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No dia 1 de janeiro completei 47 anos. Isso significa que já passei da metade de minha vida sobre a terra. Nesse período de virada de ano e aniversário, por uma série de razões acabei refletindo muito sobre um assunto em especial: amizade. Fazendo uma retrospectiva desse quase meio século de vida, meditei muito sobre por que algumas pessoas que foram minhas amigas em algum momento continuam sendo minhas amigas e outras não. Eu me perguntei: o que fez com que o punhado de bons e constantes amigos que possuo há muitos anos não tenha aberto mão de se relacionar comigo, como a esmagadora maioria dos meus conhecidos fez? E, aqui, estendo a reflexão a você: na minha e na sua vida, por que alguém persevera em querer ser nosso amigo, quando poderia optar por não ser, como a maioria dos que cruzaram nosso caminho fizeram? Reflitamos um pouco sobre esse assunto tão espiritualmente necessário que é a amizade verdadeira.

Antes de tudo, é fundamental definirmos o que são “conhecidos” e o que são “amigos”. Conhecidos são aquelas pessoas que se relacionaram com você em alguma etapa de sua vida mas para quem, hoje, se você sumir do mapa, não fará muita diferença para elas. Já o amigo é aquela pessoa que sente a sua falta, que lhe telefona só para saber como você está e jogar conversa desinteressada fora, que não se conforma quando sua ausência se torna muito presente, que gosta de graça de sua companhia e de passar tempo com você e – principalmente – que, na hora da necessidade, abre mão de si mesmo por você.

Em outras palavras, a diferença fundamental do conhecido para o amigo é que, para o amigo, você está entre as prioridades de sua vida, enquanto para o conhecido você é só mais um. Para o amigo, você é imprescindível. Já para o conhecido você é secundário ou mesmo desnecessário, supérfluo.

Pensei, então, nos poucos amigos verdadeiros que tenho hoje e tentei concluir por que eles persistem na decisão de continuar sendo meus amigos (sim, ser amigo de alguém é uma opção, uma decisão consciente, e não obra do acaso ou do fluxo da vida). Foi quando cheguei à conclusão de que aqueles que hoje permanecem meus amigos e amigas de verdade são gente que reúne quatro características em comum, alguns há mais de 10 anos, outros, de 20 e, outros ainda, há mais de 30 anos. E que características são essas?

Em primeiro lugar, aqueles que se solidificaram como meus amigos após anos de amizade testada e confirmada foram aqueles que souberam me perdoar. Afinal, qualquer relacionamento próximo em algum momento gerará atritos entre as partes. A questão é: como esse relacionamento sobreviverá após o atrito? Em comparação, algumas pessoas que eu considerava meus amigos pularam fora do barco e me deram as costas tão logo foram confrontadas com uma das minhas muitas falhas de caráter. Já os meus amigos verdadeiros são aqueles que perceberam quão falho eu sou, me perdoaram e insistiram teimosamente em me amar.

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Em segundo lugar, meus amigos verdadeiros são aqueles que valorizam mais o que temos em comum do que as nossas diferenças. No que discordamos, fazemos piada e, no que concordamos, avançamos juntos. O nome disso é respeito. Por outro lado, gente que caminhou comigo em algum momento da vida mas não suportou o fato de termos diferenças em questões como religião, teologia, doutrinas, ideologia política, valores, gostos, comsovisões ou algo assim simplesmente me deletou de seu círculo íntimo de relacionamentos. Esses optaram conscientemente por não ser meus amigos, pois não consideraram que meu valor para eles era maior que suas opiniões pessoais.

Terceiro, os amigos verdadeiros que tenho foram aqueles que persistiram em compartilhar a jornada da vida comigo depois que aquilo que nos pôs em contato terminou. Foi gente que não limitou nosso contato a um curso, um ambiente de trabalho, um vínculo passageiro. Essas pessoas fizeram o contrário daquele companheirão da faculdade que, depois da formatura, nunca mais me procurou; do colega de trabalho que, depois da demissão, só manteve contato formal por redes sociais, sem nunca mais me procurar para estarmos juntos; ou daquele irmão da igreja ou do ministério que, depois que deixei de frequentar o mesmo ambiente, só quis saber de mim para pedir um favor ou algo assim. Amizades verdadeiras mantêm a cabeça acima das circunstâncias e se estendem para além dos contextos que nos aproximaram.

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Quarto e último, o amigo é aquele que persevera em manter você em sua convivência mesmo sem ganhar absolutamente nada com isso. Em outras palavras, o amigo verdadeiro é aquele para quem o relacionamento com você traz como lucro ou benefício pessoal, profissional, ministerial ou material… nada! Zero. Nadinha. Ele segue caminhando com você pela simples alegria da caminhada. Muitas vezes, até, pega mal para ele ser associado a você, ou estar junto de você lhe dá algum tipo de prejuízo ou desvantagem – mas, ainda assim, essa pessoa permanece ao seu lado. Isso ocorre porque a amizade verdadeira se baseia no amor e não nas vantagens pessoais. E, sempre é bom lembrar, o amor “não busca os seus próprios interesses” (1Co 13.5).

Portanto, eis os quatro pilares que, a meu ver, fizeram de meus amigos, amigos de verdade:

1. Perdão

2. Respeito às diferenças

3. Persistência na convivência após o fim das razões de ela se manter

4. Perseverança no relacionamento sem nenhum benefício próprio 

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Meu irmão, minha irmã, amizades são tesouros de valor inegociável. O amigo verdadeiro é alguém que, em algum momento da sua jornada, cruzou seu caminho e não se contentou em cruzá-lo, mas escolheu permanecer e persistir na ideia de que compartilhar a vida com você era importante, apesar de todos os seus muitos defeitos e pecados. É aquele cara que se tornou mais chegado que um irmão. Valorize essa pessoa.

Se alguém não faz questão de ser seu amigo, não se chateie, isso é normal. Deixe-o ir. Amizade por obrigação não é amizade, é um horror. Se uma pessoa optou por se conectar a outras pessoas e não a você, respeite isso. É um direito dela. O que deixo como recomendação é que, para aqueles que optaram por ser seus amigos, você seja o melhor amigo do mundo. Pois amizade não tem absolutamente nada a ver com a quantidade de relacionamentos, tem a ver com a qualidade deles. Portanto, construa suas amizades perdoando, relevando as diferenças, investindo na conexão interpessoal após o fim daquilo que os aproximou e sem esperar absolutamente nada em troca. Aliás… não é assim que Deus faz conosco?

Diariamente, ele nos perdoa.

Sendo totalmente diferente de nós, nos ama profundamente.

Investe teimosamente na conexão entre nós, até mesmo quando me torno a centésima ovelha ou o filho pródigo.

E nos ama perseverantemente, apesar de nosso relacionamento não beneficiá-lo de modo algum.

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Deus é nosso amigo, como um verdadeiro amigo deve ser. E, por isso, espera que também sejamos bons amigos do nosso próximo, replicando com as pessoas o que ele faz conosco. Isso tem tudo a ver com amar a Deus e ao próximo, o mandamento maior da nossa fé.

Peço a Deus que você tenha amigos bons e verdadeiros. Que construa relacionamentos sólidos e duradouros. E que possa desfrutar das melhores amizades, construindo suas conexões sobre esses quatro pilares. Só não se esqueça de que se, por um lado, você não pode obrigar ninguém a ser seu amigo verdadeiro, por outro lado tem todo o poder de ser o melhor e mais verdadeiro amigo do mundo para o próximo a quem você deve amar.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

Sim, amar o próximo vai lhe custar caro, muito caro.  Prejudicará a sua reputação, fará pessoas lhe virarem a cara, tornará você malquisto em muitos círculos, o tornará alvo de questionamentos sobre suas intenções e até mesmo sobre a ortodoxia da sua fé. E isso por uma única e triste razão: as pessoas, em sua maioria, não estão preparadas para compreender o amor bíblico em toda a sua extensão e, menos ainda, a colocá-lo em prática. E, quando me refiro às “pessoas”, isso inclui cristãos e não cristãos, lamentavelmente.
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Na parábola do bom samaritano, Jesus explicou de modo claríssimo o que significa amar o próximo. Por meio de sua ficção, o Mestre deixou claro que o amor verdadeiramente bíblico não tem a ver com o outro ser ou fazer o que você é ou faria. Se você nivela seu amor por alguém tomando você próprio (suas crenças, certezas e posturas) como referência, não está amando o outro, mas endeusando a si mesmo.
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Se você só ama quem crê, pensa, age, se veste, canta, fala, vive ou prega como você, seu amor não nasceu no coração de Deus, nasceu no seu narcisismo. O samaritano tinha tudo para odiar o homem que ajudou, porque aquele cara caído à beira da estrada representava tudo o que a vida lhe ensinou que ele deveria odiar. Mas, ainda assim, ele passou por cima de tudo e o amou – com compaixão sincera e com atitudes condizentes.
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Em muitos ambientes do nosso meio evangélico – apaixonado por modelos, patotas e rótulos pré-concebidos -, amar o próximo fará de você um proscrito. Se você está realmente disposto a amar o próximo como o samaritano amou – isto é, como Cristo ama -, saiba que você será isolado e rejeitado. Vão chamá-lo de adjetivos nada elogiosos, farão piadas de você e deixarão de convidá-lo para almoçar. E isso simplesmente porque muitos não entendem o que é o amor bíblico e o confundem com caricaturas bizarras de seu amor imaginário.
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Faça o teste: quando você demonstra publicamente amor pelos arminianos, será rejeitado pelos calvinistas, e vice-versa. Se demonstra amor pelos pentecostais, os cessacionistas o desqualificarão, e vice-versa. Se ama sem censuras os cristãos com ideologias políticas de direita, os de esquerda o rotularão, e vice-versa. Se, por amor às ovelhas de Cristo, vai pregar numa igreja de neopentecostais, será xingado de “herege” para baixo. Se, por amor à Igreja de Cristo, vai pregar numa igreja presbiteriana, será qualificado de “crente frio” e “sorveteriano”. Se você, por amor, trata com carinho um cantor de música gospel, será ofendido por quem só canta hinos antigos. Se ama um católico romano à vista de todos, vão chamá-lo de ecumênico. Se ama um umbandista, vão chamá-lo de desviado. Se ama um homossexual, vão chamá-lo de apóstata. Se ama aquele pastor complicado, vão chamá-lo de liberal. E assim por diante.
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A grande dificuldade da maioria das pessoas é compreender que amar não significa concordar. Tampouco significa fazer o que o outro faz. Muito menos ser conivente com práticas equivocadas ou pecaminosas de pessoas a quem você dá amor. Jesus amou a samaritana, mas não concordava com seu estilo de vida. Também amou a mulher flagrada em adultério, mas nunca pecou em sua sexualidade. Ele jamais roubou ou concordou com o roubo, mas amou o ladrão da cruz. E amou sempre esperando que esse amor conduzisse as pessoas diferentes dele ao arrependimento e a uma situação a que só o amor pode levar. Amar não é nada do que a maioria das pessoas pensa. E, por isso, a incompreensão sobre o amor cristão leva muitos cristãos a rejeitar, isolar, criticar, diminuir, desprezar, atacar, repudiar e desmerecer aquele que verdadeiramente ama de forma cristã. E isso é muito, muito, muito triste.
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Deixe-me repetir isto, porque é importante: amar não significa concordar. Tanto é verdade que Deus amou o mundo. Primeiro ele amou o mundo e só depois deu seu Filho para a salvação desse mesmo mundo. Preste atenção: Deus amou o mundo, com todo seu sistema de valores caídos, pecados, horrores (e, evidentemente, o Senhor não concordava com nada disso nem era conivente com os males do mundo). E amou tanto que sua compaixão o levou a abraçá-lo e dar-lhe Cristo. A cruz é a maior e mais divina prova de amor de alguém por outra totalmente diferente de si e que não merecia esse amor. A própria encarnação da Palavra em Jesus nos lembra deste fato: amar não tem nada a ver com concordar.
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A verdade é que aquilo que muitos chamam de “defesa da verdade” é, na realidade, ódio pelo diferente travestido de pseudoamor cristão. Muita da apologética que vemos por aí é, na verdade, não amor a Deus e ao próximo, mas a exaltação das próprias crenças, recheada com altas doses de narcisismo e vaidade. Muita segregação “em nome do amor à verdade” é apenas a incapacidade emocional de lidar com o contraditório. Amar como Cristo amou não é amar o cheiroso, o bonito e o que lhe diz “amém”. Amar de verdade é abraçar o espiritualmente leproso, fétido e podre, simplesmente porque a presença de Cristo transborda de tal modo em seu coração que você não conseguiria não abraçar.
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“Se alguém afirma: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso, pois se não amamos nosso irmão, a quem vemos, como amaremos a Deus, a quem não vemos? Ele nos deu este mandamento: quem ama a Deus, ame também seus irmãos” (1Jo 4.20-21). Temos uma decisão a tomar: restringir o amor apenas a quem consideramos “merecedor” ou “digno” do nosso amor e, assim, desfrutar do apreço dos nossos pares, ou amar como Cristo nos ensinou a amar e, com isso, preparar nosso couro para lambadas, desprezo, ataques, segregação e o pior tipo de religiosismo seletivo.
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Meu irmão, minha irmã, amar vai cobrar seu preço, mas vai aqui meu encorajamento: ame. Ame com todas as suas forças. Ame sem vergonha humana. Ame por não conseguir não amar. Não desista de amar. O desprezo dos fariseus e mestres da lei jamais levou Jesus a deixar de amar. Ele persistiu no amor, simplesmente porque não amar seria negar sua natureza, sua essência. O mesmo devemos nós fazer. Até porque quem tem Cristo no coração é incapaz de ser seletivo no amor; antes, ama todos, sem distinção: os leprosos, os coxos, os fedorentos, os inimigos, os de outras religiões, os de outras denominações, os de outras ideologias políticas, os que não creem no que você crê, os que erram em sua teologia, os hereges, os que enfiam cravos em suas mãos e pés.
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Termino esta reflexão com as palavras do Mestre: “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo’ e odeie o seu inimigo. Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem por quem os persegue. Desse modo, vocês agirão como verdadeiros filhos de seu Pai, que está no céu. Pois ele dá a luz do sol tanto a maus como a bons e faz chover tanto sobre justos como injustos. Se amarem apenas aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os cobradores de impostos fazem o mesmo. Se cumprimentarem apenas seus amigos, que estarão fazendo de mais? Até os gentios fazem isso. Portanto, sejam perfeitos, como perfeito é seu Pai celestial.” (Mt 5.43-48).
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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