Posts com Tag ‘amabilidade’

Deus nos poda diariamente. E, quanto mais eu vivo, mais percebo que a principal maneira de ele fazer isso é no campo dos relacionamentos humanos.

Peço para amar mais, ele insere em meu caminho pessoas que me fazem querer destilar cada gota de ódio, egoísmo e indiferença.

Peço para ter mais alegria, ele me põe em contato com gente que me entristece e deprime ferozmente.

Peço paz, ele põe em minha jornada pessoas que tornam as pequenas coisas da vida uma enorme tribulação.

Peço paciência, ele me faz conviver com gente insuportável.

Peço amabilidade, ele me junta com pessoas estúpidas, grosseiras e arrogantes.

Peço bondade, ele me faz conhecer maus que prosperam e se alegram.

Peço fidelidade, ele me permite conviver com quem provoque meus instintos mais pecadores e egoístas.

Peço mansidão, ele põe em meu caminho gente explosiva e briguenta.

Peço autocontrole, ele me faz viver situações que me instigam a deixar o velho e impulsivo homem assumir as rédeas da vida.

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Paro. Suspiro. Oro. Leio. E tento vencer aquele momento, pois basta a cada segundo o seu mal. O segundo seguinte virá e, muitas vezes, vencerei. Outras tantas, perderei. Mas é na equação entre perdas e ganhos que ele vai me podando.

Poda-me, Senhor, para que eu me torne aquele que, depois de aperfeiçoado, leve amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e autocontrole ao meu próximo, o bom e o mau. Ainda estou longe, muito longe disso, imerso neste oceano de imperfeição que sou, mas sigo na jornada.

Meu irmão, minha irmã, agradeça a Deus pelas piores pessoas que atravessam seu caminho. Pois elas são a maior bênção que você poderia receber no processo de fazer de você alguém cada dia mais diferente delas e mais parecido com o único que é totalmente perfeito: Jesus de Nazaré.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Mudei-me há pouco tempo para um apartamento novo. Na hora de decidir quem ficaria com que cômodo, reservei para minha mãe e minha filha os melhores quartos; por isso, eu e minha esposa acabamos ficando com o menor deles, que, confesso, me dava uma certa sensação de esmagamento: embora seja um cômodo grande, o teto é mais baixo do que estou acostumado. Para ter uma percepção de mais espaço, decidi, então, espelhar toda uma parede. Do teto ao chão, uma das quatro paredes virou um enorme espelho. Se, por um lado, foi uma decisão acertadíssima, por tornar muito mais agradável estar no cômodo, por outro acabou gerando um efeito imprevisto: fui obrigado a conviver diariamente com a imagem do que há de pior em mim.
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Em geral, quando temos espelhos comuns em casa, na hora de nos arrumarmos, nos esticamos para nos ver, fazemos nossa melhor pose e saímos da frente do espelho com nosso melhor sorriso. Ficamos felizes com o que vemos. Mas, quando toda uma parede do seu quarto é um enorme espelho, ele te flagra nos piores momentos e te pega de tocaia na hora em que você mais está despercebido. A consequência? Tenho me assustado com todas as imperfeições que meu espelho me revela.
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Acordo de manhã, abro os olhos e imediatamente vejo minha cara inchada e descabelada da noite de sono, sem falar das remelas e da barba por fazer. Saio do banho e o espelho imediatamente joga na minha cara como minha barriga está enorme, antiestética e desproporcional ao resto do corpo. Vou me vestir e o canto do olho me revela como minhas costas estão feias, com sinais, protuberâncias e demonstrações de que o tempo tem passado impiedosamente. Vou me deitar para dormir e percebo como a idade tem transformado a rigidez de minha pele em flacidez e decadência. Em resumo, o espelho em meu quarto tem denunciado o que há de mais imperfeito em mim.
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Quando o Salvador nos chama pela sua graça, por um lado, o conhecimento do evangelho traz luz ao que antes era sombras e amplia a nossa percepção da existência. Mas, por outro lado, a mensagem salvadora da cruz promove uma consequência inesperada: tal qual um enorme espelho que não pede licença, ela nos despe, denuncia, expõe, revela. A verdade das Escrituras traz à luz nossas desobediências e transgressões, nossa falibilidade e pecaminosidade. A luz ofuscante e santa do Calvário não espera decisões nossas para nos fazer ver cada uma das imperfeições. Não, ela age proativamente e nos põe em nosso devido lugar.
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As boas-novas de Cristo não têm como objetivo primário expor nossas pequenas desgraças. Elas não são um juiz sádico, que saliva de prazer ao nos apontar nossos erros. Porém, o evangelho tem esse efeito colateral inevitável. Assim que nossa inclinação para o mal é posta frente a frente com a luz reveladora da cruz, somos confrontados com a escuridão que ainda habita nossa alma e a podridão do antigo homem a que ainda teimamos em nos apegar.

