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bebe1Minha filha faz coisas esquisitas. Já comentei aqui no APENAS que ela, para minha surpresa, gosta de ópera. Quando descobri isso, acreditei que a coisa pararia por aí, mas tenho me surpreendido a cada dia com seu gosto, digamos, peculiar para uma criança de apenas 3 anos. O óbvio seria ela pedir para assistir a DVDs da Galinha Pintadinha, Aline Barros e similares. Não que ela não goste de coisinhas produzidas para crianças da sua idade, ela gosta, mas o que me espanta é que a pequena tem demonstrado apreciar o que eu jamais imaginaria. A verdade é que ela muitas vezes faz escolhas que me surpreendem. Recentemente ela viu o balé “O quebra-nozes”. Não só amou como, desde então, fica cantarolando temas musicais e comentando cenas desse balé de Tchaikovsky. Recentemente vimos, também, uma apresentação de nado sincronizado e ela passou a pedir sempre para ver mais. Ou patinação no gelo. Saltos ornamentais. Ginástica de solo. Apresentações de orquestras sinfônicas. Montagens do grupo Stomp. Blue Man Group. Exposições de moedas antigas (!) em museus. E por aí vai. Eu acreditava que, a esta altura da vida dela, eu só estaria lhe contando histórias da Carochinha, mas a Chapeuzinho Vermelho e os três porquinhos já não a atraem mais há um bom tempo. De onde minha filha tira esses gostos esquisitos, que contrariam a lógica de sua idade, eu não sei. Apenas vejo que faz parte de sua natureza apreciar manifestações culturais, artísticas e esportivas que costumam dar sono ou tédio a crianças de 3 anos.

Será que Deus também nos considera esquisitos? Essa realidade de minha filha me faz cogitar o que Deus pensa das preferências de seus filhos. Será que ele olha para mim e se pergunta “Que escolha bizarra, de onde o Maurício tirou isso?!”. Bem, claro que, sendo ele onisciente, não precisa se fazer esse tipo de questionamento, Deus sabe tudo. Mas, nas minhas reflexões esquisitas, me pego pensando o que o Pai acha da forma como procuro ocupar meu tempo.

Evidente que isso exige uma enorme dose de imaginação, mas tente pensar com a mente de Deus. O que você crê que ele considera formas normais de ocuparmos nosso tempo? Procure comparar aquilo que o Pai imaginaria que gostaríamos de fazer como filhos do Deus vivo e aquilo que de fato fazemos. Na sua opinião, você gasta as horas de seu dia fazendo o que o Senhor espera de você? Confesso que, quando penso nisso, me vejo decepcionando muito a Deus. Eu não usaria a palavra “surpreendendo”, pois nada surpreende o Onisciente, mas creio que entre aquilo que ele consideraria óbvio que eu fizesse e o que de fato faço deve haver uma enorme distância. Pensemos nisso.

bebe2A primeira coisa que um Pai espera de seus filhos é que se relacionem com ele, por amor. No entanto, diariamente priorizamos atividades que nos roubam dos momentos de comunhão com Deus. Quando eu deveria estar orando ou estudando a Palavra, mas opto por ver um filme qualquer na televisão, imagino que o Senhor olhe para mim e pense: “Esse meu filho é esquisito… que escolha mais sem sentido…”. Outra forma de ocuparmos nosso tempo de modo surpreendente para um cristão é ao darmos as costas para atividades que beneficiem o próximo. Leio Mateus 25 e vejo com clareza quanto o Pai valoriza que seus filhos priorizem ações em favor das outras pessoas. E aí paro para pensar quantas vezes, digamos, no último mês, eu dediquei minhas forças a fazer o que tem como objetivo abençoar meus irmãos e minhas irmãs… e morro de vergonha, por ter feito tão pouco. Sou ou não um filho de Deus muito esquisito?

É esperado que um filho do Rei ocupe a maior parte de seus tempo e de suas energias com as coisas do reino, com aquilo que tem mais valor para o reino. Não exclusivamente, mas prioritariamente. Lazer, descanso, compras no supermercado, consultas médicas… tudo isso é lícito e tem o seu espaço e o seu momento. O que nos torna cristãos muito esquisitos é quando atividades que nada têm a ver com nossa cidadania celestial tomam o tempo e as forças que deveriam estar sendo utilizadas nas coisas mais importantes aos olhos do nosso Pai. Isso fica claro para mim quando vejo que o adolescente Jesus ficou no templo de Jerusalém debatendo com os mestres sobre as coisas de Deus. José e Maria acharam sua atitude muito esquisita, mas o que o jovem Cristo estava fazendo era simplesmente priorizar aquilo que seria óbvio para alguém como ele: cuidar das coisas de seu Pai.

tempoPenso que devemos fazer o mesmo. É muito fácil a rotina e o corre-corre do dia a dia nos distraírem e desviarem nossas atenções para longe das coisas de Deus. Mas Jesus foi bem claro ao estabelecer as prioridades: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça… ” (Mt 6.33). Será que temos feito isso? Será que priorizar o reino e a sua justiça se resume a ir à igreja uma ou duas vezes por semana e a ouvir musicas evangélicas? É isso que faz de nós filhos exemplares ou apenas filhos esquisitos aos olhos de Deus?

Precisamos entender o que um filho de Deus é chamado para fazer. Em outras palavras, o que é esperado de nós. Mais precisamente: o que Deus espera de você.

Amo minha filha e desejo que tudo o que ela faça sejam ações que me encham de orgulho. É natural que seja assim, é o que qualquer pai espera de seus filhos. Inclusive o Pai celestial. Agora, analise como tem ocupado suas horas, seus dias. Se você fosse o Senhor, se orgulharia da forma como vem priorizando seu tempo ou acharia as suas prioridades muito esquisitas? Será que você tem feito aquilo que Deus gostaria que você estivesse fazendo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

grandes pequenas maravilhas1Você já parou para pensar sobre que invenção espetacular é a escada? Uma tecnologia simples, barata, econômica e extremamente eficaz. Consegue transportar pessoas a alturas enormes usando apenas a técnica do um-passo-de-cada-vez. Ou, então, o guarda-chuva: a pessoa que o inventou deveria receber um prêmio Nobel, tão útil é esse objeto de apenas cinco reais. Pense ainda em outra fantástica invenção humana, os óculos. Eficientes, ágeis, leves, pequenos e que mudam a vida de quem precisa deles. Sou fascinado, ainda, pelo asfalto – só quem já teve de encarar uma estrada de terra esburacada ou de cascalho é capaz de valorizar a genialidade do asfalto. Isso para não falar dos livros, a meu ver a maior criação do ser humano: conhecimento, entretenimento, crescimento e fascinação que cabem embaixo do braço. Essas e outras invenções estão tão integradas ao nosso dia a dia que nem damos muita atenção a elas, mas tornaram-se essenciais à vida (dá para imaginar um mundo sem coisas como desodorantes, sapatos, fraldas, folhas de papel ou travesseiros?). Isso ocorre, também, com as grandes pequenas maravilhas da nossa vida espiritual.

O cotidiano de cada pessoa não é formado, em sua essência, por eventos magistrais, grandiosos; pelo contrário, é a soma de uma enorme quantidade de fatos e elementos muito simples. Entre um dia extraordinário e outro há muitos dias comuns e cheios de alegria, felicidade, paz, transformação e a manifestação da graça de Deus. Da hora que você acorda até o momento em que dorme, se for parar para ver a quantidade incontável de objetos e outros recursos que utiliza naquilo que chama de dia a dia, verá que a vida é formada muito mais por coisas aparentemente insignificantes (mas indispensáveis) do que por grandiosas.

A Copa do Mundo de futebol, por exemplo, só ocorre a cada quatro anos, mas entre uma e outra dá para jogar dezenas de peladas bastante divertidas com os amigos. Nem todo filme ganha um Oscar, mas muitos deles são produções simples que nos envolvem e encantam. Nem todo livro é uma Bíblia, mas há muita literatura transformadora contida em livros aparentemente muito simples. Você pode não morar num castelo no Vale do Loire, mas a sua casinha é o seu castelo. Camarão com catupiry é sensacional, mas como desprezar a delícia de um bom feijão com arroz? Elementos simples que existem em meio a outros grandiosos e que juntos formam um mundo de maravilhas – mas que, por vezes, são desprezados. Se ficamos só esperando a alegria das coisas espetaculares perderemos a maior parte da felicidade da vida.

grandes pequenas maravilhas2Do mesmo modo, em nossa caminhada de fé muitas vezes deixamos de usufruir dos grandes pequenos milagres de Deus por valorizar apenas eventos e fatos espirituais estrondosos. Enquanto ficamos esperando o paralítico se levantar da cadeira de rodas, deixamos de nos maravilhar com o milagre que é Deus ter dado aos homens o conhecimento suficiente para criar um remédio como um anti-inflamatório ou um analgésico. Enquanto muitos se angustiam porque o Senhor não faz as multidões se converterem quando eles pregam, deixam de se assombrar porque uma única alma preciosíssima entregou-se a Cristo. Se deixamos de nos encantar com as grandes pequenas maravilhas da fé, acabamos entristecidos por não conseguir desfrutar das enormes realizações que poderíamos ter ao nos encantarmos com dádivas pouco chamativas. Assim, do mesmo modo que não consideramos nada de mais uma estrada asfaltada ou uma escada (sem perceber quão difícil seria a vida diária sem elas), temos o mau hábito de desprezar as coisas menos espetaculares da vida espiritual.

Com isso, deixamos de desfrutar do melhor de Deus porque passamos os anos esperando pelo extraordinário de Deus.

Pequenas orações são respondidas, mas não glorificamos o Senhor por isso. Uma pessoa é perdoada por uma ofensa cometida, porém consideramos esse um fato qualquer. Um faminto recebe alimentos de uma pessoa caridosa, mas é “só” uma atitude corriqueira. Um filho respeita os pais e acata, em honra, o que eles disseram e esse gesto não parece ser nada de mais. Um pai ensina o filho a dobrar os joelhos antes de dormir e essa ação não emociona ninguém. Recebemos o direito de chamar o Criador de tudo de “Pai” e um bocejo sai de nossa boca ao fazê-lo. O deprimido encontra um ombro amigo onde chorar e não damos atenção a isso. Eventos e fatos como esses são milagres diários, todavia não damos o devido valor a eles.

Não perca a oportunidade de valorizar e se assombrar com tudo o que o Onipotente faz e com tudo o que nossa fé nos permite viver. Gênesis diz que Deus criou os magníficos e gigantescos astros celestes, mas, também, as magníficas e insignificantes sementes das plantas (Gn 1.11). Sim, o Criador do universo é o Criador dos átomos microscópicos. Ele faz milagres de cair o queixo, mas, também, milagres cotidianos bastante singelos. Procure abrir seus olhos para as grandes pequenas maravilhas e você será capaz de viver muito mais próximo do Senhor, com uma fé fortalecida não só porque um morto ressuscitou ou o mar se abriu, mas porque o sol nasceu de manhã, um pássaro cantou na sua janela e uma brisa suave refrescou a sua pele.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

compaixao1Não há nada mais distante da realidade do que a ideia de um Jesus distante da nossa realidade. Imaginar Deus como alguém distante é um dos maiores erros que podemos cometer em nossa vida de fé. Essa concepção equivocada, aliás, gera muitos problemas, como a suposição de que ele não ouve nossa oração, de que não está conosco, de que os olhos do Senhor não estão atentos a nós, de que estamos sozinhos no mundo, de que o pecado é capaz de surpreender Cristo e montes de outras ideias erradas que assombram milhares de milhares de cristãos. Sabe quando Jesus fica distante de nós e alheio a nossos problemas? Nunca. Jamais. Em nem um único instante de nossa vida.

A presença diária de Cristo é um fato incontestável da Bíblia, uma realidade que não tem um bilionésimo de possibilidade de ser incorreta. “E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28.20), assegurou o Deus encarnado, em sua última fala antes de subir aos céus. Ele é Emanuel, “Deus conosco”. Sua permanência onipresente é uma garantia. Uma promessa. E Deus não mente. “Deus não é homem para que minta” (Nm 23.19). Se Jesus falou, tá falado.

Esse mesmo Jesus que deu sua palavra imutável de que nunca estaria longe de nós passou por tudo aquilo que eu e você passamos nesta vida. Frio? Jesus sentiu. Dor? Jesus sentiu. Abandono? Jesus sentiu. Tristeza? Jesus sentiu. Mais ainda: Cristo foi tentado em tudo. E sabe o que significa tudo? Significa… tudo. Portanto, “visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.” (Hb 4.14-17). Se Jesus passou por todo tipo de tentação, não seria pecado dizer que ele foi tentado para roubar, fornicar, sonegar, corromper, faltar com a ética, trair, amar o dinheiro… a lista é interminável. Foi tentado, sim, mas não pecou. Ele conhece bem o doce gosto da venenosa tentação, que é o amargo sabor de se tornar humano.

A grande conclusão: Jesus entende você totalmente. Ele sentiu na pele tudo o que você sente. Ele sentiu na alma tudo o que te machuca. E Jesus está com você, perto. Portanto, o Deus que tudo pode compreende com absoluta clareza o que você está enfrentando e ele está ao seu lado para auxiliá-lo. Você poderia se perguntar se Deus se identifica com sua humanidade. Sobre isso escreveu Paulo: “… embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens” (Fp 2.6-7). Sim, Deus sabe o que é ser gente.

compaixao2E aqui entra uma das maiores realidades sobre o Deus que se fez homem: a palavra grega usada em diferentes passagens dos evangelhos para se referir a compaixão é splanchnizomai. É curioso que, na medicina, “esplancnologia” é o estudo das vísceras, das entranhas. Os conceitos têm a mesma raiz. Assim, a compaixão de Jesus por pessoas como eu e você não é comum: Jesus sente a nossa dor em suas entranhas. Como escreveu Max Lucado, ele “sentiu a deficiência dos mancos, a dor dos enfermos, a solidão do leproso, o constrangimento dos pecadores”. Por isso, quando Jesus encontra pessoas que estão sofrendo, ele sente a dor delas nas próprias entranhas.

Sabe a sua dor? Tenha certeza de que o Cordeiro de Deus a está sentindo no mais íntimo de seu ser divino e humano. Se dói em você dói nele. Se te aflige, aflige o Mestre. Sabe o seu abatimento, a decepção, a solidão, o amor-próprio ferido, a falta de paz e tudo mais que você está sentindo? Jesus sente também. Você foi traído? Jesus soltou um gemido. Você foi esquecido? Jesus sofreu. Você foi desamparado? Jesus cerrou os dentes. Você foi agredido? Jesus sentiu o golpe. Doeu? Jesus disse “Ai…”.

Isso só ocorre porque ele sente splanchnizomai. Compaixão. Co-paixão, paixão compartilhada. Ele compartilha sua dor.

Assim que Jesus sente o seu sofrimento, porém, ele se lembra do Calvário. Recorda-se dos cravos e da coroa de espinhos. E, por fim, lança sobre a cruz toda essa enorme carga de sofrimento – as suas mágoas, tristezas, aflições, decepções. Você tem carregado suas aflições nas costas? Então siga o exemplo do compassivo Deus: lance-as sobre a cruz, pois há dois mil anos ela espera por cada uma de suas dores.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

casar1É enorme a quantidade de casamentos problemáticos entre cristãos. Alguns dos posts mais lidos e comentados aqui do APENAS são os que versam sobre problemas matrimoniais. Muitos dos livros mais vendidos pelas editoras cristãs são os que tratam do assunto. Um dos tipos de ministério “direcionado” que mais surgem é o voltado a famílias e casamentos. Esses fatos denunciam que cristãos enfrentam problemas conjugais tanto quanto não cristãos. Pelo espaço dos comentários do blog chegam até mim muitos casos de pessoas que buscam respostas para problemas conjugais, em situações as mais variadas (se é o seu caso, procure seu pastor, ele é quem melhor pode aconselhá-lo). Em programas de rádio e palestras de que já participei sobre o assunto vejo tipos de problemas que jamais imaginaria, que vão da chamada “incompatibilidade de gênios” a casos de incesto. O que fica muito claro é que o casamento é uma das áreas mais visadas nos ataques espirituais contra os cristãos e por uma simples razão: ao se destruir uma família, ocorre a desestruturação dos cônjuges em diversos âmbitos, os filhos ficam traumatizados, as comunidades são abaladas e, com tudo isso, fere-se a Igreja de Cristo. Assim, qualquer ataque a um casamento é uma afronta direta a Deus. Para quem vive desilusões e problemas no matrimônio, muitas vezes o divórcio é a solução. Já para mim, uma das soluções para problemas matrimoniais é uma mudança na sua compreensão acerca do verdadeiro propósito do casamento.

Como todo mundo, eu me casei acreditando naquelas frases feitas, como “Casei para ser feliz” ou “Casei para fazer o meu cônjuge feliz”. De um modo ou de outro, o que por anos foi muito claro é que o matrimônio tem – no imaginário popular – como finalidade levar o casal à felicidade. É o que nos ensinam nos contos de fadas, em que príncipe e princesa necessariamente têm de “ser felizes para sempre” e ninguém ensina a nossos filhos que príncipes e princesas não vivem deitados eternamente em berço esplêndido, tampouco são lindos de morrer (lembra do príncipe Charles, por exemplo?). Pelo contrário, eles têm obrigações, cotidianos corridos e estressantes, assuntos complicadíssimos do reino para resolver, responsabilidades graves, estresse constante pelo assédio da imprensa (lembra de como foi a morte da princesa Diana, fugindo dos paparazzi?), que exigem demais deles. Mas a imagem ensinada aos pequenos é que príncipes e princesas são bonequinhos lindos e cheirosos, sempre felizes, eternamente de bem com a vida, numa utopia destrutiva para a formação de identidade de um ser humano – é por isso que sinto pânico quando ouço crianças serem chamadas por cargos da monarquia, como “reizinho” e “princesinha”. E, assim, somos adestrados desde os primeiros anos de vida a acreditar que o casamento tem de nos conduzir a esse estado de “ser feliz para sempre”. O que, aliás, é impossível, nunca acontecerá com ninguém e é propaganda enganosa. Mas todo mundo sobe ao altar acreditando nisso.

princesasA princesinha da mamãe um dia vai se casar com um ogro, que, por mais esforçado que seja, terá todos os defeitos que ela não espera (afinal, tirando o Shrek, os príncipes dos contos de fadas nunca têm defeitos). O principezinho do papai um dia se casará com uma mulher que não é delicadinha e obediente como a princesa dos desenhos animados (ou você acha que a rainha Elsa, de “Frozen”, nunca vai engordar, criar pelanca e dar ataques de TPM?). A realidade é a realidade, mas aprendemos de nossos pais e ensinamos a nossos filhos que nosso casamento tem de ser exatamente como na ficção. Que, como diz o nome, é ficção. A realidade tem cores, cheiros e um peso enormemente diferentes.

Adestrados por essa mentalidade equivocada, hedonista e antibíblica de que casamento foi feito para nossa felicidade ininterrupta, subimos correndo ao altar com essa ideia totalmente irreal em mente. Seguimos para a lua de mel com ela. E, pior de tudo, prosseguimos pela vida tomando-a como o critério para julgar se um casamento é bem-sucedido ou não. Só que, por acreditarmos no conto de fadas da felicidade ininterrupta, quando somos confrontados pela realidade é impossível não se frustrar com o cônjuge, não se desapontar, não se chocar com a enorme distância entre ele e aquele lindo príncipe sem espinhas, nariz escorrendo ou cheiro de suor que desperta a Branca de Neve de seu sono com um lindo beijo nos lábios (já imaginou o hálito da Branca de Neve depois de tanto tempo dormindo, sem escovar os dentes?).

washerEu acreditei por muitos anos na mentira da felicidade como critério para julgar a solidez de um casamento. E, assim como você, tive muitas infelicidades ao longo de minha vida matrimonial justamente porque em muitos momentos me vi infeliz. E, assim, a infelicidade alimenta a infelicidade, num ciclo que parece não ter fim. “Se quero ser feliz no casamento mas não sou sempre feliz na vida a dois, então meu casamento é um desastre”, cheguei a penar. Tudo mudou quando ouvi há poucos anos uma pregação do pastor Paul Washer, no YouTube, que causou uma grande transformação na minha forma de enxergar o matrimônio. Recomendo enfaticamente que você assista (clique AQUI). Como toda pregação eficaz e bíblica, ela mexeu com minhas estruturas e modificou minha forma de ver tudo.

Essencialmente, o que Washer ressalta, com muita correção bíblica, é que o casamento não foi criado por Deus para nos fazer felizes, ao contrário do que prega a sociedade em que vivemos. “O verdadeiro propósito do casamento é que ambos sejam conformes à imagem de Jesus Cristo”, diz. Essa percepção mudou totalmente a minha visão sobre o casamento. Ouvir essa pregação foi como uma cortina que se levantasse diante de meus olhos e me fez compreender enormemente coisas que antes eu não compreendia. Meus paradigmas foram transformados. E Deus promoveu em mim a metanoia, a renovação da mente de que Paulo fala em Romanos 12.2.

Meu casamento tornou-se perfeito depois disso? Claro que não. Eu não sou perfeito e minha esposa também não é, lógico que nosso matrimônio jamais seria (ou será) perfeito. Mas o entendimento do verdadeiro propósito do casamento fez com que meus esforços e minhas percepções começassem a me conduzir por caminhos completamente diferentes. Quando você compreende que não se casa para ficar sorrindo, dançando e pulando o tempo inteiro, com dentes brilhantes sob a luz do luar, passa a ter atitudes muito contrárias às que tinha antes.

casalEntenda algo. Se seu cônjuge é turrão e cabeça dura mas você acredita que ele teria de ser diferente para você ser feliz, então você viverá eternamente insatisfeito (ou você ainda acredita na ideia de que as pessoas mudam conforme o seu querer? A sua vontade de que mudem não mudará ninguém). Mas, se entende que seu cônjuge turrão faz com que você se torne alguém mais paciente, então enxerga que o seu casamento com alguém cabeça dura te conforma mais à imagem de Cristo. Outro exemplo: se o seu marido (ou a sua esposa) é meio brigão, comece a tentar ver que isso pode desenvolver em você um lado pacificador cada vez maior. Ou, ainda, se o seu cônjuge é do tipo que de vez em quando busca iniciar briguinhas e discussões, perceba quanto isso te leva a crescer em domínio próprio. Em outras palavras, cada defeito da pessoa com quem você se casou pode ser visto de duas maneiras: ou como um obstáculo à sua felicidade e à sua ideia de casamento conto de fadas, ou como um meio que Deus estabeleceu para que você seja cada vez mais assemelhado a Cristo. Como disse Paul Washer, “Ele [Deus] quer prová-lo e testá-lo de forma que você será conformado à imagem de Jesus Cristo”.

Sei que muitos não concordarão de imediato com essa visão, o que é totalmente compreensível. Não é fácil mudar décadas de uma ideia formatada, que foi inserida na sua cabeça desde que você usava fraldas. Mas, se você consegue adquirir a percepção de que seu cônjuge não é um adversário imperfeito que chegou para atazanar sua vida, mas, sim, um aliado imperfeito que chegou para criar mais e mais intimidade entre você e o Cordeiro de Deus… tudo muda. Em mim mudou.

aliançaO Senhor quer nos fazer crescer em misericórdia, graça e amor incondicional. Deus deseja que cresçamos a partir das fraquezas de nosso cônjuge – e ele, das nossas – para que cuidemos e amemos nossos maridos e nossas esposas mesmo quando eles não atenderem às nossas expectativas. Sei que você vai questionar muito o que escrevi aqui quando olhar seu cônjuge, lembrar de todos os defeitos, falhas e pecados dele – repetidos dezenas de vezes, muitas delas sem arrependimento. Vai achar loucura que ter de enfrentar isso seja algo que venha para o seu crescimento. E é mesmo: “a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18). Sim, é loucura a olhos humanos. Mas é crescimento espiritual aos olhos divinos. “‘Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos’, declara o SENHOR. ‘Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos'” (Is 55.8-9).

Desde que ouvi essa pregação, volto a ela com frequência. Ouço e ouço de novo. A demolição de ideias que nos acompanharam por décadas nunca é algo rápido ou fácil. Exige humildade e dói. Mas a reconstrução é libertadora. Só Deus sabe como essa nova percepção da realidade bíblica mudou totalmente a forma de enxergar meu casamento e minha esposa e, com isso, mudou muito em mim. O que antes eu via como defeito agora enxergo como canal de bênção. O que antes eu acreditava que subtraía hoje eu vejo que soma. Ainda estou no processo, mas já é possível observar a diferença que faz o abandono da teoria irreal de que casamento tem como finalidade a felicidade eterna. Pois essa teoria necessariamente pressupõe a existência de um cônjuge que seja perfeito a ponto de ser capaz de nos proporcionar felicidade eterna e, também, na existência de perfeição em nós, para que possamos proporcionar felicidade eterna a nosso cônjuge. Só que isso não existe, jamais existiu e nunca existirá. Ninguém jamais será perfeito, meu irmão, minha irmã. Você jamais será perfeito. Logo, o cônjuge ideal só existe nos nossos sonhos irreais. É por isso que você é um cônjuge tão imperfeito. A realidade é o que está dentro de sua casa – seu cônjuge e você. E é a partir dessa realidade que Deus quer conformar ambos à imagem de Cristo.

casal0Sei que deve ser muito duro para você ler isso. Acredite, não escrevo este texto com o coração leve. Pois entendo perfeitamente o que é alguém que vive realidades muito difíceis em sua vida conjugal olhar para elas e aceitar que Deus as permite para seu crescimento espiritual. Compreendo se você se revoltar contra esse pensamento, embora lamente caso não consiga enxergar a profundidade espiritual que ele carrega em si. Mas a sabedoria bíblica que essa mensagem compartilha é fulminante. Como diz Pr. Washer com extremo discernimento espiritual, “Como Deus te ama muito, ele não lhe dá alguém compatível com você. Isso ocorre porque Deus é muito melhor do que você e os seus presentes são muito maiores do que aqueles que você poderia sequer dar a si mesmo. Você ia querer uma vida fácil e com perfeita compatibilidade. Deus não vai te dar isso, porque isso nunca produz caráter cristão, piedade verdadeira ou conformidade com a imagem de Jesus Cristo”.

Vi em outro vídeo – de uma curta conversa entre John Piper, Tim Keller e D.A.Carson – que o  pastor, teólogo e mártir cristão Dietrich Bonhoeffer disse que “a aliança entre marido e mulher sustenta o amor e não o amor sustenta a aliança” (veja o vídeo AQUI). O pacto que fazemos no altar é, acima de tudo, de respeito a uma aliança, antes de ser de amor. Quando você compreende isso, tudo muda. E, pode acreditar, você passa a amar muito mais. E, se você rompe esse pacto, tudo torna-se muito pior. Por isso, fica aqui o conselho enfático: se você falhou nas promessas estabelecidas na aliança, não descarte esse casamento, pelo contrário, busque na graça de Deus o restabelecimento da aliança e prossiga em frente. Houve erros e pecados que feriram os termos da aliança entre você e seu cônjuge? Então recorra ao Senhor em busca da restauração – pois ele deseja, pode e vai restaurar seu casamento se você tão somente se dispuser a isso.

cruz de cristoPeço a Deus que todas as dificuldades de sua vida matrimonial venham a fazer você e seu cônjuge crescerem em intimidade com Deus. Que as falhas e imperfeições suas e de seu cônjuge sirvam para conformá-los cada vez mais à imagem de Cristo. Pois “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho…” (Rm 8.28-29). Você não é perfeito. Seu cônjuge não é perfeito. E, para tentar aproximar vocês dois um pouco mais da perfeição, o Ser perfeito criou essa estranha ferramenta chamada casamento. Use-a e torne-se a cada dia um pouco mais como Cristo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

material1Fico imaginando se os materiais de construção pudessem falar. Pense como seria se o cimento, por exemplo, começasse a gritar de dentro da betoneira: “Pare de me agitar! Não aguento tanto sacolejo! Chega de todo esse movimento em minha vida!”. Se você fosse o mestre de obras, o que responderia a ele? Possivelmente, diria algo como “Desculpe, amigo cimento, mas, para que você cumpra aquilo para que foi criado, é preciso que eu deixe você sacudir bastante aí dentro, caso contrário, será  impossível utilizá-lo para cumprir os meus propósitos”. Ou, então, imagine que o tijolo que fica na base de um edifício começasse a gemer e reclamar: “Por favor, me tire daqui! A pressão é muito forte, tem muito peso em cima de mim, não está dando!”. Se eu fosse o engenheiro, daria a única resposta possível: “Veja bem, caro tijolo, se eu removê-lo, de que você servirá? Eu o criei e instalei nesse lugar para que sustentasse toda essa pressão. Se eu tirá-lo daí, além de prejudicar toda a estrutura do prédio você se tornará inútil, pois para isso foi criado. Fora daí você não tem função. E perceba que, embora esteja incômodo, você é perfeitamente capaz de suportar todo esse peso, eu o projetei para isso mesmo”. Você responderia algo diferente? A verdade é que se o responsável pela obra atendesse a todos os pedidos de todos os materiais de construção insatisfeitos com as dificuldades que sua existência prevê… seria impossível construir o prédio.

Vidros dos andares mais altos reclamariam das forças do vento, sem saber que o vidraceiro os fabricou com a resistência necessária para suportar os impactos do ar. Os fios elétricos murmurariam porque estão muito apertados dentro do conduit, sem perceber que, se fossem removidos dali, poderiam se partir com muito mais facilidade. O piso estaria insatisfeito porque tanta gente o pisa, mas… bem, para que serve um piso que ninguém pode pisar? O teto se abateria porque está muito longe das pessoas e por isso se sente solitário, mas não percebe que, se ele não estivesse ali, aquelas mesmas pessoas ficariam desprotegidas das intempéries. E por aí vai.

tijolo2Tudo o que aconteceu na sua vida até hoje tinha como finalidade construir a pessoa que você é, para que o Senhor cumpra a vontade dele na sua trajetória. Deus, em sua multiforme sabedoria, constrói cada um de nós de maneira diferente e com propósitos distintos das demais pessoas. Dependendo de quem você era anos atrás e de como o Senhor deseja que você se torne, ele vai trabalhar de determinada maneira. Um edifício não é formado de um único material e cada um é tratado de modo diferente: o cimento precisa ser constantemente agitado, o tijolo precisa ser assado para suportar grandes pressões, os fios precisam ser bem acondicionados, os alicerces precisam ser muito socados, a tinta precisa ser bem misturada… Cada material tem suas características, um modo diferente de ser tratado, um tempo específico de preparo antes de ser assentado, uma possibilidade diferente de ser utilizado. Mas absolutamente nenhum é visto como menos importante ou é tratado de certa maneira porque o construtor deseja que ele sofra ou seja prejudicado: tudo tem um único propósito, que é fazer o edifício ser erguido com solidez.

Seríamos muito mais felizes se compreendêssemos que as dificuldades da vida fazem parte do propósito para o qual fomos criados, e que a cada um é dado justamente o que faz parte de sua natureza e finalidade. A revolta contra Deus porque ele permite que passemos por dores e momentos difíceis é bem semelhante à reclamação de uma porção de cimento por estar sendo agitada. Aquilo faz parte de sua trajetória, formação, realidade e finalidade neste mundo. Revoltar-se com Deus porque estamos passando pelo processo necessário para nos formar enquanto peças da grande engrenagem do universo simplesmente não faz sentido.

pedra-angular-0e_smA Bíblia usa uma metáfora ligada a materiais de construção para falar sobre Jesus e, também, sobre nós, a Igreja. “Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito” (Ef 2.19-22). Nas construções antigas, a pedra angular era a principal, a primeira a ser assentada na esquina do edifício, e formava um ângulo reto entre duas paredes. Servia para definir a colocação das outras pedras e alinhar toda a construção. A pedra angular é o elemento essencial que dá existência àquilo que se chama de fundamento da construção. Portanto, uma pedra angular é a base sólida de que um edifício necessita para conseguir chegar à altura programada, sem cair.

Até mesmo para que Cristo se tornasse a pedra angular – a base fundamental na qual se assenta toda a construção da Igreja – ele teve de sofrer. Foi preciso que fosse humilhado, entristecido, espancado e morto na cruz. E se ele, que é Senhor, precisou passar por isso para cumprir sua finalidade enquanto o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo… quanto mais nós não teremos de enfrentar dificuldades para cumprir aquilo para que fomos criados.

???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Rejeitar as pressões e os sacolejos da vida é como rejeitar o processo necessário para que nos tornemos o que Deus nos criou para ser. Portanto, se você costuma dizer para o Senhor “eis-me aqui”, ou “usa-me”, prepare-se, pois algo será necessário a fim de que você esteja no ponto certo para ser usado pelos propósitos divinos. Dispor-se a ser usado por Deus e depois opor-se ao processo necessário para ser usado seria um contrassenso. Portanto, é importante que você saiba disto com muita clareza: se você quer ser tijolo no grande edifício do qual Cristo é a pedra angular, terá de ser assado, transportado, assentado, cimentado e suportar muita pressão.

A boa notícia é que naquele grande e terrível dia que nos espera, todos os prédios vão desmoronar. O único que ficará de pé é aquele do qual Cristo faz parte. Minha pergunta, então, seria: o que você acha, vale a pena aguentar a pressão, os ventos, o sacolejo e tudo mais que vier pela frente?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício