problema é que essa também é a resposta errada. Por quê? Simplesmente porque ela não é bíblica. Se você está chocado por ler isso, eu pergunto: onde na Bíblia está dizendo que você casou para fazer seu cônjuge feliz? Pode procurar, e garanto que você não encontrará tal afirmação na Escritura. Até porque ela é uma invenção humana.

Claro que você não casa para ser infeliz ou para fazer seu cônjuge infeliz. Isso é óbvio. Deixar o cônjuge feliz é parte do mandamento de amar o próximo e buscar a própria felicidade é algo inerente ao ser humano. A grande questão é que a felicidade conjugal é consequência do casamento e não causa para se casar. Entenda, para não me compreender mal: a felicidade não deve ser a motivação de se subir ao altar, mas ela será um resultado natural de um matrimônio realizado pelas razões certas e bíblicas.

Diante disso, surge a pergunta: se a felicidade não é a motivação bíblica para alguém casar, qual é? Paulo é quem nos dá a resposta: “E sabemos que Deus faz todas as coisas cooperarem para o bem daqueles que o amam e que são chamados de acordo com seu propósito. Pois Deus conheceu de antemão os seus e os predestinou para se tornarem semelhantes à imagem de seu Filho, a fim de que ele fosse o primeiro entre muitos irmãos” (Rm 8.28-29). Eis a verdadeira razão para alguém casar: ser cada vez mais semelhante ao Filho, Jesus Cristo.

Tudo, absolutamente tudo, o que passamos nesta vida tem como função nos tornar cada vez mais parecidos com Cristo. O sofrimento tem essa função primordial. Os relacionamentos também. As conquistas. As perdas. As alegrias. As tristezas. As tragédias. As bênçãos.

E o casamento.

Deus não estabeleceu que casássemos com anjos. Ele fez a mulher da costela do homem, isto é, casamos com pessoas que carregam a mesma essência errante, as mesmas imperfeições que nós. É de admirar que pessoas tão imperfeitas como eu e você acreditemos que vamos casar com gente perfeita, que fará tudo do jeitinho que queremos, que não nos chateará, que será gentil como nós não somos, pacientes como nunca seremos, autocontrolados como eu e você nunca fomos, cônjuges espetaculares como ninguém jamais é. A verdade é que muitos divórcios ocorrem porque casamos acreditando na propaganda enganosa de que seremos “felizes para sempre” e que nosso cônjuge será diariamente um exemplo de marido ou mulher.

E é evidente que não estou me referindo a situações extremas, como a de maridos que espancam a esposa ou mulheres que vivem se deitando com outros homens. Refiro-me a imperfeições comuns, a defeitos naturais, a posturas idiossincráticas como todos nós temos. Abusos, crimes, agressões e outros desvios de conduta, caráter e moral são excessos inaceitáveis. Minha reflexão trata dos defeitos comuns e naturais a todos nós, que isso fique muito claro.

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Se casamos contando com a perfeição do cônjuge, sendo que nós mesmos nunca fomos, somos ou seremos perfeitos, é óbvio que acabaremos decepcionados com o casamento. O segredo, então, é nos darmos conta de que Deus já idealizou o matrimônio consciente de nossa imperfeição. Ele sabia desde o princípio que absolutamente todo casamento seria imperfeito, visto que formado por um homem e uma mulher imperfeitos – e, na verdade, contava com isso. Como assim? Eu explico.

Para que você seja assemelhado cada vez mais a Cristo, precisa ser lapidado e aperfeiçoado naquilo que o diferencia de Cristo. Assim, para que se torne mais amoroso, o casamento vai desafiá-lo a amar um cônjuge que muitas vezes você tem vontade de esganar. Para que seja cada vez mais paciente, seu casamento o exercitará diariamente na arte da paciência. Para que seja manso como Cristo é manso, conviver com seu cônjuge exigirá de você um exercício constante de mansidão. E assim por diante. A realidade é que conviver dia após dia, ano após ano, década após década com alguém pecador, difícil, briguento, cabeça dura, cheio de defeitos e imperfeições que você detesta é um exercício no qual você é aperfeiçoado na medida em que supera cada dificuldade, tal qual uma faca que é raspada constantemente numa pedra de amolar: ela sofre atritos perenes, mas é justamente graças a esses atritos que ela vai sendo afiada. O casamento tem essa função: nos afiar dia após dia, para que nos tornemos cada vez mais próximos do padrão de Cristo. “Como o ferro afia o ferro, assim um amigo afia o outro” (Pv 27.17).

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Para que Paulo não afundasse na arrogância (um câncer espiritual da pior espécie), Deus permitiu que ele vivesse por anos com um espinho na carne, algo que o atormentava (2Co 12.1-10). Esse exemplo bíblico deixa claro que Deus muitas vezes usa algo que nos é incômodo a fim de nos guindar a uma posição espiritualmente mais elevada e aperfeiçoada.

Pense no seu cônjuge. Fica agora a sugestão: em vez de enxergá-lo como um poço de defeitos incômodos, um fardo desagradável a ser carregado, procure vê-lo como um campo de treinamento, no qual você sua e se esforça para ser cada vez mais amoldado à semelhança de Cristo. Use cada oportunidade. Aproveite cada situação. Desfrute de cada chateação. E glorifique a Deus por ter um cônjuge tão imperfeito, pois é ao ser lapidado no contato diário com essa imperfeição que você é trabalhado pelas mãos do Senhor a fim de ficar cada vez mais parecido com Jesus, o Filho de Deus.

E, acredite, seu cônjuge também. Afinal, você não é tão bom quanto pensa.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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Eu tenho um ponto fraco: café. Confesso que sou um profundo apreciador dessa bebida e tomo muitas xícaras por dia. Tenho uma cafeteira tradicional e uma máquina de nespresso na cozinha, além de uma segunda máquina de nespresso em meu escritório. Costumo pôr as cápsulas em uma caixa de acrílico, que veio como brinde do fabricante. Qual não foi minha surpresa quando, há poucos dias, decidi tomar café e descobri que não havia mais nenhuma cápsula do meu sabor preferido. Pode parecer bobagem para você, mas, diante da expectativa que eu estava para saborear o negro elixir divino, para mim foi um golpe baixo. Fiquei triste. Engoli a frustração, voltei a trabalhar e continuei a labuta. Mas sabe quando bate aquele inconformismo? Voltei a fuxicar no meio das cápsulas e, para o meu delírio, eis que descubro, soterrada, uma última cápsula do meu amado sabor preferido. É difícil explicar a alegria que foi. Fiz aquele café com um cuidado ímpar, apreciando o aroma como nunca, e o saboreei com gosto especial. O sabor era exatamente o mesmo de todos os outros cafés daquele, mas aquela xícara específica tinha um gostinho de vitória, quase de júbilo, por eu estar tomando algo que julgava perdido.

Jesus contou uma história que guarda certas similaridades com esse episódio: “Ou suponhamos que uma mulher tenha dez moedas de prata e perca uma. Acaso não acenderá uma lâmpada, varrerá a casa inteira e procurará com cuidado até encontrá-la? E, quando a encontrar, reunirá as amigas e vizinhas e dirá: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei a minha moeda perdida!’. Da mesma forma, há alegria na presença dos anjos de Deus quando um único pecador se arrepende” (Lc 15.8-10, NVT). Fiquei pensando na alegria descrita pelo texto bíblico, em comparação com a que senti ao encontrar minha cápsula de café perdida.

Deus utiliza um interessante instrumento para encontrar suas “moedas perdidas” e fazer o pecador perdido enxergar a luz da verdade e se arrepender de suas trevas: você. Se a salvação vem por ouvir a Palavra de Deus, as pessoas só a ouvirão se houver quem a proclame. E adivinha só de que boca Deus deseja que a proclamação saia? Não olhe para o lado. Faça uma selfie e veja a pessoa que apareceu na foto: é esse cara mesmo que Deus quer usar como canal de proclamação do evangelho da graça. Porque você é a pessoa que a quem Jesus estendeu a Grande Comissão.

Mas atenção a um detalhe: só você não basta. É preciso que você esteja cheio de amor.

Uma das coisas mais tristes que vejo são cristãos que partem em busca de pessoas que estão distantes de Cristo como se fosse uma obrigação. Trazer a ovelha ao aprisco jamais deve ser uma ação motivada por qualquer coisa que não seja amor. Guardadas as devidas e enormes proporções, eu não busquei a cápsula de café porque me obrigaram ou porque havia uma “obrigação” envolvida nisso, mas porque me sentia extremamente motivado. O “ide” da Igreja, a Grande Comissão, nunca deve ser visto como uma ordenança pura e simples: é um chamado ao amor pelo próximo.

