Arquivo de agosto, 2011

Se você está pensando que vou falar aqui sobre PL 122 ou qualquer coisa do gênero desde já peço desculpas por desapontá-lo. Não é sobre esse tipo de mordaça que desejo falar. Não vou tratar da censura que setores externos ao Corpo de Cristo tentam impor a nós, como a história já tão debatida sobre poder ou não pregar que homoafetividade é pecado. Isso eu deixo para os políticos da bancada “evangélica” e para os telepastores em busca de ibope. Preocupa-me muito mais do que isso a mordaça que os próprios cristãos impõem a si próprios.

Naturalmente, os fatos que ocorrem em nosso dia a dia nos levam a refletir e dessas reflexões nascem artigos para nossos blogs.  Sou um observador do mundo e o que ocorre ao meu redor me leva a pensar. E, em seguida, a escrever. O que me levou a escrever este post foi o fato de que recentemente fui severamente criticado nos comentários do APENAS por um irmão em Cristo que – certamente movido pelas melhores intenções, tenho total certeza – me acusou, em resumo, de expor irresponsavelmente os males da Igreja no blog como um todo e em especial no post A pecaminosa intolerância dos evangélicos. Ele chegou a questionar meu cristianismo, ao dizer “Alguém que se diz: Membro da Igreja Cristã Nova Vida de Copacabana, RJ. e Formado em Teologia pelo IBRMEC e pelo IBADIG. Deveria ter mais sabedoria e ser mais CRISTÃO.“. Eu nem entrarei por esse mérito, por entender que a profundidade e a sinceridade de minha fé são um assunto que só compete a mim e a Deus e ninguém tem a capacidade ou mesmo o direito de medi-la. Então simplesmente passo por cima dessa parte infeliz do comentário.

Mas aí vêm as partes que merecem observações e que podem levar você, leitor, a reflexões saudáveis. Primeiro, faço questão de ressaltar que o meu crítico fez o que biblicamente é o correto: veio até mim e confrontou minhas opiniões, como Jesus determina em Mateus 18.15. Palmas sinceras para ele. Exortou-me o mano: “Pensa se você está atrapalhando a vontade de Deus“. Logo depois, esse querido irmão prosseguiu: “Pensa nos recém convertidos lendo seu blog, pensa nos ateus lendo seu blog, pensou?“. Hmmm. Aí começamos a entrar na área problemática. Pelos argumentos desse caríssimo irmão, um ateu ou um novo convertido que lessem meu blog poderiam ser levados a se afastar de Cristo ou coisa parecida. E isso merece sérias considerações.

Resolvi escrever sobre o tema porque a atitude desse querido irmão não é isolada. Muitos e muitos cristãos acreditam piamente que os erros da Igreja deveriam ser mantidos nas sombras e que muitas das verdades incômodas que envolvem nossa fé deveriam permanecer escondidas. Não sou um deles. Justamente porque amo Cristo e amo a Igreja e, em vez de perpetuar os absurdos, as heresias e os erros teológicos, prefiro denunciar e DIALOGAR sobre eles, numa tentativa de gerar reflexão e, quiçá, mudança de rumos. Sem ofender pessoas, sem citar nomes, mas debatendo práticas e ideias.

E olha que isso contraria minhas origens. Fui ensinado cedo na minha caminhada de fé que devemos ser omissos em certas verdades em nome de não afastar os ateus ou os novos convertidos do Evangelho. Logo que Jesus me converteu, o Pastor da minha então igreja me ensinou que “há verdades que não se dizem de púlpito”. Como, por exemplo, o fato de Marcos 16 não estar entre alguns dos mais respeitados manuscritos da Biblia, bem como a passagem da mulher adúltera (João 8). Que a história do anjo que agitava as águas do tanque de Betesda (João 5.4) não consta dos textos originais, mas foi uma explicação posta na margem da página para justificar  a crença que havia na época entre o povo de Jerusalém.

Outro exemplo: nunca se pode dizer em determinadas denominações (nas quais, em geral, se amaldiçoa o hábito de fazer versões cristãs de músicas “do mundo”) que o hino 185 da Harpa Cristã (“Vem tu, ó Rei dos reis, buscar os teus fieis…“) é uma versão gospel de uma música do mundo (“God save the queen“) ou que o tradicionalíssimo hino “Os guerreiros se preparam” é uma versão gospel do hino nacional (“mundano”) das Ilhas Fiji. Assim como muitas outras músicas da Harpa, do Cantor Cristão e de outros hinários considerados acima do bem e do mal. Sabe “Vencendo vem Jesus” (“Glória, glória, aleluia! Vencendo vem Jesus!“)? Era uma música cantada pelo exército americano na época da guerra civil. Mais especificamente uma canção chamada “John Brown’s Body” (“O Corpo de John Brown”), uma música que contava a história da morte de John Brown com alguns dos seus filhos, num violento esforço individual para acabar com a escravidão. Aí veio uma mulher chamada Julia Howe e pôs uma letra cristã sobre aquela música “do mundo”. Pronto, ganhamos essa pérola da musicografia cristã, cantada há décadas nas nossas igrejas. Mas que é uma versão de uma música “do mundo” (mas shhhhhh, isso não se pode comentar com um novo convertido, fala baixo. Vai que ele se desvia).

O que me ensinaram naquela época é que essas coisas não se comentam, pois podem afastar as pessoas da igreja.

E como fica?

Eu acredito na verdade. Acredito que conheceremos a Verdade e ela nos libertará. Verdade sempre dita, é claro, com educação, respeito e amor pelo próximo. Nunca, jamais, com agressividade. Pois é isso o que diferencia um diálogo de um bate-boca. Se eu quiser ver bate-bocas gospel eu ligo a TV nos programas supostamente “evangélicos” das manhãs de sábado ou em programas matutinos diários da web. Mas eu prefiro o diálogo.

Também entendo o seguinte: aqueles que verdadeiramente foram alcançados por Cristo, que de fato foram chamados das trevas do pecado para Sua maravilhosa luz, aqueles que farão parte do pequeno rebanho que habitará o Céu, esses não são abalados quando ouvem a verdade. Se alguém se afasta de Cristo porque descobriu verdades sobre a Biblia ou sobre a Harpa Cristã que preferia não saber, ou porque leu num blog tão pouco importante como o meu algumas realidades sujas que enlameiam a Igreja de Cristo… então essa pessoa nunca pertenceu ao Corpo de Cristo, nunca foi justificada nem regenerada. Apenas frequentava uma igreja. E se um ateu precisa ouvir mentiras, engodos ou meias-verdades para “se converter”… que permaneça na lama (Ap 22.11). Pois o Espirito Santo é o Espirito da Verdade e trará os seus sem que tenhamos de esconder as sujeiras nem varrê-las para baixo do tapete. Mentira você sabe de quem é filha.

Tempos atrás fui praticamente forçado a me desligar do seminário teológico em que dei aula por nove anos porque, entre outras coisas, comentei a verdade na sala de aula sobre uma certa unção financeira anunciada na TV: que era antibíblica, demoníaca e herética. A direção do seminário preferia que ficássemos em silêncio, deixando os lobos continuarem a dilapidar as ovelhas do Senhor. Eu não, eu preferia proteger o rebanho de Jesus. E olha que era um curso de bacharelado, não de novos convertidos! Mas o fato de eu ter dito a verdade criou tal celeuma que me vi forçado a sair. Só que isso gerou em mim uma consequência: de lá para cá assumi o compromisso com Deus de lutar sempre pela verdade, de falar e proclamar a verdade e deixar o Espirito Santo trabalhar essas verdades nos corações dos homens conforme melhor lhe aprouver. Pois “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” (At 5.29b).

Não, não temos de esconder a verdade. Nós, cristãos, somos intolerantes sim. Há sujeira em muitas práticas da igreja sim. E esconder essa sujeira nos torna tão sujos como aqueles que a promovem, faz de nós cúmplices, comparsas. Se um ateu não se converter é porque não respondeu ao chamado de Cristo e não porque eu escrevi no meu desimportante blog certas verdades. Se o novo convertido se desviar é porque não soube andar na graça de Cristo. Meu blog? Irrelevante nesse processo.

E nós, que somos antigos na fé, lidemos com isso com graça, amor, paz e sempre – sempre – a verdade. Isso é ser cristão: ensinar a verdade em amor, discipular os novos, proclamar o ano aceitável do Senhor. Com uma instrução adequada, não será a verdade que afastará qualquer pessoa de Cristo. Na grande comissão de Mateus 28.19, o Mestre nos ordena: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações”. Fazer discípulos significa formar cristãos sólidos, construídos sobre a rocha, inabaláveis, que resistem a qualquer vento na certeza de estarem alicerçados da Verdade. Não precisamos esconder as verdades e as poluições da Igreja para formar cristãos assim. Precisamos pregar a Verdade, a tempo e fora de tempo. Aquele que são do Senhor a acolherão. Os que não são, a rejeitarão. Sempre foi assim e sempre continuará sendo, pelos séculos dos séculos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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O video abaixo me foi enviado pela Priscila Figueiredo, uma amiga e ex-aluna, a quem sou muito grato. Chorei, chorei e chorei do início ao fim, por ver o Evangelho ser pregado como deveria ser. É uma pregação dura e verdadeira, com pouco mais de uma hora de duração, ministrada por Paul Washer. Se você tiver disposição de abrir mão de uma hora do seu dia para ouvir essas palavras de vida eterna tenho certeza de que não se arrependerá.

A mim, não me arrependi por ter asssistido, mas ouvir irmão Washer pregar como todos nós deveríamos pregar levou-me ao arrependimento de muitas coisas. Por isso decidi compartilhar com você.

Você poderia perguntar “mas Zágari, qual é o tema da pregação?”. Ao que eu diria, deixando as palavras belas e bem escolhidas de lado,  que é uma pregação sobre Deus, sobre mim e sobre você.

É uma mensagem que lança por terra técnicas de “salvação”, estratégias de “inserção do Evangelho na cultura” e outras inutilidades que a Igreja pós-moderna inventou para “salvar” pecadores. O que se ouve aqui é Bíblia pura.

Ao final da pregação, tudo o que eu conseguia orar era “Meu Deus, meu Deus, meu Deus…”.  Que o Espírito Santo fale ao teu coração e que esta também seja a tua oração ao final dessa preciosa mensagem:

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Hoje eu ganhei um beijo que me ensinou muito mais do que muitas pregações acerca da minha caminhada de fé. Eu estava voltando do cabeleireiro, já de noite, quando vi um senhor numa situação complicada. Sacola numa mão, bengalinha na outra, eu o vi roçar em um muro de concreto coberto de hera (se você nunca teve essa experiência, saiba que dói bastante). Eu tinha hora, tinha prometido a minha esposa voltar logo para casa para dar banho em nossa neném. Resolvi entao ignorar aquele homem. Passei direto. Ah, uma informação que não poderia deixar de dar: ele era cego.

Como bom fingidor, continuei caminhando sem olhar pros lados. Mas aí ouvi um gemido. Olhei para trás e reparei que agora aquele deficiente visual estava encurralado entre um canteiro e a portaria de um edifício, sem saber que rumo tomar.  Como bom brasileiro, fiz o que todos nós fazemos: pensei “ah, vai, ele consegue se virar sozinho” e continuei meu caminho. Mas, três passos depois, resolvi olhar para trás de novo e notei que agora ele, desorientado, caminhava em direção a uma parede.

A calçada da minha rua está longe de ser um tapete. Na verdade, é quase um campo minado: tem buracos, postes, rachaduras e outras armadilhas. Aí aquele Espirito que vive dentro de mim pareceu dizer-me: “Ô Zágari,  toma vergonha na cara e vai lá ajudar o moço”. E quando o Homem fala, é melhor dar ouvidos. Resignei-me, parei, voltei e me dirigi a ele. Não porque eu quisesse, que fique bem claro, minha vontade era seguir meu caminho e ir dar banho na minha filhinha. Mas depois que eu fui comprado a preço de sangue… bem, minha vontade não me pertence mais.

- O senhor quer ajuda? – indaguei meio sem jeito, sem saber qual seria a reação daquele jovem senhor.

Para meu alívio, ele abriu um simpático sorriso e soltou um:

- Poxa, era tudo de que eu precisava agora.

Estendi meu braço direito, que ele tomou, e começamos a caminhar juntos. A conversa não foi muito profunda, basicamente se resumiu à pista se obstáculos que era aquela calçada. “Aqui tem um poste. Cuidado com o buraco. Espera um pouquinho que aqui a gente tem de se espremer. Olha o meio-fio” e coisas do gênero deram a tônica da nossa curta conversa até chegarmos à esquina, onde ele atravessaria para seguir por uma passagem subterrânea rumo a um shopping center do outro lado da avenida. Detalhe: eu estava em frente ao meu prédio. Pensei em me despedir ali e subir para o conforto do meu lar,  mas, contra a minha vontade, aquele Espírito, de modo bem inconveniente,  novamente me deu um cutucão: “Zágari, deixa de ser comodista e leva ele até a passagem subterânea, não está vendo quantos tapumes tem aí!”. E era verdade. Uma obra da companhia de gás desconfigurou a calçada e, apesar de aquele senhor cego ter me dito que estava acostumado a circular por aquela região, certamente teria dificuldade para chegar à passagem subterrânea. Coisas que o governo não pensa na hora de fazer uma obra, mas deixa isso pra lá.

Resolvi então atravessar a rua com ele. Esperei abrir o sinal, atravessamos e o levei até o inicio da ladeira de descida.

- Daqui o senhor segue bem?

- Ah, fica tranquilo, agora daqui pra frente é moleza pra mim – sorriu ele. E, sem que eu esperasse, completou: – Qual é o seu nome?

- Mauricio – respondi.

Foi então que ele me surpreendeu com muito mais do que o automático “obrigado” que eu esperava. Ele segurou meu braço com as duas mãos e deu-me um beijo no ombro. E disse:

- Obrigado, Mauricinho, meu nome é Celso. Fica com Deus, viu.

Não tenho nem certeza se ele ouviu eu balbuciar um “o senhor também…” antes de prosseguir seu caminho.

Eu estava apenas querendo voltar logo para casa depois de cortar o cabelo. E acabei recebendo um beijo inesperado que transformou minha noite, que seria apenas mais uma entre tantas noites comuns,  numa noite profundamente cristã. Sem ter percebido, e até meio a contragosto, eu tinha ajudado Jesus de Nazaré a caminhar por uma calçada irregular, a atravessar a rua e a chegar ao seu destino.

O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’.” (Mateus 25.31-46)

Há muitos Celsos por aí, apenas esperando um “o senhor quer ajuda?” para fazer de você um cristão melhor. E, ao final, te dar um beijo que tem gosto de culto a Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Papo furado. Se vocé é cristão, prepare-se para sofrer. É tiro e queda. É só Jesus te converter e você começará a colecionar sofrimentos, exatamente como antes da conversão. Talvez até mais. Lamento, mas nesse sentido nada muda. O lema de nenhum cristão deveria ser “Pare de sofrer” mas “Prepare-se para sofrer”. Eu sofro todos os dias. Você certamente tem um rosário de dores pra desfilar. E todos nós conhecemos dezenas de histórias de cristãos (bons cristãos) que encharcam seus travesseiros de lágrimas pelas mais variadas razões. Sim, sofrimento é tão parte da vida cristã como oração, leitura bíblica, jejum e cultos dominicais – se duvidar, é até mais.

Jesus sofreu. Desnecessário dizer o que ele passou em suas últimas horas antes da Cruz. Estevão foi apedrejado. Paulo, coitado, cortou um dobrado (que foi de apedrejamento e prisões a açoites). Policarpo enfrentou a fogueira. Os mártires dos três primeiros séculos de Igreja passaram por todo tipo de dor e angústia que você possa (ou não) imaginar. A História nos comprova que, ao longo dos séculos, bons e fiéis cristãos passaram pelos piores pesadelos. Martinho Lutero, o reformador, teve de se esconder para nao ser morto.  Dos primeiros cristãos protestantes a vir ao Rio de Janeiro alguns foram afogados na Baía de Guanabara, outros foram degredados. Bonhoeffer foi martirizado na Alemanha nazista.

E aí chegamos nós, petulantes cristãozinhos do século 21… achando que a vida é “só vitória, bênção pura”. Que basta “declarar a vitória”, “tomar posse da benção”, “decretar a derrota de Satanás”… E vamos viver nas nuvens.

Não vamos.

Verdade seja dita:  isso é balela para encher igreja.

A vida com Cristo nos promete dor.  Nos diz que devemos perseverar até a morte. Mas… para que haveria essa recomendação se tudo fosse moleza? Não. Nossa fé exige perseverança porque ser cristão não é moleza. Exige renúncia. Se você se diz cristão e renunciou a pouca coisa até hoje… eu desconfio.

Ser cristão fiel exige renúncia de si mesmo. De suas vontades. De seus desejos. De não dar nota para não pagar imposto. Renúncia de casar com pessoas que você ama mas sabe que não pode desposar por obediência a Cristo. De realizar acordos ilegais para quitar dívidas financeiras. De pagar facilidades para que seus projetos na Justiça andem mais rápido. De dar na cara de quem te ofendeu. De se vingar de quem te caluniou. De sua felicidade. E, em última instância, renúncia de sua própria vida.

Certa vez, conversei com um cristão bem mais experiente que eu a respeito de um jovem teólogo brilhante que se destacava num congresso teológico em que estávamos.  Eu estava impressionado com a habilidade daquele jovem rapaz com as Escrituras e com seu pensamento teologicamente perspicaz. Cheguei para esse cristãos mais velho e disse: “O  Senhor viu Fulano de Tal, que capacidade! É o Russell Shedd do futuro!”. Ao que aquele meu experiente amigo virou-se para mim e disse algo de que nunca vou esquecer: “Zágari”, disse ele, “esse rapaz ainda não sofreu o bastante. Deixa ele sofrer mais e a gente conversa”.

Sim, o cristão que ainda não sofreu bastante não passou pelo fogo depurador. Não passou pela disciplina de Deus (Ap 3.19). Nenhum de nós é um cristão maduro o suficiente se ainda não sofreu o bastante. Simplesmente porque não compreenderemos a plenitude do sacrifício de Cristo. Sem sofrimento não se entende a Cruz. E sem entender a Cruz não se entende o amor e a graça de Deus.

Não ambicione o sofrimento, não o busque, não o queira – pois sofrer é ruim demais. Mas, por outro lado, não o despreze. Na hora em que Deus permitir que você sofra…. não desperdice a oportunidade de desfrutar de todas as bênçãos celestiais que sofrer pode proporcionar: aproximação de Cristo, dependência total do Senhor,  arrependimento dos pecados, reflexão e mudança de rumo, desenvolvimento do fruto do Espírito.

O sofrimento para o cristão é um santo remédio. Amargo. Mas transformador. Às vezes, é uma bendita desgraça.  Não pare de sofrer, meu irmão, minha irmã. Aliás você não tem escolha, você sofrerá e pronto. Não é um slogan em uma porta de uma igreja duvidosa que vai mudar isso. Mas use a dor a seu favor. Que ela seja a mais profunda oração que você já fez na vida: “Ai”. Um pai entende quando seu filho apenas diz “ai”. E sai em seu socorro. Muitas vezes, às lagrimas.

Apenas para concluir esta reflexão, separei alguns versículos bíblicos, que eu pediria, se possível, que você lesse. Sei que ninguém gosta de ler muita coisa em blogs, mas, se possível, faça esse esforço e e leia até o final. O que você lerá aqui pode mudar a sua percepção do Evangelho:

“Jesus dizia a todos: ‘Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me‘.” (Lc 9.23)

“Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo”. (Jo 16.33)

“À mulher, ele declarou: “Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará” (Gn 3.16)

“E ao homem declarou: “Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual eu lhe ordenara que não comesse, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida” (Gn 3.17).

“Depois os três se assentaram no chão com ele, durante sete dias e sete noites. Ninguém lhe disse uma palavra, pois viam como era grande o seu sofrimento” (Jó 2.13)

“E agora esvai-se a minha vida; estou preso a dias de sofrimento” (Jó 30.16)

Olha para a minha tribulação e o meu sofrimento, e perdoa todos os meus pecados.” (Sl 25.18)

“Este é o meu consolo no meu sofrimento: A tua promessa dá-me vida” (sl 119.50)

“Só sei que, em todas as cidades, o Espírito Santo me avisa que prisões e sofrimentos me esperam” (At 20.23)

“Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada.” (Rm 8.18)

“Pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles” (2 Co 4.17)

“Ao contrário, como servos de Deus, recomendamo-nos de todas as formas: em muita perseverança; em sofrimentos, privações e tristezas” (2 Co 6.4)

“De fato, vocês se tornaram nossos imitadores e do Senhor, pois, apesar de muito sofrimento, receberam a palavra com alegria que vem do Espírito Santo.” (1 Ts 1.6)

Suporte comigo os meus sofrimentos, como bom soldado de Cristo Jesus.” (2 Tm 2.3)

“Pois, que vantagem há em suportar açoites recebidos por terem cometido o mal? Mas se vocês suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus.” (1 Pe 2.20)

“Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome, e não tem desfalecido.” (Ap 2.3)

É isso. Gostaria de terminar com palavras com as quais as Escrituras Sagradas descrevem o que o próprio Senhor Jesus passou:

“Depois do seu sofrimento, Jesus apresentou-se a eles e deu-lhes muitas provas indiscutíveis de que estava vivo” (At 1.3)

“Pois assim como os sofrimentos de Cristo transbordam sobre nós, também por meio de Cristo transborda a nossa consolação” (2 Co 1.5)

“Mas alegrem-se à medida que participam dos sofrimentos de Cristo, para que também, quando a sua glória for revelada, vocês exultem com grande alegria.” (1 Pe 4.13)

Pare de sofrer? Bem que eu gostaria. Mas a Bíblia me afirma que isso é um sonho que só se tornará realidade no dia em que cruzarmos os portões da Jerusalém Celestial…

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Folha ao vento

Publicado: 11/08/2011 em Espiritualidade, Pessoal, Poesia

Moro no oitavo andar de um edifício, com vista aberta para a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. O resultado é que em minha janela o vento sopra de todos os lados, vindo direto do mar, e é capaz dos maiores malabarismos. Era um fim de dia, o entardecer colorindo o céu em tons de lilás, e eu estava na janela, apenas apreciando a paisagem, desfrutando um pouco da poesia do momento. Foi quando vi uma folhinha se desprender de uma árvore.

Era de se esperar o que iria acontecer: a folha despencaria e desceria em queda livre ate o chão. É o natural. É o que faz a lei da gravidade. Mas, para minha surpresa, a folha não desceu: ela subiu. Ventos ascendentes se apoderaram daquela folhinha, que captou meu olhar e a fez subir num balé ilógico. E mais: a folha subiu numa disparada, a uma altura extremamente elevada, até que…

O vento parou.

E a folha começou a cair, em movimentos de idas e vindas para os lados, em direção ao chão.  Dessa vez não havia nada de vertiginoso, apenas uma queda suave. E assim a folhinha foi descendo, bem devagar…. prum lado … pro outro… prum lado…. pro outro…

Quando estava para chegar ao solo, já com minha atenção quase desviada dela e voltada para a beleza do entardecer, veio uma nova lufada de vento, que mudou totalmente os rumos do previsível. Em vez de tocar o chão e ali ficar, a folha disparou verticalmente rumo ao céu, em rodopios frenéticos, lançada de um lado a outro e… dobrou a quina do meu prédio. Quando menos esperava perdi de vista a folhinha.

Aquela folhinha me fez pensar sobre a vida do cristão. Há um caminho natural a seguir, graças a forças da gravidade espirituais. Esse caminho na vida do crente em Jesus é o Céu, a eternidade junto ao Pai. Mas, sem que esperemos, de repente ocorrem imprevistos em nossa jornada que nos lançam a toda força na direção contrária. Somos cirandados, lançados de um lado para o outro, tragédias acontecem sem aviso ou controle e quando menos esperamos nos vemos envolvidos em situações e problemas que nos afastam do caminho natural do cristão.

Mas, tão de repente como esses problemas e imprevistos surgem, Deus pode fazer com que desapareçam, encaminhando seus filhos novamente numa trajetória suave e embalada rumo à glória e à paz celestiais. Uma caminhada calma. Sem  sobressaltos. Que de tão tranquila pode até desviar nossos olhos para outros aspectos da vida.

Mas no Reino de Deus imprevistos são algo bem comum. E quando achamos que tudo está em paz vem o turbilhão e nos lança num vendaval de pecado, dúvidas, falta de fé, frieza espiritual ou materialismo e, se não tomarmos cuidado, seremos levados até desaparecermos em alguma esquina da alma. E, então, só Deus sabe o que pode ocorrer e onde podemos parar.

Naquele dia eu olhava pela janela enquanto esperava minha esposa terminar de se arrumar para irmos a um compromisso. Não demorou muito, ela chegou e seguimos, a folhinha completamente esquecida das minhas
atenções. Fechei a janela, pegamos o elevador e ganhamos a rua. Enquanto minha esposa fazia sinal para um táxi, algo captou meu olhar.

Era a folhinha.

Eu a reconheci pelo formato e as cores – era ela, sem dúvida. E estava pousada no chão, quietinha, plácida, em paz, num lugar qualquer da calçada. Eu sorri.

Enquanto o táxi se afastava, eu pensava que, por mais que os ventos soprem e lancem o cristão de um lado para o outro, desafiem a lógica, criem situações complicadas e a sensação seja como a de uma indefesa folhinha perdida no meio do vendaval descontrolado da vida, mais cedo ou mais tarde Deus dará um jeito de fazer tudo se acalmar e a paz voltará a reinar.

E a folhinha?

Encontrará seu repouso no exato lugar em que Deus queria que ela repousasse desde o início.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Era um dia como outro qualquer no seminário teológico em que eu dava aula. De repente, em meio aos debates da classe, uma irmã soltou o comentário: “Ah, professor, porque na época em que eu era da Igreja Sorveteriana…”. Eu parei, de início sem entender. Mas, enfim, caiu a ficha. O seminário pertencia a uma denominação pentecostal. E a referência que aquela irmã estava fazendo era à Igreja Presbiteriana. O trocadilho ficou por conta da intolerância que existe da parte dos pentecostais com as igrejas tradicionais que, segundo eles, são “frias” (como um sorvete, na lógica da piada). Então a totalmente bíblica, séria e relevante Igreja Presbiteriana virou…sorveteriana. Esse episódio, aparentemente bobo, ocorreu há alguns anos, mas ficou marcado na minha memória. Pois, naquele dia, eu tive de admitir algo que é muito doloroso para um cristão: nós, evangélicos, somos intolerantes. Aliás, muito intolerantes.

Pronto: agora você que, como eu, é evangélico, ficou chateado ou revoltado comigo, porque fiz essa afirmação. “Imagina, Zágari, somos o povo de Deus, a noiva do Cordeiro, embora odiemos o pecado amamos o pecador, como você ousa dizer que somos intolerantes?! Intolerantes são os islâmicos, os talibãs, os ateus, os hindus, os neonazistas… nós jamais!”. Bem, lamento te dizer que Papai Noel não existe, mas se por acaso você pensou qualquer coisa parecida com isso… esse seu simples pensamento já comprova a minha afirmação. Por quê? Porque você não suportou o fato de eu ter essa opinião, se ela diverge da sua. Para comprovar isso basta abrir o dicionário e ler a definição de intolerante: “Aquele que não pode suportar as crenças e as opiniões alheias, se divergem das suas“.

Olhe em volta. Leia o que é escrito todos os dias nas redes sociais cristãs. Ouça o que os telepastores dizem. Sente para comer uma pizza com os irmãos da sua igreja e escute o que eles falam sobre as outras denominações. O que você vai encontrar é um oceano de intolerância. E não estou falando de intolerância contra o pecado, contra grupos gays, contra o governo. Estou falando de intolerância contra outros membros do próprio Corpo de Cristo. Ou seja: a Igreja tornou-se intolerante com a Igreja. A mão não suporta que o pé tenha cinco dedos, o pé não suporta que a barriga tenha umbigo e a barriga não suporta a crença da boca de que ela tem 32 dentes.

De um lado, por exemplo, você tem pentecostais, que não toleram as igrejas históricas. Porque, afinal, batistas, presbiterianos, metodistas e outros ditos “tradicionais” de repente não batem palmas em seus cultos, não falam em línguas estranhas em voz alta, não ficam gritando “glória” e “aleluia” na hora da pregação, não expulsam demônios e outras coisas mais. Graças a coisas como essas, o pentecostal no mínimo coleciona piadinhas que desmerecem as crenças e práticas dos tradicionais – isso quando não fazem acusações sérias sobre eles, como as de “não darem lugar ao Espírito” ou serem igrejas “sem poder”. Algum pentecostal aí vai dizer que isso não acontece? Fato é que nós, pentecostais, não suportamos as crenças e as opiniões dos tradicionais. E se intolerante é aquele que não pode suportar as crenças e as opiniões alheias, se divergem das suas, perdoe-me, mas nos encaixamos direitinho na definição do dicionário. E falo como pentecostal que sou.

Por outro lado, há os tradicionais, que não suportam o tipo de culto dos pentecostais, segundo eles “sem ordem nem decência”. Não suportam a crença de que os dons – como o de profecia e o de variedade de línguas – permanecem atuantes nos nossos dias. Muitos não aceitam expressões mais expansivas de louvor e demonstrações de adoração que saiam de uma liturgia que deve seguir estritamente sua opinião de como uma liturgia deve ser – de preferência descrita direitinho num boletim. E se intolerante é aquele que não pode suportar as crenças e as opiniões alheias, se divergem das suas… olha o dicionário pondo o dedo na cara dos tradicionais.

E isso é só a ponta do iceberg. Os adeptos da Missão Integral se irritam profundamente com os cristãos que não botam fé em seu modelo de ação global junto à sociedade. Os que são contra a Missão Integral os acusam de marxismo travestido de cristianismo. A Igreja Emergente não suporta a opinião dos ortodoxos e os ortodoxos discordam veementemente das crenças de miscigenação igreja-sociedade da Igreja Emergente. Quem ama “Love wins” acusa John Piper de não ter amor. Quem gosta de John Piper não tolera o suposto universalismo de Rob Bell. Os teólogos da Teologia Relacional não suportam a crença de que Deus está no controle das catástrofes mundiais e quem defende a soberania de Deus sobre tudo o que ocorre no mundo não suporta a opinião dos defensores da Teologia Relacional. Os desigrejados não suportam a Igreja institucional e quem frequenta a Igreja institucional não suporta a opinião da igreja dos sem-igreja. Os arminianos não suportam as crenças dos calvinistas e os calvinistas pensam que arminianismo é uma tremenda ignorância teologica.

E por aí vai.

Haveria muito mais a dizer e a comparar, muito mais setores, divisões e facções dentro da Igreja Evangélica. Mas creio que você já conseguiu captar o espírito da coisa, não preciso ficar listando tudo aqui. A verdade é que a Igreja Evangélica tem demonstrado uma gigantesca intolerância em suas ramificações, pois “não pode suportar as crenças e as opiniões alheias, se divergem das suas”.

A grande questão

E direito de cada um crer no que quiser. Algumas das teologias que mencionei acima eu considero heresias, outras considero posturas equivocadas. Mas a grande questão é: como lido com isso? Como trato os irmãos que discordam de mim? (E repare que os chamei de irmãos, apesar das divergências). O cerne do problema está no trecho da definição do dicionário de intolerante que se refere a “não poder suportar”. Pois “não poder suportar” se traduz na prática como sendo algo com que é impossível de se lidar. E, por isso, já que é impossível lidar de modo racional, faz-se da forma mais primitiva, instintiva e animalesca que é possível a um ser humano: com ofensas, agressões, destratos, acusações, ad hominem, piadinhas de mau gosto, demerecimento do que é importante para o outro e por aí vai. E tudo isso, meu irmão, minha irmã… é um comportamento mundano. E, logo, é pecado.

Sim, é pecado, pois as Sagradas Escrituras deixam claro:

“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lucas 10.27).
“E se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Romanos 13.9b).
“Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Gálatas 5.14).

Sim: a intolerância exclui o amor.

Ou seja: na maioria dos casos a nossa discordância se torna intolerância e a intolerância se torna o pecado da falta de amor ao próximo. E como um abismo chama outro abismo, o passo seguinte à falta de amor ao próximo é outro grande pecado que tem assolado a Igreja Evangélica brasileira: desunião. Mas sobre isso falarei em outro artigo.

Sim, eu e você somos intolerantes. E, consequentemente, arrogantes. E, consequentemente, pecadores. Está mais do que na hora de deixarmos essa intolerância, essa arrogância e esse pecado de lado. E a única forma para alcançarmos esse objetivo é passarmos a ser aqueles que podem SIM suportar as crenças e as opiniões alheias, mesmo se divergem das nossas. E isso só será possível se nos concentrarmos no que é comum a todos os membros do Corpo de Cristo, seja a mão, o pé, o olho, o duodeno ou o pâncreas: o DNA que todos esses membros carregam em si: Cristo. Seus ensinamentos e mandamentos. Dar a outra face. Andar a segunda milha. Ajudar o inimigo ferido. Tomar a própria cruz e segui-lo. Viver a espiritualidade plena que o Evangelho propõe. Chega de intolerância. Chega de perder tempo discutindo bobagens. Chega de defender com orgulho besta o seu ponto de vista. Ouça mais. Fale menos. Pare de ser o dono da verdade e esteja aberto a outras possibilidades. Se te acusarem, responda com gentilezas. Ame quem discorda de você. No mínimo, trate-o com amor e respeito. Discuta ideias, não ofenda pessoas.

Últimas palavras

Oremos todos por isso. Ajamos nesse sentido. Para que abandonemos imbecilidades como chamar aqueles que são diferentes de nós de “sorveterianos”. Pois isso não é uma piadinha sem maldade. É sintoma de uma doença grave,  que tem infectado a Igreja Evangélica: o câncer da intolerância. E que provoca efeitos colaterais demoníacos, como a falta de amor. É isso é algo muito sério, e que fazemos aos montes, seja falando mal de um ou outro numa twitcam, num tweet, no facebook, no youtube, nos corredores da igreja ou na roda dos escarnecedores. Se você age com essa irreverência, chega. Basta. Promova a unidade que Jesus pediu em oração ao Pai que tivéssemos. Esse é o meu e o seu papel. Pois só assim seremos uma Igreja que começa a engatinhar rumo à tolerância que Jesus espera de nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Tem coisas que eu não entendo no amor. Coisas que simplesmente não consigo compreender. Penso, analiso, tento fazer cara de intelectual, mas que, tenho de reconhecer: não entendo. Fato é que vejo com uma frequência absurda pessoas que não se amam declarando amor umas às outras. Na igreja, por exemplo, pastores dizem “vire-se para o lado e diga ao seu irmão ‘eu te amo’”. Aí você se volta para um completo desconhecido e diz, com um sorriso amarelo e falso, “eu te amo, meu irmão”, às vezes até com um abraço constrangido. Mas não ama nada, você nem o conhece. Uma forçação de barra sem verdade, sem profundidade. E, em primeira instância, uma agressão ao real significado e à essência do amor. E, do mesmo modo como praticamos muitas vezes esse gesto inútil na liturgia eclesiástica, muitos praticam gestos inúteis na liturgia da vida em nome de um amor que não existe. Por razões que aviltam a essência do amor, que é tudo sofrer, tudo crer, tudo esperar, tudo suportar, nunca perecer – como Paulo bem expõe em 1 Coríntios 13.

Mas na vida de muitos, 1 Coríntios 13 não passa de uma bela poesia de Fernando Pessoa ou Vinícius de Moraes, derrotada pelas praticidades da realidade.

Nas redes sociais, por exemplo, transbordam por todos os poros pessoas que vivem declarando amores por followers e “amigos” sem nunca nem ao menos terem se visto ou sem conhecimento profundo daqueles a quem dizem “eu te amo”. Canso de ver gente que, por trocar algumas boas palavras durante algum tempo atiram um “amo!” sobre outro alguém. Eu mesmo já ouvi de alguns “Eu te amo!” e tempos depois essas pessoas paravam de falar comigo porque expus ideias das quais discordavam.

Assim, banalizamos o sentimento mais nobre que Deus transbordou para a humanidade. E, com isso, banaliza-se o próprio Deus, uma vez que Ele, sendo amor, quando derrama amor sobre nós está se doando a si mesmo. E nós, em seguida, canalizamos esse amor para outros. Logo, quando você diz “eu te amo” para alguém está doando uma parcela da própria essência divina com que o Todo-Poderoso te presenteou.

Não me parece algo a ser distribuído superficialmente ou a granel. “Eu te amo” é algo muito sério.

E, na vida real, fora da ficcionalidade das redes sociais, também vejo o amor sendo oferecido como amostra grátis e pelas razões mais incompreensíveis. Observo, por exemplo, gente se casando porque “está passando da idade”. Com medo de chegar ao fim da vida sem encontrar o indivíduo que será um só com você e que completará sua existência no âmbito humano, pessoas (muitas delas cristãs) fingem amar alguém e assim criam uma associação de corpos e vidas que terá como objetivo disfarçar a solidão. É o famoso “não ficar para titia”. E, deste modo, se casam sem amor, se unem pelas razões erradas, buscam num outro ente não amor, mas aplacar um medo. Um medo que poderia nem fazer sentido caso se esperasse um pouco mais. Quem disse, afinal, que o amor verdadeiro só se encontra nas primeiras décadas de vida? Quem disse que você só pode ser feliz no amor se casar-se até os trinta e poucos anos? Conheço muitos que se casaram de cabelos brancos e vivem um amor profundo e invejável – pois souberam esperar. Muito mais que dezenas de casais jovens que conheço que se casaram antes que as rugas surgissem e não conseguem nem ao menos ser felizes -  por não terem se casado pelas razões certas.

O triste é que os que casam pra “não ficar pra titia” têm como motivação dessa união em vez do amor o medo. E isso eu não entendo. Expliquem-me, por favor, pois não entendo por que alguém se casa por medo.

Há ainda os que se unem motivados pela menopausa. Para realizar o sonho de ter filhos, mulheres se aliam a homens na esperança desesperada de conseguir um parceiro que lhe gere filhos e realize seu sonho de ser mãe – antes que a menopausa chegue. Mas não há amor real envolvido. Há um desespero para se cumprir um ciclo de vida. E, assim, no lugar onde deveria estar um ser amado a quem devotar-se com todas as forças e renúncias, encontra-se um inseminador, um reprodutor. E a realização que o filho resultante desse enlace virá a proporcionar terá de conviver pelo resto da vida lado a lado com o vácuo da falta de um amor verdadeiro pelo indivíduo que toda manhã acorda ao seu lado. E essa equação eu não entendo. Já tentaram me explicar, mas não entendo.

E há ainda as malditas convenções sociais. Gente que se une com quem não ama porque “é o que a sociedade espera que ela faça”. E, assim, pessoas se casam, em festas lindíssimas, que vão render fotos belíssimas, além de custar uma fortuna e uma vida de tentativas de que um relacionamento construído sobre uma obrigação dê certo. E dar certo, perceba, não significa “durar até que a morte os separe”, mas fazer cada dia ser uma empolgante experiência de troca com alguém que põe um sorriso no seu rosto por inundar o seu ser de amor e faz, em termos humanos, sua existência ter sentido e poesia. E, assim, cumpre os propósitos de Deus para a humanidade.

Pois, se você tem a ideia equivocada de que o casamento foi instituído por Deus apenas para cumprir o “crescei e multiplicai-vos”, como uma obrigação animal de perpetuação da espécie, sugiro ler Pv 19.22a: “O que se deseja ver num homem é amor perene”.

Herodes mandou cortar a cabeça de João Batista pois havia feito uma promessa à filha de Herodias de que,  se ela dançasse para ele, receberia do soberano o que quisesse. Só que ela pediu a cabeça do profeta em um prato. Marcos 6.26 diz que “aflito”, mas com medo dos olhares da sociedade, Herodes, mesmo contra a vontade e triste, manda decapitar o primo de Jesus e apresentar sua cabeça num prato. O mesmo ocorre todos os dias com milhares de casais por todo o mundo: sob os olhos da sociedade se casam para cumprir a obrigação social de se casar e com isso corações são decepados pelos carrascos da pressão popular e apresentados em pratos aos convidados de cabelos cheios de laquê das festas de matrimônio.

Só que, no dia seguinte à noite de núpcias, cada membro da sociedade volta para sua rotina (de barriga cheia de bem-casados, coxinhas de galinha e brigadeiros) e aquele casal se vê ali, um ou talvez os dois com os corações decapitados em pratos e obrigados a construir uma vida que tinha de ter por base o amor mas teve por motivação a cobrança dos amigos, parentes, irmãos da igreja, pastores e convenções sociais. E o amor divino toma um murro no estômago – pois os envolvidos não souberam tudo esperar, tudo suportar, nunca perecer. Eu tento entender, me esforço, brigo comigo mesmo para aceitar e assimilar isso, convencer-me de que essas coisas são normais. Mas não consigo. Simplesmente não consigo entender a substituição do amor por… por o que mesmo?

O “casar-se para não ficar abrasado” então, tem levado dezenas de jovens pós-adolescentes que não conhecem nada da vida a se unir em matrimônio a namorados que em poucos anos deixarão de lhes interessar e o amor, que foi substituído pelo sexo como motivação para o matrimônio, vai se tornar um conceito distante, efêmero. A maturidade chegará, os valores de cada um mudarão e aquele com quem se casaram sem amor mas para “não pecar” e deixar suas igrejas mais tranquilas se tornará apenas um companheiro de quarto (muitas vezes já até sem sexo, porque onde não há amor o sexo é uma prática lacrimejante). E uma vez mais não entendo isso, pois afinal casamento é um projeto de vida alicerçado nessa coisa estranha chamada “amor” e não no contato de genitais, que é uma mera consequência.

O amor é eterno ou não?

Dizem que o amor muda com o tempo. Eu acredito piamente que o amor verdadeiro e bíblico dura até a morte, é perene e imoldável. Não se ajusta às situações. Creio que o amor verdadeiro é como um rio que não seca nem desvia seu curso; estará sempre ali – às vezes com a maré mais alta, às vezes mais baixas. Mas nunca seco. E não entendo quando alguém diz “o amor acabou”. Expliquem-me, pelo amor de Deus, como é possível que o amor que “jamais se acaba”… acabe.

Recentemente, conversando com uma amiga que perdeu há dez anos o homem que amava de forma trágica num assassinato, ela me confidenciou que até hoje, dez anos depois de sua morte, ainda o ama. Isso eu sou capaz de entender: o amor que dura até após a morte. Que leva Carlos Drummond de Andrade a definhar após o falecimento da esposa amada e morrer pouco tempo depois – de tristeza, dizem.

Deus não é amor? Se você respondeu “sim”, eu pergunto: E Deus muda? Deus se molda à vontade dos homens? O Deus Filho, que é amor, não suportou todas as afrontas? Não esperou pacientemente toda a duração de sua tortura, toda a angústia da Cruz, toda a vergonha, toda a crítica e afronta? E sabe por quê? Por ser amor.

Se há coisas que não entendo no amor, muito mais não entendo como o maltratamos. Em especial, não entendo quando fazemos o desamor agir como sendo amor. O amor verdadeiro não diz que é quando não é. O amor verdadeiro é e age como tal. O amor não mente. Não diz “eu te amo” quando não ama. Isso não é amor, é mentira.

Amar é só dizer “eu te amo” a quem realmente se ama.
Amar é saber conter o abrasamento pelo tempo que for preciso, por mais que seja difícil.
Amar é saber esperar a pessoa certa e não a idade que os outros julgam certa.
Amar é adotar uma criança, caso o amor verdadeiro chegue após a menopausa.
Amar é construir uma vida com alguém porque ela é o SEU projeto de vida e não de seus parentes, amigos ou irmãos da igreja.
Amar é unir-se a alguém por amor e não por medo.
Amar é saber dizer não a todas as razões erradas.

Em sua obra-prima, vencedora do prêmio Nobel de Literatura, O amor nos tempos do cólera, o escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez conta a saga de um casal que vive o amor bíblico sem nem ao menos perceber-se disso. Na história, um homem espera 51 anos, nove meses e 4 dias pela mulher amada. Ele só a tem na velhice. Mas afirma que valeu a pena esperar – pois era ela quem ele amava. Nós e muitos dos jovens de nossas igrejas estamos ansiosos por agir não segundo o amor que tudo espera, mas segundo o amor ensinado em novelas, filmes, contos-de-fadas e outras obras de ficção: um amor que vira para o lado e diz que ama… quando não ama. E, com isso, almas adoecem e a vida se torna vazia de significado. Pois o amor entre um homem e uma mulher tem de ser construído sobre alicerces inequívocos, que justifiquem a união de corpos, almas e projetos de vida.

Eu sofro. Sofro por ver divórcios se multiplicando exponencialmente entre cristãos, por todas as razões expostas acima – e mais algumas. Por favor, me expliquem. Pois “[o amor] tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece” tem que significar algo! E parece ter virado apenas mais uma frase bonitinha a ser tuitada e esquecida segundos depois.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.