Posts com Tag ‘Raquel’

Amor1Está na moda dizer que “amar é uma decisão”. Todo crente politicamente correto diz isso. “Afinal”, escuto sempre, “Jesus mandou amar os inimigos e eu não sinto vontade de amá-los, mas decido amá-los”. Reconheço que essa afirmação tem mérito, há sim um componente racional no amor. Afinal, muitas vezes é a razão que nos impulsiona a realizar atos traduzidos por amor (de ajuda ao próximo, ações de caridade por completos estranhos e atos similares). Mas olho para a Bíblia e não consigo me convencer de que seja uma verdade absoluta e fechada, excludente. E olha que já me esforcei muito para crer nisso. Mas, longe da simpática teoria e dentro da realidade da vida, não consegui até hoje ser convencido de que o amor que a Bíblia exalta e que constitui a natureza de Deus se resume a algo tão frio e estoico como uma pura decisão racional – tal qual a decisão de que roupa vou vestir hoje à noite ou de que prato vou comer no almoço.

Pelo que pesquisei, o conceito de que “o amor é uma decisão e não um sentimento” não tem origem cristã, mas pagã: parece ter sido originado em um conto chinês que se tornou amplamente divulgado no mundo ocidental graças à viralidade da Internet, em especial a partir de fontes espíritas kardecistas. Você pode ler o conto AQUI, pois foi reproduzido, inclusive, num livro do padre Marcelo Rossi. Se você souber de outra fonte, por favor compartilhe nos comentários e terei prazer de publicar.

Amor3À parte das origens pagãs dessa teoria, comecei a refletir e resolvi fazer um teste, que teve resultados interessantes. Selecionei alguns conhecidos meus que defendem com veemência que “amar é uma decisão” (ou seja, um processo de escolha meramente racional). Sem que percebessem, em momentos variados lhes perguntei como foi sua história de amor com o marido/a esposa. Pedi que contassem como chegaram ao ponto de decidir se casar com o cônjuge. Invariavelmente, ouvi, entre outras afirmações, coisas do tipo “quando a vi meu coração disparou”, “eu não conseguia parar de pensar nele”, “eu a achei a mulher mais linda do mundo” e “quando ele segurou na minha mão foi como se tivesse tomado um choque elétrico” – todas afirmações bastante ligadas ao emocional (afinal, ninguém decide disparar o próprio coração, manter um pensamento constante, considerar alguém belo ou disparar eletricidade pelo corpo ante o toque de alguém). Logo, sou obrigado a concluir que, na prática, ninguém ama um marido ou uma esposa exclusivamente porque decidiu amar. Algo na linha: “Olhei, pensei, raciocinei, ponderei, refleti e tomei a decisão: vou amar fulano e poderemos nos casar”. Se você for honesto, verá que não é assim que acontece.

Amor6Existem aqueles que se casam sim por uma decisão. Repare: eu disse “se casam” e não necessariamente “se amam”. Conheço homens que escolheram a esposa porque “ela tem um ministério que complementa o meu” e mulheres que optaram por maridos porque “ele é honesto e trabalhador e me trata com respeito e carinho”. Tudo isso é importante, entenda que não estou desmerecendo o aspecto racional da escolha do cônjuge. Ele é indispensável. Creio, inclusive, que sem um componente racional um casamento está fadado ao fracasso. Mais ainda: estou convicto de que, sem a tomada de certas decisões, não há amor conjugal. Mas, quando ouço comentários reducionistas como “amar é uma decisão”, vejo pessoas que se casaram pela razão, mas não consigo enxergar nelas pessoas que se casaram por amor. Pois amor não é razão. Amor não é decisão.

Muitos justificam essa teoria a partir do modelo de casamento – cultural e contextualizado – adotado nos tempos bíblicos. Naqueles milênios, a escolha do cônjuge era feita pelos pais. E os adeptos da crença de que “amar é uma decisão” recorrem a esse fato como um argumento para justificar a ideia de que é possível se casar sem nenhum sentimento e você “aprenderá a amar” a pessoa da mesma forma. Mais do que isso: defendem que esse é o padrão bíblico.

Amor7Mas aí descubro muitas passagens bíblicas que me mostram o contrário. Uma história extraordinária nesse sentido é a de Jacó. Ele foi obrigado a se casar com Lia, quando seu coração pulsava, na verdade, por Raquel. Depois, quando as duas se tornaram suas mulheres, as Escrituras nos mostram uma Lia eternamente infeliz por não contar com o amor do marido. Estavam casados, mas não havia o aspecto emocional do amor. Ela era tão infeliz que chegou ao ponto de tentar despertar no esposo algum sentimento mediante a gravidez (“O Senhor viu a minha infelicidade. Agora, certamente o meu marido me amará” – Gn 29.32). Leia com calma toda a vida de Lia e o que você verá é uma mulher com um enorme vazio no peito, uma alma oca, que era tão ignorada pelo marido que não a amava que precisava comprar o direito de se deitar com ele (Gn 30.15-16).

Já com Raquel era diferente: “Jacó amava a Raquel e disse: Sete anos te servirei por tua filha mais moça, Raquel. Respondeu Labão: Melhor é que eu ta dê, em vez de dá-la a outro homem; fica, pois, comigo. Assim, por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava” (Gn 29.16-20). Ao ouvir que “amar é uma decisão” fico pensando então por que Jacó não simplesmente decidiu amar Lia e, assim, resolver o problema. Ou por que, quando acordou de manhã e viu que tinha se casado com Lia, não “decidiu amá-la” e, em seguida, “decidiu não amar” Raquel, o que facilitaria muito sua vida. Porque, convenhamos, se o negócio era arranjar uma esposa, ele já tinha arranjado. Para que precisava de Raquel se já tinha Lia? Trabalhar mais sete anos para ter a segunda esposa seria irracional, bastava Jacó decidir não mais amar Raquel, tocar a vida com Lia e ser feliz para sempre. Mas não foi o que aconteceu.

Amor8Há outros exemplos. Analiso o amor de Salomão pela Sulamita no Cântico dos Cânticos e confesso que sinto um pouco de pena de quem se casava apenas porque as famílias decidiam. Salomão tinha mil mulheres e concubinas, mas repare que o Cântico dos Cânticos fala sobre somente uma delas. Ele se casou com muitas, mas creio que só amou uma. Racionalmente decidiu unir-se a mil. Mas, emocionalmente, seu coração ligou-se a uma única. E uma leitura honesta desse lindo poema de amor que é o livro de Cantares mostra que esse relacionamento estava a anos-luz de ser meramente “uma decisão”.

O mesmo ocorre, também, com Ester. Lemos em Ester 2.17 que “O rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e ela alcançou perante ele favor e benevolência mais do que todas as virgens”. Por que o rei não decidiu amar outra? Se era uma questão de opção racional somente, o que fez aquela mulher se destacar das demais aos olhos do soberano? Razão, puramente? E mais: razão… principalmente? O que aquela jovem hebreia tinha de tão especial que racionalmente teria feito Assuero “decidir” amá-la mais do que a todas outras mulheres? Era estrangeira, pobre, exilada, órfã, de outra religião… racionalmente não fazia sentido o rei decidir amá-la em detrimento das demais? Mas a Bíblia relata que esse amor simplesmente aconteceu e não porque Assuero optou por isso.

Amor9Essa questão extrapola o amor conjugal. Quando leio João 3.16, vejo que “Deus amou o mundo” e não que ele “decidiu amar o mundo”. Vejo, em muitas passagens, Jesus ser movido a atos de amor por compaixão (Mt 9.36; 14.14; 15.32; 20.34; Mc 1.41; 6.34; Lc 7.13). E “compaixão”, pelo dicionário, significa “Sentimento benévolo que nos inspira a infelicidade ou o mal alheio”. Ou seja, dizer que compaixão é apenas uma decisão seria negar a essência de seu significado. Poderíamos ir além: o termo em grego usado para falar da compaixão de Jesus é splagchnizomai, que fala explicitamente de uma emoção, algo que se sente. Logo, dizer que o amor do Senhor pelos carentes de compaixão e misericórdia seria apenas uma decisão contraria, em todos os aspectos, a exegese bíblica.

Vejo em Romanos 9 o Senhor dizer “amei Jacó e aborreci Esaú”. Ora, se amor é uma decisão, por que Deus não decidiu amar Esaú, visto que ele não faz acepção de pessoas? O Senhor poderia perfeitamente decidir amar ambos. Outra: o texto bíblico diz, em numerosas ocasiões, que, durante os séculos em que o reino do Sul, Judá, foi idólatra, Deus reteve o juízo pelo amor dele a seu servo Davi. Outro exemplo está em 1Samuel 18.1, onde vemos: “Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma”. Uma decisão pura e simples?

Amar pressupõe algo diferente. Amar faz alguém se destacar da multidão. E, se você destrincha cuidadosamente os textos bíblicos, vê que, na Escritura, quem ama não o faz porque olha a multidão, analisa um por um, pondera e decide: “Vou amar aquele”. Não é assim. O amor bíblico verdadeiro, universal e despido de um contexto histórico específico aponta para pessoas que, aos olhos de alguém, brilharam dentre as demais e tocaram na razão mas, indispensavelmente, também no coração de alguém.

Amor2Se você tem um filho eu te perguntaria se você o ama somente porque racionalmente ele foi formado a partir de um espermatozóide ou um óvulo seu. Você foi vendo aquele bebezinho crescer todos os dias até que, numa certa manhã, disse “bem, a partir de hoje decido amar essa criança”, foi dessa maneira? Outra pergunta: você não escolheu ter os irmãos que tem, mas, em geral, nós amamos nossos irmãos. Isso ocorreu racionalmente ou foi fruto de uma emoção cultivada e desenvolvida diariamente, ao longo dos anos? E, sobre isso, eu perguntaria: se você teve algum problema com um parente e cortou relações, se amar é tão somente uma decisão racional, por que não simplesmente decide voltar a amá-lo?

É fundamental lembrar que ninguém, nem um único cristão, ama Jesus porque tomou a decisão de amar. Nós amávamos o mundo, até que, pela graça, contrariando tudo em que críamos racionalmente até então, o amor de Deus nos alcançou e passamos a amar Jesus. Eu nunca decidi amá-lo. Estava muito bem, obrigado, amando minha vida de incrédulo, quando esse amor chegou pelos sentidos, invadiu meu cérebro, ligou-se a minha alma, incendiou meu espírito e pronto: quando me dei conta estava amando.

Amor5Por que falar sobre este assunto? Porque há muitos irmãos e irmãs decidindo somente pela razão a quem “amar” e, por isso, se casando sem amar. Tornam-se cônjuges de amigos (e não de amores) que decidiram desposar, mas vivem sem desfrutar do amor pleno que Salomão descreve no Cântico dos Cânticos (que não é apenas erótico, como muitos defendem, se você ler com atenção verá duas almas profundamente entrelaçadas emocionalmente). Esses irmãos tornam-se incompletos e acabam se divorciando ou se condenando à infelicidade e à frustração até que a morte os separe. E tudo porque acreditaram na teoria de que “amar é só uma decisão”. Dizer isso é como falar “o Brasil é o estado do Rio de Janeiro”. Só que não é, o Rio é uma parte do Brasil. Assim como a razão, a decisão é uma parte do amor. Ele é composto ainda de ação e emoção. Advogar um amor ultrarromântico, baseado somente nos sentimentos, é um erro. Mas descartar o sentimento como se fosse algo antibíblico, na ultravalorização do racionalismo, é descartar a linda capacidade que Deus nos deu de sentir.

Eu amaria concordar que “amar é uma decisão”, pois isso me faria mais politicamente correto dentro do meio evangélico, onde esse conceito da filosofia oriental virou moda. Eu amaria, mas o meu amor por essa teoria não depende somente de uma decisão minha. Eu não decido crer no que creio. O amor é uma decisão, sim. O amor é razão, sim. Mas vai muito além disso. O amor é também ação. E, sim, o amor é emoção. Se você se casa com alguém por quem seu coração não pulsa, casou-se por amizade ou carinho, não por amor. Seu amado tem de ser seu amigo, mas não pode ser seu amigo. O amor é muito mais complexo do que a simples definição “uma decisão” tenta fazer parecer. Deus é amor. E Deus é razão, ação e emoção.

É por isso que o amor é infinito e o infinito faz meu coração pulsar infinitamente.

.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Arte1Minha esposa ganhou convites para o espetáculo de patinação “Disney on Ice”, em que diversos personagens da Disney dançam e deslizam em belas coreografias sobre o gelo. Nunca tinha assistido a nada do gênero, não fazia ideia de como era. Por isso, levamos nossa filha ao Maracanãzinho. Lá estava eu, com minha filhinha de 2 anos no colo, quando, no meio do show, entraram em cena todos os bruxos e bruxas dos desenhos da Disney, numa grande e animada coreografia. Confesso que me assustei e me preocupei. Deveria eu deixar minha doce e inocente filha ficar vendo feiticeiras e feiticeiros num cativante espetáculo de som e luz? Será que aquilo despertaria seu fascínio pelo assunto? De algum modo aquilo a levaria a se tornar uma satanista, uma adepta da bruxaria, uma depravada, uma apóstata ou mesmo uma cristã mística que dedica mais tempo ao diabo do que a Deus? Deveria eu me levantar e ir embora? A dúvida me consumia, quando entraram em cena Mickey, Minnie, Pateta e Pato Donald e, em meio a muita algazarra, expulsaram todos os bruxos de cena, enquanto a música celebrava a vitória do bem sobre o mal e a criançada ia ao delírio com a derrota das forças malignas. Sussurrei no ouvido de minha filhinha: “Tá vendo, filha, Jesus deu um jeito de fazer os maus irem embora”. E ela começou a gritar, animada: “Sai, bruxa má!”.  Esse episódio me fez refletir muito sobre qual é a diferença entre mencionar algo que vai contra os valores do Evangelho e defender esse algo. Até que ponto discorrer sobre um pecado estimula a prática desse pecado?

Minha conclusão é que entre mencionar e defender a diferença é monstruosa. No entanto, muitos de nós, cristãos, não conseguimos enxergar essa fronteira. Uma das áreas em que isso fica mais claro são as artes, haja vista as antigas polêmicas que envolvem questões como “música gospel X música do mundo”, “crente pode ir ao cinema?” etc. Sei que essa é uma discussão sem fim, que desperta paixões e defesas arraigadas, impulsivas e até agressivas (por favor, seja gentil ao discordar de minhas posições nos comentários…), sei que tem gente que considera a Disney um império satânico (graças a uma série de fitas de videocassete que um pastor com intenções que só cabe a Deus julgar lançou anos atrás, com algumas verdades sobre mensagens subliminares mas também com muitos exageros). Todavia, gostaria de compartilhar alguns pensamentos sobre o assunto.

Arte4Sempre defendi que não devemos deixar nossos filhos expostos de peito aberto a literaturas e filmes como os das sagas “Harry Potter” e “Crepúsculo” (perceba: eu disse “de peito aberto” e não que devemos proibi-los totalmente de ler tais obras). E explico por que precisamos nos acautelar com esse tipo de literatura: durante séculos, toda e qualquer representação de bruxos era sempre aquilo que a bruxaria de fato é: má. A bruxa da Branca de Neve, a bruxa da Bela Adormecida, a bruxa dos desenhos do Pica-Pau, a bruxa de Monteiro Lobato… todas as bruxas, enfim, sempre foram retratadas como alguém que joga no time do mal. Suas histórias nos estimulavam a fugir da bruxaria e a repudiá-la. Harry Potter não. Na série do bruxinho bonzinho, o bruxinho é… bonzinho. Essa é exatamente a questão. Ele é o herói. Ele é o tal. Ele é bacana. Ele é quem nossos adolescentes querem ser quando crescer. Eis aí o problema: o bruxo é o cara.

Arte7Nas histórias da saga “Crepúsculo” acontece o mesmo. Embora vampiros, ao contrário de bruxos, sejam seres fictícios, nessa saga eles são lindos, sedutores, charmosos, os galãs por quem as meninas suspiram. Mas os personagens vampiros são e sempre foram criaturas das trevas. Se você lhes aponta a cruz de Cristo o que eles fazem? A abraçam? Ou fogem? Então seres das trevas que fogem da cruz passaram a ser glorificados pela ficção. Até bem pouco tempo atrás os vampiros dos livros e dos filmes eram sempre tenebrosos, horripilantes, assustadores. “Crepúsculo” mudou isso e tornou desejável ser ou admirar alguém que foge da cruz de Jesus. É tudo uma questão da mensagem que é transmitida.

Então vemos que um pano de fundo belo pode ser o cenário para a transmissão de valores bem ruins do ponto de vista bíblico. Por exemplo: já expus em posts como “Cristão deve ouvir música do mundo?” e “O que é boa música evangélica?” que não vejo base bíblica para proibir cristãos de ouvir músicas seculares cujas letras não sejam antibíblicas. Mas isso deve ser sempre com cautela, analisando cuidadosamente e à luz das Escrituras aquilo que se consome. Para fazer um teste sobre isso decidi, por curiosidade pessoal, analisar letras de músicas de um artista que não é do meu gosto musical (e que, por isso, praticamente desconhecia seu repertório), mas que foi indicado por um homem de Deus a quem respeito muito e que gosta dele. Por essa razão decidi analisar as letras de suas canções e encontrei, em meio a muitas músicas inofensivas e bonitas aos ouvidos, também muitas que visivelmente contrariam o Evangelho e seus valores.

