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Maledicência1Sim, eu creio em maldição hereditária. Não, não estou falando do tipo de maldição hereditária que você está pensando. O conceito amplamente difundido a define, em resumo, como a transmissão de um pecado (e suas consequências) de pai para o filho, depois para o neto, depois para o bisneto e assim por diante, o que abriria as portas para o Diabo agir em sucessivas gerações de uma mesma família. Absolutamente não é sobre isso que desejo falar. Quero tratar aqui de um conceito que eu mesmo inventei, a partir menos da teologia e mais da etimologia, ou seja, do significado das palavras. Assim, creio em um conceito de “maldição hereditária” que elaborei e que vejo como extremamente pernicioso. Permita-me explicar.

“Maldição”, pelo dicionário, pode significar “praga”, que é o sentido mais popular do termo. Só que a palavra tem a mesma raiz de “maldizer” (“maldito” seria, então, alguém sobre quem foi dito algo que não é bom, mas mal, logo, é “mal-dito”). Ou seja, “amaldiçoar” pode ter o sentido tanto de “rogar uma praga” quanto de “falar mal”, “promover maledicência”. E maledicência é a fofoca, a conversa escarnecedora, o tititi maldoso, a crítica destrutiva, o desdém pelas conquistas alheias, a conversação invejosa, as palavras que desqualificam o que é diferente só por ser diferente do que eu sou ou acredito, o desmerecimento de algo que é importante para o outro. Abrange desde o “vou te contar o que fulano fez mas é só pra você orar” até o sarcasmo e a ironia ao se referir ao próximo ou a algo relacionado ao próximo. Falar mal é… falar mal.

Já “hereditária” se refere a algo “que se recebe ou se transmite por herança” ou “que vem dos pais, dos antepassados”. Aqui me permito extrapolar esse sentido “familiar” para algo que se adquire não só de pai para filho, mas que faz parte do DNA cultural de um determinado grupo, ou seja, uma família, uma sociedade, uma turma de amigos ou mesmo uma igreja. Por esse conceito, por exemplo, o hábito de membros de determinada denominação se saudarem uns aos outros com “graça e paz”, “a paz do Senhor” ou “paz e bem” faz parte da hereditariedade desse grupo específico, do seu código genético cultural. É aquela coisa que um começa a fazer, o outro imita e logo todos adotam como algo natural e espontâneo.

Maledicência2Assim, juntando essas duas acepções do termo, o significado que inventei para “maldição hereditária” não tem nada a ver com um pecado ou uma praga passada sobrenaturalmente entre sucessivas gerações de uma família, mas sim à cultura de um grupo humano específico de praticar habitualmente a maledicência. Em outras palavras, o hábito disseminado em um determinado núcleo de pessoas de falar mal de outras. Portanto, sim, nesse sentido eu creio em “maldição hereditária”, pois vejo com muita frequência grupos em que falar mal de terceiros é tão natural como beber água. E estou me referindo a grupos de cristãos.

Sejamos sinceros: falar mal do próximo é algo que absolutamente todo mundo faz, em escalas diferentes e de formas distintas. É natural a seres humanos dizer coisas sobre outros seres humanos que configurem um certo grau de maledicência. Todos nós fazemos isso e negar seria hipocrisia. Mas estou me referindo a um patamar mais grave do problema. O que vejo é que existem certos grupos em que a maledicência, o maldizer, é visto de certo modo como uma virtude, algo natural, desejável e até engraçado. Em que há um certo orgulho por falar mal. É um jeito de ser que cria laços de intimidade entre os integrantes. Eles esperam que os outros membros daquele núcleo falem mal e os que não o fizerem acabam deslocados dos demais. Nesses grupos, o principal alvo de sua língua ferina em geral são os diferentes. Aqueles que, de algum modo, não compartilham daquilo que para os maledicentes culturais é habitual, valioso ou natural – sejam gostos, preferências, estilos de vida, ideias, valores e similares. Tristemente, isso acontece muito no nosso meio cristão.

É importante frisar que não estou me referindo a uma crítica saudável, construtiva ou, até mesmo, a conversas apologéticas válidas sobre aspectos errados ou heréticos de certos setores da igreja. Essa é a boa crítica e não configura falar mal, mas sim apontar erros com boa intenção, por amor à sã doutrina. Eu me refiro a falar mal mesmo, no sentido mais pejorativo do termo. Aquele maldizer que tem um certo veneno, uma “pimentinha”, que é uma boa dose de pura maldade. Você sabe do que estou falando.

Diga-me se estou errado: sente em volta de uma mesa com certos grupos pentecostais e você verá que não demorará muito para que comecem a falar mal dos irmãos de igrejas tradicionais, chamando-os de “frios” e coisas  similares. Desdenhando e, de certo modo, inferiorizando. O mesmo sentimento você encontrará em grupos de tradicionais que maldimaledicência3rão e depreciarão muitos aspectos do meio pentecostal. Outro exemplo é a eterna querela reformados (calvinistas) versus arminianos, em que a maledicência ocorre com uma frequência impressionante em certos círculos. Voam farpas dos dois lados, com comportamentos que vão das piadinhas a comentários agressivos e ofensivos. Uma tristeza.

