Arquivo de dezembro, 2011

É notório que, no imaginário popular do evangélico brasileiro, uma igreja abençoada por Deus é uma igreja enorme. Cheia. De preferência, lotada. Com montes de departamentos, atividades, grupos disso e daquilo, ministérios mis e cheias de bons dizimistas. Quem entra nesses maracanãs da fé costuma achar que ali é a sucursal do Céu, pois tudo é grande, os projetos são ousados, o lance é arrebentar o inferno, mergulhar no oceano do Espirito, ter um grupo de louvor (ou mais de um) com CD gravado, um coral de 300 vozes (por que não 500?), grupo de dança, teatro, evangelismo e vamos que vamos! Só que, para mim, Deus não está nem aí para esse tipo de igreja. E explico por quê.

O Senhor não suporta arrogância e orgulho. A Biblia diz que “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes” (Tg 4.6; 1 Pe 5.5). e que “Os arrogantes não são aceitos na tua presença” (Sl 5.5); “O Senhor preserva os fiéis, mas aos arrogantes dá o que merecem” (Sl 31.23); “Embora esteja nas alturas, o Senhor olha para os humildes, e de longe reconhece os arrogantes” (Sl 138.6).

A Bíblia deixa claro que humildade é uma das características que o Criador mais preza nas suas criaturas. Pois demonstra que elas sabem quem são diante da grandeza do Rei e que têm compreensão de sua natureza: pó. Ocorre que, se você observar com muita atenção, na grande maioria das vezes, líderes e outras pessoas ligadas aos diferentes ministérios dessas megamáquinas da fé são pessoas extremamente arrogantes. Se acham especiais – afinal, Deus as ” abençoou” com tamanho, com quantidade.

Já tive a oportunidade de observar às vezes simples líderes de juventude de megaigrejas se comportarem como os manda-chuvas do pedaço, exigindo tratamento diferenciado, destratando pessoas. Arrogância pura. Causada por o quê? Pelo pensamento equivocado de que “se Deus me pôs à frente de um trabalho tão grandioso, com tantas pessoas sob meu comando, eu devo ser algo especial”. Ao que a Biblia responde: “O orgulho vem antes da destruição; o espírito altivo, antes da queda” (Pv 16.18).

Quem conhece os bastidores desses Taj Mahals da fé sabe ainda que muitas vezes há pecados relacionados a dinheiro nas coxias dessas megaestruturas. Em impérios eclesiásticos, os olhos crescem. A concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida inundam corações outrora puros. Que me perdoem os Mike Murdocks e os Morris Cerullo da vida, mas ter muito dinheiro à mão, acredite, é uma desgraça para o cristão. Pois ele perde o senso de dependência de Deus, torna-se abusador, gasta mais do que precisa, esbanja. O cofre da igreja torna-se acessível a qualquer momento e como “o líder merece, afinal rala tanto por aquela igreja”, sente-se à vontade para sacar,  alem de seu justo salário, quanto e quando quiser daquela conta corrente descontrolada.  E  sem meias-palavras? Isso é pecado.

É pecado pois esse dinheiro não pertence ao líder, mas a Deus. E deve ser investido nas coisas de Deus e não em benefícios para o líder e sua vida pessoal. Entenda isso: o líder de uma igreja é servo. E um servo não é dono da casa de seu senhor. Muito menos do dinheiro dele. Os que lançam mão daquilo que não é seu… bem, precisa dizer o nome que se dá a isso?

Essas megaigrejas se tornam fábricas de ex-bons cristãos: homens e mulheres de Deus que começaram suas caminhadas de fé de joelhos e na simplicidade mas que acabam se corrompendo. Se formos pensar apenas nessas igrejas que se destacam porque fazem música que ganha fama, lançam CDs e DVDs e vão a programas de auditório na TV, veremos pequenos servos de Deus que viraram artistas profissionais gospel movidos a cachê, a glamour, que passaram a amar dar autógrafos. Alisam ou arrepiam os cabelos, usam roupas moderninhas e “ministram” com uma estética que me lembra Elvis Presley  Aliás, voltando um pouco atrás… que piada: cristãos que amam dar autógrafos. Tive que rir desse pensamento.

Mas o pior mesmo são os pastores que se perdem pelo meio do caminho. Pregadores que antes eram devotados a Cristo, homens de joelhos calejados e olhos marejados, homens de Deus humildes e simples que tornam-se vaidosos porque suas igrejas viraram arranha-céus da fé. Refratários a críticas. Acham que o seu jeito é o jeito certo pois, afinal, suas igrejas estao cheias e são enormes  e se esquecem de que a quem muito foi dado muito será cobrado. Organizam eventos faraônicos. Compram canais de TV. E quando menos se espera deixarm de se preocupar com oração, jejum e vigílias para se devotar a empréstimos em bancos, asinaturas de documentos e negociatas com políticos.

Começa então a prostituição. O desejo por ter sempre mais leva muitos dos líderes desses palácios eclesiásticos a buscar qualquer forma de associação que lhes permita ganhar mais e mais. Associam-se ao poder político. Entram na maçonaria. Assinam contratos com gravadoras seculares. Fecham acordos com emissoras de TV pagãs. Quando nos damos conta, o monstro está tão grande que se torna uma besta descontrolada – e lá no meio, perdido em algum canto obscuro, empoeirado e esquecido, fica um tal de Jesus de Nazaré, olhando em volta e tentando dizer “ei… alguem aí se lembra de mim?”.

É por isso que acredito piamente que Deus não está nem aí para esse tipo de igreja. Que Deus ignora megaestruturas. Ignora megaeventos. Há mesquitas muçulmanas enormes. Templos budistas palacianos. Centros de umbanda que ocupam quarteirões inteiros. Grande coisa.  Para o Senhor, pés-direitos altos são irrelevantes. Grandes torres, muitos bancos, milhões de decibeis de uma aparelhagem de som importada… tudo lixo no Reino de Deus. E imagino Jesus se perguntando “pra que isso tudo mesmo”? Ah sim, tem a questão da vaidade…

Nem toda megaigreja vira uma fria mansão vazia de espiritualidade. Nem todo líder de um palácio da fé se corrompe. Mas a experiência mostra que isso só acontece com  poucos. Pois o ser humano se impressiona com tamanhos e grandes números. Isso é inegável. E  tamanhos e números são um convite à vaidade. E a vaidade é o caminho mais curto para a ruína de uma alma.

Igrejas não precisam ser cheias. Precisam ser Igreja. Cristo não precisa de um megaevento por ano em palcos suntuosos, mas de pequenos cultos semanais em igrejinhas onde haja corações derramados. Os poucos membros têm de ser fieis. Têm de cumprir o que na raiz significa “Igreja”: ser eclésia, os chamados para fora do mundo, do pecado, de uma vida de vaidades, orgulho, arrogância e outros pecados fáceis de converter corações puros em soberbos. Jesus quer pessoas bem discipuladas, Ele disse isso em Mt 28.19, quando falou “vão e façam discípulos”. E você acha que Ele estava se referindo a quê? Jesus não disse “vão e encham igrejas”, ou “vão e criem monstros da fé que se achem acima do bem e do mal”. Jesus quer igrejas com homens e mulheres de Deus que entregariam seus peitos à espada e os pescoços aos leões alegremente para não negar Cristo. Só. Pois esse ato já diria tudo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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O Festival Promessas, que levou alguns artistas gospel à telinha da Globo, causou um grande debate entre três segmentos de cristãos: os que viram nisso uma grande coisa, aqueles que consideraram o evento irrelevante e os que viram no programa um mal. A despeito da posição de cada um sobre o show, um aspecto do debate entre os prós e os contras chamou atenção:  a questão da CRÍTICA.

Uma das principais críticas dos que criticaram quem criticou o espetáculo da Globo é que os críticos…foram críticos. Ou seja: para defender seu ponto de vista são incontáveis os cristãos que adotaram discursos na linha “tem gente que só critica e não faz nada” ou “como pode alguém criticar quem está fazendo algo?” e por aí vai. Diante disso, surgem diversas perguntas: qual deve ser a relação entre o cristão e a critica? De fato quem critica não faz nada? É pecado criticar? Criticar é murmurar? Criticar é julgar? Criticar representa rebeldia? Crítica é algo diabólico? Enfim, há um rosário de assuntos que podem ser debatidos sobre o tema. Mas eu pretendo mostrar até o fim deste texto que se criticar fosse um grande mal, o próprio Deus Pai, Jesus, os apóstolos, a Igreja primitiva, os reformadores e outros cristãos sérios seriam, imagine você, seres malignos. O que simplesmente não é verdade.

Esse ensinamento de que a crítica é algo ruim vem sendo ensinado por alguns pastores que… não querem ser criticados. Um exemplo famosíssimo (a gravação está no Youtube, para quem quiser ouvir) é o de um conhecido telepastor. Na gravação, ele diz: “Quem critica não faz nada. Você conhece alguma obra de crítico? Você conhece alguma coisa que crítico construiu? Geralmente crítico é um recalcado que tem dor de cotovelo do sucesso dos outros”.

Quando um homem influente como esse lança esse tipo de discurso ao cristão que não tem muita capacidade de discernimento, a ideia soa como sendo uma verdade quase bíblica. Por exemplo: depois que publiquei no APENAS semana passada o post Festival Promessas e a guerra de opiniões e fui atacado por todos os lados por muitos críticos ao que escrevi (como mostrei no post seguinte, Festival Promessas: um raio-x da igreja brasileira), li nos comentários do blog mais pérolas que versavam sobre o fato de alguém criticar outro. Só que, desta vez, vindas de irmãos que apoiam o evento da TV Globo. Pérolas como estas:

“Realmente vivemos em um mundo onde os críticos cristãos também querem se engradecer por isso utilizam das críticas para fazerem seu nome.”

“é complicado,,tem pessoas que não tem,a vontade de realizar ,um culto de rua,e quando outros pracura fazer alguma coisa ,só sóbra criticas,,,faiz alguma coisa ,não perde tempo criticando

“Essa galera não faz nada pra anunciar o evangelho e critica quem faz”.

“Que lamentável essa sua posição! Você, ainda, tem coragem de criticar os irmãos que se ofenderam uns aos outros por causa disso?”

“É mais facil criticar e desqualificar os que o fazem”.

“Reclamava-se tanto que sempre a Globo ou outras emissoras não davam espaço para o Evangelho e quando se chega lá ainda criticam??”

CRITICAR ISSU É REDUNDANTE E HIPÓCRITA.”

“INFELIZMENTE TIVE O DESPRAZER DE CONHECER ESTE BLOG, É MAIS UM DE MUITOS, DOS CRITICOS DA IGREJA, –QUE FICARÃO — CRITICANDO, ENQUANTO JESUS SOBE COM A SUA NOIVA.”

“Prefiro ir e dar de graça o que recebi a permanecer sentado criticando quem realmente está fazendo a obra de Deus.”

“OS VERDADEIROS CRISTÃOS ESTÃO NAS RUAS (…) NÃO PERDENDO TEMPO EM ESTATOS E EM CRÍTICAS“.

“O tempo que você perde criticando, é o mesmo que poderia estar edificando”.

Chamam especial atenção as duas últimas frases, pois a penúltima dá a entender que criticar é perda de tempo e a última desassocia a crítica à edificação, como se fossem antagônicas. O que é interessante nesse debate é que a “famigerada” crítica é apontada como algo menor, pecaminoso, diabólico; e os críticos, naturalmente, só podem ser pessoas mal-intencionadas, frustradas, “recalcadas”, que não ajudam em nada. O tom dos comentários deixa claro que, aos olhos de muitos, ser crítico, ou seja, ter senso crítico no universo cristão, é desqualificador, sintoma de inveja, de apatia, de inoperância ou de qualquer coisa do gênero. Quando, em sua raiz etimológica, criticar significa uma atitude nobre: pelo dicionário, “criticar” significa “analisar, fazer uma apreciação”, “examinar com atenção”).

Aliás, “examinar com atenção” (sinônimo, segundo o dicionário, de “criticar”) é exatamente o que os crentes de Bereia faziam e que lhes mereceu o seguinte elogio de Lucas em Atos 17.11: “Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo“. Sim, os bereanos foram chamados de “nobres” por serem muito críticos. Que coisa…

O que o cristão crítico que critica quem critica talvez não saiba é que, no caso do Cristianismo, se não fosse a crítica, a banda séria e sólida da Igreja hoje talvez nem existisse. Os críticos vêm ajudando a manter a doutrina sã ao longo dos séculos, a preservar a ortodoxia cristã e a purgar os erros cometidos pelo meio da jornada. E mais: se você desmerece alguém por ser crítico, lamento informar, você está desmerecendo o próprio Deus. “Ahn?! Como assim, Zágari! Se crítica é algo diabólico, como Deus pode ser crítico?”. Vamos então aos fatos. E deixemos não que Mauricio Zágari fale, mas sim passemos a palavra ao testemunho das Escrituras e da História:

NA BÍBLIA

Deus Pai é logo de cara o primeiro a fazer inúmeras criticas relatadas nas Escrituras. Em Gênesis 3, Ele critica Adão, Eva e até Satanás por suas atitudes. Depois critica Caim pela morte de Abel. Em Gn 6.3, o Criador critica a humanidade e a chama de “carnal”. Os séculos passam e Deus segue criticando. A crítica que Ele faz aos habitantes da Terra no episódio do Dilúvio dispensa comentários. Na ocasião do Êxodo, o Todo-Poderoso disse que seu próprio povo eleito, Israel, era formado por gente de “dura cerviz”, ou seja, “teimosa”, “intransigente”. Também mandou seus profetas criticarem atitudes de sacerdotes, reis, religiosos, homens e mulheres comuns. Alguém que conheça um pouquinho de Bíblia verá que Jeová, o Construtor do universo, criticou muito – em especial os desobedientes. E aí eu penso nas palavras do telepastor: “Você conhece alguma obra de crítico? Você conhece alguma coisa que crítico construiu?”. Hmmm…o universo, talvez?

Os profetas, então, eram críticos em tempo integral. Jeová mandava um recado e lá ia uma crítica a Jezabel, Davi ou qualquer outro que estivesse em pecado ou cometendo erros. Natã não usou meias-palavras ao criticar o que Davi fez com Urias e Bateseba. Elias dava boas cajadadas. Imagine então Eliseu, que tinha porção dobrada. Sim, o ofício profético no Antigo Testamento fazia do profeta um crítico perene. Estão aí Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e outros que não me deixam mentir. E o maior dos homens nascidos de mulher (Mt 11.11), João Batista, era tão crítico que Herodias disse a sua filha que pedisse a Herodes a cabeça do profeta, de tanto que ser criticada lhe incomodava (aliás, uma atitude muito comum a quem é criticado: pedir a cabeça de quem o critica).

Então penso em tudo o que os profetas fizeram a mando de Deus  e me voltam à mente as palavras do telepastor: “quem critica não faz nada”E me pergunto: será mesmo que argumentos como “você não faz nada, só critica” têm fundamento? Pois a crítica em si, do ponto de vista bíblico, já é fazer muita coisa! Ou “enquanto eles estão lá fazendo a obra você só sabe criticar”, pois muitas e muitas vezes uma crítica bem feita e bem posta pode gerar muitos frutos para o Reino de Deus.

Mas continuemos na Bíblia. Surge em Israel um homem chamado Jesus de Nazaré. Ele criticou escribas. Criticou fariseus. Criticou saduceus. Criticou publicanos. Criticou Pedro quando o apóstolo quis demovê-lo da ideia de ir à Cruz. Também criticou os apóstolos por serem “homens de pequena fé” na ocasião da tempestade no mar. Criticou aqueles que só amam aqueles que os amam. Criticou os hipócritas que dão esmola alardeando o fato ou oram aos berros para chamar a atenção. Criticou os gentios que se preocupavam com o que haveriam de vestir, comer ou beber. Criticou os que reparam o argueiro no olho do irmão, porém não reparam na trave que está no seu próprio olho. Criticou os falsos profetas, que se apresentam disfarçados em ovelhas, mas que por dentro são lobos roubadores. Criticou os que praticam a iniquidade. Criticou aqueles que viessem a negá-lo diante dos homens. Criticou quem ama seu pai ou sua mãe ou seu filho mais do que a Ele. Criticou quem não toma a sua cruz e vem após Ele… e poderíamos prosseguir numa lista interminável, mas vou parar no capítulo 10 do evangelho segundo Mateus (sim, todas as críticas mencionadas acima estão em apenas 10 capítulos. Imagine se eu prosseguisse até o capítulo 28 e continuasse por Marcos, Lucas e João). É, meus amigos que criticam os críticos: Jesus foi um crítico infatigável. Mas… segundo o tal telepastor, um dos mais influentes do país, “geralmente crítico é um recalcado que tem dor de cotovelo do sucesso dos outros“. Então devemos concluir que Jeus foi um recalcado invejoso?

Nas cartas às igrejas de Apocalipse o desfile de críticas de Jesus continua. A igreja de Éfeso foi criticada por ter abandonado o primeiro amor. A de Pérgamo recebeu criticas por haver entre eles “os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição”. A de Tiatira foi criticada por tolerar que uma tal Jezabel “seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos”. Os cristãos de Sardes foram criticados por Jesus não ter achado íntegras as suas obras na presença de Deus… preciso continuar?

Se você ainda não está convencido da verdade, vamos às epístolas. Caso não saiba, a grande maioria delas foi escrita como forma de criticar atitudes erradas que vinham sendo adotadas nas igrejas a que foram destinadas, com o objetivo de instruir os cristãos e de consertar os erros. Que, aliás, deve ser a finalidade de toda crítica. O apóstolo João escreveu suas três epístolas para combater um grupo de cristãos hereges chamados gnósticos e ele os critica duramente: “Mas todo espírito que não confessa Jesus não procede de Deus. Esse é o espírito do anticristo acerca do qual vocês ouviram que está vindo, e agora já está no mundo“.

Em Colossenses, Paulo critica os falsos mestres que tentavam combinar elementos do paganismo e da filosofia secular com as doutrinas cristãs, induzindo a um relativismo religioso. Em Filemon, ele critica a falta de perdão. Em Romanos, tece muitas críticas, entre elas à dureza do coração, a desobediência à verdade, à hipocrisia, à adoração de ídolos. Em 1 Timóteo, o apóstolo critica o excesso de eloquência em detrimento da busca do Senhor. E quem acha que nas epístolas Paulo não critica pessoas, em Gálatas o foco está nos judaizantes, criticados por afirmarem que os gentios, para serem salvos, tinham que ser circuncidados e guardar todas as leis de Moisés.

A carta de 1 Coríntios é um caso à parte, tantas são as críticas que Paulo faz, a título de instrução. Ao mau uso dos dons, à imoralidade sexual, às pessoas que celebravam a Ceia do Senhor de modo equivocado e por aí vai.  Merece especial atenção 2 Coríntios, em que Paulo critica veementemente os falsos mestres que buscavam enganar os cristãos da igreja, afastando-os dos verdadeiros propósitos do Evangelho. Já Tiago metralha críticas: ao formalismo, ao fanatismo, ao fatalismo, à crueldade, à falsidade, ao partidarismo,  à maledicência, à jactância e à opressão. Judas, por sua vez, critica os mestres imorais e as heresias da época.

NA IGREJA PRIMITIVA

Por falar em heresias, havia muitas delas no seio da Igreja nos primeiros séculos da era cristã. Saiamos agora das Escrituras e vamos para a História. Naquela época surgiram  grupos como ebionitas, maniqueus, marcionitas, montanistas, donatistas, gnósticos, sabelianistas, apolinaristas, nestorianos, eutiquianos e muitos outros. Todos se apresentavam como seguidores de Cristo, mas pregavam teologias diferentes, em especial quanto à essência de Jesus e a sua relação com o Pai e o Espírito Santo. Contra eles levantaram-se em diferentes épocas muitos e muitos cristãos ortodoxos, sérios, que passaram a defender a são doutrina contra os hereges. E, adivinha só: eles os criticavam duramente, em tratados, cartas e outros textos. Ou seja, se não fosse pelo aguerrido senso crítico dos apologetas da Igreja primitiva muitas heresias teriam tomado conta do seio da igreja. Você enxerga alguma semelhança com nossos dias?

E assim foi pelos séculos. Atanásio criticou duramente Ário por suas posições teológicas no Concílio de Niceia. Agostinho (considerado o maior teólogo da história do Cristianismo) criticou Pelágio por desqualificar a graça na salvação. Lutero (o homem sem o qual não existiria a Igreja evangélica) criticou Roma por todos seus descalabros, o que acabou deflagrando a Reforma Protestante.

Sim, caros críticos que criticam os críticos: a crítica e a Igreja sempre andaram de mãos dadas e em harmonia.

EM NOSSOS DIAS

Há em nossos dias heresias surgindo a cada esquina. Pastores-poetas que inventam que Deus não interfere nas tragédias, pastores emergentes que dizem que Jesus é desnecessário para a salvação, Unções de 900 reais, Teologia da Prosperidade, G-12, Liberalismo Teológico e outras agressões à Palavra de Deus. Fora as atitudes não teológicas, como mercantilização da fé, a idolatria a celebridades e outros problemas mais.

Diante disso, a pergunta que fica é: devemos abandonar o senso crítico? Devemos parar de criticar o que está errado? Devemos ficar passivos, vendo a banda passar e não fazer nada? Devemos dar ouvidos aos sofismas ditos pelos telepastores que não querem ser criticados? Não. Devemos nos posicionar. Temos como exemplos de Jeová aos teólogos modernos (como Alister McGrath, que escreveu O Delírio de Dawkins, criticando o ateísmo de Richard Dawkins). Se a Igreja que ama Cristo, ama a Bíblia e ama a Igreja se calar, a situação ficará ainda pior do que está hoje. Há uma heresia? Critiquemos. Há um abuso dentro da igreja? Critiquemos. Há celebridades enganando o povo de Deus? Critiquemos. É bíblico e historicamente correto.

E COMO CRITICAR DE FORMA A CONSTRUIR?

Mas há uma ressalva: toda crítica tem que ser feita de modo cristão, bíblico. Se formos agir como o mundo não seremos melhores do que ele. Não seremos sal nem luz e é melhor que sejamos lançados fora para sermos pisados pelos homens. Nunca devemos criticar como o mundo critica: com agressões, ofensas, xingamentos, gritarias, ad hominems, argumentos equivocados ou ataques. Devemos seguir os passos do Mestre. Ser mansos e humildes de coração. Devemos criticar como se cada crítica fosse um tijolo posto para erguer uma catedral e nunca como se fosse uma marretada para derrubar paredes. Nosso papel não é esse: temos de ser diferentes. Temos de ser admirados pelo mundo por criticarmos sem ofender e sem dar na cara de ninguém. Temos de andar na contramão do mundo.

Infelizmente, há em alguns setores no meio cristão aqueles que acreditam que crítica é algo diabólico. Já mostrei que não é. Infelizmente, há quem acredite que crítica é atacar e ofender. Também não é. Criticar é apontar erros com educação. É examinar com atenção e emitir pareceres refletidos. Pois em tudo o que vimos acima, uma coisa fica clara: a crítica deve servir para melhorar as coisas, aproximar as pessoas, construir um mundo mais cristão e, em última (para não dizer primeira) análise, para a glória de Deus.

“Quem critica não faz nada. Você conhece alguma obra de crítico? Você conhece alguma coisa que crítico construiu? Geralmente crítico é um recalcado que tem dor de cotovelo do sucesso dos outros”.

E você, continua acreditando nisso?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Existe dentro da tradição judaica um conceito que considero um dos mais lindos que existem nas relações humanas: o da Tsedaká. Por vezes é traduzido como “caridade”, mas a raiz da palavra é, do hebraico, Tsedek, ou “justiça”, o que é mais forte do que fazer uma simples caridade. O preceito ordena fazer caridade no sentido de “cumprir a justiça”. Apesar de ser um conceito da tradição judaica, tem muito a nos ensinar. Esse preceito é uma ordem aos judeus a darem Tsedaká, ou seja, a sustentar os necessitados e a aliviar suas cargas. A origem do Tsedaká vem da Torá hebraica, o equivalente ao pentateuco cristão, como no texto que diz “Abrirás tua mão para teu irmão, para teu pobre” (Deuteronômio 15:11). Segundo o rabino Kalman Packouz, o significado é que devemos ajudar os nossos pobres e sustentá-los de acordo com suas necessidades. As normas desse preceito estão explicadas em vários lugares,  inclusive no Talmud, e determinam que mesmo o homem pobre que vive de Tsedaká tem a obrigação de dar Tsedaká, ainda que mínima, a alguém que seja mais pobre do que ele ou tão pobre como ele próprio.

O que me encanta no Tsedaká é seu principio: da mesma forma que Deus cuida de nós, devemos nos esforçar para ajudar o restante da humanidade.

Gosto muito do primeiro parágrafo da oração ‘Shemá Israel’, onde está escrito: “Você deve amar seu Deus com todo seu coração, toda sua alma e todas suas posses”. Os sábios do Talmud perguntam: “Por que está escrito ‘Todas suas posses’? A resposta é que para algumas pessoas é mais difícil separar-se de seu dinheiro que se separar da própria vida”.

No livro “Para Curar Um Mundo Fraturado – A Ética da Responsabilidade”, o Rabino Jonathan Sacks afirma que a ética da Tsedaká calibrada à perfeição vem embebida num insight psicológico, uma vez que o iimportante não seria o quanto você dá, mas como você dá. Isso incluiria o anonimato como essencial à dignidade, além do que nunca devemos constranger os pobres. Aos ricos, não é permitido se sentirem superiores. E nós não damos para ter orgulho de nossa generosidade. Reza a tradição judaica que a Tsedaká deve ser dada com prazer e com um semblante agradável. Que se um pobre lhe pedir dinheiro e você não tiver condições de ajudá-lo no momento, não levante a voz ou aja desagradavelmente. Solidarize-se com ele e, calmamente,  expresse que gostaria de ajudá-lo, mas que no instante não tem como fazê-lo.

Segundo o livro “Love your Neighbour”, do Rabino Zelig Pliskin, a recompensa por praticar a Tsedaká é enorme. No feriado judaico do Yom Kipur os judeus recitam que “três coisas revogam um mau decreto dos Céus”: Teshuvá (retornar ao caminho da Torá), Tefilá (orações) e Tsedaká (atos de justiça, de correção). Mas, de todas essas coisas, o que me soa mais bonito de tudo é que ajudamos porque somos parte de um pacto de solidariedade humana, e porque é o que Deus quer de nós, antes de tudo em honra à confiança em nome da qual Ele temporariamente nos emprestou riqueza.

E eu com isso?

Aí você pode estar se perguntando: “Tá legal, Zágari, tudo isso é muito bonito, mas eu não sou judeu, sou cristão, o que eu tenho a ver com isso?”. Eu diria que tudo.

Chega a ser um clichê quando alguém se refere à comunidade judaica que se diga que é raríssimo ver um judeu desempregado, passando por necessidades ou desamparado. Tive uma conversa com uma judia e ela me explicou que isso deve-se ao conceito do Tsedaká: graças a esse princípio, que é muito levado a sério, nunca um judeu vai desamparar outro: se um israelita estiver em dificuldades financeiras, logo a comunidade se mobiliza para conseguir-lhe um emprego ou auxiliá-lo de algum modo que o tire do aperto.

Eu parei então para pensar no que nós, cristãos  fazemos quando vemos outro cristão necessitado. Sim, nós, que temos como parte do primeiro mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Na maioria esmagadora das vezes em que algum cristão em apuros se aproxima passando dificuldades nossa reação não é abrir a carteira, mas pôr a mão em seu ombro e dizer: “Vou orar por você”. Se você for muito espiritual, diz “vamos orar”, senta ao lado dele, ora junto e pede a Deus que abra as janelas do Céu – mas ainda assim não abre a carteira. Se um cristão pobre vem pedir dinheiro no sinal de trânsito, nós nos rejubilamos em, rapidinho, fechar a janela do carro.

Nosso conceito de amor ao próximo tem sido completamente esquecido. Basta passear pelas ruas das metrópoles e você verá legiões de pedintes, gente querendo um prato de comida. E os cristãos aqui estão tão atrasados para ir ao culto louvar a Deus com as mãos levantadas que não têm tempo de parar, estender a mão e comprar um prato feito que seja pros famintos que nos cercam. Não estou falando dos mendigos profissionais, mas daqueles que realmente precisam.

A título de reflexão, vou lhe fazer algumas perguntas objetivas. E você, que é crente em Jesus Cristo, que vai à igreja todo domingo, responda a si mesmo:

- Qual foi a última vez que você desviou-se de seus afazeres para dar alimento a um faminto?
– Quando você doou pela última vez dinheiro a uma instituição de caridade?
– Há quanto tempo você não tira um tempo para ouvir uma pessoa aflita ou desesperada?
– Qual foi a última vez que você visitou um orfanato ou um asilo?
– Quem de fora da sua família você ajuda financeiramente com um sustento regular?
– Quantas crianças carentes você já apadrinhou pela Visão Mundial?
– Quanto da sua renda você doa por mês para ajudar a sustentar um missionário?

Em contrapartida, responda agora o seguinte:

- Quantas vezes este mês você gastou dinheiro comendo ou lanchando fora de casa?
– Quantas roupas ou sapatos novos você comprou para si nos últimos 60 dias?
– Quanto dinheiro você destinou no ultimo mês para ir ao cinema, ao teatro ou para alugar DVDs?
– Quanto você paga por mês pela sua TV por assinatura?
– Se você é mulher, quanto você gastou no ultimo mês com salão de beleza?
– Quanto dinheiro você gastou este ano com bobagens como capinhas de celular ou outros badulaques do gênero?

Quando eu fiz para mim mesmo essas perguntas tive tanta vergonha de mim que quase me converti ao judaísmo, só para praticar o Tsedaká. Só desisti porque me lembrei que teria de me circuncidar. Então cheguei à conclusão que seria menos doloroso apenas começar a praticar o que Jesus nos ensinou.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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David Wilkerson foi um grande pastor. Acima de tudo porque pregava sem ter nada a perder e por isso o que saía de seus lábios no púlpito eram somente mensagens bíblicas e, muitas vezes, duras.

Lembro-me quando visitei, em 1999, sua igreja em Nova York, a Times Square Church (um antigo teatro localizado no número 1.657 da Broadway), lindíssimo, onde curiosamente anos antes fora a estreia do famoso musical “Jesus Christ Superstar”. Me recordo que antes de o culto começar as cortinas do teatro de veludo vermelho ficam fechadas, enquanto o belíssimo coral da igreja aquece a voz. Confesso: nesse momento, apenas de ouvir os vocalizes, chorei. Perceba: chorei ao ouvir somente o aquecimento do coral, mesmo com as cortinas fechadas – aquilo me fez entender o que era unção – cantando músicas como “Jesus, Lover of My Soul” (isso anos antes de o Hillsong United estragar a música rsrs). Mas lembro de ter sido tão forte o impacto que aquilo causou em mim que decorei a letra:

Jesus, lover of my soul
Jesus, I will never let You go
You’ve taken me from the miry clay
Set my feet upon the rock and now I know

I love You, I need You
Though my world may fall, I’ll never let You go
My Savior, my closest friend
I will worship You until the very end

Curiosamente, quem pregou aquela manhã não foi Wilkerson, foi seu então pastor auxiliar Carter Conlon, e me recordo até hoje da pregação: “Como saber se estou cumprindo a vontade de Deus” era o tema. Tive de viajar a Nova York para ouvir de modo simples a resposta a uma pergunta que me fazia há tempos.

Mas nada disso importa para este post. Eu o criei apenas para compartilhar com você o video com uma pregação de Wilkerson, “Um chamado para a angústia” (agradeço à querida Andreia Araújo por ter me enviado). Coisa fora de moda na Igreja, não é, angústia? Mas não na Bíblia. A pregação é impecável, saída de um coração contrito, verdadeiro e derramado. Dura mais de 50 minutos, mas vale mais a pena do que assistir a um programa de TV desses ditos “evangélicos” de sábado,  que não servem para nada além de ajudar os donos do programa a enriquecer vendendo seu produtos.

Já esta mensagem que reproduzo abaixo ajuda a vender a Cruz. Ouvir esse sermão me fez tomar iniciativas (coisas pessoais, não convém dizer aqui). Mudar atitudes. Esse chamado para a angústia me alcançou e me fez tomar resoluções. Espero que a pregação angustie você como angustiou a mim e te faça tomar alguma atitude, como me fez tomar.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Recentemente uma pessoa por quem tenho bastante apreço me disse com muito ódio em suas palavras que “nunca mais leria nada que escrevo”, o que inclui este blog. Confesso que, passado o susto daquela reação absolutamente inesperada, dada a fúria com que foi expressa, em vez de ficar chateado… senti paz. E posso dizer isso, pois, diante do que ela me falou, sei que não lerá o que aqui escrevo agora. Pode até soar estranho dizer que fiquei mais tranquilo por alguém ter parado de  ler minhas reflexões, afinal todo escritor e todo blogueiro quer ser  lido, mas duas boas razões me fizeram suspirar de alívio ao receber uma espinafração seguida do ultimato: “Nunca mais lerei o que você  escreve”.

A primeira razão do meu alívio é por saber que, agora que essa pessoa não me lê mais, posso compartilhar pensamentos – que antes não tinha coragem – com os internautas que ainda aturarem minhas reflexões. Pois, por prezar muito essa pessoa, temia feri-la ao escrever certas verdades. Mas agora esse problema deixou de existir e textos que estão há semanas arquivados simplesmente para não feri-la agora poderei postar. Pois trata-se de alguém de grande sensibilidade e que por isso se magoa facilmente. Acredite: ela ter decidido parar de me ler me tranquiliza, por uma razão que pode parecer soberba para alguns, mas quem tem um coração puro vai compreender. Se você tem a paciência de ler não só os posts do APENAS, mas também os comments escritos pelos irmãos que os leem, vai perceber quantas pessoas deixam registrados testemunhos dizendo que o que leram foi o que precisavam ouvir naquela hora ou que foi uma resposta de Deus a suas orações. Então não só o APENAS, mas muitos e muitos blogs cristãos sérios ajudam a levar palavras, reflexões e admoestações que tocam vidas.

O que, na verdade, não é um mérito de blogs em si. Pois por trás de cada blog cristão sem fins lucrativos há seres humanos que querem o bem do próximo. E que devotam seu tempo precioso para escrever com o objetivo de edificar. É mérito, isso sim, da comunhão de irmãos em Cristo, pois isso é viver IGREJA de fato: se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram, compartilhar verdades e, se preciso for, chamar o irmão amado à responsabilidade – por mais que lhe doa. Seja no ambiente real ou virtual. É o que a Bíblia manda fazer.  Então, se este simples espaço onde compartilho pensamentos puder ajudar a me fazer ser mais IGREJA com os poucos que me leem, é bom que eu o use. E se para isso foi preciso que eu sofresse o boicote de uma pessoa querida, tento ver nisso a vontade de Deus e aceitar passivamente.

A segunda razão da minha tranquilidade por parar de ser lido por essa pessoa é ver que aquilo que penso e, em seguida, compartilho no papel, está alcançando corações e mentes – mesmo que provoque reações furiosas. Em especial num blog cristão que (seguindo o que o cristianismo ensina) também inclui exortação, saber que sua admoestação deixou alguém extremamente irado é sinal de que suas palavras tocaram em alguma área sensível da vida daquele indivíduo. Eu preferia e esperava honestamente que tivesse gerado outro sentimento e outras atitudes, foi uma surpresa sem tamanho para mim, mas de qualquer modo tocou.

E por que essa celeuma?

No caso, o problema deu-se porque essa pessoa decidiu se casar com outra que já me afirmou não amar o suficiente para contrair matrimônio. Escrevi sobre o enorme erro que é isso (e, se você que me lê está vivendo algo semelhante, pondere minhas palavras, pois podem servir para sua vida e te livrar de um grande mal). Na verdade, considero que casar-se sem que você ame profundamente seu pretendente é um dos maiores erros que um cristão pode cometer. Possivelmente o maior erro de sua vida.

Pois o solteiro não tem ideia do que é um casamento e acredita que vai conseguir “construir o amor” com o tempo. Só que isso não existe, é uma ilusão, não vai acontecer, e casar-se com alguém de quem você apenas gosta e que te trata bem é o caminho mais curto para uma infelicidade que vai durar décadas. É atirar-se voluntariamente num abismo de infelicidade e de mentiras.

Eu evitei ser direto com essa pessoa, para ser politicamente correto. Apenas dizia a ela que, se aquele era o caminho que ela tinha escolhido, eu iria orar por ela e por sua felicidade (como de fato oro). Mas tive algumas experiências pessoais e li trechos da Bíblia (como o que originou o post Hipócritas no amor) que me despertaram para o colossal erro que é se casar sem amar plenamente e profundamente o futuro cônjuge, achando que um sentimento de amor conjugal  “se constrói” pela força da vontade. O que é uma balela e simplesmente não ocorre no mundo real. Não acontece. Não vai acontecer. E essa pessoa será infeliz – por mais que ela diga que não, pois é como as coisas são e sempre foram na história da humanidade. E isso não vai mudar pelo poder do pensamento positivo, lamento informar.

Escrevi então um post direto sobre o assunto, chamado Não faça isso!. Mas, depois de ter postado, me arrependi. Achei, num rasgo de consciência, que não tinha o direito de me intrometer na sua vida, por mais destrutivas que você tenha certeza que certamente serão as decisões tomadas por ela. E, por isso, num gesto de zelo, lhe escrevi pedindo que não lesse o post. Pra quê. Fui massacrado. Acusado de falta de amor (ironicamente, por ter falado a verdade). Até me ofender, dizendo que eu fazia aquilo porque “agora era famoso, uma celebridade” (apenas porque ganhei prêmios por um livro que escrevi), num absurdo argumento ad hominem, tive de ouvir. Mas paciência. Ao ver aquela reação tive certeza de que escrever para ela “Não faça isso! Não se case sem um amor profundo!” foi a coisa certa a fazer.

Por quê? Pois, como cristão e irmão em Cristo, fiz a minha parte. Exortei em amor. Zelei. Cuidei. Adverti que essa bobagem de que amor conjugal se constrói por força da vontade é irreal. Que ama-se e depois se casa – e não o contrário. Conheço dois sacerdotes cristãos que desmancharam noivados pouco antes do casamento por perceberem que estavam se casando pelos motivos errados. Um deles a duas semanas do casamento. Tiveram peito e cristianismo suficiente para não se casarem sem o que era preciso e, por tabela, não enganarem seus futuros cônjuges mentindo para eles e fazendo-os crer que eram amados de um modo que na verdade não eram. Isso chama-se hombridade – e admiro esses homens por isso. Tempos depois, conheceram mulheres que de fato vieram a amar, se casaram, tiveram filhos e vivem felizes até hoje.

Conheço gente que se casou pelas razões erradas. Cristãos. E precisam conviver com o amargor dessa decisão todos os dias. E aí você olha esses casos e vê pessoas queridas indo pelo mesmo caminho destrutivo. E tenta alertar. O resultado: é ofendido e perde um leitor. Paciência, nessa hora você lava as mãos em amor e entrega o caso a Deus.

E eu com tudo isso?

A essa altura você pode estar se perguntando: “Zágari, então este post é apenas um lamento? É um desabafo?”. Não, amado, amada. É um alerta, repleto de amor a você que pode estar vivendo algo semelhante, como o que fiz a essa pessoa querida. Só que ela é um caso perdido, tomou sua decisão acreditando na fábula de que vai conseguir “construir um amor” que não existe. E a entreguei na mão de Deus. Mas sei que pode haver pessoas que estejam lendo esta história e vivendo algo parecido – e para quem ainda há tempo de mudar algo.

Um exemplo disso (como Deus faz as coisas, não?) Chegou quando este post já estava escrito, quando eu já estava pronto para publicá-lo, mas fiz questão de inserir aqui. Uma jovem mulher (cuja identidade vou preservar) pediu meu e-mail pelo twitter e me escreveu um longo e-mail contando sobre seu relacionamento com um rapaz por quem não nutre um amor profundo. E o cara é até bem legal. “Ele é realmente um ótimo rapaz, responsável, carinhoso, cuidadoso, respeitador, da igreja”. Começaram a namorar. “Acontece que, durante esses meses eu não consegui sentir por ele aquilo que chamo de amor. Aquele amor que o senhor escreveu no seu blog tantas vezes, que cria guerras, que mudou a História da humanidade algumas vezes, enfim, aquele amor de I Co. 13, que nunca acaba. O que eu sinto por ele é atração, eu gosto dele. Mas, não o amo e tenho muita certeza disso no meu coração”. E foi além: “lhe escrevi uma carta, dizendo que o amava e que era pra sempre, mas me arrependo, porque não era verdade”. Por fim, essa jovem termina o e-mail: “Eu preciso ser sincera: se vejo minha vida sem ele, não sofro, entende? Sei que o amor verdadeiro não é assim. Me ajude, por favor”.

O que eu respondi a ela? O óbvio: termine esse relacionamento. Pois relacionamento pressupõe profundidade, amor imenso, devoção, e não apenas um “amor”… que não é amor.

Então com vocês, queridos irmãos, serei tão direto e objetivo como fui com essa querida amiga do twitter que me escreveu, pois casamento dentro do Reino de Deus é uma das coisas mais sérias que há e não dá pra ficar sendo politicamente correto com um tema tão grave. Pois é a partir do casamento que se formará a família, o alicerce da Igreja erguido sobre a Rocha que é Cristo.

Então ouça, pois serei direto, nada politicamente correto e direi a mais pura verdade, doa a quem doer: se você não ama profundamente seu noivo (ou noiva), NÃO SE CASE. Amor não brota depois de uma bela cerimônia e da coabitação, isso é uma mentira. Se não tem certeza, NÃO SE CASE. Também NÃO SE CASE porque todas suas amigas já se casaram e você não quer ficar pra titia. NÃO SE CASE por pressão social ou dos membros da sua igreja. NÃO SE CASE porque seu sonho é ter filhos, pois filhos biblicamente são consequência de um casamento motivado por amor real e profundo e jamais a causa dele. Você não é obrigado a se casar – só se casa se quer e a responsabilidade de tudo o que advirá disso é exclusivamente SUA. Não tem que fazer isso para prestar contas a outras pessoas. Casamento não tem idade certa, tem a PESSOA certa. Você não tem que organizar seu futuro em cima de motivações erradas. Se suas motivações para casar forem frágeis, NÃO SE CASE! Antes do altar, tudo é possível. Então se você perceber que está indo por um caminho de tristeza, termine namoros, desmanche noivados, faça o que for possível. Porque, depois do “eu aceito”… biblicamente não há mais volta, você assumiu um compromisso eterno. E aí, que Deus tenha misericórdia de você e de seu cônjuge.

Enfim…existem mil motivos para você não se casar. E apenas um para que você o faça. O único motivo que deve levar alguém ao altar é a certeza de que é impossível viver sem aquela pessoa, que, sem ela ao seu lado, a vida não faria sentido.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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No post “O abismo chamado hipocrisia“, aqui do APENAS, tratamos em detalhes a questão desse pecado que, em sua raiz etimológica, tem o sentido de “alguém que desempenha um papel”. Ou seja, hipocrisia tem a ver com fingimento, teatralidade, mentira, falsidade. É quando vocé finge ser, sentir ou pensar algo que não condiz com a realidade. Ocorre que, em minhas leituras bíblicas, descobri, inesperadamente, que as Escrituras dão importância, embora muitos não saibam, a um pecado pouco falado que é a hipocrisia no amor.

Quando falamos de amor, é preciso que haja pelo menos dois participantes: o que ama e o que é amado. Isso em qualquer instância: amor entre homem e mulher, pai e filho, Deus e o homem. Então, se as Escrituras nos advertem sobre hipocrisia no amor, isso significa que há a possibilidade de ou o ser que demonstra amor ou o ser que recebe esse amor não estar sendo 100% sincero na realização desse sentimento. Foi quando me deparei com Romanos 12.9, onde Paulo, num contexto que fala sobre a racionalidade do cristão, ordena: “O amor seja sem hipocrisia”.

Nunca tinha reparado com atenção nessa ordenança: “O amor seja sem hipocrisia”.

E o apóstolo do Senhor é tão rigoroso nessa questão que compara o amor hipócrita a um mal que deve ser “detestado”. Tanto que a sequência do versículo estabelece: “Detestai o mal, apegando-vos ao bem”. Ou seja, aos olhos do apóstolo que, cremos, falou inspirado pelo Espirito Santo, fingimento numa relação amorosa é algo definitivamente detestável aos olhos do Senhor.

Fato é que muitos de nós vivem suas vidas amorosas de forma bastante hipócrita. E nao estou falando de adultério, mas de hipocrisia numa relação legítima. E isso em diversos âmbitos. Tive uma colega de trabalho que mentia ao marido sobre quanto dinheiro gastava por mês. Já aconselhei na igreja pessoas que simulavam orgasmos para agradar o cônjuge em vidas sexuais frustradas. Sei de casos de cristãos que mantém relações íntimas com seus cônjuges imaginando estar com outras pessoas. Conheço jovens moças de igreja que namoram rapazes só porque eles têm dinheiro, carro do ano e lhes oferecem outras vantagens materiais. Existem casais cristãos que vivem juntos sem expor com sinceridade plena aquilo que sentem e pensam. E há, até, quem se case sem amor porque… bem, para ser honesto, nem sei por quê.

“O amor seja sem hipocrisia” é mandamento do Senhor. Seja em que âmbito for. Não ame a Deus com subterfúgios. Não finja que ama quem não ama para que isso te gere benefícios financeiros. “O amor seja sem hipocrisia” significa, na prática, que o amor deve ser sem fingimentos. Deve ser franco. Transparente em todos os sentidos. Se houver problemas, que se busque o diálogo aberto e a oração. A tônica da sinceridade em um relacionamento amoroso segundo os padrões de Cristo é:  “Amado meu, o que o ocorre é isso, isso e isso. Vamos trabalhar juntos para que não haja nenhum fingimento em nossa relação?”. Caso contrário, se você persistir na teatralidade, estará persistindo naquilo que Deus detesta. É o que tenho tentado viver em plenitude na minha vida depois que esse trecho da Bíblia caiu na minha cabeça como uma bigorna.

“O amor seja sem hipocrisia”. Uau. Que mandamento.

Geralmente, quando pensamos em algo detestável aos olhos de Deus no âmbito da relação a dois entre homem e mulher, só o que nos vem à cabeça é o sexo fora do casamento e a traição. Será? Pois, se eu ou você trazemos a hipocrisia para dentro de uma relação de amor, diz Paulo, também estamos fazendo algo que, assim como todos os demais deslizes relativos a essa área de nossa vida, é biblicamente detestável.

Adultério, fornicação ou hipocrisia no amor… será mesmo que algum desses pecados é pior do que o outro?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Felicidade é um conceito bíblico? Depende. Como assim, “depende”? Numa época em que a heresia  neopentecostal transformou o lema mentiroso do “pare de sofrer” num dogma com base na Teologia da Prosperidade, a reação dos defensores da sã doutrina é jogar o pêndulo com toda força para o outro lado. Mas devemos ir com calma. O mesmo Deus que diz “quem quiser vir após mim tome a sua cruz e siga-me” também diz “qual é o filho que pedindo ao pai pão ele lhe dará pedra ou pedindo peixe lhe dará uma serpente?”.  Então o que as Escrituras nos mostram é que o Evangelho é um caminho pedregoso,  sem garantia de felicidade: você pode ser um bom cristão e ainda assim ser infeliz até o fim de seus dias. Mas, por outro lado, o coração amoroso do Pai pode criar muitos momentos de felicidade durante essa caminhada pedregosa e aliviar por sua graça as dores dos pés que fazem a jornada.

O anseio de todo ser humano é ser feliz. Isso é instintivo. Queremos viver longe de dores, frustrações,  desilusões, desamores, problemas. A meta de cada um de nós é acordar de manhã sorrindo, se espreguiçar e passar o dia com um sorriso no rosto. Ah, a vida é bela!, anelamos dizer a cada por-do-sol lindo no horizonte, com um livro de Fernando Pessoa nas mãos, uma música gostosa no fone e a cabeça da pessoa amada no colo, com um cafuné que tem sabor de repouso, descanso e felicidade. Fale a verdade: você não gostaria de viver isso?  Mas aí chega Jesus e estraga tudo.

Isso mesmo. Sabe aqueles filmes em que, de repente, tem um som de vitrola arranhando e o personagem cai do sonho e se vê numa situação de dureza? Pois no Evangelho é exatamente assim. Você está lá, no Arpoador, curtindo o entardecer, sentindo a brisa do mar, quando, sem aviso, o som que vem é o da agulha arranhando o long play. É quando Jesus te sacode pelos ombros e diz: “Tome a sua cruz e siga-me”. Pra quem só quer uma vida de alegria perene isso é o fim da picada.

Não, meu irmão, minha irmã, viver não é um parque de diversões. Viver segundo os preceitos bíblicos, então, é para os fortes. E, paradoxalmente, só se torna forte quem se põe fraco aos pés do Mestre. Pois a alternativa a tomar a cruz e seguir a Cristo é o inferno. Mas a boa noticia é que o Senhor nos diz, em paráfrase: “Tome a sua cruz e siga-me… mas não desanime nem fique ansioso, pois você pode lançar os seus fardos sobre mim: eu tenho cuidado de você”.  Sim, o Evangelho é para os fortes, e a nossa força tem nome: impotência. E é aí que entra a possibilidade da felicidade.

Como assim?

Mas o que impotência tem a ver com felicidade? Isso, na verdade, aprendi com minha filha. Tenho uma filhinha com 11 meses de idade. Ela é impotente. Ainda não consegue andar sozinha, nem se alimentar. Não se veste sem ajuda e se sente dor depende que o papai pare tudo para lhe dar um pouco de analgésico. Para ela, eu e a mãe somos Deus. Quando ela leva um tombo, a tomo no colo, com ela aos berros, faço carinho, sussurro palavrinhas de amor, esfrego o dodói e ela… sorri.

E um sorriso, quando não é fingido, é o maior sintoma de felicidade. Se você quer medir seu nível de felicidade, basta ver com que frequência você sorri quando ninguém está olhando.

Quando bate a fome ela começa a gemer e apontar para a comida. Não raro chora. Aí chega papai ou mamãe, aqueles seres divinos que porão o papá na sua boquinha e farão a sensação de fome sumir. E, quando a primeira colherada chega a sua boca ela… sorri. Sede? Papai dá suquinho na mamadeira e o choro vira… sorrisos. Sono? Uma boa embalada e a ranzinzice vira olhinhos fechados e uma noite de sonhos tranquilos (e acredita que ela dorme… sorrindo?) Carência? Uma engatinhada até meus pés, uma escalada nas minhas pernas  e um pedido de colo com aquela carinha de Gato de Botas do Shrek e bracinhos estendidos derrete o coração do paizão, que pega aqueles oito quilos de amor no colo e… sorrisos.

Mas isso tudo só acontece por uma razão: porque ela entrega suas infelicidades aos cuidados de quem  pode transformar sua impotência em…. sorrisos de felicidade.

O Evangelho não nos promete felicidade. A mensagem da graça é dura. Exige renúncia  das nossas  vontades. Quem não deixar pai e mãe por amor a Cristo não é digno dele. Ou seja: quem não abrir mão do que mais ama não é digno do Salvador. “Venda tudo, dê aos pobres e vambora pra Cruz”, foi a resposta de Jesus para o “mancebo de qualidade”. Dureza. Renúncia. Dificuldade. Choro. Impotência.

Sinto-me constantemente impotente na estrada pedregosa. Mas aí eu engatinho até os pés do Pai, escalo suas pernas, estendo os bracinhos e faço cara de Gato de Botas do Shrek. Aí, se por sua graça papai me pegar no colo, eu sei que vou sorrir de felicidade.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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