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“Quem é o seu teólogo favorito?”. Essa pergunta me foi feita recentemente por uma irmã que participou de um bate-papo ao vivo que organizei em meu facebook (uma “live”, como se costuma chamar), para falar sobre livros de ficção cristã, por conta do lançamento, mês passado, de meu mais recente livro, Sete enigmas e um tesouro (editora Mundo Cristão). Não tive dúvidas: na mesma hora, respondi: “Meu teólogo favorito é a dona Maria”. Diante das reações de espanto dos amigos que participavam do bate-papo virtual, que esperavam nomes como Tim Keller, Agostinho ou Dooyeweerd, expliquei quem é essa grande e profunda teóloga. Gostaria de lhe falar sobre isso também.

É muito comum, quando se fala de teologia, pensar-se que um “grande teólogo” é um acadêmico. Aquela pessoa que tem muitos livros escritos e que dá aula em seminário teológico, além de palestras em conferências e congressos. Sem desmerecer os queridos irmãos que se encaixam nessa descrição, não considero esse o perfil de um “grande teólogo”. O “grande teólogo” é, para mim, aquela pessoa que consegue viver tudo o que a teologia cristã abarca com real profundidade e intimidade com Deus.

Pobreza, ou pequenez, de conteúdo, em se tratando do evangelho, não é a ausência de parâmetros acadêmicos. Muitos teólogos transbordantes de conhecimento intelectual são pobres no conteúdo cristão e muitos irmãos e irmãs com pouca bagagem teológica formal são ricos no conteúdo do evangelho que propagam. Riqueza de conteúdo cristão não significa capacidade de decorar o que dezenas de pensadores e teólogos disseram ou escreveram. Isso é acúmulo de conhecimento, o que é excelente e deve ser feito, mas não é pré-requisito para uma mensagem cristã ser rica. Em Cristo, riqueza pode vir da simplicidade.

Uma mensagem rica em conteúdo cristão é qualquer uma, simples ou complexa, que enxergue o cerne do evangelho e consiga transmitir para o interlocutor os valores e conceitos vitais do reino, sobre os quais a boa-nova de Cristo está alicerçada. Mensagens notoriamente simples, coloquiais e acessíveis no conteúdo podem carregar enorme profundidade teológica cristã. Ou você crê que os extremamente simples Sermão do Monte e parábolas de Jesus são rasos, superficiais e pobres em sua mensagem?

A realidade é que ser simples não é ser pobre. E ser rebuscado não é ser rico. Há teólogos que carregam gigantesca bagagem intelectual mas que usam seus muitos conhecimentos a fim de menosprezar pessoas e grupos dos quais discordam. Falam com muito conhecimento acadêmico, mas o que suas palavras geram são dissensões, menosprezo, ódio e arrogância — tudo, vícios condenados biblicamente. Nesse sentido, sua mensagem é, apesar de rebuscada, paupérrima. Embora a ignorância acerca do conhecimento teológico acadêmico não seja em nada desejável, por definição bíblica um analfabeto pode ser muito mais rico em seu conteúdo espiritual do que um PhD em Teologia, desde que ele transborde em devoção, piedade e temor resultante de riquezas relacionais com Jesus.

As palavras de Paulo em Colossenses 3.12-16 nos mostram o que profundidade teológica significa: possuir conteúdo transbordante de compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Compreensão. Perdão. Um diálogo teológico cristão rico e profundo em sua mensagem é o que ocorre entre pessoas que deixam a paz de Cristo governar seu coração, e não que recorrem à sua vasta bagagem intelectual a fim de esmagar o adversário debaixo dos pés de seus argumentos retóricos bem construídos. Derrotar, afinal, não é a meta – edificar é. Precisamos de menos machões briguentos e arrogantes nos diálogos teológicos e precisamos de mais pessoas que consigam dialogar com o diferente demonstrando as virtudes do fruto do Espírito. Não custa lembrar quais são elas: Mansidão. Amor. Paz. Amabilidade. Domínio próprio. Alegria. Fidelidade. Paciência. Bondade. Isso é riqueza no conteúdo da mensagem. É profundidade. E é grandeza.

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Dona Maria não é uma pessoa real. É uma personagem que criei para representar as muitas pessoas que cruzaram meu caminho e que são simples em seus conhecimentos acadêmicos sobre a teologia cristã, mas riquíssimas em sua aplicação da teologia cristã em sua relação com Deus e o próximo. Dona Maria é o irmão Tinoco, a irmã Célia, o pastor Luiz e tantos outros anônimos que me ensinaram com profundidade ímpar o que significam o cristianismo e o ser cristão.

Por outro lado, cruzaram minha vida ao longo dos anos pessoas dotadas de títulos extensos e pomposos; com fama entre os evangélicos; dotados de memórias prodigiosas para decorar nomes de autores, teólogos, filósofos, citações e trechos de livros, mas cujo impacto transformador na minha vida foram neutros ou, até, extremamente negativos. Esses, apesar de seus muitos predicados, não considero “grandes teólogos”. São apenas cristãos cheios de conhecimento, mas rasos e pequenos em seu temperamento, em sua piedade, em seu exemplo, em sua autopercepção e na manifestação do amor cristão.

Meu irmão, minha irmã, não se satisfaça com o pouco conhecimento da teologia acadêmica. Busque, sempre, adquirir mais e mais bagagem intelectual, penso que Deus se agrada disso. Porém, se esse conhecimento vier despido de piedade, intimidade com Cristo, amor visceral ao próximo, humildade (vivida e não fingida) e abnegação, tenha a certeza de que você jamais será um “grande teólogo”. Aliás, pensando bem, não procure ser um “grande teólogo”, mas, sim, um cristão humilde e que aplica a teologia na prática da vida, para edificar a Igreja e glorificar a Deus, assassinando a cada nova manhã o seu próprio ego. Se formos assim, aí sim, a nossa teologia terá valido para alguma coisa além de alimentar o nosso gordo ego teológico.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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Acordei me sentindo mal. Febre, moleza, dor de garganta, tosse, rouquidão, dor no peito. A coisa não estava bonita. Decidi ir à emergência de um conceituado hospital do Rio de Janeiro e, após ser examinado pela jovem médica, o diagnóstico: vírus. Na receita, um corticoide, um xarope para a tosse, um antitérmico e a promessa de em cinco dias estar bem. Vida que segue. Só que não. 

Foram dez dias tomando os remédios e, adivinhe, não adiantou absolutamente nada. No décimo dia, eu estava inchado e todos os sintomas persistiam. Eu não aguentava mais tossir, estava exausto, molenga e frustrado. Decidi, então, ir a um otorrino. Para minha surpresa, o diagnóstico dele foi completamente  diferente do da primeira médica: não era vírus, era bactéria. O remédio receitado: antibiótico. E, dessa vez, já no primeiro dia de tratamento comecei a melhorar. Pela primeira vez em duas semanas, consegui dormir bem. E, em cinco dias, eu estava curado. 

A conclusão: se o diagnóstico está errado, o tratamento será errado – e não haverá cura. E, além disso, perderemos um tempo enorme, sofrendo, doentes, tratando uma coisa quando deveríamos estar tratando outra. 

Muito se fala hoje sobre os problemas da igreja, falhas cometidas por cristãos ou supostos cristãos que adoecem o Corpo de Cristo. Nós, naturalmente, devemos buscar corrigi-los, sempre, e da maneira bíblica: não brigando, mas instruindo com mansidão, na esperança de que Deus dê o arrependimento para quem está provocando esses problemas (2Tm 2.24-26). Mas, para tanto, precisamos diagnosticar corretamente aquilo que tem adoecido a igreja. Devemos mirar no que é prioritário e não secundário. A questão é que muitos estão travando combates com base em diagnósticos errados e, por isso, os problemas principais não estão sendo combatidos. Um desperdício de tempo, energia e intelecto. E, enquanto se investe tanto no que é secundário, os problemas prioritários continuam nos infectando, envenenando e afastando de Deus. 

O maior mandamento do cristianismo é amar a Deus e ao próximo. Portanto, isso é prioridade máxima na vida do cristão. Já ouvi muita gente boa dizer que o maior problema da Igreja em nossos dias é a superficialidade. Eu discordo. O maior problema da Igreja em nossos dias é a falta de amor ao próximo. Jesus nunca disse “Sede profundos”, mas disse muitas vezes “Amai”. Assim como Paulo. Assim como João. E, como eles, devemos também nós priorizar o que é prioritário. 

Não estou defendendo que devemos valorizar a superficialidade teológica, não é nada disso. O que defendo é que se priorize o que Jesus priorizou. E ele priorizou o amor. Dedicar sua vida a conduzir as pessoas à profundidade teológica mas fazer isso sem amor é uma postura completamente insana do ponto de vista cristão.

A realidade é que não temos amado as pessoas. Não as corrigimos com paciência e mansidão (como ordena a Bíblia), mas com fúria; não estendemos a mão aos necessitados, mas terceirizamos a caridade; não olhamos para quem discorda de nós com compaixão, mas com raiva e rancor; não buscamos desenvolver o fruto do Espírito, mas inventamos desculpas pseudobíblicas para continuar sendo pessoas desagradáveis, prepotentes e altivas sob um manto “evangélico”; não socorremos a pessoa diferente que está caída à beira da estrada, mas fingimos que não vemos ou pisamos em sua cabeça. Tudo isso, e muito mais, denuncia falta de amor ao próximo e um gigantesco amor ególatra por si mesmo. Esse é o maior câncer da Igreja em nossos dias. 

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É decepcionante ver tanta gente culta e muito mais bem preparada do que eu dedicar seu tempo a causas e bandeiras que visam a defender e propagar a sua visão de cristianismo, mas que o fazem abandonando completamente atitudes e conceitos que são pilares do cristianismo. Como amor. Paciência. Mansidão. Autocontrole. E, enquanto proliferam argumentos e debates feitos de forma totalmente anticristã no jeito de se posicionar, muitas vezes sobre velhas questões que nunca serão unanimidade no cristianismo, perde-se um tempo enorme e precioso que poderia ser investido naquilo com que todos os cristãos concordam que é fundamental. Um exemplo é a falta de perdão. 

Uma quantidade avassaladora de cristãos não entende o perdão bíblico e por isso não o pratica. De quem é a culpa? Nossa, os que ensinamos. Professores, teólogos e pastores que priorizam tantos assuntos secundários e periféricos em detrimento do que está no tutano do evangelho. Pouco se prega sobre perdão nos púlpitos, sendo que ele é uma das colunas centrais do cristianismo. Não se organizam conferências teológicas sobre o tema. O assunto é tão urgente que, para você ter ideia, meu livro Perdão total em menos de três anos de publicado já está na quinta tiragem, com 15 mil exemplares impressos. Perdão total no casamento, por sua vez, esgotou os 5 mil exemplares da primeira tiragem em apenas 40 dias. Isso quer dizer que sou um escritor maravilhoso? Claro que não. Eu apenas exponho o que a Bíblia diz, com simplicidade e de um jeito fácil de entender. O que essa vendagem expressiva diagnostica é que as pessoas estão precisando desesperadamente perdoar e ser perdoadas, mas não compreendem o perdão e, por isso, não o vivenciam. Estão sedentas de instrução sobre o assunto, mas quase não vejo ninguém falar sobre a urgência do perdão. Preferem ficar discutindo loooooongamente assuntos secundários da fé, coando mosquitos e engolindo camelos. 

Quem diagnostica problemas equivocados ou quem hipervaloriza assuntos que Jesus mesmo não valorizou está, sem perceber, afastando as pessoas da mensagem que Cristo priorizou. Com isso, ajuda a manter a Igreja doente. São parte do problema e não da solução. E não enxergam isso, lamentavelmente. 

Há tumores no seio da Igreja? Há, sem dúvida. Tristemente, os temos diagnosticado equivocadamente e, por isso, nosso tratamento mais adoece do que cura – ou, simplesmente, não faz efeito algum no que se refere aos reais problemas do Corpo. A dolorosa realidade é que, assim como há muitos falsos mestres e falsos profetas entre nós, há também muitos falsos médicos.

Não adianta combater heresias sendo herético na forma de agir. Não adianta querer mudar a soteriologia, a crença carismática ou a escatologia de outros cristãos de modo anticristão. Não adianta debater com os inimigos da fé de uma forma que fere os princípios da fé, pois a forma importa tanto quanto o conteúdo. Precisamos priorizar o que é prioritário, amando o próximo e levando outros a amar, perdoando e ensinando a perdoar, investindo na unidade do Corpo e não em dissensões e facções, convivendo com o diferente de forma pacífica e instruindo com mansidão, buscando viver o fruto do Espírito em tudo o que fazemos e falamos. Não fui eu quem ensinou isso, está num livro que você provavelmente tem em casa. 

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E, em tudo, devemos lembrar do mal maior: o pecado. O pecado é a célula original do câncer. É ele que nos leva a odiar os inimigos, a ser debochados nos debates, a tratar o diferente com raiva e rancor, a não perdoar, a nos acharmos superiores aos demais, a ser impacientes no diálogo com os equivocados, a formar patotas e desprezar os demais, a nos envaidecer diante dos elogios e a tantas outras formas de sermos problemas na igreja. 

Meu irmão, minha irmã, não existe nenhuma forma melhor de contribuir para a saúde do Corpo do que combater o pecado que ganha espaço no próprio coração. Sugiro que você pare um pouco de olhar para o lado, para o outro, e comece a olhar para dentro de si. Que pecados de estimação você identifica? Desamor? Vaidade? Egoísmo? Espírito faccioso? Inimizades? Você vira o rosto para quem não gosta e em vez de se reconciliar com ele finge que não o vê e se recusa a estender a mão? Sente ressentimentos? Sente alegria na derrota alheia? Tem o hábito de sempre se posicionar altivamente como o certo e considerar quem discorda de você como filho do diabo? Quais são, afinal, os pecados que se alimentam do seu ego e dos quais você não tem demonstrado vontade alguma de se livrar? Acredite, esses pecados são o mal maior da Igreja, pois você é Igreja e o seu e o meu pecado são o maior câncer do Corpo de Cristo. 

Proponho algumas reflexões: você tem feito parte da cura ou da doença? Quais têm sido os seus diagnósticos sobre os problemas principais da igreja? Você se preocupa com os problemas que a Bíblia de fato mostra que são problemas ou com o que está na moda e o que seus teólogos e pastores favoritos combatem nas redes sociais? E a pergunta principal: o que você fará a respeito dos seus próprios erros – os erros reais, aqueles que envenenam seu coração -, de forma a contribuir para a saúde da Igreja de Jesus?  

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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