Uma das áreas em que esse meu conceito de “maldição hereditária” cresce cada dia mais é na musical. A coisa mais comum é você ouvir pessoas que preferem um certo gênero ou estilo no louvor falar tudo o que você possa imaginar de ruim de quem não aprecia o mesmo. Esse sentimento de “tribo”, de “os nossos certos e os deles errados” vem impregnado muitas vezes de sarcasmo, desprezo, piadinhas e desmerecimento, seja por músicas, seja por músicos, seja por quem gosta do que o maledicente não gosta. Uns acusam outros de superficialidade; outros acusam uns de estagnação e anacronismo. Sempre com palavras nada amorosas. Uma tristeza.

Que dizer então de teorias teológicas? Perco a conta do número de vezes em que ouvi maledicências de certos grupos de cristãos acerca daqueles que não acreditam no que eles acreditam no que se refere aos mais variados aspectos da teologia cristã. E volto a dizer: não estou me referindo a divergências respeitosas e saudáveis, mas a conversas ferinas, depreciativas, cheias de desdém. Os pontos de controvérsia são muitos, e vão de línguas estranhas a teorias escatológicas; de crenças à discordância sobre a forma de batismo em águas; de opiniões sobre como escolher o cônjuge a visões sobre como deve ser a liturgia do culto. Uma tristeza.

E há a maledicência motivada por questões insignificantes. Já ouvi tititis porque o marido passou o braço pelos ombros da esposa durante o culto, ou veneno destilado sobre a roupa do irmão beltrano, sobre o cabelo de sicrana… o céu é o limite quando se trata de temas para maledicentes. Porque todo amante da maledicência tem algo em comum: não importa muito o tema, desde que possa falar mal. Uma tristeza.

Enfim, tenho visto grupos e mais grupos que têm em sua natureza o pecado da maledicência visto como algo normal e aceitável – até mesmo um elemento de união entre seus membros. Só que não é. Falar mal é, biblicamente, um horror. Veja:

maledicência4“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar” (Cl 3.8). Viu ali a maledicência? Pois o falar mal é diretamente associado à natureza terrena e a práticas terríveis, como a ira e a avareza.

Salmos 62.3-4 vai além e indica que o maldizer é uma atitude clara de hipocrisia e falta de amor ao próximo – ou seja, é um pecado contra o Grande Mandamento: “Até quando acometereis vós a um homem, todos vós, para o derribardes, como se fosse uma parede pendida ou um muro prestes a cair? Só pensam em derribá-lo da sua dignidade; na mentira se comprazem; de boca bendizem, porém no interior maldizem”.

Mas tem mais. Em 1Timóteo 5.14, falar mal dos outros é diretamente denunciado como uma prática satânica: “Quero, portanto, que as viúvas mais novas se casem, criem filhos, sejam boas donas de casa e não dêem ao adversário ocasião favorável de maledicência”.

Diante disso tudo, fica claro que o falar mal do próximo, em todas as suas acepções (com piadas, sarcasmo, ironia, maldade, falsa intenção de exortação ou o que for) é abominação para Deus.

maledicência5Agora, por favor, preste atenção a algo: o objetivo deste texto não é estimular você a olhar para o lado e ficar apontando e acusando tal e tal pessoa ou grupo que seja praticante dessa “maldição hereditária”. Isso não teria nenhuma utilidade para o evangelho ou para a sua vida espiritual. Caso você detecte que há grupos de maledicentes por perto, o mandamento do Senhor quanto a eles é claro e objetivo: “Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” (Lc 6.26-28). Não há margem para interpretação. O mandamento cristão é: se falarem mal de você, fale bem deles.

O que desejo com este post é levar você a refletir e responder à seguinte pergunta: “Será que eu faço parte de algum grupo que pratica habitualmente e/ou prazerosamente a maledicência?” Se você percebe que a pecaminosa prática da maledicência faz parte de um determinado grupo a que você pertença (seja família, turma de amigos, colegas ou mesmo os membros da sua igreja), o que deve fazer? Há dois caminhos a seguir.

Primeiro: converse com os que tais coisas praticam e os alerte sobre quão maligno é o que fazem. Traga à lembrança deles que é preferível calar do que maldizer: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29).

Segundo: se ainda assim os tais não ouvirem sua exortação e continuarem adeptos dessa cultura de “maldição hereditária”, afaste-se do grupo. Mateus 18 diz: “Se teu irmão pecar [contra ti], vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano”. Pois é melhor se afastar dos que amam falar mal dos outros do que permanecer contaminando-se com essa prática horrível. Em Mateus 5.29, Jesus recomenda: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno”. Arranque-se do grupo dos maledicentes antes que você sofra as consequências.

Maledicência0Que consequências? Vamos ouvir Tiago: “Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum!” (Tg 1.26). Em outras palavras, o irmão de Jesus está dizendo que a religião dos que não conseguem ficar calados se não têm algo edificante a dizer… não vale nada. Logo depois, ele dá o ultimato: “Com a língua bendizemos o Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim!” (Tg 3.9-10). No grego original, a palavra traduzida aqui por “bênção” é eulogia, que significa “fala elegante”, ou “discurso justo”. Já “maldição” foi traduzida de katara, que quer dizer “execração”, ou seja, “ódio profundo” ou “aversão exacerbada” (segundo o dicionário Houaiss). Dá para conciliar uma fala elegante com outra que carregue em si ódio e aversão? Biblicamente, não.

Chama minha atenção a frase final de Tiago: “Meus irmãos, não pode ser assim!”. Repare, primeiro, que ele está se dirigindo a cristãos, o que prova que esse mal ocorre em nosso meio. E, segundo, ele afirma que não se pode amaldiçoar. Falar mal. Maldizer. Isso está errado. Precisamos mudar, se o fazemos. Precisamos exortar em amor os que o fazem. E, se continuarem se orgulhando e praticando a maledicência, devemos nos afastar da roda dos escarnecedores que existem em nosso meio.

Pare por um momento de pensar nos maledicentes que você conhece. Faça, isso sim, uma análise de si mesmo e de seu procedimento. Se você perceber que tem seguido o caminho da maledicência e decidir parar com isso, a teu respeito dirá a Palavra de Deus: “Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito” (Tg 3.2). E, se você decidir não se assentar mais na roda dos escarnecedores, a teu respeito diz a Palavra de Deus: “É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera” (Sl 1.3). Reflita e responda: como você prefere ser conhecido nos céus: como alguém perfeito, que dá fruto e cujas folhas não murcham… ou como alguém que pratica o mesmo que o Diabo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Musica-AmorUma das razões que motivam nós, evangélicos, e enfatizar tanto o evangelismo é o desejo de compartilhar com as demais pessoas o que consideramos excelente. Eu, pessoalmente, não compartilho o amor de Cristo e as boas novas de salvação com ninguém porque ele assim ordenou, porque o ide é um mandamento, mas porque venho experimentando de tal forma as maravilhas da graça em minha vida que tenho enorme alegria de compartilhar algo que é tão, mas tão bom. Jesus fez a diferença em minha vida; quero que ele faça a diferença na dos demais. É uma expressão de amor e de cuidado pelo próximo.

De igual modo, sempre que descubro algo bom e que me toca tenho prazer e alegria de compartilhar com os irmãos. Fim de semana passado fui fazer uma preleção na Igreja Cristã Nova Vida de Mesquita, município do estado do Rio, e fiquei encantado com a arte do irmão que fez o louvor no início da programação. O nome dele é Fábio Muniz e é membro da Assembleia de Deus em Queimados (RJ). Nós não nos conhecíamos e, ao final, Fábio carinhosamente me presenteou com um CD dele (eu, vergonhosamente, não o presenteei com nada, pois não tinha levado nenhum dos livros que escrevi). Cheguei em casa e fui ao YouTube para ver se havia vídeos dele. Para minha alegria encontrei alguns. Então resolvi compartilhar com você o prazer que é ouvir esse irmão talentoso e simples, de uma capacidade singela de nos conduzir em louvor ao Senhor. Se você puder, vale a pena assistir a esses dois vídeos.

A primeira canção, “Descanso”, ele entoou no momento de louvor que tivemos. A segunda, “Jesus”, conheci assistindo no YouTube, e mostra a criatividade desse músico. A letra de ambas é simples, bíblica e diz tudo.

Gosto de compartilhar o que é bom. Por isso, hoje compartilho Fábio Muniz.

Descanso:

Jesus:

[Aproveito para deixar um abraço carinhoso para os irmãos da ICNV Mesquita, que me receberam com um amor tão transbordante que me fizeram sentir pequenininho ante vocês, em especial os simpaticíssimos e agora muito queridos Daniel e Adriana, Paulo (que Deus te recompense por sair de madrugada para me trazer em casa, tão longe, que coração grande esse teu, mano), o Pr. Jorge Duarte (um dos mais eficientes plantadores de igrejas que já conheci e, ao mesmo tempo, homem de uma simplicidade que nos humilha) e tantos outros que me presentearam com seus abraços e sorrisos. Vocês ganharam meu coração.]

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Muitos irmãos perguntam o que entendo ser “boa música evangélica”. Essencialmente, me baseio em três fatores como critério. Primeiro: a letra tem de ser bíblica. Segundo: a letra tem de ser bíblica. Terceiro: a letra tem de ser bíblica. Pronto. Quando falo isso, a reação em 100% dos casos é uma cara de espanto ou um riso e a pergunta “ahn, só isso?”. E aí começa uma série de perguntas, como “mas o compositor não tem que ser crente?”, “e se for uma versão de uma música secular?”, “e se o cantor estiver vivendo em pecado?” e outras que você certamente já conhece. A esse respeito já discorri bastante no texto “Cristão deve ouvir música do mundo?“, mas volto ao assunto para fazer mais algumas observações sobre o tema.

Quando falamos de “música evangélica” estamos nos referindo basicamente a quatro tipos de canções, cada um com uma finalidade específica. Primeiro, pode ser um louvor (palavra que etimologicamente significa “elogio”) e, nesse caso, precisa necessariamente ser teocêntrico. Ou seja, tem que ter como foco Deus (Pai, Filho ou Espírito Santo). Pois cantar um louvor é exaltar a pessoa de Deus e/ou os seus feitos. Não se pode dizer que um louvor é uma música que fale sobre a vida de Sansão, por exemplo. O louvor torna-se, assim, o tipo de música cristã básico e principal nos cultos, uma vez que a finalidade das reuniões públicas que chamamos “culto”, por definição, é a adoração e a exaltação do Senhor.

“Músicas evangélicas” também podem ser canções acerca de temas bíblicos mas que tenham um caráter didático. É o caso, por exemplo, de cantigas infantis, que servem para ensinar histórias bíblicas ou verdades da fé para crianças, como “Homenzinho torto“. Nesse caso, os holofotes não estão especificamente sobre o Senhor, como no louvor, mas também no homem, para cuja edificação e aprendizado essas canções foram compostas. Louvor é algo para Deus; músicas de caráter didático são sobre Deus para o homem.

Há ainda um terceiro tipo, que não é nem louvor nem algo didático, mas simplesmente músicas que se referem a realidades do universo cristão. Nesse terceiro grupo há variações, como as que servem para edificar, consolar ou exortar os que ouvem – como “O mover do Espírito” (“Quero que valorize o que você tem, você é um ser, você é alguém tão importante para Deus…”) – ou as que promovem a comunhão – como “Visitante” (“Visitante, seja bem-vindo, sua presença é um prazer…”).

Por fim, o quarto grupo são músicas cujas letras remetem às coisas de Deus mas servem para o entretenimento e o prazer de quem escuta, como aquelas canções que alcançam sensorialmente e esteticamente quem ouve – da mesma forma que uma composição de Tom Jobim faria – e podem trazer elementos dos outros três tipos. Em geral, contam com um apuro harmônico e uma poesia fina nas letras. É o caso de “O Tapeceiro“, de Stênio Marcius.

Nenhum desses tipos de música cristã é depreciativo. Eles diferem essencialmente em sua finalidade. É bom que Deus seja enaltecido e louvado. É bom que aprendamos sobre as coisas de Deus. É bom que haja canções que nos remetam e conduzam para o universo da fé. E é bom que as Escrituras inspirem artistas a criar obras que nos proporcionem deleite.

Algo que costuma confundir muito as pessoas é a divisão da música cristã em “hinos” e “corinhos”. Isso não existe. É simplesmente uma convenção cultural, que classifica entre os “hinos” as canções mais antigas ou que constam de algum hinário cristão e “corinhos” algo mais recente, que de repente foi lançado em CD e toca (ou tocou) nas rádios. Assim, essa é uma mera convenção cronológica, mas não existe absolutamente nenhuma diferenciação espiritual entre uma música da Harpa Cristã e uma cantada por Heloisa Rosa, por exemplo. Em si mesmas, nada as difere enquanto finalidade.

A questão do estilo também incomoda muitos. Mas, para entender isso, precisamos observar algo sobre música. Toda música é composta de ritmo, melodia e harmonia. Em termos bem populares, podemos dizer que o ritmo é a “batida”, a “velocidade”; a melodia é o “lá lá lá”, aquilo que você assobia quando lembra de uma canção; e a harmonia é o conjunto de todas as melodias envolvidas na formatação final. Existem conceitos periféricos, como o arranjo, que é a forma de se apresentar uma mesma música, organizando esses três itens juntos (um hino do século 16 pode ser tocado como rock, por exemplo, dependendo do arranjo que se faz).

Assim, um estilo não define se uma música é ou não cristã, louvor ou o que for. É uma mera forma de se apresentar uma canção. Você encontra músicas evangélicas de estilos bem variados. “Leão da Tribo de Judá” (“Ele é o Leão da Tribo de Judá, Jesus quebrou nossas cadeias e nos libertou…”) é um rock. Já “Fonte de água viva” (“Aquele que tem sede busca beber da água que Cristo dá…”) é axé, igualzinho a Timbalada (e não faça careta, é o que é), embora possa ser tocada como reggae (ouça aqui). “Desemborca o vaso” (“Desemborca o vaso, dê glória, e seja cheio até transbordar…”) é forró. E por aí vai. Em geral, este é um aspecto que gera muita rejeição. Uns defendem que rock é do diabo, por exemplo, mas cantam na igreja, sem se dar conta, diversas músicas cristãs que têm estilo rock. Biblicamente não se pode desmerecer um estilo, trata-se de gosto pessoal. Como já ouvi, “não existe fá maior do diabo e dó sustenido de Deus”.

Assim, há quem goste dos “corinhos de fogo” (que nada mais são do que músicas em ritmo de forró e letras bem pentecostais). Há quem prefira o tipo pop mais comum, como as canções de Diante do Trono, Kleber Lucas e Marquinhos Gomes. Ou os que só considerem audíveis as que são estilo MPB, como Gerson Borges e Glauber Plaça. É geralmente no quesito “gosto pessoal” que surgem os maiores problemas. Quem gosta dos “corinhos de fogo” vai dizer que Gerson Borges é “frio e sem unção”. Quem gosta de João Alexandre vai dizer que Fernanda Brum é “música pasteurizada, clichê e sem criatividade” (e que fique claro que, naturalmente, estou generalizando).  E por aí seguimos, numa discussão que nunca terá fim.

Eu, particularmente, não gosto do que canta Cassiane. Não gosto de alguns hinos da Harpa Cristã. Mas o que eu gosto é absolutamente irrelevante para definir se uma música cumpre o seu propósito para com Deus. Gosto pessoal não entra na equação. Um louvor, por exemplo, não tem que me agradar ou agradar você, tem que agradar Deus. Então posso muito bem cantar algo que não me toca a alma mas racionalmente sei que engrandece o Senhor. É um erro achar que “boa música evangélica” é a que nos leva a um estado de profunda emoção ou catarse. Ela pode ou não fazer isso – o que não quer dizer nada em termos espirituais. Quando ouço árias de ópera, como “Nessun dorma” ou “Vesti la giubba” me emociono profundamente e choro com frequência – o que não quer dizer nada em termos espirituais, Placido Domingo não tem mais unção por causa disso. É simplesmente algo que move meu coração poeticamente e liricamente. A exata mesma coisa se dá com músicas cristãs: uma canção de Michael W. Smith me conduzir às lágrimas não atesta nada sobre sua unção, simplesmente é algo que me comove – o que não quer dizer que não tenha unção, simplesmente lágrimas não são o termômetro que define o “grau” de unção de uma música.

Estamos muito acostumados ao emocionalismo. Fomos ensinados que “unção” tem a ver com o que eu sinto na hora em que canto. Nada menos verdadeiro, senão o violino do judeu Yitzhak Perlman tocando o tema de “A lista de Schindler” ou “Por una cabeza“, de Carlos Gardel, seria a coisa mais ungida do mundo. Temos de repensar, reaprender isso: o que sinto num momento de louvor não importa perto do que eu afirmo racionalmente. Louvor é algo racional. Música didática é algo racional. Se houver emoção, ótimo, quem não gosta? Mas se não, não faz biblicamente nenhuma diferença.

Em resumo, entendo que “boa música evangélica” é a que cumpre a finalidade para a qual foi composta – e é bíblica. Se foi concebida para ser um louvor, deve exaltar Deus e seus feitos de modo que a criatura agrade o Criador. Se foi concebida para ser didática, deve ensinar bem quem ouve acerca do que transmite. Se foi concebida para levar os irmãos à comunhão, deve fazê-lo de forma ordenada e natural. E se foi concebida para ser ouvida e apreciada, deve ser bela aos ouvidos de quem ouve. Tudo isso independentemente de estilo, ritmo, melodia, quem canta, quem compôs, se é ou não versão e muito menos se provoca emoção. Mas, sempre, tem de ser bíblica. Se não for… não é música cristã.

Para terminar, compartilho aqui algumas músicas cristãs de que gosto (repare que usei propositalmente o verbo gostar) e que se encaixam no que defendo neste texto. Escolhi artistas bem variados (posso gostar deles ou não).

Entre os louvores, posso dar o exemplo de “Vencendo vem Jesus”. Muitos não sabem, mas ela é uma versão de uma música secular. Conhecidíssima, trata-se de uma canção de batalha da Guerra Civil americana que fala sobre a morte de um soldado chamado John Brown – mas que teve sua letra trocada para uma de temática cristã por uma irmã em Cristo chamada Julia Ward Howe e hoje está em hinários como a Harpa Cristã. Mostro aqui duas versões, repare a diferença de estilo. Primeiro algo bem pop rock, na voz de Kleber Lucas:

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Note que a mesma música aqui é cantada com um arranjo muito diferente, na voz de Mattos Nascimento:

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Outro louvor: “Agnus Dei” (em latim, “Cordeiro de Deus”), de Michael W. Smith, uma música de letra simples mas de profunda exaltação ao Senhor. Diz, simplesmente: “Aleluia, pois nosso Senhor, o Deus Todo-Poderoso, reina. Santo, Santo és tu, Senhor Deus Todo-Poderoso. Digno é o Cordeiro”.

