Posts com Tag ‘Solidão’

solidao1O rosto é sorridente. O aperto de mão, amigável. Quando lhe perguntam como está, a resposta é sempre “tudo bem”. Da hora em que chega à igreja até o momento em que se despede, todos acreditam que sua vida é repleta de felicidade. Mas, por trás de toda essa aparência, esconde-se uma pessoa extremamente solitária. Não deveria ser assim, mas a dura realidade é que nossas igrejas estão cheias de irmãos e irmãs que se encaixam nessa descrição, e que, embora escondam e não demonstrem, são muitos solitários. São cristãos, vivem em comunidade, vão aos cultos e cantam louvores, mas, na verdade, sentem-se sozinhos. Os laços com os demais são superficiais e frágeis e eles percebem que, na hora em que precisam de um ombro sincero, não o encontram. Por vezes, chegam a derramar lágrimas escondido. Poucas pessoas lhes telefonam, por isso se sentem como se ninguém estivesse nem aí para si. Olham a vida dos demais e acabam com a sensação de que todos são felizes e têm muitos amigos, menos eles próprios – o que os deprime. Apesar disso, por mais que se esforcem por ser amáveis e gentis na igreja, poucos demonstram interesse real por sua vida. Qual deve ser nosso papel junto a quem se vê nessa situação? Será que há algo que você possa fazer pelos milhares de solitários que transitam entre nós mas não demonstram, tocando a vida em meio à multidão mas tendo a solidão como companheira mais fiel? Qual é o remédio para a solidão?

Como cristãos, é importante prestarmos atenção a quem sofre, pois, sendo nós membros do Corpo de Cristo, temos o dever fraterno de zelar uns pelos outros, de acolher, amar, cuidar. Quando o pé sofre um corte, não é ele próprio que se aplica remédios, é a mão. Quando a panturrilha sente cãibras, é o pé que se alonga para aliviá-la, com a ajuda da mão, sendo que as costas se vergam para que a mão alcance o pé. O corte no dedo é levado à boca. E quando os músculos e tendões doem é dos olhos que descem as lágrimas.  Como integrantes de um todo, devemos cuidar dos irmãos. Mas que remédio podemos dar a eles?

solidão2Para conseguir auxiliar pessoas adoentadas pela solidão, quem não sofre desse mal precisa, antes de tudo, compreender que solidão não tem a ver com a quantidade de pessoas que te cercam, mas, sim, com a quantidade de pessoas que se preocupam com você. Muitas vezes descobrimos que alguém se sente solitário e nos perguntamos como pode, afinal, ele se relaciona com tanta gente! Chegamos a pensar que é frescura ou necessidade de atenção, pois não compreendemos que não basta ter pessoas em volta. O solitário não é um ermitão, é alguém que, embora viva em comunidade, não tem laços fortes de ligação com ninguém. Ele não sente falta de mais eventos na igreja, mas de alguém lhe diga: “Que saudade, liguei só para saber como você está”.

O solitário geralmente tem a percepção de que, se partisse desta vida, não faria muita falta. Pode até ser uma percepção equivocada, mas não é por ser uma visão distorcida que deixa de ser algo que o machuque. Muitos que olham de fora acham que o problema é culpa do próprio solitário, afinal, por que ele não se enturma? Por que ele não corre atrás? Basta se aproximar das pessoas! Bem, na verdade, correr atrás dos outros não satisfaz a solidão, pois não demonstra um real interesse do próximo. O solitário se sente desimportante na vida dos irmãos e vive uma real necessidade de ser amado e querido. Algo que ele não quer impor, pois precisa que ocorra espontaneamente. Correr atrás das pessoas não é o remédio para a solidão.

Como Igreja, precisamos estar constantemente atentos para os solitários que nos cercam. Devemos identificá-los e amá-los sem hipocrisia. A única forma de fazermos isso é saindo de nossa zona de conforto e indo até eles para buscar conhecê-los em profundidade, descobrir quem eles são e, a partir daí, criar vínculos verdadeiros. Não devemos amar os solitários como um gesto de caridade, “com pena” ou por “obrigação cristã”: precisamos buscar conhecê-los para criar laços verdadeiros de afeto mútuo e passar a amá-los de verdade. Temos de criar as circunstâncias para que eles de fato nos façam falta. Amizades não são apenas aquelas que a vida nos joga no colo, são também as que nos mexemos para construir. Mas, para o solitário, esse movimento partir dele não é um remédio muito eficaz, ele deseja ver interesse que parta das outras pessoas.

solidão3É bastante difícil para alguém que tem muitos amigos sinceros e vive numa atmosfera de amizade perene compreender a solidão. Quem vive imerso em amor não capta com facilidade a intensidade da dor que o solitário sente. O que fazer? Buscar em Deus a resposta. Em sua glória celestial, o Deus que é amor jamais sentiu solidão. Acompanhado, de eternidade a eternidade, pela Trindade santa, o Criador se basta a si mesmo e se complementa, vivendo numa unidade plural e singular que faz de si um ser pleno e absolutamente destituído de carência. No entanto, dos altos céus ele olhou para a humanidade solitária, despida da plenitude de Deus, e desceu à terra, fazendo-se solitário como os solitários, para nos devolver a capacidade de comungar para sempre com aquele que nunca nos deixará sós. E, ao fazer-se como um se nós, o Filho experimentou o gosto da solidão: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46), gemeu o Senhor agonizante. Por que Jesus decidiu vivenciar a dor dos solitários? Amor. Puro amor.

Meu irmão, minha irmã, há muitos solitários nas nossas igrejas. Peço a Deus que encha o seu coração do amor que é fruto do Espírito, para que você sinta em si a dor dos solitários e faça algo para cuidar de quem precisa urgentemente de calor humano. É aproximando-se de Deus que você terá discernimento para identificar as vítimas da solidão, frutificará em amor pelos tais e partirá em seu socorro com interesse genuíno. Ao fazê-lo, você estará permitindo que Deus o use para transformar a vida de tantos que precisam desse amor.

