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Formiga1Um programa de rádio evangélico me convidou para responder perguntas de ouvintes sobre casamento, família, relacionamentos, sexualidade e temas correlatos. Minha reação imediata foi recusar, por me sentir totalmente incompetente e indigno de fazê-lo – e já explico por quê. Mas o pastor responsável pelo programa insistiu que fosse eu. Diante disso, orei e pensei bastante sobre o assunto. Decidi ir em frente, pelas razões que compartilho com você neste texto. É possível que a linha de raciocínio que me fez aceitar o convite lhe seja útil em alguma situação que esteja vivendo ou venha a viver.

O primeiro motivo que, de cara, me fez querer recusar o convite foi a consciência de que há muitas pessoas infinitamente mais bem preparadas do que eu para falar sobre os temas referidos. Não digo isso com nenhuma falsa modéstia, é a mais pura constatação da realidade. Há tanta gente gabaritada, que estudou psicologia, que trabalha há anos com aconselhamento familiar, pastores e líderes, pessoas qualificadas e experientes. Eu, por outro lado, não sou um “especialista” em vida familiar, não sou sexólogo, tampouco cultivo um ministério na área de casais… nem ao menos um cargo eclesiástico tenho. Sou só uma ovelhinha balindo por aí. Então, a total consciência de que não sou a melhor pessoa para falar sobre esses assuntos me levou a dizer ao pastor responsável pelo programa que eu não era o convidado certo.

Como ele insistiu, orei e comecei a pensar em tudo aquilo que aparece em nosso caminho e que não nos sentimos qualificados para fazer. Isso já aconteceu com você? Em geral, é algo que ocorre em qualquer área de nossa vida (já teve de trocar uma tomada sem saber nada de eletricidade ou consertar a descarga do vaso sanitário sem entender a diferença de um parafuso para uma mola? Esse sou eu…). E, na vida eclesiástica, em especial, isso acontece com muita frequência. É quando, por exemplo, seu pastor te chama para liderar um departamento na igreja sem que você se sinta capaz. Ou quando um irmão te convida para participar do evangelismo e você não acha que dá conta. Ou mesmo quando a líder da escolinha infantil lhe oferece a possibilidade de ajudá-la no cuidado com os pequenos e você percebe que nunca educou uma única criança sequer na vida. Tarefas que você se sente incompetente para executar, mas que são postas nas suas mãos: e aí, o que fazer?

Formiga musculaçãoNão tenha absolutamente nenhuma dúvida de que o melhor é você ser um especialista, alguém que se preparou, estudou, leu muito sobre o assunto. Claro que há dons naturais, concedidos por Deus, mas se aprofundar no que precisa ser feito é o melhor dos mundos. Se o pastorado surge em seu caminho, melhor é que faça um seminário teológico, leia tudo o que puder e se dedique a cuidar de vidas humanas. Se é chamado para dar aulas, o ideal é que faça cursos e especializações pedagógicas. Se te convidaram para tocar no grupo de louvor e você sente que poderia ser um músico ainda melhor, procure estudar com um professor. E por aí vai. Seja qual for a atividade que te chamaram para realizar, o ideal é que você se aprofunde, leia livro atrás de livro sobre o assunto, estude, dedique-se, pratique, faça o que estiver ao seu alcance para se desenvolver. Mas, e se você não for um especialista e Deus, ainda assim, te chamar para realizar uma tarefa? Será que Deus errou? Não creio. Então, se o Senhor entregou algo em suas mãos, não fuja de Nínive: faça. Ou você pode acabar na barriga de um grande peixe.

Pedro era pescador, mas Deus o chamou para ser pregador. José não nasceu governador do Egito, certamente. Davi era pastor de ovelhas, mas o Senhor o convocou para se tornar guerreiro e rei. Moisés… bem, basta ler o diálogo dele com o Senhor em Êxodo 3-4 para ver quanto aquele homem se sentia despreparado para realizar a missão que lhe era confiada. Os exemplos são muitos. Conheço pastores que nunca cursaram um seminário teológico mas são cuidadores de almas infinitamente mais gabaritados, sábios e competentes do que muitos outros com doutorado em teologia. Se Deus te convocou para realizar algo, não se sinta incapaz: mãos à obra. E, uma vez que esteja com a mão no arado, faça de tudo para se especializar – leia muito sobre o assunto, estude, peça conselhos, vá à luta.

Formiga insignificanteMas houve uma segunda razão para eu querer, de cara, recusar quando o pastor me chamou para falar sobre vida familiar, relacionamentos e sexualidade. A questão é que eu mesmo já falhei tanto nessas áreas que me senti realmente indigno de abordar tais assuntos. Depois de 15 anos de casamento, não pense você que nunca tive problemas familiares. Claro que tive. Sou tão humano, falho e pecador como qualquer outra pessoa. Não serei hipócrita: já errei muitas e muitas vezes e deixei a desejar em incontáveis situações – como filho, como marido e como pai.

Estou aprendendo, errando e acertando, pecando e buscando não mais pecar. Tentando melhorar sempre, mais ainda longe, muito longe, da perfeição. Você também é assim? Eu sou, da cabeça aos pés. Pergunte a minha mãe sobre meus defeitos como filho e ela passará horas falando sem parar. Pergunte a minha esposa quantas vezes já pequei contra ela, a ofendi, entristeci e falhei em meu papel de marido e eu não teria coragem de ficar por perto para ouvir a resposta. Pergunte a minha filha meus deslizes como pai e… bem, graças a Deus a bebê ainda não percebeu que papai não é infalível, mas volte daqui a alguns anos e garanto que o relatório será extenso. Então este é o problema: a clareza sobre todos os meus muitos erros e pecados na vida familiar me fizeram pensar instantaneamente que não tenho nenhuma moral para opinar sobre o assunto. Quem sou eu para comentar sobre áreas em que já falhei tanto?

Mas, então, na oração que fiz após receber o convite, veio ao meu coração a lembrança de que Deus chamou pecadores para pregar contra o pecado. Convocou homens imperfeitos para pregar a perfeição. Intimou gente abatida para proclamar a alegria. Conclamou doentes a orar pelos enfermos. Constrangeu carentes a anunciar a plenitude. “O SENHOR olha dos céus para os filhos dos homens, para ver se há alguém que tenha entendimento, alguém que busque a Deus. Todos se desviaram, igualmente se corromperam; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.2-3). Deus nunca chamou pessoas irretocáveis para fazer sua obra – ele só usa gente capenga.

SuperformigaOu você acha mesmo que existem supercrentes? Cristãos infalíveis? Não viemos de Krypton, minha irmã, meu irmão: em pecado fomos gerados e, embora tenhamos sido justificados pela graça, seguimos atrelados ao “corpo sujeito a esta morte”: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?” (Rm 7.18-24), confessou o sincero Paulo, pecador que Deus chamou na estrada de Damasco para realizar exatamente o oposto daquilo que ele fez a vida inteira.

O pecado que habita em nós cisma em não ir embora e nossa natureza aguarda a ressurreição em glória, quando, só então, estaremos livres de errar. Até lá a coisa está feia. Mas, mesmo em meio a toda essa feiura, Deus nos convoca para proclamar a beleza das virtudes cristãs. Não conheço um único pregador que suba ao púlpito sem pecados, erros, falhas e fraquezas nas costas. Nenhum. Tampouco palestrantes – nacionais ou internacionais. Ou professores de seminário teológico ou de escola bíblica. Nenhum. Absolutamente todo ser humano que prega o evangelho e os valores cristãos tem montes e montes de defeitos e escorrega constantemente em sua falibilidade. Se você conhece alguém que ensine, aconselhe, pregue ou trabalhe na obra de Deus e seja impecável em suas ações, desconfie que é Jesus Cristo disfarçado – porque só ele é puro, só ele é digno. “Vi um anjo poderoso, proclamando em alta voz: ‘Quem é digno de romper os selos e de abrir o livro?’ Mas não havia ninguém, nem no céu nem na terra nem debaixo da terra, que pudesse abrir o livro, ou sequer olhar para ele. Eu chorava muito, porque não se encontrou ninguém que fosse digno de abrir o livro e de olhar para ele. Então um dos anciãos me disse: ‘Não chore! Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos’” (Ap 5.2-5). Nem uma única alma está isenta de indignidade. Quem nos dignifica é Cristo.

Vasos de barroQuando essa ficha caiu, percebi que não era a minha dignidade ou a minha infalibilidade que me tornaria apto a falar verdades bíblicas: o que tem efeito são a dignidade e a infalibilidade de Jesus e da Palavra de Deus. A leitura de 2Coríntios fechou para mim a questão: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor, e a nós como escravos de vocês, por causa de Jesus. Pois Deus, que disse: ‘Das trevas resplandeça a luz’, ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós” (2Co 4.5-7).

Por isso, meus muitos erros não devem me impedir de proclamar a verdade inerrante das Escrituras. É evidente e até desnecessário dizer que você deve sempre fugir do pecado e procurar com todas as suas forças manter-se em santidade – isso sempre, sempre e sempre. Sua falibilidade jamais deve ser uma desculpa para falhar. Mas entenda, meu irmão, minha irmã, que o fato de você ser falho não deve impedi-lo de pregar sobre Aquele que não falha. O fato de você errar não pode calar teus lábios para anunciar o único que não erra. A certeza da sua pecaminosidade jamais pode fazer com que você não pregue contra o pecado e exalte Aquele que nos livra do pecado. Em resumo, mesmo sabendo que não valemos nada, Deus nos chamou para disseminar a verdade, a pureza, o amor, a graça, a restauração, a união, o perdão e tudo aquilo em que falhamos tantas vezes e continuaremos a falhar.

Se Deus fosse esperar que pessoas perfeitas pregassem e ensinassem acerca do evangelho, jamais as boas-novas teriam sido pregadas ou ensinadas. Jamais. Mas é claro que o Diabo vai tentar usar a sua indignidade para calar você. Ele te acusará e tentará convencê-lo de que seus erros o tornam incapacitado para fazer qualquer coisa para Deus. Se você acreditar nisso, as trevas terão derrotado a luz. Não permita que isso aconteça. Judas permitiu e se enforcou. Pedro não permitiu e se tornou o grande apóstolo aos judeus.

E foi assim, com total consciência de que não sou a pessoa mais bem preparada do mundo e de que sou totalmente indigno de fazê-lo, que aceitei participar do programa de rádio. Espero que tenha abençoado algumas vidas. Espero que tenha servido aos propósitos do reino de Deus.

Dependente de DeusAproveito essa minha experiência para perguntar: quantas vezes você deixou de servir a Deus por se sentir despreparado? Quantas vezes você deixou de pregar sobre algo, ensinar, aconselhar, evangelizar, amparar, ajudar, edificar porque se sentia indigno de fazê-lo? Se Deus chamou, meu irmão, minha irmã, vá em frente. Se tem dúvidas de que foi Deus, busque o esclarecimento em oração. Mas, se sente aquela paz sobrenatural no seu coração, então seja forte e corajoso, não tema nem desanime. Porque, se o Senhor convocou você a fazer algo, ele garante. Acredite: o Todo-poderoso não é bobo nem toma decisões impensadas. Se é você o escolhido, nada nem ninguém impedirá Deus de usar a sua vida em prol de seus grandes, graciosos e eternos propósitos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício