Existe dentro da tradição judaica um conceito que considero um dos mais lindos que existem nas relações humanas: o da Tsedaká. Por vezes é traduzido como “caridade”, mas a raiz da palavra é, do hebraico, Tsedek, ou “justiça”, o que é mais forte do que fazer uma simples caridade. O preceito ordena fazer caridade no sentido de “cumprir a justiça”. Apesar de ser um conceito da tradição judaica, tem muito a nos ensinar. Esse preceito é uma ordem aos judeus a darem Tsedaká, ou seja, a sustentar os necessitados e a aliviar suas cargas. A origem do Tsedaká vem da Torá hebraica, o equivalente ao pentateuco cristão, como no texto que diz “Abrirás tua mão para teu irmão, para teu pobre” (Deuteronômio 15:11). Segundo o rabino Kalman Packouz, o significado é que devemos ajudar os nossos pobres e sustentá-los de acordo com suas necessidades. As normas desse preceito estão explicadas em vários lugares,  inclusive no Talmud, e determinam que mesmo o homem pobre que vive de Tsedaká tem a obrigação de dar Tsedaká, ainda que mínima, a alguém que seja mais pobre do que ele ou tão pobre como ele próprio.

O que me encanta no Tsedaká é seu principio: da mesma forma que Deus cuida de nós, devemos nos esforçar para ajudar o restante da humanidade.

Gosto muito do primeiro parágrafo da oração ‘Shemá Israel’, onde está escrito: “Você deve amar seu Deus com todo seu coração, toda sua alma e todas suas posses”. Os sábios do Talmud perguntam: “Por que está escrito ‘Todas suas posses’? A resposta é que para algumas pessoas é mais difícil separar-se de seu dinheiro que se separar da própria vida”.

No livro “Para Curar Um Mundo Fraturado – A Ética da Responsabilidade”, o Rabino Jonathan Sacks afirma que a ética da Tsedaká calibrada à perfeição vem embebida num insight psicológico, uma vez que o iimportante não seria o quanto você dá, mas como você dá. Isso incluiria o anonimato como essencial à dignidade, além do que nunca devemos constranger os pobres. Aos ricos, não é permitido se sentirem superiores. E nós não damos para ter orgulho de nossa generosidade. Reza a tradição judaica que a Tsedaká deve ser dada com prazer e com um semblante agradável. Que se um pobre lhe pedir dinheiro e você não tiver condições de ajudá-lo no momento, não levante a voz ou aja desagradavelmente. Solidarize-se com ele e, calmamente,  expresse que gostaria de ajudá-lo, mas que no instante não tem como fazê-lo.

Segundo o livro “Love your Neighbour”, do Rabino Zelig Pliskin, a recompensa por praticar a Tsedaká é enorme. No feriado judaico do Yom Kipur os judeus recitam que “três coisas revogam um mau decreto dos Céus”: Teshuvá (retornar ao caminho da Torá), Tefilá (orações) e Tsedaká (atos de justiça, de correção). Mas, de todas essas coisas, o que me soa mais bonito de tudo é que ajudamos porque somos parte de um pacto de solidariedade humana, e porque é o que Deus quer de nós, antes de tudo em honra à confiança em nome da qual Ele temporariamente nos emprestou riqueza.

E eu com isso?

Aí você pode estar se perguntando: “Tá legal, Zágari, tudo isso é muito bonito, mas eu não sou judeu, sou cristão, o que eu tenho a ver com isso?”. Eu diria que tudo.

Chega a ser um clichê quando alguém se refere à comunidade judaica que se diga que é raríssimo ver um judeu desempregado, passando por necessidades ou desamparado. Tive uma conversa com uma judia e ela me explicou que isso deve-se ao conceito do Tsedaká: graças a esse princípio, que é muito levado a sério, nunca um judeu vai desamparar outro: se um israelita estiver em dificuldades financeiras, logo a comunidade se mobiliza para conseguir-lhe um emprego ou auxiliá-lo de algum modo que o tire do aperto.

Eu parei então para pensar no que nós, cristãos  fazemos quando vemos outro cristão necessitado. Sim, nós, que temos como parte do primeiro mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Na maioria esmagadora das vezes em que algum cristão em apuros se aproxima passando dificuldades nossa reação não é abrir a carteira, mas pôr a mão em seu ombro e dizer: “Vou orar por você”. Se você for muito espiritual, diz “vamos orar”, senta ao lado dele, ora junto e pede a Deus que abra as janelas do Céu – mas ainda assim não abre a carteira. Se um cristão pobre vem pedir dinheiro no sinal de trânsito, nós nos rejubilamos em, rapidinho, fechar a janela do carro.

Nosso conceito de amor ao próximo tem sido completamente esquecido. Basta passear pelas ruas das metrópoles e você verá legiões de pedintes, gente querendo um prato de comida. E os cristãos aqui estão tão atrasados para ir ao culto louvar a Deus com as mãos levantadas que não têm tempo de parar, estender a mão e comprar um prato feito que seja pros famintos que nos cercam. Não estou falando dos mendigos profissionais, mas daqueles que realmente precisam.

A título de reflexão, vou lhe fazer algumas perguntas objetivas. E você, que é crente em Jesus Cristo, que vai à igreja todo domingo, responda a si mesmo:

– Qual foi a última vez que você desviou-se de seus afazeres para dar alimento a um faminto?
– Quando você doou pela última vez dinheiro a uma instituição de caridade?
– Há quanto tempo você não tira um tempo para ouvir uma pessoa aflita ou desesperada?
– Qual foi a última vez que você visitou um orfanato ou um asilo?
– Quem de fora da sua família você ajuda financeiramente com um sustento regular?
– Quantas crianças carentes você já apadrinhou pela Visão Mundial?
– Quanto da sua renda você doa por mês para ajudar a sustentar um missionário?

Em contrapartida, responda agora o seguinte:

– Quantas vezes este mês você gastou dinheiro comendo ou lanchando fora de casa?
– Quantas roupas ou sapatos novos você comprou para si nos últimos 60 dias?
– Quanto dinheiro você destinou no ultimo mês para ir ao cinema, ao teatro ou para alugar DVDs?
– Quanto você paga por mês pela sua TV por assinatura?
– Se você é mulher, quanto você gastou no ultimo mês com salão de beleza?
– Quanto dinheiro você gastou este ano com bobagens como capinhas de celular ou outros badulaques do gênero?

Quando eu fiz para mim mesmo essas perguntas tive tanta vergonha de mim que quase me converti ao judaísmo, só para praticar o Tsedaká. Só desisti porque me lembrei que teria de me circuncidar. Então cheguei à conclusão que seria menos doloroso apenas começar a praticar o que Jesus nos ensinou.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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comentários
  1. Senath disse:

    Que texto lindo. Chorei.

  2. Lelê disse:

    Lindo texto msm!
    Tenho muito o que melhorar e muito a me transformar!
    Tb tenho vergonha pq o tempo vai passando e essas coisas do mundo me afastam mais de Deus!
    Pelo menos nas perguntas não estou tão mal assim…rs

  3. Sensacional, obrigado mano por escrever isso, é um tema que precisa ser falado mais vezes. Para mim, e para a igreja, como disse o Ronald Sider: estamos em dívida com os pobres. Que Deus te ilumine e revele cada vez mais a palavra Dele a você.

  4. Marise disse:

    Texto lindo amigo!! Tão a propósito nessa época em que as pessoas cada vez mais são egocêntricas. Deus continue te abençoando. Paz!

  5. Marco Juric disse:

    Oi Zágari,

    Me alegro em ler seu post e também me envergonho com meu relaxamento. Só mesmo Deus pra te inspirar assim.

    God bless you!

    Marco Tullio

  6. Re disse:

    Adorei você falar disso, mano, não só pelo conteúdo do seu texto, mas pelo sentido da tsedaká – muitos cristãos tem preconceitos com conceitos judaicos, acham que é coisa de cabala etc e tals :-)) Quanto a converter-se ao judaísmo, eu quase… Mulher não circuncida (aliás, circuncisão é de uma sabedoria incrível!!!) mas tem que usar véu ou lenço na sinagoga 😀

    O rabino Nilton Bonder, li alguns livros dele, também explica a tsedaká (“riqueza sem tsedaká empobrece”), equivalente ao conceito de caridade [amor] e justiça, sendo esse seu sentido judaico. Diz ele que é sim uma ‘arte’, a de compartilhar, e que deve ser ‘gesto corriqueiro’ 🙂 Vai mais fundo e explica que tsedaká está conectada com a gratidão, a sabedoria e… a doação, “em todos os níveis, de indivíduos para indivíduos…”.

    É um conceito muito judaico, de muita sabedoria. Não esqueço um conto (que descrevo em linhas bem gerais) em que um Rabi retira e dá de presente, no ato, seu lindo manto de orações a uma pessoa que passava e que se maravilha com as cores do manto – tal foi a intensidade da reação da pessoa que para ele significou que aquele manto não mais lhe pertencia. Sempre me perguntei quantas pessoas já vi fazerem algo semelhante. Entra aí também o significado do que é ‘justo’, quando percebemos que aquilo que é nosso representa muito mais não sendo mais nosso (difícil, hein?).

    Quanto aos judeus se ajudarem, como há bons judeus e bons cristãos, há os ‘desvios’ em todos nós. Convivi com uns amigos judeus cujo pai foi a falência e nunca foi ajudado por seus pares – motivo: falência, um vírus, uma moléstia a ser evitada para alguns deles. Poizé!

    Que a Palavra, lâmpada para nossos pés, nos ajude dia após dia a sermos cada vez mais semelhantes a Jesus. Amém

    A Paz, bj no ombro, tsedaká e maranata!

  7. Penélope disse:

    Esse final de semana aconteceu algo muito intrigante comigo. Teve um evento da minha denominação fora das portas da instituição, e depois de cumprir o que me estava designado, fui caminhar ao redor do local de concentração pra pesar o que acontecia naquele lugar. Eu tinha um bocado de panfletos bonitinhos com palavras marcantes, com alguns dizeres sobre procurar uma igreja e etc, quando cheguei perto de um senhorzinho com uns 70 anos. Apanhei um folheto e… o dobrei, devolvendo-o ao bolso. Sentei ao lado dele.

    Conversamos por algum tempo sobre any coisas aleatórias e em pouco tempo ele me mostrou o sentimento que nutria pela igreja: odio, repulsa. Disse sobre inúmeras pessoas que nunca se importaram com a vida dele, que diziam que para que Deus fizesse algo em sua vida, era necessário que ele procurasse a igreja deles, que lá havia um pastor X que faria uma oração com imposição de mãos e coisas miraculosas. Ouvi por muito tempo ele afirmar que era católico e que odiava com todas as suas forças os “crentes”, e que jamais receberia um folheto se quer. Enquanto ele falava, abaixei a cabeça e quando eu voltei a olhar seus olhos, eu estava chorando. Ele ficou desesperado, tadinho. Me perguntou o motivo, e eu respondi com sinceridade que me sentia muito mal por saber que por anos, nós, a igreja, passamos por ele preocupados em colocá-lo apenas dentro de um templo, sem ao menos compartilhar com ele as palavras eternas.

    Chorei amargamente na frente daquele homem. Lhe pedi perdão (acho que Deus tem me ensinado sobre a importância de praticar para aprender) e falei com ele o que vivi nesses últimos meses. Falei sobre como o evangelho e a graça são maravilhosos e o quanto eu sofri para aprender que para vivê-los em seu ápice, é necessário calar, ainda que não sentimentos, vontades. Peguei meu celular e abri em João 3:16. Nós lemos em voz alta várias vezes (aprendi isso com o Paul Washer) e ele começou a chorar. Ele disse coisas incríveis sobre a vontade que sentia de conhecer o amor de Deus. Minhas lágrimas cessaram, pois me surpreendi. Ele me pediu inúmeras vezes que o levasse até a igreja, por que entendera a necessidade da comunhão para que juntos, consigamos conhecer a Deus e viver sua vontade.

    E o que isso tem a ver com “Tsedaká” (engraçado que isso me levou de volta às aulas de Hebraico que depois de ter algum certificado, deixei pra trás)? Simples. “Cumprir a Justiça” ou mesmo a “caridade” tem tudo a ver com abrir mão, pedir perdão e fazer o que é certo para com os marginalizados por algum segmento da sociedade, inclusive e prioritariamente, a igreja.

    Me alegro por teus ensinamentos, Maurício. Mesmo que não pareça, nada mudou e eu continuo acompanhando e compartilhando de seus pensamentos. Tem uma música, da minha banda preferida, que diz: “you are always one step ahead of me” e é por essa razão que eu faço questão de te acompanhar. Tenho muito que aprender.

    Um beijo.

  8. Mercia disse:

    Final bem humorado, mas não deve ser a razão para praticar o “tsedaká” 🙂
    Deus abençoe sua vida, cuide de vc com carinho, dê-lhe forças, vontade de prosseguir firme e com fé e o inspire para continuar escrevendo seus posts.
    Jesus, prioridade do Natal, continue sendo prioridade todos os dias e momentos de 2012 e de sua vida!
    Abs
    Mércia

  9. Claudio Nossa disse:

    Amado irmão,

    Estive em Fortaleza-Ce este final de semana. e algo me chamou a atenção: muitos pedintes.
    A minha reação me constrangeu, fui omisso e me fechei, não ajudei um sequer que vergonha.
    Fico receioso em dar, primeiro, alguns não valorizam o objeto dado, torna-se um ciclo vicioso, outros, por causa do craque trocam tudo por esta DROGA… De toda sorte, fiquei triste com a minha atitude. Fico no dilema: Quem não trabalha deve comer?
    Acho mesmo que devo pensar menos em mim, comer fora menos, comprar menos…
    Mas no fundo não sei como agir, pode me ajudar?

    PAz querido!!!!!!!!!!

  10. Ivaneiassis@gmail.com disse:

    Boa noite estava vendo textos e acabei entrando nesta página e adorei a leitura muito gratificante. Obrigada.

  11. Paulo R. F. Passos disse:

    De fato, a tsedaká é uma nobre atitude em direção ao próximo. Creio, contudo, que o sentimento de impotência e o pouco que me parece fazer para mudar tudo isso acaba a me levar ao desânimo, a não ser diante de um quadro de compaixão em favor de alguém absolutamente e visualmente incapaz. No entanto, creio que preciso rever meus conceitos face às sabias palavras do nobre missivista.
    Que D’us esteja convosco.
    Abraços,

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