O que essa percepção deve provocar? A denúncia de nós mesmos precisa ter como principal consequência nos tirar do imobilismo. Gosto demais do espelho em minha parede. Ele tem um efeito muito positivo em minha vida. Mas ele tem como desdobramento me dizer diariamente: “Olhe quem você é. Perceba quão distante da perfeição você está”. E, automaticamente, sou levado a querer fazer algo a respeito.
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O evangelho de Cristo é belíssimo. É um ambiente de graça, alegria, amor, pacificação, palavras edificantes, amabilidade. É luz, que embeleza e revela. Porém, é uma mensagem que nos cutuca e diz: “Arrependa-se! Faça algo a respeito! Alô!”. Leia as Escrituras. Medite nas palavras de Cristo. Abra-se para a admoestação do Espírito Santo, por meio de Paulo, Pedro, Tiago, João, Lucas e seus colegas autores canônicos. Não se contente em olhar para o espelho e ficar lamentando quão barrigudo você está. Pois o puro lamento não nos beneficia em nada.

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Desejo que a parede de espelhos que Cristo pôs diante de você o conduza ao ponto de olhar para o seu reflexo e apreciar o que vê. Nunca espere uma autoimagem perfeita, ninguém a tem. Mas é possível, sim, gostar do que enxerga. O  objetivo é chegar ao ponto de conseguir dizer: “Não sou um modelo de beleza, mas gosto de mim – em razão do que Cristo fez em mim”.
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Então abra-se à verdade do espelho. Veja o que precisa mudar… e dê o primeiro passo.
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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Arrow on red target - business conceptO novo ano chegou. Como é hábito de muitos, essa mudança simbólica de etapas pode ser uma ótima oportunidade para parar, pensar sobre a vida e repensar as prioridades. Eu gostaria de dar uma pequena contribuição a essa reflexão. Em 2016, muitos cristãos brasileiros tristemente perderam tempo, energias e saliva debatendo sobre aspectos periféricos e secundários da fé ou brigando com outros irmãos em Cristo por questões menos importantes do cristianismo. Minha sugestão, diante disso, é que voltemos a pensar sobre o que realmente é importante na fé cristã. Por isso, gostaria de propor reflexões a partir de pontos que considero serem alicerces da fé. Seguem, então, algumas sugestões acerca de atitudes que você poderia tomar neste momento de reflexões, reinícios e reformulações, a partir de algumas orientações bíblicas fundamentais. 

1. Você tem se arrependido de seus pecados e pedido perdão a Deus? “Se afirmamos que não temos pecados, enganamos a nós mesmos e não vivemos na verdade. Mas, se confessamos nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.8-9, NVT). Você tem pedido perdão pelas transgressões cometidas? Ou tem vivido dia após dia acumulando pecado não confessado sobre pecado não confessado, apresentando desculpa esfarrapada sobre desculpa esfarrapada para justificar práticas antibíblicas? É hora, como sempre é, de arrependimento, contrição e mudança de rumo.

2. Você tem obedecido ao maior dos mandamentos? “‘Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de toda a sua mente’. Este é o primeiro e o maior mandamento. O segundo é igualmente importante: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Toda a lei e todas as exigências dos profetas se baseiam nesses dois mandamentos” (Mt 22.37-40, NVT). Em tudo o que você faz, é o amor a Deus que pauta seus pensamentos, ações, palavras e omissões? Ou em 2016 sua prioridade foram dinheiro, aquisição de bens, viagens, programas de TV, o trabalho ou a igreja? Em que você pensa primeiro quando acorda? Em torno de que gira a sua vida? Em torno de Deus ou em torno de você próprio? E, ainda dentro desse maior mandamento, você tem amado ao próximo como a si mesmo? Em 2016, quanto amor você compartilhou? Que ações práticas fez em benefício das pessoas que não lhe deram absolutamente nenhum retorno? De que modo você se devotou ao próximo? Será que você tem se dedicado mais a debater com o próximo para provar que você é quem está certo do que a amá-lo? Cuidado com a autoidolatria.

3. Você tem cumprido a Grande Comissão? “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinem esses novos discípulos a obedecerem a todas as ordens que eu lhes dei” (Mt 28.19-20, NVT).  A quem você proclamou as boas-novas de Cristo em 2016? Quantas pessoas ganharam a vida eterna no ano que passou graças às suas iniciativas? Quantos seres humanos você discipulou no ano que passou? Se perceber que não fez discípulos, que não levou o evangelho a ninguém, que sua instrumentalidade para a salvação de vidas tem sido nula, o que pode fazer para reverter esse quadro em 2017? 

4. Você tem feito aos outros somente e exatamente aquilo que gostaria que eles fizessem a você? “Em todas as coisas façam aos outros o que vocês desejam que eles lhes façam. Essa é a essência de tudo que ensinam a lei e os profetas” (Mt 7.12, NVT). Este mandamento de Jesus é extraordinário, pois ele denuncia como vivemos longe de sua vontade. Você realmente só faz para as outras pessoas o que gostaria que elas lhe fizessem? Só fala a elas e sobre elas com isso em mente? Suas ações têm esse fundamento? Ou o importante é mesmo o que você quer e pronto? Como têm sido suas atitudes com seus parentes, amigos, colegas de trabalho ou estudo, irmãos em Cristo, pessoas que professam outras religiões? E na Internet? 

5. Você tem tratado quem se opõe a você com mansidão e visando ao bem dele ou com soberba, egocentrismo e sentimento de vingança? Quantos inimigos você amou em 2016? Quantos desafetos você perdoou? Como se relacionou com aqueles que o irritam, maldizem, atacam, denigrem? Como você tratou os hereges e os adversários teológicos? Com mansidão e graça ou com ódio e agressividade? O que você falou sobre aqueles que te ofenderam? Quantas orações em benefício deles você fez ao longo do ano? “Se seu inimigo estiver com fome, dê-lhe de comer; se estiver com sede, dê-lhe de beber. Ao fazer isso, amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”. Não deixem que o mal os vença, mas vençam o mal praticando o bem” (Rm 12.20-21, NVT). Você pretende continuar em 2017 a agir com os inimigos, os adversários e os discordantes como um bruto lida com seus desafetos? “O servo do Senhor não deve viver brigando, mas ser amável com todos, apto a ensinar e paciente. Instrua com mansidão aqueles que se opõem, na esperança de que Deus os leve ao arrependimento e, assim, conheçam a verdade” (2Tm 2.24-25, NVT).

6. Você tem manifestado virtudes do fruto do Espírito em sua vida? Como anda você na manifestação prática de “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.” (Gl 5.22-23, NVT)? Será que você amou tanto quanto poderia? Você disseminou alegria ou a nuvenzinha negra foi sua companheira inseparável? Você foi um pacificador ou alguém que instigou, incentivou ou participou de contendas e brigas? Você foi paciente ou não esperou Deus agir com a longanimidade que deveria? Você foi benigno, amável, bondoso, ou foi duro, egoísta, mau, briguento? Você demonstrou fidelidade ou sua fé foi pequena? Mansidão, então, é o calcanhar de Aquiles de muitos: você foi manso e humilde, falando sempre com palavras temperadas e de edificação, ou foi um guerreiro, um gladiador, um leão que mais ruge do que faz qualquer outra coisa? E domínio próprio, você foi autocontrolado ou se deixou escravizar pelo seu temperamento sanguíneo, seus impulsos pecaminosos, sua humanidade? E em 2017, o que precisa mudar com relação a essas virtudes?

7. Você tem promovido a paz ou as disputas, a raiva, a vingança, a humilhação, os ataques, a discórdia? “Felizes os que promovem a paz, pois serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9, NVT). Na ânsia por agradar a Deus, muitos acham que o caminho para isso é se igualar ao comportamento natural e carnal da humanidade caída. Que o padrão “João Batista” é a linha a ser adotada e que Deus nos incentiva a promover a guerra “em nome de Jesus” ou “em defesa do evangelho”. É triste e lamentável ver pessoas muitas vezes extremamente bem preparadas teologicamente se posicionando como promotores do ódio, deixando a força dos argumentos em segundo plano e optando pela pseudoforça da forma. Acham que bater na mesa é o padrão cristão. Não é. Seria esse o seu caso?

8. Você tem se achado o máximo? Como anda sua humildade? Tudo o que você é e tem foi Deus quem lhe deu. Você é inteligente? Mérito de Deus. Você é culto? Mérito de Deus. Você tem muitos diplomas? Mérito de Deus. Sua igreja é rica, grande e lotada? Mérito de Deus. Você tem muitos dons? Mérito de Deus. Muitas pessoas o elogiam? Mérito de Deus. Afinal, “Toda dádiva que é boa e perfeita vem do alto, do Pai que criou as luzes no céu…” (Tg 1.17, NVT). Se você empertiga o peito, estriba-se em sua sabedoria e sai desqualificando os demais, o alerta é sério: “Que aflição espera os que são sábios aos próprios olhos e pensam ter entendimento!” (Is 5.21, NVT). “Não sejam orgulhosos, mas tenham amizade com gente de condição humilde. E não pensem que sabem tudo” (Rm 12.16, NVT). O evangelho é claro e direto: quem tem muito deve agir com prudência com o muito que Deus lhe deu, sabendo lidar com delicadeza com os que não sabem nem têm tanto, visando ao amor e com muita graça. Ai de quem “se acha”. “Se vocês são sábios e inteligentes, demonstrem isso vivendo honradamente, realizando boas obras com a humildade que vem da sabedoria. Mas, se em seu coração há inveja amarga e ambição egoísta, não encubram a verdade com vanglórias e mentiras. Porque essas coisas não são a espécie de sabedoria que vem do alto; antes, são terrenas, mundanas e demoníacas. Pois onde há inveja e ambição egoísta, também há confusão e males de todo tipo” (Tg 3.13-16, NVT).

Essa lista poderia prosseguir por dezenas e dezenas de pontos. Mas acredito que somente esses oito já dão muito pano para manga. Fica a reflexão, caso ajude você a pensar sobre como tem vivido. Acredite: se decidir reavaliar suas prioridades em 2017 e mudar muito do que tem feito com relação a esses oito pontos, já será um monumental passo em sua caminhada de fé.

Espero ter ajudado. Agora… é com você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo e um feliz Natal,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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lingua 1“Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã” (Tg 1.26). Esse é um dos versículos mais assombrosos e amedrontantes da Bíblia. Ele decreta: de nada adianta viver cumprindo os preceitos da fé cristã se você não é capaz de controlar o que fala e a forma como fala. Ir ao culto, cantar louvores, orar, ler a Palavra, pregar, chorar de joelhos, postar reflexões sobre a vida cristã na internet, escrever livros cristãos… se você não tem domínio sobre o que fala e como fala, tudo isso é absolutamente vão, ou, como bem define o dicionário, “vazio, oco, inútil, sem valor, ilusório, sem fundamento real, fútil, frívolo, falso, ineficaz”.

Controlar a língua não é um assunto secundário, coisa de fofoquinha entre vizinhas que ficam olhando a vida alheia. É um tema muito mais profundo do que simplesmente fofoca, como alguns, equivocadamente, pensam. Saber controlar o que se fala e como se fala é uma questão de caráter. De amor ao próximo. De respeito. É interessante que o versículo citado no início deste texto vem logo depois da afirmação: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1.22). Alguém dizer que pratica a Palavra sem controlar o que fala e como fala faz de si somente um enganador.  E é importante frisar que, em dias como os nossos, o “falar” aqui também deve ser entendido como “postar”, “tuitar”, “compartilhar”, “comentar”, “teclar” e por aí vai.

agressivo 1Saber controlar a língua diz respeito, por exemplo, a falar com o próximo com carinho e gentileza. Um cristão que, por exemplo, entra em debates ácidos  pelas redes sociais ou em qualquer outro âmbito sobre assuntos teológicos e faz isso sem refrear a língua, tecendo comentários sarcásticos, sendo agressivo, tratando o próximo a quem deveria amar com estupidez (mesmo o inimigo)… nada mais é do que alguém cuja religião é vã. Grave, não é? Mas bíblico. E isso, por mais que supostamente tenha boas intenções e queira agradar a Deus. Em meu entendimento bíblico, quem faz isso não agrada a Deus, agrada somente ao próprio ego. Religioso. Vão. 

É claro que sempre teremos uma “boa desculpa” para usar a língua de forma pecaminosa. Diremos que estamos ofendendo e ironizando quem discorda de nós em nome da apologética, porque, afinal, “antes importa  agradar a Deus que aos homens”. Diremos que abrimos segredos que nos contaram para que “pudessem orar por fulano”. Inventamos mil histórias que tentam justificar nossa incapacidade de reter a língua. Desculpas, somente. Religião vã. 

agressivo 2Tenho ficado abatido com a forma como vejo cristãos discordarem de cristãos. Tenho ficado assombrado com a forma como cristãos discordam de não cristãos. Atacam. Agridem. Desprezam. Ironizam. Tiago 3 é um capitulo arrasador sobre o assunto. Descreve a pessoa perfeita: “Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo” (v. 2). A Palavra de Deus diz que com a língua “bendizemos ao Senhor e Pai; também, com ela, amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus” (v. 9). É exatamente o que vejo todos os dias entre os cristãos, embora Tiago seja claro: “Meus irmãos, não é conveniente que estas coisas sejam assim. Acaso, pode a fonte jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é amargoso?” (v. 10-11). E a nossa boca tem sido amarga demais. Demais.

agressivo 3Vejo frequentes debates entre certos “mestres da Palavra”, pastores, líderes, teólogos, blogueiros, vlogueiros, estudantes de teologia ou simples membros de igreja como eu e você serem recheados de espantoso descontrole da língua. E me abato quando comparo a arrogância teológica de muitos com o que diz a Bíblia: “Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. […]  Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento. Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz” (Tg 3.13-18). É claro: biblicamente, sabedoria e inteligência precisam ser acompanhadas, impreterivelmente, por mansidão. Qualquer tipo de sabedoria que não tenha paz, que não seja pura; que não seja pacífica, que não seja indulgente, que não seja tratável, que não seja plena de misericórdia e de bons frutos, que não seja imparcial, que não seja sem fingimento… é demoníaca. Mesmo se for usada “em nome de Jesus”.

Vejo nas palavras e na forma de falar de muitos cristãos, “mestres”, “apologetas”… aquilo que a Bíblia diz que é ruim. Misericórdia zero. Paz zero. E isso cansa. A Igreja de Jesus Cristo em grande parte diz que defende Jesus Cristo. Mas, ao fazê-lo de forma bruta e odiosa, só defende egos e o que há de pior no gênero humano. E faz a sociedade não cristã nos enxergar não como pacificadores e filhos do Deus de amor, mas como figuras abjetas e detestáveis. Que não cumprem o mandamento bíblico: “O seu falar seja sempre agradável e temperado com sal, para que saibam como responder a cada um” (Cl 4.6).

gentilFica a sugestão (enfática): aprenda a refrear sua língua. Não imite o comportamento de quem não refreia, mesmo que sejam pastores, líderes, celebridades cristãs, gente famosa da internet ou o que for. Fuja de “mestres” que usam palavras com fúria, mesmo que seja em nome da fé. Não deixe que sua religião se torne vã. Amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio: se aquilo que você diz e a forma como diz não vêm encharcados dessas virtudes, está na hora de repensar seriamente tudo aquilo que fala e escreve. E, quem sabe, recomeçar do zero.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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gentileza1Tenho uma tristeza em meu coração que cresce a cada dia, mas já falo sobre isso. Antes permita-me trazer à memória uma recordação de infância. Lembro-me de quando era criança e, no caminho para a escola, passava por baixo do agora demolido elevado da Perimetral, na região do cais do porto do Rio de Janeiro. Pela janela do ônibus eu constantemente via uma figura solitária, que estava sempre presente: um senhor idoso, de barbas grandes e roupas extravagantes, que escrevia palavras nas pilastras do enorme viaduto. Eu não sabia na época, mas aquele homem, chamado José Datrino, viria a ser conhecido como “Profeta Gentileza”. Não tenho como contar sua história neste post, mas se desejar saber mais sobre essa figura icônica do Rio dos anos 1980, pode ler mais AQUI. Enfim, o que chamava atenção nas suas inscrições era que ele escrevia muitas frases desconexas, mas uma expressão nunca faltava: “Gentileza gera gentileza”. Em meio aos seus devaneios, provavelmente aquele homem não sabia que estava dizendo uma verdade bíblica; verdade essa replicada em passagens como: “A resposta calma desvia a fúria, mas a palavra ríspida desperta a ira” (Pv 15.1); “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venhama ser filhos de seu Pai que está nos céus” (Mt 5.43-45); “Não retribuam mal com mal, nem insulto com insulto; ao contrário, bendigam; pois para isso vocês foram chamados, para receberem bênção por herança” (1Pe 3.9); “Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios” (Rm 12.10); “Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram. Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. Não sejam orgulhosos, mas estejam dispostos a associar-se a pessoas de posição inferior.Não sejam sábios aos seus próprios olhos.  Não retribuam a ninguém mal por mal” (Rm 12.15-17). “O seu falar seja sempre agradável e temperado comsal, para que saibam como responder a cada um” (Cl 4.6). E por aí vai. A tristeza que carrego em meu coração é por ver que a sociedade em que vivo está muito distante do ideal do Profeta Gentileza. Que, como vimos, reflete os ideais das Escrituras sagradas. E me refiro à sociedade como um todo: cristãos e não cristãos. Sinceramente, não sei o que está acontecendo ou como chegamos a esse ponto: vejo meus irmãos em Cristo refletirem uma agressividade difícil de compreender. É como se xingar, ofender e não perdoar tivessem se tornado virtudes do evangelho. Sei que já falei sobre este tema aqui no APENAS, mas a cada novo dia vejo tantas situações que me assombram quanto a isso que não tenho como deixar para lá. gentileza2Acabei de ler um livro que fala exatamente sobre esta questão: a importância da gentileza no trato com quem discorda de nós. Não posso dizer o nome do livro nem o autor, por haver questões éticas envolvidas, mas posso relatar que é uma obra que mostra como a forma que tratamos quem discorda de nós é tão ou mais importante do que os argumentos que apresentamos. Isso se aplica a qualquer circunstância da vida: evangelismo, discussão apologética ou no simples trato diário. A conclusão é simples e óbvia, mas parece que nos esquecemos disso, sabe-se lá por quê: se pregamos as verdades do evangelho com agressividade, ofensas, sarcasmo e outras formas horríveis de se comportar, nosso procedimento desqualifica aquilo que dizemos. Isso está errado, muito errado, e precisamos urgentemente resgatar a vivência da gentileza na nossa rotina. Devemos tratar quem diverge de nós com afeto. É indispensável que sejamos corteses e gentis com quem não acredita no que acreditamos ou mesmo com quem acredita mas comete erros. Temos de ser menos implacáveis. Caso contrário, nossas palavras serão cristãs, mas nosso comportamento será diabólico. Temos de ser mansos e humildes de coração. Temos de temperar nossas palavras com sal. Cristãos agressivos não são sal da terra e luz do mundo, são insossos e trevas. Desculpe ser tão incisivo, mas essa é verdade. Muitas vezes o mundo nos acusa de destilar ódio, e muitas vezes o mundo acerta ao afirmar isso, pois temos, sim, sido odiosos em muitas situações. gentileza3As últimas eleições revelaram o pior de nós. Fiquei estarrecido de ver como muitos cristãos se posicionaram nas redes sociais. Na verdade, fiquei envergonhado. Tive vontade de gritar: “Eu concordo com o que eles dizem mas discordo totalmente da forma como dizem! Esse temperamento explosivo e esse comportamento odioso não me representa!”. Recentemente, vi no facebook pessoas se referirem a uma cantora evangélica com adjetivos inacreditáveis pelo fato de ela ter cometido uma gafe durante uma pregação (detalhe: posteriormente, ela se retratou e pediu perdão). Li cristãos chamarem essa irmã em Cristo de “boçal”, “idiota” e outras coisas do gênero, sem perceber que estavam agindo de modo absolutamente anticristão na escolha de suas palavras e no ódio que transmitiam. E, se dos lábios sai o que está cheio o coração, o que esse tipo de verborragia revela sobre o nosso coração? Meu irmão, minha irmã, precisamos parar e refletir sobre como temos nos comportado, o que temos falado, como temos nos sentido com relação a quem discorda de nós. E isso em todas as arenas: político-partidária, doutrinária, teológica, pessoal, profissional, ministerial… não importa. Ou amamos de fato em nosso modo de nos relacionarmos ou para nada mais servirmos exceto para sermos jogados fora e pisados pelos homens. Não importa como os outros se comportam, importa como VOCÊ se comporta. Faça sua parte. Não conseguiremos mudar toda uma multidão raivosa, mas se você conseguir mudar a si mesmo, repensar como tem se posicionado e deixar a agressividade para viver a gentileza que gera gentileza… os céus se alegrarão e os anjos farão festa. Ser um cristão agressivo é uma contradição. Perceber o erro, arrepender-se e mudar de rumo é o evangelho em sua essência. O que você prefere ser, uma contradição mundana ou um exemplo do que o evangelho pode fazer? gentileza4Faça sua parte. Repense sua forma de falar e se relacionar. Se perceber que não tem sido tão gentil como Cristo seria, sugiro humildemente que procure se reinventar. Ore pelos que erram ao abraçar a agressividade achando que Deus se agrada disso. Compartilhe essa ideia, passe adiante esses valores. E que o Senhor nos ajude a sermos um corpo formado por membros amorosos, graciosos, compassivos, misericordiosos, pacíficos e pacificadores, amáveis, bondosos, com domínio próprio e mansos. Sejamos menos punhos cerrados e mais corações abertos. Sejamos cristãos. Paz a todos vocês que estão em Cristo, Maurício Zágari Perdaototal_Banner Blog Apenas

Futebol e religiãoA Copa do Mundo começou. Assisti a um excelente programa de televisão estrangeiro, em que o apresentador John Oliver analisa esse evento de forma coerente e divertida. Se você fala inglês, recomendo assistir ao vídeo inteiro, é muito bom (veja AQUI). O que mais me chamou a atenção foi a explicação que Oliver dá ao fato de que, apesar dos inúmeros absurdos envolvidos na realização desta Copa e dos descalabros praticados pela FIFA, ainda assim as pessoas estão empolgadas com a competição e ansiosas pelos jogos. Para ele, a razão é que “futebol é como uma religião”. Fiquei pensando sobre isso e gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre o assunto. O que leva alguém a comparar um simples esporte a algo tão sublime, transcendente e celestial como uma religião? (E entenda que me refiro a religião como o religare do homem com Deus e não a um sistema engessado de práticas e liturgias. Se desejar entender melhor essa diferença você pode ler este post).

Primeiro, porque a fé religiosa é algo que mexe com o mais íntimo de nosso ser, desperta paixões, produz debates acalorados. A religiosidade afeta tudo em nós: influencia nossos valores, pensamentos, ações; enfim, tudo aquilo que somos e fazemos. Isso é bem visível, também, no futebol: quem aprecia veste a camisa e a defende como a um manto sagrado. Por exemplo, é preciso muita paciência para lidar com torcedores que, toda segunda-feira, parece que não têm assunto além do jogo da véspera. Durante certo tempo, um vizinho invariavelmente encontrava comigo no elevador e engrenava uma conversa animadíssima sobre o mais recente desempenho do Flamengo. “E o mengão, hein, rapaz, que garfada!” E eu: “É… am-ham…”, com aquele sorriso amarelo no rosto e sem fazer ideia do que ele estava falando. No dia em que confessei a ele que não acompanho futebol e não assisto a jogos, nossos próximos encontros passaram a ser sempre silenciosos – parecia que, se não fosse para falar de bola, não havia assunto. Deixei de ser um bom papo para ele, uma vez que futebol era o que mexia com tudo à sua volta. E não foram poucas as vezes em que fiquei avulso em rodinhas de amigos amantes do esporte bretão, tão inteirado eu estava acerca do que eles falavam como uma girafa numa conversa sobre física quântica.

Brazilian attorney, Nelson Paviotti, poses with his two Volkswagen Beetles painted with the colors of the national flag in CampinasSegundo, porque futebol e religião criam fanáticos. Assisti a um vídeo recentemente de um advogado (foto) que fez a promessa, em 1994, de só se vestir de verde e amarelo pelo resto da vida caso a seleção brasileira fosse campeã. Dito e feito. Agora, ele promete só comer alimentos que tenham essas cores caso a seleção vença. Fiquei chocado. Mas o fanatismo está aí, e veio para ficar. É o crente que se torna um chato, por exemplo, por querer impor sua fé de qualquer modo aos não cristãos, sem compreender que quem converte é o Espírito Santo e não a nossa insistência. Fanatismo tem um quê de desequilíbrio. É diferente de ser radical. O radical é alguém equilibrado, que não negocia aquilo em que acredita por ter raízes muito bem fincadas no que crê; já o fanático é quem transborda sua fé de forma exuberante e, muitas vezes, excêntrica e, até mesmo, incômoda para quem está em volta. Radicalismo é elegante, fanatismo é extravagante. No futebol, o fanatismo por vezes torna-se assustador. Da última vez que fui ao Maracanã, para acompanhar parentes que moram no exterior, tive de sair com minha filha pequena das cadeiras e ir passear perto das lanchonetes, de tão assustada que ela ficou com os gritos, os gestos agressivos e os palavrões berrados pelos fanáticos que nos rodeavam.

EstatuaTerceiro, porque futebol e religião têm a capacidade de conduzir pessoas desequilibradas a um passo além do fanatismo, que é a intolerância. Você pode ser fanático por algo sem que isso te torne alguém agressivo a quem pensa diferente de você. Há o que poderíamos chamar de “fanáticos do bem”, ou seja, aqueles que são extremamente emotivos quanto ao que amam, mas que não fazem mal a quem pensa diferente de si. Já os intolerantes são os “fanáticos do mal”. Muitos se tornam irracionais, como os vândalos que recentemente quebraram e urinaram em uma estátua da Virgem Maria, um absurdo fruto de ignorância e da falta de entendimento acerca do que é o evangelho da graça e da paz. No futebol, isso também é assim. Torcedores espancam e matam seres humanos que torcem para outro time simplesmente porque… bem, porque torcem para outro time. A intolerância leva pessoas a agredir outras somente porque se enganaram e entraram com a camisa do outro time no meio da torcida organizada, assim como leva cristãos desequilibrados a agredir homossexuais e espíritas. Em ambos os casos, a intolerância fere o princípio do amor e o da graça.

Há outros pontos que identificam futebol e religião, mas, para não me alongar demais, eu gostaria de tratar de um aspecto que, em vez de assemelhar o futebol à religião, os diferencia: a racionalidade. E acredito que foi nesse ponto que John Oliver se baseou em seu programa para fazer a comparação entre futebol e religião. Na visão dele (e na de muitos), tanto o esporte quanto as crenças religiosas seriam alimentados por irracionalidade. Só que isso não é verdade. Sem racionalidade, a fé cristã não é fé cristã.

BrasilO amor pelo futebol, em qualquer nível, é irracional. Seja você um saudável e comedido apreciador desse esporte ou um intolerante e agressivo torcedor, seu envolvimento com o time do seu coração não se dá de forma racional. Eu explico: você saberia racionalizar por que torce para este ou aquele time? Será que é porque ele é o melhor de todos? Bem, o campeão de hoje estará na segunda divisão amanhã, então o conceito de “melhor” é relativo. A verdade é que você torce para quem torce por razões emocionais e não racionais. Como alguém que se apaixona por um amor impossível, você se apaixonou por uma equipe e passou a torcer por ela sem que haja uma explicação lógica imediata – talvez tenha adotado como seu o time que era de seus pais, por exemplo, ou vai ver que gostou das cores da camisa na sua infância. Não se sabe exatamente o que leva alguém a escolher este ou aquele time para ser o seu. Se não fosse assim, eu não teria torcido para a seleção brasileira até 1994, quando a vi ser campeã pela primeira vez. Eu e você torcemos para o Brasil porque tem a ver com a nossa relação emocional com nossa pátria.

leitura biblicaNa religião, entretanto, se as decisões são irracionais, isso só vai gerar problemas – em todos os âmbitos. “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando boa consciência, de forma que os que falam maldosamente contra o bom procedimento de vocês, porque estão em Cristo, fiquem envergonhados de suas calúnias. É melhor sofrer por fazer o bem, se for da vontade de Deus, do que por fazer o mal” (1Pe 3.15-17). Repare: “razão da esperança”. Pedro está falando de racionalidade. A fé necessariamente tem de ter um componente racional. A sua conversão aconteceu no dia em que a graça de Deus se manifestou em sua vida e o Espírito Santo conduziu você a perceber, racionalmente, que o evangelho faz sentido. O teólogo Anselmo de Cantuária (1033-1109) apontou dois conceitos que se tornaram célebres na história do pensamento cristão: Credo ut intelligam (“creio para que possa entender”) e Fides quaerens intellectum (“a fé em busca de compreensão”). Com isso, Anselmo quis dizer que a tarefa da teologia é mostrar que crer é também pensar, ou seja, que não há uma oposição entre fé e reflexão intelectual (embora a fé tenha lugar de primazia). O que isso significa? Que não há como afastar a fé da racionalidade. Você crê porque Jesus e as boas-novas da salvação fazem sentido para você. Quando Paulo escreveu que “a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18), estava mostrando que o cristianismo não faz sentido para os que não são salvos, mas, para nós, é totalmente compreensível e nos soa até estranho que alguém não creia no que nós cremos.

Se passarmos a viver nossa fé de modo irracional, isso criará enormes distorções. Passaremos a acreditar em falsas doutrinas, adotaremos práticas bizarras em nossos cultos, agiremos de modo diferente do que a Bíblia nos orienta a agir, nos comportaremos de modo antibíblico com o próximo… são muitos os absurdos que podem ser praticados pela irracionalidade religiosa. Por isso, é extremamente necessário que nossa fé siga a lógica bíblica – pois fora da Bíblia a fé torna-se ilógica. E, se é ilógica, não é fé cristã. Muitos dizem que não há lógica em se ter fé, mas isso não é verdade. Há a lógica do mistério. Seguimos um Cristo que revelou seus mistérios até o limite que poderíamos compreender (observe que “compreender” exige racionalidade). Se assim não fosse, não poderíamos conhecer a vontade de Deus por meio de um livro. Pois leitura é um processo lógico e racional. Tudo o que propõe uma vida cristã baseada em pressupostos irracionais do ponto de vista bíblico… não é bíblico. Logo, não é cristianismo.

Amor ao proximoReligião e futebol têm, sim, muito em comum. Mas a nossa religião exige de nós um conhecimento bíblico que gera o equilíbrio. E esse equilíbrio vem mediante a prática do amor, da graça, da justiça, do perdão, da reconciliação e de muitas outras virtudes que o evangelho destaca. Por isso é tão importante estudarmos a Palavra. Se apenas vivermos a fé sem nos aprofundarmos em seu aspecto racional, acabaremos urinando em estátuas da Virgem Maria e nos tornando a “torcida organizada de Jesus”, que vive aquilo em que crê de forma ignorante, intolerante e irracional, espancando os diferentes e agredindo os que nos agridem. Se não vivenciarmos a fé racional, nos uniremos aos que tacam coquetéis molotov, paus e pedras nos que não concordam conosco. A História da Igreja mostra que esse é um caminho que leva para longe, muito longe, do único Caminho.

A Copa está começando. Vivamos este momento com amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5.22-23). Vivamos a alegria do jogo junto com a irritação por tudo o que a realização dessa competição gerou em termos negativos, mas vivamos racionalmente, controladamente, com equilíbrio, como seguidores de Jesus e à luz dos ensinamentos bíblicos. Porque não há nenhum outro modo de se conformar à imagem de Cristo neste momento que não seja agindo como Cristo agiria: buscando a justiça, mas com alegria.

Sejamos diferentes, como todo cristão deve ser. Curtamos a Copa do Mundo de futebol em paz. Não permitamos que nada nem ninguém nos tire neste momento do caminho da serenidade, da santidade, da graça e do amor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio