Posts com Tag ‘Saudade’

bifurcação 1É frequente sentirmos saudades daquilo que não vivemos. Constantemente, a vida nos põe diante de bifurcações: se vamos para esquerda, abrimos mão de tudo o que poderíamos viver se tivéssemos seguido pela direita, e vice-versa. Como não sabemos o que nos reserva o futuro, tomamos as decisões com base naquilo que achamos ser o melhor. Infelizmente, como seres humanos emocionais que somos, não poucas vezes olhamos para trás e pensamos: “E se eu tivesse tomado o outro caminho, o que estaria vivendo hoje?”. Acredito que você já tenha passado por algo semelhante. Talvez passe frequentemente. E aí, o que fazer quando bate esse tipo de saudade?

A vontade de Deus é boa, agradável e perfeita. Se conseguimos caminhar pela estrada asfaltada pela vontade divina, certamente encontraremos o verdadeiro contentamento, a real felicidade que vem como consequência de cumprir os santos propósitos. A grande dificuldade é conhecer qual é a vontade de Deus. Por vezes, se nos dedicamos a pensar muito sobre se tomamos o caminho errado, somos invadidos por infelicidade e remorso. Não um remorso provocado por culpa, como aquele que Judas sentiu após trair Jesus, mas um remorso que nasce a partir da saudade de tudo aquilo que não vivemos. É o pensamento do “Mas e se…?”.

Uma das maneiras de se evitar que a tristeza inerente a esse tipo de remorso nos assole com frequência é seguir o conselho de Jesus: conformar-se com o fato de que basta a cada dia o seu mal. Se adotarmos para nossa vida essa linha de pensamento, poderemos até mesmo lamentar decisões tomadas no passado, mas não ficaremos acorrentados a elas. Entenderemos que optamos por um caminho e que nos dedicaremos a construir a melhor estrada possível, a partir do ponto em que estamos, rumo ao futuro.

u-turn-sign-on-roadO outro caminho possível é o da transformação desse remorso em arrependimento. Pois o remorso é aquela tristeza por decisões tomadas no passado sem que haja nenhuma mudança de atitude nossa parte; já o arrependimento é o mesmo tipo de tristeza, só que seguida da decisão de mudar de rumo, de passar a percorrer um novo caminho, diferente daquele em que se estava. O arrependimento nos faz seguir por uma outra rota.

Você sente saudades do que não viveu? Então há uma escolha a fazer: você pode decidir assumir as decisões tomadas, com todas as suas implicações, e construir a história do seu futuro a partir do ponto em que está hoje; ou pode abraçar o arrependimento e mudar de rumo, tentando caminhar para um novo destino, talvez aquele que teria traçado se tivesse tomado decisões diferentes no passado. O que vai definir qual das duas opções você terá? A minha sugestão é que busque se aprofundar na Palavra de Deus e se basear nela para decidir. Pois, se a Bíblia é a nossa bússola, certamente, ao seguir-se na direção que ela indica, cumpriremos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. “A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho” (Sl 119.105).

Procure respostas na Bíblia e tome suas decisões a partir delas. Conheça os princípios fundamentais das Escrituras e faça suas escolhas alicerçado neles. Tenho absoluta certeza de que, assim, as suas estradas não serão escuras ou esburacadas e te conduzirão a um destino mais excelente. Quanto à saudade do que não vivemos, felizmente temos a capacidade de tomar decisões que a apague do nosso coração. Mas, por vezes, não tem jeito: temos de abraçá-la como parte da nossa verdade e carregá-la conosco pelos anos que virão.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Ausencia1É muito comum ouvirmos irmãos reclamarem, tristes, porque não estão sentindo a presença de Deus. É interessante isso, porque as últimas palavras que Jesus disse antes de ascender ao céu foram precisamente: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Geralmente, numa despedida, as pessoas deixam para falar ao final o que há de mais importante a ser dito, para que aquilo ecoe para sempre nos ouvidos do receptor. É comum darmos atenção às últimas palavras de alguém que está para morrer, pois entendemos que há um significado especial naquilo que será a mensagem derradeira dele. Logo, Jesus não deixou para dizer essas exatas palavras por último à toa. Elas deveriam ecoar diariamente em nossa mente: o século ainda não se consumou, portanto Jesus está conosco. Jesus está conosco, meu irmão, minha irmã. Jesus está com você. E note algo: o Mestre disse “todos os dias”. E o hoje faz parte dos “todos os dias”. Logo, Jesus está hoje com você.

Então temos aqui um conflito. De um lado, Jesus fez questão de deixar ecoando na sua mente a absoluta e irrefutável certeza de que ele estaria com você hoje. Do outro lado está você, triste, porque diz que não sente a presença de Jesus hoje. Não creio que Jesus tenha mentido. Então a questão não é se ele está ou não com você (pois ele está, como afirmou que estaria), o problema é que há em você uma percepção da ausência dele. E isso tem de ser resolvido.

Foto gentilmente cedida por giselli m. (ficamaisessedia.blogspot.com )Presença é algo incrivelmente forte. Proporcionalmente, a ausência também. Quem é que nunca “morreu de saudade” de alguém? E repare: associar saudade a morte fala muito sobre a força que tem a ausência de um ente amado. Quando amamos, a presença se torna imprescindível. Amor sem presença é um universo inteiro dentro do peito composto só de espaços vazios: sem Sol, sem Lua, sem estrelas, nada – um vácuo escuro e silencioso.

Corremos para encontrar nosso amor. Armamos esquemas para poder estar juntos alguns minutinhos a mais por dia. Pegamos aviões para passar um fim de semana que seja com o amado que mora em outra cidade. Mandamos torpedos. Enviamos e-mails. Aguardamos, aflitos, sinais de vida de quem amamos: é só o telefone tocar ou o barulhinho de chegada de e-mail soar que o coração dispara. O amor exige presença.

Nunca me esqueço de uma conversa ocorrida meses atrás com uma pessoa querida que tinha perdido seu noivo de forma trágica. Ela me disse: “Sei que ele morreu há muitos anos, mas até hoje eu o amo”. Que coisa forte! Impacta-me e me emociona pensar nisso. E eu via nela o sofrimento da ausência compulsória. O mesmo ocorre quando pessoas amadas vivem geograficamente longe. Meu irmão de sangue mora em outro continente, para onde foi há mais de vinte anos. Se você me perguntar se a dor da partida dele arrefeceu com o tempo eu te diria num piscar de olhos: não! Nós nos falamos pela internet com certa regularidade, de dois em dois anos ele vem com a família ao Brasil e de tempos em tempos vou visitá-lo, mas cada adeus é uma punhalada no coração. Não, ainda não me acostumei à ausência dele, mesmo depois de mais de duas décadas e muitos reencontros. Distância nos faz, de saudade… morrer. Ausência machuca. Ausência de alguém que amamos é um doloroso e sufocante terror. Eu odeio a ausência.

Ausencia5Fiquei na dúvida se daria a este texto o título de “A ausência da presença” ou “A presença da ausência”. Após refletir um pouco, optei pelo segundo, porque, embora pareçam similares, há uma diferença substancial no peso de cada um. Uma presença ausente fala de alguém que deixou um vazio. Isso é doloroso, mas se refere a algo que não é. Só que a presença da ausência é muito mais forte, mais dolorosa, mais nefasta. Porque se refere à presença do vazio deixado por quem não está. Algo que é. E está ali, assombrando, machucando. O vazio torna-se um personagem palpável, concreto, sólido, espinhoso, agressivo. Não é apenas uma suave ausência. É a terrível presença do nada. “A ausência da presença” me lembra um salão vazio e silencioso, algo que, apesar de ruim, é suportável. Já “A presença da ausência” me remete a um salão lotado, cheio, absolutamente tomado por uma ausência que se faz presente e é barulhenta, ruidosa, espaçosa – insuportável.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuem ama também vivencia um fenômeno interessante: carrega perenemente o ser amado dentro de seu peito. O amor cria um vínculo constante e diário de presença do outro: na mente, no coração, na alma. Há uma canção que traduz bem esse fenômeno, quando o cantor diz “onde está você agora além de aqui, dentro de mim?”. É exatamente isso. Na ausência há uma presença assombrosa do ser amado, que habita pensamentos, lembranças e sentimentos com a constância do pulsar de um coração. Só que é uma presença sem resposta, pois o outro está longe. Não se pode tocar no outro, conversar com ele, olhar em seus olhos. É ter uma fome que jamais se sacia – até que, um dia, a presença se faz percebida de modo concreto.

Creio que esse é o caso de quem diz que não está sentindo a presença de Deus: anseia-se desesperadamente por uma presença mais palpável do que a que há naquele momento. Jesus está ali. Mas seu servo considera aquilo insuficiente. É como se dissesse: “Deus, por favor, pegue um avião e venha até aqui para que eu possa te tocar, abraçar, beijar e olhar dentro de teus olhos!”. Só que Deus não faz isso. Na verdade, nunca fará. Então há dois caminhos: ou o servo que se sente abandonado se conforma ou busca meios de perceber a presença divina. E que meios são esses?

Oração e estudo da Bíblia.

Ora, Zágari, isso não é nenhuma novidade! Isso estou cansado de saber e não precisava ter lido este post enorme para que você me diga o que é óbvio! Sim, concordo, é óbvio. E é óbvio porque é como Cristo se faz presente entre nós desde que ascendeu aos céus. É na comunicação com ele que você se aperceberá de sua presença. Pois ele está aí, juntinho de você. Você é que não se dá conta! E, por isso, não “sente a presença de Deus”. É como pôr a mão no fogo e não sentir o calor. Quer sentir o calor desse fogo? Ore. Estude as Escrituras. E as portas da percepção dessa presença se abrirão. Se é óbvio… basta pôr o óbvio em prática.

Ausência de quem se ama é uma das piores dores do mundo. Querido, querida, não se inflija essa dor pelo fato de supor que está ausente alguém que, na verdade, está presente. Ele afirmou que estaria. Ele está. Seu pecado não o expulsou. Ele não disse que estaria conosco todos os dias “menos naqueles em que você pecar”. Não. Todos os dias são todos os dias. E, cá entre nós, a gente peca… todos os dias.

Jesus é contigo. Ele está bem aí em você. Não sofra pela ausência de quem não está ausente. O que falta é você se dar conta – pela oração e pela Palavra – de que ele não foi a lugar algum. E permanece com você todos os dias, até a consumação do século.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Memo1Há algum tempo tive o privilégio de conversar com idosos que vivem em uma casa de repouso. Marcou-me uma senhora em especial, de seus oitenta e muitos anos. Estávamos falando  sobre sua vida, quando lhe perguntei se tinha arrependimentos de coisas do passado. Ela lançou um olhar no vazio e, depois de pensar um pouco, respondeu: “Sim… eu me arrependo de ter passado tanto tempo pensando no passado”. Demorei algum tempo tentando entender exatamente o que ela quis dizer. Quando viu que eu estava parado, com cara de pastel e uma interrogação na testa, emendou: “Não é que não tenhamos de nos arrepender das besteiras que fizemos. Mas é que, se a gente olha pro futuro e não pro passado, não vamos ter arrependimento de nada, entendeu? Porque o que passou machuca, mas o que está pela frente deixa sempre a gente empolgado”. Fiquei pensativo. O que ela disse me fez lembrar de uma frase que li em um livro de C. S. Lewis: “Existem coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para trás”.

Está na moda o versículo de Lamentações de Jeremias 3.21: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. É um desejo inteligente. Mas eu confesso que, depois de muito meditar nas palavras daquela senhora, tenho tentado aplicar a minha vida uma nova disciplina espiritual: trazer à esperança aquilo que pode se tornar uma boa memória. Olhar para o futuro na expectativa das coisas boas que Deus pode trazer. Porque as dores do passado… doem. E de sentir dor quem gosta?

Por isso, é importante valorizarmos o passado sim, mas cada vez mais tenho descoberto que o passado só tem função se ele ajuda a compor nosso futuro. Porque, no final das contas, isso é o que interessa: de que modo posso pegar as experiências boas e ruins do passado para construir um futuro melhor? Pois o passado é como uma pintura estática, engessada, paralisada, limitada por suas molduras. Já o futuro é uma tela em branco, à espera das tintas, cheia de possibilidades e com grande potencial. E o presente é o pincel que toca ao mesmo tempo a mão e a tela, em processo de construção de algo novo. Se as novas gerações de pintores se contentassem em ficar apreciando os quadros no museu nada novo seria pintado. E aí viveríamos de ruminar alimento antigo e não de produzir alimento novo. A civilização ficaria congelada numa eterna contemplação do que já passou.

Memo2Eu gosto do passado. Coleciono livros com fotos do Rio Antigo, tenho um gramofone na minha sala e dois telefones antigos, um com 100 e outro com 56 anos de idade. Gosto de antiguidades. Mas, depois dessa experiência com aquela senhora, me peguei outro dia sentado no sofá, olhando para esses objetos e pensando, tentando entender por que eles me fascinam. Cheguei a uma conclusão: aquilo que não vivemos nos entristece porque gostaríamos de ter vivido e por isso buscamos estar perto desses artefatos do passado, para diminuir a distância entre nós e o que não vivemos. Eu gostaria de viver na época dos gramofones. Apesar de todos os badulaques eletrônicos que o século 21 nos oferece, aquela era uma época mais cavalheiresca, mais nobre, de pessoas mais educadas e cerimoniosas. Confesso que gosto disso, tenho saudades de quando os homens cediam o lugar no ônibus para senhoras e puxavam suas cadeiras para se sentar à mesa. Até a arquitetura era mais elegante, com estilo  rococó e elegantes filigranas. Me agrada o século 19, por exemplo. Sinto pena de não ter vivido na época de Machado de Assis, com todos os atrasos que havia, a febre amarela e a ausência da Internet. Só que… de que adianta pensar nisso? Eu vivo é na época das bugigangas, dos ipads e iphones, dos ônibus espaciais e do feissebuqui, quando as pessoas sentam à mesa do restaurante e, em vez de conversar e sorver da maravilhosa experiência que é o contato humano, fica cada um imerso em seu smartphone. Quem já teve a chatíssima oportunidade de sair com amigos e ter que ficar vendo todos mexendo em seus “feisses”, “tuíters” e sms em vez de se dedicar à antiquada e ultrapassada arte de conversar com quem está à sua frente sabe o que estou dizendo. Só que não adianta nada lamentar a desumanização dos dias atuais ou nutrir a tristeza pelo que não vivi ou mesmo o que vivi e me fez sofrer. Os tempos são o que são e só o que podemos trazer é desejar que sejam algo mais próximo do que o passado foi.

As boas e más experiências do passado são as matérias que cursamos na escola da vida. Mas ninguém cursa uma escola para viver eternamente nela, cursa com vistas à formatura. A faculdade idem, cursamos com vistas ao mercado de trabalho. A vida idem idem, cursamos de olho na eternidade.

Aquela senhora estava certa: o que importa não é a cerimônia de casamento, é a vida a dois pelos anos que virão. O que importa não é a festa de formatura, é o mercado de trabalho. O que importa não é o parto, é a vida inteira daquele ser humano. O que importa não é o pecado, é o que se pode fazer com seu aprendizado após o arrependimento. Todos são como ritos de passagem para algo melhor. Muitas vezes os ritos de passagem não saem como queremos, já fui a um casamento em que o noivo desmaiou no altar, já vi formaturas chatas que me fizeram dormir, o parto de minha filha foi tenso e estressante, já cometi pecados que me fazem querer sumir. Mas o que veio depois foi ótimo: uma vida conjugal feliz, um emprego que realiza, uma filha saudável que me faz sorrir, uma caminhada em novidade de vida. Futuro.

Memo3Aquela senhora não sabia, mas suas poucas e sábias palavras cutucaram meus paradigmas.  Tenho olhado o futuro com olhos melhores. Sem desprezar o passado, venho refletindo sobre ele com uma certa frieza inédita. Dores demais. Cicatrizes em excesso. Decepções além da conta. O futuro, por incerto que seja, está todo nas mãos do Pai, que segura o pincel em sua mão. E olho para o que virá com a esperança de que vire boas memórias. Muitas das que tenho hoje apagaria, se fosse possível viver o brilho eterno de uma mente sem lembranças. Já as memórias que terei amanhã são um mundo novo, misterioso e empolgante. O grande autor Gabriel Garcia Marquez já escreveu que “a vida é uma sucessão contínua de oportunidades”. Isso nos fala de uma existência em que a cada dia temos a chance de fazer algo novo, que construa um futuro memorável. Eu gostaria de colecionar em minha sala objetos do futuro, para que diminuíssem minha distância dele. O passado é limitado, já o futuro… é infinito.

Chega de saudade. Quero ter saudade do que ainda não vivi. Penso que essa é a proposta bíblica e por isso vou vivendo a cada dia o seu mal. Olhar demais para trás faz doer o pescoço. Temos é de seguir de olhos no horizonte, persistindo em correr a carreira que nos está proposta pelo nosso Senhor.

Memo4“Portanto, […] corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.1,2).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
mz