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descanso 1Se você acompanha regularmente o APENAS, deve ter percebido que passei quatro semanas sem postar reflexões aqui no blog. Agradeço demais o carinho de todos os amigos que entraram em contato para saber se estava tudo bem comigo e questionaram o meu silêncio nesse período. Sim, está tudo ótimo, agradeço demais a gentileza da preocupação. Fato é que precisei tirar um mês sabático para me dedicar prioritariamente a outras coisas. Sem desmerecer de modo algum a importância que o blog tem na minha pequenina contribuição para o reino de Deus e a vida dos irmãos e irmãs que se sentem abençoados pelo que escrevo, existem momentos em que precisamos parar, respirar, mudar um pouco o foco. E, depois, voltar. Acredite: sem silêncio, não se valoriza o som. Sem pausas, não se compõe uma sinfonia. Sem descanso à noite, não se trabalha bem pela manhã. Se tem algo que Deus valoriza é o descanso. Mas… será que você descansa de forma bíblica? Mais ainda: será que existe uma forma bíblica de descansar? Eu acredito que sim.

Depois de três anos longe do Brasil, meu irmão de sangue, minha cunhada e meus dois sobrinhos, que moram na Espanha, vieram passar férias aqui. Quis Deus que, no mesmo período, eu assinasse contrato com a editora Mundo Cristão para escrever o que considero meu mais importante projeto literário até hoje, uma obra que será lançada no segundo semestre do ano que vem e que exige muito foco, oração, pesquisa, concentração, criatividade e tempo de escrita. Somando as duas coisas, percebi que eu não daria conta de dedicar-me simultaneamente à família, a esse projeto e ao APENAS com excelência. E, sem excelência, não gosto de fazer nada. Por isso, tirei alguns dias de férias para ficar junto das pessoas que amo e, também, para me dedicar com todo o empenho ao novo projeto literário. Preferi silenciar aqui no blog durante essas quatro semanas, pois, para escrever de qualquer maneira, sobre qualquer coisa, sem pensar e refletir apropriadamente… melhor não fazer. Agora, com metade dos textos do novo projeto literário já escritos, chegou a hora de voltar. Eis-me aqui.

descanso 2Deus nos ordenou guardar um dia na semana. Em linguagem figurada, até ele “descansou”. Quando lemos a lei mosaica, vemos que o Senhor deu diversas ordenanças acerca de períodos sabáticos. Sim, a pausa é algo que Deus valoriza e estimula. Trabalhe o ano inteiro sem tirar semanas de férias e você logo será um péssimo (e exausto) profissional. Sem recarregar as baterias, sua vida não anda. Sem parar para abastecer no meio da corrida, nenhum piloto de fórmula 1 ganha a disputa. Parar não é um luxo: é uma necessidade e um mandamento divino. Pare. Respire. Relaxe. Repense. Assim, você será muito melhor naquilo que se dedica a fazer.

Em meio ao turbilhão de seu ministério, Jesus tirou muitos momentos para ficar sozinho, orar, se conectar ao Pai. Jesus não só valoriza o descanso, ele próprio é o descanso: “Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28). Como Jesus poderia dar algo ruim a alguém? Como ele proporia ser fonte de águas amargas? Desejar repouso não é reprovável, é fundamental. É sobrevivência. É o impulso necessário para ir adiante. É a inspiração profunda que o atleta dá antes da largada. Não tenha vergonha de repousar. Repouse. Organize-se para repousar. Ponha o descanso na sua agenda. Deus quer isso.

descanso 3Claro que não se deve usar esse argumento para se entregar à preguiça. A preguiça é o extremo do descanso e, como todo radicalismo fanatizado, é prejudicial. “Aprenda com a formiga, preguiçoso!” (Pv 6.6), é o alerta bíblico. “O preguiçoso logo empobrece, mas os que trabalham com dedicação enriquecem” (Pv 10.4). O descanso deve ser na medida certa, assim como a refeição deve parar antes de se tornar gula. Quem come em excesso passa mal, vomita. A preguiça é o vômito de quem descansa, que vai muito além do que deveria. O repouso fortalece, a preguiça enfraquece; o repouso enrijece, a preguiça torna flácido; o repouso lança para o alto, a preguiça esmaga contra o chão. “O preguiçoso muito quer e nada alcança, mas os que trabalham com dedicação prosperam” (Pv 13.4). E ninguém é capaz de trabalhar com dedicação se não desfrutar do descanso que dá gás ao empenho. Você tem reservado momentos de sua vida para descansar? Se não tem, recomendo que o faça.

E, aqui, cabe uma pergunta: de que maneira você tem descansado? Como exatamente é seu descanso? Porque, creia, aquilo que você faz enquanto descansa é fundamental para que esse período seja útil de fato – e bíblico. Descansar enfiando a cara em joguinhos de smartphone pode ter seu valor, mas… só isso? Descansar navegando pelo facebook por horas seguidas talvez o irrite mais do que relaxe. Uma coisa é descansar lendo um bom livro, outra é descansar lendo a revista de fofocas sobre artistas da TV. Repousar pastando a mente, sem que ela seja direcionada para algo realmente válido e produtivo, torna o descanso um tiro no pé. É quando ele se torna ociosidade, inatividade. E isso é maligno.

Aceita uma sugestão? Use seu tempo de descanso para pôr em prática o grande mandamento.

descanso 4Ao ser indagado sobre qual é o mandamento mais importante da lei de Moisés, “Jesus respondeu: ‘Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de toda a sua mente’. Este é o primeiro e o maior mandamento. O segundo é igualmente importante: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Toda a lei e todas as exigências dos profetas se baseiam nesses dois mandamentos” (Mt 22.37-40). Sim, é possível descansar amando o Senhor. Como? Só ama quem se relaciona com a pessoa amada. E a forma de se relacionar com Deus é batendo papo com ele, criando intimidade, trocando ideias, desabafando. Em linguagem bíblica: orando. Não ponha sua mente no que não presta durante o descanso, aproveite para fortalecer – sem exigências, cobranças, mecanismos ou estresse – seus laços e vínculos com teu Pai. E, sim, é possível descansar amando o próximo. Como? Só ama quem se relaciona com a pessoa amada. E a forma de se relacionar com o próximo é batendo papo com ele, criando intimidade, trocando ideias, desabafando. Em linguagem bíblica: comungando.

É na oração e na comunhão que enxergo a forma mais bíblica, rica e produtiva de repouso.

Você precisa descansar. Mas precisa descansar bem. Da forma adequada. Minha recomendação é que tire períodos de repouso nos quais fique a sós com Deus e deite em verdes pastos, junto a águas tranquilas, com a cabeça no colo do Pai, trocando ideias em paz. E que encontre seus amigos e jogue conversa fora, conte piadas, toque violão, cante, divirta-se, desfrute de calor humano. E lembre-se que “o próximo” é também a sua família. Descanse passando períodos divertidos com seus filhos, namorando seu cônjuge, abraçando seus pais. Não consigo conceber forma mais bíblica de repousar, pois descansar sem se relacionar não se encaixa na fé cristã.

Se fizer isso, acredito que estará vivendo, hoje, um pouco do que viverá na eternidade, quando, enfim, estará face a face com o Senhor e com os irmãos em Cristo no estado perfeito, desfrutando do repouso eterno enquanto faz aquilo que Deus nos chamou a fazer ainda nesta terra: se relacionando, interagindo, dando e recebendo afeto e amor. Pois, se repouso sem amor é correr atrás do vento, descanso com amor é, literalmente, divino. Descanse amando. Garanto que você será muito mais feliz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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S09A solidão faz parte da vida de muitos de nós. Não são poucas as pessoas que vivem cercadas por multidões mas, por trás dos sorrisos artificiais, vivem em estado de absoluta solidão. Pessoalmente valorizo muito o estar só, buscar um lugar isolado, sentar-se e ficar apenas pensando, misturando o som de ondas com o de pensamentos – é uma dinâmica extremamente produtiva. Gosto de fazer isso. Como diz Frejat, “às vezes levo o meu corpo para passear”, é por aí. Só que isso não é solidão, é solitude. Embora pelo dicionário os dois termos sejam sinônimos, na vida prática estão muito distantes. É interessante pensar em solitude como uma “atitude de buscar estar só”, é algo voluntário, escolhido, almejado. Já a solidão e mal-vinda, é perniciosa, faz mal, nos envelhece, dá câncer, é feia. Dói.

Quando Jesus buscava isolar-se no monte ou no jardim, ele procurava a solitude. O cristão tem um benefício a mais que pode agregar a esses momentos: a oração. Em instantes de solitude, é possível alternar períodos de reflexão com de oração. Até mais: de leitura – da Bíblia ou de algum bom livro. Em suma, solitude é uma bênção, pois pode reunir três das coisas mais maravilhosas que há: reflexão, oração e leitura.

Em contraste, solidão é uma maldição. Ela nos transforma em panelas de pressão, desesperadas por conversar com alguém, sedentas por um pouco de afeto (seja dar ou receber), cheias de sentimentos acumulados a compartilhar… mas não há uma válvula de escape. O resultado é que carregamos universos dentro So0do peito mas não há ninguém com quem possamos dividir a beleza desse espetáculo cósmico. Solidão é um “eu em mim” involuntário e compulsório.

O ser humano foi feito para compartilhar. Em termos eclesiásticos, o nome disso é comunhão. E, pela enorme quantidade de cristãos solitários que existem por aí, fica clara a urgência que existe de haver uma comunhão mais sincera, ampla e devotada entre nós. Em geral, chamamos equivocadamente de comunhão aquele lanchinho oferecido após o culto, a pizza depois do grupo pequeno, a festa de aniversário de um irmão. Tudo isso é muito bom e tem o seu mérito, mas a verdadeira comunhão não é isso. A começar pelo real sentido do termo: “união comum”. Não necessariamente desenvolver atividades sociais promove união. Acredito que proporcionam contatos e conversas, mas não união. Porque união passa a ideia de se fundir. O que é algo muito mais profundo, que pressupõe mergulhar no coração do outro.

Minha teoria é que há tantos solitários dentro das igrejas porque não conseguimos de fato promover a união. Não abrimos nossos anseios mais íntimos para o outro. Não compartilhamos nossos dramas mais escondidos com ninguém. Não entregamos nosso afeto como fomos feitos para entregar porque há milhões de barreiras sociais, culturais ou pessoais. E, com isso, retemos. Engolimos. Nos ensimesmamos. E, se você vive a solidão, sabe o quão terrível é isso, como um animal selvagem que nos estraçalha por dentro. Ninguém se basta a si mesmo: precisamos uns dos outros.

So4Viver somente para si é uma das coisas mais tristes que há. Jesus chamou seus discípulos de amigos, pois até o Deus humano precisava de comunhão. Ele sofreu ao ver que no seu momento de agonia os amigos dormiram, o abandonando à solidão. Você pode dizer que só a comunhão com Deus importa, que ele supre todas as nossas necessidades. Bem… ai de quem não tem o Senhor para compartilhar. Mas existem coisas para as quais só o ser humano serve. Pense: Deus criou a mulher usando o argumento de que não era bom que o homem vivesse só. Mas… o homem não estava com o Criador no Éden? Então ele não estava só. Conclui-se que o Senhor sabia que certas necessidades emocionais e afetivas apenas outro ser humano pode suprir. Mas muitos preferem empurrar o próximo para Deus em vez de se doar a uma real comunhão. Terceirizam a presença que poderia acabar com a solidão de muitos. Só que, assim como o Senhor nos usa para muitas coisas, também quer que nós sejamos o canal para combater a solidão de nossos irmãos.

Solidão, ao contrário do que muitos pensam, não tem a ver com a quantidade de pessoas com quem você se relaciona. Tem a ver com a qualidade da conexão que se estabelece entre você e o outro. Milhões de pessoas ao redor não são garantia do fim da solidão. Uma única pessoa que seja, mas que tenha acesso ao nosso mais profundo íntimo sim, representa o fim da solidão. Davi e Jônatas que o digam. “Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1Sm 18.1).

Em grande parte, a culpa por haver tantos irmãos e irmãs vivendo em profunda solidão é minha e sua. Porque não nos devotamos de fato a amar o próximo como a nós mesmos. Não partimos ao encontro do outro. Não nos disponibilizamos a comungar, ou seja, a participar de uma união que seja comum. Não ousamos. Não nos atrevemos a expor a alma.

So7Oro a Deus que aqueles que guardam gritos presos na garganta encontrem alguém com quem consigam se identificar a tal ponto que tsunamis de sentimentos, pensamentos, tristezas e frustrações possam ser compartilhados e, assim, o caminho para a paz venha a se estabelecer. Pois ter alguém com quem se pode falar tudo, com quem se chore, que nos abrace e segure nossa mão em amor, que olhe nos nossos olhos e saiba tudo sem que precisemos dizer nada… é uma das maiores bênçãos que podemos receber. Bem-aventurados são aqueles que têm nem que seja uma única pessoa especial com quem possam ser eles mesmos em tudo. Pois isso é o início da mais íntima comunhão – e o fim da solidão.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício