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IMG_2785Atrás do edifício em que moro há um grande condomínio. O que separa os dois é um precipício de cerca de sete andares de altura, que fica logo abaixo da janela do meu quarto, um vão enorme entre dois muros, que me lembra um pouco os antigos fossos dos castelos medievais (foto). Por ter um bosque e ser muito arborizado, o condomínio vizinho conta com uma fauna bastante rica, com pássaros, gambás, micos e gatos. Um gatinho escolheu como lugar de repouso um muro bem próximo de minha janela e, por isso, tornou-se conhecido da minha família. Chegamos a dar-lhe um apelido: Charlie. Recentemente, porém, Charlie nos surpreendeu: olhando para um vão que fica à beira do precipício, notei que o gato preto e branco aninhava em seu regaço três gatinhos. Sim, Charlie, para nossa surpresa, é uma fêmea. E, agora, mãe. Mas não foi esse aspecto que mais me chamou a atenção: confesso que o local que ela escolheu para dar à luz me preocupou muito, por ficar a centímetros do enorme abismo. Se um gatinho daqueles se arrastar uns vinte a trinta centímetros para o lado, mergulhará rumo à morte certa.

Infelizmente, não há nada que eu possa fazer, pois o local é inacessível. Fica junto à raiz de uma árvore, cravada na encosta do abismo. Tudo o que está ao meu alcance é orar e ficar observando, torcendo para que nenhum dos bichinhos perca a vida. Por isso, tenho passado alguns momentos, em diferentes dias, sentado junto à janela, observando como aquela família se comporta. Pois, se for o caso, me prontifiquei a chamar o corpo de bombeiros para remover os bichinhos para um local mais seguro.
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Tenho notado que há uma certa rotina nas ações da gata (que rebatizamos de Charlene, após descobrir que ele, na verdade, é ela). A esmagadora maioria do tempo, ela passa deitada, junto com os filhotes. Consigo ver que eles mamam bastante e ela fica ali, junto. Mas mamãe precisa se alimentar e, de vez em quando, sai do vão à beira do abismo para comer, beber e fazer qualquer outra coisa. Mas, enquanto pode, a gata fica junto de seus filhotes, protegendo, alimentando, cuidando, dando calor e aconchego. Há alguns dias choveu. E, mesmo assim, mamãe gato ficou ali, esquentando os filhotes com sua presença, totalmente encharcada, mas firme em seu papel de apoio, proteção e amparo.
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Houve um momento tenso: um dos três gatinhos começou a se arrastar e, pouco a pouco, foi se aproximando perigosamente da beira do abismo. Tive quase certeza de que ele cairia. De repente, Charlene se levantou, com bastante calma, foi até ele, segurou com a boca a pele da sua nuca e o carregou de volta ao local onde estavam deitados. Deitou-o cuidadosamente e voltou a se aninhar. Vi essa situação ocorrer, na verdade, duas vezes.
IMG_2771As horas em que mais fiquei nervoso foram aquelas em que a gata saiu do local e partiu para fazer qualquer outra coisa, deixando os três sozinhos. Eu sei onde Charlene se alimenta: os moradores de um prédio próximo deixam na calçada da rua um pote de ração e outro de água, a que ela e outros gatos da região sempre recorrem. Então, quando a mamãe sai, vejo que ela dispara em direção ao local de alimentação e desaparece por alguns minutos. Os filhotes ficam imóveis, o que me mostra que a gata só sai quando sabe que os três estão dormindo. Menos de dez minutos depois, ela reaparece e repete um mesmo ritual: segue até um telhado próximo, de onde consegue ver a cria, e anda para lá e para cá – acredito eu que para se exercitar um pouco, se alongar e se movimentar. Mas, assim que ela começa a ver movimento ou a ouvir o miado fraquinho de um deles, retorna à sua posição de mãe, aninhando os três em sua barriga e dando início a mais um longo período de permanência junto aos bebês (foto).
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Gostaria agora de fazer uma analogia entre essa situação e a vida de fé. Você provavelmente deve estar achando que vou comparar a gata a Deus e nós aos seus gatinhos, pois, afinal, a mamãe gato cuida dos filhinhos, certo? Na verdade, não. Embora seja natural enxergar o nosso Senhor em atitudes protetoras, minhas reflexões me levaram a ver muito mais outra pessoa no papel da gata: você.
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Deus não criou a Igreja como uma coletividade à toa. Porque seres que se isolam não encontram amparo em ninguém. O Senhor não idealizou uma comunidade de filhos solitários, ao estilo cada-um-por-si. Não. Ele deseja que cuidemos uns dos outros, segundo um princípio muito simples: “Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade” (Ec 4.9-12).
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Ninguém se basta, meu irmão, minha irmã; precisamos uns dos outros. A questão é que, em determinados momentos, uns precisam mais que outros. Hoje, eu preciso mais de você; amanhã, você precisa mais de mim. Nunca se sabe de que lado vai soprar o vento. Se estamos fracos, precisamos que alguém nos carregue para longe do abismo. Mas, quando vemos que o próximo é quem precisa de amparo, o nosso papel é entregar-nos em sacrifício de amor.
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Como filhos de Deus, que precisam amar o próximo como a si mesmos, precisamos aprender a sair do conforto, abrir mão de momentos de lazer, suportar chuva e frio ao lado dos irmãos. Não existe vida cristã sem compaixão. E “compaixão” é uma palavra que significa, exatamente, “sofrimento compartilhado”. Se você quer viver plenamente o evangelho, aprenda a compartilhar o sofrimento do próximo. A chorar com quem chora. A fazer o que Jesus fez: deixar por algum tempo seu conforto de lado por amor a quem precisa (Jo 3.16).
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Viver é uma atividade muito perigosa. A cada passo que damos, a cada curva do caminho, encontramos problemas: sofrimento, depressão, dor, medo, ansiedade, pânico, carência, solidão, desespero, falta de dinheiro, insegurança… Os minutos da existência são como instantes tensos à beira do abismo, sempre com o risco de perdermos o equilíbrio e mergulharmos rumo a um fim tenebroso e apavorante. Mas, se nos dispusermos a cuidar uns dos outros como uma gata cuida de seus filhotes, enfrentaremos tempestades, vento e frio à beira do precipício e vamos dar e receber calor, apoio, alimento, proteção.
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Alguém que você conhece está se arrastando cegamente em direção ao precipício? Não fique indiferente. Saia de seu conforto, vá até ele e o resgate. Traga-o de volta ao calor e à proteção da família, seja um agente de vida. Pois viver não é apenas não estar morto. Viver é ter sentimento de pertencimento, cuidado, carinho, afeto. Nesse sentido, seja um doador de vida.
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Os gatinhos desamparados precisam de você. Pois você é o instrumento que Deus pôs ao lado deles para zelar por sua jornada. Não espere que outros façam aquilo que está ao seu alcance. Se você for até a esquina, pode ser que, nesse meio-tempo, o gatinho caia no abismo. Não permita que isso ocorra: acolha-o enquanto ainda é tempo. E, se vier a chuva, molhe-se com ele, sem retroceder, sem dar as costas, porque, assim, você sentirá na pele o que o próximo está enfrentando. Não foi isso que Jesus fez ao tornar-se homem?
gatoTem um aspecto bonito nessa história, algo que ainda não mencionei. Charlene fica deitada à beira do precipício, mas seu companheiro, um gato branco e preto, fica constantemente  perto. Ele, em geral, permanece deitado no telhado de uma casa ao lado, sempre rondando (foto). Quando a mãe sai para se alimentar, ele fica vigiando a prole. Não sei dizer o que aconteceria se um dos filhotes aproveitasse a ausência da mãe para se dirigir ao abismo, pois isso não ocorreu até agora. Mas tenho a firme impressão que o pai vigilante correria e impediria que o gatinho perecesse. Deus nos delegou a atribuição de cuidarmos uns dos outros. Delegou a você essa tarefa. Mas pode ter certeza de que ele está constantemente atento, sempre por perto, mesmo que você não perceba. E, na hora em que as ameaças surgem, mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita, mas ele sempre sairá em socorro de seus filhos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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É difícil abordar certos assuntos sem parecer piegas. Então correrei esse risco para falar de algo menosprezado por muitos mas que considero fundamental: o abraço. E entenda que quando falo sobre o abraço não estou somente me referindo ao gesto físico de abraçar em si, mas, metaforicamente, a algo muito maior: a demonstração de amor e afeto pelo próximo. Uma demonstração que pode salvar vidas. E sem a qual nossa fé simplesmente não é cristã. Pois dispensar amor ao outro é parte tão indissociável do Evangelho como viver a fé em comunidade, prestar culto a Deus, estudar a Bíblia e orar. É impossível glorificar o Senhor sem dar-se pelo próximo. Biblicamente impossível.

Quando faltava pouco tempo para minha filha nascer fiz um curso de primeiros-socorros para pais de primeira viagem. A professora, uma enfermeira, contou uma história cuja fonte ignoro e os detalhes me fogem agora à memória. Mas basicamente era o relato de uma experiência de um dos reis franceses pré-Revolução que decidiu estudar o que acontece com as pessoas quando há falta do contato humano. Pelo que me lembro da história, ele mandou recolher ao palácio um grupo de órfãos recém-nascidos, que não deveriam ser tocados por ninguém. Para as necessidades essenciais, as amas que cuidavam dos bebês deveriam usar luvas grossas. No restante do tempo eles viveriam isolados. O resultado é que em pouco tempo, mesmo bem alimentadas e medicadas, todas as crianças morreram. Em suma: sem afeto o indivíduo definha.

É por isso que o trabalho de grupos como os Doutores da Alegria é essencial. O carinho pode ajudar muito na recuperação de doentes. Sabe-se cientificamente que afeto levanta as defesas imunológicas. Não é à toa que os hospitais têm leito para acompanhantes e horário de visita. Repare que pessoas que vivem em isolamento acabam loucas. Precisamos uns dos outros. Ninguém basta a si mesmo. Contato humano é gênero de primeira necessidade: carinho é alimento e amor é ar.

Leia, por favor, devagar e com muita atenção essa conhecida passagem, que você já leu muitas vezes. Mas tente ler como se fosse a primeira: “Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me. E eles lhe perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso e não te assistimos? Então, lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer. E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna” (Mt 25.41-46).

Pense: não é interessante que Jesus tenha posto comida e bebida no exato mesmo patamar que dar acolhida a um forasteiro solitário, socorro ao que passa vergonha por sua nudez, carinho e preocupação por quem está isolado ou dedicação ao que vive uma situação de carência emocional devido à saúde debilitada? Será que foi à toa?

O mesmo ocorre quando o Senhor define qual é a religião verdadeira: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tg 1.27)? Será por acaso que “guardar-se incontaminado” é posto no mesmo nível que atitudes que têm por finalidade compartilhar amor, oferecer presença, presentear com solidariedade? Não, para Deus não existe nada por acaso. Contaminar-se com o mundo e não dispensar amor a quem precisa são pecados do exato mesmo nível, como o contexto e a boa hermenêutica deixam claro. A conjunção “e” indica soma: uma coisa mais outra coisa, atreladas e inseparáveis. Desamparar quem está vivendo qualquer tipo de necessidade emocional ou espiritual em nome da obediência a Deus é, portanto, uma enorme incoerência do ponto de vista bíblico. É como engolir areia para matar a sede. E preste muita atenção ao detalhe: “…para com o nosso Deus e Pai”. Mais uma vez as Escrituras mostram que abraçar almas em necessidade é abraçar Deus. Em linguagem bíblica: glorificá-lo.

Assim, a religião verdadeira e a demonstração de amor a Cristo estão intimamente ligadas à entrega de si pelo próximo. E não estou falando de ação social, luta de classes ou envolvimento institucional da igreja em causas de caridade. Mas à devoção individual e pessoal em forma de conforto e carinho. A gestos feitos por pura preocupação com o bem-estar alheio, seja o carente uma pessoa pobre ou rica. Ao mais autêntico amor desinteressado. Quer glorificar Deus, meu irmão, minha irmã? Ame o próximo. Demonstre afeto. Dedique seu tempo ao outro. Cuide. Nutra. Ampare. Solidarize-se. Esteja junto. Viva a dor dele. Viva a nudez dele. Viva a fome e a sede dele. Viva as perdas dele. Viva as cadeias dele. Viva a solidão e o pavor dele. Sinta o outro na sua pele. Na melhor metáfora: abrace.

É pelo entendimento dessa verdade tão simples e tão óbvia, mas ao mesmo tempo tão esquecida, que me entristeço tanto quando vejo cristãos agressivos. Ou sacerdotes que batem na mesa e ofendem a granel. Ou cristãos egoístas. Ou, ainda, irmãos que não ofertam seu amor. Não consigo entender um pastor que não visita suas ovelhas no hospital, que não telefona para saber como os membros da igreja que Deus lhe confiou estão. Não consigo conceber como alguém que prega a graça larga pessoas pra lá e vai viver sua vida. Não consigo conceber cristãos que sabem que o irmão está no vale da sombra da morte, triste, deprimimido e abatido, e não fazem absolutamente nada. Simplesmente não entendo.

Fala-se muito de cristãos que pecam, e com razão. Temos de fugir do pecado e não há o que discutir sobre isso. Mas fala-se pouco ou quase nada sobre cristãos que pecam por não amar o próximo. É um pecado invisível. E tenho a firme convicção de que há mais cristãos que não amam seus semelhantes do que cristãos que adulteram, fumam ou bebem álcool. Mas quem se importa, não é? Desobedecer o primeiro mandamento não escandaliza ninguém.

A maior causa da crise que a Igreja vive atualmente e do nosso descrédito entre os não cristãos é a falta de amor ao próximo. Muitos ficam chateados quando livros como “Feridos em nome de Deus”, de Marília Camargo (editora Mundo Cristão), expõem o desamor que existe entre nós, achamos que “roupa suja se lava em casa”. Mas… o que está ali não é a pura verdade? Não é o que ocorre? Tenhamos peito para assumir. E mais peito ainda para começar a amar de fato e não só de palavra. Pedro, tu me amas? Então cuida dos meus. Você ama a Cristo? Cuide.

Deus amou entregando o próprio Filho. Mas nós não queremos amar, pois custa. Amar é arriscado. Pois para amar temos de abdicar do tempo que teríamos para nós, de perdoar quem nos feriu, de abraçar pessoas que cheiram mal, de nos misturar com o diferente, de correr riscos pelo outro, de diminuir para que o outro cresça. E quem quer fazer isso? É mais confortável cuidar só de si e, no máximo, da família. O outro não tem nada a ver comigo. É muito triste perceber que há gente que pensa assim. Pior ainda é ver quem age segundo esse pensamento. Que triste. Que triste.

Deus amou entregando o próprio Filho. E você, que perda é capaz de sofrer para demonstrar amor? Que risco está disposto a correr para amar o próximo? Quão fundo afundaria o pé na lama pelo outro? O quanto de si você tem peito de entregar em solidariedade por quem sofre, por quem te ofendeu, por quem pecou, por quem não merece? As respostas a essas perguntas podem mostrar que tipo de cristão você é: um agente da graça, da misericórdia e do amor ou um servo do legalismo, dos lugares-comuns e do egoísmo.

Ofereça afeto. Dê carinho. Doe presença. Oferte seu tempo. Ame. Ou, em outras palavras: seja um cristão. Isso é glorificar Deus mais do que qualquer outra coisa – está lá, na Bíblia, para quem quiser ver. E Jesus agradece. Pela comida, pela bebida, pela roupa, pela visita, pelo amor. Pelo abraço, enfim.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício.