Posts com Tag ‘dez mandamentos’

Estou escrevendo este post mais como um desabafo do que por qualquer outra razão. Se você conhece alguém que faz da sua vida um inferno, vai me entender, pois há um irmão em Cristo que me atormenta e preciso pôr para fora a minha ira – que é santa, naturalmente – senão parece que vou explodir.

É muito duro para nós, que somos santos e irrepreensíveis, aturar esse tipo de gente falível. Pode ser que a pessoa que você não suporte seja um vizinho que ponha músicas horríveis no maior volume sempre que você quer dormir. Ou um colega de trabalho que minta contra você. Ou, ainda, uma irmã da igreja que te irrita, magoa ou toma atitudes contra sua paz. Pode ser, até mesmo, o seu chefe, quem sabe, ou o pastor que, em vez de zelar por tua alma, te oprime, subjuga, denigre e prejudica. E você odeia tudo de ruim que há nessa pessoa. Quer fazer parecer que não, pois, afinal, odiar não pega bem para um crente. Mas, lá no  fundo do coração, você sabe que odeia. Talvez não tão no fundo assim.

Pois bem, há um cara que me tira do sério. Sou obrigado a conviver com ele por causa das circunstâncias da vida, mas ele é chato, pecador, egoísta, mesquinho e insuportável – tudo o que eu não sou. Por favor, permita-me desabafar.

Conheço esse cara desde a infância. As primeiras lembranças que tenho dele são anteriores aos meus 3 anos de idade, pois morávamos na mesma rua. Anos e anos e anos suportando esse cidadão. Crescemos juntos e, por uma série de situações, que não vêm ao caso, fui obrigado a conviver com ele em muitas áreas de minha vida. Hoje, inclusive, ele calhou de frequentar a mesma igreja que eu – para meu azar e irritação.

Uma das coisas que mais me incomodam nele é que E. (permita-me chamá-lo apenas pela inicial) se faz passar por meu amigo e tem toda a aparência de crente, mas é um tremendo pecador. Como o conheço há tanto tempo, temos intimidade suficiente para eu saber coisas de sua vida que ninguém mais sabe. Ele me conta pensamentos terríveis e atos completamente reprováveis do ponto de vista bíblico. Às, vezes, confesso, chego a ter uma certa repulsa por E., tamanha é a sua pecaminosidade. E é duro para uma pessoa tão correta como eu aguentar isso. Mas, infelizmente, sou obrigado a conviver com ele, então não tenho para onde correr.

APENAS_Banner três livros Zágari

Clicando na imagem acima você vai para a livraria virtual Amazon

Eu me encontro com ele nos cultos. O vejo levantar as mãos no louvor, fazer aquela carinha de santo na hora da oração e ostentar seu jeito insuportável de cristão nota dez, quando eu sei quem ele é e as coisas horríveis que pensa e faz. Na verdade, eu o fico observando o culto inteiro e me enoja quando ele fica chorando, pedindo perdão por seus pecados, quando sei que ele vai sair da igreja e pecar de novo. E me sinto obrigado a pedir que Deus pese a mão sobre ele, pra ver se toma jeito. Miserável pecador…

Você conhece alguém assim? Por favor, me diga como devo proceder. Às vezes, quando prego, confesso que já exortei muito pensando nele, pois sabia que ele estava ouvindo. Sabe quando você faz uma explanação que parece generalista mas tem endereço certo? Você pode até achar feio eu ter feito isso, mas confesso: eu fiz. Dei montes de indiretas para E. em muitas de minhas pregações, para ver se ele, de algum modo, era tocado por Deus e mudava. Não sei se adiantou, só o Senhor sabe, mas fiz a minha parte.

Pense em apenas alguns dos dez mandamentos. E. muitas e muitas vezes priorizou outras coisas no lugar de Deus.  Honrar pai e mãe? Coitados, lembro que, quando éramos crianças, ele dava um trabalhão. “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”? Como negar as montanhas de vezes em que ele fez isso? “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo”? Tudo bem, admito, nunca o vi cobiçar o jumento de ninguém, de resto perdi a conta de quantas vezes o flagrei invejando o que não lhe pertencia. Cara, desculpe, mas E. tem tantos buracos em sua santidade…

Você tem algum E. na sua vida? Pense aí. Lembrou de alguém intragável, que parece só ter vindo ao mundo para te irritar, chatear, fazer chorar? É que realmente as circunstâncias não permitem, mas por mim eu mandava exilar E. no Tibete. Sabe o que mais me tira do sério? Ele até fala uma ou outra coisa legal, por isso tem gente que o elogia, que o acha alguém especial. Desculpem, mas eu conheço bem esse cara. Se duvidar, uns 95% dos elogios que ele recebe são imerecidos. E. precisa desesperadamente do perdão de Deus, pois tem muitas e muitas coisas a melhorar. Já falei isso a ele. Mas parece que, na maioria das vezes, o cidadão não me ouve!

Bem, acho que já desabafei o suficiente. Eu odeio tudo o que E. tem de ruim. Odeio. Odeio sua pecaminosidade, o fato de ele fazer menos do que poderia pelo próximo, odeio quando não pede perdão pelos seus pecados, odeio suas fraquezas. Ele me tira do sério.

Mas… tem uma coisa.  Apesar de tudo isso, eu sei que Jesus o ama.

A despeito de seus defeitos, suas falhas, seus pecados, sua omissão, tudo, tudo, tudo o que faz de E. uma pessoa odiosa… Jesus o ama. Não entendo todo esse amor por um zero à esquerdaCara6 como ele, asseguro que não entendo. Mas sei que isso tem um nome: graçaE. não vale nada, mas a graça o faz valer o mundo para Deus. Foi por esse cidadão que o Cordeiro de Deus subiu à cruz, foi moído, rasgado, cuspido, ofendido, morto. E eu acredito que, porque a salvação é pela graça e não por mérito, um dia ele irá para o céu. Graça. Esse é o segredo. Essa é a explicação. Essa é a esperança. Essa é a certeza. Essa é a fé. Pois a graça não faz Deus ver toda a sujeira que E. carrega em si quando olha para ele. Quando o Pai fita seu olhar em E., o que ele enxerga é o Cordeiro que foi imolado por cada um dos seus pecados.

Conheço bem E. Ele habita dentro de mim. E., de Eu. Sim… o nome de E. é Maurício Zágari.

Obrigado, Senhor, por não me ver como eu sou, mas como Jesus é.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari
Facebook: facebook.com/mauriciozagariescritor
Instagram: instagram.com/mauriciozagari
.
 Você pode ouvir o áudio com a narração deste texto no YouTube, clicando AQUI (Duração 19:11).
.
.
 odio 1O cristianismo é a religião da graça, do amor, da paz. Uma das grandes diferenças entre a fé cristã e outras religiões é que o nosso Deus não é uma besta-fera sedenta por sangue, ansiosa por punir, salivando por castigar quem se desvia um milímetro dos seus preceitos. Muito pelo contrário: o evangelho de Jesus Cristo foca em perdão, restauração, reconstrução, bênçãos sem merecimento, graça; é a proposta do filho pródigo, do bom Pastor, do 70 vezes 7, do Cordeiro de Deus que estende uma graça que não é barata, mas que nunca deixa de ser vigorosa graça. Sabendo disso, enxergo como totalmente incompatível com essa fé que qualquer cristão defenda ou pratique a violência, a agressividade, o ódio – seja no que faz, seja no que fala, seja no que escreve. Qualquer cristão que proponha como primeiro recurso com relação a pessoas que agem ou pensam de modo diferente revidar, agredir, ironizar e retaliar, em vez de usar um tom gentil e de conduzir quem incorre no erro para a restauração… simplesmente não entende o evangelho. A sensação que tenho com frequência é que ser cristão, no entendimento de muitos, deixou de ser amar a Deus e ao próximo para defender Deus com fúria e detonar o próximo que pensa diferente ou que faz algo de que discordamos. Falemos sobre essa maligna doutrina do Jesus raivoso, agressivo e sarcástico.
.
Há meses tenho observado muito os meus irmãos em Cristo, em especial pelas redes sociais. E tenho ficado boquiaberto e triste com o jeito de que uma multidão deles se expressa, age e, principalmente, reage a quem discorda deles ou faz algo com que não concordam. Em nome da “defesa da fé”, muitos se comportam de um modo que nada tem a ver com a nossa fé: com agressividade. Sarcasmo. Raiva. Parece que, se o ódio é destilado “em nome de Jesus”, é válido agir como um bruto, um bárbaro, um ser humano desagradável.
.
odio 2O que mais me espanta é que, sempre que você diz que essa forma de comportamento não condiz com o evangelho, o argumento bíblico é o mesmo: o episódio de Jesus no templo derrubando as mesas dos cambistas e vendilhões. Já ouvi isso montes de vezes. Parece que todo cristão que se exprime com agressividade se justifica dizendo que Jesus se irou e saiu derrubando a mercadoria dos vendilhões do templo; logo, teríamos sinal verde para atacar com fúria quem age ou crê diferente de nós. Isso é um erro monumental.
.
A hermenêutica bíblica, isto é, as regras que nos ensinam a ler e compreender as Escrituras, tem uma norma  básica: você não pode construir uma doutrina ou formular um princípio de fé a partir de uma passagem isolada da Bíblia. É preciso analisar todas as passagens do texto bíblico que falem sobre o assunto, a fim de entender o todo. Assim, pegar o episódio dos vendilhões do templo como argumento teológico que tente justificar a agressividade é uma falha bizarra, que só gera comportamentos anticristãos.
.
Sim, Jesus expulsou os vendilhões. Mas será que por causa disso Deus nos dá carta branca para sair chutando e açoitando quem diverge de nós? A Bíblia apresenta uma enxurrada de passagens que respondem isso com um enfático não. Vamos analisar algumas dessas passagens, muitas delas palavras saídas dos lábios do próprio Cristo, para compreender exatamente o que o evangelho propõe como padrão de relacionamento – inclusive com inimigos e pessoas que não necessariamente concordam ou caminham conosco:
.
“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9)
.
“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.21-22).
.
“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes” (Mt 5.38-42).
.
“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?” (Mt 5.43-47).
.
“Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão” (Mt 7.3-5).
.
“Abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis. […] Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12.14-18).
.
“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.19-21).
.
Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente” (1Pe 1.22).
.
“Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros” (Jo 15.17).
.
“Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34-35).
.
“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos” (Gl 5.13-15).
.
“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor” (Ef 4.1-2).
.
“Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão […] Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si” (1Jo 3.11-15).
.
Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. […] Amados, se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado” (1Jo 4.7-12).
.
“Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora, temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão” (1Jo 4.19-21).
.
E por aí vai. Como dá para ver com muita clareza pela enorme quantidade de passagens bíblicas sobre o assunto, a proposta da Nova Aliança é a da paz, da conciliação, do trato amoroso com as diferenças e com os diferentes. Usar Jesus com os vendilhões para tentar validar um comportamento horrível é uma aberração.
.
odio 3Um argumento que muitos usam para justificar sua forma ofensiva e agressiva de se comportar, falar e escrever é que a ira divina contra o pecado e o erro nos daria permissão para sermos odiosos na hora de “defender a fé” ou se opor a quem de nós discorda. Sobre isso, importa lembrarmos de algo: embora Deus seja o nosso exemplo, nós não somos Deus. Ele pode fazer o que bem entender; nós não. Ele é o autor e o dono da vida: nós não. Deus tem todo o direito, por exemplo, de acabar com a vida de uma pessoa, mas, se nós fizermos isso, nos tornamos assassinos e quebramos um dos Dez Mandamentos.
.
Isto é muito importante: Deus fazer algo não nos dá o direito de fazer a mesma coisa. Se ele manifesta e tem todo o direito de manifestar a sua justa ira, o que ele nos diz é que a ira humana é uma das obras da carne (Gl 5.20), a ponto de pôr um prazo para quando nos iramos: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4.25-27). A proposta é clara: O insensato expande toda a sua ira, mas o sábio afinal lha reprime” (Pv 29.11). Vou repetir: O insensato expande toda a sua ira, mas o sábio afinal lha reprime”. Mais uma vez: O insensato expande toda a sua ira, mas o sábio afinal lha reprime”. Portanto, não, a ira de Deus não nos dá o direito de agirmos com ira e acharmos isso bíblico. Pois não é. 
.
Esse princípio se reafirma a todo tempo nas Escrituras. O evangelho jamais nos dá o direito de agirmos como Deus age. Veja o caso da vingança. Se, por um lado, há inúmeras passagens que falam sobre a vingança divina, a ordem para nós é: “não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.19).
.
Assim, vemos que não se pode justificar um comportamento humano pelo  fato de o Pai ou o Filho terem agido deste ou daquele modo. É preciso saber identificar o que Deus faz e que devemos tomar como exemplo e o que ele faz porque é prerrogativa exclusiva dele fazer. Se não soubermos separar uma coisa da outra, tomaremos para nós atitudes que não nos cabem ter e viveremos de modo que o evangelho não nos dá sinal verde para viver.
.
odio 4Chega de agressividade. Chega desse argumento maligno de que “posso ser impetuoso (para não dizer grosseiro, agressivo) porque Jesus derrubou as mesas dos cambistas”. Chega dessa igreja irada, raivosa, odiosa, trevosa. Estou exausto de ver agressões “em nome de Jesus” e gente supostamente defendendo a fé usando palavras e um tom que da nossa fé não têm nem o cheiro. Não aguento ter de ficar calado quando conhecidos meus não evangélicos dizem – com toda razão! – que não enxergam Cristo em pastores e outras pessoas “evangélicas” que dão um show de agressividade e palavreado de baixo nível. Em grande parte, temos sido tão agressivos como o mundo e, com isso, nos igualamos a ele. Deixamos de brilhar. Deixamos de salgar. E sal que não salga Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens” (Mt 5.13). 
.
Não aguento mais ver calvinistas agredindo e ironizando arminianos e vice-versa. Somos todos irmão, pelo amor de Deus! Não aguento mais ver cessacionistas e pentecostais trocando farpas e fazendo piadinhas mútuas. Somos filhos do mesmo Pai! Não aguento mais ver cristãos detonando com raiva na língua e ódio no olhar pessoas como o cantor  Thalles Roberto, que, em vez de ser alvo de orações misericordiosas e de um discipulado feito em amor para que possa perceber seus erros e seja levado a uma restauração real, é alvo de ataques feitos sem nenhum amor e com um palavreado inacreditável. Mas, claro, detonamos gente como ele “em defesa da sã doutrina” e “em nome de Jesus”. Bem me ensinou minha mãe que “um erro não justifica o outro” e, meu irmão, minha irmã, quem erra deve ser conduzido pacificamente ao acerto e não jogado sadicamente na fogueira dos hereges (para não dizer no inferno). Fomos chamados para restaurar, disciplinar com mansidão e discipular… e não para detonar! Fico arrasado por ver gente defender o evangelho achando que isso deve ser feito jogando no lixo o mandamento de amar o próximo.
.
Amar o diferente está fora de moda, geralmente só amamos os da nossa patota (teológica, doutrinária ou algo que o valha). Graça, por outro lado, se fala por todos os lados, pois as doutrinas da graça viraram grife. Mas parece que não saem do discurso. Falamos muito sobre a graça, mas a praticamos pouco, muito pouco, muito, muito pouco. E não estou falando de amor bobinho nem de graça barata, mas de amor maduro, sólido, o tipo que levou Jesus a subir à cruz por pessoas odiosas como eu e você. Tomamos para nós atitudes que só cabem a Deus. Reproduzimos, “em nome de Jesus”, atitudes essencialmente diabólicas e mundanas. E isso está errado. Está errado.
.
Eodio 5sse não é o cristianismo que quero viver. Desculpe, mas não quero compactuar com o pseudoevangelho da chibata e do chicote. O açoite que me interessa não é o que Jesus usou contra os vendilhões, é o que Jesus recebeu em suas costas. Não quero ter parte com quem diz que defende o modelo da Igreja primitiva, a extinção do dízimo e das denominações e parte para o braço quanto a questões como essas discordando com palavras ácidas, brutas, infelizes. Não quero fazer parte do grupo de irmãos que tratam gays e pessoas de outras religiões com raiva no olhar, palavras ríspidas e nenhuma misericórdia no coração, que mais se preocupam em atacar do que em amar, evangelizar e discordar com paciência e bondade. A questão não é discordar, isso é natural e lícito, ninguém é obrigado a pensar igual; o xis da questão é como se discorda. 
.
Quero ser conhecido por Deus como alguém que ama, sim, a verdade do evangelho e que defende a sua Palavra, mas, sempre, carregando em mim zelo e compaixão, firmeza e doçura, comprometimento e bons sentimentos. O discordante não é meu inimigo, é meu objetivo. A proclamação das boas-novas de Cristo me faz ver o discordante e aquele que considero estar no erro não como canalhas e inimigos, mas como necessitados, carentes, gente que ainda não enxergou a luz. Porque eu já fui assim um dia. E aqueles que penso estarem errados só verão a luz se virem em mim amor, graça, misericórdia, perdão, sacrifício, entrega, abnegação, paz, mansidão… Cristo, enfim.
.
odio 6O ódio de religiosos judeus que queriam “defender a sua fé” levou Jesus à cruz, mas foi o amor de Deus pelos perdidos que o levou à ressurreição. Que enorme tristeza é ver que muitos cristãos bem-intencionados não entendem isso, com arrogância se recusam a entender e, portanto, não compreendem nem põem em prática a graça, preferindo o discurso da chibata e um falso cristianismo que “defende Deus” com afiadas espadas verbais. Não aguento mais tanto ódio vindo daqueles que foram salvos pelo Amor com a finalidade de amar. Bem predisse Jesus que, no final dos tempos, Devido ao aumento da maldade, o amor de muitos esfriará” (Mt 27.12). A maldade impera entre nós. O amor de multidões de cristãos já esfriou, dando lugar à “ira santa”. Defendem um deus que eu não conheço, que precisa de “defensores” para levantar sua bandeira com ira e agressividade. Desses, creio eu, o evangelho não precisa. Creio que Deus busca aqueles que, com amor transbordante, partem em busca dos inimigos, dos perdidos, dos desencaminhados e dos equivocados com amor e graça com o objetivo de conduzi-los amorosamente a Jesus: o bom e manso Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. “Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos” (1Pe 2.15).
.
Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
.
O fim do sofrimento_Banner APENAS
Clicando nas imagens acima e abaixo você vai à loja virtual da livraria Saraiva

Perdaototal_Banner Blog Apenas

Cara1Estou escrevendo este post mais como um desabafo do que por qualquer outra razão. Se você conhece alguém que faz da sua vida um inferno vai me entender, pois há um irmão em Cristo que me atormenta e preciso botar para fora a minha ira – que é santa, naturalmente – senão parece que vou explodir. É muito duro para nós, que somos irrepreensíveis, aturar esse tipo de gente falível. Pode ser que a pessoa que você não suporte seja um vizinho que ponha músicas horríveis no maior volume sempre que você quer dormir. Ou um colega de trabalho que já fez todo tipo de fofoca contra você. Ou, ainda, uma irmã da igreja que te irrita, magoa ou toma atitudes contra sua paz. Pode ser, até mesmo, o seu chefe, quem sabe, ou o pastor que, em vez de zelar por tua alma, te oprime, subjuga, denigre e prejudica. E você odeia tudo de ruim que há nessa pessoa. Quer fazer parecer que não, pois, afinal, odiar não pega bem para um crente. Mas, lá no  fundo do seu coração, você sabe que odeia. Talvez não tão no fundo assim. Pois bem, há um cara que me tira do sério. Sou obrigado a conviver com ele por causa das circunstâncias da vida, mas ele é chato, pecador, egoísta, mesquinho e insuportável – tudo o que eu não sou. Por favor, permita-me desabafar com você, pois não tenho como fazer isso com um amigo em comum – senão poderia parecer que sou um fofoqueiro invejoso. E não pegaria bem para um bom crente como eu.

Não sei qual é o nível de relacionamento que você tem com seu desafeto. No meu caso, conheço esse fulano desde a infância. As primeiras lembranças que tenho dele são anteriores aos meus 3 anos de idade, pois morávamos na mesma rua. Dá pra imaginar o suplício que é essa convivência para um homem de 41 anos como eu? Anos e anos e anos suportando esse cidadão. Crescemos juntos e, por uma série de situações, que não vêm ao caso, fui obrigado a conviver com ele em muitas áreas de minha vida. Hoje, inclusive, ele calhou de frequentar a mesma igreja que eu – para meu azar e irritação.

Cara2Uma das coisas que mais me incomodam nele é que E. (permita-me chamá-lo apenas pela inicial, pois eu não sou o tipo de pecador que cita nomes) se faz passar por meu amigo, tem toda a aparência de crente mas é um tremendo pecador. Como o conheço há tanto tempo temos intimidade suficiente para eu saber coisas de sua vida que ninguém mais sabe. Ele me conta pensamentos terríveis e atos completamente reprováveis do ponto de vista bíblico. Às, vezes, confesso, chego a ter uma certa repulsa por E., tamanha é a sua pecaminosidade. E é duro para uma pessoa tão correta como eu aguentar isso. Mas, infelizmente, sou obrigado a conviver com ele, então não tenho para onde correr. Só que é insuportável ver o quão pecador esse cidadão é.

Eu me encontro com ele nos cultos. O vejo levantar as mãos no louvor, fazer aquela carinha de santo na hora da oração e ostentar seu jeito insuportável de cristão nota dez, quando eu sei quem ele é e as coisas horríveis que pensa e faz. Na verdade, eu o fico observando o culto inteiro e me enoja quando ele fica chorando, pedindo perdão por seus pecados, quando sei que ele vai sair da igreja e pecar de novo. E me sinto obrigado a pedir que Deus pese a mão sobre ele, pra ver se toma jeito. Miserável pecador…

Cara4Você conhece alguém tão ruim como esse cara? O que você faz com um indivíduo assim? Por favor, me diga como devo proceder. Às vezes, quando prego, confesso que já exortei muito pensando nele, pois sabia que ele estava ouvindo. Sabe quando você faz uma explanação que parece generalista mas tem endereço certo? Você pode até achar feio eu ter feito isso, mas confesso: eu fiz. Dei montes de indiretas para E. em muitas de minhas pregações, para ver se ele, de algum modo, era tocado por Deus e mudava. Não sei se adiantou, só o Senhor sabe, mas fiz a minha parte.

Pense em apenas alguns dos dez mandamentos. E. muitas e muitas vezes priorizou outras coisas no lugar de Deus.  Tomar o nome de Deus em vão é praticamente todo dia e Êxodo 20.7 diz que quem fizer isso o Senhor não terá por inocente. Preciso dizer mais? Então vamos lá: honrar pai e mãe? Coitados, lembro que, quando éramos crianças, ele dava um trabalhão. Hoje, que E. já é um homem feito, muitas vezes os decepciona. Eu vejo, ninguém me disse. “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”? Como negar as montanhas de vezes em que ele fez isso? “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo”? Tudo bem, admito, nunca o vi cobiçar o jumento de ninguém, de resto perdi a conta de quantas vezes o flagrei invejando o que não lhe pertencia. Cara, desculpe, mas E. tem tantos buracos em sua santidade que se eu te contasse tudo você diria que ele não presta. Às vezes é o que tenho vontade de dizer na cara dele.

Cara5Você tem algum E. na sua vida? Pense aí. Lembrou de alguém intragável, que parece só ter vindo ao mundo para te irritar, chatear, fazer chorar? É que realmente as circunstâncias não permitem, mas por mim eu mandava exilar E. no Tibete. Sinto vergonha dele. Tenho meu grupo de amigos na igreja que de fato são santos, como eu, e quando ele chega parece que contamina o ar. Aí não tem jeito, ele vira o assunto da noite. E o pior, sabe o que mais me tira do sério? Ele até fala uma ou outra coisa legal, por isso tem gente que o elogia, que o acha alguém especial. Desculpem, mas eu conheço bem esse cara, ele é bem comunzinho. Se duvidar, uns 95% dos elogios que ele recebe são imerecidos. E. precisa desesperadamente do perdão de Deus, pois tem muitas e muitas coisas a melhorar. Já falei isso a ele. Mas parece que na maioria das vezes o cidadão não me ouve!

Bem, acho que já desabafei o suficiente. Obrigado por me permitir botar pra fora minha irritação, mas não poderia falar essas coisas sobre ele na frente de conhecidos, senão pareceria que eu é que sou o pecador fofoqueiro e não esse cara. Eu odeio tudo o que E. tem de ruim. Odeio. Odeio sua pecaminosidade, o fato de ele fazer menos do que poderia pelo próximo, odeio quando não pede perdão pelos seus pecados, odeio suas fraquezas. Ele me tira do sério.

Mas… tem uma coisa.  Apesar de tudo isso, eu sei que Jesus o ama.

A despeito de seus defeitos, suas falhas, seus pecados, sua omissão, tudo, tudo, tudo o que faz de E. uma pessoa odiosa… Jesus o ama. Não entendo todo esse amor por um zero à esqCara6uerda como ele, asseguro que não entendo. Mas sei que isso tem um nome: graça. E. não vale nada, mas a graça o faz valer o mundo para Deus. Aos olhos do Senhor esse miserável vale mais do que todos os tesouros da terra. Foi por esse cidadão que o Cordeiro de Deus subiu à cruz, foi moído, rasgado, cuspido, ofendido, morto. E eu acredito que, porque a salvação é pela graça e não por mérito, um dia ele irá para o céu. Graça. Esse é o segredo. Essa é a explicação. Essa é a esperança. Essa é a certeza. Essa é a fé. Pois a graça não faz Deus ver toda a sujeira que E. carrega em si quando olha para ele. Quando o Pai fita seu olhar em E., o que ele enxerga é o Cordeiro que foi imolado por cada um dos seus pecados.

Conheço bem E. Ele habita dentro de mim. E., de Eu. Sim… o nome de E. é Maurício Zágari.

Obrigado, Senhor, por não me ver como eu sou, mas como Jesus é.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
E.