Posts com Tag ‘Cruz’

O que é ser cristão? Essa pergunta pode parecer meio sem sentido, afinal, é óbvio o que implica ser cristão, certo? Bem, na verdade… não. Pois muitos cristãos parecem ter conceitos meio distorcidos sobre o real significado de uma vida com Jesus, o que influencia diretamente sua jornada com Cristo. Dependendo de como respondemos a essa pergunta, poderemos ser cristãos como Deus quer que sejamos ou uma caricatura bizarra do que um cristão deve ser, uma sombra do verdadeiro cristianismo. Este é um assunto que renderia um livro, mas eu gostaria de sintetizar rapidamente o tema, citando apenas quatro das muitas características de um verdadeiro cristão. Em seguida, vou explicar a razão desta reflexão.

Primeiro: um cristão verdadeiro, nascido de novo, que foi justificado e passou da morte para a vida, necessariamente ama o próximo. Isso é inegociável. Quando confrontado por um mestre da lei para que dissesse qual é o mandamento mais importante, Jesus não hesitou: “O mandamento mais importante é este: ‘Ouça, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de toda a sua mente e de todas as suas forças’. O segundo é igualmente importante: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Nenhum outro mandamento é maior que esses” (Mc 12.29-31, NVT). Um detalhe: Jesus explicou, na parábola do bom samaritano, que esse “próximo” não se refere somente ao gente fina, ao amigo do peito, ao cara amável de quem todo mundo gosta, ao irmão na fé; nada disso, é, também, o diferente, o desagradável, o caído, o fedorento, o coberto de chagas, o asqueroso, aquele que nos causa repulsa, o abominável, o odioso. Guarde isso.

A segunda característica: ser um cristão é desejar que o próximo seja salvo do inferno e do sofrimento eterno. Pois o cristão verdadeiro é inundado a tal ponto do amor de Deus que lhe seria impossível desejar que alguém tenha de passar pelos horrores da eternidade sem Deus. A Bíblia afirma que muitos irão para o inferno, talvez a maioria das pessoas, mas saber disso é totalmente diferente de desejar que alguém vá para lá.

Antes que alguém comece a polemizar, deixe-me dizer que, a esse respeito, não faz a mínima diferença se você é calvinista ou arminiano, se crê na eleição incondicional ou condicional. Afinal, só Deus sabe com total certeza quem será salvo e quem não será; isso não compete a nós. E, como jamais saberemos quem verdadeiramente é salvo até chegarmos à glória celestial, nosso papel nesta vida é desejar que todos se salvem, mesmo sabendo que muitos não se salvarão. É por isso que evangelizamos, é por isso que obedecemos à grande comissão, é por isso que pregamos o evangelho a toda criatura: na esperança de que cada um a quem proclamamos a boa-nova seja alcançado pela graça de Deus e resgatado de uma eternidade de tormentosa distância de Deus. Portanto, nenhum cristão tem o direito de desejar que alguém vá para o inferno. Guarde isso.

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Terceiro, o cristão verdadeiro repudia os próprios desejos e impulsos quando eles estão em desacordo com a vontade de Deus. Jesus disse: “Se alguém quer ser meu seguidor, negue a si mesmo, tome diariamente sua cruz e siga-me” (Lc 9.23, NVT). Negar a si mesmo significa não fazer o que dá vontade de fazer para fazer o que Jesus quer que você faça. Assim, por exemplo, mesmo que eu me sinta profundamente ofendido por algo que alguém fez, em vez de nutrir ódio em meu coração por ele, ponho em prática o que diz a Palavra: “Abençoem aqueles que os perseguem. Não os amaldiçoem, mas orem para que Deus os abençoe. […] Nunca paguem o mal com o mal. Pensem sempre em fazer o que é melhor aos olhos de todos. No que depender de vocês, vivam em paz com todos. Amados, nunca se vinguem; deixem que a ira de Deus se encarregue disso, pois assim dizem as Escrituras: ‘A vingança cabe a mim, eu lhes darei o troco, diz o Senhor’. Pelo contrário: ‘Se seu inimigo estiver com fome, dê-lhe de comer; se estiver com sede, dê-lhe de beber. Ao fazer isso, amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele’. Não deixem que o mal os vença, mas vençam o mal praticando o bem” (Rm 12.14,17-21, NVT). Guarde isso.

A quarta característica do cristão verdadeiro que eu gostaria de mencionar aqui é: ele pratica a apologética como a Bíblia determina que se pratique a apologética. E como é isso? Paulo responde: “O servo do Senhor não deve viver brigando, mas ser amável com todos, apto a ensinar e paciente. Instrua com mansidão aqueles que se opõem, na esperança de que Deus os leve ao arrependimento e, assim, conheçam a verdade. Então voltarão ao perfeito juízo e escaparão da armadilha do diabo, que os prendeu para fazerem o que ele quer” (2Tm 2.24-26, NVT). Em síntese: um verdadeiro servo do Senhor não é briguento e deve lidar com quem se opõe não com ódio, palavras ofensivas e agressividade, mas com amabilidade, paciência e mansidão, instruindo quem se opõe e não brigando ou atacando! O objetivo ao fazer isso? A esperança de que Deus leve o opositor ao arrependimento. A esperança da salvação. Quem diz isso não sou eu, é Paulo. Guarde isso.

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Muito bem, por que estou falando sobre esse assunto? Eu explico: há poucos dias, vi um jovem irmão em Cristo postar nas redes sociais um vídeo de um cidadão de uma igreja herética bem conhecida pregando a abominável teologia da prosperidade, dizendo aos fieis para “fazerem o sacrifício” de entregar carro, dinheiro e bens à igreja. Todos já vimos esse filme, é algo de revirar o estômago. É ofensivo ao evangelho verdadeiro. Até aí, todos compartilhamos da indignação com relação a esse tipo de engodo, que usa o nome de Deus para tirar dinheiro das pessoas. Mas o que me assombrou foi ver esse irmão, estudante de um excelente seminário teológico, que tem excelentes professores, postar o seguinte texto junto com o vídeo, em relação ao tal falso pastor: “Que Deus o leve logo para o inferno. Amém”. Sim, você não leu errado: “Que Deus o leve logo para o inferno. Amém”.

Confesso que ler essa afirmação abominável me revirou o estômago tanto quanto assistir ao vídeo abominável do “pastor” aproveitador. Por quê? Porque essa não é a postura que devemos ter como cristãos. Desejar que uma pessoa vá para o inferno não é, nem de longe, amar o próximo. Desejar que uma pessoa vá para o inferno não tem nada a ver com a postura de um cristão diante de alguém que ainda não foi alcançado pela graça. Desejar que uma pessoa vá para o inferno não é negar a si mesmo, é dar vazão a impulsos e desejos carnais em vez de olhar para os perdidos com o olhar que Deus teve ao enviar Jesus para morrer na cruz. Desejar que uma pessoa vá para o inferno é o oposto da apologética bíblica, pois é exatamente o que o diabo quis fazer com Adão e Eva.

Em suma, desejar que uma pessoa vá para o inferno é  tudo o que um cristão verdadeiro não deve desejar.

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Muitas vezes depararemos com pessoas ofendendo de tal modo o evangelho que nosso impulso será desejar que o juízo venha sobre elas. Porém, esse não é nosso papel: só Deus tem o direito de exercer seu justo juízo sobre os blasfemadores e os inimigos da fé. Lembremo-nos de que Paulo de Tarso não era uma pessoa melhor do que o tal “pastor” do vídeo até o dia em que foi confrontado por Cristo e alcançado pela graça. Todo pecador e blasfemador é um Paulo em potencial e não cabe a nós mandá-lo para o inferno. Nosso papel é orar por ele, pedindo a Deus que lhe estenda sua graça, o chame ao arrependimento, o justifique, faça dele nova criatura e o salve do inferno. O cristão verdadeiro precisa olhar para quem joga pedras na cruz com o desejo de que um dia ele venha a dizer: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus”.

Prefiro crer que um comentário desses vindo de seminaristas e irmãos em Cristo seja uma falha provocada por um processo de santificação e amadurecimento espiritual em estágios iniciais. Porque, se isso for um comentário que reflita uma postura solidificada de um cristão, que triste é ver cristãos que pensam isso. É um assombro. É o cúmulo da falta de piedade e misericórdia. Até porque o entendimento da obra de salvação de Cristo nos revela que todos nós éramos tão abomináveis como esse falso profeta do vídeo até sermos alcançados pela graça. O que não podemos admitir é que continuemos sendo abomináveis após a justificação. Espero que não seja o seu caso.

Quanto mais alguém estuda a Palavra e se aprofunda na teologia, mais deveria se aprofundar na piedade e na compaixão pelos espiritualmente doentes, e não no ódio e na agressividade. O falso pastor do vídeo não me assombra, pois ele visivelmente precisa de Cristo. Oro por isso. Oro por sua conversão. Oro para que um dia eu o encontre no céu. Duro é ver cristãos que frequentam bons círculos teológicos acharem que é bacana desejar que Deus mande alguém para o inferno. E, pior: “logo”. Incompreensível. Assombroso. Que tipo de cristianismo é esse?

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Paulo conta em 1Coríntios 5 o caso de um homem da igreja de Corinto que cometia o abominável ato de se relacionar sexualmente com a própria madrasta e, por isso, trazia escândalos para a Igreja de Cristo e sujava seu bom nome junto à sociedade. Repare que o apóstolo orienta a igreja a “excluir de sua comunhão o homem que cometeu tamanha ofensa” (v. 2, NVT) e, em seguida, diz: “Entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja punido e o espírito seja salvo no dia do Senhor” (v. 5, NVT). O ato abominável leva Paulo a propor disciplina eclesiástica e até a desejar que o corpo do cidadão sofresse as consequências de seus atos, mas, com que finalidade? Que “o espírito seja salvo”!  Com isso, Paulo deixa claro que, por mais horripilante que seja o pecado de um homem, a finalidade e o desejo do cristão verdadeiro continuam sendo que as pessoas espiritualmente falidas sejam salvas do inferno. Porque desejar o horror eterno a alguém não é algo que nenhum cristão deva desejar para o próximo – por pior que ele seja.

Meu irmão, minha irmã, eu e você veremos com frequência pessoas que ofendem a cruz, que lançam lama no bom nome da Igreja de Cristo. Nosso estômago revirará. Sentiremos nojo, raiva, indignação. A questão é: como reagiremos a isso? E a resposta a essa pergunta é que demonstrará como anda nossa espiritualidade. Reagiremos com desamor, condenação, juízo, carnalidade, brigas, ataques e ofensas… ou como a Bíblia nos manda reagir? Abençoemos quem nos persegue. Oremos para que Deus os abençoe. Não devolvamos mal com mal, mas com o bem. E não há bem maior que alguém possa fazer por outra pessoa do que, em vez de desejar o que o diabo deseja para a humanidade, que é irmos para o inferno, desejar o que Deus deseja para a humanidade: que as piores pessoas do mundo creiam em Jesus e, assim, não pereçam, mas tenha a vida eterna.

Como disse no início deste texto, “o que é ser cristão?” é uma pergunta cuja resposta daria para escrever um livro. Mas quero terminar este texto respondendo, de forma curta e objetiva, a outra pergunta: “O que não é ser cristão?”. E a resposta é: com absoluta certeza, ser cristão não é querer que Deus leve logo alguém para o inferno.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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Mudei-me há pouco tempo para um apartamento novo. Na hora de decidir quem ficaria com que cômodo, reservei para minha mãe e minha filha os melhores quartos; por isso, eu e minha esposa acabamos ficando com o menor deles, que, confesso, me dava uma certa sensação de esmagamento: embora seja um cômodo grande, o teto é mais baixo do que estou acostumado. Para ter uma percepção de mais espaço, decidi, então, espelhar toda uma parede. Do teto ao chão, uma das quatro paredes virou um enorme espelho. Se, por um lado, foi uma decisão acertadíssima, por tornar muito mais agradável estar no cômodo, por outro acabou gerando um efeito imprevisto: fui obrigado a conviver diariamente com a imagem do que há de pior em mim.
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Em geral, quando temos espelhos comuns em casa, na hora de nos arrumarmos, nos esticamos para nos ver, fazemos nossa melhor pose e saímos da frente do espelho com nosso melhor sorriso. Ficamos felizes com o que vemos. Mas, quando toda uma parede do seu quarto é um enorme espelho, ele te flagra nos piores momentos e te pega de tocaia na hora em que você mais está despercebido. A consequência? Tenho me assustado com todas as imperfeições que meu espelho me revela.
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Acordo de manhã, abro os olhos e imediatamente vejo minha cara inchada e descabelada da noite de sono, sem falar das remelas e da barba por fazer. Saio do banho e o espelho imediatamente joga na minha cara como minha barriga está enorme, antiestética e desproporcional ao resto do corpo. Vou me vestir e o canto do olho me revela como minhas costas estão feias, com sinais, protuberâncias e demonstrações de que o tempo tem passado impiedosamente. Vou me deitar para dormir e percebo como a idade tem transformado a rigidez de minha pele em flacidez e decadência. Em resumo, o espelho em meu quarto tem denunciado o que há de mais imperfeito em mim.
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Quando o Salvador nos chama pela sua graça, por um lado, o conhecimento do evangelho traz luz ao que antes era sombras e amplia a nossa percepção da existência. Mas, por outro lado, a mensagem salvadora da cruz promove uma consequência inesperada: tal qual um enorme espelho que não pede licença, ela nos despe, denuncia, expõe, revela. A verdade das Escrituras traz à luz nossas desobediências e transgressões, nossa falibilidade e pecaminosidade. A luz ofuscante e santa do Calvário não espera decisões nossas para nos fazer ver cada uma das imperfeições. Não, ela age proativamente e nos põe em nosso devido lugar.
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As boas-novas de Cristo não têm como objetivo primário expor nossas pequenas desgraças. Elas não são um juiz sádico, que saliva de prazer ao nos apontar nossos erros. Porém, o evangelho tem esse efeito colateral inevitável. Assim que nossa inclinação para o mal é posta frente a frente com a luz reveladora da cruz, somos confrontados com a escuridão que ainda habita nossa alma e a podridão do antigo homem a que ainda teimamos em nos apegar.

O que essa percepção deve provocar? A denúncia de nós mesmos precisa ter como principal consequência nos tirar do imobilismo. Gosto demais do espelho em minha parede. Ele tem um efeito muito positivo em minha vida. Mas ele tem como desdobramento me dizer diariamente: “Olhe quem você é. Perceba quão distante da perfeição você está”. E, automaticamente, sou levado a querer fazer algo a respeito.
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O evangelho de Cristo é belíssimo. É um ambiente de graça, alegria, amor, pacificação, palavras edificantes, amabilidade. É luz, que embeleza e revela. Porém, é uma mensagem que nos cutuca e diz: “Arrependa-se! Faça algo a respeito! Alô!”. Leia as Escrituras. Medite nas palavras de Cristo. Abra-se para a admoestação do Espírito Santo, por meio de Paulo, Pedro, Tiago, João, Lucas e seus colegas autores canônicos. Não se contente em olhar para o espelho e ficar lamentando quão barrigudo você está. Pois o puro lamento não nos beneficia em nada.

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Desejo que a parede de espelhos que Cristo pôs diante de você o conduza ao ponto de olhar para o seu reflexo e apreciar o que vê. Nunca espere uma autoimagem perfeita, ninguém a tem. Mas é possível, sim, gostar do que enxerga. O  objetivo é chegar ao ponto de conseguir dizer: “Não sou um modelo de beleza, mas gosto de mim – em razão do que Cristo fez em mim”.
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Então abra-se à verdade do espelho. Veja o que precisa mudar… e dê o primeiro passo.
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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Comprei no início deste ano um apartamento novo, a fim de trazer meus pais para morar comigo. Pelo valor que eu podia pagar, só consegui encontrar um apartamento caindo aos pedaços, que teria de passar por uma grande reforma para ser habitável. E assim foi: em janeiro começamos a obra, prevista para acabar em abril. Porém, chegamos ao último dia de outubro e a reforma ainda não terminou. E isso por uma série de razões, todas ligadas ao pecado e à falibilidade humanos. Vou lhe contar um pouco dessa saga.

Mandamos fazer uma escada com um serralheiro. Depois de mais de um mês esperando a dita cuja ficar pronta, o que aquele profissional aprontou foi algo que seria melhor definido como um “troço”. Tivemos de desfazer o negócio e arcar com um grande prejuízo. Depois, o profissional que contratamos para laquear e pintar as portas fez um serviço sofrível e danificou paredes, chão e outras partes do apartamento. Mais tempo perdido. Mais dinheiro jogado fora. E por aí foi: tivemos pintores desqualificados, marceneiros que não cumpriram o que prometeram… e muito mais. O resumo da ópera é que tivemos de lidar com uns profissionais que não cumpriram o que prometeram, outros que maldosamente tomaram atitudes que nos prejudicaram e outros, ainda, que muitas vezes fizeram da reforma algo mais estressante do que feliz. Ainda assim, a reforma era indispensável, apesar de pessoas afetadas pelo pecado terem participado do processo.

Hoje celebramos 500 anos da Reforma Protestante, movimento deflagrado em 1517 pelo monge agostiniano Martinho Lutero, que tinha por objetivo reformar a Igreja Católica Apostólica Romana, instituição que ao longo dos séculos saiu dos trilhos e se distanciou dos princípios da Igreja apostólica. Lutero, junto com outros pensadores, tais como Calvino e Zuínglio, promoveram um trabalho de resgate dos princípios do evangelho de Jesus, com retorno à centralidade de Cristo, ao conceito da salvação somente pela graça e mediante a fé, ao entendimento de que a Escritura é a única e suficiente regra de fé e prática do cristianismo, e à compreensão de que a glória deve ser dada somente a Deus.

Esse movimento não purificou a Igreja Católica, pois seus líderes não o aceitaram, mas levou o papa Leão X a excomungar Lutero. Em outras palavras, Lutero foi expulso. Com isso, surgiu a Igreja reformada, da qual é herdeira hoje uma série de denominações cristãs, que se chamam de “reformadas”, “protestantes” ou “evangélicas” (há divergências sobre o significado exato de cada um desses termos, que não vêm ao caso para os propósitos deste texto). Claro que estou simplificando enormemente o que aconteceu, mas, em resumo, foi isso.

Nos últimos 500 anos, no entanto, muitos homens e mulheres que fazem parte desse ramo da Igreja agiram do mesmo modo que os pintores, pedreiros, laqueadores e serralheiros que participaram da reforma de meu apartamento e mais estragaram e atrapalharam do que ajudaram. A ignorância, a maldade ou a falibilidade humana levaram ao surgimento de crenças e práticas erradas, como teologia da prosperidade, confissão positiva, autoajuda gospel, aceitação da agressividade como forma de posicionamento supostamente cristão, bizarrices neopentecostais, doutrinas antibíblicas de batalha espiritual, canonização de usos e costumes, e outras práticas e teologias equivocadas.

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Sob a influência de tais maus descendentes da Reforma, muitos membros dessa igreja oriunda das ações dos reformadores passaram a acreditar em uma espécie de “evangelho” esquisito, como tipos de “cristianismo” que põem o homem no centro, que hipervalorizam o dinheiro, que estabelecem o sucesso pessoal como a medida de bênção de Deus, que fazem parecer que é possível ser grosseiro e cristão ao mesmo tempo e por aí vai.

Assim como o serralheiro que atrapalhou minha reforma, há quem desuna a Igreja de Cristo considerando que só sua denominação é a certa. Assim como os pintores que fizeram trabalhos mal feitos, há quem ensine evangelhos só de bênção e não de arrependimento e contrição. Assim como os pedreiros que deixaram a desejar, há quem creia que o Deus glorificado na Reforma aprova uma apologética bruta e agressiva. Assim como os profissionais que nos decepcionaram em diversos momentos no processo de reforma do apartamento, há aqueles que trazem “segundas revelações” apócrifas ao evangelho resgatado pela Reforma. E assim por diante.

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Louvo a Deus pois, hoje, a Igreja de Cristo prossegue adiante, pregando a mensagem da cruz, investindo em missões, discipulando, divulgando as doutrinas da graça, incentivando a santidade, denunciando o pecado, edificando a noiva de Cristo, glorificando a Deus. Porém, passados 500 anos da Reforma, devemos continuar como Igreja que se reforma continuamente. A começar por nós mesmos, pessoas. Pois de nada adianta reformar ideias e instituições e deixar indivíduos como estão. Alguns dos maus profissionais que prejudicaram minha reforma não reconheceram seus erros. Não podemos fazer o mesmo. O melhor meio de você contribuir com a reforma da Igreja de nossos dias é fazendo um mea culpa, reconhecendo seus erros, mudando seu modo de agir, voltando às boas práticas.

Você acha que seguir reformando a Igreja é apenas combater o erro dos outros? Não é. O que de melhor você pode fazer pela Igreja é parar de olhar para o lado e consertar os seus erros; arrepender-se das suas falhas; confessar os seus pecados; e abandonar a arrogância doutrinária, a agressividade apologética, a soberba denominacional, a vaidade teológica, o sectarismo espiritual. Mude-se. É um bom começo. Às vezes, as suas intenções são ótimas, mas a sua pintura está péssima, a escada que você está construindo está torta, o cano que você instalou está vazando. O que você precisa fazer? Antes de querer reformar algo, sua urgência maior é reformar a si mesmo.

Como eu posso defender isso? Com base na minha própria experiência de reforma de mim mesmo. Na época em que eu dedicava meu tempo, minhas energias e minha saliva para ficar metendo o malho nos outros em vez de promover as belas virtudes do evangelho, praticamente não consegui promover mudança alguma em ninguém. Só gerei ódio. Eu era só um brigalhão esbravejando pela Internet. Mas, no dia em que decidi mudar a mim mesmo, procurando aproximar-me mais do caráter e do temperamento do manso Cordeiro, vi e colhi muitos frutos, que ecoaram na vida de muitas pessoas. E isso tendo por base bíblica passagens como: “Não imitem o comportamento e os costumes deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma mudança em seu modo de pensar, a fim de que experimentem a boa, agradável e perfeita vontade de Deus para vocês” (Rm 12.2, NVT), “E não pequem ao permitir que a ira os controle. Acalmem a ira antes que o sol se ponha, pois ela cria oportunidades para o diabo” (Ef 4.26-27, NVT), “Da mesma forma, suas boas obras devem brilhar, para que todos as vejam e louvem seu Pai, que está no céu” (Mt 5.16, NVT), “Se amarem apenas aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os cobradores de impostos fazem o mesmo. Se cumprimentarem apenas seus amigos, que estarão fazendo de mais? Até os gentios fazem isso” (Mt 5.46-47, NVT), e “Eu, porém, lhes digo que basta irar-se contra alguém para estar sujeito a julgamento. Quem xingar alguém de estúpido, corre o risco de ser levado ao tribunal. Quem chamar alguém de louco, corre o risco de ir para o inferno de fogo” (Mt 5.22, NVT).

Parabéns a todos os filhos da Reforma Protestante: presbiterianos, batistas, metodistas, pentecostais, continuístas, cessacionistas, calvinistas, arminianos, credobatistas, pedobatistas… enfim, todos os meus irmãos e irmãs em Cristo que, por mais que cometam um ou outro erro teológico, continuam acreditando em cada tópico do Credo Apostólico. Embora derrapem em um ou outro equívoco teológico, ainda assim são meus irmãos. Que mais nos unamos pelo que temos de igual do que nos distanciemos pelo que nos diferencia. Nosso Deus é o mesmo, o de Abraão, Isaque e Jacó. Nossa cruz é a mesma, a do Calvário. Nossos pecados nos igualam. Nossa esperança é o mesmo céu. Jesus é o mesmo Jesus em todas as igrejas que não negociaram o evangelho, apesar de suas diferenças.

Não me venha falar da reforma do meu apartamento, por favor, pois ela tem me estressado e, sinceramente, às vezes acho que seria melhor que ela não tivesse acontecido. Mas falemos todos os dias sobre a reforma da Igreja, que começa pela reforma de nós mesmos. Pois essa, se não acontecer, nos conduzirá para longe dos ideais resgatados pela Reforma Protestante: os ideais do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Ser cristão não garante a ninguém ter um casamento perfeito. A reflexão que compartilho com você hoje é direcionada especificamente a quem enfrenta conflitos no matrimônio e a quem ainda é solteiro e gostaria de se preparar desde já para evitar crises matrimoniais no futuro. É o seu caso? Então é com você que desejo falar. Em geral, quando se procura um livro que trata do assunto, é muito comum que as orientações oferecidas pelo autor sejam muito mais da seara da autoajuda ou da psicologia do que da fé cristã. A questão é: será que a Palavra de Deus, a Bíblia, nos oferece princípios a serem seguidos por maridos e esposas a fim de superar crises no casamento ou evitá-las? A resposta é sim.

Um erro frequente que cometemos quando buscamos orientação bíblica para crises na vida a dois é que recorremos somente às passagens das Escrituras que versam especificamente e explicitamente sobre casamento. A questão é que muitos dos princípios espirituais para vencer crises matrimoniais ou para se antecipar a elas e evitá-las não se encontram nessas passagens, mas em conceitos mais profundos da fé, apresentados ao longo de todo o texto bíblico. Por isso, saber encontrá-los e identificá-los é essencial para quem deseja corrigir erros cometidos com o cônjuge ou evitar cometê-los no futuro.

É impressionante a quantidade de comentários que recebo aqui pelo APENAS de assinantes do blog que enfrentam conflitos constantes no casamento. E, depois que meu livro Perdão total foi publicado, em 2014, passei a receber muitas mensagens dos leitores com dúvidas sobre perdão e arrependimento especificamente no contexto do matrimônio. Foram tantos os questionamentos e as perguntas que me vi obrigado a ir à Palavra de Deus pesquisar respostas para esses meus irmãos e irmãs, que ou estão infelizes na vida a dois ou chegaram ao divórcio. Foi nessa pesquisa que percebi que as respostas às crises matrimoniais não necessariamente estão nas passagens bíblicas específicas sobre casamento, mas em princípios cristãos fundamentais. Depois de meses de pesquisa, o material que reuni foi tão rico que acabou gerando um livro, lançado este mês pela editora Mundo Cristão: Perdão total no casamento: Um livro para quem deseja uma união duradoura e feliz (veja AQUI).

Vou te contar uma coisa: meu casamento não é o do conto de fadas. Até porque nenhum é! O problema já começa aí: subimos ao altar achando que viveremos um casamento perfeito, sem problemas, só com momentos extraordinários, irretocáveis, de sonho. Mas, quando o dia a dia chega e percebemos que a vida a dois é tudo menos um conto de fadas, entramos em crise. Com isso, muitos passam a viver infelizes. Muitos se divorciam. Mas não precisa ser assim! Como qualquer ser humano normal, já discuti com minha esposa, já vivemos conflitos, já passamos por fases maravilhosas e outras muito ruins. Dizer o contrário seria hipocrisia. Mas um aspecto muito interessante desse processo de pesquisa na Bíblia sobre o tema é que percebi que os princípios que encontrei na Palavra de Deus são justamente aqueles que ajudaram a mim e a minha esposa a superar os momentos difíceis que vivemos e permanecer juntos, após 18 anos de casamento.

Ou seja, o que transmito no livro não são promessas irrealizáveis, fórmulas mágicas ou “sete passos (que ninguém consegue cumprir) para um casamento feliz”, mas princípios bíblicos sólidos, de carne e osso, que funcionam para pessoas de carne e osso que vivem um matrimônio de carne e osso. Como eu. Como você.

Por isso mesmo, para superar ou evitar crises no casamento é preciso abraçar princípios realistas! E, claro, bíblicos. Fora disso, o que existe é autoajuda vazia ou promessas que não se cumprem. Por essa razão, gostaria de incentivar você, que está vivendo uma crise na vida a dois, a ler o Perdão total no casamento. Ou, se você conhece alguém que esteja enfrentando dificuldades conjugais, a indicar-lhe a leitura. Ou, ainda, se você é noivo ou solteiro e deseja subir ao altar bem preparado, para evitar as crises antes mesmo que elas surjam, sugiro que procure conhecer os princípios apontados no livro. E, entenda, não é o livro em si que tem qualquer coisa de especial, mas as realidades bíblicas que ele apresenta.

Acredito verdadeiramente que a Palavra de Deus nos oferece as respostas para a felicidade no casamento. Perceba que eu não disse perfeição, mas felicidade. E foi com a intenção de apresentar a você essas respostas, de forma clara, simples, compreensível e aplicável na prática que realizei a pesquisa que deu origem ao Perdão total no casamento. Este é um livro que pode ser lido individualmente; junto com o cônjgue, o namorado ou o noivo; ou em grupos e classes de casais. Ele serve para reflexão ou para debates, a fim de promover transformação real. Minha oração é que as verdades bíblicas ali contidas tragam paz e felicidade para muitos. E, queira Deus, para você.

Sei que este post pode parecer mais a propaganda de um livro do que uma reflexão sobre a vida cristã. Mas tenho convicção de que os meus irmãos e irmãs que me procuram pelo blog pedindo orientações para seus problemas no casamento podem ser abençoados pelos princípios bíblicos apresentados no Perdão total no casamento. Por isso, eu o considero o “post” mais rico, completo e aprofundado que já escrevi sobre o tema. E, se o que compartilho aqui pelo APENAS abençoa você, acredito que o livro também abençoará a sua vida e a de todos aqueles que você conhece e precisam encontrar nas orientações divinas a paz matrimonial.