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Do segundo grupo, músicas didáticas, “Quisera ser como Sansão”:

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Do terceiro grupo, escolhi, primeiro, “Galhos secos”, na voz de Paulo Cesar Baruk:

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Ainda no terceiro grupo há canções como “Perfeito amor”, de Oficina G3:

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Por fim, no quarto grupo, há “Janelas”, do querido e talentoso Gerson Borges. Interessante é que, para quem não conhece, é uma canção que poderia passar até por secular. Mas na verdade se refere à parábola do Filho Pródigo:

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Termino dizendo apenas que meu desejo utópico é que as diferenças de opinião acerca da música evangélica (eu prefiro a designação “música cristã”, a propósito) não nos desunissem enquanto Igreja. Que respeitássemos os gostos pessoais, abraçassemos verdades e não achismos e que tivéssemos mais tolerância com aquilo que não nos agrada pessoalmente. Que parássemos de gastar tempo discutindo sobre se uma canção é versão de música secular ou não (muitas das que você canta são, sem saber, inclusive dos hinários como Harpa Cristã e Cantor Cristão) e outras questões que não têm nenhuma importância. Deveríamos nos lembrar sempre das palavras do rei Davi: “Um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás” (Salmos 51.17) e ter a certeza de que, se de um coração como esse parte um cântico a Deus, certamente Ele não desprezará o que se canta. Infelizmente, quando vejo conversas sobre música evangélica é mais para levantar polêmicas e gerar desacordos do que para promover a união e a unidade do Corpo. E, assim, a glória de Deus.

A música é bíblica? Cumpre seu propósito espiritual? É entoada por um coração quebrantado? É cantada para a glória de Deus e não dos homens? Então que a cantemos com paz na alma e a certeza de que Deus agrada-se de nosso perfeito louvor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Este fim de semana li uma afirmação curiosa. Dizia que  “simplesmente depressão não pode existir num coração preenchido pelo Espírito Santo”. A verdade é que essa é uma frase totalmente antibíblica, sobre um assunto sério que afeta tantas pessoas. Mas infelizmente esse é um pensamento que reflete a teologia atual de enorme parte da Igreja brasileira e que condena multidões de pessoas a um sentimento de culpa e a um cruel distanciamento de Deus. No mesmo contexto, o autor do texto usou termos consagrados pelas igrejas neopentecostais para adjetivar gente que está passando por momentos de aflição, como “derrotado” e “fracassado”, e emendou que o texto de “um homem que aceita essa condição e passa a viver depressivamente é a mais triste das coisas que eu li na vida”. Como essa visão reflete aquilo que é pregado em muitos púlpitos, quem lê coisas como essas acaba sendo levado a uma reflexão sobre como os cristãos enxergam a depressão: afinal, é possível um servo de Deus viver períodos de depressão? Isso faz dele um “derrotado” e “fracassado”? Como funciona isso? E como devemos tratar como cristãos quem está passando por essas fases de depressão?

Vemos nas Escrituras muitos e muitos homens de Deus, cheios do Espírito Santo, passarem por longos períodos de depressão. Elias pediu a morte quando fugiu da humanidade e só queria dormir e esquecer da realidade. Paulo passou uma semana sem apetite nem ânimo após se confrontar com a duríssima verdade de que o propósito de sua vida até aquele momento tinha sido vão. Pedro chorou amargamente e em dilacerante depressão após cruzar seu olhar com o de Jesus após o galo cantar. José do Egito com certeza não ficava soltando fogos na escravidão ou na prisão. Ana, de tão triste e deprimida, chorava  desbragadamente, a ponto de Eli a confundir com uma bêbada. Maria e Marta estavam tão deprimidas com a morte do irmão e a ausência do Senhor que o estado emocional delas chegou a comover Jesus e o levou às lágrimas de compaixão. Desnecessário dizer como a alma do homem reto, temente a Deus e que se desviava do mal Jó foi abatida até o limite. Davi, então, nem se fala, basta ler o salmo 51 para ver como o homem segundo o coração  de Deus entrou numa espiral de depressão após a crise de seu pecado e a morte do filho – aliás, os salmos contêm dezenas de cânticos escritos em agonia depressiva. Em resumo, a Bíblia nos mostra muitos homens e mulheres de devoção sincera a Deus que viveram períodos de acachapante depressão sem que isso os desqualificasse aos olhos do Senhor ou fizesse deles “derrotados” ou fracassados”.

O mesmo ocorreu com grande homens de Deus ao longo da História da Igreja. Charles Spurgeon viveu décadas em depressão profunda devido à sua saúde e a da esposa. Agostinho fala claramente sobre suas depressões e crises existenciais em “Confissões”. João da Cruz chega a escrever sobre o terrível estado de espírito que chamou de “a noite escura da alma”. O relato de vida sofridíssima de David Brainerd é uma inspiração para todos nós até os nossos dias. O que dizer então de John Bunyan em seus anos na prisão? Martinho Lutero em seu exílio voluntário para fugir da fúria papista produziu escritos magníficos, inclusive a tradução da Bíblia para o vernáculo. William Cowper, o deprimido poeta cristão sofredor, que exemplo! Todos gigantes da fé, que viveram enormes ondas de depressão. E… “simplesmente depressão não pode existir num coração preenchido pelo Espírito Santo”? Desculpem, mas isso simplesmente não é verdade.

Deus faz as coisas de modo surpreendente. No dia em que li essas palavras estava na casa de um grande amigo, onde fiquei de manhã até a noite em um sarau, cantando, tocando violão e conversando. Entre os poucos presentes estava um dos meus cantores preferidos de música cristã no Brasil, intérprete de muitas das canções evangélicas mais bíblicas e belas que conheço. Conversamos muito e ele me contou como compôs algumas de suas músicas. Lindo é que as mais profundas, as minhas favoritas, as que mais tocam o meu coração e me aproximam de Deus foram escritas em momentos em que ele se encontrava em uma depressão tão terrível que se eu relatasse as histórias te fariam chorar como eu chorei diante dele. Não posso contar quem esse cantor é ou que músicas são porque ele me pediu que não dissesse a ninguém, justamente pelas ideias erradas que o cristão tem sobre a depressão, como se ela fizesse de você um crente de segunda classe, sem fé ou distante de Deus. Foi uma bela ironia.

Biblicamente, a depressão é uma escola de Deus. Não, meu irmão, minha irmã, você não é um derrotado sem fé porque as circunstâncias da vida te levaram a esse ponto. Nunca deixe que te enganem com esse pensamento oriundo da Teologia da Prosperidade e da Confissão Positiva. Bons homens e mulheres de Deus se deprimem e, em meio a esse processo, Deus trabalha profundamente em suas almas e emoções. Estar deprimido não é motivo para se considerar menos espiritual, como se o cristão tivesse de viver sempre feliz da vida, sorrindo a toda hora. Isso é um conceito antibíblico fruto de uma teologia apócrifa. Deprimir-se simplesmente mostra que você é humano e dependente da graça de Deus. Se você está deprimido e sem forças, saiba que não é porque “depressão não pode existir num coração cheio do Espírito Santo”, mas sim porque você está na escola de Deus e no mais profundo do seu abatimento o Senhor está te ensinando lições importantíssimas. Todo barro para ser remodelado precisa ser amassado pelo oleiro.

Curioso é que o mesmo texto onde li essa frase sobre depressão diz ainda e paradoxalmente que “a realidade às vezes devora a vida. Às vezes a gente ‘despenca’ até o pó e lá o Senhor nos lembra coisas que o nosso coração fraco quer nos fazer esquecer”. E essa, por outro lado, é uma grande verdade. Quando você é humilhado, entristecido, moído, tratado com injustiça e desamor, na maioria das vezes não é o diabo o responsável, mas o Senhor, que em seu infinito amor disciplina todos os que ama. Deus muitas vezes nos leva propositalmente à tristeza, como Paulo prova em 2 Coríntios 7 – ao falar sobre a tristeza segundo Deus:

“Vocês se entristeceram como Deus desejava, e de forma alguma foram prejudicados por nossa causa. A tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte. Vejam o que esta tristeza segundo Deus produziu em vocês: que dedicação, que desculpas, que indignação, que temor, que saudade, que preocupação, que desejo de ver a justiça feita! Em tudo vocês se mostraram inocentes a esse respeito”. (2 Coríntios 7.8-10)

Nem sempre a depressão vai desvanecer-se simplesmente pelo fato de botarmos o joelho no chão: só vai acabar quando a soberania de Deus determinar, quando tivermos chegado ao ponto em que Ele quer. Jó passou mais de 40 capítulos falando com Deus sobre sua míséria e não foi por isso que o Senhor virou seu cativeiro. Davi orou, clamou e se humilhou mas ainda assim o Pai levou seu filho e, no episódio do recenseamento, ele teve de amargar o juízo do Alto. Paulo clamou três vezes, afligido pelo espinho na carne, e só ouviu como resposta “a minha graça te basta”. Temos de orar sem cessar. Mas nem sempre a oração fará as coisas acontecerem como queremos: a soberania de Deus fará. Oremos sim. Mas sem achar que isso é uma fórmula mágica para um suposto “coração vazio do Espírito Santo”.

Querido irmão, querida irmã, se você está enfrentando depressão, não se culpe. E jamais permita que te façam sentir culpado. Você não é. Estar deprimido não quer dizer que você se esqueceu das palavras de vida eterna que o Senhor te disse. Também não quer dizer, nem de longe, que você aceitou ou se conformou com essa condição. Muitos vão te julgar sem saber o que se passa na tua alma ou que circunstâncias da vida te levaram a esse ponto e, como os amigos de Jó, vão dizer que você está fazendo tudo errado e até te acusar de ser abominação ao Senhor. Deixe que falem. Só você sabe por onde passou, onde errou, onde acertou, sabe que a vida não é cartesiana e que 1+1 nem sempre é igual a 2, embora seja o mais fácil para os outros especularem. Só você sabe onde dói o calo – e mais: como aquele calo foi parar ali. Elifaz, Bildade, Zofar e a esposa vão te dizer palavras de acusação. E tua resposta deve ser sempre a de Jó: “Temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?”. Não quer dizer que você está se fazendo de vítima. Só você sabe das circunstâncias. Não introjete as acusações. Deixe que falem. A sua conversa e a sua caminhada devem ser com Deus somente e com aqueles que te demonstrarem amor apesar de tudo, amor incondicional, aqueles que sabem quem você é apesar de não te reconhecerem em meio aos momentos de reestruturação que você vive pela depressão. Porque ningúem fica como sempre foi durante os períodos de depressão. E é o amor, e não acusações, que vai ajudar nisso.

A civilização ocidental abomina a depressão. Muitos cristãos abominam a depressão. O que é previsível, pois vivemos numa sociedade hedonista, onde tristeza, melancolia e não estar com “alegria todo dia” é visto somente como um mal e não como um processo necessário de melhoria e avanço espirituais. Pois a Bíblia é claríssima quando mostra o poder terapêutico da depressão. Não a depressão patológica, mas aquele estado de alma em que somos cuidados, moldados, lapidados, aperfeiçoados e tratados por Deus. E entenda: a depressão patológica levou Judas a se enforcar, enquanto a depressão que é fruto da já citada “tristeza segundo Deus” leva Pedro a pregar e três mil almas se converterem. Ninguém gosta de ficar pra baixo, mas a questão é saber como usar isso em favor de seu crescimento espiritual. Deus sempre usou meus momentos de depressão, por exemplo, para mostrar sistematicamente quem se importa de fato comigo ou não, quem é amigo e quem não é, quem me ama e quem não ama. E sou grato ao Senhor por isso.

Muitos cristãos são tão implacáveis com a depressão dos irmãos que, se alguém está deprimido, suas palavras sobre vida com Deus param de alcançar os corações, porque os santos acham que os deprimidos desistiram aos poucos de coisas que são importantes e se entregaram ao sofrimento, como se tivesse sido uma opção – e fazem esse julgamento sem conhecer em toda sua extensão o furacão que os arremessou sem que quisessem e contra todas as suas vontades ao lugar de dor em que se encontram.  Além da depressão em si ainda têm de suportar acusações e julgamentos infundados. E isso dói mais do que a depressão. Mas é o que os cristãos tão cumpridores de bulas religiosas têm feito em vez de estender carinho e graça.

Às vezes é preciso que você passe um tempo na barriga do peixe, no monturo, no cenáculo, pastoreando ovelhas em Midiã, na sepultura, no deserto ou numa caverna sendo alimentado pelos corvos. Isso não é fugir, faz parte do processo de reestruturação e não é demérito algum. Muitos têm concepções próprias de felicidade que atribuem como sendo de Deus. Creem ser o padrão bíblico. Acreditam de fato em teologias as mais diversas ou mesmo que por cumprirem certas cartilhas legalistas estão cumprindo a vontade de Deus. Estou orando e jejuando, então estou fazendo a coisa certo. Deixe que creiam, descobri na prática que não adianta dizer a verdade. Chega uma hora em que você entrega cada um a sua própria sorte. A concepção de cada um é a concepção de cada um e só Deus pode nos ensinar.

Desista de querer mudar os outros, hoje eu sei que isso não funciona. Só quem muda é o Espírito Santo. E – surpreenda-se – muitas vezes Ele usará a depressão para isso. Pessoas que seguem manuais preconceituosos de vida cristã serão surpreendidos ao se verem vivendo depressões profundas, por não entenderem que a vida é dinâmica e não basta seguir os livrinhos de escola dominical, as apostilas dos cursos pré-nupciais ou os livros com “sete passos para a vitória” para tudo dar certo. E, quando a depressão vier para os outros, não cometa os erros que cometeram com você: não acuse, não pise, não diga que eles não têm o Espirito Santo no coração, não os julgue – pois você não sabe o que eles viveram e vivem. Simplesmente dê amor, é o que um cristão vivendo uma fase depressiva precisa até que ela acabe.

Ao final da depressão de Elias, o Espírito Santo, que nunca abandonou o coração daquele homem, envia um anjo, que o sacode e decreta o fim do período e o início de uma nova etapa: “Levanta-te e come, porque o caminho te será sobremodo longo”. E esse é o mesmo Elias que foi amado e cuidado pela viúva de Sarepta e dos lábios dela ouviu: “Nisto conheço agora que tu és homem de Deus e que a palavra do Senhor na tua boca é verdade”.

Se você sabe quem você é, conhece seu Deus e está seguro do seu relacionamento com o Senhor mas está vivendo um processo terapêutico de depressão… não se deixe afetar pelos que te põem mais para baixo, que julgam pela superficialidade e o pragmatismo e, por não saberem de todos os detalhes e as circunstâncias da tua dor, enxergam apenas os lugares-comuns – e, por isso, pisam em cima e te afundam ainda mais. Aproxime-se dos que te dão amor, pois esses vão se preocupar em ir fundo na sua alma para compreender melhor sua situação antes de te soterrarem de clichês que não ajudam em absolutamente nada – e ferem. Continue na jornada com Deus. Chore o quanto for preciso. Esqueça as cartilhas pré-fabricadas de felicidade ou as frases feitas sobre o “padrão cristão”. Lembre-se da beleza do fato de que você é único e que a graça vai lidar com você de forma única. Deus te conhece pelo nome. Deus sabe onde dói a tua dor. Por isso, Ele é o único que te entende e pode te ajudar plenamente. E, ao final, levante-se e ande – com todo o aprendizado obtido na escola de Deus – pois teu caminho será sobremodo longo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício.
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