Posts com Tag ‘Fibromialgia’

Nicole1Há poucos dias, liguei a televisão, num daqueles momentos em que você zapeia por todos os canais e não encontra absolutamente nada que te interesse. Acabei sintonizando em um programa bizarro, a que nunca assistira antes: o Face Off, do canal SyFy. Trata-se de um reality show estadunidense em que artistas de maquiagem disputam um prêmio em dinheiro criando, a cada episódio, criaturas iguais às de filmes de ficção cientifica. Monstros, cyborgues, vampiros, alienígenas, esse tipo de coisa. Aquilo chamou de imediato minha atenção porque, na hora em que sintonizei, estavam entrevistando os três finalistas do programa antes de anunciar o vencedor. Um deles, a jovem Nicole Chilelli (na foto, de camisa azul), estava, naquele exato momento, falando sobre como conseguia viver e trabalhar, apesar de sofrer com uma terrível doença chamada fibromialgia (que faz seu corpo inteiro doer, o tempo todo, entre outros sintomas horríveis – e não tem cura). Nicole falava sobre como ela, cuja mãe padece da mesma moléstia, lidava com aquilo no dia a dia e como encontrava motivação e disposição para superar aquerle horror e continuar vivendo.  Confesso que, à medida que ela falava sobre sua luta pessoal, lágrimas desciam pelo meu rosto. E já explico por quê.

Nicole2Nós, seres humanos, temos a tendência natural de reclamar de tudo, nos lamentar por qualquer coisa. Em linguagem bíblica, murmurar. A famosa murmuração que levou Israel e ficar rodando quarenta anos no deserto. E nós não somos diferentes: se moramos embaixo da ponte, chiamos pela falta de teto. Conseguimos dinheiro para nos mudar para um conjugado alugado e nos abatemos porque não é próprio. Somos abençoados com a chance de comprar um conjugado nosso e maldizemos a sorte porque não tem um quarto. O salário aumenta e nos mudamos para um quarto e sala. E praguejamos, por ser pequeno demais. Deus nos dá um três quartos e chiamos por não ter garagem ou playground. Recebemos uma bolada de herança e nos mudamos para um condomínio de luxo, com academia e piscina, mas nos entristecemos, pois o bairro não é tão nobre assim. Recebemos uma promoção e com isso conseguimos nos mudar para o melhor apartamento do melhor condomínio do país mas… não ficamos satisfeitos, pois, afinal, queríamos morar em Paris. Essa é nossa natureza: reclamar, reclamar, reclamar, reclamar, reclamar…

Nicole3Nada nunca está bom o bastante. Queremos sempre algo mais. “Piedade com contentamento é grande fonte de lucro”, revela Paulo em 1Timóteo 6.6, e continua: “pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos”. Mas, sinceramente, quem de nós pensa assim? Pior: quem de nós age segundo esse pensamento canônico? Nunca está bom o bastante. Queremos sempre mais. As bênçãos de Deus parecem sempre incompletas. Se conseguimos o emprego tão almejado e desejado, no dia seguinte já reclamamos que o chefe é exigente demais, a cadeira é desconfortável e ainda falta um ano para as férias – afinal, ninguém é de ferro. Pobres de nós, que temos uma vida tão desgraçada: o telefone não dá linha, arranharam nosso carro, nosso time perdeu, apareceu uma espinha no rosto, um fio de cabelo ficou branco, a unha quebrou! Meu Deus, quanta tragédia!

Nicole4Enquanto isso, Nicole Chilelli, uma não cristã, dá um exemplo de força interior, dedicação, perseverança, superação e alegria… porque encontra na criação de monstrengos a realização pessoal e uma motivação para prosseguir. Que vergonha. Que vergonha Nicole me fez sentir. Pois nós, cristãos, temos a vida eterna. Mas sempre estamos reclamando de tudo. Vou repetir, caso tenha parecido algo casual e sem importância: nós-temos-a-vida-eterna. Temos Jesus. Ele apontou para mim e para você e disse: “Eu te quero. Receba minha graça, o perdão dos seus pecados e a eternidade na glória eterna”. E o que nós fazemos? Respondemos a ele: “Ah, Jesus, mas a vida é tão dura, tenho de trabalhar tanto! Engordei dois quilos! Está calor demais! O elevador do meu prédio quebrou e tive de subir pelas escadas! Peguei muito engarrafamento hoje! A Internet está lenta!” E por aí vai. De uma lado, uma não cristã com fibromialgia vive alegre, motivada, sorridente, feliz e grata por fazer maquiagens que criam seres imaginários. De outro, legiões de cristãos, que receberam o privilégio de ser filhos e herdeiros do criador do universo, reclamam, reclamam, reclamam, reclamam, reclamam…

Nicole5Fibromialgia é uma síndrome que provoca dores por todo o corpo por longos períodos, com sensibilidade nas articulações, nos músculos e nos tendões; causa fadiga crônica, distúrbios no sono, falta de ar, dores de cabeça, depressão, ansiedade, falta de disposição e outras desgraças. Não tem cura. Os tratamentos geram poucas melhorias. É sofrimento dia e noite, 24 horas por dia, sete dias por semana. Fui procurar informações sobre Nicole na web. Li uma entrevista em que ela diz: “Maquiagem é toda minha vida”. Para uma mulher que sofre dessa montanha de problemas que você leu, maquiagem é tudo – e isso a deixa feliz. Para nós, a quem Jesus de Nazaré é toda a nossa vida, nosso tudo, nossa esperança de paz e gozo pelos trilhões e trilhões de anos que temos pela frente, às vezes cada centímetro da vida parece ruim – porque, afinal, nossa unha encravou, está chovendo lá fora ou nosso cachorro roeu o pé da mesa.

Temos de valorizar a bênção incrível que é a salvação. A adoção como filhos de Deus. O céu que nos espera. O fato de que somos amados pelo Senhor que tudo criou. a realidade de que o Todo-poderoso nos conhece pelo nome. Coisas como essas deveriam nos fazer sorrir do acordar ao deitar – exultantes e agradecidos. As tristezas vêm? Lógico! Nos abatem? Claro! Jamais vou defender que devemos ser hipócritas e dizer que tudo esá bem quando não está. Acredito que, se a Igreja fosse menos triunfalista, teríamos coragem de assumir mais vezes que estamos mal e, com isso, seríamos mais habilidosos em carregar o fardo uns dos outros e auxiliar-nos em nossas dores e nossos sofrimentos. A questão não é fingir uma falsa situação de bem-estar. É pensar em como lidamos com as desgraças da vida sabendo da realidade espiritual maior e do grande plano da eternidade.

Nicole6Nicole venceu o reality show. Tirou primeiro lugar. Faturou o prêmio. E saiu sorridente, emocionada, em paz. Feliz. Assistindo àquilo, não tive como não deixar de recordar de quando, 17 anos atrás, eu também recebi o diagnóstico de fibromialgia. Pensei no fato que, nos dez dias anteriores àquele em que assisti ao programa de TV, acordei todas as manhãs com dor de cabeça e sentindo falta de ar. Cheio de dores pelo corpo todo. Que nos três dias anteriores a ter visto Nicole sorrindo na televisão tive de me submeter, reclamando, murmurando e gemendo, a massagens doídas, para aliviar um pouco do sofrimento. Chorei com vergonha de mim, murmurador incorrigível que sou.

FibromialgiaAssisti a esse reality show durante o almoço, no intervalo de meu horário de trabalho. Nicole venceu sorrindo. Eu desliguei a TV chorando – e voltei para o meu computador. Sentei-me diante dele e me lembrei do médico que, 17 anos antes, me recomendou que eu “virasse cantor de ópera”, porque nunca mais poderia usar um computador na vida, pelo tanto que me dói digitar. Mas pensei em como Deus me conduziu até onde estou hoje – e trabalho como editor de livros cristãos, com uma jornada de oito horas diárias fazendo o que me disseram que nunca poderia fazer na vida: digitar ao computador. Na tela estava o texto de uma nova Bíblia, que estou ajudando a editar. Envergonhado, tudo o que pude fazer foi glorificar a Deus, pois o que me faz seguir adiante, lutar com todas as forças contra minhas impossibilidades e participar da confecção da Palavra Sagrada do Senhor Altíssimo é única e exclusivamente a graça do Cristo crucificado. Pois ele apontou para mim e disse: “É você”.

Murmurar? Já murmurei muito. Mas creio que não me atrevo a murmurar mais. Nicole me deu um tapa na cara. Se um não cristão pode ter alegria de viver por fazer maquiagens de monstros, mesmo sofrendo de uma moléstia terrível, eu preciso ter a humildade de ignorar as coisinhas de pouca importância do dia a dia e encontrar a alegria de viver por fazer parte de algo muito, mas infinitamente muito mais grandioso: o Reino dos céus.

Meu irmão, minha irmã, o Todo-poderoso lhe apontou o dedo e disse: “É você”. Do que você tem reclamado mesmo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Se Deus é bom por que Ele permite a dor? Por que o Deus que é amor permite tanto sofrimento, até entre seus filhos? Essa é a pergunta que não quer calar e que tem levado inclusive ao surgimento de heresias, como a Teologia Relacional, inventada para tentar explicar essa aparente contradição. Quanto e quantos de nós já não passamos por situações de dor – seja física, moral, emocional ou de qualquer outro tipo – e questionamos o Senhor sobre nossa condição? Isso já aconteceu comigo e certamente também com você. Pois bem: eu tenho uma teoria. É claro que nem todos os casos se encaixam nela, mas acredito que muitos sim. Creio que o Senhor nos deixa passar pelo “vale”, como diz o jargão, para que no futuro possamos auxiliar outras pessoas que por sua vez venham a atravessar o mesmo “vale”. Em outras palavras, penso que Deus autoriza a dor para que mais à frente possamos usar a experiência advinda desse sofrimento com o objetivo de ajudar o próximo que esteja vivendo aquilo que já vivemos. E, nesse ajudar, tanto quem ajuda quanto quem é ajudado desenvolve, fortalece e solidifica muito seu relacionamento com Cristo.

Como já contei aqui no APENAS, sofro de uma doença chamada fibromialgia, que me faz sentir dor 24 horas por dia, 7 dias por semana, há 16 anos. Não tem cura e impede que desempenhemos uma série de atividades, como digitar no computador, dirigir, carregar muito peso, fazer exercícios, praticar esportes e outras mais. E é uma doença cruel, pois não aparece em nenhum exame (seu diagnóstico é clínico) e muitas pessoas não entendem ou mesmo não acreditam que a sua dor, a sua prostração e a indisposição para fazer qualquer coisa sejam fruto de uma moléstia invisível: simplesmente te rotulam de preguiçoso, exagerado ou coisa parecida. Desde 1996 esse mal ocupa cada músculo e tendão do meu corpo. De lá para cá tenho buscado alternativas tecnológicas que me permitam viver e peço a Deus constantemente que, se for da vontade dEle, venha a me sarar. Se não o fizer, o glorificarei do mesmo jeito – meu amor pelo Senhor independe de me curar ou não.

Contei esse relato no post E quando Deus não cura – Parte 1/2, já há alguns meses. Não pretendia voltar ao assunto, pois não gosto de ficar falando sobre esse problema – simplesmente porque falar não adianta nada. Mas recentemente recebi pelo Facebook o testemunho de uma irmã, que me pediu para não divulgar seu nome, que leu sobre a minha experiência e isso de certo modo tocou sua vida. Conversamos a respeito e, com a autorização dela, compartilho o que ela me escreveu, com um único intuito: mostrar que, se você está passando por um momento de dor ou de sofrimento, em vez de se lamuriar pode usar sua experiência no futuro para ajudar alguém que venha a cruzar seu caminho enquanto enfrenta uma situação parecida com a sua. Assim, sua dor pode vir a abençoar muitos.

Em seu relato, a irmã E.D. tece alguns elogios a mim, mas deixo bem claro que tenho plena ciência de que toda boa dádiva e todo dom perfeito vem do Pai das Luzes, logo, não reproduzo os mesmos com nenhum intento de me exaltar, senão com o de glorificar ao Senhor pelo que Ele fez na vida dessa irmã por meio do sofrimento que o Soberano me permite passar. E que, espelhado na experiência dela, meu irmão, minha irmã, você possa usar o seu sofrimento, e aquilo que com ele aprender, para a glória do Criador do Universo e para ajudar o seu próximo. Passo então a palavra a E.D.:

“Zágari, bom dia!

Talvez você tenha se perguntado: por que essa jovem do Maranhão me adicionou no Facebook? Quero rapidamente compartilhar contigo de que forma DEUS te usou pra me abençoar. Me chamo E.D., tenho 31 anos, casada, sem filhos, crente em Cristo Jesus, da igreja X.

Agora, onde você entra nisso tudo? Vou contar…

Sempre fui muito ativa, criativa, motivada e dedicada. Aos 24 anos comecei a sentir fortes dores nas costas, tórax, falta de ar e desânimo para realizar coisas simples. Depois essas dores se intensificaram e foi então que resolvi procurar auxílio médico. Para minha surpresa, nada aparecia nos exames. Foi então que, além da dor física, comecei a sofrer emocionalmente, pois caí em descrédito com minha família, amigos, esposo, no trabalho. Você deve saber a que me refiro: É isso sim! Fibromialgia. Fui diagnosticada formalmente somente este ano, pois até então eu não queria aceitar que tinha isso e infelizmente procurei os médicos errados e não atualizados a respeito do assunto. Por isso, tentei sufocar o assunto o máximo que pude!

Ao ser questionada, sempre tentava explicar às pessoas o que eu sentia. Mas como explicar o invisível? Tive depressão e síndrome do pânico, por ter a plena convicção de que ia morrer de tanta dor. E o pior: ninguém me entendia. De ativa passei a ser instável emocionalmente por conta das dores.

Foi aí que comecei a me ferir e me magoar com as pessoas. Não vou pormenorizar aqui o que vivi, mas, para você ter noção, até na igreja sofri preconceito. Bem, semana passada, ao acordar (SEM FORÇAS PARA TRABALHAR), não quis falar com DEUS. Simplesmente pensei: ‘Não vou falar com DEUS sobre esse assunto mais, tudo o que gostaria era de ser curada disso, ter uma vida normal como as pessoas normais que estudam e trabalham. Mas DEUS parece não ver minha disposição em querer muito isso’. Saí de casa decidida a deixar tudo: cargos na igreja, trabalho, toda e qualquer atividade e me isolar como uma ostra. Há dias em que só quero ter o direito de ficar no meu canto, sem falar com ninguém, ou mesmo sem explicar por que alguém tão comunicativa e brincalhona como eu não quer falar. Como esse direito eu não tenho, porque preciso me relacionar, decidi que em casa, bem fechadinha, poderia sentir dor e não ter que forçar sorrisos ou passar por alguém lábil!

Foi aí que na Internet, procurando artigos sobre fibromialgia, não sei como fui parar no teu blog. E, ao ver o artigo “E quando Deus não cura? – Parte 1/2”, o título me chamou a atenção. Na medida em que fui lendo, comecei a chorar. Pois, ao descrever tudo o que você sentia, fui tomada por uma empatia muito grande. Me reportei à minha vida. Vendo suas competências técnicas, sua disposição em levar o Evangelho a sério, vendo que trata-se de alguém que é de uma igreja genuinamente cristã, dei crédito ao que estava diante de mim e continuei a ler. Pois bem: o fato é que aquele post foi um bálsamo para minha vida. Não fui curada da doença, mas mudei minha percepção dela. De verdade!

Vi também que DEUS sempre quer nos ensinar e que eu preciso entender isso na prática, pois essa é a forma pedagógica de DEUS. Às vezes somos crentes meramente teóricos. Infelizmente alguns, como eu, até que passem pela vivência prática das lutas, são muitíssimo teóricos. Eu realmente pensei: ‘Se o Zágari consegue administrar esse problema, se consegue ser feliz apesar de tudo isso, talvez eu também consiga e me torne uma crente valorosa, piedosa. Meu caráter, vida, ações, tudo pode mudar, DEUS pode usar isso para moldar características em mim que até eu vejo e condeno’.

Esse texto enorme é para que saibas: você foi benção em minha vida apesar de suas limitações. E eu quero ser benção na vida de outros também – apesar das minhas. Certa vez li uma frase que dizia que DEUS não está tão interessado em mudar as circunstâncias do nossos meio como está em mudar as pessoas. É isso mesmo. Hoje estou com muita dor aqui no trabalho, mas com esperança de que tudo acabará bem.

Obrigada por chegar até o fim dessa mensagem e pela tolerância em me ‘escutar’.

Que DEUS em Cristo o abençoe!

E.D.

PS: Também fiz um trato com DEUS, de falar sobre o assunto com outras pessoas somente quando houver extrema necessidade. E de só falar para Ele minha dores. Pois só Ele me entenderá na totalidade!”

E aqui acaba o testemunho de E.D. Não preciso dizer que o li com lágrimas nos olhos. Olhei para trás, para os 16 anos de dor, e orei ao Senhor: “É, Deus… já serviu para alguma coisa”.

Jó sofreu demais. E até hoje, mais de 5 mil anos após ele ter caminhado sobre a terra, milhares e milhares de pessoas são abençoadas com seu testemunho de vida. E quero deixar essa reflexão a você, meu irmão, minha irmã: a coisa está difícil? Está doendo? O sofrimento está demais? Então cogite a possibilidade de Deus estar permitindo você passar por tudo isso para que mais à frente você ajude E.D.s que vão cruzar o teu caminho – vivendo dificuldades, com dores e sofrendo demais. Certamente, enquanto Jó raspava suas feridas ele não imaginava que sua história iria pelos milênios à frente ajudar tantos. Como a irmã Ruth Martins, que passou por uma experiência terrível mas espiritualmente enriquecedora, como relata em seu livro Há benefícios na dor (foto).

E você, será que consegue imaginar o que Deus tem preparado pelos anos à frente como fruto da sua dor? Se não consegue, não se preocupe: Ele sabe. O Onisciente sabe direitinho por que você está enfrentando essa luta tão difícil. E Ele está contigo todos os dias, até a consumação dos séculos – mesmo quando caem as lágrimas mais amargas.

Um beijo especial para E.D., que está suportando essa leve e momentânea tribulação sabendo que o que a espera é um grande peso de glória eterna.

E paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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