Se você está vivendo uma crise em seu casamento, saiba que é possível superá-la seguindo princípios bíblicos. Se você quer evitar futuras crises, tenha a certeza de que é capaz de fazê-lo. Se você planeja se casar e não quer entrar na vida a dois cometendo erros, acredite que pode. Pois Deus, que instituiu o matrimônio e tem todo interesse do mundo em preservar cada casal, conhece a solução bíblica para os casamentos em crise e o caminho para a felicidade conjugal. Oro a ele que o Perdão total no casamento ajude você a encontrar esse caminho e a seguir por ele junto com seu cônjuge, com um largo sorriso no rosto, todos os dias de sua vida, até que a morte os separe.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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oscar-1Foi vergonhoso. Na cerimônia deste ano de entrega do Oscar, o prêmio máximo do cinema americano, a maior gafe possível aconteceu: na hora de anunciar o vencedor na categoria “Melhor filme”, a organização trocou os envelopes. Resultado: foi anunciado como vencedor o longa-metragem La la land. Equipe e elenco subiram ao palco. Beijos e abraços. Comemorações. Os produtores seguraram a estatueta e fizeram discursos de agradecimento. Foi quando, para surpresa geral, entraram algumas pessoas da organização no palco para corrigir o anúncio: o vencedor na realidade era outro filme, Moonlight. O envelope errado havia sido entregue ao ator que apresentava o prêmio. Que vergonha. Surge a pergunta: como pode os organizadores de um evento tão bem ensaiado e preparado como a cerimônia de entrega do Oscar cometerem um erro tão elementar como esse? A Bíblia responde. 

A resposta do evangelho é: o ser humano falha. Erra. A perfeição não existe entre nós, por mais que nos esforcemos. Esforço humano nenhum nos livra de nossa natureza falível. Ninguém é digno de abrir os selos. Todos pecamos e destituídos fomos da glória de Deus. Todos nascemos miseravelmente pecadores, inclinados ao erro, desejosos de transgredir a vontade divina. Precisamos desesperadamente da graça do Criador, que nos justifica aos olhos do Todo-poderoso. Não fosse ela, carregaríamos um peso tão grande de culpa nas costas, por conta de nossos muitos e frequentes erros, que jamais poderíamos herdar a vida eterna. 

Eu entrego envelopes errados todos os dias, muitas vezes por dia. Por mais que me organize e me esforce para entregar os envelopes certos, no frigir dos ovos entrego os errados. Por minha causa, muita gente tem de devolver as estatuetas e abafar os discursos de agradecimento. Sou culpado disso, pois sou tão falível quanto os organizadores do Oscar. E você também é. 

O pecado é essa força, ao mesmo tempo humana e desumana, que me distancia da capacidade de acertar sempre. Felizes são aqueles que percebem tão terrível realidade e, por essa razão, correm aos pés do único que nunca errou, sedentos por sua graça. Precisamos da misericórdia daquele que é capaz de nos perdoar quando erramos. É possível que o funcionário responsável por entregar o envelope certo ao apresentador do Oscar tenha sido demitido depois de cometer tão grande gafe, não sei. Mas sei com certeza que Deus nunca demite os que erram, desde que se arrependam, reconheçam sua natureza destituída de méritos e recorram ao perdoador, abraçando-o como Salvador e aquele que “perdoa todas as tuas iniquidades” (Sl 103.3). 

Many identical businessmen clones. Businessman production conceptMeu irmão, minha irmã, essa é a razão pela qual devemos corrigir com mansidão e misericórdia os que erram, no intuito de restaurá-los. Não devemos ser tão furiosos e arrogantes em nosso trato com os que transgressores, pois  transgredimos tanto quanto eles; a diferença é só o tipo de transgressão. Devemos estender aos que erram a mesma graça que Deus nos estende quando erramos, pois nosso objetivo não é detoná-los, mas restaurá-los, mediante o arrependimento e o perdão. Seja menos implacável. Seja menos condenador. Seja mais compassivo. Seja mais restaurador. Até porque o único em condições de condenar quem erra não somos eu ou você, é aquele que foi condenado, injustamente, pelos nossos erros. Felizmente, ele subiu à cruz em nosso lugar e pagou o preço que competia a mim e a você pagar, nos permitindo, apesar de nós, ter acesso à glória eterna do Deus que está acima de todo e qualquer erro. 

O erro do Oscar me faz ver a necessidade de priorizarmos o que de fato é prioritário. Menos condenação, mais restauração. Menos agressividade, mais paz. Menos farisaísmo, mais mea culpa. Menos palavras duras, mais palavras mansas e temperadas. Menos carne, mais espírito. Menos ego, mais Cristo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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solidao1O rosto é sorridente. O aperto de mão, amigável. Quando lhe perguntam como está, a resposta é sempre “tudo bem”. Da hora em que chega à igreja até o momento em que se despede, todos acreditam que sua vida é repleta de felicidade. Mas, por trás de toda essa aparência, esconde-se uma pessoa extremamente solitária. Não deveria ser assim, mas a dura realidade é que nossas igrejas estão cheias de irmãos e irmãs que se encaixam nessa descrição, e que, embora escondam e não demonstrem, são muitos solitários. São cristãos, vivem em comunidade, vão aos cultos e cantam louvores, mas, na verdade, sentem-se sozinhos. Os laços com os demais são superficiais e frágeis e eles percebem que, na hora em que precisam de um ombro sincero, não o encontram. Por vezes, chegam a derramar lágrimas escondido. Poucas pessoas lhes telefonam, por isso se sentem como se ninguém estivesse nem aí para si. Olham a vida dos demais e acabam com a sensação de que todos são felizes e têm muitos amigos, menos eles próprios – o que os deprime. Apesar disso, por mais que se esforcem por ser amáveis e gentis na igreja, poucos demonstram interesse real por sua vida. Qual deve ser nosso papel junto a quem se vê nessa situação? Será que há algo que você possa fazer pelos milhares de solitários que transitam entre nós mas não demonstram, tocando a vida em meio à multidão mas tendo a solidão como companheira mais fiel? Qual é o remédio para a solidão?

Como cristãos, é importante prestarmos atenção a quem sofre, pois, sendo nós membros do Corpo de Cristo, temos o dever fraterno de zelar uns pelos outros, de acolher, amar, cuidar. Quando o pé sofre um corte, não é ele próprio que se aplica remédios, é a mão. Quando a panturrilha sente cãibras, é o pé que se alonga para aliviá-la, com a ajuda da mão, sendo que as costas se vergam para que a mão alcance o pé. O corte no dedo é levado à boca. E quando os músculos e tendões doem é dos olhos que descem as lágrimas.  Como integrantes de um todo, devemos cuidar dos irmãos. Mas que remédio podemos dar a eles?

solidão2Para conseguir auxiliar pessoas adoentadas pela solidão, quem não sofre desse mal precisa, antes de tudo, compreender que solidão não tem a ver com a quantidade de pessoas que te cercam, mas, sim, com a quantidade de pessoas que se preocupam com você. Muitas vezes descobrimos que alguém se sente solitário e nos perguntamos como pode, afinal, ele se relaciona com tanta gente! Chegamos a pensar que é frescura ou necessidade de atenção, pois não compreendemos que não basta ter pessoas em volta. O solitário não é um ermitão, é alguém que, embora viva em comunidade, não tem laços fortes de ligação com ninguém. Ele não sente falta de mais eventos na igreja, mas de alguém lhe diga: “Que saudade, liguei só para saber como você está”.

O solitário geralmente tem a percepção de que, se partisse desta vida, não faria muita falta. Pode até ser uma percepção equivocada, mas não é por ser uma visão distorcida que deixa de ser algo que o machuque. Muitos que olham de fora acham que o problema é culpa do próprio solitário, afinal, por que ele não se enturma? Por que ele não corre atrás? Basta se aproximar das pessoas! Bem, na verdade, correr atrás dos outros não satisfaz a solidão, pois não demonstra um real interesse do próximo. O solitário se sente desimportante na vida dos irmãos e vive uma real necessidade de ser amado e querido. Algo que ele não quer impor, pois precisa que ocorra espontaneamente. Correr atrás das pessoas não é o remédio para a solidão.

Como Igreja, precisamos estar constantemente atentos para os solitários que nos cercam. Devemos identificá-los e amá-los sem hipocrisia. A única forma de fazermos isso é saindo de nossa zona de conforto e indo até eles para buscar conhecê-los em profundidade, descobrir quem eles são e, a partir daí, criar vínculos verdadeiros. Não devemos amar os solitários como um gesto de caridade, “com pena” ou por “obrigação cristã”: precisamos buscar conhecê-los para criar laços verdadeiros de afeto mútuo e passar a amá-los de verdade. Temos de criar as circunstâncias para que eles de fato nos façam falta. Amizades não são apenas aquelas que a vida nos joga no colo, são também as que nos mexemos para construir. Mas, para o solitário, esse movimento partir dele não é um remédio muito eficaz, ele deseja ver interesse que parta das outras pessoas.

solidão3É bastante difícil para alguém que tem muitos amigos sinceros e vive numa atmosfera de amizade perene compreender a solidão. Quem vive imerso em amor não capta com facilidade a intensidade da dor que o solitário sente. O que fazer? Buscar em Deus a resposta. Em sua glória celestial, o Deus que é amor jamais sentiu solidão. Acompanhado, de eternidade a eternidade, pela Trindade santa, o Criador se basta a si mesmo e se complementa, vivendo numa unidade plural e singular que faz de si um ser pleno e absolutamente destituído de carência. No entanto, dos altos céus ele olhou para a humanidade solitária, despida da plenitude de Deus, e desceu à terra, fazendo-se solitário como os solitários, para nos devolver a capacidade de comungar para sempre com aquele que nunca nos deixará sós. E, ao fazer-se como um se nós, o Filho experimentou o gosto da solidão: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46), gemeu o Senhor agonizante. Por que Jesus decidiu vivenciar a dor dos solitários? Amor. Puro amor.

Meu irmão, minha irmã, há muitos solitários nas nossas igrejas. Peço a Deus que encha o seu coração do amor que é fruto do Espírito, para que você sinta em si a dor dos solitários e faça algo para cuidar de quem precisa urgentemente de calor humano. É aproximando-se de Deus que você terá discernimento para identificar as vítimas da solidão, frutificará em amor pelos tais e partirá em seu socorro com interesse genuíno. Ao fazê-lo, você estará permitindo que Deus o use para transformar a vida de tantos que precisam desse amor.

Afinal, já entendeu qual é o remédio para a solidão do seu irmão? Se você disse “Deus”… lamento, errou. Deus é o médico que aplica o remédio.  O remédio… é você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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