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Eles são muito perdoadores, perdoam com muita facilidade“. Essa frase é a última de um documentário a que assisti recentemente e que ficou ecoando em meus pensamentos por um longo tempo. O filme chama-se “Project Nim” e conta a história de um bebê chamado Nim, incapaz de falar, e que, com duas semanas de vida, foi entregue a uma família adotiva. Lá teve todo o carinho e, ensinado por professores, aprendeu a linguagem de sinais. Assim, passou a se comunicar. Com o tempo, Nim foi crescendo e se tornou agressivo, a ponto de ter de ser removido dessa casa e levado para uma instituição onde desenvolveu fortes laços afetivos com seus tutores/professores. Acabaram se tornando também grandes companheiros. Seu melhor amigo era um deles, um jovem hippie chamado Bob. Anos depois, a instituição em que Bob trabalhava e convivia com seu companheiro sofreu problemas financeiros, Nim teve de se mudar para outra instituição e lá viveu sem amigos, isolado, sem ter ninguém que conhecesse a linguagem de sinais, abandonado, solitário e triste. Tornou-se amargo. Não tinha com quem se comunicar. Dez anos depois, Bob decidiu visitá-lo. Sem esboçar nenhum rancor pela década de abandono e todo o sofrimento, Nim brincou com o amigo, bebeu refrigerante com ele e conversou na linguagem dos surdos. Foi nesse momento que Bob falou a frase que inicia este artigo.

Eles são muito perdoadores, perdoam com muita facilidade“. Em princípio, ao ler isso, eu poderia pensar que “eles” se refere a nós, cristãos. Afinal, somos o tipo de gente de quem mais se espera uma atitude perdoadora. Foi o que Jesus ensinou – mais do que isso, mandou. Há mais de 240 passagens só no Novo Testamento que falam sobre o tema (creia, eu pesquisei). A oração do Pai Nosso diz que devemos pedir ao Senhor que só nos perdoe na mesma medida em que perdoamos os nossos devedores (Mt 6.12). A Bíblia afirma que Jesus veio para o perdão dos pecados (Mc 2.17; Hb 1.3; 9.27,28; 10,12; Mt 1.21; Lc 19.11; 24.46,47) e que Ele é o Cordeiro sacrificado pelo perdão de muitos (Mt 26.28). Que devemos nos perdoar mutuamente, assim como Deus nos perdoou (Ef 4.30-32). Que quem não perdoa não será perdoado (Mt 18.35). Isso, aliás, é muito sério. Leia atentamente:

“E quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no, para que também o Pai celestial lhes perdoe os seus pecados. Mas se vocês não perdoarem, também o seu Pai que está no céu não perdoará os seus pecados.” (Mc 11.25,26)

Por tudo isso, o povo que se chama cristão, entre todos os grupos humanos, é quem mais deveria perdoar e de quem mais se espera essa atitude. Então é natural que se pensasse que Bob estava se referindo aos cristãos. Mas não. Bob estava se referindo a pessoas como Nim. Só que Nim não era uma pessoa. Era um chimpanzé.

O emocionante documentário mostra a vida desse primata que, em seus 26 anos de vida, foi transferido para diferentes lugares, viu praticamente todas as pessoas com quem desenvolveu vínculos afetivos sumirem de sua vida, chegou a ficar trancafiado por meses num laboratório onde se realizam testes em animais para o desenvolvimento de vacinas. De uma família com sete filhos, onde cresceu usando roupas humanas, brincando e cercado de afeto, Nim (foto) viveu ladeira abaixo, cada vez mais sem carinho, isolado, amargurado. Acabou só, numa jaula, sem ter com quem se comunicar. Mas, quando viu Bob, seu antigo companheiro que o havia deixado abandonado ali, à própria sorte, por dez anos, não revidou, não se vingou, não agrediu, não demonstrou rancor. Pelo contrário, foi amável, quis brincar, deu seu amor de graça. E Bob termina dizendo que chimpanzés são seres altamente perdoadores, que estendem perdão com uma enorme facilidade.

Confesso que senti vergonha da minha raça. Pois a raça humana – e falo de mim – tem uma capacidade monstruosa de não perdoar. Somos vingativos, rancorosos, maldosos, se alguém te arranca um olho você quer os dois dele. Queremos sangue! Perdoar para nós parece ser uma fraqueza. Só que ao agirmos assim simplesmente estamos sendo bem pouco cristãos.

Pensando bem, deixe-me refazer a frase: ao agirmos assim simplesmente não estamos sendo cristãos.

Dois dias antes de ver “Project Nim” tive o desprazer de assistir ao programa “Tabu”, no canal National Geographic, sobre bruxaria. Mostrava diversos bruxos, de diferentes linhas, e suas práticas. Impressionou-me em especial o caso de Rosa, uma colombiana que perdeu o homem que amava para outra mulher. Sua decisão diante dessa situação foi procurar um sacerdote de magia negra para destruir a vida da rival. Ela foi explícita em suas entrevistas, em que dizia que não ficaria feliz enquanto não visse a outra na pior. “Não vou sair por baixo, enquanto não acabar com ela não vou descansar”, afirmou. A equipe do programa teve autorização de filmar o ritual. Fiquei estarrecido. Enquanto criava no centro de um pentagrama com a ajuda do bruxo uma boneca (foto) que simbolizava a pobre mulher, cravava-lhe dezenas de alfinetes, a punha num caixão e jogava terra de cemitério e sangue de um cadáver em cima, Rosa pronunciava montes de maldições contra a vida da mulher, literalmente pedindo à “Santa Morte” que destruísse a vida dela. Em seus olhos via-se o prazer de fazer o mal a outro ser humano. Ao final, ela demonstrava nítida satisfação pelo que fizera. Chegou a comemorar. Agora sim podia dormir em paz: tinha praticado a mais diabólica vingança.

Não tive como não refletir  profundamente após assistir a esses dois documentários. De um lado estava Nim, o chimpanzé extremamente perdoador. Do outro, Rosa, o ser humano que tudo o que queria era se vingar. Fiquei me perguntando se admirava mais o macaco ou aquela criatura feita à imagem e semelhança de Deus. Tive de reconhecer que foi o animal quem ganhou meu respeito.

O que está acontecendo com a humanidade? Por que estamos assim? Onde está o exemplo dos cristãos no que tange ao perdão, algo basilar dentro de nossa fé e tão ausente da nossa prática? Será que estamos tão envolvidos com práticas de culto e ativismo eclesiástico que esquecemos da essência do Evangelho? Louvamos, levantamos as mãos, damos a paz do Senhor com nossa melhor cara de santo mas da porta da igreja para fora somos impiedosos e malignos? Será que entendemos direito o Evangelho?

Sugiro que você leia atentamente as duas passagens bíblicas que reproduzo a seguir. Pois, de tanto ler o mesmo trecho das Escrituras, muitas vezes as palavras passam despercebidas por nossos olhos e não ganham consequência em nossa vida. Isso é normal, acontece com todos nós. Mas em se tratando das Escrituras, temos de aprender a transformar o texto em vida. Então faço uma proposta: tente ler devagar, frase a frase, captando o sentido do que é dito com atenção, como se fosse a primeira vez que as estivesse lendo:

Em Lucas 6.27-38,  lemos palavras dos lábios de Jesus de Nazaré:

“Mas eu digo a vocês que estão me ouvindo: Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam,  abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam. Se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra. Se alguém lhe tirar a capa, não o impeça de tirar-lhe a túnica. Dê a todo o que lhe pedir, e se alguém tirar o que pertence a você, não lhe exija que o devolva.  Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles. 

Que mérito vocês terão, se amarem aos que os amam? Até os ‘pecadores’ amam aos que os amam.  E que mérito terão, se fizerem o bem àqueles que são bons para com vocês? Até os ‘pecadores’ agem assim.  (… )

Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso. Não julguem, e vocês não serão julgados. Não condenem, e não serão condenados. Perdoem, e serão perdoados. Dêem, e lhes será dado: uma boa medida, calcada, sacudida e transbordante será dada a vocês. Pois a medida que usarem, também será usada para medir vocês.

Nos últimos meses decidi reler o Novo Testamento, desta vez na Nova Versão Internacional. E confesso que, ao ler essa última frase, fiquei abalado. Pois tive uma compreensão inédita sobre ela que me atravessou como uma corrente de alta voltagem: no dia em que estivermos face a face com o Criador, seremos tratados por Ele da exata mesma forma com que tratamos o próximo. No contexto, isso fala de quanta misericórdia usamos, de como julgamos, se condenamos ou se perdoamos. É nada menos do que o “…e ao próximo como a mim mesmo”. Li, meditei e vi o quão distante estou do ideal de Cristo. E você?

Outra passagem que reforça essa e que tenho lido diariamente para tentar me lembrar sempre e viver conforme ela ensina é Romanos 12.14-21:

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem.  Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram. Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. (…)   Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: “Minha é a vingança; eu retribuirei”, diz o Senhor.  Pelo contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem.”

Retribuir o mal com o bem: essa é a vontade do Senhor para mim e para você. E esse é o termômetro que será usado no grande e terrível dia em que estaremos diante do trono do Altíssimo e teremos de prestar contas de tudo o que fizemos e dissemos. E, enquanto nos resta tempo, temos de decidir se vamos agir como chimpanzés ou como seres humanos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Certa vez ouvi de um servo de Deus que a igreja é um lugar muito perigoso. Pois a vida em comunhão nos expõe, nos desafia, nos convida a conviver com a contradição e a natureza humana de indivíduos que deveriam substituir essa natureza pela de Cristo. A cada dia que passa vejo mais e mais que essa é uma grande verdade. A possibilidade de que você será ferido, magoado ou humilhado de algum modo por congregar em uma família de fé é bem plausível, visto que estará convivendo e se abrindo para pecadores cheios de falhas – embora em busca de santificação. Postei há alguns meses aqui no APENAS uma reflexão sobre “O lugar mais importante na igreja“, em que, por meio de uma metáfora,  compartilho minha visão de que a segunda pessoa mais importante numa congregação depois de Jesus é o triste, o abatido, o deprimido, o humilhado, o abandonado, o desesperado, o indigno, o ferido. Fiquei espantadíssimo ao ver a quantidade enorme de irmãos que entraram em contato pelo espaço de comentários do blog para relatar experiências terríveis que viveram no ambiente eclesiástico e que sofreram os mais variados tipos de traumas. Ao todo, 48. Muito revelador e espantoso é que, em comum a todos menos três, havia o pedido de não publicar seu comentário. 45 pessoas! Sem que dissessem, ficou claro que tudo o que queriam – ou precisavam – era desabafar e não queriam se expor. Em outras palavras, inconscientemente querem permanecer invisíveis. O que essa constatação deve gerar em cada um de nós? Como devemos agir com relação a essas pessoas feridas?

Mais ainda: devemos parar de ir à igreja porque podemos acabar saindo dela com o coração dilacerado? A resposta é um grande não. E já veremos por quê.

Entre os comentários havia de tudo. O mais frequente é a decepção com os líderes ou outros membros. Sim, porque paredes e templos não ferem ninguém: quem fere são pessoas. Pastores que usaram de autoridade desmedida e humilharam ovelhas publicamente. Irmãos que discriminaram pela classe social e pela cor da pele. Pastores que não mantiveram o sigilo pastoral sobre pecados a eles confessados. Irmãos que usaram de artimanhas para tomar “cargos” de outros. Pastores que em vez de ajudar a pôr de pé os caídos esmagaram ainda mais o crânio de quem estava no chão. Irmãos que não demonstraram coração perdoador. Pastores que usaram o púlpito para fazer desde propaganda política a publicidade de revistas e DVDs. Irmãos que ignoram quem não conhecem e compartimentalizam a igreja em panelas. Pastores que agiram em causa própria e deixaram vidas humanas à própria sorte. Irmãos que não estenderam a mão quando mais se precisava de ajuda. Pastores que prometem o que Deus não promete. Irmãos que discriminam da “falta de fé” à forma de se vestir de outros e os consideram cristãos de segunda classe.