Se não compreendermos que esta ordem divina, “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinem esses novos discípulos a obedecerem a todas as ordens que eu lhes dei. […]” (Mt 28.19-20, NVT), é consequência direta desta outra ordem divina: “Por isso, agora eu lhes dou um novo mandamento: Amem uns aos outros. Assim como eu os amei, vocês devem amar uns aos outros. Seu amor uns pelos outros provará ao mundo que são meus discípulos” (Jo 13.34-35, NVT), não conseguiremos jamais levar a mensagem da cruz às pessoas do modo que Deus idealizou. Pois não consigo enxergar o Pai que “amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16, NVT) resgatando vidas por qualquer outra razão que não seja amor. Ele ama os que se encontram perdidos em meio às densas trevas do pecado e, por essa razão, devemos amá-los também. Só então, quando o amor for um fato transbordante, devemos partir em busca deles.

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O amor precede o evangelismo. O amor precede a busca dos que se afastaram. O amor precede o resgate. O amor deve ser a única motivação para a apologética. O amor é o ponto de partida para a obra de Deus. Sem amor, tudo o que se faz para o Senhor é o mais puro e insosso ativismo religioso. Porque evangelizar não é “ganhar almas para Jesus”, evangelizar é compartilhar um amor que transcende tanto tudo o que podemos entender que ninguém pode ficar indiferente a ele. Ninguém “ganha almas para Jesus”, o que fazemos é servir de meio para que o amor de Jesus atraia almas perdidas em trevas para junto de si, a maravilhosa Luz do mundo.

No que se refere a evangelizar, o nosso papel, meu irmão, minha irmã, é proclamar a Palavra do Deus que é amor, que produz a graça, que produz o arrependimento e a salvação. Ame. Ame sempre. Ame como o Senhor amou o mundo. Ame com todas as suas forças. Somente isso, e nada mais, poderá torná-lo um evangelista segundo o coração de Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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O que é ser cristão? Essa pergunta pode parecer meio sem sentido, afinal, é óbvio o que implica ser cristão, certo? Bem, na verdade… não. Pois muitos cristãos parecem ter conceitos meio distorcidos sobre o real significado de uma vida com Jesus, o que influencia diretamente sua jornada com Cristo. Dependendo de como respondemos a essa pergunta, poderemos ser cristãos como Deus quer que sejamos ou uma caricatura bizarra do que um cristão deve ser, uma sombra do verdadeiro cristianismo. Este é um assunto que renderia um livro, mas eu gostaria de sintetizar rapidamente o tema, citando apenas quatro das muitas características de um verdadeiro cristão. Em seguida, vou explicar a razão desta reflexão.

Primeiro: um cristão verdadeiro, nascido de novo, que foi justificado e passou da morte para a vida, necessariamente ama o próximo. Isso é inegociável. Quando confrontado por um mestre da lei para que dissesse qual é o mandamento mais importante, Jesus não hesitou: “O mandamento mais importante é este: ‘Ouça, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de toda a sua mente e de todas as suas forças’. O segundo é igualmente importante: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Nenhum outro mandamento é maior que esses” (Mc 12.29-31, NVT). Um detalhe: Jesus explicou, na parábola do bom samaritano, que esse “próximo” não se refere somente ao gente fina, ao amigo do peito, ao cara amável de quem todo mundo gosta, ao irmão na fé; nada disso, é, também, o diferente, o desagradável, o caído, o fedorento, o coberto de chagas, o asqueroso, aquele que nos causa repulsa, o abominável, o odioso. Guarde isso.

A segunda característica: ser um cristão é desejar que o próximo seja salvo do inferno e do sofrimento eterno. Pois o cristão verdadeiro é inundado a tal ponto do amor de Deus que lhe seria impossível desejar que alguém tenha de passar pelos horrores da eternidade sem Deus. A Bíblia afirma que muitos irão para o inferno, talvez a maioria das pessoas, mas saber disso é totalmente diferente de desejar que alguém vá para lá.

Antes que alguém comece a polemizar, deixe-me dizer que, a esse respeito, não faz a mínima diferença se você é calvinista ou arminiano, se crê na eleição incondicional ou condicional. Afinal, só Deus sabe com total certeza quem será salvo e quem não será; isso não compete a nós. E, como jamais saberemos quem verdadeiramente é salvo até chegarmos à glória celestial, nosso papel nesta vida é desejar que todos se salvem, mesmo sabendo que muitos não se salvarão. É por isso que evangelizamos, é por isso que obedecemos à grande comissão, é por isso que pregamos o evangelho a toda criatura: na esperança de que cada um a quem proclamamos a boa-nova seja alcançado pela graça de Deus e resgatado de uma eternidade de tormentosa distância de Deus. Portanto, nenhum cristão tem o direito de desejar que alguém vá para o inferno. Guarde isso.

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Terceiro, o cristão verdadeiro repudia os próprios desejos e impulsos quando eles estão em desacordo com a vontade de Deus. Jesus disse: “Se alguém quer ser meu seguidor, negue a si mesmo, tome diariamente sua cruz e siga-me” (Lc 9.23, NVT). Negar a si mesmo significa não fazer o que dá vontade de fazer para fazer o que Jesus quer que você faça. Assim, por exemplo, mesmo que eu me sinta profundamente ofendido por algo que alguém fez, em vez de nutrir ódio em meu coração por ele, ponho em prática o que diz a Palavra: “Abençoem aqueles que os perseguem. Não os amaldiçoem, mas orem para que Deus os abençoe. […] Nunca paguem o mal com o mal. Pensem sempre em fazer o que é melhor aos olhos de todos. No que depender de vocês, vivam em paz com todos. Amados, nunca se vinguem; deixem que a ira de Deus se encarregue disso, pois assim dizem as Escrituras: ‘A vingança cabe a mim, eu lhes darei o troco, diz o Senhor’. Pelo contrário: ‘Se seu inimigo estiver com fome, dê-lhe de comer; se estiver com sede, dê-lhe de beber. Ao fazer isso, amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele’. Não deixem que o mal os vença, mas vençam o mal praticando o bem” (Rm 12.14,17-21, NVT). Guarde isso.

A quarta característica do cristão verdadeiro que eu gostaria de mencionar aqui é: ele pratica a apologética como a Bíblia determina que se pratique a apologética. E como é isso? Paulo responde: “O servo do Senhor não deve viver brigando, mas ser amável com todos, apto a ensinar e paciente. Instrua com mansidão aqueles que se opõem, na esperança de que Deus os leve ao arrependimento e, assim, conheçam a verdade. Então voltarão ao perfeito juízo e escaparão da armadilha do diabo, que os prendeu para fazerem o que ele quer” (2Tm 2.24-26, NVT). Em síntese: um verdadeiro servo do Senhor não é briguento e deve lidar com quem se opõe não com ódio, palavras ofensivas e agressividade, mas com amabilidade, paciência e mansidão, instruindo quem se opõe e não brigando ou atacando! O objetivo ao fazer isso? A esperança de que Deus leve o opositor ao arrependimento. A esperança da salvação. Quem diz isso não sou eu, é Paulo. Guarde isso.

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Muito bem, por que estou falando sobre esse assunto? Eu explico: há poucos dias, vi um jovem irmão em Cristo postar nas redes sociais um vídeo de um cidadão de uma igreja herética bem conhecida pregando a abominável teologia da prosperidade, dizendo aos fieis para “fazerem o sacrifício” de entregar carro, dinheiro e bens à igreja. Todos já vimos esse filme, é algo de revirar o estômago. É ofensivo ao evangelho verdadeiro. Até aí, todos compartilhamos da indignação com relação a esse tipo de engodo, que usa o nome de Deus para tirar dinheiro das pessoas. Mas o que me assombrou foi ver esse irmão, estudante de um excelente seminário teológico, que tem excelentes professores, postar o seguinte texto junto com o vídeo, em relação ao tal falso pastor: “Que Deus o leve logo para o inferno. Amém”. Sim, você não leu errado: “Que Deus o leve logo para o inferno. Amém”.

Confesso que ler essa afirmação abominável me revirou o estômago tanto quanto assistir ao vídeo abominável do “pastor” aproveitador. Por quê? Porque essa não é a postura que devemos ter como cristãos. Desejar que uma pessoa vá para o inferno não é, nem de longe, amar o próximo. Desejar que uma pessoa vá para o inferno não tem nada a ver com a postura de um cristão diante de alguém que ainda não foi alcançado pela graça. Desejar que uma pessoa vá para o inferno não é negar a si mesmo, é dar vazão a impulsos e desejos carnais em vez de olhar para os perdidos com o olhar que Deus teve ao enviar Jesus para morrer na cruz. Desejar que uma pessoa vá para o inferno é o oposto da apologética bíblica, pois é exatamente o que o diabo quis fazer com Adão e Eva.

Em suma, desejar que uma pessoa vá para o inferno é  tudo o que um cristão verdadeiro não deve desejar.

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Muitas vezes depararemos com pessoas ofendendo de tal modo o evangelho que nosso impulso será desejar que o juízo venha sobre elas. Porém, esse não é nosso papel: só Deus tem o direito de exercer seu justo juízo sobre os blasfemadores e os inimigos da fé. Lembremo-nos de que Paulo de Tarso não era uma pessoa melhor do que o tal “pastor” do vídeo até o dia em que foi confrontado por Cristo e alcançado pela graça. Todo pecador e blasfemador é um Paulo em potencial e não cabe a nós mandá-lo para o inferno. Nosso papel é orar por ele, pedindo a Deus que lhe estenda sua graça, o chame ao arrependimento, o justifique, faça dele nova criatura e o salve do inferno. O cristão verdadeiro precisa olhar para quem joga pedras na cruz com o desejo de que um dia ele venha a dizer: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus”.

Prefiro crer que um comentário desses vindo de seminaristas e irmãos em Cristo seja uma falha provocada por um processo de santificação e amadurecimento espiritual em estágios iniciais. Porque, se isso for um comentário que reflita uma postura solidificada de um cristão, que triste é ver cristãos que pensam isso. É um assombro. É o cúmulo da falta de piedade e misericórdia. Até porque o entendimento da obra de salvação de Cristo nos revela que todos nós éramos tão abomináveis como esse falso profeta do vídeo até sermos alcançados pela graça. O que não podemos admitir é que continuemos sendo abomináveis após a justificação. Espero que não seja o seu caso.

Quanto mais alguém estuda a Palavra e se aprofunda na teologia, mais deveria se aprofundar na piedade e na compaixão pelos espiritualmente doentes, e não no ódio e na agressividade. O falso pastor do vídeo não me assombra, pois ele visivelmente precisa de Cristo. Oro por isso. Oro por sua conversão. Oro para que um dia eu o encontre no céu. Duro é ver cristãos que frequentam bons círculos teológicos acharem que é bacana desejar que Deus mande alguém para o inferno. E, pior: “logo”. Incompreensível. Assombroso. Que tipo de cristianismo é esse?

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Paulo conta em 1Coríntios 5 o caso de um homem da igreja de Corinto que cometia o abominável ato de se relacionar sexualmente com a própria madrasta e, por isso, trazia escândalos para a Igreja de Cristo e sujava seu bom nome junto à sociedade. Repare que o apóstolo orienta a igreja a “excluir de sua comunhão o homem que cometeu tamanha ofensa” (v. 2, NVT) e, em seguida, diz: “Entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja punido e o espírito seja salvo no dia do Senhor” (v. 5, NVT). O ato abominável leva Paulo a propor disciplina eclesiástica e até a desejar que o corpo do cidadão sofresse as consequências de seus atos, mas, com que finalidade? Que “o espírito seja salvo”!  Com isso, Paulo deixa claro que, por mais horripilante que seja o pecado de um homem, a finalidade e o desejo do cristão verdadeiro continuam sendo que as pessoas espiritualmente falidas sejam salvas do inferno. Porque desejar o horror eterno a alguém não é algo que nenhum cristão deva desejar para o próximo – por pior que ele seja.

Meu irmão, minha irmã, eu e você veremos com frequência pessoas que ofendem a cruz, que lançam lama no bom nome da Igreja de Cristo. Nosso estômago revirará. Sentiremos nojo, raiva, indignação. A questão é: como reagiremos a isso? E a resposta a essa pergunta é que demonstrará como anda nossa espiritualidade. Reagiremos com desamor, condenação, juízo, carnalidade, brigas, ataques e ofensas… ou como a Bíblia nos manda reagir? Abençoemos quem nos persegue. Oremos para que Deus os abençoe. Não devolvamos mal com mal, mas com o bem. E não há bem maior que alguém possa fazer por outra pessoa do que, em vez de desejar o que o diabo deseja para a humanidade, que é irmos para o inferno, desejar o que Deus deseja para a humanidade: que as piores pessoas do mundo creiam em Jesus e, assim, não pereçam, mas tenha a vida eterna.

Como disse no início deste texto, “o que é ser cristão?” é uma pergunta cuja resposta daria para escrever um livro. Mas quero terminar este texto respondendo, de forma curta e objetiva, a outra pergunta: “O que não é ser cristão?”. E a resposta é: com absoluta certeza, ser cristão não é querer que Deus leve logo alguém para o inferno.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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Esta semana Jesus comeu um bauru e bebeu refrigerante. Tudo aconteceu quando cheguei à igreja para o culto de domingo passado e encontrei Luan. Ele estava pedindo dinheiro na porta da igreja. “Qualquer trocadinho, para eu comer”, dizia. Menino mirradinho, de cabelos grandes e despenteados, pés descalços e uma crosta preta de sujeira em toda parte visível de sua pele mulata. Seu rosto era sisudo. Meu primeiro impulso foi fazer o que todo mundo faz, quase que por reflexo: ignorar, balançar negativamente a cabeça sem olhar nos seus olhos e seguir meu caminho. Mas minha esposa cutucou meu braço e meu senso de amor ao próximo: “Não pode dar nada a ele?”, questionou. Foi quando parei de enxergar aquele garoto como um incômodo e passei a ver nele o que ele verdadeiramente é: um ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus.
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– Você está com fome? – indaguei.
– Estou. – respondeu.
– Você quer que eu te compre algo para comer?
– Quero.
– O que você quer?
– Um bauru. Tem ali na lanchonete x.
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Olhei para minha esposa e minha filha e pedi que elas seguissem para o culto, enquanto eu comprava o sanduíche para o menino. E assim foi.
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Comecei a andar com Luan até a lanchonete, a dois quarteirões dali. E fui puxando papo. Será que eu poderia dizer algo que contribuísse com sua vida e que fizesse a diferença para além de apenas matar momentaneamente a sua fome? Foi quando comentei que eu queria saber de sua vida. E ele, sempre com olhar sério, quis contar. Luan tem 12 anos. Nasceu no Complexo do Alemão, conjunto de comunidades carentes do Rio dominadas pelo tráfico de drogas. Filho de pais miseravelmente pobres, nascido numa família de cinco irmãos, sua história não é muito diferente da de milhares de outros meninos de rua que vivem debaixo das marquises de nosso Brasil. Perguntei há quanto tempo ele estava na rua.
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– Não sei, não lembro.
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Aquilo me impressionou. Ficou claro que Luan morava pelas ruas de Copacabana havia muito tempo. Calculei pelas informações que me deu que havia anos que perambulava pelas ruas.
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Perguntei como era a sua vida. Ele me fez um relato de rasgar um coração, sobre o qual não quero entrar em detalhes. Só me preocupei em ouvi-lo, um luxo que Luan não costuma ter – quem dá ouvidos para uma criança de rua? Quem quer ouvir criatura tão “desimportante” e potencialmente criminosa? Não é o que pensamos ao ver um “pivete” assim? Eu quis que ele falasse sobre sua vida, suas experiências, sua visão de mundo. E, nas minhas respostas, busquei fazer com que ele se enxergasse como indivíduo, como ser humano importante e valioso.
Na lanchonete, nos sentamos e ele pediu um bauru com refrigerante. Enquanto esperávamos a comida ficar pronta, passei a falar. Disse a ele que queria lhe contar a história da minha família. Contei sobre meus bisavôs, que migraram da Itália para o Brasil para ter o que comer, pois viviam em total miséria em sua terra natal – tanto que, quando minha bisavó Cristina morreu, os vizinhos tiveram de fazer uma vaquinha para pagar o enterro. Relatei a Luan a história de meu avô, que, sem estudo, trabalhou a vida toda como camelô, vendendo bilhetes de loteria federal. Com muito esforço, ele foi juntando dinheiro e conseguiu comprar quatro casinhas em Olaria, bairro de subúrbio no Rio de Janeiro, três das quais ele alugava para pagar os estudos de minha mãe. Expliquei a Luan como mamãe ralou a fim de se tornar professora, fazer mestrado, subir na vida e pagar meus estudos e os de meu irmão.
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Em resumo, tudo o que procurei lhe contar foi para que Luan percebesse que, se hoje tenho a possibilidade de ter dinheiro para lhe comprar um lanche, é porque pessoas de minha família não se conformaram com sua situação e se esforçaram, estudaram, trabalharam, foram à luta e, da miséria absoluta, conseguiram construir uma vida digna. Expliquei a Luan que estava contando isso como incentivo para que ele tomasse as atitudes que estão ao seu alcance para mudar sua realidade. Voltar para casa. Ir à escola. Fugir da vida de crimes. Aprender uma profissão honesta. Construir uma vida digna.
Sempre sério, ele ouviu tudo com atenção. Falamos até mesmo da importância da higiene e eu lhe disse que ele poderia tomar banho na igreja, se desejasse. Enfim, falei muito sobre muitas coisas para aquele menino de rua que sonha ser salva-vidas. Até que chegou a sua comida, para viagem.
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– Você promete que vai pensar no que te falei?
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– Prometo. Eu não quero viver na rua, não, moço, nem fazer parada errada. Quero ter meu dinheiro, minha casa e uma esposa. Filhos, não, mas uma mulher, sim.
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Apertei a mão imunda de Luan e lhe disse que, sempre que quisesse, poderia ir à igreja em cuja porta nos conhecemos e perguntar por mim, pois, se ele desejasse sair da rua, bastava falar e a gente se mexeria para ajudá-lo e tornar isso possível. Com o rosto sério como sempre, ele agradeceu, pensativo. E nos despedimos. Saí e parei na calçada, esperando o sinal de trânsito abrir, olhando Luan ir embora na direção oposta.
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Naquele momento, me vieram à mente aqueles pensamentos que assolam todos nós numa situação como essa: será que fui um otário? Será que algo do que falei adiantou de alguma coisa? Será que ele só me ouviu para ganhar a comida e se lixou para tudo o que eu disse? Será que, ao alimentar aquela criança, eu incentivei a mendicância e ajudei a piorar o problema? Será que perdi meu tempo? Dúvidas como essas inundaram meus pensamentos. Até que…
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Subitamente, Luan, já distante, parou. Olhou para trás. E, pela primeira vez, sorriu. Luan sorriu em minha direção e acenou com a mão, dando tchau. Eu sorri de volta e acenei com a mão no ar, enquanto ele prosseguia em seu caminho. Esse gesto de Luan teve um enorme significado. Se tudo aquilo foi inútil e ele só queria mesmo o prato de comida… não precisaria ter se virado. Muito menos dado aquele sorriso inédito. Percebi que seu gesto foi fruto de uma conexão verdadeira que se estabeleceu entre nós – algo que acontece sempre que um ser humano mostra para outro ser humano que ele é valioso e importante.
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Definitivamente, Luan  não precisava ter se conectado a mim por meio do sorriso e do aceno. Afinal, ele já tinha conseguido a comida. Foi quando percebi que, de algum modo, aquela conversa de fato teve nem que seja um pequenino efeito sobre a vida daquele menino, que o fez pensar em mim a ponto de interromper sua caminhada e buscar uma última conexão comigo – ou, melhor, com aquilo que representei para ele naquele momento.
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Voltei para a igreja. Cheguei quase no final do louvor, o que gerou uma certa culpa, mas, então, me dei conta de que, naquela meia-hora, Deus havia sido louvado por meio de minha vida como poucas vezes antes.
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Gosto de conversar sobre teologia. Faço isso com frequência. Mas, naquela meia-hora, tudo o que vivo discutindo intelectualmente com meus amigos ou mesmo com gente que não concorda com minhas opiniões teológicas caiu para segundo plano. Naquela meia-hora pelas ruas e em uma lanchonete de Copacabana, as discussões teológicas e ideológicas sobre Missão Integral ser ou não um caminho biblicamente ideal, sobre a oposição política entre a esquerda e a direita, sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro e a violência, sobre as causas e as soluções para a miséria, enfim, todas as minhas discussões intelectuais sobre temas que têm a ver com a realidade de gente como Luan se resumiram a uma coisa:

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, vocês que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o reino que ele lhes preparou desde a criação do mundo. Pois tive fome e vocês me deram de comer. Tive sede e me deram de beber. Era estrangeiro e me convidaram para a sua casa. Estava nu e me vestiram. Estava doente e cuidaram de mim. Estava na prisão e me visitaram’. Então os justos responderão: ‘Senhor, quando foi que o vimos faminto e lhe demos de comer? Ou sedento e lhe demos de beber? Ou como estrangeiro e o convidamos para a nossa casa? Ou nu e o vestimos? Quando foi que o vimos doente ou na prisão e o visitamos?’. E o Rei dirá: ‘Eu lhes digo a verdade: quando fizeram isso ao menor destes meus irmãos, foi a mim que o fizeram.’” (Mt 25.34-40).

Por que estou lhe relatando essa história e deixando minha mão esquerda saber o que minha direita fez? Porque gostaria imensamente que você vivenciasse o que vivi naquela meia-hora. Muitos cristãos acham que a emoção maior da vida com Deus é sentir arrepios na hora do louvor, saltitar de alegria com uma boa pregação e coisas assim. Se é o seu caso, permita-me dizer-lhe que não há emoção espiritual maior do que dar um bauru a Cristo manifestado na forma de uma pessoa imunda e faminta. Mais do que isso: instruir essa pessoa, ajudá-la a evoluir, fazer algo concreto no sentido de que ela cresça e consiga mudar a trajetória de sua existência.

Amar os necessitados e agir em favor deles não tem nada a ver com a sua ideologia política, com ser de esquerda ou de direita: tem a ver com quanto você vive a caridade cristã em sua vida, como decorrência do amor que há em seu coração. “Se um irmão ou uma irmã necessitar de alimento ou de roupa, e vocês disserem: ‘Até logo e tenha um bom dia; aqueça-se e coma bem, mas não lhe derem alimento nem roupa, em que isso ajuda? Como veem, a fé por si mesma, a menos que produza boas obras, está morta” (Tg 2.15-17). Lembre-se, sempre: nenhum pequeno gesto, nenhuma palavra de edificação, nenhum copo d´água são pouca coisa para alguém em necessidade quando é feito com amor cristão.
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Você poderia me perguntar: e por que você não aproveitou e evangelizou aquele menino? E eu lhe responderia: e não foi exatamente isso o que eu fiz ao alimentá-lo, amá-lo com conselhos práticos para uma mudança de vida, ouvi-lo com real preocupação e interesse por sua vida? Enquanto esperávamos o bauru ficar pronto, perguntei a Luan o que mais entristecia seu coração. Ele respondeu: “Quando as pessoas passam por mim e fingem que não estão me vendo”. E eu, um cristão que se encontrou com ele na porta de uma igreja, me importei não só em olhar para ele, mas, também, em querer saber o que se passava no seu coração e em dar-lhe dignidade como ser humano. Será possível que alguém é capaz de achar que isso não disse a ele nada sobre o amor cristão?
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Amar como Cristo amou não exige muito. O cristianismo é descomplicado. O evangelho se traduz em pouca coisa. A teologia acadêmica só faz sentido se você é capaz de pegar tudo o que aprendeu ao longo de quatro ou mais anos de estudos e usar tudo aquilo para comprar um bauru para uma criança faminta. Faça isso! Não deixe de se aprofundar na fé, na teologia, no conhecimento das doutrinas centrais dos ensinamentos de Cristo; mas se não conseguir botar o pé no chão e traduzir toda a sua bagagem de conhecimentos em dar pão a quem tem fome, dar água a quem tem sede e chorar com quem chora… todo tempo, dinheiro e energias investidos em aquisição de conhecimento foram vaidade e correr atrás do vento.
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A verdade, meu irmão, minha irmã, é que, sim, eu dei comida a Luan naquele dia. Mas quem saiu maravilhosamente bem alimentado daquele encontro fui eu. E quem saiu de lá glorificado foi aquele que concede a mim e a você a dádiva de conseguir derramar uma lágrima quando o nosso próximo sente fome, sede, dor, frio e tristeza. Porque eu desconfio seriamente que o sorriso que recebi ao final do meu encontro com Luan veio diretamente dos lábios de Jesus de Nazaré…
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