Afinal, já entendeu qual é o remédio para a solidão do seu irmão? Se você disse “Deus”… lamento, errou. Deus é o médico que aplica o remédio.  O remédio… é você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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esperança1“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lm 3.21) é o bem conhecido desabafo de Jeremias, escrito pelo profeta em meio à angústia de ver sua pátria e seu povo assolados pela Babilônia. Essa simples frase, que tornou-se muito popular na Igreja brasileira nos últimos anos, aponta um caminho excelente de consolo e paz, que podemos trilhar nas horas de maior tribulação da vida: nos lembrarmos das bênçãos que Deus já nos deu, como forma de reunir forças em meio ao sofrimento. Eu gostaria, porém, de propor um olhar diferente sobre esse versículo, que acredito oferecer um refrigério ainda maior do que essa percepção.

Diga-me, por favor, se estou errado: geralmente, quando lemos a frase de Jeremias, o que pensamos é que ela nos convida a recordar das coisas boas que Deus fez no passado por nós. Assim, “o que me pode dar esperança” seria uma referência às bênçãos que recebemos em outras épocas da vida – livramentos, promessas cumpridas, alegrias que experimentamos em fases anteriores ao período de sofrimento. Estou certo? Quando você está atravessando uma fase dura da sua caminhada, ao ler este trecho da Palavra automaticamente busca fortalecimento ao recordar de ações que Deus realizou em prol da sua vida.

Bem, primeiro deixe-me dizer que isso não é errado. Lembrar-se daquilo que o Senhor fez de bom por você é, sim, muito reconfortante. Mostra o amor e a compaixão do Altíssimo em ação. Recordar-se de atos de misericórdia e bondade da mão de Deus em sua vida é, sim, motivo de louvor, gratidão, esperança. Saber que o Onipotente exerceu graça para com você é razão para glorificá-lo eternamente e trazer à memória que ele age em favor de seus filhos. No entanto, eu prefiro uma outra percepção desse versículo.

Explico: se formos ser biblicamente realistas, veremos que o fato de Deus nos ter abençoado de determinada maneira no passado não oferece absolutamente nenhuma garantia de que ele nos abençoará da mesma forma no presente ou no futuro. Assim, se formos trazer à memória bênçãos passadas de Deus no intuito de ter esperança de novas bênçãos, poderemos nos frustrar – uma vez que não há garantias bíblicas de que o Senhor sempre concede as mesmas bênçãos a todos, dia após dia.

Por exemplo, o fato de Jesus ter ressuscitado Lázaro uma vez não quer dizer que ele o ressuscitaria repetidamente – tanto que o amigo de Cristo veio a falecer tempos depois. Ou, ainda, o fato de Paulo ter sido poupado da morte certa em diversas ocasiões não evitou que ele, enfim, fosse decapitado. Sansão ter sido salvo dos filisteus algumas vezes não significa que um dia ele não viria a ser derrotado por seus inimigos. São muitos os exemplos das Escrituras que nos mostram que o fato de Deus ter agido de determinada maneira na vida de alguém não implica que ele voltaria a agir do mesmo modo. Portanto, se essas pessoas depositassem sua esperança no fato de o Pai ter anteriormente realizado algo específico por elas, a frustração seria certa.

esperança2Você poderia me perguntar: “Bem, Zágari, se as bênçãos do passado não são o que devemos trazer à memória para ter esperança… o que, então, devemos trazer?” Minha sugestão: traga à memória quem Deus é. Isso sim nos dá total esperança.

As decisões do Senhor podem mudar. Ele ter me curado ontem não quer dizer que me curará hoje. Ele ter me dado um emprego ontem não significa que me dará um igual hoje. Eu ter ganho um carro de presente ontem não é garantia de que não precisarei andar de bicicleta hoje. A vida mostra isso com muita clareza. As bênçãos do Senhor mudam a cada momento, cada período da vida implica diferentes tipos de dádivas. Não existem garantias de que a ação do Pai ontem será a mesma hoje. Mas, por outro lado, a Bíblia garante que Deus não muda. Que “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (Hb 13.8). Assim, não há nenhuma garantia nas Escrituras de que bênçãos concedidas no passado voltarão a ser concedidas, mas há uma garantia inquestionável de que o Deus que agiu no passado é o mesmo Deus que age hoje.

Se continuarmos a ler a passagem de Lamentações 3.21, veremos que a pessoa de Deus e suas características, inclusive, são o foco de Jeremias nesse contexto. Repare: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca” (Lm 3.21-26). O que o profeta destaca aqui é quem Deus é: alguém infinitamente misericordioso, fiel e bom.

esperança3Meu irmão, minha irmã, você está atravessando um período de sofrimento, dificuldade, falta de paz, angústia? A assolação veio sobre a sua vida, assim como ocorreu com Jeremias? Então traga à memória o que te pode dar esperança: não o que Deus já fez, mas quem Deus é. Traga à memória que ele é soberano, amoroso, gracioso, misericordioso, sustentador, alegre, pacífico, pacificador, perdoador, restaurador, salvador, fortalecedor, carinhoso, amigo, Pai. É a percepção sobre quem o Senhor é que deve lhe dar esperança de que ele agirá segundo sua natureza eterna, dando pão e não pedra, perdoando e não esmagando, reconstruindo e não destruindo, concedendo vida e não morte. Deus é Deus ontem e hoje; Deus é seu Pai ontem e hoje, Deus é vida, ontem é hoje. Deus é amor, ontem e sempre.

Deus é Deus. Traga isso diariamente à memória… e nunca lhe faltará esperança.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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sofrimento 1Não deveria ser assim. Mas a realidade é que existem milhares de cristãos que se sentem sozinhos, sofrem calados, vivem achatados pelo peso da angústia sem ter quem os ajude a solucionar seus dramas, sem ter nem ao menos com quem desabafar sobre seus sofrimentos e dores. Fico muito triste ao ver a enorme quantidade de irmãos e irmãs em Cristo que me procuram pelo APENAS, pelas redes sociais ou nos eventos em que prego e palestro em busca de orientações para suas angústias silenciosas e solitárias. Na maioria das vezes, o que detecto é que muitos só queriam mesmo era pôr para fora. Desabafar. Não têm com quem chorar, esmagados por suas dores e duplamente esmagados por não ter com quem falar sobre elas. Sofrem calados, devorados por dentro. O único ombro amigo que têm é o de Jesus, pois os servos de Jesus não estão dando conta do recado. 

Não são poucos, acredite. Tenho visto uma enorme quantidade de irmãos e irmãs que ostentam sorrisos de aparência e se mantêm heroicamente calados na frente das demais pessoas, mas que, na verdade, tudo o que queriam era gritar, chorar e pedir pelo amor de Deus que alguém os ajude, aconselhe ou, pelo menos, os escute e chore com eles. Mas… ninguém parece se importar de fato. Esses sofredores respondem a cada “Tudo bem?” com um sofrido “Tudo bem, graças a Deus”, por perceber que a pergunta foi, na verdade, uma saudação educada e não uma indagação sincera sobre o estado de sua alma. E, assim, seguem sofrendo, calados, angustiados e solitários, na esperança de um milagre que parece nunca chegar. 

sofrimento 2Maridos desonrados e desrespeitados, irmãs abusadas e carentes, adolescentes rejeitados, cônjuges infelizes, cristãos  deprimidos… os sofredores solitários não encontram limites de sexo, idade, ministério ou o que for. Alguns não encontram com quem se abrir porque todos esperam que eles sejam super-heróis espirituais, imunes a problemas. Outros, porque ninguém demonstra um interesse real por sua vida. Há, ainda, os que até buscam com quem conversar, mas tudo o que encontram é um anticristão “vamos orar” que não ajuda em nada. Pessoas feridas, aprisionadas pela agonia de sua solidão, escravas do desinteresse alheio. “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm 12.5) são, para elas, apenas palavras vazias, pois não encontram aplicação prática na sua vida. Afinal, ninguém dá um passo à frente para chorar com elas. 

De quem é a culpa por esse problema epidêmico dentro das igrejas? Minha e sua.

sofrimento 3Eu e você somos os culpados pela dor dessas pessoas. O marido que é obrigado a conviver com uma esposa arrogante, agressiva, briguenta e desrespeitosa, por exemplo, não tem muito o que fazer, pois nenhuma esposa sem sabedoria muda por pressão do marido. Mas a Igreja de Cristo poderia agir na vida dele, dando amparo, amor, conselhos, ombro e a consequente orientação para essa esposa rixosa, a fim de que ela enxergue seus erros e mude de fato. Porém, como existe a filosofia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, ninguém quer se envolver, intervir, aconselhar, orientar. Nós optamos por permanecer omissos. Muitas vezes, tudo de que aquela esposa briguenta e mandona precisava era de alguém de fora que lhe dissesse que, sim, ela está errada, e apontasse caminhos, como a Bíblia orienta: “Exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3.13). O mesmo vale para maridos que não lutam pelo bem-estar do lar, claro. 

Pastores e líderes, então, muitas vezes são pessoas extremamente solitárias, que sofrem caladas com preocupante frequência. Como a igreja espera que sejam quase homens de gelo, sem emoções ou problemas, donos de uma fé acima de toda humanidade, eles acabam se isolando na solidão de seu cargo, vivendo em santa hipocrisia imposta, porque nós, membros sem coração de suas igrejas, não admitimos que pastores tenham dúvidas, dores ou angústias, que sejam gente como a gente. Culpa nossa. E, por isso, eles seguem, sofrendo em seu ministério, muitos em processo de depressão, com problemas no casamento, com agonias causadas pela pressão do pastoreio, com milhões de preocupações… mas sem encontrar apoio em ninguém. 

Vemos pessoas que saem do culto sozinhas e caminham a passos tristes e arrastados para a solidão de sua casa, sem nos importarmos com elas, enquanto saímos sorridentes com a nossa patota de sempre para comer uma animada pizza pós-culto. Afinal, já que estamos satisfeitos e acomodados com nossa vidinha cristã que não estende a mão a ninguém, para que nos dedicarmos aos outros, não é mesmo? Deixa como está. Por que abrir mão de nosso precioso tempo para ofertá-lo aos sofridos? E assim seguimos, sem viver de fato o que Jesus espera de sua igreja. E, apesar de ler este texto e sentir certo incômodo no coração, você continuará agindo exatamente do mesmo modo, sem nenhuma real mudança. Ou não?

sofrimento 4Muitos desses sofredores solitários até se inscrevem em departamentos da igreja, na esperança de viver um pouco do calor humano que, supõem, deveria haver entre os irmãos, mas só encontram um interesse pouço real por sua vida, aquela coisa meio obrigatória, afinal, “ele faz parte do grupo e a gente tem de dar atenção a ele”. Se um dia ele se desligar do grupo, porém, perceberá que o interesse por sua vida era meramente institucional e não verdadeiro. Ninguém mais o procura, o chama para sair, liga para saber como ele está. E assim seguimos, cercados por legiões de cristãos sofredores, que se calam pelas mais variadas razões e vivem suas angústias com, no máximo, o famigerado “vamos orar”.  Acredite: há muitos desses ao nosso redor, perfumados e maquiados, ostentando sorrisos pré-fabricados no rosto, mas carcomidos emocionalmente. 

Meu irmão, minha irmã, o evangelho é sobre relacionamentos. É sobre se intrometer, sim, na vida do outro, como um médico que intromete seu bisturi na carne do paciente para encontrar debaixo da pele, naquele lugar em que ninguém consegue ver além das aparências, onde está a causa da dor do próximo. E tratá-la. Individualismo não existe no cristianismo, o que existe é coletividade, onde todos sentem a dor de todos. Fora disso não há reino de Deus, não há evangelho, não há Igreja. Sim, a coisa mais importante no cristianismo são os relacionamentos: com Deus, primeiro, e com o próximo. Esse é o maior mandamento, apresentado em outras palavras. 

Ao falar sobre aquele grande dia, que a todos nós espera, Jesus profetizou: “… então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me” (Mt 25.34-36).  Essa passagem fala sobre o quê? Caridade? Não. Fala sobre relacionamentos.

sofrimento 5Fala sobre interferir na vida do próximo, saciando a sede e a fome não só de comida e bebida, mas de amor, preocupação, interesse, calor humano. Há entre nós irmãos e irmãs desesperados e silenciosos, mirrando pela falta do nosso interesse amoroso e genuíno. Muitos estão enfermos de alma, esperando em agonia  por uma visita, uma conversa ou um abraço que ajude a aliviar a dor de seu coração. No culto  a que você vai todo domingo, cruza com irmãos e irmãs que se encontram presos em jaulas de solidão, em presídios de angústia, apenas esperando por alguém que se importe. Também somos cercados por legiões de forasteiros, gente que dorme debaixo das marquises da falta de ter com quem conversar, que pedem socorro em idiomas que parece que ninguém entende, apenas aguardando por um servo bom e fiel que, com preocupação real, os hospede em seu coração e em sua vida.

O que você tem feito pelos famintos, sedentos, enfermos, presos e forasteiros? Nada? Então ouça o que Jesus tem a lhe dizer: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me” (Mt 25.41-43). 

Meu sonho é parar de receber desabafos e pedidos de socorro pelo blog e inboxes pelo Facebook de gente que sofre em silêncio. Não aguento mais ver tanta dor, pois a dor deles dói em mim. Quando leio um “me ajude, pelo amor de Deus, não tenho a quem recorrer”, meu coração rasga. Onde estão os seres humanos que convivem com esses meus irmãos e irmãs em Cristo? O fato de cristãos recorrerem a um escritor que mal conhecem e mora a centenas de quilômetros de distância para desabafar, pedir ajuda e tentar compartilhar um pouquinho que seja de sua dor é um sintoma gritante de que a igreja não está sendo Igreja. E à distância é difícil eu fazer qualquer coisa por eles. Onde estão os pastores e os irmãos em Cristo deles? Onde está você?

Este é um texto sobre amor. Amar de verdade significa doar-se. O contrário de amor não é ódio, como muitos pensam, mas egoísmo. Eu fico louco quando ouço um pregador dizer à igreja: “Quem veio aqui esta noite para receber a sua bênção?”. Por quê? Porque culto não foi feito para ser um evento de recebimento de bênçãos. Nós não vamos ao culto a fim de buscar bênção coisíssima nenhuma, vamos para cultuar Deus em conjunto com os irmãos. Em coletividade. Dando as mãos não só fisicamente, mas espiritualmente. Olhando para quem está ao nosso lado e enxergando-o de fato, preocupando-se com ele, imergindo nas angústias dele. A pergunta certa deveria ser “Quem veio aqui esta noite para abençoar os seus irmãos?”. Aí teríamos uma pergunta cristã. 

sofrimento 6Perdoe-me, por favor, o desabafo. Mas o APENAS é, para mim, também um meio de compartilhar o que sofro na minha solidão. E tem me angustiado profundamente o sofrimento solitário de tantos cristãos que recorrem a mim porque dizem não ter mais a quem recorrer. Eu vinha vivendo isso calado, mas hoje resolvi pôr para fora. Você compartilha da minha dor? Você está disposto a chorar comigo? Então, por favor, o melhor meio de fazer isso é sendo parte da solução. Viva a partir de hoje observando os calados, os que choram nos últimos bancos, os que sorriem com a boca mas não com os olhos. Preste atenção aos maridos desrespeitados, às esposas abandonadas, aos adolescentes solitários, aos idosos sofredores, aos líderes deprimidos. Pense naqueles que deixaram o convívio e você nem sabe por quê. Telefone para eles. Oferte-se ao próximo. Mergulhe na vida dessas pessoas. Ouça-as com real interesse e não por obrigação. Intervenha, sim, na vida delas, assim como Jesus interveio na nossa ao meter a colher nas lutas da humanidade e se fazer carne para sanar nosso maior problema. É bíblico. Faça isso, pelo amor de Deus e por amor ao próximo. Os sofredores silenciosos e solitários estão à sua espera. O que você vai fazer a respeito?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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solidao1O rosto é sorridente. O aperto de mão, amigável. Quando lhe perguntam como está, a resposta é sempre “tudo bem”. Da hora em que chega à igreja até o momento em que se despede, todos acreditam que sua vida é repleta de felicidade. Mas, por trás de toda essa aparência, esconde-se uma pessoa extremamente solitária. Não deveria ser assim, mas a dura realidade é que nossas igrejas estão cheias de irmãos e irmãs que se encaixam nessa descrição, e que, embora escondam e não demonstrem, são muitos solitários. São cristãos, vivem em comunidade, vão aos cultos e cantam louvores, mas, na verdade, sentem-se sozinhos. Os laços com os demais são superficiais e frágeis e eles percebem que, na hora em que precisam de um ombro sincero, não o encontram. Por vezes, chegam a derramar lágrimas escondido. Poucas pessoas lhes telefonam, por isso se sentem como se ninguém estivesse nem aí para si. Olham a vida dos demais e acabam com a sensação de que todos são felizes e têm muitos amigos, menos eles próprios – o que os deprime. Apesar disso, por mais que se esforcem por ser amáveis e gentis na igreja, poucos demonstram interesse real por sua vida. Qual deve ser nosso papel junto a quem se vê nessa situação? Será que há algo que você possa fazer pelos milhares de solitários que transitam entre nós mas não demonstram, tocando a vida em meio à multidão mas tendo a solidão como companheira mais fiel? Qual é o remédio para a solidão?

Como cristãos, é importante prestarmos atenção a quem sofre, pois, sendo nós membros do Corpo de Cristo, temos o dever fraterno de zelar uns pelos outros, de acolher, amar, cuidar. Quando o pé sofre um corte, não é ele próprio que se aplica remédios, é a mão. Quando a panturrilha sente cãibras, é o pé que se alonga para aliviá-la, com a ajuda da mão, sendo que as costas se vergam para que a mão alcance o pé. O corte no dedo é levado à boca. E quando os músculos e tendões doem é dos olhos que descem as lágrimas.  Como integrantes de um todo, devemos cuidar dos irmãos. Mas que remédio podemos dar a eles?

solidão2Para conseguir auxiliar pessoas adoentadas pela solidão, quem não sofre desse mal precisa, antes de tudo, compreender que solidão não tem a ver com a quantidade de pessoas que te cercam, mas, sim, com a quantidade de pessoas que se preocupam com você. Muitas vezes descobrimos que alguém se sente solitário e nos perguntamos como pode, afinal, ele se relaciona com tanta gente! Chegamos a pensar que é frescura ou necessidade de atenção, pois não compreendemos que não basta ter pessoas em volta. O solitário não é um ermitão, é alguém que, embora viva em comunidade, não tem laços fortes de ligação com ninguém. Ele não sente falta de mais eventos na igreja, mas de alguém lhe diga: “Que saudade, liguei só para saber como você está”.

O solitário geralmente tem a percepção de que, se partisse desta vida, não faria muita falta. Pode até ser uma percepção equivocada, mas não é por ser uma visão distorcida que deixa de ser algo que o machuque. Muitos que olham de fora acham que o problema é culpa do próprio solitário, afinal, por que ele não se enturma? Por que ele não corre atrás? Basta se aproximar das pessoas! Bem, na verdade, correr atrás dos outros não satisfaz a solidão, pois não demonstra um real interesse do próximo. O solitário se sente desimportante na vida dos irmãos e vive uma real necessidade de ser amado e querido. Algo que ele não quer impor, pois precisa que ocorra espontaneamente. Correr atrás das pessoas não é o remédio para a solidão.

Como Igreja, precisamos estar constantemente atentos para os solitários que nos cercam. Devemos identificá-los e amá-los sem hipocrisia. A única forma de fazermos isso é saindo de nossa zona de conforto e indo até eles para buscar conhecê-los em profundidade, descobrir quem eles são e, a partir daí, criar vínculos verdadeiros. Não devemos amar os solitários como um gesto de caridade, “com pena” ou por “obrigação cristã”: precisamos buscar conhecê-los para criar laços verdadeiros de afeto mútuo e passar a amá-los de verdade. Temos de criar as circunstâncias para que eles de fato nos façam falta. Amizades não são apenas aquelas que a vida nos joga no colo, são também as que nos mexemos para construir. Mas, para o solitário, esse movimento partir dele não é um remédio muito eficaz, ele deseja ver interesse que parta das outras pessoas.

solidão3É bastante difícil para alguém que tem muitos amigos sinceros e vive numa atmosfera de amizade perene compreender a solidão. Quem vive imerso em amor não capta com facilidade a intensidade da dor que o solitário sente. O que fazer? Buscar em Deus a resposta. Em sua glória celestial, o Deus que é amor jamais sentiu solidão. Acompanhado, de eternidade a eternidade, pela Trindade santa, o Criador se basta a si mesmo e se complementa, vivendo numa unidade plural e singular que faz de si um ser pleno e absolutamente destituído de carência. No entanto, dos altos céus ele olhou para a humanidade solitária, despida da plenitude de Deus, e desceu à terra, fazendo-se solitário como os solitários, para nos devolver a capacidade de comungar para sempre com aquele que nunca nos deixará sós. E, ao fazer-se como um se nós, o Filho experimentou o gosto da solidão: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46), gemeu o Senhor agonizante. Por que Jesus decidiu vivenciar a dor dos solitários? Amor. Puro amor.

Meu irmão, minha irmã, há muitos solitários nas nossas igrejas. Peço a Deus que encha o seu coração do amor que é fruto do Espírito, para que você sinta em si a dor dos solitários e faça algo para cuidar de quem precisa urgentemente de calor humano. É aproximando-se de Deus que você terá discernimento para identificar as vítimas da solidão, frutificará em amor pelos tais e partirá em seu socorro com interesse genuíno. Ao fazê-lo, você estará permitindo que Deus o use para transformar a vida de tantos que precisam desse amor.

Afinal, já entendeu qual é o remédio para a solidão do seu irmão? Se você disse “Deus”… lamento, errou. Deus é o médico que aplica o remédio.  O remédio… é você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Medo1O medo está ali, depois da esquina, esperando para pular em nossas costas. A cada passo da vida, tememos. A cada dia, mais e mais medos se acumulam sobre nossa cabeça. Medo do desemprego. Medo da doença. Medo da escassez. Medo da depressão. Medo do abandono. Medo da solidão. Medo da dor. Medo do sofrimento. Medo de assaltantes. Medo da morte. Medo da vida. Medo do medo. Quem nunca sentiu medo que atire a primeira pedra. Ninguém gosta de sentir medo, mas é líquido e certo que ele virá. Será que há algo que possamos fazer? Será que saber que Jesus caminha conosco tem alguma influência?

Difícil, não é? As contas chegam, como não temer a falta de dinheiro? O médico faz aquela cara séria quando recebe o nosso exame, como não temer as dores que virão? O marido diz que precisam conversar, como não temer o divórcio que desponta no horizonte? O filho chega com as roupas cheirando a fumaça, como não temer que esteja dependente de algum vício? O medo está salivando, esperando a próxima situação difícil para gargalhar em nosso rosto com seu hálito fétido e cravar as unhas em nossa pele.

Medo2Diante do medo, um animal pode reagir de três maneiras diferentes: fugir, lutar ou paralisar. Se você foge, corre o risco de ser alcançado pelo problema. Se luta, pode perder o embate e sucumbir. Se paralisa, as mandíbulas se fecharão sobre você. Então o que fazer? Bem, veja por outro ângulo. Se foge, pode ser que consiga escapar. Se luta, pode ser que consiga vencer. E, se paralisa, pode ser que seja confundido com o ambiente e escape do ataque. Vemos, então, que cada reação pode gerar resultados diametralmente opostos. O que fazer?

Jesus enfatizou demais que não deveríamos ter medo. Os evangelhos listam 125 ordens que Cristo pronunciou. Dessas, 21 são “Não tenham medo”, “não temam”, “sejam corajosos” ou “tenham bom ânimo”. O segundo mandamento mais presente, que nos insta a amar a Deus e ao próximo, é mencionado oito vezes. Assim, a declaração que Jesus faz mais que qualquer outra é esta: não tenha medo. Acredito que ele sabia o que estava dizendo. Repare as palavras da vida:

“O Senhor é bom, um refúgio em tempos de angústia. Ele protege os que nele confiam” (Na 1.7).

“Aquele que habita no abrigo do Altíssimo e descansa à sombra do Todo-poderoso pode dizer ao Senhor: ‘Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio’” (Sl 91.1-2)

“Descanse somente em Deus, ó minha alma; dele vem a minha esperança. Somente ele é a rocha que me salva; ele é a minha torre alta! Não serei abalado! A minha salvação e a minha honra de Deus dependem; ele é a minha rocha firme, o meu refúgio. Confie nele em todos os momentos, ó povo; derrame diante dele o coração, pois ele é o nosso refúgio” (Sl 62.5-8)

Medo3A verdade é que não importa se você foge, luta ou paralisa. O que importa é agir tendo Jesus ao seu lado, como seu refúgio, sua fortaleza, a esperança em todos os momentos. Pedro temeu e, por isso, começou a afundar nas águas bravias do mar da Galileia, até que uma mão divina o segurou e o puxou para fora do medo. “Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me! E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14.30-31). Não duvide. Porque, se o medo puxa você para baixo, Jesus o sustém. Se o medo pula em suas costas, Jesus o arranca. Se os medos cravam as unhas em sua carne, Jesus os espanta. Jesus é segurança. Ele é o sorriso de conforto em meio à angústia. É a mão que nos ergue quando as pernas fraquejam. É o pão que sacia a fome. É a água que nos revigora no deserto. Jesus é a paz. Jesus é o porvir. Jesus é a resposta.

Você está sentindo medo neste exato momento? Está envolvido em uma situação sobre a qual não tem controle? As pedras voam em sua direção e você já sofre em antecipação ao impacto? A dor é grande? O que virá é incerto? Só vê sombras no futuro? Está com medo?

Então grite em um sussurro: “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim…”. Ele ouve, meu irmão, minha irmã. O Criador dos céus e da terra sabe quem você é e cada segundo da sua vida está diante dos olhos do seu Salvador. Ele planejou sua vida, o semeou no ventre de sua mãe, formou o seu corpo, soprou fôlego em suas narinas, o tomou pela mão no berço, o conduziu pela vida, o amou intensamente a cada instante da sua jornada. Por que você acha que neste momento ele o abandonaria? Não. Ele conhece o seu medo. E ele diz: “Não tenha medo”. Não é uma frase feita, um jargão para fazê-lo relaxar sem a certeza de que o alívio virá. Jesus não faz assim. Se ele diz para você não temer é porque ele dá garantias.

cruz“Não tenha medo” em nossos lábios humanos é uma esperança. Mas nos lábios que beberam o cálice da cruz é uma promessa e uma certeza: “Não tenha medo. Pois eu sei. Eu controlo. Eu domino. Em governo. Eu reino. Eu mando. Eu estou com você todos os dias, até o fim dos tempos”. Na cruz, ele derrotou o pecado. A morte. O inferno.

E o medo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Ausencia1É muito comum ouvirmos irmãos reclamarem, tristes, porque não estão sentindo a presença de Deus. É interessante isso, porque as últimas palavras que Jesus disse antes de ascender ao céu foram precisamente: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Geralmente, numa despedida, as pessoas deixam para falar ao final o que há de mais importante a ser dito, para que aquilo ecoe para sempre nos ouvidos do receptor. É comum darmos atenção às últimas palavras de alguém que está para morrer, pois entendemos que há um significado especial naquilo que será a mensagem derradeira dele. Logo, Jesus não deixou para dizer essas exatas palavras por último à toa. Elas deveriam ecoar diariamente em nossa mente: o século ainda não se consumou, portanto Jesus está conosco. Jesus está conosco, meu irmão, minha irmã. Jesus está com você. E note algo: o Mestre disse “todos os dias”. E o hoje faz parte dos “todos os dias”. Logo, Jesus está hoje com você.

Então temos aqui um conflito. De um lado, Jesus fez questão de deixar ecoando na sua mente a absoluta e irrefutável certeza de que ele estaria com você hoje. Do outro lado está você, triste, porque diz que não sente a presença de Jesus hoje. Não creio que Jesus tenha mentido. Então a questão não é se ele está ou não com você (pois ele está, como afirmou que estaria), o problema é que há em você uma percepção da ausência dele. E isso tem de ser resolvido.

Foto gentilmente cedida por giselli m. (ficamaisessedia.blogspot.com )Presença é algo incrivelmente forte. Proporcionalmente, a ausência também. Quem é que nunca “morreu de saudade” de alguém? E repare: associar saudade a morte fala muito sobre a força que tem a ausência de um ente amado. Quando amamos, a presença se torna imprescindível. Amor sem presença é um universo inteiro dentro do peito composto só de espaços vazios: sem Sol, sem Lua, sem estrelas, nada – um vácuo escuro e silencioso.

Corremos para encontrar nosso amor. Armamos esquemas para poder estar juntos alguns minutinhos a mais por dia. Pegamos aviões para passar um fim de semana que seja com o amado que mora em outra cidade. Mandamos torpedos. Enviamos e-mails. Aguardamos, aflitos, sinais de vida de quem amamos: é só o telefone tocar ou o barulhinho de chegada de e-mail soar que o coração dispara. O amor exige presença.

Nunca me esqueço de uma conversa ocorrida meses atrás com uma pessoa querida que tinha perdido seu noivo de forma trágica. Ela me disse: “Sei que ele morreu há muitos anos, mas até hoje eu o amo”. Que coisa forte! Impacta-me e me emociona pensar nisso. E eu via nela o sofrimento da ausência compulsória. O mesmo ocorre quando pessoas amadas vivem geograficamente longe. Meu irmão de sangue mora em outro continente, para onde foi há mais de vinte anos. Se você me perguntar se a dor da partida dele arrefeceu com o tempo eu te diria num piscar de olhos: não! Nós nos falamos pela internet com certa regularidade, de dois em dois anos ele vem com a família ao Brasil e de tempos em tempos vou visitá-lo, mas cada adeus é uma punhalada no coração. Não, ainda não me acostumei à ausência dele, mesmo depois de mais de duas décadas e muitos reencontros. Distância nos faz, de saudade… morrer. Ausência machuca. Ausência de alguém que amamos é um doloroso e sufocante terror. Eu odeio a ausência.

Ausencia5Fiquei na dúvida se daria a este texto o título de “A ausência da presença” ou “A presença da ausência”. Após refletir um pouco, optei pelo segundo, porque, embora pareçam similares, há uma diferença substancial no peso de cada um. Uma presença ausente fala de alguém que deixou um vazio. Isso é doloroso, mas se refere a algo que não é. Só que a presença da ausência é muito mais forte, mais dolorosa, mais nefasta. Porque se refere à presença do vazio deixado por quem não está. Algo que é. E está ali, assombrando, machucando. O vazio torna-se um personagem palpável, concreto, sólido, espinhoso, agressivo. Não é apenas uma suave ausência. É a terrível presença do nada. “A ausência da presença” me lembra um salão vazio e silencioso, algo que, apesar de ruim, é suportável. Já “A presença da ausência” me remete a um salão lotado, cheio, absolutamente tomado por uma ausência que se faz presente e é barulhenta, ruidosa, espaçosa – insuportável.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuem ama também vivencia um fenômeno interessante: carrega perenemente o ser amado dentro de seu peito. O amor cria um vínculo constante e diário de presença do outro: na mente, no coração, na alma. Há uma canção que traduz bem esse fenômeno, quando o cantor diz “onde está você agora além de aqui, dentro de mim?”. É exatamente isso. Na ausência há uma presença assombrosa do ser amado, que habita pensamentos, lembranças e sentimentos com a constância do pulsar de um coração. Só que é uma presença sem resposta, pois o outro está longe. Não se pode tocar no outro, conversar com ele, olhar em seus olhos. É ter uma fome que jamais se sacia – até que, um dia, a presença se faz percebida de modo concreto.

Creio que esse é o caso de quem diz que não está sentindo a presença de Deus: anseia-se desesperadamente por uma presença mais palpável do que a que há naquele momento. Jesus está ali. Mas seu servo considera aquilo insuficiente. É como se dissesse: “Deus, por favor, pegue um avião e venha até aqui para que eu possa te tocar, abraçar, beijar e olhar dentro de teus olhos!”. Só que Deus não faz isso. Na verdade, nunca fará. Então há dois caminhos: ou o servo que se sente abandonado se conforma ou busca meios de perceber a presença divina. E que meios são esses?

Oração e estudo da Bíblia.

Ora, Zágari, isso não é nenhuma novidade! Isso estou cansado de saber e não precisava ter lido este post enorme para que você me diga o que é óbvio! Sim, concordo, é óbvio. E é óbvio porque é como Cristo se faz presente entre nós desde que ascendeu aos céus. É na comunicação com ele que você se aperceberá de sua presença. Pois ele está aí, juntinho de você. Você é que não se dá conta! E, por isso, não “sente a presença de Deus”. É como pôr a mão no fogo e não sentir o calor. Quer sentir o calor desse fogo? Ore. Estude as Escrituras. E as portas da percepção dessa presença se abrirão. Se é óbvio… basta pôr o óbvio em prática.

Ausência de quem se ama é uma das piores dores do mundo. Querido, querida, não se inflija essa dor pelo fato de supor que está ausente alguém que, na verdade, está presente. Ele afirmou que estaria. Ele está. Seu pecado não o expulsou. Ele não disse que estaria conosco todos os dias “menos naqueles em que você pecar”. Não. Todos os dias são todos os dias. E, cá entre nós, a gente peca… todos os dias.

Jesus é contigo. Ele está bem aí em você. Não sofra pela ausência de quem não está ausente. O que falta é você se dar conta – pela oração e pela Palavra – de que ele não foi a lugar algum. E permanece com você todos os dias, até a consumação do século.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

S09A solidão faz parte da vida de muitos de nós. Não são poucas as pessoas que vivem cercadas por multidões mas, por trás dos sorrisos artificiais, vivem em estado de absoluta solidão. Pessoalmente valorizo muito o estar só, buscar um lugar isolado, sentar-se e ficar apenas pensando, misturando o som de ondas com o de pensamentos – é uma dinâmica extremamente produtiva. Gosto de fazer isso. Como diz Frejat, “às vezes levo o meu corpo para passear”, é por aí. Só que isso não é solidão, é solitude. Embora pelo dicionário os dois termos sejam sinônimos, na vida prática estão muito distantes. É interessante pensar em solitude como uma “atitude de buscar estar só”, é algo voluntário, escolhido, almejado. Já a solidão e mal-vinda, é perniciosa, faz mal, nos envelhece, dá câncer, é feia. Dói.

Quando Jesus buscava isolar-se no monte ou no jardim, ele procurava a solitude. O cristão tem um benefício a mais que pode agregar a esses momentos: a oração. Em instantes de solitude, é possível alternar períodos de reflexão com de oração. Até mais: de leitura – da Bíblia ou de algum bom livro. Em suma, solitude é uma bênção, pois pode reunir três das coisas mais maravilhosas que há: reflexão, oração e leitura.

Em contraste, solidão é uma maldição. Ela nos transforma em panelas de pressão, desesperadas por conversar com alguém, sedentas por um pouco de afeto (seja dar ou receber), cheias de sentimentos acumulados a compartilhar… mas não há uma válvula de escape. O resultado é que carregamos universos dentro So0do peito mas não há ninguém com quem possamos dividir a beleza desse espetáculo cósmico. Solidão é um “eu em mim” involuntário e compulsório.

O ser humano foi feito para compartilhar. Em termos eclesiásticos, o nome disso é comunhão. E, pela enorme quantidade de cristãos solitários que existem por aí, fica clara a urgência que existe de haver uma comunhão mais sincera, ampla e devotada entre nós. Em geral, chamamos equivocadamente de comunhão aquele lanchinho oferecido após o culto, a pizza depois do grupo pequeno, a festa de aniversário de um irmão. Tudo isso é muito bom e tem o seu mérito, mas a verdadeira comunhão não é isso. A começar pelo real sentido do termo: “união comum”. Não necessariamente desenvolver atividades sociais promove união. Acredito que proporcionam contatos e conversas, mas não união. Porque união passa a ideia de se fundir. O que é algo muito mais profundo, que pressupõe mergulhar no coração do outro.

Minha teoria é que há tantos solitários dentro das igrejas porque não conseguimos de fato promover a união. Não abrimos nossos anseios mais íntimos para o outro. Não compartilhamos nossos dramas mais escondidos com ninguém. Não entregamos nosso afeto como fomos feitos para entregar porque há milhões de barreiras sociais, culturais ou pessoais. E, com isso, retemos. Engolimos. Nos ensimesmamos. E, se você vive a solidão, sabe o quão terrível é isso, como um animal selvagem que nos estraçalha por dentro. Ninguém se basta a si mesmo: precisamos uns dos outros.

So4Viver somente para si é uma das coisas mais tristes que há. Jesus chamou seus discípulos de amigos, pois até o Deus humano precisava de comunhão. Ele sofreu ao ver que no seu momento de agonia os amigos dormiram, o abandonando à solidão. Você pode dizer que só a comunhão com Deus importa, que ele supre todas as nossas necessidades. Bem… ai de quem não tem o Senhor para compartilhar. Mas existem coisas para as quais só o ser humano serve. Pense: Deus criou a mulher usando o argumento de que não era bom que o homem vivesse só. Mas… o homem não estava com o Criador no Éden? Então ele não estava só. Conclui-se que o Senhor sabia que certas necessidades emocionais e afetivas apenas outro ser humano pode suprir. Mas muitos preferem empurrar o próximo para Deus em vez de se doar a uma real comunhão. Terceirizam a presença que poderia acabar com a solidão de muitos. Só que, assim como o Senhor nos usa para muitas coisas, também quer que nós sejamos o canal para combater a solidão de nossos irmãos.

Solidão, ao contrário do que muitos pensam, não tem a ver com a quantidade de pessoas com quem você se relaciona. Tem a ver com a qualidade da conexão que se estabelece entre você e o outro. Milhões de pessoas ao redor não são garantia do fim da solidão. Uma única pessoa que seja, mas que tenha acesso ao nosso mais profundo íntimo sim, representa o fim da solidão. Davi e Jônatas que o digam. “Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1Sm 18.1).

Em grande parte, a culpa por haver tantos irmãos e irmãs vivendo em profunda solidão é minha e sua. Porque não nos devotamos de fato a amar o próximo como a nós mesmos. Não partimos ao encontro do outro. Não nos disponibilizamos a comungar, ou seja, a participar de uma união que seja comum. Não ousamos. Não nos atrevemos a expor a alma.

So7Oro a Deus que aqueles que guardam gritos presos na garganta encontrem alguém com quem consigam se identificar a tal ponto que tsunamis de sentimentos, pensamentos, tristezas e frustrações possam ser compartilhados e, assim, o caminho para a paz venha a se estabelecer. Pois ter alguém com quem se pode falar tudo, com quem se chore, que nos abrace e segure nossa mão em amor, que olhe nos nossos olhos e saiba tudo sem que precisemos dizer nada… é uma das maiores bênçãos que podemos receber. Bem-aventurados são aqueles que têm nem que seja uma única pessoa especial com quem possam ser eles mesmos em tudo. Pois isso é o início da mais íntima comunhão – e o fim da solidão.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício