imageNas últimas horas de vida antes da crucificação, Jesus sofreu todo tipo de dor: a dor do corpo, a da humilhação, a do abandono, a da traição, a da negação. Dor em cima de dor. Mas eu, pessoalmente, acredito que uma das dores que mais doeram nele foi a da ingratidão. Ele estava ali, entregando-se pela humanidade, oferecendo-se em sacrifício pelo pecado do mundo… mas aqueles por quem ele se deu não lhe agradeceram nem o reverenciaram; pelo contrário, viraram-lhe as costas, cuspiram em seu rosto, esbofetearam sua dignidade, zombaram de seu sofrimento, rasgaram sua carne, conduziram sua alma a uma tristeza mortal. Não demonstraram um pingo sequer de agradecimento. E essa, a dor da ingratidão, é uma das dores mais dolorosas que há.

Nas minhas ultimas férias fui com minha mulher e minha filha a Cabo Frio (RJ), onde gosto de ir à Praia das Dunas (foto). Como o nome diz, para se chegar à beira d’água é preciso subir e descer duas dunas. Normalmente, essa caminhada é extremamente prazerosa, com aquela areia fina acariciando os pés e algumas paradas durante o trajeto para – literalmente – deitar e rolar. Num dos dias, resolvemos ir a outra praia, a das Conchas, mas não foi uma escolha feliz: estava lotada, a areia era dura, o vento estava gélido. Decidimos almoçar por ali e retornar para passar a tarde na nossa preferida. E assim fizemos.

Cabo Frio 2015Chegamos tarde à Praia das Dunas, já cansados por toda a aventura da manhã. Tudo o que eu queria era relaxar e descansar nas minhas águas e areias prediletas. Brinquei bastante com o filhota, mergulhamos, pulamos ondas e nos cansamos ainda mais. Por volta de cinco horas estávamos todos exaustos, mas felizes. Foi quando minha filha de 4 anos se aninhou no meu colo e, em meio aos carinhos do papai, adormeceu. Não foi um soninho leve, não: ela dormiu profundamente. Fiquei aguardando por um bom tempo, para ver se a pequena acordava. Nada. O tempo passou, o sol começou a cair, a temperatura esfriou e vimos que era hora de retornar ao apartamento. Mas, aí, veio o dilema: acordar a filhinha ou não? Confesso que tentei, mas sem efeito: ela estava profundamente adormecida.

Foi quando tomei a decisão: pelo bem-estar dela, eu me sacrificaria e carregaria no colo aqueles 16 quilos de filha da beira da água até o nosso apartamento, localizado a um quarteirão da praia. Levantei-me com ela nos braços, enquanto minha esposa recolhia nossas coisas. Pendurei em um ombro a barraca, encaixei uma das cadeiras no braço e iniciei a caminhada.

Foi quando começou o sofrimento.

Se você acompanha o APENAS há algum tempo sabe que sofro de fibromialgia, uma doença que faz todos os músculos e tendões do corpo inflamarem e doerem o tempo inteiro. Isso me limita ou impede de fazer uma série de coisas, que me são extremamente dolorosas, como dirigir, digitar no computador, praticar exercícios e… carregar peso. Agora, imagine eu, com fibromialgia, tendo uma criança de 16 quilos nos braços, uma barraca de praia no ombro e uma cadeira pendurada no braço. Acredite: não é fácil. Dói – e dói muito. Mas, por amor a minha filhinha, eu me entreguei voluntariamente a esse sacrifício.

peso 1A coisa ficou pior. Se carregar esse peso todo já me é doloroso, imagine andando na areia fofa. Parece que o esforço necessário triplica. Depois de algum tempo, quintuplica. Comecei a arfar e bufar. O suor escorria. As pernas tremiam a cada passo. Cheguei ao sopé da primeira duna e comecei a escalada. Cada centímetro percorrido era um sacrifício. A sola dos pés doía e latejava. Os músculos queimavam. Tive de fazer diversas paradas. Parecia que estava carregando um elefante rumo ao cimo do Everest. Quando venci a primeira duna, as lágrimas escorriam pelo canto dos olhos. As pernas fibrilavam. A respiração faltava. As costas arqueavam. Enfim, já deu para ter uma ideia do que custou para mim carregar minha filha, a fim de deixá-la mais confortável. Por ela e por amor eu estava passando por maus bocados. Péssimos, na verdade.

Resumamos a história: lentamente transpus as duas dunas, passo ante passo, caminhei pela trilha que leva até a avenida de acesso e me arrastei pela calçada até a entrada do nosso prédio. Nessa última parte, adivinhe você, a pequena acordou. Sensibilizada pelo meu estado, assim que viu a filhota acordar, minha esposa perguntou:

– Filhinha, você não quer ir andando um pouquinho, para deixar o papai descansar?

Sonolenta, sua resposta foi agarrar-se ainda mais ao meu pescoço. Diante da negativa, continuei minha via-crúcis até a porta do prédio. Confesso que, ao chegar à portaria, em meio ao oceano de dores eu sentia uma gota de orgulho de meu feito. Por dentro imaginava minha filha dizendo algo como:

– Papai, você é meu herói! Muito obrigada por se sacrificar por mim! Obrigada por sentir tanta dor para que eu ficasse bem! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada!

Só que não foi assim. Quando subi os degraus de entrada, a cadeira de praia que eu carregava no braço esbarrou de leve num dos pés de minha filha. E o que saiu de seus lábios emburrados de sono foi:

– Ai, papai… Tá me machucando…

Parei. Tentei sorrir com as forças que me sobravam. E minha atitude foi uma só: dei um beijo em minha filhinha ingrata e dei a única resposta que poderia dar:

– Eu te amo, bebê…

cristoJesus sofreu pela humanidade. Muito. De forma dolorosa. Foi dilacerado física e emocionalmente. E experimentou em sua vida terrena a ingratidão de forma indizível. Mas a coisa não parou no dia de sua crucificação. Hoje, eu e você muitas vezes fazemos a mesma coisa. Jesus sofreu tudo o que sofreu por você, meu irmão, minha irmã. Ele carregou o peso do nosso pecado, caminhou nas areias da traição, escalou a duna da humilhação, sofreu a dor da cruz, transpirou a angústia da nossa maldade. E, ainda assim, muitas e muitas vezes, em vez de sermos eternamente gratos, de suportarmos as cadeiras da vida que cutucam nosso pé tendo em nós o entendimento do preço enorme que Jesus pagou pelo nosso bem-estar eterno, murmuramos e reclamamos com uma atitude de extrema ingratidão:

– Ai, papai… Tá me machucando…

Fico imaginando Jesus ouvindo isso e pensando, com infinito amor no coração, sabendo de tudo o que passou e do tão pouco que representa o nosso pequeno sofrimento em comparação ao dele:

– Eu te amo, bebê…

“Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” (2Co 4.17-18).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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desigrejados 1Tenho visto diferentes irmãos em Cristo compartilhar pelas redes sociais a seguinte frase: “Quem sai da igreja por causa de pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus“. Confesso que ler isso me deixou extremamente incomodado, chocado e chateado, pois me soa como uma frase bem pouco cristã e nada embasada naquilo que Jesus ensinou. É uma frase que não expressa amor. Vamos falar um pouco sobre ela, na esperança de que, se você já reproduziu essa afirmação ou mesmo se acredita nela, consiga perceber quão desumana ela é e, assim, pare de replicá-la.

Em primeiro lugar, permita-me dizer que esta reflexão não tem como objetivo entrar por discussões no campo de calvinismo versus arminianismo. O foco da minha abordagem não é se a pessoa que deixou de frequentar uma igreja era predestinada, se tinha livre-arbítrio e toda a discussão que considero desimportante na eterna querela entre os que creem e os que não creem na doutrina da eleição. E por que digo isso? Porque Jesus mesmo não deu muita atenção a essa questão. Repare que, independentemente de Jesus ser “calvinista” ou “arminiano”, o que os evangelhos mostram é que ele sempre destacou a importância de buscar a ovelha que se desgarrou do rebanho. Ponto. Isso é o que importa, a despeito da doutrina soteriológica que você siga. Afastou-se? Busque. Ponto final. E é aqui que a frase do título deste post torna-se tão repulsiva ao meu coração. Pois não consigo coadunar o que Cristo nos ensinou com essa afirmação.

desigrejados 2Temos de refletir muito bem sobre o que lemos por aí antes de acreditarmos naquilo e sairmos reproduzindo. E uma reflexão aprofundada sobre “Quem sai da igreja por causa de pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus” me dá a nítida ideia que quem diz essa frase segue e deseja propagar o seguinte raciocínio: se um indivíduo se desgarrou do rebanho porque foi ferido, magoado, traído ou ofendido de algum modo por membros ou líderes da igreja, o problema não foi o que fizeram com ele, mas a fé inexistente dele em Cristo – e, portanto, podemos deixar esse “infiel” para lá. Se concordamos com essa frase, estamos acreditando que a pessoa em questão era um falso convertido, um simpatizante mas não praticante do evangelho. Em outras palavras, estamos tomando para nós o poder divino de perscrutar corações e afirmar quem é salvo e quem não é. Se eu assinar embaixo dessa frase, vou deixar de desejar que líderes opressores parem de oprimir os membros da igreja, ou que irmãos e irmãs que ferem irmãos e irmãs percebam seu erro, se arrependam e mudem. Pois estarei pondo toda a responsabilidade na conta do ofendido. Afinal, ele “nunca entrou lá por causa de Jesus”. O que é um absurdo.

Pense em Pedro. Naturalmente, a igreja como existe hoje não existia na época de Cristo, mas creio que podemos fazer uma boa analogia entre os “desviados” de hoje e o apóstolo no episódio em que ele negou Jesus. Se entendermos que “estar na igreja” é um equivalente a “caminhar em fidelidade aos princípios comuns à fé cristã”, podemos considerar que Pedro, ao trair Jesus três vezes, “deixou a igreja”. Ele negou o Salvador. E – repare –  o fez por causa de pessoas, com medo dos que disseram que ele era um cristão. Logo, pelo pensamento em questão, Pedro nunca fez parte “da igreja” por causa de Jesus. E sabemos que isso simplesmente não é verdade. Simão apenas fraquejou por um tempo, devido a problemas com as pessoas ao seu redor. Posteriormente, arrependeu-se, foi perdoado pelo Senhor e convocado a se tornar um pastor do rebanho de Cristo. Tenho consciência de que essa não é uma analogia perfeita, mas penso que passa uma visão bem honesta do quanto a afirmação do título deste post não condiz com a realidade.

“Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou? E, se porventura a encontra, em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos” (Mt 18.12-14). Eu leio isso e, dentro do contexto da passagem, fico imaginando se Jesus diria à ovelha perdida: “Olha só, se você se extraviou do resto do rebanho porque algumas dentre as outras 99 ficaram te mordendo, dando coices e esfolando sua lã, é porque você nunca fez parte do rebanho”. Sinceramente, você consegue imaginar o mesmo Messias que ensinou a parábola da dracma perdida e do filho pródigo dizendo isso? Eu não.

desigrejados 3Quem reproduz essa frase está dando as costas para a dor do próximo. Para os sentimentos das pessoas. Para a humanidade dos seres humanos. É alguém que não consegue chorar com os que choram. Que não entende a dor que é para um cristão ser traído por um sacerdote, ao ter os pecados que confessou a ele serem vazados para outras pessoas, ou ao ser perseguido dentro da igreja por discordar de forma legítima e ética da liderança. Que não empatiza com um irmão que foi maltratado por pessoas da igreja. Que não compreende como sofre alguém que é machucado no lugar onde deveria ser abraçado, cuidado e tratado. Jesus se revela por sua Palavra, que ecoa nas atitudes das cartas vivas que deveríamos ser nós, cristãos (2Co 3.2-3); porém, se essas cartas não tiverem a letra e a cor da tinta de Cristo, como querer que os feridos e magoados enxerguem o mesmo Cristo no lugar onde elas estão? Em outras palavras, se quem deveria ser o sal da terra não salga e a luz do mundo não brilha, a culpa é de quem sofreu danos infligidos por esse sal que arde e essa luz que queima?

É claro que compreendo que um cristão sólido suportará pedradas e açoites. O cristão alicerçado na rocha ficará firme nas tempestades e nos vendavais, será lançado aos leões e entregará o pescoço à espada por amor ao Senhor. A Bíblia afirma isso e não sou eu quem vai discordar. Mas o que parece que os adeptos dessa frase sem coração se esquecem é que muitos e muitos dos que são enxotados da igreja “por pessoas” estão em início de caminhada de fé, ou ainda estão em desenvolvimento, não ganharam ainda tônus espiritual para aguentar as pancadas que sofreram no seio da igreja. Se para alguém que conhece Cristo há muitos anos e em profundidade já é difícil aguentar maus exemplos e más atitudes de líderes e irmãos, que dirá para quem ainda está em processo de conhecimento de Cristo e de aprofundamento de raízes.

desigrejados 4Meu irmão, minha irmã, temos de ser compassivos; isto é, de sentir em nós o sofrimento dos que estão sofrendo e não de ficar questionando a fé de quem já foi profundamente machucado por quem se diz cristão. Nosso papel como embaixadores de Cristo é sermos instrumentos de Deus para levantar o caído, restaurar o destruído, sarar o doente de alma, buscar o perdido. Jamais agir como essa frase cruel propõe. Fica aqui minha proposta para quem acredita que “Quem sai da igreja por causa de pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus“: em vez de largar para lá esse indivíduo precioso e questionar a fé dele, parta em seu socorro e seja você aquele que mostrará que Cristo não é como aquelas pessoas que o feriram. Garanto que, assim, você estará agindo de modo muito, mas muito mais cristão – e poderá ajudar a cobrir uma multidão de pecados: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados” (1Pe 4.8). Faça parte do grupo dos que dão de comer a quem tem fome e não dos que negam alimento a quem agoniza, faminto, à beira da estrada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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imagePassei os primeiros dias das férias deste ano em Cabo Frio (RJ), cidade que frequento há muitos anos por ter a praia que considero a melhor do planeta, a Praia das Dunas. Se dependesse de mim, chegava ali todo dia às cinco da manhã e ia embora após o sol se pôr, com a alma lavada e as forças renovadas. A água é maravilhosa, as ondas são na medida certa, a areia é fina e gostosa, as dunas são deliciosas, a paisagem é idílica, as temperaturas são irretocáveis, o céu é belíssimo… enfim, para mim não precisaria haver outra praia no mundo, essa me bastaria. Só que, como nada nem ninguém é perfeito, ela tem uma característica interessante: em determinados dias, nela venta muito. Mas muito. Entenda: não é um vento forte qualquer, é um vendaval daqueles que roubam chapéus da cabeça, levam cangas embora, fazem a areia correr acelerada rente ao chão e açoitar quem estiver deitado e – o ponto em que desejo focar as atenções – arrancam as barracas de praia da areia e as fazem sair quicando, rolando e rodopiando a dezenas de metros de distância. Nessas últimas férias, houve um dia desses, no qual observei muitas situações de pessoas ao meu redor que tiveram suas barracas sequestradas pelo vento e precisaram sair correndo atrás delas – pagando aquele mico – enquanto suas barracas davam mil cambalhotas e, na rota de fuga, acertavam pessoas, quebravam hastes, derrubavam outras barracas… Cenas de filmes de Jerry Lewis.

Percebi que, em geral, as pessoas cujas barracas lhes causavam essas situações constrangedoras vinham de cidades e estados em que não há praia (percebe-se pelo sotaque). Ou seja, elas não estavam habituadas àquele tipo de lugar e a tudo o que envolve a atividade de ir à praia. Por isso, naturalmente, não tinham as manhas nem conheciam os macetes para evitar a fuga das barracas. Como já faz mais de quinze anos que frequento a Praia das Dunas pelo menos algumas vezes por ano, aprendi as lições (depois de ter a minha própria barraca levada pelo vento em algumas ocasiões, claro). Falemos um pouco sobre como evitar que essa tragicomédia ocorra.

A primeira coisa a fazer é cavar um buraco muito fundo na areia, para inserir o pau da barraca o mais profundamente possível. Assim, será mais difícil que a dita cuja saia voando, uma vez que estará bem alicerçada no chão. Reparei que algumas vítimas do roubo eólico de barracas fincavam o suporte apenas alguns centímetros na areia. Com isso, assim que o vento batia, a barraca era levada rápida e facilmente.

Outra medida é pôr a barraca bastante inclinada na direção contrária ao vento. Se ele sopra rumo à direção oeste, por exemplo, você deve pôr a barraca bem inclinada em direção ao leste. Porque, meu irmão, minha irmã, se você não fizer dessa maneira, pode dizer adeus à sua proteção contra o sol. Vi algumas pessoas fincarem o pau da barraca de forma perpendicular ao solo, o que invariavelmente facilitava bastante as artimanhas furtivas do vento. Pôr a barraca na vertical não é uma decisão nem um pouco sábia em dias de vento.

Mas a coisa não para por aí. Muitos perdem suas barracas não porque elas são arrancadas da areia, mas porque quebram naquele lugar em que a parte de cima se encaixa na de baixo. Pois ali é um local frágil, propenso a rachar, entortar, amassar, soltar. É o ponto fraco da barraca. Uma medida simples e que ajuda muito é pegar uma toalha, camisa ou mesmo o saco em que se transporta a barraca e amarar ali, atando as pontas em alguma cadeira (como se fosse uma tipoia). Com isso, você reforça o ponto mais vulnerável, diminui o treme-treme da barraca (e, com isso, o movimento de vai-e-vem que acaba facilitando a quebra) e estabiliza toda a estrutura.

Por fim, algo óbvio mas que muita gente não pensa em fazer: encostar uma das cadeiras no pau da barraca. Isso evita que o vento balance o suporte, mantendo-o firme no lugar e menos propenso a oscilar furiosamente (o que, normalmente, amplia o diâmetro do buraco na areia e abre espaço para a barraca sair voando).

Se você tomar essas medidas simples e eficientes em dias de vento forte, aumenta enormemente a probabilidade de que terá momentos agradáveis na praia sem se preocupar se a sua barraca sairá rolando em disparada pela areia. Do mesmo modo, se observarmos alguns cuidados elementares em nossa vida espiritual, teremos a certeza de que a nossa caminhada no dia a dia sujeito a vendavais e tempestades será muito mais tranquila e segura.

Assim como muitos dos que têm suas barracas levadas pelo vento passam por isso por não conhecer muito bem as manhas e os macetes da praia, a maioria daqueles que enfrentam situações adversas no dia a dia sofrem sem saber o que fazer por desconhecer as verdades espirituais. E não existe outro modo de descobrir realidades que nos dão esperança e segurança por meio de Cristo sem conhecer e entender as Escrituras sagradas. Estudar a Bíblia é se familiarizar com as causas e os efeitos da existência humana e ganhar intimidade com o Deus que pode nos sustentar nos momentos ruins e iluminar o caminho nas horas de escuridão. Portanto, ter conhecimento bíblico amplo é algo indispensável para suportar os vendavais do dia a dia. Se você ainda não tem, corra atrás de conhecimento. Leia a Bíblia. Leia bons livros cristãos. Leia bons livros não cristãos. Faça cursos. Debata com amigos. Estude. Cresça em conhecimento.

Vamos além. Vimos que cavar buracos profundos onde fixar o suporte mantém a barraca firme no lugar. Do mesmo modo, um cristão precisa ter profundidade em sua vida espiritual para ter firmeza e solidez no cotidiano. Isso significa pegar o conhecimento bíblico sobre o qual falamos no parágrafo anterior e levá-lo a patamares mais profundos de vivência. Ou seja, não basta conhecer e entender a Bíblia, é preciso viver profundamente as verdades que ela ensina. Por exemplo, mais do que saber que é preciso amar o próximo, é necessário pôr em prática ações rotineiras que demonstrem esse amor. Ou, então, mais do que apenas saber que não se deve pagar mal com mal, é indispensável saber sofrer quando aperta o calo e deixar a cargo de Deus a vingança (Rm 12). E por aí vai. Entenda: viver a fé em profundidade não tem absolutamente nada a ver com fazer mestrados ou doutorados em teologia, isso é apenas aquisição de conhecimento. Profundidade, no que se refere ao evangelho, refere-se a viver intensamente o conhecimento que se adquiriu. Cristãos superintelectuais que não praticam o que estudaram são o tipo de cristão mais raso que há.

Também vimos que inclinar a barraca na direção contrária ao vento é importante para mantê-la em pé. De igual modo, o cristão deve estar sempre firme em sua oposição a tudo aquilo que contraria a Palavra de Deus. Querer seguir a favor dos ventos do mundo é pedir para a barraca ir embora. Deixe para lá o que diz o politicamente correto, os valores pregados pela televisão, as práticas de quem desconhece Cristo. Oponha-se a tudo o que desvirtua a Palavra de Deus. Nade contra a correnteza. Firme-se contra o vento.

A ventania também leva embora muitas barracas porque elas quebram em seus pontos fracos. O cristão precisa reconhecer seus pontos fracos e tomar medidas para não ceder onde é mais suscetível. Cada um sabe quais são suas fraquezas, as tentações que mais o levam a pecar. Você certamente conhece as suas. Então, se não quiser sucumbir às tentações e acabar imerso num mar de pecado, tome antecipadamente as providências cabíveis. Cerque-se de cuidados. Vigie. E, assim, terá mais segurança de que não quebrará quando a força das tentações soprar além do que seus pontos fracos parecem ser capazes de aguentar.

Por fim, do mesmo modo que escorar o pau da barraca em uma cadeira ajuda a mantê-la no lugar, não tente encarar os ventos da vida sozinho. Conte com o apoio de bons irmãos em Cristo, que o ampararão na hora da crise. Ninguém basta a si mesmo, meu irmão, minha irmã, todos precisamos de quem nos apóie, socorra, ampare, escute, aconselhe, exorte, console. Procure ter bons amigos cristãos, que não o abandonarão ao conhecer suas dificuldades ou falhas, mas que, justamente nas piores horas, permanecerão ao seu lado. Também é essencial que você congregue em uma igreja que tenha bons pastores, homens realmente vocacionados e que sangram por você; e não aproveitadores, animadores de auditório, traidores de seus segredos ou pessoas ambiciosas ou arrogantes: você precisa de pastores de verdade e não apenas de líderes. Em resumo: caminhe ao lado de irmãos em Cristo que estejam dispostos a escorá-lo quando vier o vendaval.

Conhecimento bíblico, vivência em profundidade desse conhecimento, oposição firme aos valores do mundo, precaução no que se refere aos seus pontos fracos e o apoio de outros cristãos com quem você possa contar na adversidade: se você tiver esses elementos presentes no dia a dia, garanto que estará muito mais preparado para enfrentar os grandes vendavais da vida. E se perceber que algum desses elementos falta, corra atrás dele. Ou você acabará tendo de correr atrás da barraca.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

Considero a passagem de um ano para outro uma das maiores invenções da humanidade. Absolutamente nada muda pelo fato de o dia 1 de janeiro ter chegado, mas, ainda assim, somos contagiados pelo clima de transformação que a mágica dessa data nos propõe. O joelho ainda está doendo, a goteira segue pingando, o carro permanece com aquele barulho no motor, a chuva continua caindo e o sol não deixou de brilhar… mas algo relacionado ao ano-novo nos tenta convencer de que ocorreu algum tipo de transformação cósmica pelo fato de o calendário ter virado. Isso é ruim? De jeito nenhum. Pois esse fenômeno revela um aspecto absolutamente necessário à vida humana: a necessidade de ter esperança.

Paulo registrou a importância de acreditarmos que algo melhor virá: “Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.24-25). Acreditar pacientemente em algo que se espera é o combustível para superar as dificuldades da vida. Ter esperança em que o descanso virá nos dá forças para suportar o cansaço. Ter esperança no emprego ajuda o desempregado a tolerar a escassez. Ter esperança na cura fortalece as pernas do enfermo. Ter esperança na paz dá alento ao atribulado. “A esperança dos justos é alegria” (Pv 10.28), percebeu o sábio. Ter esperança: isso nos motiva, sustenta e alegra. A desesperança conduz ao desânimo, à depressão e até ao suicídio.

Por acreditarmos na esperança, nos agarramos a ela quando as coisas da vida não andam bem. Se fazemos isso estribados na Palavra de Deus, a esperança sobe um degrau e ganha outro nome: fé. E fé é o que nos conduz pelo pedregoso caminho da vida com pés firmes, olhos no horizonte e cabeça erguida. Crer no céu é o alimento para aguentar as dores da existência. A esperança no encontro com Cristo é o que nos move a carregar a nossa cruz na terra, considerando ganho aquilo que parece perda. Fé é a certeza de que, depois da curva da estrada, o sol não mais nos abrasará, a dor não mais doerá, a saudade deixará de doer, o sofrimento será apenas uma lembrança, o cinza se transformará em um milhão de cores.

“Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor; visto que andamos por fé e não pelo que vemos. Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor. É por isso que também nos esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para lhe sermos agradáveis” (2Co 5.6-9). A fé, portanto, nos dá bom ânimo, nos faz superar as dificuldades que surgem à frente, fortalece nossa confiança, nos impulsiona à santidade: fé é a esperança que faz a vida ser mais leve e nos torna íntimos de Deus.

O ano mudou, mas nada mudou. O ano novo continua velho e o velho foi como será o novo. No entanto, nos resta a esperança. A situação está difícil, meu irmão, minha irmã? Tenha, sim, esperança. Esperança alicerçada na certeza de que Deus está no controle, te conhece intimamente e quer o teu bem. Você não foi justificado por Cristo? Então saiba que “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo” (Rm 5.1-5).

Tenha esperança sim, e que ela seja fé.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

 

boneca 1Sei que confessar isso não fará bem à minha imagem de machão brasileiro, mas a verdade é que eu brinco com bonecas. Tudo bem que não é uma atividade solitária ou espontânea: eu só brinco com bonecas, panelinhas, cozinhas de plástico e afins quando minha filha me chama para isso. Como amo brincar com ela, perco todos os pudores masculinos e me torno a voz e a alma da Dudinha, da Lalá, da Giulia, da Bailarina, da Branca de Neve e de muitas outras bonecas que fazem parte do universo lúdico da minha pequenininha. Recentemente, em uma dessas brincadeiras, eu me peguei reparando um aspecto que não havia notado antes: bonecas são perfeitas. Já percebeu que nenhum fabricante faz bonecas de pessoas com problemas genéticos, obesas, deficientes ou amputadas? Quando esse pensamento invadiu minha mente, me fiz uma pergunta que pode soar bem sui generis: por que não se fabricam bonecos de pessoas que fujam dos padrões da chamada “normalidade”, como… anões? Isso mesmo, poderia haver, por exemplo, uma boneca da Princesa Elsa, de Frozen, retratada com um dos 200 tipos de nanismo já identificados pela medicina. Após alguma reflexão, acredito que a resposta a essa pergunta inusitada fala muito sobre como nós, seres humanos, somos.

Em princípio, você pode achar bizarro o meu questionamento. “Ora, Zágari, é óbvio que ninguém fabrica bonecos de anões!”. Bem, na verdade não é algo tão óbvio assim, se levarmos em conta a estimativa de que existem cerca de 175 mil anões sobre a face da terra – um número expressivo de seres humanos. Poderíamos ir além: que tal as fábricas de brinquedos lançarem uma linha de bonecos com deficiências visuais? “Zágari, para, tá ficando doido?!”. Bem… pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que existem no planeta cerca de 75 milhões de pessoas cegas e mais de 225 milhões de portadores de baixa visão, isto é, incapazes de desempenhar grande número de tarefas cotidianas devido à deficiência visual. E poderíamos seguir adiante, mostrando como a população da terra é composta por pessoas cheias de deficiências, disfunções e problemas. Eu mesmo sofro de fibromialgia, síndrome que, acredita-se, afeta 5% da população mundial – nada menos de 350 milhões de pessoas, quase o dobro do número de habitantes do Brasil.

O que isso mostra? Que dos 7 bilhões de habitantes dessa esfera flutuante em que vivemos, a maioria tem algo que as torna “imperfeitas”. No entanto, as bonecas são todas perfeitas. Barbie não tem uma única celulite, imagino que nem mau hálito deva ter. Ken, seu companheiro apolíneo, tem os dentes brancos, sem tártaro algum, não sofre de dores nas costas e imaginá-lo calvo seria uma heresia. A Giulia, uma boneca quase anatomicamente perfeita de uma neném, é loirinha, com olhos azuis, rechonchudinha e nunca experimentou desidratação, diarreia, viroses ou alergias. Que dizer, então, da Branca de Neve, essa musa morena das passarelas, que desconhece o que seja miopia, hérnia de disco, obesidade, intolerância a lactose ou lúpus. Bonecas são perfeitas: essa é a constatação e ponto final.

A pergunta é: por quê?

masks 1Por que quando o ser humano tem a possibilidade de brincar de Deus e fabricar à sua imagem e semelhança pequenos seres humanos de plástico, látex, pano e borracha, escolhe fabricar logo indivíduos sem nenhuma falha, incólumes, esplendorosos, algo como Adão e Eva antes da Queda? A resposta é simples: não gostamos de nossas imperfeições. Bem… até aí tudo bem, eu não gosto mesmo dos pecados que cometo, assim como o apóstolo Paulo também reconheceu que fazia o mal que não queria e não ficava nada feliz por isso. Mas a coisa vai além de “não gostar”: nós buscamos sempre esconder as nossas imperfeições. E esse é o xis da questão.

Eu e você apreciamos nos apresentar da melhor forma possível. Ressaltamos nossas qualidades e tentamos esconder do mundo nossos erros e fraquezas. Recentemente andou rolando pelas redes sociais uma corrente de mulheres que se desafiavam a publicar fotos sem “make” (maquiagem), como se isso fosse uma tarefa terrivelmente desafiadora. Ou seja: mostrar que elas são quem são foi considerado um desafio, uma ousadia, uma quebra de paradigma. Que percepção interessante! Fato: escondemos ao máximo quem na realidade somos. Não confessamos que soltamos pum, tiramos meleca e cheiramos mal sem a ajuda de produtos químicos como perfumes e desodorantes. A humanidade busca sempre ocultar o que tem de pior.

E até aqui só falei de questões físicas. Mas, para o evangelho, o que mais importa não é o corpo, é o coração.

maks 2O ponto é que Cristo nos desafia a sermos transparentes, sinceros, honestos. A abrirmos o peito e confessarmos a Deus o que há de mais negro, pútrido e fétido em nossa alma, em nossos pensamentos e atos, em nossas palavras e omissões. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13). Sim, Deus nos chama para a absoluta transparência. Se tentarmos esconder quem somos, estaremos incorrendo naquilo que Cristo criticou nos fariseus: hipocrisia. Falsidade. A tentativa de nos apresentarmos como super-humanos, algo que jamais seremos; é mentira, pura e simples.

Reconheçamos nossas falibilidades, meu irmão, minha irmã. Esse é o único caminho para o perdão e a restauração. E, além disso, não fingir uma aparente ultrassantidade serve de exemplo para os que nos cercam, que se tornarão mais honestos consigo mesmos e com os demais. Por que fingir ser quem você não é? Por que se fazer de mais santo do que de fato é? Seja quem sua alma é e não quem você deseja que o mundo veja que você é. Pois a proposta de viver de máscaras nos remete ao pensamento do filósofo Maquiavel em sua obra clássica O Príncipe: “O importante não é quem você é, mas quem os outros pensam que você é”. O que, do ponto de vista bíblico, é o oposto do que Jesus deseja.

cruzPermita-me fazer uma pergunta: se você fosse fazer um boneco de si mesmo, como ele seria? O meu teria barriga grande, pele oleosa, fibromialgia, pé cavo, cabelos brancos nascendo em profusão, pernas arqueadas; isso só para falar do exterior. Se fabricassem bonecos que se pudesse apertar um botão nas costas e ele revelasse o que vai dentro do coração, o meu seria chato, egoísta, pedante, mau, depravado… um ser humano completo, típico espécime da era pós-adâmica. Meu irmão, minha irmã, somente o reconhecimento diante de Deus de quem nós verdadeiramente somos faz de nós cristãos autênticos, do tipo que não tem coragem de olhar para o céu, mas que bate no peito e diz: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador…” (Lc 18.13). Encare de frente quem você é. Assuma suas falhas. Pois, se o fizer, terá dado o primeiro passo para que Deus enxergue além delas e veja não as suas sombras, mas a luz do Cordeiro. Jesus tomou sobre si, na cruz, toda a sua maldade. E, se, em vez de escondê-la, você a reconhecer, confessar e lançá-la sobre essa mesma cruz… as portas da graça estarão abertas para você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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post apenasFui convidado a pregar em uma igreja, no Rio de Janeiro, onde compartilhei uma mensagem acerca da urgência de perdoar e se perdoar, como venho fazendo em muitas igrejas desde o lançamento do meu livro “Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar”. Ao final do culto, estava planejado um momento para confraternizar com os irmãos e escrever dedicatórias a quem tivesse adquirido a obra na livraria do local. E assim aconteceu: ministrei a palavra, o culto terminou e me sentei a uma mesa, onde haviam posto exemplares do livro. Ela ficava localizada junto a uma janela que dava para a rua. Foi quando tive a experiência que me levou a esta reflexão. Eu estava trocando ideias com os irmãos e escrevendo dedicatórias nos livros quando reparei em uma senhora que estava parada na calçada, debaixo de chuva fina, do lado de fora da igreja. Ela me chamou especial atenção pelo seu jeito: solitária, séria, meio deslocada, olhando atenta para dentro do prédio, com uma atitude nitidamente diferente da dos irmãos e irmãs que conversavam animadamente à porta… algo nela captou meu olhar. Na foto que abre este post você pode vê-la, de óculos, atrás de uma esquadria preta da janela. Senti um impulso muito forte de conversar com aquela senhora, por isso levantei-me da mesa, pedi licença aos manos que estavam ao meu redor e caminhei para a rua. Parei ao lado dela e comecei a puxar papo.

Assim que ela falou a primeira palavra, notei de cara que estava bastante alcoolizada. O cheiro de cerveja era bem forte e sua fala estava arrastada, com palavras mal articuladas. Ainda assim, consegui entabular uma conversa. Comecei perguntando seu nome [que manterei em sigilo, vou chamá-la apenas de Maria]. Eu, então, me apresentei e indaguei se ela tinha acompanhado o culto, mesmo ali da rua. Ela me respondeu que estava no bar que fica exatamente ao lado da igreja, imersa em cerveja, quando começou a escutar a mensagem, o que a fez se levantar e ficar do lado de fora, mas sem coragem de atravessar a porta. Dali, não conseguia escutar muito bem a pregação. Que pena. Perguntei por que ela não tinha entrado e Maria respondeu que “não se sentia digna” de entrar no santuário. A meu pedido, aquela senhora passou a me relatar sua vida. Ela tinha sido membro justamente de uma das igrejas da denominação em que congrego. Por desavenças com pessoas da igreja e conflitos dentro da congregação que frequentava, acabou se afastando da comunidade de fé, desistindo de ir aos cultos e  se entregando a uma vida de pecados. Em resumo, ela tornou-se a típica “desviada”.

Confesso que meu coração sangrou ao ouvir sua história. Vi aquela preciosa vida ali, entregue às futilidades da existência, machucada por filhos de Deus, ouvindo o chamado do Pai, mas… sentindo-se indigna de entrar no santuário. Comecei, então, a lhe falar do amor de Cristo e da paz que só ele pode dar, do perdão e de tudo o que a entrega de uma vida a Deus realiza. Ela escutou atentamente. Ao final, perguntei se não gostaria de restabelecer os vínculos com Jesus, mas ela deu uma resposta que é muito comum ouvirmos:

– Primeiro eu preciso ficar limpinha… minha vida tá toda errada…  eu estou imunda…

sujeiraAquelas palavras foram como um soco no meu estômago. Tentei argumentar, explicando que Deus é quem limpa e purifica, mas ela fincou pé. Por saber que não é o homem quem convence do pecado, da justiça e do juízo, mas o Espírito Santo, perguntei, então, se não gostaria que orasse por ela. Mas Maria mostrou-se refratária. Parecia que estava se sentindo tão suja na alma que qualquer coisa relacionada à pureza divina a fazia se sentir indigna. Diante de sua recusa, compartilhei algumas palavras mais sobre Cristo e terminei dizendo que ele a estava esperando de braços abertos, independente de ela não estar “limpinha”. Ao me despedir, ela olhou fundo em meus olhos e segurou minha mão. Não disse palavra alguma. Apenas ficou ali, me olhando por longos segundos. Depois virou-se e foi sentar-se à mesa do bar. Eu retornei para a igreja e continuei com as dedicatórias nos livros.

Quando chegou a hora de ir embora, minha esposa foi pegar-me de carro. Abracei os irmãos e entrei no banco do carona. Foi quando olhei para o bar e vi que Maria permanecia sentada e olhava para mim pela janela do veículo com um olhar fixo. Partimos e fomos embora, mas notei que aquele par de olhos me seguiu enquanto o automóvel se afastava. Eu sei que, na verdade, aquela senhora não estava olhando para mim, mas para o que eu representei naquela noite: palavras de pureza, em Cristo.

sujeira 2Maria é uma em meio a uma incontável multidão. Você encontra milhões de marias pelas ruas, pelos shoppings, na escola, na faculdade, no trabalho, na sua família. Maria convive conosco, diariamente, e, muitas vezes, não a enxergamos. É invisível à nossa insensibilidade espiritual. Em todo o planeta há pessoas que se encontram distantes de Cristo e, por isso, buscam paz e felicidade em montes de coisas que não preenchem. Mortos na putrefação dos delitos e na imundice do pecado, sabem que precisam de algo, que não entendem bem o que seja; algo que sopre vida em suas almas e encha seus lábios mortos de sorrisos de alegria. Algo que as purifique e as faça ficar “limpinhas”. Nós sabemos que esse algo, na verdade, é alguém. E que ele não espera que vão ao seu encontro pessoas “limpinhas”: quem ele mais busca abraçar são as imundas.

Maria não quis o abraço de Cristo aquela noite. Eu fiz o meu papel: proclamei a salvação, a paz, o caminho, a verdade, a vida. Ela não quis receber nada daquilo naquele momento, embora estivesse absurdamente sedenta de tudo o que lhe apresentei. Sua alma, suja e malcheirosa pelo pecado, berrava, clamando por socorro, limpeza e purificação. No entanto, o sentimento de inadequação foi mais forte. Isso ocorre muito e é um alerta para nós: precisamos mostrar aos filhos pródigos que a casa do pai não os aguarda com castigos e recriminação, mas com festa, um anel no dedo e roupas novas e limpas. Temos de incluir em nossa proclamação das verdades sagradas que o evangelho é para os bêbados, os depravados, os assassinos, os ladrões, os corruptos, os indignos. Cristo não busca os purificados; ele purifica os que busca.

Sabe… Jesus veio à terra acostumado à imundície. Um aspecto interessante do Natal é que, geralmente, ao vermos presépios, o que encontramos são representações de estrebarias como lugares bonitinhos, com uma estrelinha no topo e bichinhos fofinhos rodeando um menino Jesus limpinho. Só que não foi assim o primeiro Natal. Um bebê nasce sujo dos líquidos corporais da mãe. Para ser limpo, imagino que Jesus deva ter sido lavado com a água destinada a ser bebida pelos animais (que outra água há numa estrebaria?). E o ambiente não era nada fofo: se você já visitou estábulos em hotéis-fazenda ou outros lugares similares, sabe que cheiram mal, têm fedor de estrume, xixi de vaca e muitas moscas. Então entenda: Jesus veio ao mundo num local imundo, indigno, insalubre. Os primeiros cheiros que nosso Deus sentiu na vida terrena foram de excremento e urina de animais. Insetos devem ter pousado em seu rostinho com as patas salpicadas daquilo em que eles gostam de pousar. Meu irmão, minha irmã, Cristo sabe o que é sujeira. Ele viveu desde o nascimento em contato direto com a sujeira. Ele conhece o cheiro de podridão. E entende o que é o fedor da miséria humana.

sujeira 3A boa notícia é que, ao subir aos céus, Jesus ascendeu com um corpo glorificado, incólume, sem sujeira ou mancha alguma. Puro. Digno. Limpo. Em paz. E isso é um sinal para nós. Neste Natal, busque as marias que você conhece, do jeito que elas estiverem, sujas e malcheirosas pelo fedor do pecado, e diga-lhes que, se elas não se sentem “limpinhas”, Deus tem para elas uma glória maior do que tudo o que se pode supor e imaginar. O Pai tem para elas pureza. Dignidade. Limpeza. E paz.

Faça isso e o Natal ganhará um significado totalmente novo em sua vida. E, mais ainda, na das milhões de marias que estão por aí, apenas esperando que alguém como você as conduza à fonte purificadora da água da vida. “Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida” (Ap 22.17).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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compartilhar 1Desde que retornei ao facebook, tenho visto com frequência aquele tipo de postagem em que o autor escreve coisas como “Se você gostou, compartilhe”, “#Compartilhe”, “Se achou o animal escondido na foto, compartilhe”. Confesso que me soa bastante estranho isso, pois entendo que o gesto de se compartilhar algo que você considera abençoador ou edificante deve ser espontâneo, uma atitude voluntária de alguém que julga que vale a pena compartilhar determinada postagem do facebook. Compartilhar porque alguém mandou é mais ou menos como aqueles momentos constrangedores na igreja, em que quem está conduzindo o culto nos diz para virar para o lado e dizer a pessoas que não conhecemos frases como “eu te amo” ou algo do gênero. Confesso que o faço com certo embaraço, pois penso que demonstrações de amor e similares não têm valor algum se não forem espontâneas. Por isso, é incômodo quando alguém de certo modo “manda” que compartilhemos algo nas redes sociais. Pensar sobre isso me fez refletir sobre o ato de compartilhar como um todo, em diferentes âmbitos da vida.

Compartilhar faz parte da caminhada cristã. A expressão máxima da importância desse gesto encontramos na celebração da Ceia, quando compartilhamos o pão e o vinho. Muitos acham que a Ceia resume-se à ingestão desses elementos, mas não é verdade: a beleza do memorial do sacrifício de Cristo está no fato de que o fazemos em comunidade, no meio do grupo, o que demonstra um sentimento de coletividade, de corpo. Membros de um corpo precisam estar conectados, senão o que temos é uma aberração, um corpo desmembrado. Assim, a Ceia é muito mais do que ingerir pão e vinho: é fazê-lo de modo compartilhado.

compartilhar 2O evangelho nos manda compartilhar o tempo todo, mas sempre de modo voluntário. Jesus elogiou a senhora que compartilhou suas poucas moedinhas com o templo. A descrição da Igreja primitiva mostra como seus membros compartilhavam de coração tudo o que tinham: “Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham” (At 4.32). Quando Ananias e Safira mentem ao Espírito Santo no compartilhar daquilo que venderam, seu senso de “obrigação” é considerado pecado e acaba provocando a morte de ambos. Ao escrever aos cristãos de Roma, Paulo revela uma disposição voluntária de espírito ao dizer: “Anseio vê-los, a fim de compartilhar com vocês algum dom espiritual, para fortalecê-los” (Rm 1.11). Já aos crentes de Corinto, o apóstolo mostra-se esperançoso de que eles compartilhem de seu sentimento (repare que ele não impõe, mas anseia, o que demonstra que ele espera uma atitude espontânea): “Estava confiante em que todos vocês compartilhariam da minha alegria” (2Co 2.3). Mais do que tudo, compartilhar é um gesto de generosidade e, por definição, generosidade é algo que ocorre sem obrigações: “Por meio dessa prova de serviço ministerial, outros louvarão a Deus pela obediência que acompanha a confissão que vocês fazem do evangelho de Cristo e pela generosidade de vocês em compartilhar seus bens com eles e com todos os outros” (2Co 9.13).

Devemos compartilhar. O quê? Tudo o que for possível. Compartilhar nossos bens com os que têm menos, compartilhar nossas alegrias com quem conosco se alegra, compartilhar nossas tristezas em busca de consolo, compartilhar o evangelho por amor aos perdidos, compartilhar nosso tempo com quem precisa de nós, compartilhar nossos momentos com o Deus que gosta de conversar conosco, compartilhar esperança com os abatidos, compartilhar a paz que temos com os atribulados. Cristo compartilhou a vida eterna conosco, é importante lembrarmos. Mas tudo isso deve ter como única motivação um coração generoso e uma disposição voluntária. Eu ousaria parafrasear a famosa passagem de João 3.16-17 e apresentá-la de uma outra perspectiva, dizendo que Deus tanto amou o mundo que compartilhou com esse mesmo mundo seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus compartilhou seu Filho com o mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele.

Perceba o que motiva Deus a compartilhar conosco o seu Filho: “tanto amou o mundo”. Amor. E amor não se impõe.

compartilhar 3Acho muito estranho mandar que alguém compartilhe algo, simplesmente porque, em essência, compartilhar implica em iniciativa própria. Por isso, por exemplo, nunca pedi a ninguém que compartilhasse no facebook o que posto. Tudo bem que criei minha página nessa rede social somente há poucas semanas, então deixe-me pegar este blog como exemplo. Desde que criei o APENAS, em maio de 2011, nunca pedi a nenhum leitor que compartilhasse com ninguém os textos que aqui escrevo. Embora haja ao final de cada post um botão de “compartilhar no Facebook” a postagem (inserido automaticamente pelo WordPress, não por mim), jamais solicitei a ninguém que o fizesse, tampouco pedi a nenhum assinante que enviasse por e-mail para os seus amigos os posts que recebem. Também nunca pedi a quem quer que fosse que se tornasse assinante do blog.

E há em meu coração uma razão clara para isso: desde o nascimento do APENAS, oro constantemente a Deus para que as reflexões que aqui compartilho por amor só sejam compartilhadas pelos leitores com seus amigos se for igualmente por amor a eles, mediante o toque do Espírito Santo. Jamais quero que seja algo imposto,  forçado ou solicitado. Se não fosse assim, minha escrita não seria feita por amor a você, que me lê; e o seu compartilhamento do que escrevo não seria feito por amor às pessoas que você deseja que leiam os textos. Abençoar não pode nunca ser uma decisão imposta. Abençoar é um gesto voluntário de amor. Por isso, se posso pedir algo é: por favor, jamais compartilhe qualquer post do APENAS pelo facebook, por e-mail ou pelo meio que for se você não tiver como motivação amor e desejo voluntário e sincero de abençoar.

cor 8Do mesmo modo, recomendo que você jamais compartilhe absolutamente nada por obrigação. Compartilhe sempre com um coração generoso – sejam sentimentos, sejam bens, sejam palavras, seja tempo, seja sua companhia, seja o que for. Pois esse é um princípio bíblico: “Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria” (2Co 9.7). Devemos compartilhar alegres; jamais contrariados. E, nesse sentido, precisamos estar constantemente em sintonia com o Senhor, por meio de oração e do estudo das Escrituras. Pois, assim, teremos intimidade com ele e, naturalmente, a generosidade que Deus carrega em si se manifestará em nós e por meio de nós.

Compartilhe essa ideia. Se quiser, é claro, e não porque eu te disse para fazer isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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