Posts com Tag ‘desculpas’

pecados-1Se um pastor comete adultério, todos concordamos que ele deve ser afastado do ministério para ser tratado e restaurado e, só então, reconduzido ao púlpito. Porém, nunca vi um líder eclesiástico sequer ser afastado do cargo por desonrar pai e mãe. Na verdade, nunca conheci nenhum cristão que tenha sido posto em disciplina por desonrar seus pais. Você conhece um único caso assim? Tenho certeza de que não. Interessante, não é? Estamos falando de dois pecados que ferem igualmente um dos Dez Mandamentos, adultério e desonra aos pais (Êx 20.12,14), sendo que honrar pai e mãe é o único mandamento com promessa. No entanto, só damos a devida atenção a um deles. Já parou para pensar por quê? Por que consideramos que certos pecados são mais pecados que outros pecados?

O grande mal que esse tipo de hierarquização de pecados provoca é que acabamos cometendo muitos deles sem nos darmos conta de que estamos pecando ou fingido que não estamos pecando. E isso é terrível, pois os tipos de pecados mais perigosos são aqueles que ou não percebemos que são pecados ou para os quais achamos boas justificativas a fim de cometê-los. Todo mundo sabe que lascívia é pecado, por exemplo, mas nem todo mundo se dá conta de que inveja é um pecado tão grave quanto (Gl 5.21). Todos entendem que assassinato é uma transgressão séria, mas nem todos consideram a cobiça algo tão relevante assim (Êx 20.17). E aí começa o problema. 

pecados-2Todo pecado é grave. Não existe pecado absolutamente nenhum que não entristeça o Senhor. Deus não varre pecados para baixo do tapete. Nenhuma transgressão da vontade divina passa despercebida aos olhos do Deus santíssimo e deixa de entristecer seu coração. Se você ler a lista das obras da carne que Paulo lista em Gálatas 5, verá que inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices e glutonarias estão no mesmíssimo pacote que prostituição, impureza, lascívia, idolatria e feitiçarias. E sobre todo eles (todos!), a Palavra diz: “não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (Gl 5.21). 

Essa é a razão de haver tantos e tantos cristãos que são arrogantes, soberbos, materialistas, invejosos, agressivos, maledicentes, fúteis, debochados, cínicos e agressivos: eles simplesmente não se dão conta de quão abomináveis são tais procedimentos, porque lhes ensinaram equivocadamente que esse modo de ser não é tão problemático assim. Ou arranjam boas desculpas para cometer tais pecados, a fim de se convencer ou de convencer outros de que está tudo bem em ser hostil, raivoso ou invejoso, por exemplo. Mas não está. Por essa razão, multidões de cristãos ou igrejas inteiras estão espiritualmente doentes. 

Sem reconhecer o próprio pecado, nós não nos arrependemos. Sem nos arrependermos, não somos perdoados. Sem sermos perdoados… que Deus tenha misericórdia de nós! Quais são meus pecados de estimação? Que práticas antibíblicas são parte da minha rotina sem que eu faça nada a respeito? Quais são minhas falhas de caráter? Quais são minhas falhas de temperamento? O que faz de mim um pecador habitual? O que precisa mudar? Temos de nos fazer essas perguntas diariamente, se desejamos de fato expressar em nossas obras a fé que nossos lábios professam. 

Felizmente, estamos debaixo da graça de Deus. O sangue de Cristo nos purifica de todo pecado. O Espírito Santo nos chama ao arrependimento e ao perdão. Para isso, precisamos parar de fingir que nosso pecado não é pecado e temos de acabar com a mania de inventar boas desculpas para nossos hábitos pecaminosos. Deus está de braços abertos para nos restaurar, limpar e purificar, mas, para isso, precisamos ser sinceros. Nossas justificativas não fazem nosso pecado ser menos pecado aos olhos de Deus. 

pecados-3A hora é esta. Convido você a fazer um exame de consciência e admitir seus hábitos pecaminosos. Temos de parar com essa ideia cultural e maligna de achar que só desagrada a Deus sexo ilícito, embriaguez, idolatria e fofoca. Comece a analisar se você não comete aqueles pecados a que quase ninguém dá atenção, como arrogância, ódio, hostilidade, discórdias, ciúmes, acessos de raiva, ambições egoístas, dissensões, divisões e inveja. Ao se conscientizar de que os pecados a que você não dá muita atenção são tão malcheirosos às narinas divinas quanto aqueles que você mais condena, estará muito mais próximo de fazer uma faxina em sua alma, ao abandonar transgressões que poluem profundamente sua vida sem que você dê muita atenção a elas.