Em comum a todos os casos, o que ficou visível foi uma deficiência no amor ao próximo e a prevalência do interesse próprio.

E essas são só as causas mais frequentes que detectei entre os comentários. Há mais. A quantidade e a variedade de formas pelas quais é possível ferir alguém por estar inserido no ambiente de uma família de fé são muitas, algumas surpreendentes. E isso é um chamado à responsabilidade para todos nós. Não é à toa que usei como título deste post o mesmo do livro da jornalista Marília Camargo, publicado pela editora Mundo Cristão, que trata de desmandos cometidos por lideranças eclesiásticas. Pois esses problemas se multiplicam tanto que se tornaram visíveis para cada vez mais pessoas – cristãs ou não. E um ponto nevrálgico da questão é que deixar a comunhão dos santos não é a solução. Por diversas razões.

No que tange à liderança, nunca podemos nos esquecer que há muitos líderes que sabem cuidar de ovelhas, que as põem acima de si mesmos e que entendem que a vocação pela qual Deus os chamou é sobre Jesus e sobre o próximo e não sobre si mesmos (leia mais no post “A importância de um pastor“). Que não deixam a vaidade, a prepotência ou os projetos pessoais interferirem no cuidado e no amor pelos irmãos. São muitos e estão por aí, em igrejas de diferentes denominações, em diversas regiões do país, em bairros ricos e pobres. O ministério pastoral não entrou em colapso devido ao fato de que há os que não pastoreiam com compaixão e graça, com amor e carinho, com cuidado e zelo. Há sim os que usam o púlpito como emprego estável ou os que não entendem a profundidade do amor de Deus e por isso não o refletem em seu pastoreio, mas as maçãs podres ou contaminadas devem servir acima de tudo para nos lembrar que há maçãs maduras e que alimentam. E há muitas. Há muitos homens de Deus à frente de igrejas, é só ter paciência de procurar e pedir discernimento ao Senhor. Recusar ser bem pastoreado é recusar um maravilhoso presente que Deus nos dá.

Já no que tange à membresia, é preciso lembrarmos sempre do velho clichê (que é verdadeiro) de que a igreja não é um museu de santos, mas um hospital de pecadores. Todos, absolutamente todos os membros de uma igreja, são pecadores. Ninguém escapa. Pode ter certeza que o mais santo de todos tem no mínimo pensamentos horripilantes. Agostinho teve. John Wesley teve. Davi teve. Salomão teve. Paulo teve. Pedro teve. Eu, então, nem se fala. Só que isso, em vez de nos afastar da igreja, deve produzir em nós um sentimento de misericórdia, por saber que o próximo é tão pecador como nós e é tão passível de erro como eu e você. Há pessoas responsáveis por atividades importantes dentro de igrejas que cometem pecados cabeludos e, em vez de fugir delas, precisamos orar por elas para que sejam libertas, que alcancem o perdão e para que seus pecados não interfiram na missão que Deus lhes confiou. Sempre digo a quem está decepcionado com os irmãos que, se vemos alguém que julgamos ser um “mau cristão”, em vez de empurrá-lo para longe devemos nos aproximar para influenciá-lo positivamente. Pois é o que se encaixa na graça de Deus. Não o medo, mas a coragem.

No que tange a nós mesmos, precisamos lembrar que mesmo sendo a igreja uma assembleia de pessoas imperfeitas e potencialmente passíveis de nos machucar, é onde cultuamos a Deus em comunhão. É onde celebramos o memorial coletivo da Ceia do Senhor. É onde ouvimos pregações (sim, muitas vezes feitas por sacerdotes cheios de falhas) que vão nos edificar, consolar e exortar. É onde podemos encontrar aqueles que de outro modo não saberíamos que precisam de uma mão estendida. É aonde os perdidos tocados por Deus vão, em busca de algo a que a cruz na porta remete em termos espirituais. Já fui parar em um CTI por ter comido alimentos estragados em um restaurante. Mas não é por isso que vou deixar de ir a restaurantes, pois preciso me alimentar. O medo de comer em outro restaurante não é benéfico, pode me gerar inanição. Assim como o medo de ir a uma igreja porque nos decepcionaram em outra não provém de Deus. Se a igreja é um lugar perigoso, é um lugar para os corajosos. Um erro não justifica o outro.

Você já se decepcionou com um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. Só que o que o outro faz não depende de nós. O que temos poder para mudar é agir a partir de outra pergunta: você já decepcionou um líder e/ou um irmão da igreja? Eu sim. E se você, como eu, reconhecer que causou o mal a alguém, mesmo que tenha sido de modo involuntário, aí está diante de si a grade oportunidade de começar a mudar o que está ruim: procurando mudar ou pelo menos melhorar a si mesmo. Pois, no que eu mudo e me torno um cristão melhor, uma ovelha menos manchada para meu pastor e um irmão menos decepcionante para os membros da igreja, aí sim estou contribuindo com meu exemplo e minha atitude pessoal para que o Corpo como um todo seja aperfeiçoado.

Então, se fomos feridos na igreja, devemos começar por fazer uma análise de nós mesmos e ver em que pontos nós ferimos os outros. Eliminando esses pontos serviremos cada vez mais de exemplo. Quanto aos que nos feriram, a dor permanecerá pelo tempo que o luto durar e isso independe de nós.

Mas podemos perdoar.

Quantas vezes? Setenta vezes sete. Todas. Sempre. Repetidamente. E não perdoe só da boca para fora, porque isso é fácil para qualquer um fazer. Perdoe em atitude. Sendo bom para quem te feriu. Ajudando-o. Estendendo a ele benefícios. Auxiliando no que ele precisar. Orando a Deus por sua vida. Essas são as maneiras bíblicas de agir com quem nos machucou. Não importa como o outro se comporta, importa como você se comporta. Faça sua parte. Pense menos em si e mais em Cristo. Pois se cada um de nós pensar somente em si, da próxima vez que escrever um post sobre gente machucada na igreja não serão 48 pessoas contando suas histórias, mas 490.

A mudança começa em nós. Menos dedos apontados, mais lágrimas no travesseiro. E quando você conseguir ser alguém melhor, ajude os demais. A começar estendendo amor de forma prática a quem te fez mal. E aí haverá festa no Céu, porque você poderá estar sendo intrumento nas mãos de Deus para levar um pecador a se arrepender. Minha esperança é que para cada ferido “em nome de Deus” apareça um bom samaritano que venha a cuidar de suas feridas. E, isso sim, será verdadeiramente feito em nome do perdoador, misericordioso, amoroso e gracioso Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Cara1Estou escrevendo este post mais como um desabafo do que por qualquer outra razão. Se você conhece alguém que faz da sua vida um inferno vai me entender, pois há um irmão em Cristo que me atormenta e preciso botar para fora a minha ira – que é santa, naturalmente – senão parece que vou explodir. É muito duro para nós, que somos irrepreensíveis, aturar esse tipo de gente falível. Pode ser que a pessoa que você não suporte seja um vizinho que ponha músicas horríveis no maior volume sempre que você quer dormir. Ou um colega de trabalho que já fez todo tipo de fofoca contra você. Ou, ainda, uma irmã da igreja que te irrita, magoa ou toma atitudes contra sua paz. Pode ser, até mesmo, o seu chefe, quem sabe, ou o pastor que, em vez de zelar por tua alma, te oprime, subjuga, denigre e prejudica. E você odeia tudo de ruim que há nessa pessoa. Quer fazer parecer que não, pois, afinal, odiar não pega bem para um crente. Mas, lá no  fundo do seu coração, você sabe que odeia. Talvez não tão no fundo assim. Pois bem, há um cara que me tira do sério. Sou obrigado a conviver com ele por causa das circunstâncias da vida, mas ele é chato, pecador, egoísta, mesquinho e insuportável – tudo o que eu não sou. Por favor, permita-me desabafar com você, pois não tenho como fazer isso com um amigo em comum – senão poderia parecer que sou um fofoqueiro invejoso. E não pegaria bem para um bom crente como eu.

Não sei qual é o nível de relacionamento que você tem com seu desafeto. No meu caso, conheço esse fulano desde a infância. As primeiras lembranças que tenho dele são anteriores aos meus 3 anos de idade, pois morávamos na mesma rua. Dá pra imaginar o suplício que é essa convivência para um homem de 41 anos como eu? Anos e anos e anos suportando esse cidadão. Crescemos juntos e, por uma série de situações, que não vêm ao caso, fui obrigado a conviver com ele em muitas áreas de minha vida. Hoje, inclusive, ele calhou de frequentar a mesma igreja que eu – para meu azar e irritação.

Cara2Uma das coisas que mais me incomodam nele é que E. (permita-me chamá-lo apenas pela inicial, pois eu não sou o tipo de pecador que cita nomes) se faz passar por meu amigo, tem toda a aparência de crente mas é um tremendo pecador. Como o conheço há tanto tempo temos intimidade suficiente para eu saber coisas de sua vida que ninguém mais sabe. Ele me conta pensamentos terríveis e atos completamente reprováveis do ponto de vista bíblico. Às, vezes, confesso, chego a ter uma certa repulsa por E., tamanha é a sua pecaminosidade. E é duro para uma pessoa tão correta como eu aguentar isso. Mas, infelizmente, sou obrigado a conviver com ele, então não tenho para onde correr. Só que é insuportável ver o quão pecador esse cidadão é.

Eu me encontro com ele nos cultos. O vejo levantar as mãos no louvor, fazer aquela carinha de santo na hora da oração e ostentar seu jeito insuportável de cristão nota dez, quando eu sei quem ele é e as coisas horríveis que pensa e faz. Na verdade, eu o fico observando o culto inteiro e me enoja quando ele fica chorando, pedindo perdão por seus pecados, quando sei que ele vai sair da igreja e pecar de novo. E me sinto obrigado a pedir que Deus pese a mão sobre ele, pra ver se toma jeito. Miserável pecador…

Cara4Você conhece alguém tão ruim como esse cara? O que você faz com um indivíduo assim? Por favor, me diga como devo proceder. Às vezes, quando prego, confesso que já exortei muito pensando nele, pois sabia que ele estava ouvindo. Sabe quando você faz uma explanação que parece generalista mas tem endereço certo? Você pode até achar feio eu ter feito isso, mas confesso: eu fiz. Dei montes de indiretas para E. em muitas de minhas pregações, para ver se ele, de algum modo, era tocado por Deus e mudava. Não sei se adiantou, só o Senhor sabe, mas fiz a minha parte.

Pense em apenas alguns dos dez mandamentos. E. muitas e muitas vezes priorizou outras coisas no lugar de Deus.  Tomar o nome de Deus em vão é praticamente todo dia e Êxodo 20.7 diz que quem fizer isso o Senhor não terá por inocente. Preciso dizer mais? Então vamos lá: honrar pai e mãe? Coitados, lembro que, quando éramos crianças, ele dava um trabalhão. Hoje, que E. já é um homem feito, muitas vezes os decepciona. Eu vejo, ninguém me disse. “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”? Como negar as montanhas de vezes em que ele fez isso? “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo”? Tudo bem, admito, nunca o vi cobiçar o jumento de ninguém, de resto perdi a conta de quantas vezes o flagrei invejando o que não lhe pertencia. Cara, desculpe, mas E. tem tantos buracos em sua santidade que se eu te contasse tudo você diria que ele não presta. Às vezes é o que tenho vontade de dizer na cara dele.

Cara5Você tem algum E. na sua vida? Pense aí. Lembrou de alguém intragável, que parece só ter vindo ao mundo para te irritar, chatear, fazer chorar? É que realmente as circunstâncias não permitem, mas por mim eu mandava exilar E. no Tibete. Sinto vergonha dele. Tenho meu grupo de amigos na igreja que de fato são santos, como eu, e quando ele chega parece que contamina o ar. Aí não tem jeito, ele vira o assunto da noite. E o pior, sabe o que mais me tira do sério? Ele até fala uma ou outra coisa legal, por isso tem gente que o elogia, que o acha alguém especial. Desculpem, mas eu conheço bem esse cara, ele é bem comunzinho. Se duvidar, uns 95% dos elogios que ele recebe são imerecidos. E. precisa desesperadamente do perdão de Deus, pois tem muitas e muitas coisas a melhorar. Já falei isso a ele. Mas parece que na maioria das vezes o cidadão não me ouve!

Bem, acho que já desabafei o suficiente. Obrigado por me permitir botar pra fora minha irritação, mas não poderia falar essas coisas sobre ele na frente de conhecidos, senão pareceria que eu é que sou o pecador fofoqueiro e não esse cara. Eu odeio tudo o que E. tem de ruim. Odeio. Odeio sua pecaminosidade, o fato de ele fazer menos do que poderia pelo próximo, odeio quando não pede perdão pelos seus pecados, odeio suas fraquezas. Ele me tira do sério.

Mas… tem uma coisa.  Apesar de tudo isso, eu sei que Jesus o ama.

A despeito de seus defeitos, suas falhas, seus pecados, sua omissão, tudo, tudo, tudo o que faz de E. uma pessoa odiosa… Jesus o ama. Não entendo todo esse amor por um zero à esqCara6uerda como ele, asseguro que não entendo. Mas sei que isso tem um nome: graça. E. não vale nada, mas a graça o faz valer o mundo para Deus. Aos olhos do Senhor esse miserável vale mais do que todos os tesouros da terra. Foi por esse cidadão que o Cordeiro de Deus subiu à cruz, foi moído, rasgado, cuspido, ofendido, morto. E eu acredito que, porque a salvação é pela graça e não por mérito, um dia ele irá para o céu. Graça. Esse é o segredo. Essa é a explicação. Essa é a esperança. Essa é a certeza. Essa é a fé. Pois a graça não faz Deus ver toda a sujeira que E. carrega em si quando olha para ele. Quando o Pai fita seu olhar em E., o que ele enxerga é o Cordeiro que foi imolado por cada um dos seus pecados.

Conheço bem E. Ele habita dentro de mim. E., de Eu. Sim… o nome de E. é Maurício Zágari.

Obrigado, Senhor, por não me ver como eu sou, mas como Jesus é.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
E.

Ted1Para que o Verbo se fez carne? A Bíblia diz, entre outras coisas, que o Cristo veio para perdoar pecadores, resgatar almas, curar os doentes, dar esperança ao desesperançado, conceder paz ao aflito, compartilhar sua graça, buscar a ovelha desgarrada, cuidar dos desesperados, zelar por Sua noiva. Só que, infelizmente, em grande parte nós, seus embaixadores na terra, parece que nos esquecemos disso. Estou escrevendo este texto ainda sob o impacto de um documentário a que assisti, chamado “O Julgamento de Ted Haggard” – que, admito, emocionou-me profundamente. Pela inequívoca constatação de que uma grande parcela da Igreja evangélica está pecando gravemente na missão que Jesus nos confiou: a de cuidar, tratar e restaurar pecadores. Não afundá-los ainda mais na lama, mas conduzi-los ao Pai em reconciliação. Felizmente, a Igreja como um todo não é assim, é misericordiosa e amorosa. Mas, ao ver esse filme, o que se descortinou ante meus olhos foi uma parcela feia da igreja: uma igreja impiedosa, egoísta e deficiente em seus propósitos. Uma igreja descartável e sem nenhuma semelhança com o Reino de Deus. Em outras palavras: uma igreja que não serve para nada.

Confesso que o nome Ted Haggard me era familiar, mas eu não sabia nada da história desse pastor. Em resumo, ele era um famoso pregador nos Estados Unidos, do tipo que dá entrevistas na televisão, é recebido na Casa Branca e enche estádios com suas cruzadas. Fundou a New Life Church, em Colorado Springs, no estado do Colorado, uma congregação com mais de 14 mil membros. Até o dia em que veio a público a notícia explosiva: Pr. Haggard, um homem casado e pai de dois filhos adolescentes, teve um encontro  homossexual com um garoto de programa, que, para piorar, lhe vendeu drogas.

O que me deixou de queixo caído foi o que fizeram com ele. O homem foi excomungado (expulso) da igreja que fundou e os demais líderes da igreja simplesmente o proibiram de continuar vivendo no estado do Colorado. Isso mesmo: a igreja o baniu não só da congregação, mas do estado! Não ficou claro para mim como o fez, mas fez.

Isso me chocou porque sempre achei que, horizontalmente, uma igreja serve para tratar pecadores. Para acompanhá-los, acolhê-los, exortá-los, ministrar o Evangelho a eles e, como decorrência do seu amor cristão, pôr o caído novamente de pé – e, assim, conduzi-lo a Cristo. É o que as três parábolas de Lucas 15, por exemplo, me ensinam. A atitude correta e bíblica que a liderança da igreja deveria ter tido com Pr. Haggard? O afastado do cargo, tratado de sua alma como se faz com qualquer ovelha ferida, acompanhado e amparado sua família, mantido o suporte para não piorar sua situação e, quando ele estivesse restaurado e totalmente recuperado de seu pecado, o reinstituído na obra do Senhor. Mas o que a liderança da New Life Church fez com Haggard me lembrou muito mais a ditadura bolchevique de Stálin, que exilava seus desafetos na Sibéria para definhar e morrer por lá sem criar problemas.

Ted2Entenda que em momento nenhum estou defendendo o pecado desse homem. O que ele fez contraria a santidade de Deus, é grave, vai contra os ensinamentos de Jesus e cheira mal às narinas do Senhor. Meu objetivo com essa reflexão não é em momento algum justificar o pecado. Foi errado e ponto. Não há discussão sobre isso. O circo da mídia já explorou à exaustão o erro de Haggard, até mesmo com piadinhas sujas e sádicas – que foram vistas na TV pela família do pastor, inclusive – não preciso fazer mais isso aqui. Minha reflexão é sobre como a New Life Church agiu – como muitas igrejas agem, assim como eu e você – quando descobriu que esse cristão incorreu em um pecado.

A propósito, quantos pecados eu e você cometemos mesmo desde nossa conversão? Atiremos, pois, a primeira pedra. Mas nessas horas ninguém se lembra disso…

Voltando ao caso Haggard, o documentário mostra como o pastor, sua magnífica mulher (que manteve-se ao seu lado, o apoiando, apesar de tudo) e seus filhos tiveram de sair do estado em que moravam com uma mão na frente e outra atrás, totalmente desamparados pela igreja, para viver em casas emprestadas e hotéis de beira de estrada. Não houve um mínimo de cuidado com sua vida, se não por amor e misericórdia cristãos, pelo menos por reconhecimento a seus muitos anos colaborando para o crescimento da congregação (que fundou, lembre-se). Anos e anos de dedicação de repente foram apagados do mapa devido a um pecado. E nenhum de seus ex-colegas de ministério lhe deu sequer um mísero telefonema para saber como ele estava. Simplesmente lhe viraram as costas.

Ted4Em certo momento, a diretora do filme pergunta: “Onde estão seus amigos?”. E Haggard, num sorriso amarelo, responde: “Foram embora”. A próxima pergunta: “Como é o exílio?”. E ele: “Estamos infelizes”. Depois é a vez de a esposa dele falar: “Não acredito em banir pessoas porque cometeram erros, simplesmente porque a Bíblia ensina justamente o contrário”. Elementar. Básico do básico. É o que nos ensinam na escolinha bíblica infantil. Mas nessa hora o Evangelho não teve peso algum na decisão dos líderes da New Life. Bíblia? Que Bíblia? Perdoar setenta vezes sete? Deixar as 99 ovelhas para buscar a desgarrada? Não devolver mal com mal? Ao próximo como a mim mesmo? Amor? Compaixão? Preocupação com o destino eterno daquela alma? Ficou tudo na teoria. Banam o pecador leproso, para que morra no deserto, será menos incômodo para nós.

Chamou minha atenção que em todo momento Haggard reconhece seu pecado. Ele não culpa ninguém. Não ataca quem o expulsou. Não atribui dolo a seus colegas de ministério ou aos “amigos” que sumiram. Sempre assume sua posição como aquele que cometeu o erro. Mas em um momento de profunda depressão ele deixa escapar como se deu sua saída da New Life Church: “Me disseram para ir pro inferno e decidiram me exilar”.

Ted5 Desamparado, para tentar dar um pouco de dignidade a sua família Haggard começou a buscar empregos seculares, até mesmo como motorista de ônibus. Após 6 meses de exílio, ele continuava desempregado. Decidiu, então, ingressar numa faculdade de Psicologia. Quando indagado pela entrevistadora sobre a razão de escolher esse caminho, ele diz: “A igreja não fez nada por mim após minha queda, mas os terapeutas fizeram. Por isso resolvi estudar psicologia”. O peso dessas palavras me arrebentou: “A igreja não fez nada por mim”. Jesus no céu deve estar orgulhoso dessa igreja, que larga a ovelha doente e ferida para morrer no degredo. Meu Deus… meu Deus…

Um ano depois de o pecador ter sido expulso, conseguiu seu primeiro emprego: começou a vender seguros de vida de porta em porta. E confessou: “Quando estou sozinho eu choro. Neste momento de minha vida sou um perdedor de primeira classe”. E aí comparo esse sentimento com o que deve ter sentido a mulher flagrada em adultério ao ouvir de Jesus: “Nem eu te condeno, vai e não peque mais”. Que diferença é quando Jesus trata o pecador e quando o homem trata o pecador…

O filme intercala cenas de pregações que ele fez na época de ouro de seu ministério com imagens atuais de sua vida após ter sido enxotado da igreja. Curiosamente, as cenas do documentário que mostram imagens de arquivo de sermões de Haggard são sempre voltadas ao perdão, à restauração de pecadores, nunca propõem execuções sumárias. O homem que pregava que o papel de cada cristão é pegar o caído e botá-lo de pé teve seu crânio esmagado quando chegou sua vez de cair. Que triste ironia. Ah, se os líderes da New Life estivessem lá quando ele pregou aquelas mensagens… bem, provavelmente estavam.

Ted6Só 18 meses depois de ter sido exilado do estado, a benigna e amorosa liderança da New Life Church (foto) permitiu que Haggard, sua mulher e os filhos voltassem a sua casa, no Colorado. O filme termina com a informação de que agora ele está se sustentando vendendo seguros de vida – um emprego digno, nada contra. Mas o que me deixou assombrado ao extremo foi a atitude dos líderes da New Life, tendo passado todo esse tempo, para restaurá-lo, ajudá-lo enquanto alma necessitada, carregar seu fardo, erguer o caído. Sabe qual?

Nada mais, nada menos do que proibi-lo de pisar na igreja. Vou repetir: ele foi proibido de pisar na igreja.

Richard Foster escreveu que “a maldição de nossos tempos” é a superficialidade. Com todo respeito e deferência que tenho por esse brilhante escritor e pensador, acredito que ele está errado. A grande maldição do século 21 é o descumprimento do Grande Mandamento. Muitos não amam de fato o próximo como a si mesmos. Todo o resto é consequência disso. A Igreja de Cristo é maravilhosa, essencial, benigna, amorosa e compassiva. Só que uma parcela gigantesca dela transborda de belos discursos mas não tem feito ao próximo o que gostaria que fizessem a si. Não trata o pecador da forma que gostaria de ser tratada. E as multidões de feridos, desiludidos, desigrejados e deprimidos como consequência desse desamor aumentam enormemente a cada dia. É por isso que só podemos depender mesmo da graça do Deus que se fez homem para nos reconciliar com o Pai. A maravilhosa graça da cruz, que pega pecadores como Ted Haggard, eu e você, nos purifica, nos restaura, veste-nos de branco e escreve nosso nome no livro da vida.

Em silêncio,
Maurício

Recebi o e-mail abaixo de uma irmã em Cristo. Tocou-me tanto que decidi reproduzi-lo aqui, com a resposta que enviei a ela, na esperança de que venha a trazer paz a corações que estejam passando por situações semelhantes à que ela está enfrentando. É desnecessário divulgar seu nome, pois não quero expô-la. O que importa não é quem ela é, mas a sua experiência. E oro a Deus que aquilo que lhe respondi – e, em especial, os textos bíblicos – alcance o maior número possível de corações angustiados. Segue o desabafo honesto, sincero e dolorido que recebi de R.:

“Bom dia, como você está?

Não sei nem como começar a escrever, preciso desabafar e essa angústia não pode ser com qualquer pessoa.

Estou me sentindo fraca, já não tenho ânimo para frequentar a igreja, há muito tempo não oro nem faço jejum. Estou me sentindo triste, meu espirito está angustiado com tudo o que vejo dentro das igrejas, estou triste por ver pessoas agredindo uma as outras.

Estou triste, pois me parte o coração ver pessoas na rua passando frio, triste por ver tanto sofrimento e nenhuma mudança. Fico me perguntando cadê os verdadeiros cristãos.

Preciso de forças, estou envergonhada da pessoa que sou, tenho olhado o cisco no olho do meu próximo, mas fui incapaz de retirar a trave que estava nos meus olhos. Sou orgulhosa, egoísta, hipócrita, venenosa. Apenas reclamo e não faço nada.

Estou caindo, fui fraca e deixei as aflições do mundo ficarem entre eu e Deus. Estou decepcionada, porque magoei Deus, não fui fiel a Ele, deixei as paixões do mundo me afastarem dEle. Estou com vergonha, me sinto suja, me sinto como alguém desprezivel, uma pecadora que não sabe reconhecer seus erros. Estou sentindo tantas coisas em meu coração e não sei como escrever, como colocar para fora.

Entendo a minha condição, entendo que enquanto estiver nesse corpo cairei e continuarei caindo até o dia que Cristo voltar ou até a minha morte. Mas sou fraca, tenho trocado o tesouro do Reino por coisas pequenas, não tenho tido concentração para orar, vivo em um ambiente onde domina a fofoca, a inveja, a maldade, são pessoas perversas com suas linguas afiadas. Tenho bebido desse veneno e compactuado com isso, estou sentindo as consequências dessa minha escolha.

Mas eu quero voltar, eu quero voltar para o meu Pai, quero ficar com Ele, não quero que as coisas do mundo sejam as minhas coisas. Que Deus possa me perdoar pela minhas transgressões, pelos meus pecados, não estou mais suportando viver uma vida sem Deus, sem a presença dEle, isso tem me matado.

Meu peito vai explodir, estou caindo, peço que ore por mim meu irmão. Estou angustiada, tomada por uma profunda tristeza.

Que Deus te abençoe, meu irmão!”

Li essa confissão tão honesta e dolorosa. E respondi a ela o que reproduzo abaixo, com acréscimos que depois, com mais calma, incluí no texto. Peço a Deus que as singelas palavras que vêm a seguir alcancem corações:

“R.,

meu coração chora pela tua angústia. Li o que você escreveu e gostaria de te dizer algumas palavras.

Primeiro, lembre-se se uma coisa: você é humana e Deus sabe disso. Não quero passar a mão na cabeça do pecado, mas importa que você entenda o olhar do Pai. Veja o que a respeito do Senhor diz Salmos 103.3-5; 8-14:

É ele que perdoa todos os seus pecados e cura todas as suas doenças, que resgata a sua vida da sepultura e o coroa de bondade e compaixão, que enche de bens a sua existência, de modo que a sua juventude se renova como a águia. O Senhor é compassivo e misericordioso, mui paciente e cheio de amor. Não acusa sem cessar nem fica ressentido para sempre; não nos trata conforme os nossos pecados nem nos retribui conforme as nossas iniquidades. Pois como os céus se elevam acima da terra, assim é grande o seu amor para com os que o temem; e como o Oriente está longe do Ocidente, assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões. Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem; pois ele sabe do que somos formados; lembra-se de que somos pó.

Essas verdades magníficas nos mostram que Deus não se interressa em punir ou destruir: isso é papel do Diabo. O que Nosso Senhor quer é pôr de pé o abatido, levantar o caído, pôr o anel no dedo do filho que foi comer as bolotas dos porcos.

R., Deus não espera de você perfeição, mas sim esforço. Pois, como disse o salmista, “ele sabe do que somos formados, lembra-se de que somos pó”: o Senhor sabe que você nunca será inerrante, perfeita, que você é pó. Assim, Deus compreende as suas fraquezas. O que Ele não aceita é o acomodamento. O cristão de verdade não é o que vence todas as batalhas, mas o que luta com toda a sua energia para vencê-las.

Se você está sem forças para viver sua vida devocional, lembre-se que Paulo disse que quando somos fracos é que somos fortes, pois o poder de Deus se aperfeiçoa na nossa fraqueza. É nessa hora, R., em que você se vira para o Senhor e diz “sozinha não posso”. E aprende a depender dele. Nunca deixando, claro, de fazer a sua parte.

As igrejas são imperfeitas, as pessoas são imperfeitas, todos nós somos. Se eu fosse me espelhar em mim mesmo e na minha santidade capenga, jamais frequentaria a igreja. Pois sei quem sou e quão distante estou de quem deveria ser. Mas é exatamente a percepção que tenho quando olho para mim e vejo o quão falho e pecador sou que me faz  olhar com compaixão para as falhas dos meus irmãos e isso me estimula a participar da comunhão. Pois nós, cristãos, somos, sem exceção, um bando de pecadores que amam a Cristo, reunidos em assembleia para cultuá-lo e nos ajudarmos uns aos outros em nossas fraquezas. Não é porque há imperfeições entre – todos – os cristãos que vamos abandonar o culto a Deus. É preciso saber racionalmente disso. Nos meus momentos de maior angústia, foram irmãos da igreja que me aconselharam, choraram comigo, deram seu ombro, compartilharam suas experiências, me apoiaram para ficar de pé. Nem todos farão isso. Mas há muitos irmãos piedosos que vão ser colunas na sua vida. E lembre-se de Hebreus 10.25: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia.”

Compartilho da sua tristeza ao ver cristãos agredindo uns aos outros. Não é o padrão nem o desejo de Cristo para nós, mas hoje entendo que a natureza humana caída muitas vezes faz a carne agir com mais força que o espírito. Aos que agridem temos de estender perdão e misericórdia. Ore por eles. Peça a Deus que os abençoe. O que Paulo manda fazermos sobre isso é algo que pouquíssimos de nós fazem. Mas que precisamos pôr em prática. Tenho tentado. Muitas vezes não consigo. Mas tenho lido este trecho diariamente, há muito templ, e estou tentando torná-lo uma realidade na minha vida, e tenho conseguido única e exclusivamente pela graça de Deus:Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem.  Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram.  Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. Não sejam orgulhosos, mas estejam dispostos a associar-se a pessoas de posição inferior. Não sejam sábios aos seus próprios olhos.  Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos.  Façam todo o possível para viver em paz com todos.  Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: “Minha é a vingança; eu retribuirei”, diz o Senhor.  Pelo contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”.  Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem” (Romanos 12.14-21). Tente. Sei que você vai conseguir. Perdoe.

Isso é dar a outra face. É se deixar ser agredido sem revidar. É ser atacado sem atacar. É fazer o que Jesus fez: como ovelha muda ante seus tosquiadores Ele não abriu a boca. Esse é o padrão bíblico. Se fazemos justiça com as próprias mãos, agimos carnalmente e tomamos do Senhor aquilo que compete a Ele. Não sou eu que digo, R., está aí em Romanos, está no Sermão do Monte, a Bíblia sempre nos orienta que essa é a postura do verdadeiro cristão. Então não sinta raiva dos irmãos que te agridem. Ame-os. Ore por eles. E, se te fizerem mal, faça-lhes o bem. Tenha paz com todos, sabendo que o Senhor é quem retribuirá o mal que lhe fizerem.

Quando você diz “fico me perguntando cadê os verdadeiros cristãos” eu te respondo: olhe-se no espelho e lá você encontrará. Pois verdadeiros cristãos não são anjos flutuando sobre nuvens. São seres humanos, pó, que erram – mas com uma grande diferença: como têm o Espirito Santo habitando em si, se incomodam com o erro e fazem de tudo para não errar de novo.

Tudo o que você me diz sobre como se sente, todos os adjetivos depreciativos que usou para se referir a si mesma, toda a vergonha que expressa sobre a forma que você diz ser pode parecer algo repreensível, pode fazer parecer que você é uma perdida sem esperanças. Talvez seja assim que você se sinta. Mas o que leio nas entrelinhas da sua confissão é uma coisa linda: o Espirito de Deus habita em ti. Você pode se perguntar “como assim?? Pois se estou sendo tão pecadora!!”. Mas repare: é Ele quem convence do pecado, da justiça e do juízo. O homem por si mesmo é incapaz disso. E, se você se sente como descreve, é sinal de que o nosso Pai te ama e está te chamando ao arrependimento. Se Deus não se preocupasse contigo, você estaria pecando sem se incomodar. Esse incômodo prova que o Senhor está te chamando para uma mudança – por amor.

Agora, há um ponto importante, que aprendi com meu pastor: existe uma diferença grande entre remorso e arrependimento. Remorso é o choro que não tem consequência. Arrependimento é o choro que nos faz mudar de atitude. Remorso é carnal, é o que Judas sentiu. Arrependimento é espiritual, é o que Pedro sentiu após negar Cristo. O que é importante agora é você fazer essa angústia que o Espírito de Deus está gerando dentro de si pelo estilo de vida pecador que você está vivendo ter como consequência uma mudança de rumo. Deus está à porta e bate. Você vai abrir a porta do seu coração? Só depende de você.

Repare o que Paulo escreveu aos Coríntios em 2 Coríntios 7.8-11: “Mesmo que a minha carta lhes tenha causado tristeza, não me arrependo. É verdade que a princípio me arrependi, pois percebi que a minha carta os entristeceu, ainda que por pouco tempo. Agora, porém, me alegro, não porque vocês foram entristecidos, mas porque a tristeza os levou ao arrependimento. Pois vocês se entristeceram como Deus desejava, e de forma alguma foram prejudicados por nossa causa.  A tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte.  Vejam o que esta tristeza segundo Deus produziu em vocês: que dedicação, que desculpas, que indignação, que temor, que saudade, que preocupação, que desejo de ver a justiça feita! Em tudo vocês se mostraram inocentes a esse respeito”.

Não é lindo? Consigo ver em você essa mesma tristeza. Não é um abatimento de alma destruidor, mas é Deus te chamando para o arrependimento, para a paz, para a salvação, para a dedicação, o temor, a justiça. Acredite, há muito pouco tempo vivi isso. E dói. Sei que dói. Mas o resultado é maravilhoso, se você consegue converter essa tristeza em mudança de rumo.

Quando você diz “Mas eu quero voltar, eu quero voltar para o meu Pai”, só te digo uma coisa: Ele está de braços abertos, apenas esperando. Volte hoje. Volte agora. Não adie um dia sequer. Não adie um minuto. Sinta o abraço do Pai.

E você diz “Que Deus possa me perdoar pela minhas transgressões, pelos meus pecados”. Vou te contar um segredo: Ele pode. Mais ainda: Ele quer. Jesus veio à terra exatamente com esse propósito: perdoar pecados. E existe uma fórmula mágica para isso acontecer, que está em Provérbios 28.13: “Quem esconde os seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia“. Tudo o que você tem de fazer é se arrepender (o que suas palavras demonstram que já aconteceu), confessar a Deus os seus pecados e abandoná-los. Pronto. Está feito. Foi para isso que Jesus encarnou, sofreu, morreu e ressuscitou, R., para que você e eu tivéssemos perdão e possamos estar na eternidade com Deus. 

Compreenda que Deus não te despreza porque você errou. Veja que revelação maravilhosa Jesus nos faz: “Eu lhes digo que, da mesma forma, há alegria na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.” (Lc 15.8-10). Você está arrependida? Quer realmente abandonar o pecado? Saiba que os anjos estão em festa.

De modo muito prático, R., recomendo que você acalme-se, respire fundo e busque silenciar. É hora de você se recolher ao silêncio das quatro paredes, só você e Deus. Chore. Derrame sua verdade pelos seus olhos ante o Cordeiro de Deus. Você terá momentos de muita angústia e dor pela sua pecaminosidade nesse processo. Mas, uma vez que o perdão do Senhor vier sobre ti… ah, R., é um gozo sem explicação. Neste momento há muita confusão na sua mente. É hora de se recompor, chorar, gemer e se cobrir de pó e cinza. Mas, depois, lave o rosto, quando você se acalmar, já tendo confessado e abandonado o pecado, retome sua vida devocional com Deus. Sua oração pode ser um sussurro, um gemido. Sua leitura da Biblia pode ser curta, desde que profunda e feita com muita reflexão, para que aquilo que você lê deixe de ser texto e se torne vida prática. Seu jejum pode esperar. Assim, aos poucos, vai recuperando a paz, o equilíbrio e a comunhão com Deus. E tudo ficará bem. A vida ganhará novas cores, você se conhecerá muito mais e terá muito mais ímpeto de agradar o Salvador e de ser íntima e útil para Ele. Sabendo que Jesus de Nazaré não quer te punir: quer te restaurar.

Fique calma. Jesus ama muito você. Não se sinta indigna, sinta-se amada e cuidada. Lembre-se que, se o Espirito está falando ao seu coração, é sinal de que Ele te chama, ama e não desistiu de você. Tenha paz. Fuja do pecado. E volte aos braços do Pai, com coração sincero e contrito.

Oro por ti, minha irmã. Entrega teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais Ele fará. Deus é contigo.

Na paz que excede todo o entendimento,
Mauricio”

.
Decidi reproduzir aqui meu diálogo com R. pois sei que há muitas e muitas pessoas que estão passando por o que ela passou. Eu já passei. E, por isso mesmo, posso afirmar: há esperança. Há perdão. Há reconciliação com Deus. E há muito a viver e fazer uma vez que você se põe em pé após passar pelo vale da sombra da morte e/ou pelo lamaçal do pecado. Deus não despreza um coração contrito, afirma a Palavra. Deus não despreza os Seus. Deus não é um carrasco: é um Pai – amoroso, bondoso e perdoador.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Eu e você certamente já escutamos todo tipo de oração: por casa, emprego, casamento, causas na justiça, recebimento de dons, curas e por aí vai, a lista é interminável. Mas rarissimamente você vai ouvir alguém pedir a Deus por… amigos. Amigos? Sim, bons e verdadeiros amigos. Em nossa vida eles são extremamente importantes, desempenham um papel fundamental, são colunas na alegria e na tribulação, mas, ainda assim, parece que não damos muita atenção a isso. Não se vê igrejas organizando “correntes de sete semanas por amigos”, “reunião de intercessão por amigos”, “grande clamor por obtenção de amigos” ou nada do gênero. E penso que essa é uma falha grave em nossa devocionalidade. Pois estamos deixando de solicitar do Pai um dos artigos mais indispensáveis para a caminhada humana.

Em 1996, eu trabalhava no jornal O Globo, um jovem e promissor jornalista, cheio de “amigos”. Afinal, muitos viam em mim alguém que teria um grande futuro profissional: em menos de dois anos de formado tinha passado pelo Jornal do Brasil e sido convidado para ir para O Globo pelo dobro do salário (e não, não estou me gabando, é que no JB eu ganhava muito mal mesmo). Assim, ser meu “amigo” parecia que traria muitas vantagens para quem estivesse por perto quando eu tivesse um upgrade profissional. Só que o inesperado aconteceu: fiquei doente e fui obrigado a deixar o emprego, visto que não conseguia mais usar um computador. A notícia correu pelas redações: Zágari não poderia mais trabalhar, estava inválido para sempre. Não tinha mais nada a oferecer. E foi então que percebi que as dezenas de pessoas que me convidavam para sair, viajar, fazer mil coisas… não eram minhas amigas de fato. Para elas eu era um “contato”. Desempregado e deprimido, fui para casa com a certeza de que muitos e muitos me dariam apoio naquela hora tão difícil. Lembro até hoje quantos amigos me deram um telefonema que fosse para saber como eu estava:

2.

E só.

Bem diz Provérbios 14.20 que “O pobre é odiado até do vizinho, mas o rico tem muitos amigos”. Isso fala de aproximação por interesse, por aquilo que você pode proporcionar. Naquele momento aprendi o que NÃO É um amigo de verdade. Não é quem te bajula, nem quem está por perto para se divertir ou pelo que você possa oferecer. Não é quem precisa de você porque a bola do jogo é sua ou fica sempre falando somente de si. Não é o que te pergunta se está tudo bem sem real interesse de ouvir a resposta. Tampouco conviver todos os dias, muitas horas por dia, garante algo – passar muito tempo junto também não faz um amigo, faz colegas. Não, nada disso é amizade. E, naquela época, vi de perto a falta que o calor humano faz.

Tudo isso voltou à minha mente quando um irmão querido que conheci por meio do APENAS me escreveu um email contando como se sente solitário e sem amigos. E lembrei então da oração que fiz naquela época, quando, deprimido e só, resolvi erguer a Deus o clamor tão inusitado: “Senhor, dá-me amigos…”. E Ele deu. Conheci pessoas em pouco tempo que até hoje, 16 anos depois, são capazes de tirar a roupa do corpo para me vestir. E eu a elas. E de lá para cá o Pai tem acrescentado mais alguns a essa lista, que faço questão de manter seleta e restrita. Hoje só entram nela aqueles que nos momentos de maior adversidade em minha vida doaram-se por amor sem pensar em si mesmos. Ou aqueles por quem eu pude fazer isso. Pois descobri que essa é a grande e maior prova de amizade que existe. Biblicamente falando.

Amigos, pela ótica bíblica, são pessoas que gostam de você de graça (ou com graça), isto é, a despeito de qualquer coisa. Com quem não vai concordar em tudo, mas que continuará amando do mesmo jeito. Que estarão do teu lado apesar de todos os teus defeitos, tuas falhas e teus pecados. São aqueles que servem de coluna na sua vida, que saem no meio da noite do calor de sua casa para te ajudar no frio da escuridão da rua. Amigos são vidas que abrem mão de  algo importante para elas por você.

Sim, fui à Bíblia tentar entender o padrão divino de amizade. E percebi que, acima de tudo, segundo as Escrituras é isso o que determina de fato o que é um amigo: é alguém que abre mão de si por você. Palavras do próprio Jesus, em João 15.13: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos”. Abdicar de si. Deixar o próprio conforto pelo outro. Dispor do seu tempo em favor do amigo. Ouvir com interesse e empatia. Suportar os defeitos. Amparar. Brigar por ele. E nunca virar as costas, não importa o quê – em especial nos momentos de maior tribulação. Pois é nessa hora que você descobre quem de fato é seu amigo, como diz Provérbios 17.17: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão”. Nada como um bom momento de angústia para você peneirar quem de fato te considera um amigo.

Aprendi lendo a Bíblia que amizade se prova na hora em que temos tudo para abandonar o amigo e não o fazemos. Aprendi com Salomão, em Provérbios 27.10: “Não abandones o teu amigo, nem o amigo de teu pai, nem entres na casa de teu irmão no dia da tua adversidade. Mais vale o vizinho perto do que o irmão longe”. Sim, eu já tinha descoberto na prática o que não é um amigo. Depois descobri na Bíblia o que É.

Essa é um recomendação que faço com ênfase: se você nunca orou a Deus pedindo amigos verdadeiros, não perca tempo e ore. Peça amizades reais, desinteressadas e que não desaparecem quando vem a ventania.

Jesus tinha doze amigos. Mas na hora em que ele mais precisou, cada um pensou só em si mesmo, escondendo-se para salvar a própria pele. Todos o abandonaram… com exceção de um. Sim, só um, João, ficou aos pés da cruz, sofrendo com Cristo, correndo o risco de ser preso, torturado e morto também. Prova de que o perigo pessoal importava para ele menos do que prestar solidariedade e carinho ao seu amigo naquela hora de dor.

E eu acredito ser essa a razão de ele ter sido, dentre todos, “aquele a quem Jesus amava”.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Perdao1Há alguns dias uma pessoa me pediu perdão. Foi alguém que me causou mal meses atrás ao fazer afirmações a meu respeito que foram muito além de quem eu sou, de minhas atitudes e das verdadeiras intenções de meu coração. Confesso que eu jamais esperaria que, passado tanto tempo, chegasse aquele e-mail, com palavras tão cristãs: “Por ser essa vil pecadora, peço-lhe humildemente perdão por tudo o que lhe fiz, por ter deixado o mal exercer o domínio da minha vida, quando permiti que o pecado entrasse em meu coração (…) A vida não para pra gente consertar os erros, porque erros não se consertam, apenas os confessamos e esperamos que pela misericórdia sejamos perdoados”. Admito que fiquei muito comovido.  Muito, muito, muito. Chorei uma manhã inteira. Pois, embora o perdão seja um dos alicerces do Evangelho, poucos são os que têm a grandeza de realmente superar seu orgulho e reconhecer os erros. Mesmo que no passado aquela pessoa tenha apresentado para pessoas importantes em minha vida uma imagem distorcida de mim e de meus atos, no presente seu gesto tornou-a admirável aos meus olhos. E tenho certeza que muito mais aos olhos de Deus.

Existe uma ideia de que admitir um erro e pedir perdão seria “se rebaixar”. Mas é exatamente o contrário: é um gesto de bravura, humildade bem-aventurada e que prova crescimento espiritual de um servo de Deus. Quando li o email eu não perdoei tal pessoa – pois já a tinha perdoado meses antes em meu coração e em oração. Mas a fiz saber que estava perdoada e aproveitei para também lhe pedir perdão por todo mal que porventura lhe tivesse feito. Quer saber? Foi um dos sentimentos mais maravilhosos que tive em toda a minha vida. Pois, ao perdoar e pedir perdão, o Reino de Deus se fez presente, o Evangelho genuíno se manifestou e eu creio piamente que os anjos no Céu sorriram e festejaram.

Perdao2É certo e seguro, meu irmão, minha irmã, que há alguém a quem você deve pedir perdão. Eu mesmo creio que tenho no mínimo umas 50 pessoas de quem preciso lavar os pés. Dificilmente existe um ser humano que não tenha de humilhar-se por algum mal feito ao próximo, alguma injustiça cometida, algo que disse e provocou feridas. O que é bom, entenda, pois a humilhação aos olhos de Deus é totalmente diferente da humilhação aos olhos dos homens, não é um ato de inferiorizar-se, é um ato sublime. Você pode ter julgado alguém erradamente. Ou difamado essa pessoa. Pode ter tirado dela algo que não lhe pertence. Pode ter magoado seu coração. Pode ter mentido. Pode ter machucado fisicamente. Pode ter prejudicado financeiramente. Pode tê-la passado para trás no trabalho. Pode ter sido injusto em alguma situação. Pode ter feito fofoca sobre ela. Pode ter tomado seu cargo na igreja. Pode ter agido contra ela por inveja ou interesses materiais. Pode ter feito milhões e milhões de coisas que prejudicaram ou magoaram alguém.

A boa notícia é que pedir perdão está ao seu alcance.

Perdao3Em sua carta aos colossenses (3.13,14), Paulo descreve o caminho da grandeza: “Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós”. O apóstolo não diz que conviver com pessoas pecadoras é fácil. Conviver comigo, que sou um tremendo pecador, é muito difícil, eu sei. Admiro quem me suporta. Mas quem o faz está cumprindo esse mandamento divino. Temos de suportar-nos e não segregarmos. Esse é o primeiro passo. Em seguida, vem o xeque-mate: temos de nos perdoar mutuamente. Não somente ficar esperando que nos peçam perdão: devemos tomar a iniciativa. Nesse sentido, essa pessoa que me pediu perdão foi muito mais grandiosa do que eu, pois deu o primeiro passo, ainda mais sem saber que já tinha sido perdoada e submetendo-se a possíveis reações hostis que eu poderia ter.

E isso é algo que precisamos ter em mente: nunca esperar o outro vir até nós, importa que façamos a nossa parte. Peça perdão sem esperar ser perdoado ou sem esperar uma boa reação. Faça o que tem de fazer. Faça o que é certo. Faça Jesus se orgulhar de você. Mas se alguém vier primeiro até você e pedir perdão de coração contrito… perdoe. Não importa a dimensão do mal cometido. Importa, isso sim, a dimensão da graça de Deus. Você não faz ideia do bem que perdoar promove em nosso coração. Pedir perdão, então, é algo libertador. Magnânimo. Engrandecedor. Não perca uma oportunidade sequer de fazê-lo, é um dos maiores prazeres e das maiores alegrias que um cristão pode sentir. É, literalmente, divino.

Tudo isso caminha na contramão da nossa cultura. A sociedade prega que devemos estar sempre por cima e manter nosso orgulho. Só que, para o Senhor, é o contrário: “Os insensatos zombam da ideia de reparar o pecado cometido, mas a boa vontade está entre os justos” (Provérbios 14.9). No Reino de Deus, o que te faz grande é se pôr por baixo. Preferir os outros em honra. Humilhar-se para ser exaltado. Tomar na cara sem revidar. Em tudo isso Deus agirá em favor de Seus filhos que procederem conforme o padrão do Reino e não o deste mundo.

Perdao4Quando tais falácias foram ditas a meu respeito tempos atrás, eu poderia ter revidado, retaliado, me defendido, posto a boca no trombone – ou seja, ter agido conforme a raiva e o ódio do mundo. Mas já tinham me ensinado àquela altura que o caminho da Cruz é o de não devolver mal com mal, fazer o bem a quem nos faz mal, orar e abençoar quem nos persegue. E, o mais difícil de tudo: não se defender. Mesmo que rangendo os dentes, suportar tudo calado. Não ficar tentando desmentir exageros ditos a seu respeito e que não condizem com a realidade. E por quê? Simplesmente porque foi o que Jesus fez. É a atitude bíblica, como Paulo deixa claro em Romanos 12. Tenho certeza de que a opção de suportar em silêncio, sem me defender ou dar o troco, pesou no mundo espiritual para o bem de todos e, enfim, para esse pedido de perdão. Que me permitiu levar a essa pessoa a paz de saber que já estava perdoada e também lhe pedir perdão por qualquer mal que lhe tenha feito. Em resumo: para fazer o Evangelho entrar em ação e ter consequência.

Deus criou mecanismos perfeitos de funcionamento das coisas: quando não revidamos Ele nos abençoa. Quando não devolvemos mal com mal Ele nos abençoa. Quando aguentamos o vitupério em silêncio sem nos defendermos Ele nos abençoa. Quando temos a grandeza de pedir perdão Ele nos abençoa. Quando concedemos perdão Ele nos abençoa. O modo de ser e agir do Reino é maravilhoso. É lindo. Nunca será defendido nos filmes de Hollywood ou nas novelas da televisão, somente nas páginas das Escrituras. As atitudes cristãs fazem as pessoas se aproximarem entre si. Fazem as pessoas se aproximarem de Deus. Dá a elas a aparência de Cristo. Se agirmos sempre como Jesus agiu estaremos pondo no rosto do manso Cordeiro um largo sorriso.

Perdao5Você fez mal a alguém, meu irmão, minha irmã, mesmo que tenha sido sem querer ou num momento impulsivo ou de raiva? Não perca tempo: peça perdão ainda hoje. Alguém te feriu muito? Não perca tempo: perdoe-o antes mesmo que ele lhe peça perdão. Disseram que você fez muito mais do que fez – ou mesmo o que não fez? Ou mesmo acreditaram no que foi dito sem ao menos lhe perguntar se tudo condiz com a realidade? Entregue nas mãos do Pai de amor, como o Filho de amor fez. E, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, não abra a boca. Entregue a situação para Deus e espere. É difícil? Pode ser, mas é cristão.

O Natal está chegando. Esse pedido de perdão chegou em boa hora, pois me lembrou enfaticamente do significado primordial dessa celebração cristã. A vinda do Verbo para reconciliar, perdoar, unir, restaurar. Domingo passado estive em um culto na Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro e, ao som do belíssimo “Gloria”  de Vivaldi, entoado por um grande coral e um lindo órgão, chorei novamente, emocionado, lembrando-me do real sentido do Natal. Ali agradeci a Deus por ter-se dado por nós e nos ensinado a ser como Ele é. Perdoador. Manso. Humilde. Amoroso. Contrito. Um embaixador da paz.

Gostaria de terminar com a letra desse hino de Vivaldi, que resume bem a gratidão que sinto neste momento e o que todos devemos dizer ao Senhor – palavras que o coral de anjos cantou ao anunciar o nascimento de Jesus aos pastores no campo próximo a Belém (Lucas 2.14):

Perdao6Gloria, gloria! Gloria, gloria in excelsis Deo!
(Glória, glória! Glória, glória a Deus nas alturas!)

Peça perdão a quem precisa pedir. Hoje. Agora. Já. Não espere. Não perca tempo. Não condicione isso a qualquer coisa: nunca diga “só pedirei perdão se…”. Não! Passe a mão num telefone, escreva um email, vá até a outra pessoa… e aja conforme o coração de Jesus. Não espere um segundo mais. Eu te asseguro que isso te fará admirável aos olhos dos homens. E, muito mais, de Deus.

Feliz Natal a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

Miseravel1Qual é o momento mais importante da nossa caminhada de fé? Para uns, é o instante da conversão. Para outros, é o dia do batismo. Há também os que consideram o momento mais importante a hora da morte, quando finalmente darão o glorioso passo de entrada na casa do Pai. Cada pessoa elege aquele ponto da trajetória com o Senhor que mais marcou sua vida. Tenho também o meu. Claro que sei que todos esses momentos são fundamentais e memoráveis, mas entendo que a conversão e a morte, por exemplo, são os momentos mais importantes de nossa vida. Mas em se tratando da caminhada de fé, ou seja, do bom combate, da nossa trajetória de vida com Jesus, há um dia em que tudo muda e, por isso, o tenho guardado num lugar especial do coração. É quando cai a ficha e você, como Paulo, exclama: “Miserável homem que sou!”.

Naturalmente, na hora da conversão existe uma dose dessa percepção. É quando, pela ação do Espírito Santo, nos enxergamos como condenados ao inferno e dissociados de Deus e, assim, somos rendidos ao Evangelho da graça. Mas há uma diferença entre se perceber um pecador perdido e se perceber um cristão miserável. Pois muitos são convertidos a Cristo, ganham a cidadania do Reino dos Céus, são adotados como filhos de Deus e, a partir daí, deveriam passar a viver de acordo com a natureza de Jesus, sendo mansos e humildes. Mas a realidade nos mostra que muitos e muitos são os que começam a se considerar quase super-heróis. Mais que vencedores. Vitoriosos. Filhos do Rei. Tanques blindados. Bombas atômicas a serviço dos céus, prontos para arrebentar com os ímpios e com os “menos espirituais”. Vestem uma capa de grandeza e passam a considerar o resto da humanidade parte de um segundo escalão de pessoas. É como se manifesta um pecado muito comum a nós, cristãos: a soberba espiritual.

Já vi muitos assim. Arrogantes. Impiedosos. Cujo maior prazer é apontar o cisco no olho do outro. E confesso: eu mesmo já fui assim. Pois não entendia que todo homem de Deus é, antes de tudo, também um homem. Humano. E, como tal, cheio de falhas, crenças equivocadas, arrogância, vaidade e montes e montes e montes de defeitos. Se você é um cristão sincero, olhará para dentro de si e verá o quão problemático e falho é. Mas eu me via como “o eleito”, “o escolhido”. Algo à parte dos demais, tão espiritualmente certo em tudo e muito superior aos cristãos “menos santos”. Falava dos que cometiam pecados (diferentes dos meus, pois eu também sempre pecava) como fracos, frios, fariseus, lobos em pele de ovelha, crentes em quem não se pode confiar. Eu era o tal. Eles eram o joio. Que tremendo bobo eu era, só rindo de mim.

Miseravel2Porque um dia a realidade despencou na minha cabeça como uma bigorna. E foi quando as escamas caíram de meus olhos e enxerguei que, mesmo sendo cristão há muitos anos, continuava sendo um miserável. Que não era melhor do que ninguém. Que meus dons, talentos, ministérios, qualidades, santidade e tudo o mais que havia em mim não era mérito meu, mas do Pai das luzes. Ele me concedeu como empréstimo, não sou dono de nada e posso perdê-los a qualquer hora. Por outro lado, o pecado que cometo é sim mérito (ou demérito) meu. Ou seja: no dia em que você, como cristão, vê claramente que tudo o que tem de bom vem de Deus e o que tem de mau vem de si… aí exclama: “Miserável homem que eu sou!”.

Passei a amar muito mais o apóstolo Paulo quando compreendi como nunca antes o que ele diz em Romanos 7.14ss: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado”.

Prestou muita atenção ao que leu agora? Paulo – o grande apóstolo Paulo, o homem que foi arrebatado e viu o Céu ainda em vida – vivenciou esse magnífico momento: como cristão, mesmo já com anos de convertido, enxergou o que tantos e tantos em nossas igrejas ainda nãos viram: que nós…

1. Somos carnais
2. Somos vendidos à escravidão do pecado
3. Agimos de modo incompreensível aos nossos próprios olhos
4. Fazemos o que detestamos e não o que preferiríamos
5. Somos habitação do pecado (que percepção assustadora, pois sabemos que também somos habitação do Espírito Santo)
6. Somos fantoches do pecado, que nos leva a agir contrariando o que cremos e o que queremos viver
7. Temos membros obedientes a uma lei que guerreia contra a lei da nossa mente
8. Somos prisioneiros da lei do pecado que está em nossos membros
9. Mesmo salvos, somos miseráveis – pois vivemos dominados pelo pecado

Em outras palavras, mesmo cristãos nós somos miseráveis, pois vivemos o tempo todo sob a sombra de nossa própria pecaminosidade. O dicionário revela o que “miserável” significa: desprezível, torpe, vil, insignificante, reles, ínfimo, desgraçado, infeliz, mísero. Uau. Que soco na boca do estômago de nossa soberba espiritual.

A percepção dessa realidade é extremamente humilhante, nos põe em nosso devido lugar e nos conduz a um ambiente espiritual de profunda submissão a Deus e desapego de nós mesmos. Paulo teve essa percepção: mesmo sendo cristão era um miservável pecador. Alguém que o Senhor precisava permitir ser afligido por um mensageiro de Satanás esbofeteador para que não se exaltasse pela grandeza das revelações que recebeu. Um mero humano, como eu e você.

Miseravel3Honestamente? Quanto mais leio as epístolas paulinas, mais admiro Paulo. E mais me apiedo dos crentes que se apresentam como anjos de santidade. Pois não chegaram ainda ao sublime ponto de admitir que são miseráveis. Vejo muitos que são assim. E isso gera em mim um sentimento misto de pena com tristeza, confesso. Creio ser muito mais digno, bíblico e honesto reconhecer com a boca no megafone: sou cristão, salvo somente pela graça imerecida de Deus, mas ao mesmo tempo carrego o corpo dessa morte amarrado nas costas – o que faz de mim um miserável pecador. Que depende única e exclusivamente da misericórdia do Senhor para continuar respirando, quanto mais entrar no Céu. Pois sei o mal que há em mim e como meu lado sombrio é feio, disforme e animalesco. Como você se enxerga, meu irmão, minha irmã? Você se orgulha da sua santidade ou se abate pela sua natureza humana pecadora?

Chega a ser muito entristecedor ver os “crentes sem mácula” metendo dedos na cara “dos que pecam”, sendo que carregam na alma lodo do pior tipo. Isso é um dos pecados mais falados e criticados por Jesus: a hipocrisia. Já vivi nesse mundo, sei de perto o que é. E reconheço esse meu pecado com temor diante do PaiMiseravel4: pequei por me achar menos pecador do que os demais pecadores. Miserável homem que sou. Ah, que bendito dia em que o Espírito Santo me fez reproduzir essas palavras do apóstolo Paulo! Dia em que enxerguei que não é porque aceitei Jesus que virei um ser angelical, mas que continuo sendo um pecador compulsivo e incorrigivel, totalmente dependente da graça. A diferença é que, sabendo da miserabilidade que existe em mim, consigo chegar com humildade aos pés do Senhor, banhá-los em lágrimas e enxugá-los com meus cabelos. No passado, o crentão que eu era ficaria de pé, nariz levantado, peito estufado,  ao lado do Rei dos Reis, e diria: “E aí, Paizão, tamos numa boa, né? Sou teu eleito, meu chapa, gente boa igual a mim não há. E vamos lá mandar esses crentes carnais pro inferno, julguemos juntos, eu e o Senhor, os meus irmãos, pois estou a fim de ver sangue!”.

Sim, aquele foi o dia mais importante. Pois na conversão eu fui salvo, mas me sentia o tal por isso. No batismo saí das águas me achando o puro, o imaculado. Mas no dia em que caí em mim, vi que mesmo salvo continuo pecando sem parar, caí de joelhos, tremi e murmurei: miserável… homem… que… sou…

Gosto de pensar que após a morte irei para o Céu. Não por mim, que não valho nada, mas pela Cruz. Só pela Cruz. Pela graça. Pelo amor. Pelo perdão. Por Jesus. E, ao chegar lá, pode ser que eu ouça “bem-vindo, servo bom e fiel”. Mas acredito muito mais que vou ouvir: “Bem-vindo, miserável pecador. Você não tem mérito algum, mas por causa do sacrifício de meu Filho eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!”.

Paulo estava certo: somos miseráveis. Eu, você, todos os cristãos. E bendito seja o Senhor, que pela graça um dia nos chamou para sua maravilhosa luz e tempos depois iluminou a nossa realidade de cristãos pecadores. Não é o seu caso? Então clame a Deus, na esperança de que Ele te mostre o quão miserável você é. Acredite: é uma das maiores bênçãos para a alma que você poderá receber ao longo de toda a sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
mz

Cada civilização contém conceitos que são considerados as maiores virtudes entre as pessoas que a formam. Na Grécia antiga, por exemplo, o poder de argumentação era tão valorizado que existiam escolas voltadas especificamente para ensinar a debater. Em certas tribos aborígenes, trair alguém antes de matá-la dava status, como revela o livro O totem da paz. Também não são poucas as sociedades ao longo da História em que os mais fortes fisicamente são e foram os mais louvados. A espiritualidade e a obediência ao Alcorão são bem vistas em culturas islâmicas. Em certas sociedades orientais, a honra era vista como o valor principal de um homem. E na nossa? O que dá destaque a um indivíduo na cultura ocidental do século 21, em que eu e você estamos imersos? Basicamente o que chamo de “os três F”: fama, fortuna e físico. Quer ser o maior entre os seus semelhantes no Brasil de hoje? Então seja famoso: destaque-se, apareça mais que os outros, seja venerado, que muitos olhos se voltem para você. Ou então ganhe muito dinheiro, ostente carros caríssimos, more numa mansão, demonstre como você é bem-sucedido financeiramente. Por fim, tenha um aspecto físico invejável, seja por uma beleza natural ou por recursos como malhação, cirurgias plásticas, implante de silicone, botox, cabelos bem cortados – ou ainda, por roupas e sapatos caríssimos e da grife que está na moda. Pronto. Você será visto com destaque, valorizado, bajulado, invejado, amado. Mas… e no Reino de Deus? O que destaca alguém? Acredite: o exato oposto daquilo que dá destaque a um indivíduo na cultura ocidental do século 21:

Humildade.

O pecado de Satanás foi a arrogância. Ele quis ser mais do que era. Deu no que deu. Podemos contrastar sua atitude com a do grande profeta João Batista, sobre quem o próprio Jesus disse: “Eu lhes digo que entre os que nasceram de mulher não há ninguém maior do que João” (Lc 7.28). Sendo João isso tudo, ele mesmo afirmou: “Depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de curvar-me e desamarrar as correias das suas sandálias” (Mc 1.7). João sabia quem era. Mas, mesmo sendo o maior de todos os que haviam nascido em toda a história da humanidade, ele conhecia seu lugar. Sabia que era pó. Que exemplo para todos nós…

Nossa civilização nos condicionou a querer sempre um lugar de destaque. Um emprego que nos projete. Títulos. Nosso nome escrito em letras de neon. Elogios. Um ego muito bem nutrido por palavras que mostrem como nós somos grandiosos. Mas o que Jesus ensina contraria de frente essa mentalidade: “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. (Mt 5.5). Que diferença! E a afirmação que não deixa dúvida alguma (peço que você leia essas palavras de Jesus com muita atenção): Quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus” (Mt 18.4). Humildade na terra, grandeza no Céu. Diminuir para crescer.

Jesus é o único digno de abrir o livro, Jesus é o maior, Jesus é maravilhoso, Jesus é o Altíssimo, Jesus é Criador, Jesus é o Caminho, Jesus é amor, Jesus é o santíssimo, Jesus é o Onipotente, Jesus é tudo. No entanto: “Jesus sabia que o Pai havia colocado todas as coisas debaixo do seu poder, e que viera de Deus e estava voltando para Deus;  assim, levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura.  Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura.  [...] Disse Pedro: “Não; nunca lavarás os meus pés”. Jesus respondeu: “Se eu não os lavar, você não terá parte comigo”.  [...] Então lhes perguntou: “Vocês entendem o que lhes fiz?  [...] Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros.  Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (Jo 13.1-15).

Permita-me perguntar: qual foi a última vez que você seguiu esse exemplo e “lavou os pés” de alguém menor do que você?

Entre nós, cristãos, certas características nos dão destaque no meio dos irmãos. O santo se acha mais santo do que os outros. O que ora muito crê que isso o torna mais especial do que os demais. O pecador condena quem julga que é mais pecador do que ele. O que tem um cargo na igreja se acha mais do que o que não tem. O que manifesta um dom se acha mais agraciado por Deus. Em resumo, eu e você não estamos isentos de nos acharmos os tais porque fazemos ou somos algo que nos põe numa posição de destaque.

Já parou para pensar por que os cristãos são tão fascinados por escândalos? Já parou para pensar por que amamos falar sobre aquele pastor famoso que caiu em adultério? Já parou para pensar por que comentamos salivando que a cantora gospel famosa rastejou no palco? Já parou para pensar por que temos um prazer indizível em comentar o último pecado que fulano cometeu? Em suma, já parou para pensar por que temos o prazer sádico de tricotar entre nós quando algum outro cristão incorre em desgraça?

Porque isso faz com que nós nos sintamos superiores.

Pura e simplesmente isso. É um sentimento mesquinho que, até inconscientemente, nos faz pensar “não sou tão mau assim, afinal fulano é um tremendo pecador, muito mais do que eu, que vivo tão corretamente”. É por isso que a maioria prefere segregar o pecador e não lhe dar um único telefonema para saber como ele está em vez de se aproximar, amar, dar ombro, dar afeto, ajudar em sua restauração: porque gostamos demais de nós mesmos para gostarmos dos outros.

Certa vez entrevistei o ator e comediante Jerry Lewis. Perguntei a ele como explicava seu sucesso. Sua resposta foi simples: “Todo filme que faço se baseia num princípio: um homem em apuros.  E cada pessoa do público fica feliz porque quem está naquela situação embaraçosa ou complicada é outro e não ela mesma”. Ou seja: rimos da desgraça do outro porque isso nos faz nos sentirmos melhor conosco. Não fosse assim, como explicar o sucesso das videocassetadas? Pessoas se arrebentando no chão, levando tombos, sendo atropeladas, pegando fogo… e nós daqui caindo na gargalhada. Os cristãos, inclusive – sejamos honestos. Como explicar esse contrassenso absoluto? Simples: a desgraça alcançou o outro e não nós.

Quando o outro peca isso faz dele inferior aos olhos dos cristãos. Portanto, um pecado que tornou alguém um escândalo faz com que eu, que também peco todos os dias mas não virei escândalo, me sinta melhor, mais feliz comigo mesmo. Superior. Maior. Sinto orgulho de mim mesmo, essa é a grande verdade. No entanto, as palavras de Paulo atravessam nosso sentimento de superioridade como uma espada afiada: “Se devo me orgulhar, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza” (2 Co 11.30).

Essa é a proposta do Evangelho. Reconhecer nossa fraqueza. Reconhecer nossa falibilidade. Pois, enquanto nos achamos mais especiais do que os demais, sofreremos do traiçoeiro pecado do “orgulho santo” – o orgulho do que há de bom em nós, o orgulho até de nossa “santidade”, tão maior do que a dos demais. Mas se nos achamos tão melhores do que os outros, não abrimos espaço para nos escancararmos para Deus, como Paulo fez: “Miserável homem que eu sou!” (Rm 7.24). Não. Diremos em nosso íntimo (sem falar em voz alta, para não pegar mal): “Magnífico homem que eu sou!”. Assim, nos sentiremos mais. Nos sentiremos os eleitos, os profetas, os escolhidos, os queridinhos do Pai. Nos sentiremos superiores. E nos sentiremos aliviados por não sermos tão ruins como os outros. Só que… com isso, não reconhecemos nossas fraquezas e não reconhecemos que o pior dos pecadores não é pior do que nós. E no dia em que estivermos diante do trono de Deus para prestar contas de tudo o que fizemos e falamos, será que o que ouviremos dele é “você é realmente o tal”?

Prefiro ficar com Paulo, que em Romanos 7.18 confessa com uma humildade que não encontramos em quase ninguém em nossos dias: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo”. Não é à toa que Paulo foi Paulo. Pois, talvez lembrado pelo espinho na carne, reconhecia que só a graça lhe bastava e que só a graça fazia dele um vaso de barro com a excelência do fôlego de vida em si.

Fico muito triste ao ver cristãos que se acham mais do que outros, seja por que razões forem. E oro por muitos que conheço e que são assim. Ore por mim também, por favor, pois não sou melhor do que meus pais. Em vez de nos acusarmos, nos rebaixarmos e nos segregarmos, amemo-nos mais e oremos mais uns pelos outros. No grande e terrível dia em que estaremos diante do Justo Juiz, que ele olhe para nós e veja a cruz de Cristo. Porque, se Ele olhar para quem nós realmente somos (e não para quem achamos que somos) nada nos restará a não ser choro e ranger de dentes.

Sou um pecador, mas se puder fazer algo por você, meu irmão pecador, minha irmã pecadora, tentarei. E não te desprezarei pelo fato de que você pecou um pecado diferente do meu e que ingenuamente considero pior. Pois… quem sou eu? “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Quem sou eu…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício.

Existe um problema extremamente sério quando falamos sobre pecado/perdão: é muito comum encontrarmos pessoas que foram perdoadas por Deus mas que não conseguem perdoar a si mesmas. Junte-se a isso recaídas no mesmo pecado e uma Igreja que em sua grande maioria infelizmente ainda não aprendeu a perdoar… e o resultado final é devastador: irmãos e irmãs em Cristo achatados pela própria pecaminosidade, que se veem como indivíduos menores, indignos da graça de Deus, sem possibilidade de perdão. E, quando isso ocorre, o peso da própria natureza pecadora torna-se tão esmagador e a percepção equivocada de um Pai que fechou as comportas da graça tão presente que muitos acabam abandonando a fé e se afastando de Jesus por se julgarem incapazes de viver o Evangelho. Se é o seu caso, leia com muita atenção: você está enganado. Graças a Deus, literalmente.

