Arquivo da categoria ‘Teologia da Prosperidade’

Successful-PeopleTodo mundo quer ter sucesso. Isso é um problema? De modo algum, é um desejo lícito. Almejar ser bem-sucedido, aliás, é parte da natureza humana, ninguém faz qualquer coisa para que dê errado e fracasse. Então, se você busca o sucesso, saiba que não está pecando nem cometendo nenhum mal. Só tem um enorme porém: temos de entender exatamente o que significa “sucesso” para um cristão, isto é, o que a Bíblia define ser um cristão bem-sucedido. Será que sucesso para um filho de Deus é a mesma coisa que para um não cristão? Quando fui buscar uma imagem para ilustrar este post fiz um acordo comigo mesmo: eu escreveria sucesso no Google e a primeira foto que surgisse nos resultados da pesquisa eu utilizaria. Pois a primeira fotografia que apareceu foi essa aí: um  homem no topo de uma montanha, braços erguidos, celebrando uma conquista do ego, algo obtido por seus próprios esforços, um feito que possivelmente lhe trará fama e fortuna. Outras imagens semelhantes surgiram no topo da página e serão as que utilizarei ao longo deste texto. Para pensarmos sobre o conceito cristão de sucesso, vou iniciar com um exemplo pessoal, que deflagrou esta reflexão.

Tenho refletido muito sobre essa questão de “sucesso” devido a algo que ocorreu semana passada: meu novo livro, Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar esgotou a primeira edição, de 5 mil exemplares, apenas 17 dias após o lançamento oficial e menos de 30 dias após o lançamento real. Para que você entenda, no meio literário isso é um fato raro para obras de um autor desconhecido como eu, que não tem fama ou celebridade. Pois bem, quando a notícia foi divulgada, comecei a ouvir muitas vezes a palavra “sucesso”. No meu perfil no facebook (facebook.com/mauriciozagariescritor), irmãos e irmãs carinhosamente me deixaram recados celebrando esse “sucesso”. Um programa de rádio quis me entrevistar “devido ao sucesso do livro”, como o apresentador mesmo disse. Amigos que me encontraram pessoalmente gentilmente me parabenizaram pelo “sucesso”. Então essa coisa de “sucesso” começou a pipocar diante de mim nesses últimos dias e, naturalmente, passei a refletir sobre o assunto.

sucessoA pergunta é: a boa vendagem do meu livro em tão pouco tempo representa sucesso? A conclusão a que cheguei é: não. Pois entendo que sucesso depende da sua motivação e do seu objetivo ao realizar algo. Fui ao dicionário olhar e vi que a definição de “sucesso” é: “Resultado de ação ou empreendimento”. Ou seja, se um escritor lança um livro com a meta de ganhar o máximo de dinheiro que puder, tornar-se mais conhecido, receber elogios que alimentem sua vaidade e outros benefícios mundanos como esses, vender 5 mil exemplares em menos de um mês pode ser, sim, considerado sucesso, pois o resultado desse empreendimento atendeu ao desejo do coração do escritor. Mas, se a motivação dele ao escrever um livro é que os leitores sejam transformados, recebam alívio para seus fardos, entendam melhor o evangelho, alcancem paz de espírito e vivam de modo mais conformado a Cristo, vender muitos ou poucos exemplares não fará a menor diferença: o que realmente determinará o seu sucesso é se o conteúdo da obra, a sua mensagem, alcançou e transformou vidas – independentemente da quantidade de exemplares vendidos. Logo, segundo esse pensamento só poderei me considerar um autor de sucesso se eu vier a ouvir relatos de pessoas que conseguiram perdoar ou se perdoar por causa do que leram no Perdão Total. Aí, sim, minha oração será “Obrigado, Senhor, porque o livro foi um sucesso”.

Esse exemplo pessoal se aplica a tudo aquilo que realizamos. Permita-me te perguntar: por que você faz o que faz? Quais são as motivações do seu coração ao ir para o trabalho, ao estudar na escola, ao ir à igreja, ao pregar no púlpito, ao servir na obra de Deus, ao escrever em um blog, ao postar textos e fotos no facebook, ao pedir ao Senhor um(a) namorado(a), ao acordar pela manhã e viver mais um dia? Só ao responder com sinceridade essas perguntas você poderá determinar se é uma pessoa de sucesso ou não. Mais ainda: se somos cristãos, a nossa motivação sempre, sempre e sempre deve ser ajustada aos padrões bíblicos. Portanto, resultados positivos de empreendimentos que realizamos não farão de nós pessoas bem-sucedidas caso estejam em desacordo com a vontade de Deus. Permita-me dar alguns exemplos.

sucesso0O mundo estabelece como um dos principais fatores determinantes de sucesso o enriquecimento financeiro. Mas Jesus disse: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam” (Mt 6.19-20). Diante disso, se você estabelece como meta na vida ajuntar tesouros na terra, sem se preocupar em ajuntar tesouros no céu, por mais que se torne um bilionário você será um fracassado. Outro exemplo: a Bíblia estabelece numerosas vezes que o padrão cristão é não devolver mal com mal. “Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens” (Rm 12.17); “Evitai que alguém retribua a outrem mal por mal; pelo contrário, segui sempre o bem entre vós e para com todos” (1Ts 5.15); “Quanto àquele que paga o bem com o mal, não se apartará o mal da sua casa” (Pv 17.13). Assim, por mais que alguém se considere bem-sucedido por ter conseguido se vingar de uma pessoa que lhe fez mal, diante de Deus ele será um grande fracasso.

sucesso2Os exemplos seriam muitos. Mas acredito que podemos resumir tudo o que a Bíblia define como sucesso em um único versículo: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Assim, faça você o que fizer, se lucrou financeiramente, obteve fama, foi elogiado, recebeu aplausos ou o que for, mas não realizou seus empreendimentos tendo como finalidade primordial a glória de Deus… considere-se um enorme fracassado. Por outro lado, se você trabalha, estuda, produz, canta, prega, escreve, se casa, fatura, labuta na obra do Senhor ou faz qualquer outra coisa com a motivação de glorificar a Deus, então todas as suas conquistas serão estrondosos sucessos. E o que é glorificar a Deus? Em essência, é cumprir o grande mandamento: amá-lo sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Portanto, tudo o que você realiza por amor ao Pai celestial e por amor ao seu próximo representa glória para o Senhor e faz de você um sucesso total.

E nunca podemos nos esquecer de uma realidade suprema: qualquer sucesso que tenhamos não é nosso, é de Deus. Tiago foi no cerne dessa verdade: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). Se o seu “sucesso” te envaidecer ou te fizer orgulhoso, soberbo ou altivo, você é o maior dos fracassados, pois está se vangloriando por algo que nem mesmo é mérito seu: é fruto da graça de Deus.

sucesso5Escrevo livros e posts deste blog para abençoar a sua vida e tentar ajudar de algum modo a conformá-lo mais à imagem de Cristo. E faço isso por amor a Deus e por amor a você. Se meus escritos alcançam essa meta, então pode me considerar um homem de sucesso, a despeito de quantos de meus livros forem vendidos e de quantos assinantes tiver este blog. Isso é o que vale para mim. E para você? O que você faz tem por motivação Deus e o próximo ou sua própria vaidade ou o amor por si mesmo, pela fama e a fortuna? Responda isso com toda sinceridade e você descobrirá se é bem-sucedido ou um fracassado. Ah, sim, e para terminar este texto, deixei por último uma imagem do que eu considero sucesso para uma pessoa – não segundo o Google ou o senso comum da sociedade, mas segundo a Bíblia sagrada. Compare esta última foto com as demais que ilustram este post e diga qual representa mais “sucesso” para você. A sua escolha vai dizer muito sobre os conceitos que norteiam a sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari

< Enquanto a segunda edição não chega da gráfica, o livro está disponível on-line na loja virtual da Saraiva: http://www.saraiva.com.br/perdao-total-8187731.html >

Perdaototal_Banner Blog Apenas

20130622-000720.jpg
.
Assisti absolutamente estarrecido aos telejornais na sexta-feira passada. As imagens da barbárie que foi a violência em diferentes cidades do Brasil, com atos de vandalismo, depredações, ofensas, agressões, confrontos, roubos de lojas, ataques a bancos e o cerceamento do direito de ir e vir dos cidadãos de bem me deixaram paralisado e de olhos marejados. O país que eu amo está em uma guerra civil descontrolada. Quando manifestações pacíficas por causas sociais justas degringolam e viram um caos primitivo e sanguinário é sinal de que o país precisa urgentemente de socorro. Assisti ao pronunciamento de nossa presidenta, em cadeia nacional de rádio e TV, em que ela desfilou uma lista bastante colorida de ações que pretende tomar para resolver os problemas. Achei tudo ótimo. Afinal, quem não gostaria, por exemplo, de ver todos os royalties do petróleo destinados à educação? Sou filho de professores do estado aposentados, há décadas anseio por escolas públicas melhores. Em 1987 fui às ruas – em manifestações pacíficas – pedir por isso e pela meia passagem para estudantes. Eu fui um cara-pintada da era Collor. Só que, depois de ouvir as possíveis soluções de nossa presidenta com um pouquinho de alegria dentro de mim, meu lado reflexivo me lembrou de uma triste realidade: nada do que ela propõe vai resolver nada.

Parei para pensar, quando terminou o show dos telejornais, que o que está acontecendo pelo Brasil afora não é um “a que ponto chegamos”, mas sim um “e lá vamos nós de novo”. O que vi na TV foi Caim matando Abel. Sodoma se corrompendo. Exércitos destroçando os povos vizinhos na antiga Palestina. Davi assassinando Urias. Diná sendo estuprada. Sansão estraçalhando filisteus. A Babilônia pondo Jerusalém abaixo. Jefté matando a própria filha. Jael cravando a cabeça de Sísera no chão com uma estaca. Jacó enganando seu irmão e seu pai e sendo enganado pelo sogro. Os irmãos vendendo José como escravo. Os primeiros cristãos sendo atirados aos leões. Inocentes queimados na fogueira da Inquisição. A igreja corrupta vendendo indulgências. As guerras entre católicos e protestantes. O papa de Roma amaldiçoando o patriarca de Constantinopla e o patriarca amaldiçoando o papa. As trevas da Idade Média. A corrupção do clero. O holocausto nazista. As invasões bárbaras. A Jihad islâmica. O martírio dos huguenotes na Guanabara. Índios dizimados. Negros escravizados. Pedofilia de padres. Teologia da Prosperidade de pastores. Gays querendo matar cristãos e cristãos querendo apedrejar gays. Cristãos ofendendo cristãos nas redes sociais.

Sim, minha conclusão, ao final dos telejornais, foi a mesma de Salomão três mil anos atrás: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós.” (Ec 1.9-10). Porque tudo o que está acontecendo no Brasil tem uma única causa, uma única explicação, uma única origem. Que é a mesma para toda essa lista de barbaridades e atos de violência que ocorrem desde que um homem chamado Adão e uma mulher chamada Eva caminharam sobre a terra:

Pecado.

Fiquei estarrecido, chocado, emocionado e abatido por tudo o que vi na TV. Mas não fiquei surpreso. Pois sei bem do que nós, seres humanos, somos capazes. Eu e você somos portadores dessa gangrena espiritual chamada pecado, que gera em nós sintomas como os que estão se manifestando entre as hordas de monstros que disseminaram a barbárie nos últimos dias pelo Brasil. Sim, o pecado faz de nós animais, bestas selvagens cuja única racionalidade é a irracionalidade. Todo pecado faz isso, todo. Eu ouvi cético às explicações dos jornalistas, comentaristas e entrevistados sobre as causas dos atos de brutalidade ocorridos em Salvador, Belém, Rio, São Paulo e tantas outras cidades. As análises são todas muito interessantes, mas a verdade é que a raiz de tudo o que vi, cada vidraça quebrada, cada gota de sangue derramado, cada poste derrubado, cada cabine da polícia incendiada… é esse terror invisível que carregamos dentro de nós chamado pecado.

E, por mais que tenha ficado alegre com as medidas que a presidenta diz que tomará, no fundo sei que nada adiantará. Porque tudo o que é feito no âmbito social fica no exterior do homem e, portanto, é paliativo. Qualquer atitude que se tome só vai amainar as coisas, nenhuma solução humana é solução. Pois o problema, a raiz, a origem de tudo isso é o pecado. E pecado não se resolve com canetadas, decretos ou mobilizações sociais. Só se resolve com Jesus de Nazaré.

Diante disso, fiquei pensando: qual é o nosso papel, como cristãos, diante desse cenário infernal que viraram nossas ruas? O que a Igreja (eu e você) devemos fazer? Organizar manifestações? Emitir notas públicas de repúdio? Eleger mais pastores em cargos públicos? Gritar palavras de ordem? Criar hashtags no Twitter? Escrever mais posts sobre a violência no Brasil em blogs? Nada disso. Tudo isso é correr contra o vento. Simplesmente porque nada disso elimina o pecado da humanidade. Se a Igreja quiser ser Igreja tem de lutar com as armas de quem foi “chamado para fora”. Ou seja: tem de lutar com armas diferentes das que usam os que “estão dentro”. Deixemos as marchas, passeatas, entrevistas coletivas, notas oficiais em sites institucionais e outras coisas do gênero para a sociedade não cristã. O nosso papel é proclamar Cristo. Pregar o evangelho. Anunciar as boas novas de salvação.

A lógica é simples e existe há dois mil anos: só existe uma cura para o pecado. O remédio se chama Jesus. Eu e você sabemos disso. O mundo não sabe. Por isso temos de levar essa cura aos que estão doentes. Contra os violentos levemos o Príncipe da Paz. Contra os sanguinários levemos o manso Cordeiro. Contra os depredadores levemos o reconstrutor. Contra os que matam levemos quem dá vida. Os royalties do petróleo não vão salvar do pecado os baderneiros mascarados. Nem bombas de gás lacrimogêneo. Tampouco tropas de choque. Projetos sociais menos ainda. A Copa do Mundo também não. Grupos de trabalho da presidência não tiram o pecado do mundo. Toda solução possível é apenas assoprar o ferimento, não arranca a raiz do problema.

Propor Jesus como solução para a crise no Brasil não é ser simplório. Não é ser ingênuo. Não é espiritualizar uma realidade concreta. Não é ser bobo. Propor Jesus como a solução do caos no Brasil é ser bíblico. É ser cristão. É propor a única cura possível para a única causa de tudo o que está acontecendo. Quer colaborar para o fim da violência em nosso país, meu irmão, minha irmã? Pregue a Cristo, e ele crucificado. Anuncie o evangelho verdadeiro. Proclame a salvação da cruz. Abra a boca! Homens livres do pecado, redimidos, restaurados, nascidos de novo não depredam, não roubam, não batem, não apedrejam, não incendeiam, não agridem, não ofendem, não machucam, não brigam, não matam. Homens livres do pecado são pacificadores, humildes de espírito; têm domínio próprio, amor, benignidade, bondade, olhos meigos e um tom de voz suave. São a imagem de Cristo.

As imagens da violência e da brutalidade em nosso país conclamam a mim e a você para a ação (recomendo a leitura do post “É tempo de orar”). Mas, se eu e você somos cristãos, a nossa ação não pode ser a mesma do mundo. O mundo sabe organizar manifestações, fazer grupos de trabalho e convocar mais policiais. Deixe o mundo fazer o que o mundo sabe fazer, pois essas são as soluções que ele conhece. Eu e você temos de fazer aquilo que o mundo não sabe: proclamar Deus. Brilhar a luz de Cristo nas trevas. Apresentar a cruz. Você é um embaixador do reino. Então aja como tal. O pecado está pondo as garras para fora e todos estão vendo, pois está sendo exibido em rede nacional de TV. Mas será que alguém está vendo Jesus? Não, não está. Porque isso os telejornais não mostram. Logo, mostrar Cristo e divulgar sua mensagem compete a mim e a você.

E aí, o que você vai fazer a esse respeito? Ver mais um jogo de futebol?

Paz a todos vocês que estão em Cristo – para que possam levar essa mesma paz a todos aqueles que não estão.
Maurício

JacarezinhoDuas semana atrás preguei em uma bela igreja, localizada na principal avenida da zona norte do Rio de Janeiro. O espaçoso santuário era muito bem organizado, com tudo muito limpo, uma estrutura primorosa. O culto estava lotado, com algumas centenas de pessoas, muitas delas em pé no fundo da igreja. Os louvores traziam hinos antigos misturados com hinos atuais. Já no último fim de semana fui pregar em outra igreja, dentro da perigosa favela do Jacarezinho (foto). Para chegar lá você passa por baixo de um viaduto, atravessa a pé a linha do trem por um buraco em um muro, encara um mergulhão inundado de água malcheirosa, percorre uma longa rua que margeia um enorme canal com esgoto a céu aberto, passa ao lado de pelo menos dois lixões com pessoas catando coisas ali. Cheguei à igreja, na verdade uma espécie de garagem adaptada, e comecei a falar para os cerca de quinze ouvintes presentes. Eu competia com um pagode em último volume no boteco ao lado e ficava sentindo durante a preleção um cheiro de maconha que vinha sabe Deus de onde. O louvor era composto de composições dos próprios músicos do local, que incluíam musicas como “Injete na veia o sangue de Jesus”. Não pude deixar de refletir sobre a diferença entre essas duas realidades.

A constatação é que, para os propósitos do reino, entre elas não há diferença alguma. Tanto na igreja cheia e com recursos quanto na igrejinha humilde e com pouca gente havia cristãos ávidos por uma palavra bíblica. Nas duas havia não cristãos, carentes de salvação. Em ambas havia amor entre os membros, dedicação à preparação do louvor antes do culto, carinho com o pregador, lideranças que estavam ali graças a um profundo chamado para a obra. Quando vi tudo aquilo, percebi que a discriminação contra igrejas com muitos membros, compostas de pessoas com uma confortável condição financeira, é uma bobagem. E também percebi que a discriminação com igrejas compostas por poucas pessoas, de poder aquisitivo mais baixo, é um igual absurdo.

E isso por uma simples razão: a realidade espiritual em ambos os locais é idêntica: são almas carentes de salvação que, uma vez salvas, precisam ser discipuladas. Pessoas pobres e pessoas ricas precisam de salvação do mesmíssimo modo.

CruzMe senti muito bem na primeira igreja. Havia carinho, afeto, preocupação. Pessoas como Pr. Walmir Cohen, Marco Túlio, Fabiano e Pr. Sérgio deixaram em mim marcas de amor e a certeza de que éramos membros da mesma família, em busca do mesmo objetivo. Me ofereceram uma deliciosa massa ao molho branco, com banana caramelada. Na segunda igreja me senti igualmente amado. Havia carinho, afeto, preocupação. Pessoas como Pr. Jean, Marcos, Pr. Thiago e seu Josué transpareceram a certeza afetuosa de que pertencemos à mesma família, em busca do mesmo objetivo. Me ofereceram um delicioso pão com requeijão e guaraná Tobi, com biscoitos doces. A palavra foi ministrada em ambos lugares e, ao final de culto, os comentários dos irmãos que vieram falar comigo foram muito semelhantes: dúvidas teológicas, pedidos de oração, relatos daquilo que Deus havia falado aos seus corações pela ministração.

A diferença entre as duas realidades, do ponto de vista do discipulado, da necessidade de arrependimento e crescimento, da busca por Cristo, da necessidade de conhecimento bíblico? Absolutamente nenhuma.

Cruz2Já tinha dificuldade de entender isso antes, e agora – depois dessas duas experiências – ela aumentou: como pode, do ponto de vista espiritual, certos pregadores ou cantores só aceitarem ir ministrar em uma igreja onde lhe deem grandes ofertas ou onde haja muitos membros para comprar seus CDs? À luz da carne a explicação é óbvia para qualquer um, mas… à luz do mundo espiritual? Incompreensível. Minha oração sempre é que, a cada ministração minha, pelo menos uma única vida seja radicalmente mudada e transformada para melhor. E, nas duas igrejas que visitei em menos de duas semanas, havia montes de “uma única vida”. Quinze “uma única vida” ou centenas de “uma única vida” são, em essência, a mesmíssima coisa. Não há diferença alguma. Ai de mim escolher onde prego ou palestro com base no número de membros, na riqueza da comunidade ou qualquer outro aspecto irrelevante como esses. Deus me livre. Deus, por favor, me livre disso.

Por outro lado, também fiquei pensando: como pode alguém achar que o evangelho é só para os pobres e os de situação financeira mais carente? A alma sedenta de Cristo precisa ouvir as verdades do evangelho independentemente de habitar um corpo que desfruta de certo conforto financeiro. Confesso que ouço com ceticismo propostas surgidas no seio da igreja de nossos dias. Teologias direcionadas exclusivamente aos pobres, como se os ricos não fossem igualmente amados por Deus, são segregacionistas e, portanto, deficitárias e limitadas do ponto de vista bíblico. Por outro lado, teologias que privilegiam a riqueza e os abastados, centradas em prosperidade material, claudicam por restringir o escopo do reino de Deus. Ambas estão erradas. O socialismo espiritual é um erro. O capitalismo espiritual é um erro. O igualitarismo espiritual é a proposta do evangelho. Pois o reino de Deus é para todo aquele a quem Jesus chamar e não para quem tem mais ou menos dinheiro no banco.

Cruz3O céu é para os salvos, não exclusivo dos ricos ou dos pobres. O céu é para indivíduos. Pessoas. Almas humanas. Se o pecador se chama Zé ou Joseph, Raimundo ou Raymond, isso é irrelevante. Tenho sido despertado cada vez mais para as barreiras entre pessoas devido a aspectos de sua natureza humana. Minha oração a Deus é que Ele me livre de olhar para o próximo, no que tange à espiritualidade, devido a seu poder aquisitivo. Raça. Modo de vestir. Lugar onde mora. Perfume que usa. Denominação em que congrega. Tamanho e riqueza do santuário em que adora. Modelo do carro que dirige. Correção gramatical na forma como fala.  O exclusivismo tem me assustado, e tenho orado ao Senhor que extirpe esse mal totalmente de mim.

Não posso achar que só o louvor com hinos antigos, piano e violoncelo é aceitável. Acredite: na favela do Jacarezinho é “Injete na veia o sangue de Jesus” que estabelece o religare entre a criatura e o Criador. Pagode gospel na catedral presbiteriana também não faz sentido. A leitura recente dos livros “O plantador de igreja”, de Darrin Patrick (editora Vida Nova), e de “O impacto do reino”, de David Wraight (editora Palavra) me despertaram profundamente para a questão da contextualização do evangelho. Hoje vejo o quanto ela é essencial. O contexto muda, a essência é a mesma. Numa comunidade pobre há almas carentes, num contexto de pobreza. Numa comunidade de classe média há almas carentes, num contexto de classe média. Numa comunidade rica há almas carentes, num contexto de riqueza. Mas o que importa aqui são as “almas carentes”.

EsponjaEstou na caminhada. Cheguei ao ponto ideal? De jeito nenhum. Ainda há muita natureza humana falha e que faz acepção de pessoas dentro de mim. Peço a Deus que esprema esse mal para fora do meu organismo espiritual. A diferença é que, hoje, faz parte intrínseca de minha caminhada de fé a oração para que eu veja o próximo como Jesus vê e não segundo os valores que constam em seu imposto de renda. Você gostaria de caminhar junto comigo nessa direção?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Vivemos uma época da História da Igreja em que é muito fácil nos deixar levar pela tentação de voltar nossas atenções para discussões acerca das instituições e estruturas eclesiásticas e nos esquecermos de questões que – pelo relato dos evangelhos – preocuparam e ocuparam muito mais o tempo de Jesus. Em nossos dias, “apologética” está muito na moda e sobram ambientes em que, em nome de uma suposta “defesa da fé”, se fala bastante contra igrejas, denominações e grupos eclesiásticos (e escrevo entre aspas porque 90% do que se apresenta na Internet hoje como “apologética” na verdade são só agressões e fofocas que não contribuem de fato para a saúde espiritual da Igreja). O que tenho refletido muito nos últimos tempos é sobre o risco real em que caímos de nos preocuparmos tanto em discutir aspectos relacionados às instituições eclesiásticas que pecamos por desviar nossas atenções do que mais importa para Deus: o indivíduo.

É evidente que discutir questões ligadas à instituição é importante. Afinal, se não combatemos a Teologia da Prosperidade, os desmandos de certas igrejas neopentecostais, as heresias e outros graves problemas que deformam a Igreja de Nosso Senhor estamos permitindo que milhares de pessoas sejam enganadas e mal discipuladas. Mas quando voltamos excessivamente os olhos para isso, acabamos tão preocupados com o macro que os detalhes que mais importam tornam-se periféricos, quando deveria ser o contrário.

Recentemente decidi reler todo o Novo Testamento. E tive uma percepção bem interessante. Se formos prestar atenção no foco das preocupações de Jesus e dos apóstolos, se formos ao cerne do Sermão do Monte, das epístolas paulinas, das gerais e dos livros de Atos e Apocalipse, veremos que a esmagadora maioria dos problemas apontados, os grandes desmandos, as orientações, as pregações e palestras eram quase que em sua totalidade voltadas para questões pessoais. Raramente vemos exortações contra grupos ou instituições. É a alma humana que está em debate na maior parte do Novo Testamento. Evidentemente, à luz da pessoa de Cristo e da glória do Pai.

Jesus diz uma única vez que um enfermo foi curado para a glória de Deus. Se formos ver os outros milagres de Cristo perceberemos que estavam ligados a um aspecto da personalidade do Senhor: compaixão.  Jesus perdoa pecadores. Jesus sara os que clamam a Ele em lágrimas. Jesus ensina sobre o Reino sempre em relação ao aspecto humano e individual. Jesus está o tempo todo preocupado com pessoas. Que têm nome, cheiro, dores, depressões, noites insones, desesperança, falta de paz. Mesmo quando fala dos publicanos e fariseus Ele não está criticando o grupo como um todo ou questionando sua existência, mas sim atacando aspectos falhos do coração daqueles homens, como a hipocrisia e a ganância. Tanto que chama Paulo, um fariseu, não para abandonar o farisaísmo, mas para se converter de seus caminhos pessoais equivocados.

Não vemos Jesus investir seu tempo criticando o governo romano, a organização do templo ou as sinagogas. Pelo contrário, manda pagar o tributo aos dominadores, vai às sinagogas e segue religiosamente a liturgia de culto praticada nas mesmas, não discute sobre a legitimidade do partido fariseu contra o saduceu (ou vice-versa) ou levanta bandeiras contra os essênios. Sempre vemos Jesus falar sobre questões concernentes ao indivíduo. Ele quer ensinar pessoas, se preocupa em alimentá-las, se condói do enfermo, tem misericórdia do possesso, deseja que João, Maria, Antônio, Beto e Sheila sejam alcançados pelas boas novas, perdoados e salvos. Ele não quer salvar um grupo impessoal. Quer dar vida a almas.

O mesmo vemos nas motivações de Paulo. Repare que em suas epístolas ele se preocupa não em saudar ou enviar saudações dos “adeptos da Missão Integral”, dos “ortodoxos”, os “membros da igreja emergente”, os “irmãozinhos pentecostais” ou “os que congregam nas igrejas históricas”. Ele saúda pelo nome. Menciona Estéfanas, Fortunato, Acaio, Tíquico, Onésimo, Aristarco, Marcos, Epafra, Lucas, Ninfa, Prisca, Áquila, Onesíforo, Erasto, Trófimo, Êubulo, Prudente, Lino, Cláudia e tantos outros. Do mesmo modo, não critica grupos organizados ou escolas de pensamento nefastas, mas dirige suas tristezas a pessoas como Demas e Alexandre, o latoeiro. Nomes. Gente. Almas.

Sou de Paulo. Sou de Apolo. E o que disse Paulo sobre isso? “Acaso Cristo está dividido?” (1 Co 1.13a).  João escreveu suas epístolas para combater os gnósticos, grupo herético dito cristão que pregava que Jesus não era Deus feito carne. Mesmo assim sua primeira carta, por exemplo, é extremamente pessoal. “Filhinhos” e “amados” são as duas formas mais usadas pelo apóstolo para se dirigir aos seus destinatários. E se você lê com atenção tudo o que ele escreve contra os ensinamentos dos gnósticos é sempre tendo em vista aspecto individuais dos ensinamentos espúrios e como eles afetavam pessoas. Essa carta, que podemos considerar como sendo a mais motivada por aspectos institucionais de todo o Novo Testamento, é extremamente preocupada com o indivíduo.  A releia com atenção e você verá. Os “filhinhos”. Os “amados”. E nenhuma escola de pensamento ou doutrinária é filha ou amada de ninguém. Pessoas são.

Nas sete cartas à igrejas de Apocalipse vemos referências institucionais, isso é fato (prova que essa discussão não pode ser menosprezada): aos nicolaítas e aos que seguem a doutrina de Balaão. Mas, de resto, fala a todo tempo sobre questões do coração, como o abandono do primeiro amor, a fidelidade, obras, amor, fé, serviço, perseverança. Menciona até mesmo uma tal Jezabel pelo nome, por estar pervertendo os irmãos.

A conclusão é que Deus está preocupado com pessoas. Comigo. Com você. Com quem você ama. Com quem você odeia. Com arrependimento e redenção de indivíduos. Jesus não vai salvar os membros desta ou daquela denominação, mandar todos os calvinistas para o Céu ou condenar todos os adeptos da equivocada Confissão Positiva para o inferno. O que está escrito no Livro da Vida são nomes de indivíduos. Nomes de gente. Nomes com rosto, CPF, é o filho do Zezinho da padaria e a mãe da sua amiga Carla, da escola. Gente que tem mau hálito ou que acorda de mau humor, indivíduos que falam “pobrema” e almas que moram em condomínios de luxo. O porteiro do seu prédio. O lixeiro da sua rua. O jardineiro que você nunca cumprimentou. O empregado que você jamais abraça.  O manobrista que todo dia guarda a chave do seu carro mas você nem sabe seu nome. Quando pensa em nós, o que a Bíblia transparece não é que Ele pensa em “nós”: pensa no “eu” e no “você”, cujos fios de cabelo Deus sabe de cor quantos temos.

Por muito tempo devotei muita atenção para grupos. Não que eles não sejam importantes, repito, mas hoje estou muitíssimo mais preocupado com o indivíduo. Quero chegar antes de o culto começar na igreja e cumprimentar aquela irmã cheia de olheiras sentada na última fila da igreja. Perguntar se está tudo bem – e ouvir sua resposta de fato e não por uma obrigação pseudopiedosa. Quero gastar tempo que seria meu para ir na casa da senhora doente e que não tem amigos, doar-me e não apenas aparentar estar preocupado. Quero ir ao hospital orar com o irmão de uma conhecida que está padecendo de Aids – contraída numa relação homossexual. Órfãos e viúvas em suas tribulações são pessoas. É o Carlinhos, que perdeu os pais num acidente de carro, e a Dona Rute, cujo marido teve um infarte fulminante.

Nossas igrejas estão abarrotadas de pessoas carentes, solitárias, pecadoras, infelizes. Meu papel como cristão é refletir o amor de Cristo dando-lhes calor humano. Estendendo perdão. Pacificando as animosidades. Me fazendo presente nos períodos de sofrimento. Pois aprendi o que é passar momentos terríveis, depressivos e assustadoramente solitários e nem um único cristão telefonar para saber como estou. E isso é igreja que diz glorificar Deus mas só o faz da boca para fora, pois se esqueceu do próximo – que não é uma entidade autômata, com número de série: é uma alma humana.

Enquanto não amarmos de fato, perdoarmos de fato, nos doarmos de fato e enxergarmos de fato a dor do ser humano que cruza conosco no corredor da igreja ou do supermercado… estamos frequentando a igreja para que mesmo? Glorificar Deus? Como se fosse possível uma coisa sem a outra.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

* Uma versão reduzida deste artigo foi publicada originalmente na revista Igreja.