Quais são os pecados que Deus varre para baixo do tapete? Nenhum. Absolutamente nenhum. A boa notícia? “Quem oculta seus pecados não prospera; quem os confessa e os abandona recebe misericórdia” (Pv 28.13). A misericórdia está ao nosso alcance, basta tomarmos as atitudes certas. Não amanhã, não daqui a pouco. Já. O que estamos esperando?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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cor 1Nós podemos tocar profundamente o coração de Deus. Cada vez mais, minhas experiências de vida, associadas ao que vejo nas Escrituras, têm me mostrado com mais e mais clareza a essência do nosso Pai – o modo como ele pensa, age, sente e se move. Como já compartilhei em diversos posts aqui do APENAS (como ESTE), as circunstâncias que mais têm me ajudado a enxergar em profundidade e intimidade o ser divino, nos últimos anos, são as ligadas à paternidade. É impressionante como ser pai nos faz entender melhor o Pai. Recentemente vivi com minha filha de 3 anos mais uma situação que me fez experimentar um lampejo daquilo que Deus vive conosco, seus filhos. Permita-me compartilhar, na esperança de que este relato de algum modo edifique você.

Nas últimas duas semanas, eu e minha esposa tivemos de enfrentar um mal até então desconhecido para nós: nossa filha pegou pneumonia. Assim que soube do diagnóstico, fiquei bem preocupado, pois, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa é a doença que mais mata crianças menores de 5 anos em todo o mundo, e chega a ser responsável por 18% do total de mortes nessa faixa etária. Imediatamente pedi orações a minha rede de intercessores e a levamos ao hospital. Radiografia feita, exames concluídos, iniciamos rigorosamente o tratamento, que inclui antibióticos bem fortes. De início não houve muito efeito e minha filha chegou a ter uma infecção no ouvido direito, que a fez sentir muita dor. Após nova ida aos médicos, a dose do antibiótico teve de ser aumentada e recebemos a recomendação: pôr uma compressa quente algumas vezes por dia, durante vinte minutos, sobre o ouvido afetado. Assim começamos a fazer e, felizmente, a pequenininha começou a melhorar.

Na quinta-feira passada, ela foi liberada para voltar à escola, ainda sob certos cuidados: nada de tomar banho quente e ficar no vento, evitar tomar gelado, fugir do ar-condicionado, não fazer natação, esse tipo de coisa. E, claro, os antibióticos e a compressa se mantiveram no cardápio diário. Justamente nesse dia eu tinha de levá-la ao colégio. Dei o remédio sem problemas e chegou a hora de pôr a compressa aquecida sobre o ouvido. E aí começou o drama. Com sono e irritadiça, a pequena não queria de jeito nenhum deixar que eu pusesse a compressa. Com voz chorosa e birrenta, começou a dizer que estava quente demais, que não conseguia ouvir, que não queria e tudo aquilo que uma criança diz quando não quer algo. A hora passava, chegou o horário limite para sair de casa a tempo de levá-la, voltar e começar a trabalhar e eu ainda estava ali, tentando convencê-la na base do diálogo a pôr a bendita compressa. Mas nada adiantava: era manha, birra e desobediência; ela se revirava no sofá, deixava a compressa cair no chão, gemia com voz chorosa, resmungava… ufa! Se você é pai ou mãe sabe do que estou falando. Chegou um momento, então, em que, totalmente exausto, tive de dar um basta. Virei para minha filha e disse algo mais ou menos assim:

– Filha, isso é para o seu bem. Mas eu não vou ficar aqui discutindo com você, pois tenho responsabilidades e precisamos sair. Já passou da hora. Você não quer pôr a compressa, ok, não ponha, mas saiba que a sua decisão pode fazer você ficar com dor. Se é isso que você quer, vai ter de arcar com as consequências da sua escolha. Eu vou me arrumar para sairmos e estou muito triste com o que você fez. Amo você, mas a sua desobediência é errada e pode te prejudicar. A sua atitude me entristeceu muito.