Arte3Minha cobaia foi Ivan Lins (que fique claro que nada aqui versa sobre a pessoa desse artista, apenas sobre as letras das canções que interpreta). Fiquei surpreso e assustado com a quantidade de valores antibíblicos em muitas de suas letras. “Vitoriosa”, “Porta entreaberta”, “Dinorah, Dinorah” e “Lembra de mim”, por exemplo, defendem uma sexualidade contrária ao padrão que as Escrituras estabelecem. Ainda nessa área, “Ai, ai, ai, ai, ai” exalta a paixão sexual ultrarromântica, assim como “Arrependimento”, que diz “Te amo, te amo, te amo / Mais que tudo, mais que Deus”.  “A gente merece ser feliz” e “Daquilo que eu sei” defendem o hedonismo. “Caminhos cruzados” advoga o amor irracional. “Acaso” transgride a soberania de Deus ao atribuir ao acaso fatos da vida. “Lua soberana” louva Iemanjá. Em “Ainda te procuro” a alusão é a buscar o amor nas cartas de uma cigana e em “Então é Natal” se insere no meio da música o mantra dos Hare Krishnas, “Hare Rama”. Já “Festas” passa uma noção totalmente equivocada do que é o Natal. A canção “Cartomante” faz um salada ecumênica: “Tenha paciência, Deus está contigo / Deus está conosco até o pescoço / Já está escrito, já está previsto / Por todas as videntes, pelas cartomantes / Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas / No jogo dos búzios e nas profecias”.

E por aí vai.

Ou seja: nem tudo o que parece inocente apresenta valores bíblicos. Em tudo precisamos aplicar o tão falado discernimento.

Agora é preciso observarmos o outro lado da moeda: uma obra de arte apenas relatar histórias de pecados, idolatria, práticas equivocadas e tudo o que há de pior não a condena. Que o diga a própria Bíblia, que relata tudo isso e muito mais, da queda de Adão e Eva aos pecados das igrejas de Apocalipse, passando pelos de Abraão, Moisés, Noé, Jacó, Davi, Pedro, Paulo e muitos outros. O problema, a meu ver, é quando a obra defende a prática.

Arte4Já vi cristãos bons e sinceros desmerecerem livros magníficos, como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura “Cem anos de solidão”, que relata, dentro do realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, histórias extraordinárias e explicitamente fantasiosas com pecados gravíssimos, mas sem estimular ninguém a agir daquela forma. Ou “Crônica de uma morte anunciada”, do mesmo escritor, um excelente livro que fala do comportamento humano ante a morte certa. Ou, ainda, “O amor nos tempos do cólera”, uma linda história que tem como mensagem principal o fato de que o amor verdadeiro não depende de tempo, mas sim da pessoa (Jacó, que teve de trabalhar 14 anos por Raquel, que o diga). Imagine se fossemos condenar todos os livros de Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, por exemplo, por sempre versarem sobre crimes. Sherlock Holmes, a propósito, é viciado em cocaína e há roubos e assassinatos em praticamente todas as suas histórias – mas nunca se faz nelas defesa dessas práticas.

Enfim, o que consigo ver na produção artística de variados segmentos, como a música, a literatura, a pintura, a escultura e outras artes é tanto a defesa (provavelmente inconsciente, na maioria dos casos) de valores antibíblicos (como nas músicas citadas acima) quanto a exposição não panfletária de nudez (como a Vênus de Milo, que pratica topless e deixa seu “cofrinho” à mostra – ver fotos) e a representação de um amor arrebatador, desesperado e ultrassexualizado (como em Cantares de Salomão – na Bíblia). Aliás, para quem lê Cantares entendendo o que lê, o comportamento sexual da família Buendia de “Cem anos de solidão” parece história de ninar. Vênus de MiloDeveríamos remover o livro mais erótico da Bíblia do cânon sagrado por causa disso? Ou, talvez, deixar de publicar a Bíblia? Quem sabe ainda proibir nossos filhos de ler as Escrituras, porque citam sexo, bruxaria, assassinatos, genocídios, adultérios, demônios e outras coisas terríveis?

Uma coisa é defender. Outra é relatar. Creio que, por esse pudor bem-intencionado (é importante frisar isso) porém desconectado da realidade, especialmente da realidade em que vivem os nossos jovens, uma grande parcela da Igreja tem falhado profundamente em orientar as novas gerações. Não é à toa que nossas igrejas estão cheias de adolescentes solteiras grávidas e de adultos que nãos sabem como proceder com relação às artes. Pois enquanto o mundo cai batendo sem piedade, nós ainda falamos da abelhinha do papai pousando na flor da mamãe.

Há uma guerra grave e severa no mundo espiritual e, consequentemente, nas instâncias humanas, por nossos corações e mentes. Falo de camarote: eu mesmo já fui vítima dessa guerra e cometi pecados para os quais hoje, após o arrependimento, olho com muita tristeza, profundo lamento e sem acreditar que fui capaz de cometer tamanhas atrocidades. Só que cometi e hoje, embora perdoado por Deus, carrego as cicatrizes – e para sempre as carregarei. Guerras são assim: deixam mortos e feridos por todos os lados e, se você não está bem protegido num abrigo antiaéreo, será atingido. No caso, nosso abrigo chama-se Jesus de Nazaré. O mundo está usando AR-15 e tanques, enquanto nós entramos com estalinhos e pistolas de água. Fica fácil ver de que lado a corda vai romper, se continuarmos nesse caminho. Temos de proteger nossos filhos para que eles não cometam os mesmos erros abomináveis que nós cometemos no passado – e essa proteção deve ser efetuada não com alienação, mas com oração e as indispensáveis informação e instrução (sempre de forma adequada para cada faixa etária, claro). Por ter cometido pecados que hoje abomino tenho de lutar de forma arraigada para que minha filha não os cometa.

Arte7O problema é que estamos empreendendo essa luta da forma errada. Pois, em grande parte, nós, cristãos, acreditamos que a alienação é a saída: não deixe ter acesso e está tudo certo; proíba a leitura e seu filho nunca vai pecar. Só que alienação não cria jovens santos: cria jovens alienados. Isolamos nossas crianças e nossos adolescentes, em vez de instruir e ensinar. Proibimos em vez de dialogar (como se eles não fossem ler escondido ou na casa do coleguinha). A saída não é propor uma abstinência dos livros que ganharam o Prêmio Nobel só porque eles relatam histórias de pessoas que pecam, mas estimular que leiam e então discutir com eles o que ali está relatado. Quando leio para minha filha de 2 anos a história do Patinho Feio, explico que discriminar os outros porque são fisicamente diferentes é errado, é racismo, mas não a proíbo de conhecer a história. E, quando leio Chapeuzinho Vermelho, falo sobre a maldade do lobo em oposição à bondade de Chapeuzinho, não a proíbo de ter acesso por se tratar de um livro violento (lembremos que o lobo é sumariamente executado no final). Que dizer então do Gato de Botas, um mentiroso frio e calculista que, para se dar bem na vida, inventa mil ardis para enganar o rei, incentiva outras pessoas a mentir, assassina sem piedade o gigante para poder usar o castelo dele em seu plano maligno de ascensão social e no fim… vive feliz para sempre. Leio com minha filha a história, mas explico cada erro cometido, cada equívoco. E, sabe… hoje minha filha não vai muito com a cara do Gato de Botas.

Sou a favor da boa música, secular ou cristã. Sou a favor da boa literatura – secular ou cristã. Sou a favor das boas artes plásticas – seculares ou cristãs. Não deixarei de estimular minha filha a ler a magnífica obra de Gabriel Garcia Marquez, mas vamos conversar muito sobre as mensagens de seus livroArte6s – as boas e as más. Não deixarei de levar minha filha para ver os quadros da fase negra de Goya (ao lado) devido à violência e ao mal retratados neles – mas lhe contarei por que aquelas imagens são assim. Não vou fugir das galerias do Louvre onde estão estátuas greco-romanas de homens nus, mas instruirei minha filha sobre os conceitos estéticos vigentes naquelas culturas e o que podemos tirar daquilo. Bem orientada, não creio que nada disso a tornará uma depravada. Pelo contrário, a deixará instruída e prevenida. Até porque, em paralelo, estarei ensinando a ela o Evangelho, explicando por que Deus mandava seu povo dizimar nações à espada, permitia a poligamia, mandava apedrejar pessoas até a morte, ordenava que cunhados se casassem só para gerar descendentes e outras práticas bizarras que ali são relatadas mas não estimuladas na nova aliança.

Porque, sejamos coerentes, se formos simplesmente proibir nossos jovens de ler livros que contêm violência, relatos de atos sexuais ilícitos e depravados, histórias de pecados horripilantes, descrições extraordinárias de anjos duelando com demônios e relatos de experiências de seguidores de doutrinas de demônios… nenhum deles jamais leria a Bíblia.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio