Arquivo da categoria ‘Sofrimento’

inferno 1Eu vi o inferno. Calma. Antes que você ache que vou contar mais uma dessas experiências de gente que afirma ter sido arrebatada e levada para um passeio pelo temido local de tormento eterno, deixe-me tranquilizá-lo; não é nada disso. Tampouco pretendo escrever um livro com “divinas revelações” do que há do outro lado da morte. A visão que tive do inferno na verdade é metafórica, fruto de um episódio simples me fez ter um lampejo da terrível realidade de quem após esta vida adentra nesse ambiente tão misterioso onde há choro e ranger de dentes. Minha filha é muito apegada aos pais. Talvez pelo fato de não ter irmãos ou primos por perto e de conviver essencialmente comigo e minha esposa todos os dias e noites, ela aprecia muito estar em nossa companhia e detesta ficar longe de nós. Com a virada do ano, sua turma na escola ganhou novas professoras, que ela não conhecia antes. Bem aclimatada ao colégio, já há bastante tempo ela não faz escândalos quando a deixamos para a aula, acostumada que esta aos coleguinhas e ao ambiente escolar. Até que…

No primeiro dia de aula deste ano, minha esposa é quem a levou para a escola. Tudo certo, sem incidentes. Mas, no segundo dia, foi minha vez. Pus a filhota na cadeirinha de minha bicicleta e fomos pela ciclovia, cantando e conversando, até o colégio. Cheguei, estacionei, descemos da bicicleta e caminhamos para o pátio em que eu a entregaria para a professora. Tudo normal, sem problemas. Só que, então, fui me despedir. Em vez do beijinho e do abraço usuais, seguido de um “tchau, Jesus te abençoe”, naquele dia a reação dela foi diferente. Pediu colo. Agarrou-se em meu pescoço com todas suas forças e começou a lamentar baixinho:

– Papai… papai… papai… papai…

Como um filhote de coala, ela se atracou em mim com braços e pernas e não desgrudava por nada. Desacostumado a esse tipo de comportamento já havia muitos meses, fui pego de surpresa. Tentei conversar. Usei muitos argumentos. Mas as palavras foram vãs e minhas tentativas, infrutíferas.

– Papai… papai… papai… papai…

Olhei para a professora nova com um olhar de “me ajuda” e ela veio em meu socorro. Tentamos fazer minha filha desgrudar e se juntar aos coleguinhas, mas foi pior. Quando percebeu que estavam tentando separá-la de mim, a filhota começou a chorar e a gritar. Foi um escândalo. Eu tentava argumentar, a professora oferecia convites e opções de atividades, mas absolutamente nada surtia efeito.

– Bebê, papai precisa ir…

– Papaaaaaaaaaaiiiiii!!!!!!! – a coisa só piorava.

Quando me dei conta, ela entrou em desespero. Por nada do mundo queria ficar longe de mim. O grito virou um urro. As lágrimas banhavam o rosto, que inchava e se avermelhava. O suor empapava a camisa. O cabelo começou a ficar desgrenhado, de tanto ela resistir. Eu tentava. A professora tentava. Uma auxiliar tentava. Até coleguinhas se aproximaram com olhar assustado para ver o que estava acontecendo. Nada adiantava.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaieeeeeeee!!!!!!

Consegui, com monumental esforço, puxá-la para longe do abraço e a pus no chão. Com um salto, ela se atracou a uma de minhas pernas e o choro piorou.

– Papaaaaaaaaaaiiiiiiii!!!!! Coloooooooooooo!!!!!!!

Olhei para o relógio e vi que, se não saísse dali naquela hora, me atrasaria para o trabalho. Olhei para a professora, que me olhou de volta. Pelo olhar decidimos que teríamos de desgrudar minha filha à força. E foi o que fizemos. Com o máximo de delicadeza que consegui, afastei os bracinhos dela de mim e a professora a segurou, enquanto eu caminhava apressadamente para a porta. Com o coração dilacerado pelos urros da minha filha, que dobraram de volume ao me ver me afastando, olhei para trás.

E foi quando tive a visão do inferno.

Separada do pai, aquela pobre alma babava e chorava, com as mãos estendidas em minha direção, os dedos contristados, gritos que clamavam pela presença do pai, olhos arregalados em desespero. Nada no mundo importava para ela naquele momento: a única coisa que desejava era estar com seu pai. Mas ela não podia. Apesar de todas as fibras do meu ser me impulsionarem para correr em sua direção, tomá-la em meus braços e levá-la comigo de volta para casa, eu sabia que não seria possível. Então assoprei um beijo de longe e gritei:

– Papai te ama! Muito!

E saí do pátio, em direção à bicicleta, enquanto ouvia os gritos e o choro da minha filhinha.

– Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!

inferno 2O que é o inferno? Esqueça todas as imagens simbólicas que já ouviu sobre isso. Esqueça diabinhos vermelhos cutucando pessoas com tridentes. Esqueça divinas revelações, esqueça livros de gente que afirma ter sido arrebatada, esqueça tudo. Inferno é uma coisa só: querer estar com o Pai e não poder. Só quem viu nos olhos de alguém o mais absoluto desespero por desejar ficar com o pai e não ter essa possibilidade, como eu vi, compreende o que significa o choro e o ranger de dentes.

Fomos criados para viver com Deus. Viver longe dele é algo totalmente antinatural. Por isso, nossa natureza clama angustiadamente por sua presença. Quando o Pai pôs Adão no Éden, insuflou nele o desejo de conviver diariamente consigo. Isso é o natural. O pecado, porém, criou o abismo entre Criador e criatura e, a partir daí, passamos a viver com um vazio do tamanho de Deus na alma. Fomos expulsos do jardim, e não fomos criados ou preparados para isso. Deus fez o homem para estar junto de si e qualquer coisa diferente disso é uma distorção astronômica da ordem original das coisas. O inferno foi criado para Satanás e seus anjos, lá não é nosso lugar. Não pertencemos ao inferno, mas ao Éden, à convivência permanente com o Pai. Por isso, é completamente artificial estar longe de Deus, não faz sentido, não encaixa, o mundo vira de cabeça para baixo numa situação dessas.

cruzMas, então, veio a cruz. Ela nos tirou dessa realidade irreal e surreal que é viver longe do Pai. Ao sermos adotados como filhos de Deus, mediante Cristo, retornamos ao estado original para o qual fomos formados: temos acesso ao Senhor, passamos a viver com ele – não mais em um jardim, mas em nós mesmos, feitos habitação do Santo Espírito. Ingressamos no reino do qual nunca deveríamos ter saído. Nossa comunhão com o Pai volta a ser constante, como sempre deveria ser e como nunca deveria ter deixado de ser, não fosse pela entrada do pecado em nosso coração.

Quem não tem Cristo, todavia, vive outra realidade. Na vida desses, a separação do Pai segue do nascimento até a morte. Distraídos com as alegrias desta vida, os prazeres, as festas e os benefícios que as riquezas proporcionam, vivem distraídos, seu foco torna-se o que está ao redor. O afastamento de Deus os cega a tal ponto que chegam a crer em outros deuses ou mesmo a não crer em nenhum. E, assim, a necessidade de retornar àquele estado original de comunhão constante com o Criador é embaçada pelas coisas desta vida. Consciência cauterizada.

Só que aí chega a morte.

E, após a morte, todas as distrações, todos os prazeres, tudo aquilo que ocupava a mente e o coração dos que deram as costas para Cristo durante seus anos na terra… desaparece. Simplesmente deixa de existir. O que resta? A ausência do Pai. Um vazio que nunca será preenchido. E isso leva, inevitavelmente, ao sofrimento. À dor. Ao desespero. Ao choro. Ao ranger de dentes. Sem as distrações da vida terrena, a alma sedenta da presença de Deus percebe que jamais a terá. Pelos séculos dos séculos, sua existência será marcada pela ausência do Pai. E tudo o que lhe resta é o tormento eterno que essa percepção gera.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!!!!!

Só que aí não adianta mais nada clamar. O Pai não tem mais o que fazer, pois a cruz foi rejeitada. Aquela pobre alma deu as costas para Jesus. O Pai só pode olhar de longe e, cheio de amor e compaixão por aquela vida, afastar-se, ouvindo seus gritos do mais absoluto desespero, pois a justiça teve de ser cumprida: sem Deus nesta vida, sem Deus na eternidade. O que sobra? O nada. O nada absoluto.

Ao final da tarde, voltei à escola para pegar minha filha. Assim que ela me viu, correu em minha direção e, de um salto, pulou no meu pescoço. Ficou agarrada um longo tempo, enquanto eu, meio espremido em seu abraço, dava dezenas de beijos no seu rosto. Sem desgrudar, ela disse baixinho no meu ouvido:

– Papai… eu tava com saudade.

E respondi, com amor:

– Eu também, bebê. Mas agora o papai está aqui. E a gente vai ficar juntinho, viu? Vou te levar pra casa e vamos ficar agarradinhos.

Ela abriu um sorriso radiante. Deu um longo suspiro, relaxou os braços e apoiou a cabecinha no meu ombro. E foi quando eu percebi: agora, ali, no abraço do pai, minha filha estava… no céu.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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leoesPeço desculpas a você que acompanha o APENAS, pois escrevo sempre aqui no blog com a intenção de edificar, exortar ou consolar a sua vida, mas, hoje, gostaria de abordar um assunto que tem ferido a minha alma. Já explico, mas, para chegar ao ponto principal da minha reflexão, antes tenho de apresentar alguns argumentos. Se você tiver paciência de ler até o final, sigamos juntos. O fato é que, já há alguns anos, algo tem me incomodado muito. Mas muito. Muito. Demais. A desunião da Igreja de Jesus Cristo em nosso país alcançou patamares elevadíssimos. Para mim, preciso dizer, insuportáveis. Viramos uma família abençoada, porém, em enorme parte, problemática. Por mais que me doa muito dizer isso, nós, evangélicos, somos um povo desunido. O que ainda não é o pior: não satisfeitos em vivermos entre inimizades, porfias, […] discórdias, dissensões, facções” (Gl 5.20), tratamos os irmãos em Cristo de quem discordamos com um nível de agressividade, arrogância, desrespeito e falta de amor que considero espantoso para quem segue Jesus.

Essa constatação, atrelada à angústia que ela provoca, já me acompanha há um bom tempo. Quando abandonei as redes sociais, há uns dois anos, fiquei bem melhor, pois parei de ter acesso a muitos dos debates, videos, textos, vlogs e posts que promovem a segregação e o esquartejamento do Corpo de Cristo. Com o lançamento de meu livro Perdão Total, em outubro passado, retornei ao facebook por orientação da editora, como forma de manter o diálogo com leitores e irmãos a quem porventura eu pudesse vir a abençoar pelo que escrevo. Nesse sentido, foi ótimo, pois de fato foi possível interagir, conhecer novas pessoas, ter diálogos interessantes, divulgar a mensagem do perdão e da restauração. Mas isso teve um efeito colateral, um preço a pagar: voltei a ter acesso a posts, comentários, vídeos, vlogs e tudo o mais que, em nome “de Jesus”, da suposta “sã doutrina” e da “apologética”, promove dissensão, a compartimentalização e a ira entre as diferentes facções da Igreja. 
ovelha 1Assim, tenho visto calvinistas numa discussão eterna com arminianos, com troca de acusações, desrespeito e ofensas dos dois lados. Também cessacionistas em discussões antigas e insípidas com pentecostais. Ou, ainda, pedobatistas e credobatistas se pegando nos ringues virtuais. Adeptos da Missão Integral e adversários da Missão Integral quase comendo o fígado uns dos outros. Gente que não crê que Deus está no controle de tudo gritando e salivando contra quem crê que Deus está no controle de tudo e quem crê respondendo com igual ímpeto. Isso além de muitos outros grupos divergentes. Tudo “em defesa da sã doutrina”, claro.
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Sabe o que percebo que há em comum a todos esses grupos que polemizam na Internet e outros ambientes? São irmãos em Cristo tratando irmãos em Cristo com desrespeito, desamor, doses de agressividade, muita arrogância e outras posturas que são características do mundo, não de filhos de Deus – claro que, como acreditam estar fazendo isso em nome da sã doutrina, os que entram nesses debates creem que tudo podem, que o Senhor lhes dá carta branca para serem pessoas desagradáveis, já que acreditam verdadeiramente que o estão “defendendo”. Agem, talvez sem perceber, não segundo o  amor que o evangelho propõe, mas segundo a máxima do filósofo Maquiavel: “o fim justifica os meios”.
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Nas divergências, me assombro com a forma com que os “defensores da sã doutrina” atacam quem eles acreditam estar errados. Cheguei a ver irmãos em Cristo criticando irmãos em Cristo de quem discordam usando elogios como “paspalho”,  “idiota” e “palhaço”. Estou estarrecido com o que tenho visto e profundamente abatido por ver que meus irmãos acham que isso é justificável. Não é. É um absurdo bíblico. Só para lembrar: “Quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.22). Ou Jesus não quis dizer o que disse? Que outra interpretação haveria?
leos 2Repare que não estou falando de cristãos criticando hereges. Refiro-me a cristãos que discordam de cristãos. É briga familiar. Irmão contra irmão. Caim e Abel dos dias atuais. Se já me choco quando vejo a maneira horrível e mundana como muitos irmãos em Cristo tratam hereges e pessoas que discordam do evangelho, quanto mais quando observo as brigas entre os irmãos na fé. Muitos dos que põem o dedo na cara dos hereges falam deles com ira, chacotas, sarcasmo e ódio, muito ódio, em suas palavras e, naturalmente, no coração. “O que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem” (Mt 15.18). Sempre que vejo, leio ou ouço, por exemplo, cristãos falando de forma agressiva e cheia de ódio contra quem considera inimigo da fé, lembro-me do que Jesus nos ordenou: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?” (Mt 5.43-46). Se recebemos de Jesus o mandamento de amar os inimigos (e nunca vi tratar mal, xingar, ofender, desrespeitar ou agredir quem se ama), os inimigos da fé não se encaixariam na categoria “inimigos”? Ou inimigo não significa inimigo? Então não deveríamos tratá-los com amor? Jesus não quis dizer o que disse? Ou “não é bem assim”?
dallas willardMuitos cristãos acreditam que a defesa da fé (contra hereges ou contra cristãos dos quais se discorda) deve ser feita com agressividade, com testosterona, como cruzados numa batalha. Agem como zelotes, guerreiros da sua “sã doutrina”. Então, para os tais, vale tudo, inclusive tratar de quem discordam por nomes desrespeitosos e agredi-los da forma que der. Confesso que há alguns anos eu acreditava nisso também. E agi dessa forma, reconheço o meu pecado. Mas, então, fui percebendo o absurdo e o mundanismo presente nessa postura. Até que, há alguns meses, li a obra The allure of gentleness (“O fascínio da gentileza”, numa tradução livre), livro póstumo de Dallas Willard (foto), onde ele prova que a defesa da fé (com relação a hereges e também a cristãos de quem se discorda) para dar resultados tem de ser feita com educação, polidez, afeto e respeito. O que li foi a gota d’água para revolucionar de vez minha visão sobre o assunto. Hoje, meu estômago embrulha quando leio, vejo ou ouço qualquer cristão “defender a fé” com agressividade, altivez, ofensas, termos deselegantes, xingamentos e petulância – sempre “em nome de Jesus”, claro.
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Não é possível que as pessoas não percebam que algo feito em nome de Jesus mas que contraria o caráter de Jesus… tem qualquer origem, menos Jesus.
boko haram 1Venho observando e suportando tanta divergência feita sem amor por esses últimos quatro meses sem falar nada, mas, semana passada, aconteceu algo que me lançou em uma reflexão profunda e me conduziu a este desabafo. Por algumas razões, passei a buscar informações sobre a perseguição sangrenta e cruel que vem ocorrendo em nossos dias contra os cristãos em determinados países do mundo. Não sei se você sabe disso, mas nossos irmãos e nossas irmãs em Cristo estão sendo mortos como porcos em muitas nações dominadas pelo Isam. Hoje. No exato momento em que você está lendo este texto, confortável e despreocupadamente, milhares de irmãos na fé estão sendo estuprados, desapossados de seus bens, vendidos como escravos sexuais, espancados e assassinados. A forma preferida de matança de cristãos, por serem cristãos, é a decapitação.
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O grupo terrorista Estado Islâmico tem dizimado todo e qualquer cristão que encontra pelo caminho em países como Síria, Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Chipre e Turquia. E isso por enquanto, logo eles estarão em outros países. Talvez o Brasil. O Estado Islâmico obriga as pessoas que vivem nas regiões que controla a se converter ao islamismo, e aqueles que se recusam sofrem torturas, mutilações e estupros. E são executados.
boko haram 2Na Nigéria, o problema é semelhante. A organização Boko Haram (expressão que significa “a educação ocidental ou não islâmica é um pecado”) é um grupo  fundamentalista islâmico de métodos terroristas, que busca impor a lei muçulmana no norte do país. O Boko Haram opera com caminhões e carros blindados, cerca vilas cristãs e mata a população inteira, além de sequestrar e estuprar todas as meninas. Vídeos têm sido divulgados pela internet e mostram pastores e membros de igrejas sendo decapitados por espadas, simplesmente por ser cristãos e se recusar a negar sua fé. Volto a dizer: isso está ocorrendo agora, hoje, nesta época da história e debaixo do mesmo sol que eu e você. No exato mesmo segundo em que cristãos aqui no Brasil se ofendem e entram em discussões mal-educadas por questões secundárias da fé; em países como Nigéria, Síria e Jordânia pastores e membros estão sendo postos de joelhos e decapitados por espadas. As imagens são tão terríveis que foi difícil encontrar fotos para ilustrar este post que fossem publicáveis, a maioria é de embrulhar o estômago.
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E, finalmente, quero chegar ao ponto principal de tudo o que escrevi aqui. Eu li muitos textos e assisti a uma grande quantidade de vídeos sobre a perseguição e a devastação imposta a esses milhares de irmãos pelo Estado Islâmico e pelo Boko Haram. Sabe o que mais chamou minha atenção? Em nenhum deles, em nem um único sequer, vi qualquer designação desses mártires da fé que não fosse cristãos. Nenhuma manchete de jornal escreveu algo como “Reformados são assassinados” ou “Estupradas a meninas que se opõem à Missão Integral”. Tampouco “Milhares de pentecostais decapitados na Nigéria”, nem “Vilas de cessacionistas são invadidas por terroristas”. Ou “Batistas e presbiterianos são caçados por islâmicos, mas pentecostais e metodistas não”. Nada disso. O que leio é “Cristãos são mortos…”; “Cristãs são estupradas…”; “Cristãos foram decapitados…”. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos.
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Sabe a que conclusão cheguei? Quando vem a perseguição, todas as discussões sobre assuntos secundários deixam de importar. Os bate-bocas denominacionais desaparecem. As rusgas doutrinárias evaporam. Se a sua cidade for invadida por radicais islâmicos, você não vai dar a mínima para as questiúnculas periféricas que nos dividem e jogam irmão contra irmão. Assim como duvido que os cristãos de Iraque, Nigéria, Síria e outros países que sangram pela perseguição estejam dando a mínima para isso neste momento. Eles só sabem que são filhos de Deus e irmãos em Cristo. Porque, no instante em que o principal é posto no foco, as questões periféricas e menos importantes da fé desaparecem.
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O que sobra é o centro de tudo: a cruz. Nessas horas, nos lembramos dos temas fundamentais da fé, como amor a Deus e ao próximo, graça, perdão, restauração, evangelismo, negar-se a si mesmo, vida eterna, fruto do Espírito e tantos outros que permanecem esquecidos por muitos em tempos de paz.
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Eu tenho pavor que isso aconteça, mas a história das perseguições religiosas ao longo dos séculos mostra que a perseguição une, purifica e derruba as divisões da Igreja. Não que eu queira o Estado Islâmico ou o Boko Haram invadindo Copacabana, Deus nos livre! Jamais desejaria isso. Mas, no rumo em que estamos, seria uma das poucas coisas que poderiam remover os rótulos inúteis e unir, aqui no Brasil, as denominações, os adeptos das distintas linhas teólogicas e doutrinárias, os diferentes grupos soteriológicos, os que professam ideologias cristãs diferentes, os que divergem em assuntos periféricos e menos importantes da fé. As igrejas de países como Nigéria, Síria, Iraque e Jordânia que o digam.
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Não importa se você é batista, presbiteriano, pentecostal, anglicano,  metodista, cessacionista, emergente, pedobatista ou o que for. Se você foi alcançado pela graça divina, crê em Jesus como Senhor e Salvador pessoal e vive em piedade, passará a eternidade na presença de Deus, em novos céus e nova terra. E, sinceramente… você acha que qualquer uma dessas coisas importará lá? Então fica aqui a minha recomendação: importe-se aqui com o que importa na eternidade.
boko haram 5Desfrute da liberdade que você tem. Mas faça isso todos os dias como se vivesse num país em que te cortariam a cabeça só de saber que você é cristão. Porque, aí, todo rótulo deixará de importar e você poderá se orgulhar de ter como título simplesmente… cristão. Um cristão que ama e une e não um que promove a discórdia e polêmicas que gerarão bate-bocas e nenhum benefício. E peço a Deus de todo o meu coração que jamais seja preciso que seu pescoço esteja encostado na lâmina de uma espada para que isso aconteça.
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Amemo-nos. Unamo-nos. Deixemos de lado as rusgas sobre aspectos secundários da fé. Vamos dar as mãos naquilo que nos une, voltar os olhos para a cruz e começar, de fato, a amar o próximo. Sejamos, de fato, irmãos. Deus estende sua graça salvífica para um único tipo de pessoas: pecadores perdidos. Ou seja: antes de sermos salvos éramos todos iguais. Por que depois de sermos salvos temos de começar a nos segmentar, odiar, atacar? Pentecostais, tradicionais, cessacionistas, continuístas, pedobatistas, credobatistas, calvinistas, arminianos etc., etc., etc… nada disso importará no dia em que virmos Jesus face a face. O que Deus verá nesse dia é se temos o sangue do Cordeiro aspergido sobre nós. Somos todos cristãos, somos todos irmãos: que comecemos a agir como tal, para que cumpramos a oração de Jesus a nosso respeito. “Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um” (Jo 17.11).
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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imageNas últimas horas de vida antes da crucificação, Jesus sofreu todo tipo de dor: a dor do corpo, a da humilhação, a do abandono, a da traição, a da negação. Dor em cima de dor. Mas eu, pessoalmente, acredito que uma das dores que mais doeram nele foi a da ingratidão. Ele estava ali, entregando-se pela humanidade, oferecendo-se em sacrifício pelo pecado do mundo… mas aqueles por quem ele se deu não lhe agradeceram nem o reverenciaram; pelo contrário, viraram-lhe as costas, cuspiram em seu rosto, esbofetearam sua dignidade, zombaram de seu sofrimento, rasgaram sua carne, conduziram sua alma a uma tristeza mortal. Não demonstraram um pingo sequer de agradecimento. E essa, a dor da ingratidão, é uma das dores mais dolorosas que há.

Nas minhas ultimas férias fui com minha mulher e minha filha a Cabo Frio (RJ), onde gosto de ir à Praia das Dunas (foto). Como o nome diz, para se chegar à beira d’água é preciso subir e descer duas dunas. Normalmente, essa caminhada é extremamente prazerosa, com aquela areia fina acariciando os pés e algumas paradas durante o trajeto para – literalmente – deitar e rolar. Num dos dias, resolvemos ir a outra praia, a das Conchas, mas não foi uma escolha feliz: estava lotada, a areia era dura, o vento estava gélido. Decidimos almoçar por ali e retornar para passar a tarde na nossa preferida. E assim fizemos.

Cabo Frio 2015Chegamos tarde à Praia das Dunas, já cansados por toda a aventura da manhã. Tudo o que eu queria era relaxar e descansar nas minhas águas e areias prediletas. Brinquei bastante com o filhota, mergulhamos, pulamos ondas e nos cansamos ainda mais. Por volta de cinco horas estávamos todos exaustos, mas felizes. Foi quando minha filha de 4 anos se aninhou no meu colo e, em meio aos carinhos do papai, adormeceu. Não foi um soninho leve, não: ela dormiu profundamente. Fiquei aguardando por um bom tempo, para ver se a pequena acordava. Nada. O tempo passou, o sol começou a cair, a temperatura esfriou e vimos que era hora de retornar ao apartamento. Mas, aí, veio o dilema: acordar a filhinha ou não? Confesso que tentei, mas sem efeito: ela estava profundamente adormecida.

Foi quando tomei a decisão: pelo bem-estar dela, eu me sacrificaria e carregaria no colo aqueles 16 quilos de filha da beira da água até o nosso apartamento, localizado a um quarteirão da praia. Levantei-me com ela nos braços, enquanto minha esposa recolhia nossas coisas. Pendurei em um ombro a barraca, encaixei uma das cadeiras no braço e iniciei a caminhada.

Foi quando começou o sofrimento.

Se você acompanha o APENAS há algum tempo sabe que sofro de fibromialgia, uma doença que faz todos os músculos e tendões do corpo inflamarem e doerem o tempo inteiro. Isso me limita ou impede de fazer uma série de coisas, que me são extremamente dolorosas, como dirigir, digitar no computador, praticar exercícios e… carregar peso. Agora, imagine eu, com fibromialgia, tendo uma criança de 16 quilos nos braços, uma barraca de praia no ombro e uma cadeira pendurada no braço. Acredite: não é fácil. Dói – e dói muito. Mas, por amor a minha filhinha, eu me entreguei voluntariamente a esse sacrifício.

peso 1A coisa ficou pior. Se carregar esse peso todo já me é doloroso, imagine andando na areia fofa. Parece que o esforço necessário triplica. Depois de algum tempo, quintuplica. Comecei a arfar e bufar. O suor escorria. As pernas tremiam a cada passo. Cheguei ao sopé da primeira duna e comecei a escalada. Cada centímetro percorrido era um sacrifício. A sola dos pés doía e latejava. Os músculos queimavam. Tive de fazer diversas paradas. Parecia que estava carregando um elefante rumo ao cimo do Everest. Quando venci a primeira duna, as lágrimas escorriam pelo canto dos olhos. As pernas fibrilavam. A respiração faltava. As costas arqueavam. Enfim, já deu para ter uma ideia do que custou para mim carregar minha filha, a fim de deixá-la mais confortável. Por ela e por amor eu estava passando por maus bocados. Péssimos, na verdade.

Resumamos a história: lentamente transpus as duas dunas, passo ante passo, caminhei pela trilha que leva até a avenida de acesso e me arrastei pela calçada até a entrada do nosso prédio. Nessa última parte, adivinhe você, a pequena acordou. Sensibilizada pelo meu estado, assim que viu a filhota acordar, minha esposa perguntou:

– Filhinha, você não quer ir andando um pouquinho, para deixar o papai descansar?

Sonolenta, sua resposta foi agarrar-se ainda mais ao meu pescoço. Diante da negativa, continuei minha via-crúcis até a porta do prédio. Confesso que, ao chegar à portaria, em meio ao oceano de dores eu sentia uma gota de orgulho de meu feito. Por dentro imaginava minha filha dizendo algo como:

– Papai, você é meu herói! Muito obrigada por se sacrificar por mim! Obrigada por sentir tanta dor para que eu ficasse bem! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada!

Só que não foi assim. Quando subi os degraus de entrada, a cadeira de praia que eu carregava no braço esbarrou de leve num dos pés de minha filha. E o que saiu de seus lábios emburrados de sono foi:

– Ai, papai… Tá me machucando…

Parei. Tentei sorrir com as forças que me sobravam. E minha atitude foi uma só: dei um beijo em minha filhinha ingrata e dei a única resposta que poderia dar:

– Eu te amo, bebê…

cristoJesus sofreu pela humanidade. Muito. De forma dolorosa. Foi dilacerado física e emocionalmente. E experimentou em sua vida terrena a ingratidão de forma indizível. Mas a coisa não parou no dia de sua crucificação. Hoje, eu e você muitas vezes fazemos a mesma coisa. Jesus sofreu tudo o que sofreu por você, meu irmão, minha irmã. Ele carregou o peso do nosso pecado, caminhou nas areias da traição, escalou a duna da humilhação, sofreu a dor da cruz, transpirou a angústia da nossa maldade. E, ainda assim, muitas e muitas vezes, em vez de sermos eternamente gratos, de suportarmos as cadeiras da vida que cutucam nosso pé tendo em nós o entendimento do preço enorme que Jesus pagou pelo nosso bem-estar eterno, murmuramos e reclamamos com uma atitude de extrema ingratidão:

– Ai, papai… Tá me machucando…

Fico imaginando Jesus ouvindo isso e pensando, com infinito amor no coração, sabendo de tudo o que passou e do tão pouco que representa o nosso pequeno sofrimento em comparação ao dele:

– Eu te amo, bebê…

“Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” (2Co 4.17-18).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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desigrejados 1Tenho visto diferentes irmãos em Cristo compartilhar pelas redes sociais a seguinte frase: “Quem sai da igreja por causa de pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus“. Confesso que ler isso me deixou extremamente incomodado, chocado e chateado, pois me soa como uma frase bem pouco cristã e nada embasada naquilo que Jesus ensinou. É uma frase que não expressa amor. Vamos falar um pouco sobre ela, na esperança de que, se você já reproduziu essa afirmação ou mesmo se acredita nela, consiga perceber quão desumana ela é e, assim, pare de replicá-la.

Em primeiro lugar, permita-me dizer que esta reflexão não tem como objetivo entrar por discussões no campo de calvinismo versus arminianismo. O foco da minha abordagem não é se a pessoa que deixou de frequentar uma igreja era predestinada, se tinha livre-arbítrio e toda a discussão que considero desimportante na eterna querela entre os que creem e os que não creem na doutrina da eleição. E por que digo isso? Porque Jesus mesmo não deu muita atenção a essa questão. Repare que, independentemente de Jesus ser “calvinista” ou “arminiano”, o que os evangelhos mostram é que ele sempre destacou a importância de buscar a ovelha que se desgarrou do rebanho. Ponto. Isso é o que importa, a despeito da doutrina soteriológica que você siga. Afastou-se? Busque. Ponto final. E é aqui que a frase do título deste post torna-se tão repulsiva ao meu coração. Pois não consigo coadunar o que Cristo nos ensinou com essa afirmação.

desigrejados 2Temos de refletir muito bem sobre o que lemos por aí antes de acreditarmos naquilo e sairmos reproduzindo. E uma reflexão aprofundada sobre “Quem sai da igreja por causa de pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus” me dá a nítida ideia que quem diz essa frase segue e deseja propagar o seguinte raciocínio: se um indivíduo se desgarrou do rebanho porque foi ferido, magoado, traído ou ofendido de algum modo por membros ou líderes da igreja, o problema não foi o que fizeram com ele, mas a fé inexistente dele em Cristo – e, portanto, podemos deixar esse “infiel” para lá. Se concordamos com essa frase, estamos acreditando que a pessoa em questão era um falso convertido, um simpatizante mas não praticante do evangelho. Em outras palavras, estamos tomando para nós o poder divino de perscrutar corações e afirmar quem é salvo e quem não é. Se eu assinar embaixo dessa frase, vou deixar de desejar que líderes opressores parem de oprimir os membros da igreja, ou que irmãos e irmãs que ferem irmãos e irmãs percebam seu erro, se arrependam e mudem. Pois estarei pondo toda a responsabilidade na conta do ofendido. Afinal, ele “nunca entrou lá por causa de Jesus”. O que é um absurdo.

Pense em Pedro. Naturalmente, a igreja como existe hoje não existia na época de Cristo, mas creio que podemos fazer uma boa analogia entre os “desviados” de hoje e o apóstolo no episódio em que ele negou Jesus. Se entendermos que “estar na igreja” é um equivalente a “caminhar em fidelidade aos princípios comuns à fé cristã”, podemos considerar que Pedro, ao trair Jesus três vezes, “deixou a igreja”. Ele negou o Salvador. E – repare –  o fez por causa de pessoas, com medo dos que disseram que ele era um cristão. Logo, pelo pensamento em questão, Pedro nunca fez parte “da igreja” por causa de Jesus. E sabemos que isso simplesmente não é verdade. Simão apenas fraquejou por um tempo, devido a problemas com as pessoas ao seu redor. Posteriormente, arrependeu-se, foi perdoado pelo Senhor e convocado a se tornar um pastor do rebanho de Cristo. Tenho consciência de que essa não é uma analogia perfeita, mas penso que passa uma visão bem honesta do quanto a afirmação do título deste post não condiz com a realidade.

“Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou? E, se porventura a encontra, em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos” (Mt 18.12-14). Eu leio isso e, dentro do contexto da passagem, fico imaginando se Jesus diria à ovelha perdida: “Olha só, se você se extraviou do resto do rebanho porque algumas dentre as outras 99 ficaram te mordendo, dando coices e esfolando sua lã, é porque você nunca fez parte do rebanho”. Sinceramente, você consegue imaginar o mesmo Messias que ensinou a parábola da dracma perdida e do filho pródigo dizendo isso? Eu não.

desigrejados 3Quem reproduz essa frase está dando as costas para a dor do próximo. Para os sentimentos das pessoas. Para a humanidade dos seres humanos. É alguém que não consegue chorar com os que choram. Que não entende a dor que é para um cristão ser traído por um sacerdote, ao ter os pecados que confessou a ele serem vazados para outras pessoas, ou ao ser perseguido dentro da igreja por discordar de forma legítima e ética da liderança. Que não empatiza com um irmão que foi maltratado por pessoas da igreja. Que não compreende como sofre alguém que é machucado no lugar onde deveria ser abraçado, cuidado e tratado. Jesus se revela por sua Palavra, que ecoa nas atitudes das cartas vivas que deveríamos ser nós, cristãos (2Co 3.2-3); porém, se essas cartas não tiverem a letra e a cor da tinta de Cristo, como querer que os feridos e magoados enxerguem o mesmo Cristo no lugar onde elas estão? Em outras palavras, se quem deveria ser o sal da terra não salga e a luz do mundo não brilha, a culpa é de quem sofreu danos infligidos por esse sal que arde e essa luz que queima?

É claro que compreendo que um cristão sólido suportará pedradas e açoites. O cristão alicerçado na rocha ficará firme nas tempestades e nos vendavais, será lançado aos leões e entregará o pescoço à espada por amor ao Senhor. A Bíblia afirma isso e não sou eu quem vai discordar. Mas o que parece que os adeptos dessa frase sem coração se esquecem é que muitos e muitos dos que são enxotados da igreja “por pessoas” estão em início de caminhada de fé, ou ainda estão em desenvolvimento, não ganharam ainda tônus espiritual para aguentar as pancadas que sofreram no seio da igreja. Se para alguém que conhece Cristo há muitos anos e em profundidade já é difícil aguentar maus exemplos e más atitudes de líderes e irmãos, que dirá para quem ainda está em processo de conhecimento de Cristo e de aprofundamento de raízes.

desigrejados 4Meu irmão, minha irmã, temos de ser compassivos; isto é, de sentir em nós o sofrimento dos que estão sofrendo e não de ficar questionando a fé de quem já foi profundamente machucado por quem se diz cristão. Nosso papel como embaixadores de Cristo é sermos instrumentos de Deus para levantar o caído, restaurar o destruído, sarar o doente de alma, buscar o perdido. Jamais agir como essa frase cruel propõe. Fica aqui minha proposta para quem acredita que “Quem sai da igreja por causa de pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus“: em vez de largar para lá esse indivíduo precioso e questionar a fé dele, parta em seu socorro e seja você aquele que mostrará que Cristo não é como aquelas pessoas que o feriram. Garanto que, assim, você estará agindo de modo muito, mas muito mais cristão – e poderá ajudar a cobrir uma multidão de pecados: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados” (1Pe 4.8). Faça parte do grupo dos que dão de comer a quem tem fome e não dos que negam alimento a quem agoniza, faminto, à beira da estrada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Considero a passagem de um ano para outro uma das maiores invenções da humanidade. Absolutamente nada muda pelo fato de o dia 1 de janeiro ter chegado, mas, ainda assim, somos contagiados pelo clima de transformação que a mágica dessa data nos propõe. O joelho ainda está doendo, a goteira segue pingando, o carro permanece com aquele barulho no motor, a chuva continua caindo e o sol não deixou de brilhar… mas algo relacionado ao ano-novo nos tenta convencer de que ocorreu algum tipo de transformação cósmica pelo fato de o calendário ter virado. Isso é ruim? De jeito nenhum. Pois esse fenômeno revela um aspecto absolutamente necessário à vida humana: a necessidade de ter esperança.

Paulo registrou a importância de acreditarmos que algo melhor virá: “Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.24-25). Acreditar pacientemente em algo que se espera é o combustível para superar as dificuldades da vida. Ter esperança em que o descanso virá nos dá forças para suportar o cansaço. Ter esperança no emprego ajuda o desempregado a tolerar a escassez. Ter esperança na cura fortalece as pernas do enfermo. Ter esperança na paz dá alento ao atribulado. “A esperança dos justos é alegria” (Pv 10.28), percebeu o sábio. Ter esperança: isso nos motiva, sustenta e alegra. A desesperança conduz ao desânimo, à depressão e até ao suicídio.

Por acreditarmos na esperança, nos agarramos a ela quando as coisas da vida não andam bem. Se fazemos isso estribados na Palavra de Deus, a esperança sobe um degrau e ganha outro nome: fé. E fé é o que nos conduz pelo pedregoso caminho da vida com pés firmes, olhos no horizonte e cabeça erguida. Crer no céu é o alimento para aguentar as dores da existência. A esperança no encontro com Cristo é o que nos move a carregar a nossa cruz na terra, considerando ganho aquilo que parece perda. Fé é a certeza de que, depois da curva da estrada, o sol não mais nos abrasará, a dor não mais doerá, a saudade deixará de doer, o sofrimento será apenas uma lembrança, o cinza se transformará em um milhão de cores.

“Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor; visto que andamos por fé e não pelo que vemos. Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor. É por isso que também nos esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para lhe sermos agradáveis” (2Co 5.6-9). A fé, portanto, nos dá bom ânimo, nos faz superar as dificuldades que surgem à frente, fortalece nossa confiança, nos impulsiona à santidade: fé é a esperança que faz a vida ser mais leve e nos torna íntimos de Deus.

O ano mudou, mas nada mudou. O ano novo continua velho e o velho foi como será o novo. No entanto, nos resta a esperança. A situação está difícil, meu irmão, minha irmã? Tenha, sim, esperança. Esperança alicerçada na certeza de que Deus está no controle, te conhece intimamente e quer o teu bem. Você não foi justificado por Cristo? Então saiba que “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo” (Rm 5.1-5).

Tenha esperança sim, e que ela seja fé.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

 

boneca 1Sei que confessar isso não fará bem à minha imagem de machão brasileiro, mas a verdade é que eu brinco com bonecas. Tudo bem que não é uma atividade solitária ou espontânea: eu só brinco com bonecas, panelinhas, cozinhas de plástico e afins quando minha filha me chama para isso. Como amo brincar com ela, perco todos os pudores masculinos e me torno a voz e a alma da Dudinha, da Lalá, da Giulia, da Bailarina, da Branca de Neve e de muitas outras bonecas que fazem parte do universo lúdico da minha pequenininha. Recentemente, em uma dessas brincadeiras, eu me peguei reparando um aspecto que não havia notado antes: bonecas são perfeitas. Já percebeu que nenhum fabricante faz bonecas de pessoas com problemas genéticos, obesas, deficientes ou amputadas? Quando esse pensamento invadiu minha mente, me fiz uma pergunta que pode soar bem sui generis: por que não se fabricam bonecos de pessoas que fujam dos padrões da chamada “normalidade”, como… anões? Isso mesmo, poderia haver, por exemplo, uma boneca da Princesa Elsa, de Frozen, retratada com um dos 200 tipos de nanismo já identificados pela medicina. Após alguma reflexão, acredito que a resposta a essa pergunta inusitada fala muito sobre como nós, seres humanos, somos.

Em princípio, você pode achar bizarro o meu questionamento. “Ora, Zágari, é óbvio que ninguém fabrica bonecos de anões!”. Bem, na verdade não é algo tão óbvio assim, se levarmos em conta a estimativa de que existem cerca de 175 mil anões sobre a face da terra – um número expressivo de seres humanos. Poderíamos ir além: que tal as fábricas de brinquedos lançarem uma linha de bonecos com deficiências visuais? “Zágari, para, tá ficando doido?!”. Bem… pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que existem no planeta cerca de 75 milhões de pessoas cegas e mais de 225 milhões de portadores de baixa visão, isto é, incapazes de desempenhar grande número de tarefas cotidianas devido à deficiência visual. E poderíamos seguir adiante, mostrando como a população da terra é composta por pessoas cheias de deficiências, disfunções e problemas. Eu mesmo sofro de fibromialgia, síndrome que, acredita-se, afeta 5% da população mundial – nada menos de 350 milhões de pessoas, quase o dobro do número de habitantes do Brasil.

O que isso mostra? Que dos 7 bilhões de habitantes dessa esfera flutuante em que vivemos, a maioria tem algo que as torna “imperfeitas”. No entanto, as bonecas são todas perfeitas. Barbie não tem uma única celulite, imagino que nem mau hálito deva ter. Ken, seu companheiro apolíneo, tem os dentes brancos, sem tártaro algum, não sofre de dores nas costas e imaginá-lo calvo seria uma heresia. A Giulia, uma boneca quase anatomicamente perfeita de uma neném, é loirinha, com olhos azuis, rechonchudinha e nunca experimentou desidratação, diarreia, viroses ou alergias. Que dizer, então, da Branca de Neve, essa musa morena das passarelas, que desconhece o que seja miopia, hérnia de disco, obesidade, intolerância a lactose ou lúpus. Bonecas são perfeitas: essa é a constatação e ponto final.

A pergunta é: por quê?

masks 1Por que quando o ser humano tem a possibilidade de brincar de Deus e fabricar à sua imagem e semelhança pequenos seres humanos de plástico, látex, pano e borracha, escolhe fabricar logo indivíduos sem nenhuma falha, incólumes, esplendorosos, algo como Adão e Eva antes da Queda? A resposta é simples: não gostamos de nossas imperfeições. Bem… até aí tudo bem, eu não gosto mesmo dos pecados que cometo, assim como o apóstolo Paulo também reconheceu que fazia o mal que não queria e não ficava nada feliz por isso. Mas a coisa vai além de “não gostar”: nós buscamos sempre esconder as nossas imperfeições. E esse é o xis da questão.

Eu e você apreciamos nos apresentar da melhor forma possível. Ressaltamos nossas qualidades e tentamos esconder do mundo nossos erros e fraquezas. Recentemente andou rolando pelas redes sociais uma corrente de mulheres que se desafiavam a publicar fotos sem “make” (maquiagem), como se isso fosse uma tarefa terrivelmente desafiadora. Ou seja: mostrar que elas são quem são foi considerado um desafio, uma ousadia, uma quebra de paradigma. Que percepção interessante! Fato: escondemos ao máximo quem na realidade somos. Não confessamos que soltamos pum, tiramos meleca e cheiramos mal sem a ajuda de produtos químicos como perfumes e desodorantes. A humanidade busca sempre ocultar o que tem de pior.

E até aqui só falei de questões físicas. Mas, para o evangelho, o que mais importa não é o corpo, é o coração.

maks 2O ponto é que Cristo nos desafia a sermos transparentes, sinceros, honestos. A abrirmos o peito e confessarmos a Deus o que há de mais negro, pútrido e fétido em nossa alma, em nossos pensamentos e atos, em nossas palavras e omissões. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13). Sim, Deus nos chama para a absoluta transparência. Se tentarmos esconder quem somos, estaremos incorrendo naquilo que Cristo criticou nos fariseus: hipocrisia. Falsidade. A tentativa de nos apresentarmos como super-humanos, algo que jamais seremos; é mentira, pura e simples.

Reconheçamos nossas falibilidades, meu irmão, minha irmã. Esse é o único caminho para o perdão e a restauração. E, além disso, não fingir uma aparente ultrassantidade serve de exemplo para os que nos cercam, que se tornarão mais honestos consigo mesmos e com os demais. Por que fingir ser quem você não é? Por que se fazer de mais santo do que de fato é? Seja quem sua alma é e não quem você deseja que o mundo veja que você é. Pois a proposta de viver de máscaras nos remete ao pensamento do filósofo Maquiavel em sua obra clássica O Príncipe: “O importante não é quem você é, mas quem os outros pensam que você é”. O que, do ponto de vista bíblico, é o oposto do que Jesus deseja.

cruzPermita-me fazer uma pergunta: se você fosse fazer um boneco de si mesmo, como ele seria? O meu teria barriga grande, pele oleosa, fibromialgia, pé cavo, cabelos brancos nascendo em profusão, pernas arqueadas; isso só para falar do exterior. Se fabricassem bonecos que se pudesse apertar um botão nas costas e ele revelasse o que vai dentro do coração, o meu seria chato, egoísta, pedante, mau, depravado… um ser humano completo, típico espécime da era pós-adâmica. Meu irmão, minha irmã, somente o reconhecimento diante de Deus de quem nós verdadeiramente somos faz de nós cristãos autênticos, do tipo que não tem coragem de olhar para o céu, mas que bate no peito e diz: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador…” (Lc 18.13). Encare de frente quem você é. Assuma suas falhas. Pois, se o fizer, terá dado o primeiro passo para que Deus enxergue além delas e veja não as suas sombras, mas a luz do Cordeiro. Jesus tomou sobre si, na cruz, toda a sua maldade. E, se, em vez de escondê-la, você a reconhecer, confessar e lançá-la sobre essa mesma cruz… as portas da graça estarão abertas para você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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post apenasFui convidado a pregar em uma igreja, no Rio de Janeiro, onde compartilhei uma mensagem acerca da urgência de perdoar e se perdoar, como venho fazendo em muitas igrejas desde o lançamento do meu livro “Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar”. Ao final do culto, estava planejado um momento para confraternizar com os irmãos e escrever dedicatórias a quem tivesse adquirido a obra na livraria do local. E assim aconteceu: ministrei a palavra, o culto terminou e me sentei a uma mesa, onde haviam posto exemplares do livro. Ela ficava localizada junto a uma janela que dava para a rua. Foi quando tive a experiência que me levou a esta reflexão. Eu estava trocando ideias com os irmãos e escrevendo dedicatórias nos livros quando reparei em uma senhora que estava parada na calçada, debaixo de chuva fina, do lado de fora da igreja. Ela me chamou especial atenção pelo seu jeito: solitária, séria, meio deslocada, olhando atenta para dentro do prédio, com uma atitude nitidamente diferente da dos irmãos e irmãs que conversavam animadamente à porta… algo nela captou meu olhar. Na foto que abre este post você pode vê-la, de óculos, atrás de uma esquadria preta da janela. Senti um impulso muito forte de conversar com aquela senhora, por isso levantei-me da mesa, pedi licença aos manos que estavam ao meu redor e caminhei para a rua. Parei ao lado dela e comecei a puxar papo.

Assim que ela falou a primeira palavra, notei de cara que estava bastante alcoolizada. O cheiro de cerveja era bem forte e sua fala estava arrastada, com palavras mal articuladas. Ainda assim, consegui entabular uma conversa. Comecei perguntando seu nome [que manterei em sigilo, vou chamá-la apenas de Maria]. Eu, então, me apresentei e indaguei se ela tinha acompanhado o culto, mesmo ali da rua. Ela me respondeu que estava no bar que fica exatamente ao lado da igreja, imersa em cerveja, quando começou a escutar a mensagem, o que a fez se levantar e ficar do lado de fora, mas sem coragem de atravessar a porta. Dali, não conseguia escutar muito bem a pregação. Que pena. Perguntei por que ela não tinha entrado e Maria respondeu que “não se sentia digna” de entrar no santuário. A meu pedido, aquela senhora passou a me relatar sua vida. Ela tinha sido membro justamente de uma das igrejas da denominação em que congrego. Por desavenças com pessoas da igreja e conflitos dentro da congregação que frequentava, acabou se afastando da comunidade de fé, desistindo de ir aos cultos e  se entregando a uma vida de pecados. Em resumo, ela tornou-se a típica “desviada”.

Confesso que meu coração sangrou ao ouvir sua história. Vi aquela preciosa vida ali, entregue às futilidades da existência, machucada por filhos de Deus, ouvindo o chamado do Pai, mas… sentindo-se indigna de entrar no santuário. Comecei, então, a lhe falar do amor de Cristo e da paz que só ele pode dar, do perdão e de tudo o que a entrega de uma vida a Deus realiza. Ela escutou atentamente. Ao final, perguntei se não gostaria de restabelecer os vínculos com Jesus, mas ela deu uma resposta que é muito comum ouvirmos:

– Primeiro eu preciso ficar limpinha… minha vida tá toda errada…  eu estou imunda…

sujeiraAquelas palavras foram como um soco no meu estômago. Tentei argumentar, explicando que Deus é quem limpa e purifica, mas ela fincou pé. Por saber que não é o homem quem convence do pecado, da justiça e do juízo, mas o Espírito Santo, perguntei, então, se não gostaria que orasse por ela. Mas Maria mostrou-se refratária. Parecia que estava se sentindo tão suja na alma que qualquer coisa relacionada à pureza divina a fazia se sentir indigna. Diante de sua recusa, compartilhei algumas palavras mais sobre Cristo e terminei dizendo que ele a estava esperando de braços abertos, independente de ela não estar “limpinha”. Ao me despedir, ela olhou fundo em meus olhos e segurou minha mão. Não disse palavra alguma. Apenas ficou ali, me olhando por longos segundos. Depois virou-se e foi sentar-se à mesa do bar. Eu retornei para a igreja e continuei com as dedicatórias nos livros.

Quando chegou a hora de ir embora, minha esposa foi pegar-me de carro. Abracei os irmãos e entrei no banco do carona. Foi quando olhei para o bar e vi que Maria permanecia sentada e olhava para mim pela janela do veículo com um olhar fixo. Partimos e fomos embora, mas notei que aquele par de olhos me seguiu enquanto o automóvel se afastava. Eu sei que, na verdade, aquela senhora não estava olhando para mim, mas para o que eu representei naquela noite: palavras de pureza, em Cristo.

sujeira 2Maria é uma em meio a uma incontável multidão. Você encontra milhões de marias pelas ruas, pelos shoppings, na escola, na faculdade, no trabalho, na sua família. Maria convive conosco, diariamente, e, muitas vezes, não a enxergamos. É invisível à nossa insensibilidade espiritual. Em todo o planeta há pessoas que se encontram distantes de Cristo e, por isso, buscam paz e felicidade em montes de coisas que não preenchem. Mortos na putrefação dos delitos e na imundice do pecado, sabem que precisam de algo, que não entendem bem o que seja; algo que sopre vida em suas almas e encha seus lábios mortos de sorrisos de alegria. Algo que as purifique e as faça ficar “limpinhas”. Nós sabemos que esse algo, na verdade, é alguém. E que ele não espera que vão ao seu encontro pessoas “limpinhas”: quem ele mais busca abraçar são as imundas.

Maria não quis o abraço de Cristo aquela noite. Eu fiz o meu papel: proclamei a salvação, a paz, o caminho, a verdade, a vida. Ela não quis receber nada daquilo naquele momento, embora estivesse absurdamente sedenta de tudo o que lhe apresentei. Sua alma, suja e malcheirosa pelo pecado, berrava, clamando por socorro, limpeza e purificação. No entanto, o sentimento de inadequação foi mais forte. Isso ocorre muito e é um alerta para nós: precisamos mostrar aos filhos pródigos que a casa do pai não os aguarda com castigos e recriminação, mas com festa, um anel no dedo e roupas novas e limpas. Temos de incluir em nossa proclamação das verdades sagradas que o evangelho é para os bêbados, os depravados, os assassinos, os ladrões, os corruptos, os indignos. Cristo não busca os purificados; ele purifica os que busca.

Sabe… Jesus veio à terra acostumado à imundície. Um aspecto interessante do Natal é que, geralmente, ao vermos presépios, o que encontramos são representações de estrebarias como lugares bonitinhos, com uma estrelinha no topo e bichinhos fofinhos rodeando um menino Jesus limpinho. Só que não foi assim o primeiro Natal. Um bebê nasce sujo dos líquidos corporais da mãe. Para ser limpo, imagino que Jesus deva ter sido lavado com a água destinada a ser bebida pelos animais (que outra água há numa estrebaria?). E o ambiente não era nada fofo: se você já visitou estábulos em hotéis-fazenda ou outros lugares similares, sabe que cheiram mal, têm fedor de estrume, xixi de vaca e muitas moscas. Então entenda: Jesus veio ao mundo num local imundo, indigno, insalubre. Os primeiros cheiros que nosso Deus sentiu na vida terrena foram de excremento e urina de animais. Insetos devem ter pousado em seu rostinho com as patas salpicadas daquilo em que eles gostam de pousar. Meu irmão, minha irmã, Cristo sabe o que é sujeira. Ele viveu desde o nascimento em contato direto com a sujeira. Ele conhece o cheiro de podridão. E entende o que é o fedor da miséria humana.

sujeira 3A boa notícia é que, ao subir aos céus, Jesus ascendeu com um corpo glorificado, incólume, sem sujeira ou mancha alguma. Puro. Digno. Limpo. Em paz. E isso é um sinal para nós. Neste Natal, busque as marias que você conhece, do jeito que elas estiverem, sujas e malcheirosas pelo fedor do pecado, e diga-lhes que, se elas não se sentem “limpinhas”, Deus tem para elas uma glória maior do que tudo o que se pode supor e imaginar. O Pai tem para elas pureza. Dignidade. Limpeza. E paz.

Faça isso e o Natal ganhará um significado totalmente novo em sua vida. E, mais ainda, na das milhões de marias que estão por aí, apenas esperando que alguém como você as conduza à fonte purificadora da água da vida. “Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida” (Ap 22.17).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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