Acordei me sentindo mal. Febre, moleza, dor de garganta, tosse, rouquidão, dor no peito. A coisa não estava bonita. Decidi ir à emergência de um conceituado hospital do Rio de Janeiro e, após ser examinado pela jovem médica, o diagnóstico: vírus. Na receita, um corticoide, um xarope para a tosse, um antitérmico e a promessa de em cinco dias estar bem. Vida que segue. Só que não. 

Foram dez dias tomando os remédios e, adivinhe, não adiantou absolutamente nada. No décimo dia, eu estava inchado e todos os sintomas persistiam. Eu não aguentava mais tossir, estava exausto, molenga e frustrado. Decidi, então, ir a um otorrino. Para minha surpresa, o diagnóstico dele foi completamente  diferente do da primeira médica: não era vírus, era bactéria. O remédio receitado: antibiótico. E, dessa vez, já no primeiro dia de tratamento comecei a melhorar. Pela primeira vez em duas semanas, consegui dormir bem. E, em cinco dias, eu estava curado. 

A conclusão: se o diagnóstico está errado, o tratamento será errado – e não haverá cura. E, além disso, perderemos um tempo enorme, sofrendo, doentes, tratando uma coisa quando deveríamos estar tratando outra. 

Muito se fala hoje sobre os problemas da igreja, falhas cometidas por cristãos ou supostos cristãos que adoecem o Corpo de Cristo. Nós, naturalmente, devemos buscar corrigi-los, sempre, e da maneira bíblica: não brigando, mas instruindo com mansidão, na esperança de que Deus dê o arrependimento para quem está provocando esses problemas (2Tm 2.24-26). Mas, para tanto, precisamos diagnosticar corretamente aquilo que tem adoecido a igreja. Devemos mirar no que é prioritário e não secundário. A questão é que muitos estão travando combates com base em diagnósticos errados e, por isso, os problemas principais não estão sendo combatidos. Um desperdício de tempo, energia e intelecto. E, enquanto se investe tanto no que é secundário, os problemas prioritários continuam nos infectando, envenenando e afastando de Deus. 

O maior mandamento do cristianismo é amar a Deus e ao próximo. Portanto, isso é prioridade máxima na vida do cristão. Já ouvi muita gente boa dizer que o maior problema da Igreja em nossos dias é a superficialidade. Eu discordo. O maior problema da Igreja em nossos dias é a falta de amor ao próximo. Jesus nunca disse “Sede profundos”, mas disse muitas vezes “Amai”. Assim como Paulo. Assim como João. E, como eles, devemos também nós priorizar o que é prioritário. 

Não estou defendendo que devemos valorizar a superficialidade teológica, não é nada disso. O que defendo é que se priorize o que Jesus priorizou. E ele priorizou o amor. Dedicar sua vida a conduzir as pessoas à profundidade teológica mas fazer isso sem amor é uma postura completamente insana do ponto de vista cristão.

A realidade é que não temos amado as pessoas. Não as corrigimos com paciência e mansidão (como ordena a Bíblia), mas com fúria; não estendemos a mão aos necessitados, mas terceirizamos a caridade; não olhamos para quem discorda de nós com compaixão, mas com raiva e rancor; não buscamos desenvolver o fruto do Espírito, mas inventamos desculpas pseudobíblicas para continuar sendo pessoas desagradáveis, prepotentes e altivas sob um manto “evangélico”; não socorremos a pessoa diferente que está caída à beira da estrada, mas fingimos que não vemos ou pisamos em sua cabeça. Tudo isso, e muito mais, denuncia falta de amor ao próximo e um gigantesco amor ególatra por si mesmo. Esse é o maior câncer da Igreja em nossos dias. 

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É decepcionante ver tanta gente culta e muito mais bem preparada do que eu dedicar seu tempo a causas e bandeiras que visam a defender e propagar a sua visão de cristianismo, mas que o fazem abandonando completamente atitudes e conceitos que são pilares do cristianismo. Como amor. Paciência. Mansidão. Autocontrole. E, enquanto proliferam argumentos e debates feitos de forma totalmente anticristã no jeito de se posicionar, muitas vezes sobre velhas questões que nunca serão unanimidade no cristianismo, perde-se um tempo enorme e precioso que poderia ser investido naquilo com que todos os cristãos concordam que é fundamental. Um exemplo é a falta de perdão. 

Uma quantidade avassaladora de cristãos não entende o perdão bíblico e por isso não o pratica. De quem é a culpa? Nossa, os que ensinamos. Professores, teólogos e pastores que priorizam tantos assuntos secundários e periféricos em detrimento do que está no tutano do evangelho. Pouco se prega sobre perdão nos púlpitos, sendo que ele é uma das colunas centrais do cristianismo. Não se organizam conferências teológicas sobre o tema. O assunto é tão urgente que, para você ter ideia, meu livro Perdão total em menos de três anos de publicado já está na quinta tiragem, com 15 mil exemplares impressos. Perdão total no casamento, por sua vez, esgotou os 5 mil exemplares da primeira tiragem em apenas 40 dias. Isso quer dizer que sou um escritor maravilhoso? Claro que não. Eu apenas exponho o que a Bíblia diz, com simplicidade e de um jeito fácil de entender. O que essa vendagem expressiva diagnostica é que as pessoas estão precisando desesperadamente perdoar e ser perdoadas, mas não compreendem o perdão e, por isso, não o vivenciam. Estão sedentas de instrução sobre o assunto, mas quase não vejo ninguém falar sobre a urgência do perdão. Preferem ficar discutindo loooooongamente assuntos secundários da fé, coando mosquitos e engolindo camelos. 

Quem diagnostica problemas equivocados ou quem hipervaloriza assuntos que Jesus mesmo não valorizou está, sem perceber, afastando as pessoas da mensagem que Cristo priorizou. Com isso, ajuda a manter a Igreja doente. São parte do problema e não da solução. E não enxergam isso, lamentavelmente. 

Há tumores no seio da Igreja? Há, sem dúvida. Tristemente, os temos diagnosticado equivocadamente e, por isso, nosso tratamento mais adoece do que cura – ou, simplesmente, não faz efeito algum no que se refere aos reais problemas do Corpo. A dolorosa realidade é que, assim como há muitos falsos mestres e falsos profetas entre nós, há também muitos falsos médicos.

Não adianta combater heresias sendo herético na forma de agir. Não adianta querer mudar a soteriologia, a crença carismática ou a escatologia de outros cristãos de modo anticristão. Não adianta debater com os inimigos da fé de uma forma que fere os princípios da fé, pois a forma importa tanto quanto o conteúdo. Precisamos priorizar o que é prioritário, amando o próximo e levando outros a amar, perdoando e ensinando a perdoar, investindo na unidade do Corpo e não em dissensões e facções, convivendo com o diferente de forma pacífica e instruindo com mansidão, buscando viver o fruto do Espírito em tudo o que fazemos e falamos. Não fui eu quem ensinou isso, está num livro que você provavelmente tem em casa. 

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E, em tudo, devemos lembrar do mal maior: o pecado. O pecado é a célula original do câncer. É ele que nos leva a odiar os inimigos, a ser debochados nos debates, a tratar o diferente com raiva e rancor, a não perdoar, a nos acharmos superiores aos demais, a ser impacientes no diálogo com os equivocados, a formar patotas e desprezar os demais, a nos envaidecer diante dos elogios e a tantas outras formas de sermos problemas na igreja. 

Meu irmão, minha irmã, não existe nenhuma forma melhor de contribuir para a saúde do Corpo do que combater o pecado que ganha espaço no próprio coração. Sugiro que você pare um pouco de olhar para o lado, para o outro, e comece a olhar para dentro de si. Que pecados de estimação você identifica? Desamor? Vaidade? Egoísmo? Espírito faccioso? Inimizades? Você vira o rosto para quem não gosta e em vez de se reconciliar com ele finge que não o vê e se recusa a estender a mão? Sente ressentimentos? Sente alegria na derrota alheia? Tem o hábito de sempre se posicionar altivamente como o certo e considerar quem discorda de você como filho do diabo? Quais são, afinal, os pecados que se alimentam do seu ego e dos quais você não tem demonstrado vontade alguma de se livrar? Acredite, esses pecados são o mal maior da Igreja, pois você é Igreja e o seu e o meu pecado são o maior câncer do Corpo de Cristo. 

Proponho algumas reflexões: você tem feito parte da cura ou da doença? Quais têm sido os seus diagnósticos sobre os problemas principais da igreja? Você se preocupa com os problemas que a Bíblia de fato mostra que são problemas ou com o que está na moda e o que seus teólogos e pastores favoritos combatem nas redes sociais? E a pergunta principal: o que você fará a respeito dos seus próprios erros – os erros reais, aqueles que envenenam seu coração -, de forma a contribuir para a saúde da Igreja de Jesus?  

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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comentários
  1. lucia helena disse:

    Se vc soubesse como suas reflexões edificam minha vida…Que Deus o abençoe grandemente ,obrigada por suas sábias palavras.

  2. Paula Villela de Gasparini disse:

    Vou me limitar a mandar um icone: ❤
    Obrigada Zagari

  3. carlos alberto simões disse:

    Ola bendito.

    Saudações temperadas em Cristo.

    Louvamos ao Senhor por sua vida.

    Grato estamos por mais esta preciosidade.

  4. Neiva Meriele disse:

    Que texto maravilhoso, querido Maurício!
    Fico feliz em saber que ainda temos líderes preocupados em transmitir mensagens de fácil compreensão e com base bíblica sobre temas tão, mas tão importantes para nossa saúde espiritual.
    Eu vivi uma experiência muito forte anos atrás. Depois de passar pelo inverno espiritual mais rigoroso da minha vida, aprendi uma das maiores lições, que me transformou completamente. Finalmente pude entender o poder miraculoso do perdão.

    Abraços!
    Fique na paz!

    • Oi, Neiva,
      .
      é isso aí, muitas vezes Deus nos faz passar pelo inverno para que valorizemos a primavera. Caminhemos sempre pela simplicidade na forma para transmitir profundidade no conteúdo, assim levamos o filé mignon a quem não teria capacidade de comer algo além de coração de galinha. Avante!
      .
      Abraço fraterno,
      mz
      facebook.com/mauriciozagariescritor

  5. Meyre Soares disse:

    Maravilhosa reflexão, sem dúvida tendo oportunidade irei compartilhar com meus irmãos…seus textos tem me ajudado muito no meu caminhar, irmão. Deus continue te iluminando!!!

    • Oi, Meyre,
      .
      louvo a Deus por ele estar tocando seu coração por meio do que escrevo. Ele é bom e generoso. Agradeço muito por sua preciosa oração.
      .
      Abraço fraterno,
      mz
      facebook.com/mauriciozagariescritor

  6. Ana Cecília disse:

    Boa essa reflexão! 😆

  7. sabrinaleiria disse:

    Como diria uma irmã que tem amado minha vida: Poucas verdades muito bem aprendidas e muito bem vividas!!
    Amar, perdoar, orar, ler a palavra…
    Jesus é simples.

    Tenho meditado no cego de nascença, quando interrogado pela segunda vez disse ” se é pecador eu não sei, eu era cego e agora vejo “.
    Ele pouco se importou com as ” questões da doutrina”, mas mergulhou naquilo que Jesus fez na vida dele.

    O problema é que a gente esquece o milagre que Jesus fez em nós na nossa conversão. Éramos cegos e agora enxergamos. Aleluia.

    Que possamos ter um coração simples. Priorizando mesmo o que Jesus prioriozou.

    • Oi, Sabrina,
      .
      essa é uma verdade. A teologia pode ser simples e cognoscível, sem ser descartada nem complicada. No centro o que é do centro, na periferia o que é da periferia.
      .
      Abraço fraterno,
      mz
      facebook.com/mauriciozagariescritor

  8. MARINEIDE LUCENA disse:

    Super, hiper, mega EDIFICANTE. Que Deus levante e use muitos Mauricios Zagari, para edificar muitas vidas.. Os frutos dessa palavra serão para eternidade.

  9. Julio disse:

    Graça e paz de Cristo Mauricio,

    Concordo plenamente com o que e foi dito no texto e mais uma vez fui grandemente edificado por suas meditações.
    Só tenho um duvida: muitos cristãos (até mesmo não cristãos) têm usado a pregação a respeito do amor e do perdão para justificar erros e pecados e algumas igrejas têm sido bastante coniventes com praticas antibíblicas usando justamente esse argumento de que Deus é amor e perdão. Você não acha que é necessário que essa pregação esteja atrelada a uma definição mais profunda e bíblica do amor divino e do perdão?

    Grande abraço e fica com Deus.

    • Olá, Julio,
      .
      fico feliz por edificar sua vida por meio do que escrevo, grato pelas palavras gentis.
      .
      Quanto à sua dúvida, sim, qualquer conceito bíblico deve ser tratado dentro de seu contexto. O amor e o perdão bíblicos existem dentro de seus contextos específicos. Por exemplo, o perdão do pecador vem atrelado à cruz de Cristo e ocorre mediante arrependimento, confissão e a firme disposição de não mais cometer aquele erro. Fora disso, “perdão” não é o perdão da Bíblia. Porém, o fato de pessoas distorcerem isso não muda o fato de que, sim, Deus é amor e, sim, Deus é perdão. Como disse Bonhoeffer, graça é uma coisa, graça barata é outra. A graça jamais justifica a libertinagem.
      .
      Abraço fraterno,
      mz
      facebook.com/mauriciozagariescritor

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