O que me motivou a abordar esse assunto foram dois comentários postados no APENAS que me deixaram com o coração apertado. Os reproduzo abaixo. O primeiro é de um irmão:

“Partindo da analogia, estou completamente infectado. O sistema ainda consegue operar, mas estou sentindo-o a beira de uma pane completa. Ainda consigo ler seus escritos e de outros poucos sites sérios, mas de fato, a contaminação é tamanha que não consigo colocar em prática os conselhos, admoestações, alertas que posso considerar, sem medo de errar, inspirados por Deus. Já estou tão machucado de cair de abismo em abismo, que não me sinto seguro com ninguém, visto que deixei a igreja e mesmo o convívio com alguns irmãos mais chegados eu abandonei. Seu texto me ajudou a enxergar uma necessidade imensa da qual eu já havia esquecido, a de chamar pelo Pai e sobretudo acreditar. Mas me sinto tão sujo e amaldiçoado, envergonhado que nem sei se se consigo acreditar que ele venha. A dúvida já tomou a minha mente há algum tempo: será que Ele desistiu de mim?”

O segundo desabafo veio de uma irmã:

“Mauricio, não tenho conseguido aceitar essa graça. Eu tenho caído sempre. Não me lembro de um compromisso ou voto que fiz ao Senhor que tenha cumprido. Toda vez eu me coloco diante da presença do Senhor e me arrependo, choro, sinto o perdão Dele. Mas basta passar alguns dias para eu cair e deixar de orar ler como antes. Então hoje eu me sinto cansada. Cansada de sempre me arrepender e depois começar tudo novamente. Não consigo me manter firme, apesar dos cargos na igreja, apesar do respeito dos irmãos pela minha conduta. Que na verdade diante de Deus não é a mesma coisa. A minha vida tem sido dividida em duas, entre a minha conduta cristã na igreja e entre os familiares e finalmente a realidade diante de Deus, que não passa de uma pessoa inconstante em seus caminhos.”

Assim como esses irmãos, muitos e muitos estão tão feridos pelas próprias falhas que perderam as forças. Mais do que eu responder a isso, preciso mostrar o que a Palavra de Deus fala a esse respeito. O salmo 103 dá muitas informações:

“É ele que perdoa todos os seus pecados e cura todas as suas doenças, que resgata a sua vida da sepultura e o coroa de bondade e compaixão, que enche de bens a sua existência, de modo que a sua juventude se renova como a águia. O Senhor é compassivo e misericordioso, mui paciente e cheio de amor. Não acusa sem cessar nem fica ressentido para sempre; não nos trata conforme os nossos pecados nem nos retribui conforme as nossas iniquidades. Pois como os céus se elevam acima da terra, assim é grande o seu amor para com os que o temem; e como o Oriente está longe do Ocidente, assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões. Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem; pois ele sabe do que somos formados; lembra-se de que somos pó” (Salmos 103.3-5; 8-14)

Vemos, assim, que:

1. Deus perdoa TODOS os pecados (exceto a blasfêmia contra o Espírito Santo);
2. Deus nos coroa com bondade e compaixão. E compaixão significa agir conosco como não merecemos;
3. Deus é paciente, ao contrário do homem Ele não perde a paciência: se nos manda perdoar 70X7, imagine o quanto Ele não nos perdoa;
4. Deus é cheio de amor. E a maior expressão de seu amor é a graça que salva (Jo 3.16);
5. Deus não é acusador. Isso é papel do diabo (Ap 12.10);
6. Deus não nos trata conforme nossos pecados, mas segundo a Cruz de Cristo;
7. Deus não é vingativo, Ele não retribui conforme nossos pecados, mas segundo Sua graça;
8. Deus nos perdoa a tal ponto de nossos pecados que os afasta de nós, metaforicamente, como o Oriente do Ocidente. Creia: é muita distância;
9. Deus conhece seus filhos e entende a nossa natureza. Embora odeie o pecado, compreende o poder que ele tem sobre nós. Por isso perdoa constantemente, vez após vez. Ele não se conforma com nossos pecados, mas nunca, jamais, se cansa de exercer sua misericórdia e graça.

Diante desses pontos, responda você: Deus desiste de alguém?

O próprio Jesus responde isso, em João 6.37: “Todo o que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei”. Não, Jesus não rejeita aqueles que vão a Ele pela graça. Isso significa que Ele não desiste de nenhum dos seus. E você, meu irmão, se acha que o Cordeiro de Deus que veio justamente para tirar os pecados do mundo desistiu de você por causa dos seus pecados… saiba que essa não é uma verdade. Pense melhor sobre isso. Mas não pense com base na atitude impiedosa de muitos irmãos, que tratam o pecador como lixo. Pense com base na Palavra de Deus, que trata o pecador sempre com o intuito de botá-lo de pé, com perdão e reconciliação, e nunca visando à segregação e ao isolamento. Quem pisa no ferido é o homem: Jesus nunca faz isso. Nunca.

O propósito de Jesus ter vindo à terra é exatamente reconciliar a humanidade caída com o Todo-Poderoso. “Eu lhes digo que, da mesma forma, haverá mais alegria  no céu por um pecador que se arrepende do que por  noventa e nove justos que não precisam arrepender-se”, disse Jesus em Lucas 15.7. Isso soa a você como vindo de alguém que está disposto a reter a sua graça e a estabelecer limites para seu perdão?

Isso é o básico. Agora gostaria de tratar pontualmente algumas questões contidas no desabafo do irmão citado acima:

1. “A contaminação é tamanha que não consigo colocar em prática os conselhos, admoestações, alertas”- a contaminação cessa quando há arrependimento sincero e confissão de pecados. Provérbios 28.13 deixa claro:  “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”.  O caminho para se “descontaminar” é o arrependimento seguido de confissão, com o firme propósito de não mais cometer aquele pecado. Um exemplo claro são as palavras de Davi no salmo 51, escrito após seu adultério seguido de assassinato. Repare que ele se derrama em arrependimento e confissão sinceros e na parte final do que transcrevo aqui ele demonstra saber que a “descontaminação” vem e o deixa “mais branco do que a neve”:

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Pois eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue. Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me. Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe. Sei que desejas a verdade no íntimo; e no coração me ensinas a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei”. 

2. “Já estou tão machucado de cair de abismo em abismo…” – esse é um grande problema. A sucessão de pecados mina as forças. Mas Paulo nos diz, ao falar sobre o famoso espinho na carne, em 2 Coríntios 12: “Mas ele [Deus] me disse: ‘Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza’. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.  Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte”. Paulo deixa claro que nosso momento de maior fraqueza é a maior oportunidade que temos para nos abrirmos para Deus, confessarmos a Ele nossa incapacidade humana e rogarmos para que ele assuma as rédeas de nossa vida. Nossos momentos de queda nos mostram o quanto não somos nada e o Senhor é tudo.

Assim, buscamos nele a força que não temos. Somos machucados por nós mesmos, minamos nossas próprias forças, mas o bálsamo celestial está sempre pronto para ser derramado em nossas feridas. É promessa de Cristo: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso”. (Mateus 11.28). Há descanso em Cristo. Há cura. Há restauração. Há novas possibilidades. O abismo nunca é o ponto final: é a vírgula antes de se chegar aos pastos verdejantes.

3. “Deixei a igreja e mesmo o convívio com alguns irmãos mais chegados eu abandonei” – esse é um dos grandes erros que podemos cometer. Embora a maior parte das igrejas esteja cheia de pessoas que não sabem perdoar e de irmãos que tratam quem peca como leprosos em vez de fazer o que Jesus ensinou – estar perto, ajudar na restauração, amar, doar-se pelo outro – ainda assim é ali que podemos ouvir a boa Palavra, onde celebraremos a Ceia, onde poderemos ser úteis ao próximo. “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia” (Hb 10.25). Nunca podemos permitir que o pecado nos afaste da família de fé. Só quem quer isso é o diabo.

4. “Mas me sinto tão sujo e amaldiçoado, envergonhado que nem sei se se consigo acreditar que ele [o Pai] venha” – o cristão que peca precisa ter consciência de que, se ele verdadeiramente se arrepende de seu pecado por mérito da cruz, “agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Aqui cabe a leitura de todo o capítulo 15 do evangelho segundo Lucas, onde Jesus conta três parábolas sobre o mesmo tema: a da ovelha perdida, a da dracma perdida e a do filho pródigo. Todas versam sobre a alegria do Pai em reencontrar aquele único filho que se havia desgarrado.

Não existe sujeira ou maldição para quem se sente envergonhado pelo que fez, disposto a mudar de atitude, pois essa vergonha demonstra que há arrependimento. E, se há arrependimento, tudo o que o Pai espera é que o filho volte para casa, onde será recebido com um abraço e lágrimas de alegria, uma roupa nova, um anel no dedo e um grande banquete celestial. “Há alegria na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15.10).

5. “Será que Ele desistiu de mim?” – Não. Deus não desiste de nenhum dos seus, por mais que eles estejam comendo a comida dos porcos. Cabe novamente frisar João 6.37: “Todo o que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei”.

No caso do depoimento tão sincero e dolorido da irmã, a vemos enfrentar aquilo que todos nós enfrentamos: os “pecados de cabeceira”, aqueles que são os mais difíceis de evitarmos. Os que mais nos seduzem, que mais nos arrastam de novo e de novo para longe de Deus. Nesse caso, além das disciplinas espirituais (oração, leitura das Escrituras e jejum, entre outras), é importante ter um confessor. Essa precisa ser uma pessoa de confiança, muito bem escolhida, alguém que vai te amparar, te ouvir, orar com você, te aconselhar, estar perto nos momentos de tentação. Alguém que vai segurar sua mão e se recusará a largá-la enquanto você não estiver totalmente de pé pelos pecados que te derrubaram e pronto para enfrentar os que estão pela frente.

Evite buscar como confessores os indiscretos, os inconstantes ou os néscios. Busque irmãos ou irmãs sólidos e corretos, pessoas que serão colunas ao seu lado, que vão fortalecê-lo e ajudá-lo a estar firme. Se você encontrar alguém assim (pode ser seu pastor ou um(a) amigo(a) espiritualmente maduro), terá ao seu lado uma  bênção enviada pelos céus para ajudá-lo a se manter longe dos pecados.

A caminhada cristã não é fácil, meu irmão, minha irmã. O pecado nos espreita dentro de nós. O diabo está ao derredor buscando quem possa tragar. E a união da nossa própria natureza pecaminosa com as forças espirituais da maldade são nitroglicerina, prestes a explodir a qualquer momento. Mas nossos olhos devem estar além, na cruz, na graça, no perdão ilimitado de Deus. Se você está mal por enfrentar pecados dos quais não consegue se livrar, busque ajuda. Primeiro e antes de tudo, no Senhor. Segundo, em irmãos sólidos na fé, que vão te aconselhar, amparar e caminhar com você. Tentar lutar suas lutas sozinho por vezes é muito difícil e, sem Deus e o amparo da Igreja piedosa, temos tudo para falhar e cair.

Oro por cada irmão e irmã que está em guerra contra os próprios pecados. Que consigam encontrar em Cristo e em confessores e mentores abnegados a força que lhes falta. Que consigam vencer a si mesmos. Que entendam que a Deus não interessa nos abandonar – Deus não é como os homens e nunca vê nos pecadores casos perdidos, mas indivíduos que têm tudo para serem bem-sucedidos. Oro para que compreendam a dinâmica de arrependimento-confissão-abandono de pecados-perdão-restauração. E que, em vez de entregarem os pontos por se sentirem amaldiçoados e incapazes, encontrem na graça de Deus a paz que Ele está sempre pronto a dar.

Deus te perdoa, meu irmão, minha irmã. Ele não é um carrasco, mas um Pai bondoso e amoroso. Deus não age impiedosamente como os homens, Deus é piedoso e age com misericórdia – e temos de enxergá-lo como tal. Siga em frente, de cabeça erguida. E desfrute do amor daquele que te fez filho não para desistir de você, mas para caminhar contigo todos os dias, bons e maus, até a consumação do século.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício