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MarconeOito dias no fundo de um poço, com água acima da cintura, sem comer nada, sem dormir e sofrendo de crise de abstinência devido à ausência de álcool no organismo. Essa foi a luta pela qual passou o senhor Marcone, esse homem que estou abraçando na foto ao lado. Eu o conheci recentemente, quando estive em Campina Grande, na Paraíba, aonde fui pregar sobre os temas de meus dois livros mais recentes, O Fim do Sofrimento e Perdão total. Tive a oportunidade de ouvir sua história de vida numa viagem de carro de Campina Grande a João Pessoa, quando pegamos a estrada na companhia do querido pastor Marconni Cavalcanti, seu quase-xará. Aquele homem de 45 anos me contou, então, seu relato, do qual não me esquecerei.

Natural de uma pequena cidade do interior da Paraíba, Marcone passou mais de três décadas viciado em bebida alcoólica. Era cachaça de manhã à noite. Em consequência da dependência química, sua vida foi destruída, ele foi expulso de casa pela esposa e seus filhos não queriam mais saber dele. O alcoolismo o levou a tal ponto que chegou a ser ameaçado de morte pelo próprio sogro. Acabou se tornando um andarilho, que vagava por estradas e  matagais, dormia debaixo de pontes e se aquecia com folhas de papelão. O álcool chegou a afetar sua sanidade e ele passou a ouvir vozes e sofrer alucinações. Sua vida estava em ruínas e parecia que ele não tinha mais nada a perder. Até que, certo dia, durante uma de suas caminhadas sem destino pelo meio de um matagal deserto, Marcone, embriagado, despencou dentro de um poço profundo e sombrio. Longe de tudo e de todos, com água até acima da cintura, ele se viu preso e sem perspectiva de sair daquele buraco.

poço 1Foram oito longuíssimos dias. Não havia nada que pudesse comer. Tampouco era possível dormir, pois, sempre que começava a cochilar, ele afundava na água e despertava imediatamente. Seu corpo entrou num estado de dormência constante. A falta do álcool o levou a uma crise de abstinência que tornou o quadro ainda mais grave. Precisava fazer as necessidades fisiológicas dentro da mesma água em que estava imerso e só tinha dela para beber. Consegue imaginar a situação? O desespero, a impotência? Pois foi essa tortura agonizante que Marcone viveu por oito (oito!) dias, durante os quais tudo o que podia fazer era refletir sobre a própria vida.

No oitavo dia, dois homens que moravam em uma localidade próxima saíram para procurar uma ovelha perdida, que havia se desgarrado do rebanho. Eles se embrenharam no mato para tentar encontrar o animalzinho perdido. Quando Marcone ouviu a voz dos dois, começou a gritar com as poucas forças que lhe restavam, num desesperado pedido de socorro.

– Quando vi a cabeça daquele homem aparecer lá no alto, na abertura do poço, foi como se eu tivesse nascido de novo – contou-me ele, com sua voz grave.

poço 2Os dois homens conseguiram um fio comprido e, com o auxílio daquele tipo de corda, o puxaram para fora do poço. Dali, fraco e combalido, ele conseguiu se arrastar de volta à civilização. Tinha terminado seu longo suplício. Quinze dias depois, ele decidiu se internar num centro de recuperação, para tentar se livrar do alcoolismo. Foi ali que ele conheceu Jesus e encontrou forças suficientes para superar o vício. Hoje, Marcone já está dois anos sem pôr uma gota de álcool na boca. Com a ajuda dos pastores do centro de recuperação e da Igreja Cristã Nova Vida de Campina Grande, tem conseguido se reestruturar, retomou o contato com a mulher e os filhos (que não queriam nem pensar em voltar a falar com ele) e, aos poucos, tenta reconquistar a confiança dos parentes. Marcone tem trabalhado e conseguido ganhar o próprio dinheiro, que usa para se manter e para enviar alimentos à família. Também se reconciliou com o sogro. Pagou todas as dívidas pendentes em sua cidade de origem. Tem frequentado a igreja, onde ajuda na cantina. A verdade é que, depois daquele poço, sua vida começou a mudar drasticamente – e para muito melhor.

poço 3Todos nós temos um pouco de Marcone. Ninguém gosta de cair em poços, mas muitos de nós acabam em algum momento da vida no fundo de algum poço sombrio. Não um poço literal, como o que engoliu aquele paraibano de mãos calejadas, mas um poço construído por situações adversas da vida. Podem ser poços de sofrimento, dor, luto, abandono, doença, tristeza, depressão, perdas, ofensas, desemprego, escassez, falta de perdão, traições, incompreensão e tantos outros problemas que angustiam nossa alma, minam nossa esperança e fazem parecer que não temos como escapar.

É quando despencamos dentro de uma situação dessas que ficamos famintos de paz, parece que não conseguimos repousar e, quando o descanso parece ser possível, afundamos nas águas amargas e sujas de novas dificuldades. Como um alcoólatra em abstinência, temos alucinações e enxergamos saídas onde elas não existem, buscamos caminhos onde não há e vemos como possibilidades aquilo que na verdade não nos tirará do poço.

SupportÉ nessas horas que ouvimos uma voz. A voz de um pastor que sai em busca de suas ovelhas. Ele escuta nosso grito de socorro e, quando tudo parece perdido, parte em nosso auxílio. Se olhamos para os lados, tudo o que vemos são paredes escuras, que nos limitam e não apontam para nenhuma saída. Mas, se voltamos os olhos para cima, conseguimos vislumbrar o rosto do nosso Salvador. Ele nos lança um fio de esperança e nos puxa daquele local de trevas para a luz. Sem perceber, a transformação começou dentro daquele local de sofrimento.

Saímos combalidos e fracos desses poços de agonia, mas com forças suficientes para procurar auxílio junto a quem pode nos reaprumar e fortalecer. E, quando nos damos conta, percebemos que os momentos difíceis que enfrentamos no fundo daquele poço nos fortaleceu a ponto de conseguirmos mudar aspectos negativos de nós mesmos. Assim, nos aperfeiçoamos e ganhamos forças para empreender melhorias que, havia muitos anos, precisavam ser feitas.

Ao término de seu relato, perguntei a Marcone como ele se compara, hoje, ao homem que despencou naquele poço. Ele não titubeou:

– Não tem como comparar. Eu era um cabra ruim. Hoje sou bem melhor e sinto até nojo quando penso no que vivi antes.

Você está no poço da angústia, do sofrimento, da falta de esperança? Não consegue entender como Deus permite que passe pelo que está passando? Então sugiro que você pense nessas últimas palavras de Marcone e pode ser que consiga entender. Que Deus te dê forças para atravessar os momentos sombrios da vida, sabendo que, ao sair deles, você será uma pessoa muito mais madura, calejada, reflexiva e amoldada ao caráter de Jesus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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Morte0De vez em quando eu me pego pensando sobre o exato momento em que deixaremos esta vida e ingressaremos na eternidade. Como será? Já parou para imaginar isso? Normalmente, as pessoas fogem de falar sobre a transição desta vida para a sua continuação no plano espiritual – o que costumamos chamar de “morte”. Consideram um assunto lúgubre, sombrio, deprimente, algo até mesmo agourento. Eu não. Claro que penso sobre isso com expectativa e um certo temor pelo desconhecido, mas, quando leio na Bíblia todas as promessas sobre a vida eterna, alento e ansiedade brotam em meu coração. Então, sim, por vezes me pego pensando em como será o momento exato da morte, de maneira parecida com um jovem que sente um calafrio ao imaginar o primeiro dia na faculdade, uma mocinha que cogita como será engravidar, um menino ansioso pela expectativa do primeiro emprego, um casal trêmulo antes da noite de núpcias. Não há descrições claras e objetivas nas Escrituras que nos permitam ter certeza de como será com exatidão o instante da morte, essa é uma área que a Bíblia mantém nas sombras. Mas temos algumas pistas bíblicas que nos dão paz e nos trazem consolo quanto à partida dos nossos entes queridos e a nossa própria, se morremos em Cristo.

Primeiro é importante percebermos que a Bíblia aponta a eternidade como uma existência totalmente desprovida de sofrimento, tristeza, preocupações, estresse. A entrada no reino final é sinônimo de paz. A tão falada “paz do Senhor” será experimentada plenamente no porvir. João registrou em Apocalipse informações que, de forma bem generalista, anunciam como será o estado eterno dos salvos: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.1-4).

No porvir, os salvos não sentirão mais tristeza nem sofrerão. Isso nos revela uma realidade sobre o momento da morte: a maneira como você morre não faz nenhuma diferença, se dormindo, acordado, atropelado, afogado, de embolia, de pneumonia, de infarto, escorregando no banheiro, de câncer, numa queda de avião, em decorrência da Aids. Seja da forma que for, pela causa que for, sofrendo nos instantes finais o quanto se sofra… no exato instante em que seu espírito fechar atrás de si a porta do corpo decaído e falido e der o primeiríssimo passo dentro do reino eterno, tudo aquilo que causa dor e tristeza vai acabar. Imediatamente. Instantaneamente. Num piscar de olhos. Não há injeção de morfina que se compare ao fim do sofrimento que entrar na eternidade causará.

Mergulho0Se você parar para pensar, perceberá que, todas as vezes em que alguém fala sobre a própria partida desta vida, o que se traz à tona são os instantes que antecedem a morte e raramente você ouve alguém mencionar os instantes que a sucedem. Fala-se muito sobre como se preferia morrer, dormindo, sem sofrimento, assim ou assado. Sempre o que se destaca é o antes – e geralmente com certo receio e temor (natural, afinal, quem quer sofrer em seus instantes finais?). Pouco se fala da alegria que atravessar a cortina da vida vai proporcionar. Por isso, queria convidar você a dar asas a sua imaginação junto comigo. Em meus devaneios, costumo fazer uma analogia desse momento. Imagine que você está em um calor sufocante e salta em uma piscina gelada. No segundo em que seu corpo transpõe a linha d’água, a sensação de frio instantaneamente toma conta de si. É uma entrada imediata em uma realidade que muda tudo. Assim, imagino o mergulho na morte não pela perspectiva do “calor” que se sentia momentos antes, mas do “frio” que se sentirá momentos depois. Nesse sentido, a história bíblica do mendigo Lázaro é muito significativa e esclarecedora.

O próprio Jesus fez esse relato, que uns dizem ser uma parábola e outros, uma realidade – eu não sei, ninguém sabe com absoluta certeza. Mas, seja uma ilustração ou não, essa história é magnífica no que tange à esperança pós-morte. Disse o Senhor: “Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão” (Lc 16.20-22). Lázaro vivia em pobreza extrema, não tinha trabalho nem condições de comprar um pouco de comida que fosse. Além disso, era doente. Se você tem uma ferida dolorosa sabe o incômodo que é, então tente imaginar o que é ser “coberto” de chagas. Fica claro que ele tinha ferimentos dos pés à cabeça, o que devia causar uma dor constante que beirava a agonia. Meu irmão, minha irmã, é muito sofrimento. Aquele cidadão vivia, da hora em que acordava até a de dormir, em meio a uma dor que não dá pra imaginar. Talvez tivesse insônia. E, não bastasse a fome, a escassez, a dor e o sofrimento, ele ainda era obrigado a conviver com a humilhação de ficar sendo lambido por um bando de animais.  Será que você consegue dimensionar quanto aquele pobre homem sofreu – fisicamente e emocionalmente – durante anos?

Morte2Até que Lázaro deu o passo para fora deste mundo. Fico pensando com fascinação sobre aquele instante. Seu corpo chega ao limite, sem suportar mais. Entra em falência. Ele morre. Visualize o preciso segundo daquela morte. De olhos abertos, talvez em meio a muitas lágrimas, ele sente aquela dor lancinante provocada pela soma de muitas úlceras, da fome, da miséria humana. Um trapo. Então Deus sussurra: “Vem…”. Lázaro fecha os olhos. Um segundo depois, abre-os novamente. Como alguém que entra em uma piscina gelada e deixa instantaneamente de sentir calor, num piscar de olhos as dores físicas, o senso de humilhação, o vazio no estômago, toda a desgraça daquele mendigo simplesmente desaparece. Ele fecha os olhos no último suspiro e, quando os abre, já numa sensação de total paz e ausência de sofrimento, vê um grupo de anjos diante de si. “Levado pelos anjos…”, afirma Jesus. Suponho que estarão sorrindo, porque a alegria que sentem ao receber mais um salvo que chega à casa do Pai deve ser enorme. Pense em como Lázaro não deve ter se sentido ao ver aquele comitê de boas-vindas! O pedinte doente e sofredor é recebido por seres celestiais. Da miséria absoluta à mais plena glória!

A partir daqui é puro voo da minha imaginação. É quando já não vejo Lázaro nessa situação, penso em mim mesmo. Penso em você. Penso em cada um de nós. Fico supondo que aqueles anjos nos tomarão pela mão, ou nos envolverão num abraço, para nos conduzir à tão esperada e ansiada presença do Criador do universo, o Autor da vida, o Rei dos reis e Senhor dos Senhores. O nosso Pai. Nos meus sonhos especulativos, creio que esse encontro nos porá em nosso devido lugar, porque, diante daquela tão pura essência de santidade, a lembrança de nossa multidão de pecados nos lançará em terra e cravará o rosto no chão, em adoração a tão magnífico ser e em contrição pelo nosso histórico de pecados e falhas, transgressões e desobediências. Mas, então, penso eu, ouviremos de seus divinos lábios:

– Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

Surpreso com essa declaração injusta, uma vez que teria total consciência de quem fui na terra e da multidão de pecados que estaria carregando, eu diria:

– Mas, Senhor, eu não sou digno…

E o Pai sorrirá. Então ele trará à luz por que nos chamou de “bom e fiel” se somos tão maus e infiéis – a razão da cruz, o motivo da encarnação do Verbo e da morte do Cordeiro:

– Eu sei que você não é digno, filho, mas você não está aqui pela sua dignidade. Está aqui pela graça. Pelo amor. Pela cruz. Pelo sangue de Jesus, derramado pelos seus pecados. Nenhuma condenação há para quem chegou aqui por meio de Cristo, daquilo que meu Filho fez no Calvário.

Morte3Pronto, está consumado, entramos na eternidade. Não há mais choro, nem dor. Só a presença do Senhor, desvendado em toda a sua glória. O que virá depois disso eu não sei, é um absoluto mistério. Mas me apego às palavras de Paulo, o homem que foi arrebatado ao coração dos segredos do Senhor e viu coisas inefáveis: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9).

A morte chegará. Para os salvos, não é um tema sombrio. É um passo dentro de um reino sem sofrimento, para o abraço dos anjos, para a presença daquele que então veremos face a face e que nos amou desde antes da fundação do mundo. E, ao final de todas as coisas, todos os que derem aquele passo se reunirão e, juntos, dirão: “Aleluia!, pois reina o Senhor, o nosso Deus, o Todo-poderoso. Regozijemo-nos! Vamos alegrar-nos e dar-lhe glória!” (Ap 19.6-7).

Que linda esperança…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

susto1Sabe quando algo ou alguém te dá um susto e você age por reflexo, dando um salto para o lado, abaixando a cabeça ou levantando as mãos para se proteger? Isso ocorre porque todo ser humano é condicionado a ter reflexos instantâneos e instintivos, de acordo com cada situação que se apresenta inesperadamente em seu caminho. Todos agimos por reflexo, adestrados que somos a tomar certas atitudes diante de circunstâncias específicas. O resultado é que, como somos fruto do meio em que vivemos, mesmo sendo cristãos não é raro fazermos escolhas mundanas – por puro reflexo. É nesse momento que entra em cena o Espírito Santo. Ele nos faz parar, pensar e ver que aquilo que fizemos não foi nada bonito. Ou seja, depois do reflexo vem a reflexão. Sob o poder de Deus, a reflexão acerca de reflexos equivocados pode nos levar a ter reflexos acertados no futuro. Para exemplificar o que estou dizendo, permita-me relatar um episódio que me aconteceu recentemente.

Entrei em uma loja de conveniências para sacar dinheiro. No exato momento em que estava no caixa automático, fui abordado por um adolescente, visivelmente muito humilde, sujo e mal vestido, que carregava uma caixa de engraxate.

– Tio, compra alguma coisa pra eu comer?

Você sabe como é: quando estamos digitando nossa senha, não gostamos de ter gente estranha por perto. Então eu, por reflexo, cobri o teclado com a mão e, sem nem ao menos olhar para o rapaz, por reflexo balbuciei qualquer coisa parecida com um “agora não”. Ele recuou e continuei a operação, torcendo que desistisse de mim e fosse abordar outra pessoa. Só que, no que terminei, me virei e dei de cara com ele, me esperando. Para piorar, vi que o jovem estava acompanhado de um menininho, possivelmente seu irmão. Tive apenas um segundo para decidir o que fazer. Você pode imaginar que, obviamente, como sou um bom cristão e escrevo sobre a fé num blog e em livros, eu agi da forma mais bíblica possível, amparando aquelas vidas e dando de comer a quem tinha fome, certo?

Errado.

Naquele segundo decisivo, agi por puro reflexo mundano. O Maurício cristão parecia ter evaporado. Em vez de abrir mão de mim, comprar alimentos para os dois e agir segundo a graça, a compaixão e o amor, eu, por reflexo, virei a cara, dei as costas e saí pela porta, deixando para trás aqueles dois seres humanos famintos.

susto2Eu poderia me justificar, usando o reflexo como desculpa para dizer que não tive oportunidade de consertar o erro – afinal, agi segundo um impulso condicionado e não havia como voltar atrás. Mas seria uma mentira. Pois, assim que saí da loja, tive de parar para atravessar a rua, uma vez que o sinal estava vermelho para os pedestres. E, naquele momento, não houve reflexo algum. Fiquei ali por, no mínimo, um minuto, parado. Na minha cabeça, uma sirene tocava, dizendo algo como “volte lá, seu egoísta sem compaixão, dê de comer a quem tem fome, seu cristão de meia tigela, avarento e servo de Mamom!”. Sim, eu tive tempo de sobra de girar sobre os calcanhares, voltar para a loja e comprar algo para aquelas duas vidas matarem a fome. Mas a verdade é que fiquei ali, estagnado. O sinal abriu e segui meu caminho.

Esse episódio aconteceu há quase dois meses, mas até hoje não sai da minha cabeça. De lá pra cá me peguei pensando muitas vezes: por que eu tomei aquela decisão? Por que não fiz o que Jesus nos disse para fazer? Por que não amei o meu próximo? Por que não dei de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede? Por que virei as costas para Cristo quando ele se apresentou para mim na forma de dois meninos carentes?

Creio que o mundano que habita em mim naquele momento falou mais alto do que o cristão que habita em mim. Eu reagi como o mundo reage, por reflexo. Agi segundo meus próprios interesses egoístas. E, depois, quando parei para pensar e tive tempo de reformular meus atos, não consertei meu erro, simplesmente segui a correnteza de acordo com o pensamento do mundo. Naquele momento, meu coração não estava em Cristo. Como Paulo explicou muito bem: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19).

Eu e você vivemos isso muitas vezes. Como estamos no mundo, somos contaminados pelos valores e os padrões do mundo. E, quando somos pegos de surpresa, despreparados, se não estivermos encharcados do evangelho, vamos agir por reflexo – e reflexo mundano. Porque é fácil ser cristão ao final do culto, no ambiente eclesiástico, após passar duas horas vivendo a realidade da presença divina. Mas, no dia a dia, depois de ficar longos períodos com a mente apenas nas coisas deste século, corremos o sério risco de agir como cidadãos do mundo. Por isso é essencial imergirmos nas coisas de Deus todos os dias, seja pela oração, seja pelo estudo da Palavra, seja pelo jejum ou as demais disciplinas espirituais. Temos de estar em Cristo diariamente, a todo momento, ininterruptamente, sem trégua.

susto3Em certa ocasião, Jesus disse: “Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele” (Mc 10.15). Já ouvi muitas interpretações acerca do que o Mestre quis dizer com isso. Entendo que uma criança ainda não teve tempo suficiente de ser influenciada pelo seu entorno. Meninos e meninas, embora carreguem o pecado dentro de si, ainda não foram condicionados a agir desta ou daquela maneira. Seus reflexos mundanos não estão estabelecidos. São diamantes brutos, puros. Nós, adultos, não: estamos altamente contaminados com maneiras de agir que nos ensinaram por aí. No caso específico, já ouvi tantas vezes que devemos ignorar os pedintes, reter esmolas e fugir de estranhos que pedem dinheiro que simplesmente me deixei levar por essas filosofias. Só que são filosofias humanas e não divinas. Deus manda amar, estender a mão, ajudar o necessitado, cuidar do pobre, amparar o desamparado. Não vejo na Bíblia Jesus dizer o que já ouvi incontáveis vezes, de diferentes pessoas: que não devemos dar esmolas porque, se o fizermos, estaremos estimulando a mendicância. O que o Senhor disse foi: “Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber…” (Mt 25.41-43).

Minha filha acabou de completar 3 anos. Minha esposa, que é infinitamente mais generosa do que eu, propôs que era hora de ela dar parte de seus muitos brinquedos a crianças carentes. Chamamos a pequena, lhe explicamos a ideia e minha filhinha, sem pestanejar, separou alegremente para doarmos muitos de seus bens, de bonecas ao seu velocípede. Confesso que, ao ver a bondade do coração da minha filha, me lembrei do episódio da loja de conveniências e senti vergonha de mim. “Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele”… Tenho buscado aprender mais sobre o reino de Cristo observando minha pequenininha. Em especial, tentando reagir mais como Jesus reagiria e não como o mundo me ensinou. Mudar meus reflexos.

susto4Mas há um aspecto interessante nessa história. Depois de tudo o que relatei, há pouco tempo eu estava em um restaurante no Leblon (bairro nobre do Rio) e entrou pela porta uma menina pedindo comida. Imediatamente o gerente quase voou em cima dela para expulsá-la. Meu reflexo, naquele momento, foi totalmente diferente do fiasco na loja de conveniência: pedi ao gerente que a deixasse se aproximar e dei a ela uma parte de nossa comida. Minha filha observou minha atitude e espero que isso contribua para desenvolver nela reflexos cristãos nas situações inesperadas. Quando a garotinha saiu, eu estava com paz no coração e, sinceramente, feliz. Não posso voltar atrás e alimentar aqueles dois meninos da loja de conveniências, nem mesmo sei seus nomes ou o que aconteceu a eles. Mas ficou o duro aprendizado. E oro a Deus que todos os meus amargos fracassos espirituais sirvam para aprimorar meus reflexos em Cristo.

Você errou? Cometeu deslizes dos quais se arrepende amargamente? Ou mesmo acha que, de tanto ter errado, não tem jeito para você? Então espero que minha experiência e minha atitude vergonhosa o ajudem a ver que é totalmente possível aprender com os erros, se aprimorar e desenvolver reflexos baseados nos valores do evangelho, para que, no futuro, você reaja ante as circunstâncias inesperadas da vida da mesma forma que Jesus reagiria.

E, assim, eu e você estaremos a cada dia mais próximos de refletir a glória de Deus para este mundo tão faminto de graça e amor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício