Arquivo da categoria ‘Fé’

Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

hoje não trago uma reflexão nos moldes que costumo fazer habitualmente. Concedi recentemente uma entrevista para a revista Comunhão, que foi publicada semana passada. Acredito que algo do que eu disse na reportagem pode edificar sua vida, por isso, permita-me, hoje, em vez de escrever uma reflexão em forma de texto, compartilhar uma em forma de entrevista. Basta clicar na imagem abaixo e você poderá ler não só minha entrevista, mas toda a revista de forma eletrônica – gratuitamente. Peço a Deus que abençoe sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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culto 1É muito frequente irmãos e irmãs que acompanham minhas postagens aqui pelo APENAS e, nos últimos meses, também, pelo Facebook, me questionarem a respeito de minhas crenças doutrinárias e de posicionamentos que me levam a adotar o estilo de texto que costumo escrever. Já citei aqui casos de manos que vieram me “pôr contra a parede” para eu dizer se sou calvinista ou arminiano (o que nunca vou dizer, aliás), se eu tenho preconceito quanto a pregar em igrejas tradicionais ou pentecostais (por que teria?), se não escrevo textos mais pesados e acadêmicos por alguma razão especial (sim, há uma razão)… e por aí vai. São questionamentos desse tipo. Recentemente, fui convidado a pregar em uma igreja, onde, ao final do culto, conheci, pessoalmente, um irmão em Cristo que é assinante do blog e tem o desejo de escrever livros. Ele me fez algumas perguntas, entre elas uma que me chamou a atenção. Essa, sim, acredito que valha a pena comentar, pois pode levar você a uma boa reflexão.  Bem observador, o mano me fez o seguinte questionamento:

– Zágari, eu reparo que uma enorme quantidade dos textos que você compartilha no APENAS partem de episódios do dia a dia, até mesmo situações da sua vida pessoal, mas falam sobre realidades profundas da fé. Por que você segue essa linha? É uma escolha consciente? Esse tipo de texto traz algum tipo de benefícios ao leitor?

olharFoi muito interessante o rapaz ter feito essa ponderação, porque ele conseguiu perceber algo que faço conscientemente: sim, escrever esse tipo de texto é uma decisão, uma opção. E “esse tipo de texto” tem nome: crônica. Eu escolhi escrever a maioria dos textos no blog em forma de crônica por uma decisão pensada e proposital. Mas, antes de ir adiante, preciso dar uma rápida explicação sobre o que é esse gênero literário chamado crônica, caso você não saiba o que o caracteriza: “A crônica é uma forma textual no estilo de narração que tem por base fatos que acontecem em nosso cotidiano. Por este motivo, é uma leitura agradável, pois o leitor interage com os acontecimentos e por muitas vezes se identifica com as ações tomadas pelas personagens. […] Além do mais, é uma leitura que nos envolve, uma vez que utiliza a primeira pessoa e aproxima o autor de quem lê. Como se estivessem em uma conversa informal, o cronista tende a dialogar sobre fatos até mesmo íntimos com o leitor” (Fonte: site Brasil Escola).

Bem, mas o que interessa a você saber isso? Este, afinal, não é um blog sobre literatura, mas sobre vida cristã. A verdade é que há, sim, um elemento didático e espiritual nessa minha escolha. Como a crônica trata de fatos do cotidiano, ao fazer uma reflexão sobre as coisas de Deus a partir de episódios corriqueiros do dia a dia, eu procuro mostrar que é possível a pessoa perceber a influência e a beleza de Deus em tudo na nossa vida.

olho com cruzPor que isso é importante? Porque nossa fé não se restringe ao momento do culto ou às quatro paredes da igreja. Quando eu escrevo sobre realidades bíblicas a partir de episódios normais do dia a dia – como uma folha que vi voar pela janela, algo que minha filha disse, o encontro com um homem cego na rua ou problemas no engarrafamento – estou reforçando a ideia de que a vida cristã se dá em tudo. Em todos os momentos. Em todos os lugares. Deus age em tudo o que vivemos e devemos contemplar a vida sob essa perspectiva, da presença e da ação do Senhor.

Tenho procurado desenvolver essa percepção na minha rotina diária. No cotidiano, mesmo que eu não queira, acabo percebendo o Senhor nas pequenas coisas, nas situações mais corriqueiras e, consequentemente, lições de vida fluem do mundo ao meu redor. Tudo torna-se um culto, constante e interminável. E quero incentivar você a fazer o mesmo. Oro a Deus que você cultue o Senhor no ônibus, na rua, no trabalho, nos relacionamentos… em tudo e sempre. Ao falar, por exemplo, sobre a importância de o cristão ter raízes sólidas a partir da observação de uma árvore no meio da rua, espero estar estimulando você a encontrar ensinamentos divinos nas árvores ao seu redor. Desejo que a presença divina seja perceptível aos seus olhos quando observar uma abelha, comer um pastel ou tomar um banho de mar. Pequenas coisas, eventos aparentemente irrelevantes e corriqueiros podem ensinar grandes lições espirituais caso você tenha o olhar certo para perceber.

Se você conseguir desenvolver essa percepção, vai reparar a presença e a ação de Deus de forma ininterrupta em sua vida. Você viverá em oração sem precisar fechar os olhos ou dobrar os joelhos, pois tudo o que vivenciar vai elevar seu pensamento a Cristo. Suas atitudes serão direcionadas pela percepção da onipresença divina. E sua jornada terá, diariamente, o perfume das ações do Criador.

Comece a fazer esse exercício, se desejar. Eu acredito nele, pois me tem feito viver muito mais Cristo em meu dia a dia. Se optar por isso, em breve você não só estará escrevendo textos muito melhores e mais significativos do que os meus, mas caminhará pela vida com a percepção muito mais clara de que Jesus dá cada passo junto com você, todos os dias, em todos os momentos, até o fim dos tempos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
 .
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Jesus chorou 1A Bíblia relata uma passagem enigmática da vida de Jesus. Ele é chamado às pressas para ir até o povoado em que viviam três amigos, os irmãos Lázaro, Maria e Marta. Lázaro estava gravemente doente, à beira da morte. O Mestre seguiu até o local, mas já encontrou o amigo morto e muitas pessoas o pranteando, em luto, chorando e se lamentando. O texto bíblico prossegue. Jesus pergunta: “Onde o colocaram?”. E as pessoas presentes respondem: “Vem e vê, Senhor”. É quando o texto diz: “Jesus chorou” (Jo 11. 35). A grande pergunta é: por que exatamente Jesus chorou? O que o levou a derramar lágrimas?

Há algumas teoria. Uns dizem que foi pela incredulidade que encontrou entre parte dos que ali estavam. Afinal, diz o texto: “Mas alguns deles [das pessoas que estavam no local] disseram: ‘Ele, que abriu os olhos do cego, não poderia ter impedido que este homem morresse?’” (Jo 11.37). Essa hipótese é pouco provável, pois, se formos analisar quantas vezes ao longo dos evangelhos vemos relatos de pessoas que duvidaram de Jesus, as numerosas ocorrências não caberiam neste espaço. E o texto bíblico mostra que em nenhuma outra ocasião a incredulidade das pessoas levou o Mestre a chorar.

Jesus chorou 2Outra teoria é que ele teria derramado lágrimas pela dor da perda de Lázaro. O próprio texto diz que houve essa percepção entre alguns que estavam ali: “Então os judeus disseram: ‘Vejam como ele o amava!’” (Jo 11.36). Essa hipótese também é improvável, pois Jesus é Deus, ele participou da criação do mundo (Jo 1), sabe quando cada pessoa vai nascer e morrer e tem plena certeza de que a morte do justo alegra o coração de Deus. Mais importante, Jesus conhece o que vem após a morte e não tem as dúvidas e os medos que nós, que nunca passamos por ela, sentimos. Melhor do que ninguém, o Deus que se fez carne sabe que, após a morte, o que espera os salvos é: “Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor” (Ap 21.4). Por que, então, alguém choraria pelo fato de um amigo ter partido para uma realidade tão maravilhosa como essa? Não faz nenhum sentido.

Então por que, afinal, ele chorou? A explicação está no texto bíblico. A Escritura diz que, assim que Jesus chega à casa da família de seu amigo, Maria se prostra a seus pés e chora, junto com os outros que a acompanhavam. Então, que “ao ver chorando Maria e os judeus que a acompanhavam, Jesus agitou-se no espírito e perturbou-se”. Em seguida, profundamente comovido, ele próprio chora (Jo 11.33,35,38). O texto bíblico continua e, novamente, temos outra informação sobre o estado de espírito de Cristo naquele momento: “Jesus, outra vez profundamente comovido, foi até o sepulcro” (Jo 11.38). Pela segunda vez, é dito que o Senhor estava tocado em suas emoções.

Jesus chorou 3Chegamos, então, à chave da questão: ele estava “agitado no espírito” e “profundamente comovido”. Pela morte de Lázaro? Não. Isso ocorre “ao ver chorando Maria e os judeus que a acompanhavam”. O que levou Jesus às lágrimas foi ver o choro das pessoas. A dor delas. Em outras palavras, Cristo chorou por compaixão. A bondade de Jesus é tanta que ele se deixa tocar profundamente pela dor e pelo sofrimento das pessoas. E chora em empatia com elas. Só alguém de coração muito bondoso seria capaz disso. E Jesus é a bondade encarnada. Jesus não chorou pela incredulidade dos presentes ou pela morte de Lázaro, mas pelo sofrimento das pessoas.

Saiba disto, meu irmão, minha irmã: ao ver a sua dor, Jesus se comove, agita-se em seu espírito e… chora. Pois ele sente na pele o que você sente na alma — e não fica indiferente a isso. Você está sofrendo? Então prepare-se: um Deus comovido e misericordioso entrará em ação em seu favor.

(Este texto foi publicado originalmente no jornal Sal da Terra)

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Deus está no controle 1­Deus está realmente no controle das coisas? Ele já tem tudo previsto ou existe margem para mudanças nos planos divinos? Se o Senhor está no controle, até onde vai sua esfera de intervenção nas coisas do mundo? Livre-arbítrio é uma heresia arminiana? Ou determinismo é uma heresia calvinista? É fato que o Todo-poderoso não está por trás das catástrofes, como alega o teísmo aberto? Como se explica a história de Ezequias, o rei israelita que ganhou 15 anos a mais de vida após orar a Deus? Se o Senhor já sabia que a humanidade pecaria, por que a criou? Se Jesus veio à terra para morrer por nossos pecados, por que pediu ao Pai que afastasse dele o cálice do sofrimento? Se Jesus é descendente de Davi por meio de Bate-Seba, a mulher com quem o rei adulterou, Deus queria que esse adultério ocorresse? Questões como essas dão nó nos neurônios de muita gente, para quem a grande equação por meio da qual Deus conduz o universo é um enigma incompreensível e insolúvel. Esta semana vivi uma experiência que me fez pensar muito sobre como o Senhor age em nossa vida.

Perdão Total_Capa 3D em altaDesde que foi lançado meu mais recente livro, Perdão Total — Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar, tenho sido convidado para pregar ou palestrar sobre o assunto em diferentes cidades do país. Domingo passado, estava agendado para que eu pregasse na Igreja Batista Jardim Icaraí, em Niterói (RJ). Como eu não dirijo, um casal querido, Ana e Renato, se dispôs a sair de Niterói e me pegar em casa, em Botafogo, bairro do Rio de Janeiro. Ficou combinado que eles me pegariam às 18h, pois o culto começava às 19h30. Iríamos eu, minha esposa e minha filha de 4 anos. Só que o imprevisto ocorreu, com toda força.

No meio da tarde, um temporal desabou sobre a cidade. Foi um daqueles aguaceiros que dão reportagem em jornais, com ruas alagadas, trânsito parado e caos. Resultado: depois de muito penar para chegar até meu prédio, fugindo de bolsões de água e trechos intransitáveis, Ana e Renato conseguiram estacionar, ilesos, no posto de gasolina em frente ao meu edifício. Só que já eram 19h e a chuva não dava sinal de trégua. Assim que chegaram, Ana me telefonou e tentei ir até eles, mas minha rua tinha virado um rio e era impossível dar um passo fora da portaria. Conversamos, então, por telefone e, depois de eles terem consultado o seu pastor, todos vimos que não conseguiríamos chegar à igreja a tempo do culto. Resultado: de comum acordo, decidimos adiar minha ida para outro dia. Depois de um tempo, as águas começaram a baixar e consegui fazer um malabarismo para ir até eles. Conversamos pessoalmente e a decisão foi reafirmada.

Confesso que subi de volta para meu apartamento decepcionado e questionando Deus. Já no elevador, eu comentava com o Senhor que não entendia aquilo. Será que ele não queria que eu compartilhasse a mensagem do perdão com os membros daquela igreja? Claro que tenho o entendimento de que o temporal não caiu só por minha causa, mas, como eu também sou uma letra na equação divina, entendo que minha vida também é incluída nas decisões de Deus. Assim como a sua. Assim como a de qualquer pessoa. Fato é que fiquei triste por não poder ir até Niterói pregar sobre um assunto que considero extremamente urgente.

E foi então que a história deu uma guinada.

Deus está no controle 2Cerca de vinte minutos depois de ter chegado em casa, minha filha, que passou o dia inteiro bem disposta, estava arrumada e animada para sair e ficou bem triste por não termos ido à igreja, começou a reclamar de dor de cabeça. Em minutos, a dor ficou extremamente forte e ela passou a sentir um mal-estar generalizado. De repente, o susto: a pequena se revirou na cama e vomitou em profusão. Enquanto eu limpava a sujeira, sua mãe a levou ao banheiro para lavá-la. Lá, mais vômitos. Achei que a crise tinha acabado. Dei-lhe um pouco de água para beber e deitamos no sofá da sala para assistir a uma apresentação de balé. Em poucos minutos, a pequena começou a acusar nova dor de cabeça e mal-estar. Virou-se para o lado e vomitou pela terceira vez, agora no chão da sala.

Foi quando percebi que a coisa ia além de um simples enjoo e tomei a decisão de levá-la para o hospital. Como alguém que já passou três dias internado em um CTI por infecção intestinal grave, levo muito a sério esse tipo de sintomas. Assim, nos vestimos rápido, descemos, vimos que a água já tinha baixado o suficiente para sairmos, pegamos um táxi e disparamos para a emergência pediátrica. Chegamos ao hospital e logo fomos atendidos. Assim que entrou na sala do médico, minha filha vomitou novamente, com espasmos bastante fortes. Seu estômago estava vazio e quase não saía mais nada. Depois dos exames preliminares, entramos na sala de atendimento de emergência, onde, enquanto aguardava para tomar uma injeção, a pequena vomitou pela quinta vez. A dor de cabeça era grande. O mal-estar e a moleza, generalizados. O médico decidiu fazer uma tomografia computadorizada da cabeça.

Vou resumir as três horas e meia seguintes, passadas entre exames e tratamentos, em um parágrafo: graças ao atendimento rápido, minha filha pôde ser liberada naquela mesma madrugada do hospital. Os médicos não conseguiram determinar o que ela teve, mas as suspeitas vão de intoxicação alimentar a viroses. A medicação rápida contribuiu muito para seu quadro não piorar. Ela ficou dois dias em casa, de repouso, ainda com dores, febre e enjoos, mas, com o tempo, o problema passou.

Deus está no controle 3Fiquei pensando. Se tivéssemos ido a Niterói, minha filha passaria mal longe de casa, talvez presa em algum engarrafamento, talvez momentos antes de eu subir ao púlpito para pregar. Imagine como teria sido. Tudo é um grande “talvez”, mas uma coisa é certa: o fato de estarmos em casa quando ela passou mal foi decisivo para que fosse rapidamente socorrida e, seja lá o que a tenha acometido, o mal ter sido debelado com o mínimo de dor e desconforto. Quem sabe, até, uma demora no socorro poderia ter agravado o quadro e gerado problemas mais severos.

E aí fica a pergunta: será que Deus me impediu de ir a Niterói para que eu pudesse socorrer minha filha? Teria ele sacrificado a pregação naquele dia específico em prol do que ele sabia que aconteceria com minha pequena? A resposta é que não sei, é muito complexo pensar sobre isso e eu não sou onisciente. Não tenho como afirmar nada. Mas, quando olho para a Bíblia, vejo que “O Senhor faz tudo com um propósito” (Pv 16.4). Mais ainda, percebo que “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Rm 8.28). Então, ao ler verdades como essas, solidifico em meu coração uma realidade: nada do que aconteceu foi à toa.

O acaso não existe. Sorte é um conceito antibíblico. O que prevalece é a soberania de Deus. E, nessa soberania, o Senhor fez com que, em meio a milhões de cariocas e niteroienses afetados pelo temporal de domingo, eu não fosse pregar conforme tinha sido planejado e, assim, estivesse em casa para socorrer com agilidade minha filha. Se você me perguntar se foi coincidência, vou sorrir, com toda a certeza do mundo de que Deus teve um propósito no que ocorreu e que ele agiu para o nosso bem.

Meu irmão, minha irmã, preste mais atenção às coisas que acontecem em sua vida. Não digo só as grandes; as pequenas e insignificantes também. Pois, se tudo Deus faz com um propósito e em todas as coisas ele age pelo bem dos que ama, lembre-se que tudo significa tudo. E todas as coisas significa todas as coisas. Não uma parte, não uma parcela, não umas e não outras. Tudo. Todas as coisas. Esse é o Deus da Bíblia.

Deus está no controle 4Com essa percepção, você vai passar a perceber a ação de Deus no engarrafamento, no chuveiro que pinga, no calor abrasador, no mendigo que lhe pediu dinheiro, no atraso do dentista, na gata que fugiu de casa, na topada do pé. Há gente que brinca com quem atribui tudo ao Diabo, criticando quem diz que “queimou o arroz, é culpa do Diabo”. Eu discordo. A “culpa” é de Deus. Pois ele tinha em mente aquele arroz queimado. Para quê? Sei lá! Mas ele sabe. A vida é uma grande engrenagem, que tem como finalidade nos conduzir à vida eterna, em Cristo. Como tudo isso funciona eu não faço ideia, os pensamentos do Senhor são muito mais elevados do que os meus para que eu consiga compreender. Mas de uma coisa eu sei: eu não preciso saber todos os mistérios do Senhor nem conseguir explicá-los, pois basta compreender que Deus sabe tudo. Peço apenas que ele me tome pela mão e conduza meus passos. Em outras palavras, “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

Digam o que quiserem, Deus está no controle. Uns chamam de sorte, eu chamo de Deus. Uns chamam de acaso, eu chamo de Deus. Uns chamam de livre-arbítrio, eu chamo de Deus. Uns chamam de determinismo, eu chamo de Deus. Chamem do que desejarem, elaborem as teorias teológicas que quiserem, a resposta será sempre uma só: Deus. E, com isso em mente, devemos fazer a nossa parte e, em seguida, agir como recomendou o salmista: “Entregue o seu caminho ao SENHOR; confie nele, e ele agirá” (Sl 37.5).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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espanto 1Embora não tenha esta intenção, este post pode chocar você. Então, se você não deseja ser levado a refletir sobre o que não quer refletir, recomendo que pare a leitura agora. É sério: não quero que ninguém que se incomoda com aspectos da humanidade de Cristo se sinta ofendido, portanto se discutir essa questão ofende sua sensibilidade, por favor, não leia.
Se decidiu prosseguir, tenho de perguntar: preparado para pensar sobre alguns aspectos da pessoa de Jesus sobre os quais provavelmente nunca tinha pensado antes? Então vamos lá: Jesus soltava gases. Tirava meleca. Fazia xixi e popô. Ficava grudento de suor. Sem usar bálsamos, tinha cheiro de suor. Arrotava. Tinha cera no ouvido. E por aí vai. Se você ficou abismado por eu estar falando essas coisas e agora me acha um grande herege ou, no mínimo, um enorme desrespeitoso, gostaria de dizer que estou sendo, simplesmente, bíblico. E, acredite, não estou usando o nome de Deus em vão: eu quero chegar, sim, a algum lugar com esta reflexão.
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As Escrituras falam sobre Jesus que “ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana” (Fp 2.6-7). Isso nos mostra que o Criador do universo, o temível e poderoso Deus, o único digno de abrir os selos, aquele diante de quem todo joelho se dobrará, o Rei dos reis e Senhor dos senhores… fez-se como um homem. E, como tal, carregou em si absolutamente todas as características de um ser humano, com exceção de uma: ele nunca pecou. 
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E se, como homem, Jesus tinha todas as características humanas, é natural concluir que ele flatulasse, arrotasse, assoasse o nariz, tivesse cheiro de gente, fizesse necessidades fisiológicas e tudo o mais que eu, você e qualquer ser humano na face da terra fazemos. Quando você acorda de manhã, seu hálito tem aroma de rosas? Nunca teve aquelas reações naturais ao final de uma refeição? Os seus gases têm cheiro de perfume francês? Não? E sabe por quê? Porque você é 100% homem. Assim como Jesus. 
espanto 2Posso ir além? Se está escandalizado, recomendo de coração que pare esta leitura agora, pois a humanidade de Cristo será ainda mais exposta a partir deste ponto. Se continuar, será por sua conta e risco. Quer prosseguir? Então vamos lá: há um aspecto da pessoa de Jesus que poucos falam, com medo das reações, que deixa muitas pessoas de queixo caído e cabelos em pé, mas do qual não se pode fugir: Jesus sofreu tentações em todas as áreas. “Tá maluco, Zágari!?!?!?!?!”. Bem… não, eu não estou maluco. Posso afirmar isso porque as Escrituras afirmam isso. Veja: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.14-15). Repare: “ele foi tentado em TODAS as coisas”, assim como ocorre com qualquer um de nós, seres humanos. E “todas” significaria, por acaso “umas mas não outras”? Ou “todas” significa… “todas”? Se “todas” significa “todas”, posso afirmar que Jesus foi tentado para roubar, mentir, desonrar os pais, ser arrogante, sonegar imposto e se relacionar sexualmente sendo solteiro, entre tantos outros milhares de tipos de tentação.
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Não se escandalize por isso. Entenda que ser tentado é diferente de cometer o pecado. Ter sido tentado em todas as coisas não quer dizer que ele pecou em qualquer uma delas. Pelo contrário: a Bíblia afirma que em tudo Jesus foi tentado e afirma que em nada ele pecou. Então Jesus ter sido tentado não é nenhum problema. Problema teria sido ele pecar. Jesus foi tentado no deserto para cometer enorme abominação: prestar adoração ao Diabo. E isso não escandaliza ninguém. Por que, então, dizer que ele sofreu outros tipos de tentação deveria escandalizar?
espanto 3Agora vamos ao que de fato interessa nesta reflexão: precisamos ter muito claro que Jesus é totalmente humano. Totalmente. Totalmente. A ausência de pecado é o porém: exclua o pecado e ele é igualzinho, em sua humanidade, ao resto da humanidade! Se assim não fosse, ele jamais poderia ter morrido pelo pecado de todos, pois um Deus não-humano não teria como sofrer em nosso lugar. Uma das maiores discussões entre os teólogos dos primeiros séculos de Igreja era exatamente esta: seria Cristo só espírito, só carne, dois em um, um em um…? Como seria a essência do Salvador? Após muitas discussões e concílios (reuniões dos líderes da Igreja) concluiu-se, a partir das Escrituras, que ele abrigava em si, simultaneamente, as duas naturezas: humana e divina. Foi preciso a Igreja passar pelos concílios de Niceia (ano 325), Constantinopla (381) e Éfeso (431), para finalmente, no concílio de Calcedônia (451), sacramentar a afirmação da existência de duas naturezas na única pessoa de Cristo (o que a teologia chama de “diofisismo”). O texto final desse concílio estabeleceu:
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“Na linha dos santos Padres, ensinamos unanimemente a confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, o mesmo perfeito em divindade e perfeito em humanidade, o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto de uma alma racional e de um corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, consubstancial a nós segundo a humanidade, ‘semelhante a nós em tudo com exceção do pecado'(Hb4.15); gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nesses últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus, segundo a humanidade. Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é de modo algum suprimida pela sua união, mas antes as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas em uma só pessoa e uma só hipóstase”(DS 301-302).
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Qual é a grande beleza dessa realidade? De que maneira saber que Cristo é totalmente homem, nos mínimos detalhes, influencia nossa vida? Simples: Jesus nos entende. Ele é plenamente o que nós somos. Assim, compreende com exatidão tudo o que tem a ver com o ser humano. Você solta gases? Jesus entende. Você tira meleca? Jesus entende. Você tem mau hálito de manhã? Jesus entende. Seu desodorante venceu? Jesus entende.
espanto 4De igual modo – e este sim é o ponto que realmente importa -, se Jesus te entende nessas besteirinhas sem importância, ele te entende também nas grandes. Você pecou? O perdão dele é total. “Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó” (Sl 103.12-14). Você está sendo tentado? Ele nos ensina o caminho: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação” (Mt 26.41). Você tem vontade de dar na cara de quem te fez mal? Aquele que foi esbofeteado, cuspido e humilhado mostra como reagir: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus” (Mt 5.44-45). E por aí vai. Cristo tem total identificação conosco, porque se fez como um de nós. O gigante se fez como um anão e, assim, compreende plenamente o que é ser anão.
cruzMeu irmão, minha irmã, compreender a humanidade de Cristo não tem nada a ver com saber que ele fazia isso ou aquilo que todo homem faz. Isso em nada importa, é irrelevante. O que é extraordinário é entender que essa compreensão nos revela um Deus que sabe onde dói a nossa dor; que entende o que é a tentação; que viveu na pele a fome e a sede, a dor e a angústia, o sofrimento e o abandono, a vida e a morte. Jesus ser homem é a grande maravilha do milagre da encarnação: ele entende. Ele entende você. Ele compreende pelo que você está passando. Ele sente nele a aflição da sua alma. Ele tem empatia pelas suas dores. E, por tudo isso, Cristo não dá as costas quando você mais precisa dele. Nunca. Essa é uma das mais lindas consequências da cruz.
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Deus te ama. E quis ser como você é, para que você pudesse entender que ele te entende. E, ao vestir-se de homem, morrer e ressuscitar, Cristo deu a você o poder de passar a eternidade na companhia desse magnífico, extraordinário e belo Deus de amor.
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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inferno 1Eu vi o inferno. Calma. Antes que você ache que vou contar mais uma dessas experiências de gente que afirma ter sido arrebatada e levada para um passeio pelo temido local de tormento eterno, deixe-me tranquilizá-lo; não é nada disso. Tampouco pretendo escrever um livro com “divinas revelações” do que há do outro lado da morte. A visão que tive do inferno na verdade é metafórica, fruto de um episódio simples que me fez ter um lampejo da terrível realidade de quem após esta vida adentra nesse ambiente tão misterioso onde há choro e ranger de dentes. Minha filha é muito apegada aos pais. Talvez pelo fato de não ter irmãos ou primos por perto e de conviver essencialmente comigo e minha esposa todos os dias e noites, ela aprecia muito estar em nossa companhia e detesta ficar longe de nós. Com a virada do ano, sua turma na escola ganhou novas professoras, que ela não conhecia antes. Bem aclimatada ao colégio, já há bastante tempo ela não faz escândalos quando a deixamos para a aula, acostumada que está aos coleguinhas e ao ambiente escolar. Até que…

No primeiro dia de aula deste ano, minha esposa é quem a levou para a escola. Tudo certo, sem incidentes. Mas, no segundo dia, foi minha vez. Pus a filhota na cadeirinha de minha bicicleta e fomos pela ciclovia, cantando e conversando, até o colégio. Cheguei, estacionei, descemos da bicicleta e caminhamos para o pátio em que eu a entregaria para a professora. Tudo normal, sem problemas. Só que, então, fui me despedir. Em vez do beijinho e do abraço usuais, seguido de um “tchau, Jesus te abençoe”, naquele dia a reação dela foi diferente. Pediu colo. Agarrou-se em meu pescoço com todas suas forças e começou a lamentar baixinho:

– Papai… papai… papai… papai…

Como um filhote de coala, ela se atracou em mim com braços e pernas e não desgrudava por nada. Desacostumado a esse tipo de comportamento já havia muitos meses, fui pego de surpresa. Tentei conversar. Usei muitos argumentos. Mas as palavras foram vãs e minhas tentativas, infrutíferas.

– Papai… papai… papai… papai…

Olhei para a professora nova com um olhar de “me ajuda” e ela veio em meu socorro. Tentamos fazer minha filha desgrudar e se juntar aos coleguinhas, mas foi pior. Quando percebeu que estavam tentando separá-la de mim, a filhota começou a chorar e a gritar. Foi um escândalo. Eu tentava argumentar, a professora oferecia convites e opções de atividades, mas absolutamente nada surtia efeito.

– Bebê, papai precisa ir…

– Papaaaaaaaaaaiiiiii!!!!!!! – a coisa só piorava.

Quando me dei conta, ela entrou em desespero. Por nada do mundo queria ficar longe de mim. O grito virou um urro. As lágrimas banhavam o rosto, que inchava e se avermelhava. O suor empapava a camisa. O cabelo começou a ficar desgrenhado, de tanto ela resistir. Eu tentava. A professora tentava. Uma auxiliar tentava. Até coleguinhas se aproximaram com olhar assustado para ver o que estava acontecendo. Nada adiantava.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaieeeeeeee!!!!!!

Consegui, com monumental esforço, puxá-la para longe do abraço e a pus no chão. Com um salto, ela se atracou a uma de minhas pernas e o choro piorou.

– Papaaaaaaaaaaiiiiiiii!!!!! Coloooooooooooo!!!!!!!

Olhei para o relógio e vi que, se não saísse dali naquela hora, me atrasaria para o trabalho. Olhei para a professora, que me olhou de volta. Pelo olhar decidimos que teríamos de desgrudar minha filha à força. E foi o que fizemos. Com o máximo de delicadeza que consegui, afastei os bracinhos dela de mim e a professora a segurou, enquanto eu caminhava apressadamente para a porta. Com o coração dilacerado pelos urros da minha filha, que dobraram de volume ao me ver me afastando, olhei para trás.

E foi quando tive a visão do inferno.

Separada do pai, aquela pobre alma babava e chorava, com as mãos estendidas em minha direção, os dedos contristados, gritos que clamavam pela presença do pai, olhos arregalados em desespero. Nada no mundo importava para ela naquele momento: a única coisa que desejava era estar com seu pai. Mas ela não podia. Apesar de todas as fibras do meu ser me impulsionarem para correr em sua direção, tomá-la em meus braços e levá-la comigo de volta para casa, eu sabia que não seria possível. Então assoprei um beijo de longe e gritei:

– Papai te ama! Muito!

E saí do pátio, em direção à bicicleta, enquanto ouvia os gritos e o choro da minha filhinha.

– Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!

inferno 2O que é o inferno? Esqueça todas as imagens simbólicas que já ouviu sobre isso. Esqueça diabinhos vermelhos cutucando pessoas com tridentes. Esqueça divinas revelações, esqueça livros de gente que afirma ter sido arrebatada, esqueça tudo. Inferno é uma coisa só: querer estar com o Pai e não poder. Só quem viu nos olhos de alguém o mais absoluto desespero por desejar ficar com o pai e não ter essa possibilidade, como eu vi, compreende o que significa o choro e o ranger de dentes.

Fomos criados para viver com Deus. Viver longe dele é algo totalmente antinatural. Por isso, nossa natureza clama angustiadamente por sua presença. Quando o Pai pôs Adão no Éden, insuflou nele o desejo de conviver diariamente consigo. Isso é o natural. O pecado, porém, criou o abismo entre Criador e criatura e, a partir daí, passamos a viver com um vazio do tamanho de Deus na alma. Fomos expulsos do jardim, e não fomos criados ou preparados para isso. Deus fez o homem para estar junto de si e qualquer coisa diferente disso é uma distorção astronômica da ordem original das coisas. O inferno foi criado para Satanás e seus anjos, lá não é nosso lugar. Não pertencemos ao inferno, mas ao Éden, à convivência permanente com o Pai. Por isso, é completamente artificial estar longe de Deus, não faz sentido, não encaixa, o mundo vira de cabeça para baixo numa situação dessas.

cruzMas, então, veio a cruz. Ela nos tirou dessa realidade irreal e surreal que é viver longe do Pai. Ao sermos adotados como filhos de Deus, mediante Cristo, retornamos ao estado original para o qual fomos formados: temos acesso ao Senhor, passamos a viver com ele – não mais em um jardim, mas em nós mesmos, feitos habitação do Santo Espírito. Ingressamos no reino do qual nunca deveríamos ter saído. Nossa comunhão com o Pai volta a ser constante, como sempre deveria ser e como nunca deveria ter deixado de ser, não fosse pela entrada do pecado em nosso coração.

Quem não tem Cristo, todavia, vive outra realidade. Na vida desses, a separação do Pai segue do nascimento até a morte. Distraídos com as alegrias desta vida, os prazeres, as festas e os benefícios que as riquezas proporcionam, seu foco torna-se o que está ao redor. O afastamento de Deus os cega a tal ponto que chegam a crer em outros deuses ou mesmo a não crer em nenhum. E, assim, a necessidade de retornar àquele estado original de comunhão constante com o Criador é embaçada pelas coisas desta vida. Consciência cauterizada.

Só que aí chega a morte.

E, após a morte, todas as distrações, todos os prazeres, tudo aquilo que ocupava a mente e o coração dos que deram as costas para Cristo durante seus anos na terra… desaparece. Simplesmente deixa de existir. O que resta? A ausência do Pai. Um vazio que nunca será preenchido. E isso leva, inevitavelmente, ao sofrimento. À dor. Ao desespero. Ao choro. Ao ranger de dentes. Sem as distrações da vida terrena, a alma sedenta da presença de Deus percebe que jamais a terá. Pelos séculos dos séculos, sua existência será marcada pela ausência do Pai. E tudo o que lhe resta é o tormento eterno que essa percepção gera.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!!!!!

Só que aí não adianta mais nada clamar. O Pai não tem mais o que fazer, pois a cruz foi rejeitada. Aquela pobre alma deu as costas para Jesus. O Pai só pode olhar de longe e, cheio de amor e compaixão por aquela vida, afastar-se, ouvindo seus gritos do mais absoluto desespero, pois a justiça teve de ser cumprida: sem Deus nesta vida, sem Deus na eternidade. O que sobra? O nada. O nada absoluto.

Ao final da tarde, voltei à escola para pegar minha filha. Assim que ela me viu, correu em minha direção e, de um salto, pulou no meu pescoço. Ficou agarrada um longo tempo, enquanto eu, meio espremido em seu abraço, dava dezenas de beijos no seu rosto. Sem desgrudar, ela disse baixinho no meu ouvido:

– Papai… eu tava com saudade.

E respondi, com amor:

– Eu também, bebê. Mas agora o papai está aqui. E a gente vai ficar juntinho, viu? Vou te levar pra casa e vamos ficar agarradinhos.

Ela abriu um sorriso radiante. Deu um longo suspiro, relaxou os braços e apoiou a cabecinha no meu ombro. E foi quando eu percebi: agora, ali, no abraço do pai, minha filha estava… no céu.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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o fimNasci. O primeiro olhar para fora do ventre de minha mãe me assombrou: que mundo pavoroso era esse que se descortinava diante de meus olhos, acostumados ao conforto, à segurança e à certeza do útero materno? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas saí para o mundo e logo vi que aquela novidade não era o fim.

Comecei a engatinhar e meus pais passaram a me incentivar a andar sobre duas pernas. Me apavorei. Estava acostumado à segurança dos quatro pilares sobre os quais engatinhava; as alturas me amedrontavam. Achei que não sobreviveria a aquela mudança. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a caminhar e vi que aquela novidade não era o fim.

Minhas fraldas foram removidas e notei que, a cada vez que fazia o que sempre antes fizera na cama, tomava uma bronca dos meus pais. Como seria possível viver sem fazer xixi na hora em que bem entendo, no conforto da minha caminha?, espantei-me. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a fazer pipi no peniquinho e vi que aquela novidade não era o fim.

Fui matriculado numa escola e, no primeiro dia de aula, me desesperei quando vi meus pais saindo pela porta. Nunca tinha ficado sozinho, longe deles, com pessoas estranhas. Gritei e chorei, esperneei e dei escândalo. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas fui descobrindo as novidades do colégio, fazendo novas amizades e vi que aquela novidade não era o fim.

Aos poucos, as brincadeiras das aulas foram substituídas por lições e, em vez de me divertir, passei a ser cobrado, tinha de responder o que sabia numa prova, era muita cobrança e olhares tortos quando a nota aparecia em caneta vermelha em vez de azul. O que é isso, por que não posso simplesmente brincar? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a descobrir o prazer de aprender e vi que aquela novidade não era o fim.

Peguei caxumba. Sarampo. Catapora. Febres altíssimas faziam minha cabeça ficar como um balão. Como é possível, se nunca antes tive isso? Que sofrimento, que dor, que desamparo… “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas depois de remédios e repouso eu me recuperava e vi que aquela novidade não era o fim.

Mudei de escola. No primeiro dia de aula saí da sala para ir ao banheiro e o inspetor veio me dar bronca. Espantei-me por perceber que precisava, agora, pedir permissão até para isso. Gente nova. Cadeiras duras. Cadernos e livros. Cobranças e mais cobranças. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas o estudo foi adiante, a disciplina passou a ser praxe e vi que aquela novidade não era o fim.

Começaram a nascer pelos no meu rosto. Descobri que teria de roçar uma lâmina afiada na cara com frequência. O que tinha acontecido com aquela pele que nunca me dera trabalho, para que bastava lavar o rosto e estava tudo certo? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a me barbear com agilidade e ver que podia usar aquela habilidade para mudar minha aparência de tempos em tempos e vi que aquela novidade não era o fim.

Espinhas! Montanhas amarelas gigantescas passaram a brotar como erva daninha em minha pele, causando dor, abrindo crateras, sangrando, me deixando mais feio do que já era, me obrigando a ir a uma dermatologista e esfregar cremes fedorentos pelo corpo. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas passei a fazer limpeza de pele, evitar alimentos que estimulavam o nascimento de espinhas e a me acostumar com a nova aparência e vi que aquela novidade não era o fim.

Vestibular. O destino de uma vida sendo definido na ponta da caneta. Estresse. Estudos diários. Livros, cadernos, pilhas de anotações. Que desespero, os colegas se apavorando, os pais tensos. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas fiz as provas, passei e vi que aquela novidade não era o fim.

Faculdade. Novas pessoas. Novas disciplinas. Novo ambiente. Novos itinerários. Tudo novo. Tinha de tirar média sempre acima de 7 para manter a bolsa. O primeiro dia de aula me deu calafrios. Primeira nota: 3,5. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas comecei a estudar, descobrir as alegrias da carreira, a fazer novos amigos e vi que aquela novidade não era o fim.

Primeiro estágio. Convivência com profissionais. Ter chefe. Ter responsabilidades. A coisa agora era séria. A primeira reportagem que escrevi foi riscada de cima a baixo pelo meu chefe, que reescreveu tudo. Sentimento de incompetência. Será que dou para essa profissão? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo aprendi as tarefas, meus textos deixaram de ser tão rabiscados, o trabalho foi sendo reconhecido e vi que aquela novidade não era o fim.

Fui acordado certa noite pela minha família. Minha avó, morta em sua cama. Ajudei a trocar sua roupa, lágrimas saltando dos olhos. Desesperei-me com a perda de minha grande amiga. Como é possível nossos amados partirem assim? “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas a dor da perda com o tempo tornou-se uma gostosa lembrança e vi que aquela novidade não era o fim.

Primeiro emprego. Agora eu era um repórter e redator de um dos principais jornais do país. Responsabilidade maior, rotina diferente, plantões de fim de semana, entrevistas com pessoas importantes; um espanto. Tive medo dessa nova realidade, que prometia durar até a aposentadoria. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo me tornei um jornalista com domínio sobre a profissão e vi que aquela novidade não era o fim.

Meu único irmão partiu para uma viagem de dois meses para a Europa. Inesperadamente, conseguiu uma bolsa de pós-graduação e tornou-se residente fixo de um país do outro lado do oceano, numa era em que não havia internet. O vazio foi enorme: eu tinha perdido a unha da minha carne. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo aprendi a ser “filho único” e vi que aquela novidade não era o fim.

Mudança de emprego. De um jornal para outro. Do outro para a televisão. No primeiro dia na emissora, a apresentadora me pede paras “esqueletar um texto”. Que diabos é “esqueletar um texto”? Quem são essas pessoas ao meu lado? Como assim, tenho que pensar nas imagens para meus textos? Não sei nada! Socorro! “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo aprendi a fazer programas de televisão, depois virei editor e vi que aquela novidade não era o fim.

Dor. Diagnóstico: fibromialgia. Abrir mão de tocar violão, dirigir automóveis, carregar peso, digitar no computador. Prognóstico: incurável. Depressão. Dor. Tristeza. Dor. Mudanças. Dor. Falta de perspectiva. Dor. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo descobri que ou aprendia a lidar com aquilo ou desistia de viver e, assim, encontrei caminhos e vi que aquela novidade não era o fim.

Casamento. Casa nova, bairro novo, obrigações novas, igreja nova, contas, pregos na parede, reuniões de condomínio, responsabilidade, amar a esposa como Cristo amou a Igreja… ufa! “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas em pouco tempo descobri as alegrias da vida a dois e vi que aquela novidade não era o fim.

Arrisquei escrever um livro. Recusado por todas as editoras do universo. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Descobri que eu era um escritor medíocre. Incapaz. Desinteressante. Pensei em desistir. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, enfim, uma editora decidiu apostar no livro, que ganhou dois prêmios Areté, e vi que aquela novidade não era o fim.

Parabéns, você vai ser papai! De repente, surge um bebê nos meus braços. Choro. Fraldas. Choro. Dodói. Choro. Noites em claro. Choro. Responsabilidades. Pavor por ser responsável por uma vida. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas logo conheci as maravilhas da paternidade, senti o afeto de uma filha, descobri um amor que não se iguala a nada no mundo e vi que aquela novidade não era o fim.

Mudança de rumo: do jornalismo para o mundo editorial. De editor de televisão passei a ser chamado de editor de livros. Universo novo. Tarefas diferentes. Detalhes desconhecidos. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, logo, descobri a alegria de editar livros e vi que aquela novidade não era o fim.

Envelheci. Os cabelos ficaram brancos. A barba também. A pele perdeu o viço. O corpo deixou de acompanhar o ritmo da mente. Limites novos. Dificuldades crescentes. Agora eu era um senhor idoso. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, logo, descobri que a vivência e a maturidade trazem muita felicidade e vantagens e vi que aquela novidade não era o fim.

O tempo passou correndo. Onde está minha juventude? Cadê os anos, que não vi passarem? Espantei-me com a chegada do futuro e a distância cada vez maior entre o hoje e a aurora da minha vida. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, enfim, vi que minha vida tinha sido bem vivida, apesar de erros, pecados, tristezas e decepções, e vi que aquela novidade não era o fim.

Aposentadoria. Sentimento de inutilidade. Para que eu sirvo agora? Passei a ser tratado como um bibelô ou como um débil pelas pessoas. Olhares tortos de uma sociedade que despreza os mais velhos. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas descobri a alegria de ter tempo para viver, netos para desfrutar, coisas nunca antes realizadas a realizar e vi que aquela novidade não era o fim.

E, afinal, chegou o fim. Os olhos escureceram, o mundo sumiu, o corpo desmoronou, uma dor aguda seguida de silêncio. A única certeza da vida agora era um fato. Morri. Sim, a morte, finalmente, chegara. “Tenho medo do desconhecido, não quero não”, pensei. Mas, de repente, em meio à escuridão surge uma luz, e um homem sorridente aparece diante de mim. Com furos nas mãos e nos pés, e um olhar de puro amor, ele segura a minha mão.

E vi que aquela novidade não era o fim. Era apenas o começo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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