Dito isso, saí da sala bastante irritado e fui para o quarto me vestir. Eu estava bem chateado, tanto pela desobediência dela quanto pelo fato de não ter conseguido tratá-la corretamente aquela manhã. Passados uns cinco minutos, eis que a pequenininha aparece à porta, se arrastando junto à parede (como costuma fazer quando percebe que pisou na bola) e, com voz bem baixinha e em tom normal, sem choro, sussurrou alguma coisa que não compreendi. Parei o que estava fazendo e, meio irritado, pedi que repetisse, pois eu não tinha conseguido ouvir. Ela chegou mais perto e disse:

– Papai… eu queria dizer uma coisa. Mas não briga comigo, tá?

Minha vontade, de tão irritado que eu estava, era falar algo do tipo “como é que eu não vou brigar com você, você desobedeceu, blablablabla…”. Naquela hora, eu só pensava em discipliná-la, pelo cansaço que me dera e pelas atitudes erradas que optou tomar. Meio sem paciência, respondi:

– Tá bem, o que é?

Foi quando ela disse as três palavras que tocaram profundamente o meu coração.

– Estou arrependida… Desculpe…

puss in bootsAssim, com essas exatas palavras. Consegue imaginar uma criancinha de três anos dizendo isso para você com aqueles olhinhos de gato de botas do Shrek e totalmente sincera naquilo que diz? Naquele momento, foi como se toda a irritação evaporasse por completo e eu fosse transportado a um patamar completamente diferente da realidade. Ainda estava triste porque não havia mais tempo para pôr a compressa e não queria que ela piorasse, mas a minha reação diante daquelas palavras não foi de brigar, reclamar, passar uma descompostura, nada disso: eu fui inundado de amor. Caminhei até minha filha, a peguei no colo e disse:

– Bebê, é claro que papai te desculpa. E tem mais: estou profundamente orgulhoso do que você acabou de me falar. Você fez a coisa certa. Quando a gente percebe que errou, o que tem de fazer é exatamente o que você fez: se arrepender e pedir perdão. Infelizmente, sua desobediência terá consequências, pois não temos mais como pôr a compressa e isso pode fazer você sentir dor. Mas parabéns por reconhecer que errou, pelo arrependimento e pelo pedido de desculpas, estou muito feliz que você tenha dito isso.

A enchi de beijos e abraços e confesso que fiquei tão feliz pela postura dela de reconhecer o erro, confessá-lo e pedir perdão que devo ter dito umas cinquenta vezes que estava muito orgulhoso dela daquele momento até chegarmos à escola.

cor 3O rei Davi errou no episódio de Urias e Bate-Seba. Mas, quando ele se deu conta do erro, a Bíblia relata que ele imediatamente se arrependeu e confessou o pecado: “Então Davi disse a Natã: ‘Pequei contra o Senhor!’” (2Sm 12.13). Repare a resposta que o profeta Natã lhe deu apenas um segundo depois: “E Natã respondeu: ‘O Senhor perdoou o seu pecado. Você não morrerá'”. Fico imaginando Deus olhando aquela situação. O coração do Senhor deve ter sangrado ao ver as ações de Davi durante o processo do adultério e do complô para assassinar Urias. Deus amava aquele homem, mas as atitudes dele despedaçaram o coração do Pai. Ele esperava que Davi fosse obediente e amoroso, mas seu filho foi desobediente, birrento e fez coisas que prejudicaram não só os demais envolvidos, mas, acima de tudo, a si próprio. Creio que a experiência que tive com minha filha me fez compreender com mais clareza o que o Senhor sentiu diante das atitudes de Davi – que, imagino, é o que ele sente sempre que o desobedecemos. Mas também consigo me identificar com o que aquele Pai entristecido sentiu quando o filho se arrependeu e disse “Pequei contra o Senhor!”. Que linda confissão! Consigo ver o Pai pegando Davi nos braços, o enchendo de beijos e abraços e dizendo:

– Bebê, é claro que papai te desculpa. E tem mais: estou profundamente orgulhoso do que você acabou de me falar. Você fez a coisa certa. Quando a gente percebe que errou, o que tem de fazer é exatamente o que você fez: se arrepender e pedir perdão. Infelizmente, sua desobediência terá consequências, pois terei de trazer seu filho para junto de mim e isso pode fazer você sentir dor. Mas parabéns por reconhecer que errou, pelo arrependimento e pelo pedido de desculpas, estou muito feliz que você tenha dito isso.

cor 4Se você peca, meu irmão, minha irmã, o caminho é um só: Arrependimento (“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para que sejam apagados os vossos pecados” – At 3.19) seguido de Confissão, que significa assumir a culpa (“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” – 1Jo 1.9) e o estabelecimento de um Firme propósito de não mais pecar (“O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” – Pv 28.13).  Em outras palavras:

– Estou arrependido… Desculpe…

Se você fizer isso com a sinceridade de uma criança, pode ter certeza absoluta de que a reação do Pai, motivado por um profundo sentimento de amor em seu coração divino, será tomar você nos braços, enchê-lo de beijos e dizer:

–  Papai perdoou o seu pecado.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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racismo0O Brasil tem acompanhado o caso do jogo de futebol entre Grêmio e Santos que foi marcado pelas atitudes racistas de parte da torcida do time gaúcho. Para provocar o goleiro santista Aranha, que é negro, muitos gremistas o ofenderam, chamando-o de “macaco” e fazendo gestos que imitavam símios. Flagrada pelas câmeras de TV xingando o atleta de “macaco”, a jovem Patrícia Moreira tornou-se imediatamente símbolo da mentalidade discriminatória que domina não só gremistas, mas gente do mundo todo – racismo é uma pandemia abominável que está longe de acabar. Na última sexta-feira, a torcedora deu uma entrevista coletiva em que afirmou, bastante emocionada, estar arrependida. Em seguida, pediu perdão ao Grêmio – eliminado da Copa do Brasil por decisão da justiça esportiva – e ao goleiro ofendido. Muito além do esporte em si, o episódio é bastante significativo para extrairmos lições sobre a questão do pecado e do perdão.

Em sua entrevista, Patrícia transpareceu sinceridade e emoção, quando disse: “Boa tarde, eu quero pedir desculpas ao goleiro Aranha. Perdão de coração. Eu não sou racista. Perdão. Perdão. Peço desculpas. Aquela palavra, ‘macaco’, não foi racismo de minha parte, foi no calor do jogo, o Grêmio estava perdendo. O Grêmio é minha paixão, minha paixão mesmo. Eu vivi sempre indo ao jogo do Grêmio. Largava tudo para ir ao jogo. Peço desculpas para o Grêmio, para a nação tricolor. Eu amo o Grêmio. Desculpas para o Aranha. Perdão, perdão, perdão mesmo”.

Essa fala de Patrícia nos conduz a quatro reflexões.

racismo4Em primeiro lugar, falemos da falibilidade do indivíduo em função da influência dos grupos a que pertence. Não há como dizer que chamar um negro de “macaco” não seja um ato racista. Pode não ter sido a intenção de Patrícia fazer uma agressão racial ostensiva, mas creio que, a reboque da multidão, ela xingaria o goleiro de qualquer coisa que configurasse uma ofensa, como historicamente as torcidas fazem. Não me lembro de absolutamente nenhum jogo de futebol a que eu tenha ido na vida em que os xingamentos não sejam a tônica do público: xingam a mãe do juiz, ofendem a honra dos jogadores do outro time, escangalham a torcida adversária, gritam impropérios contra os atletas ou técnicos do time para que torcem se esses estiverem jogando mal ou perdendo. Isso não é novidade nenhuma. A questão é que a massa optou, nesse caso específico, por um xingamento que tem uma conotação diretamente ligada à raça de Aranha e, portanto, configura, sim, racismo. Pode ser que Patricia tenha apenas ido na onda e se deixado contagiar pelo poder das massas, mas o fato objetivo é que ela cometeu um ato de racismo – que, no Brasil, configura crime.

De cara, isso nos dá um alerta: cuidado para não se deixar levar pelo que os outros fazem. Seja fiel a si mesmo e a suas convicções sempre, esteja você sozinho ou em grupo. A influência alheia é uma das principais causas de pecarmos. A ciência já sabe muito bem que os indivíduos são altamente influenciáveis pelas massas e existem muitos estudos e pesquisas que comprovam como podemos ser facilmente influenciados pelos grupos ao nosso redor. Por isso, devemos tomar extremo cuidado com quem andamos, pois más escolhas de amigos sem compromisso com o evangelho ou mesmo de cristãos que se comportam de modo equivocado podem nos arrastar junto para o erro. Ouso dizer que, se Patricia estivesse sozinha no estádio, ela jamais teria ofendido Aranha daquele jeito. Ela fez o que fez porque estava no meio da multidão. Então temos de escolher com muito critério quem serão as pessoas com quem nos relacionamos, para não praticarmos atitudes pecaminosas por influência de terceiros.

racismo3Em segundo lugar, falemos da lei: Patrícia corre o risco de ser condenada à prisão pelo crime. E, se for, mesmo que de fato esteja arrependida, é justo que cumpra a pena. Ela, aliás, já começou a ser punida extrajudicialmente por seu pecado: foi demitida, teve a casa apedrejada, sofreu muitas agressões pelas redes sociais, é chamada de “racista” por onde passa, sua vida virou um inferno. Isso nos ensina uma lição: o pecado sempre terá consequências, é ingenuidade achar que é possível transgredir e sair impune, pois a justiça divina não é como a dos homens: ela nunca falha. Um dia a punição virá, nem que seja na eternidade. Além disso, o arrependimento sincero, com a confissão do pecado, não anula a necessidade de se arcar com a consequência humanas de seus atos. Um criminoso pode estar total e verdadeiramente arrependido, mas, ainda assim, terá de responder pelo que fez ante os homens. Portanto, se você se joga de uma ponte mas depois se arrepende, seu arrependimento não evitará que se esborrache lá embaixo. Cuidado com o que você semeia, pois a colheita pode ser de frutos bem amargos.

Em terceiro lugar, falemos do amor por instituições que justificariam a falta de amor ao próximo. Chamou minha atenção a explicação que, mesmo sem perceber, Patricia deu para sua atitude. Se você notar bem, verá que ela baseou seu argumento no fato de o time que ama estar perdendo. Em outras palavras, para ajudar a instituição que ama, Patricia, no calor do jogo, considerou justificável atacar um ser humano. Assim como ela, tenho visto muitos cristãos fazerem isso ultimamente. Para defender a Igreja de ataques de grupos cujos valores são anticristãos, partimos para a agressividade. Isso está totalmente errado. A “defesa do evangelho” não justifica jamais o uso da violência. Por isso, vejo como as massas se deixam contaminar por essa abominável visão de que, para defender a Igreja de Cristo, podemos partir para o ataque a seres humanos de outras religiões ou que professam valores diferentes dos nossos. Cristo pregou o amor aos inimigos, o perdão a quem é imperdoável, a não violência, a mansidão, o não revide, a pacificação, o não fazer justiça com as nossas mãos. Mas vivemos no meio de uma multidão de cristãos que se esquecem de tudo isso e acham justificável defender a Igreja que amam agredindo os seres humanos que nos atacam – e nisso pecamos. Que o erro de Patrícia nos sirva de lição, para que não nos deixemos convencer de que a defesa do que é puro e bom seja feita com atitudes impuras e más.

aranha1Mas é para o que vem em quarto lugar que eu gostaria de chamar mais atenção. Chegou a hora de falarmos, enfim, da graça. Fiquei pensando no que faria se eu fosse o goleiro Aranha e ouvisse Patricia pedir perdão de forma tão enfática. Se você contar, verá que ela pediu “perdão” e “desculpas” ao goleiro nove vezes. Pode ser que a jovem esteja fingindo arrependimento, mas não acredito nisso. Patrícia me pareceu sincera. Creio que tudo o que ela tem passado, desde que sua imagem tornou-se o símbolo nacional do racismo, foi o tranco que a despertou para compreender a extensão do seu erro. Não posso afirmar, mas acredito nisso – afinal, quantos de nós pecam e só se dão conta da lama em que estão quando são confrontados de forma dura pelas consequências de seu pecado? Davi passou por isso e só se arrependeu de seu duplo pecado ao ser confrontado por Natã no episódio de Urias e Bate-Seba e, depois, pelo profeta Gade, no episódio do censo. Pedro só chorou amargamente após ser confrontado pelo canto do galo e pelo olhar de Jesus. Eu mesmo já cometi pecados dos quais só me dei conta de sua extensão ao ser confrontado. E acredito que isso tenha ocorrido com Patrícia: foram a reação popular e tudo o que ela sofreu que a chamaram à razão. Se sua imagem não fosse parar na TV, possivelmente no jogo seguinte ela repetiria o gesto racista. Fato é que ela, confrontada pelo seu erro, dirigiu-se à pessoa a quem ofendeu e pediu perdão. E aí, como devemos nos posicionar diante disso?

A Bíblia é clara:

“Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18.21-22).

“Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós” (Cl 3.13).

“Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lc 6.37).

“E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas” (Mc11.25).

O desejo de Jesus é que perdoemos. Mais do que um desejo, aliás, é um mandamento. Perdoar nossos ofensores é uma atitude que nos dá vida espiritual abundante e nos conforma à imagem de Cristo – que nos perdoou quando não merecíamos. O Senhor, aliás, não apenas transmitiu esse preceito de boca, ele deu o exemplo, ao perdoar o traidor Pedro, ao pedir que o Pai perdoasse seus algozes na cruz, ao perdoar a mulher adúltera e em tantas outras situações. Com base nos ensinamentos bíblicos, diante de tão enfático pedido de perdão de Patrícia, se eu fosse Aranha a perdoaria. Talvez ela não mereça. Mas perdão não tem a ver com merecimento: é fruto de graça – que, por definição, é algo que recebemos sem merecer.

A prisão de Patrícia seria uma punição exemplar, um símbolo para todos de que o racismo é algo hediondo e não pode ser praticado sem consequências? Sim, sem dúvida seria. Mas o perdão de Aranha é um símbolo para todos de que é possível vencer o mal com o bem. No dia seguinte à entrevista dela, o goleiro se pronunciou e disse que a desculpava: “Estou desculpando ela, mas infelizmente, por um erro que cometeu, vai ter de pagar. Queriam que eu desse o perdão sem ela me pedir desculpas. Acompanhei todo o caso, os amigos dela mostraram que ela não é racista, mas ela sumiu, deletou perfis das redes sociais, não falou com ninguém. Demorou muito tempo para tomar uma atitude. Como cristão, como ser humano, precisava do pedido dela para desculpar. Isso não quer dizer que eu não quero que a justiça seja feita. Ela errou, tem as consequências”, comentou. Com o perdão de Aranha creio que os céus fizeram festa, pois um pecador se arrependeu e um ofendido perdoou seu ofensor.

racismo5Acho muito estranho quando ouço as pessoas dizerem que não perdoam alguém porque esse alguém “não merece”. Pois perdão não tem a ver com o mérito do perdoado, mas, sim, com a graça de quem perdoa. Deixar de perdoar um ofensor, mesmo que ele não nos tenha pedido perdão, não prejudica ninguém além de nós mesmos, que passamos a carregar um fardo espiritual doloroso e venenoso. Enquanto não aprendermos esse fato, seremos indivíduos amargos, que não estendem perdão e, por isso, vivem longe da vontade de Deus.

Não fui ofendido por Patrícia Moreira. Mas, se tivesse sido e ela pedisse perdão nove vezes, eu teria de escolher: ou me recusava a perdoá-la ou fazia o que Deus manda. Ela poderia até vir a ser presa, para cumprir a justiça dos homens, mas, diante de Deus, teria o meu perdão. Porque o cristianismo denuncia o mal da falibilidade humana e do desamor pelo próximo, aponta o remédio paliativo da lei e revela a cura final: a graça. E aí eu te pergunto: desses elementos, qual você acha que Deus valoriza mais? E qual você valoriza mais? A resposta a essas perguntas dirá em que profundidade você compreende o evangelho e mostrará se você é, de fato, um cristão segundo o coração de Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício