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Uptown Girls_1Sou aficcionado por filmes. Gosto muito de ir ao cinema, desfrutar de uma história bem elaborada, me emocionar com um bom Chaplin e me indignar com Michael Moore. Na maioria das vezes, admito sem nenhuma vergonha, consumo a sétima arte como mero entretenimento, não é pecado. Mas, muitas vezes, há longas-metragens que me levam para além da diversão e me fazem pensar, refletir, tirar lições de vida. E, para desconstruir completamente minha reputação de intelectual, faço uma grave confissão: gosto muito de uma tocante comédia romântica chamada “Grande Menina, Pequena Mulher” (foto), com Dakota Fanning e a falecida Brittany Murphy. É a história de duas vidas destruídas emocionalmente, por razões diferentes, que acabam encontrando no amor fraterno entre elas aprendizado, apoio afetivo e novas perspectivas. Mas é a última frase do filme que me lembra sempre de uma importante realidade. Diz: “Toda história tem um final. Mas, na vida, todo final é apenas um novo começo” (no vídeo abaixo, aos 2:57). E, ao longo da minha peregrinação sobre a Terra, tenho descoberto que essa é uma verdade bíblica.

Quando morremos, somos ensinados pela sociedade ateia que chegou nosso fim, mas as Escrituras mostram que é apenas um novo começo. Quando encerra-se a vida pecaminosa de Zaqueu, tem início uma etapa melhor e mais perfeita. Quando a adúltera ouve “nem eu te condeno”, percebe que uma nova era desponta em sua jornada. Quando Rute se vê desamparada é quando começa a mais importante fase de sua vida. Quando Paulo entra em profunda depressão por descobrir que tudo o que defendera por toda a sua vida era um erro, ocorre o nascimento do grande apóstolo de Cristo. Quando Cleopas e o outro discípulo do caminho para Emaús usam o tempo verbal no passado para se referir à obra do Mestre é que percebem no partir do pão que aquele tempo verbal era um equívoco. Quando os apóstolos pensam que Jesus está morto, acabado, terminado, são surpreendidos por sua ressurreição, o que marca o início da era cristã. E, em nossas trajetórias, as coisas também acontecem assim: fins e recomeços, fins e recomeços, fins e recomeços.

O término da escola é o início da faculdade. O término da faculdade é o início do mercado de trabalho. O término de um emprego é o início de outro. O término da vida profissional é o início da aposentadoria. E assim em todas as áreas: o fim do noivado é o início do casamento. O fim da vida a dois é o início da vida de pai. O fim da quimioterapia é o início da recuperação. O fim da tristeza é o início da alegria. Fins e recomeços, fins e recomeços, fins e recomeços… assim é a vida.

Uptown Girls_2O grande problema surge quando não conseguirmos compreender isso. A tendência natural do homem (inclusive do cristão) é viver intensamente as perdas, sem se dar conta de que elas marcam fases novas e potencialmente maravilhosas de sua vida. Por isso sofremos tanto e tão mais do que precisaríamos: pois não enxergamos que o momento em que chegamos ao que parece ser um beco sem saída na verdade é apenas uma esquina. Tudo o que temos de fazer é dobrá-la e seguir em frente. Só que, como conhecemos em parte e não nos lembramos que os caminhos de Deus são mais elevados que os nossos caminhos, nos desesperamos, nos deprimimos, nos abatemos. Meu irmão, minha irmã, preste muita atenção ao que vou dizer: se você está vivendo o que parece ser o fim, se não está vendo escapatória, se aparentemente tudo acabou… lembre-se que “na vida, todo final é apenas um novo começo”.

É por isso que Jesus enfatizou tanto no Sermão do Monte a importância de viver o momento. O hoje. O agora. Pois ele sabia que o homem tem a tendência natural de se preocupar excessivamente com o amanhã e antecipar sofrimentos. Só que Cristo sabe, desde antes da fundação do mundo, que “na vida, todo final é apenas um novo começo”. Então ele se vira para nós e diz palavras que já lemos tantas vezes que parece que não são mais verdade. Só que são. Leia, por favor, uma vez mais, o trecho a seguir, de Mateus 6 – desta vez saboreando palavra a palavra. Aplicando o que o Senhor afirma à sua situação de vida. E entendendo que esta realidade é um fato assegurado pelo Deus do universo:

“Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.

Basta ao dia o seu próprio mal. Isso significa que hoje o dia pode ser mau, ter cara de fim, cheiro de término, aparência de beco sem saída, cores de tristeza pela falta de perspectiva. Mas, na realidade, se o choro durar uma noite, essa noite representa a passagem do hoje para o amanhã. E o amanhã nos presenteia com a magnífica perspectiva de que a alegria vem. De que o fim não representava o fim, mas sim um novo começo.

Jesus ama vocêJá enfrentei uma profunda tristeza, por razões que não vêm ao caso. Em muitos momentos me abati. Achei que era o fim. Chorei. Sofri. Rasguei a alma diante de Cristo. Achei que só me restava encostar num canto e ali ficar. Mas Deus virou-se para o homem de pouca fé que sou e disse, como a Elias: “Levanta-te e come, porque o caminho te será sobremodo longo”. E hoje digo a você, não por teoria, mas ainda sentindo na pele a queimadura de quem viveu essa realidade: o fim nunca é o fim. Para quem caminha com Jesus, “todo final é apenas um novo começo”. Sua vida parece ter chegado a um fim, meu irmão, minha irmã? Então prepare-se: creio piamente que algo novo, desafiador, magnífico e que cumpre os planos do Senhor está para começar.

Obrigado, Pai, pelo teu amor tão incompreensível. Tão maior do que nossa visão limitada. Tão maior do que tudo. Para sempre, obrigado pelo teu amor – que transforma cada fim… em um novo começo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Parece nome de filme de terror: o Vale da Sombra da Morte. Que imagem horripilante. Mistura em apenas uma expressão três conceitos que metem medo: “Vale” fala de um lugar desprotegido, ladeado por altas e perigosas escarpas, onde é fácil ser vitima de um emboscada ou uma avalanche.”Sombra” nos lembra o medo mais primitivo do ser humano: o escuro, a falta de luz, frio, ausência de sol, impotência diante dos perigos que porventura estejam escondidos onde não conseguimos ver. “Morte” dispensa comentários. Então “Vale da Sombra da Morte” é um lugar pavoroso, de medo, falta de proteção, total impotência, calafrios, depressão, imprevisibilidade, terror. Você já passou por esse lugar? Não é um lugar físico, mas espiritual, emocional e psicológico. Em algum momento da vida, a esmagadora maioria das pessoas atravessará esse vale. E precisamos nos preparar para isso, embora ele sempre nos trague quando menos esperamos.

Uns entrarão em suas regiões mais profundas, outros nas menos; uns ficarão nele muito tempo, outros nem tanto. Você sabe que está nele quando acorda chorando, quando os dias correm rápido e você percebe que já chegou outra segunda-feira sem que o tempo pareça ter passado, quando nada parece fazer sentido, quando a tristeza é sua companheira mais frequente, quando você não enxerga razão para sair da cama, quando o céu azul é cinza aos teus olhos, quando viver torna-se comer e dormir – se o apetite não desaparece. Quando a morte passa a não ser tão assustadora assim.

Só que aí acontece algo extraordinário.

Deus nos revela, por meio do Salmo 23 do rei Davi, uma outra possibilidade. Ele mostra uma mão estendida por entre o desespero que, para quem está em pleno Vale da Sombra da Morte, parece impossível, apenas uma miragem à distância. Mas para quem está em Cristo, essa miragem na verdade não é uma ilusão, é um vislumbre real do que está na linha do horizonte. O que precisa ser feito para chegar até essa  realidade é dar um passo. Depois outro. Depois juntar todas as suas forças para dar um terceiro. Um quarto vem arrastado e aos soluços. O quinto vem com um gemido. No sexto os pés nem desgrudam do chão, tão pesados estão. O sétimo é automático, sem vontade, querendo cair ao solo e ali ficar. Do oitavo em diante só Deus sabe como você consegue ir em frente. Mas… quando você menos espera… superou um dia. Depois outro. Depois outro. Depois outro. Depois outro. Depois outro e… quando se dá conta, aquele longínquo horizonte está debaixo dos seus pés. Seus olhos embaçados pelas lágrimas, junto com o abatimento da sua alma, não deixaram você perceber que as escarpas sumiram. Você levanta a cabeça. E o Vale da Sombra da Morte não está mais ali. E onde você está? Que lugar é esse onde você chegou?

O Salmo 23 responde: pastos verdejantes. Junto das águas de descanso. O local onde sua alma encontra refrigério. As veredas da justiça. É quando você consegue inspirar fundo e dizer: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam. Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda“. E você percebe, então, que a cada dolorido passo daquela jornada de uma ponta a outra do Vale da Sombra da Morte o milagre da graça aconteceu. Você se dá conta de que a bondade e a misericórdia certamente te seguiram por todos os dias da sua vida. E não a bondade e a misericórdia de qualquer um, mas daquele que nos prometeu que estaria conosco todos os dias, até a consumação do século. Todos os dias. Mesmo nos dias em que você esteve envolto na escuridão, na solidão e no pavor pela incerteza do que vinha à frente.

Então as lembranças daquele período terrível se tornam aprendizado. As feridas dos meses de sofrimento da hora de acordar à de dormir passam a ser cicatrizes de lembranças que doem mas não sangram mais. Estranhos com quem você esbarrou no caminho e lhe deram copos d’água em meio à sequidão tornam-se a face do amor. Deitado, então, nos pastos verdejantes, você lembra-se de que, enquanto caminhava sem enxergar direito devido à escuridão pelo estreito Vale da Sombra da Morte, só conseguia vislumbrar um lugar iluminado: de um lado, escarpas. Do outro, mais escarpas. À frente e atrás, sombras. Mas… acima de sua cabeça, lá estava ele, sempre presente e concedendo esperança: o céu.

Embora seja o local mais arrasador e apavorante que existe nesta terra, o Vale da Sombra da Morte tem uma função para o Reino de Deus: quando você chega ao lugar de paz, se consegue jamais se esquecer daquela jornada sombria, fria, solitária e apavorante que ficou para trás, agarra-se com todas as suas forças a um desejo premente e inapagável:  habitar na Casa do Senhor para todo o sempre.

Se você está neste momento de sua vida atravessando o Vale da Sombra da Morte, meu irmão, minha irmã, saiba que ao final dele há pastos verdejantes, águas de descanso, refrigério, justiça. Não tema mal nenhum, porque Jesus está contigo. Essa é minha esperança. Essa precisa ser a esperança de todos nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício.
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Amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Pronto. Eis aí a essência de ser cristão. É o fruto do Espirito, que Paulo descreve em Gálatas 5.22,23a. Uma utopia na vida prática do crente em Jesus? Ou um alvo a ser perseguido mas jamais alcançado? Algo que brota automaticamente no ato da justificação ou virtudes a serem desenvolvidas com o passar dos anos? O quê, como, quando, onde, por quê… nada disso importa. O que importa é ter esse fruto em nós. Pois o fruto do Espírito é a assinatura da presença de Deus no cristão. Só que… olho para dentro de mim e vejo a falta de tantas dessas virtudes! Significa que não sou salvo? Mas… também olho em volta e não vejo um cristão sequer que tenha todas essas características. Significa que a Igreja é vazia de Deus? Ou que o fruto brota de modos que não entendemos? Vamos meditar sobre isso.

A Bíblia não fala da “árvore” do Espírito, mas do “fruto”, algo que brota porque corre seiva na árvore. Logo, não é causa, é consequência. Também frutas não nascem prontas: começam com um pontinho, que vai crescendo, crescendo, crescendo até alcançar a maturidade. E, nesse processo, enfrenta muitas intempéries. Tempestades. Vendavais. O calor escaldante do Sol. Mas já reparou que sem a água das tempestades o fruto morre? Que sem o ar dos vendavais não há a transformação de gás carbônico em oxigênio, algo que mantém viva a planta? E que o lado da maçã exposto ao sol sempre fica mais vermelho? Sim, é graças às intempéries que sofre ao longo de seu desenvolvimento que  o fruto torna-se viçoso, suculento, preparado, pronto, vivo.

Quando, no momento da justificação, o Espírito passa a habitar em nós creio que Ele semeia a boa semente do seu fruto. Não faz com que ele brote automaticamente, mas deposita a semente em nossa alma. Já a carregamos desde o dia em que Cristo estende a nós a Sua graça. Só que, se isso é assim, então por que há tantos cristãos sem amor, egoístas, abatidos, impacientes, odiosos ou sem autocontrole? Por que em tantos momentos não me reconheço? Se a seiva corre… por que o fruto não é visível?

Creio que faltaram as intempéries. Faltou o vendaval da vida. Faltaram as tempestades, com raios e trovoadas. Faltou o sol escaldante dos momentos de deserto. É nessas horas que vejo Deus trabalhar. Que vejo o fruto brotar. E, quando o momento chega, a forma como lidamos com as dificuldades vai nos tornar amargos ou melhores – temos a capacidade de decidir, de optar. Virtudes latentes em mim mas inexistentes só ganharam vida quando passei pelo vale da sombra da morte – o lugar com mais chuva, vento e sol causticante que existe.

Não amei de fato até que alguém me amou de um modo que eu não merecia. Não tive alegria real até que vivenciei profundas e esmagadoras tristezas. Não entendi a importância de pacificar até presenciar o  ódio. Não tive paciência até descobrir que há coisas que absolutamente não dependem de mim, que de nada adianta desesperar e só resta esperar a ação de Deus.  Não fui verdadeiramente amável até que em solidões profundas precisei desesperadamente de mãos estendidas e abraços honestos. Não fui bom até que eu sentisse na carne as consequências da maldade. Não fui fiel a Deus até que dependi totalmente do invisível. Não fui manso até que a ira mostrou suas garras. Não tive domínio próprio até que meus descontroles me tornaram o opróbrio da humanidade.

Tempestades. Vendavais. Sol fustigante. Pragas terríveis, bênçãos celestiais. Indesejáveis e bem-vindos. Quero distância como homem, mas preciso enquanto espírito. Se desejo ter em mim o fruto do Santo Espírito, preciso do que não quero. Não que busque , mas quando chega recebo de bom grado, sabendo que todas as coisas contribuem para o bem dos que amam a Deus. E eu o amo. Ou, pelo menos, tenho me esforçado para amá-lo com o amor que brota do Espírito. Pois enquanto amei o Senhor com meu estúpido amor humano não fui capaz de amá-lo verdadeiramente.

Hoje creio que o Espírito Santo é um semeador. Põe no solo árido de nossa alma a semente de Suas virtudes e espera vir a chuva, o vento, o sol – a dor. E isso demora. Por vezes anos. Por vezes décadas. Muitos morrem sem que todo o fruto tenha amadurecido. A maioria de nós, aliás. Creio que eu também morrerei sem tê-los todos maduros. Hoje as dificuldades da jornada fizeram com que algumas sementes brotassem em mim. Certas virtudes estão verdes, outras mais maduras, algumas ainda inertes. Mas o que me consola é que sei que a semente foi plantada. Pois essa é a maior prova de que, a despeito de sermos o pó que somos, aprouve a Deus escrever nosso nome no livro da vida. Sua seiva corre em nós. O resto? Virá com o tempo, com a dor e com a graça do Salvador do mundo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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