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Sou apaixonado pelos filmes de Charles Chaplin. Para mim é o melhor cineasta de todos os tempos e “Luzes da Cidade” é meu filme favorito. Sua sequência final, quando a florista cega tenta lhe dar uma esmola, é minha predileta da história do cinema. Chaplin tem outro filme genial, “O Garoto” (foto). Nunca me esqueço de uma cena desse longa-metragem em que o menino adotado por Carlitos tenta repetidamente se aproximar dele após aplicarem um trambique e, como há um policial por perto, Carlitos o empurra para longe com o pé. Novamente o menino volta e é enxotado. E assim faz para que o garotinho que ele ama não seja descoberto como participante do golpe. Na nossa vida muitas vezes precisamos tomar atitudes semelhantes: empurrar para longe aqueles que amamos e gostaríamos de ter por perto se for o melhor para eles – e até machucar, se isso for redundar em algo espiritualmente mais excelente. Machucar quem nos é caro para o próprio bem dessa pessoa.

Pus aqui esse trecho de “O Garoto” para você visualizar.  Merece atenção o take final, quando o menino tenta caminhar junto com Carlitos mas, por amor, é afastado de forma nada gentil. Se quiser assista e, em seguida, continuamos. Tem menos de 3 minutos.

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Em Gênesis 27 vemos o trambique que Jacó passa em seu pai, Isaque, para receber sua bênção, tendo a mãe, Rebeca, como cúmplice. Irado, ao descobrir o ocorrido Esaú planeja matar o irmão. Para que Jacó não seja morto, por amor sua mãe decide enviá-lo para longe de si. Literalmente diz a ele para se exilar. Ela não afasta o filho porque o odeie ou coisa parecida, mas por cuidado e para zelar pelo futuro dele. Nesse caso, afastá-lo é uma expressão de amor.

Em nossa vida, muitas vezes temos de tomar a decisão de afastar ou machucar pessoas que amamos para o próprio bem delas – usando aquilo que apelidei de “psicologia impetuosa”. Conversei, algum tempo atrás, com uma senhora, mãe de um pastor da Assembleia de Deus, que me relatou o que teve de fazer para proteger o filho e salvaguardar o futuro dele. Ainda adolescente, o rapaz ingressou no tráfico de drogas. Em seu primeiro dia de serviços prestados aos bandidos, ele, ao chegar ao barraco em que morava somente com a mãe, contou-lhe que tinha se unido ao “movimento”. Ela tentou argumentar de todos os modos para demovê-lo da ideia. Como viu que não cederia, a mãe tomou uma atitude extrema: caminhou até ele e tascou um bofetão em sua cara. E disse: “Suma desta casa e, enquanto não deixar essa vida, você não é mais meu filho”. No dia seguinte o jovem procurou o gerente do tráfico e explicou a situação. Como mães são muito respeitadas pelos traficantes, recebeu autorização para deixar o bando. Retornou para casa. Hoje esse homem é um pastor, pai de família. Essa senhora, agora uma velhinha de cabelos brancos, me disse a frase que me fez pensar muito: “Às vezes machucar é um gesto de amor”.

Apliquei a “psicologia impetuosa” com minha filha de menos de dois anos uma só vez depois de ter tido essa conversa. Não gostei, mas foi preciso. Ela cismou em brincar com facas. Sempre que tinha oportunidade dava um bote e pegava a faca de meu prato. Apavorado com o que aquilo poderia provocar fiz de tudo o que podia. Conversei. Expliquei. Cortei cascas de banana na frente dela para mostrar o que aquele objeto poderia causar. Mas nada adiantava. O amor delicado não estava resolvendo e comecei a temer que em algum momento ela pegasse uma faca sem que eu visse, com possíveis resultados desastrosos. Foi quando, certo dia, ela mais uma vez esticou a mão para pegar a faca em meu prato. Dessa vez eu lembrei-me daquela frase: “Às vezes machucar é um gesto de amor”. Então não falei nada. Tomei delicadamente a faca, pus fora de seu alcance e somente saí da sala, algo que nunca faço durante as refeições. Ela ficou me olhando, confusa. Chamou-me em voz baixa algumas vezes, propositadamente sem resposta. Até que foi atrás de mim no quarto. Eu estava cabisbaixo, honestamente entristecido e sem saber mais o que fazer. Quando viu as lágrimas descendo pelas minhas bochechas ela arregalou os olhos. Não escondi dela meus sentimentos. E lhe disse algo que sabia ser duro, mas que tinha certeza que teria um impacto sobre ela e provocaria uma reação: “Filhinha, quando você desobedece o papai arrebenta o meu coração”. Ela ficou paralisada. Depois veio até mim e deu um beijinho no meu joelho, muda, pensativa e visivelmente triste. Vi que ela estava transtornada e que eu disse algo que doeu fundo em sua alma. Pode parecer uma atitude forte, só que foi motivada não por maldade, mas por puro amor. Daquele dia em diante nunca mais ela quis pegar uma faca. Sei que de certo modo a machuquei. Mas foi uma medida extrema pelo próprio bem dela.

Lucas 22 nos fala de uma atitude semelhante de Jesus. Ele havia dito a Pedro que na mesma noite, antes que o galo cantasse, o negaria três vezes. É exatamente o que ocorre. E o que se passa depois disso é o que me estremece: “Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje, três vezes me negarás, antes de cantar o galo. Então, Pedro, saindo dali, chorou amargamente”. Você consegue imaginar esse olhar de Jesus? E consegue imaginar o que Pedro sentiu naquela hora? Que dor terrível! Mas… você já parou para pensar que o Mestre sabia exatamente o que provocaria em seu amigo lançando-lhe aquele olhar fixo e perfurante? Será que Jesus era sádico e machucou o apóstolo pelo puro prazer de deixá-lo mal? Não creio. Para mim, aquilo era pura “psicologia impetuosa”. Jesus amava tanto Pedro que queria levar aquele homem a um estado de alma que o fortalecesse e o preparasse para o que viria pela frente. Pois Ele sabia o quanto o amigo teria de ser firme para enfrentar as perseguições, os sofrimentos, as prisões e tudo o mais que aconteceria em breve para propagar o Evangelho sem esmorecer. Então creio com convicção que Jesus lançou o olhar que destroçou Pedro por dentro e o fez chorar amargamente para que seu discípulo seguisse o caminho mais excelente. Por amor.

Machucar por amor. Magoar por amor. Entristecer por amor. Que coisa estranha. Que aparente contradição. Mas que eficiente, em certas circunstâncias. Por vezes um salva-vidas precisa dar um soco em quem está se afogando para poder salvá-lo, caso o indivíduo esteja histérico e pondo a vida dos dois em perigo. É um soco pelo bem do outro e nao por desejar o mal. O ideal é que nunca tenhamos de aplicar isso. Só que, em situações extremas… é necessário, infelizmente. Melhor empurrar quem amamos com a perna do que deixá-lo ser levado para um reformatório. Carlitos sabia disso. Aos nossos olhos, ele estava enxotando como um cachorro aquela pobre criança. Aos olhos de seu coração, estava protegendo e resguardando quem amava. Se você continua assistindo ao filme vê que grande amor aquele homem tinha pelo garoto.

Que grande amor Deus tem por mim e por você. Mas às vezes ele nos machuca como um gesto que expressa esse amor. Se não fosse isso, como explicar realidades como “Eu repreendo e disciplino a quantos amo” (Ap 3.19)? Como justificar Jesus dizer “esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus” (Jo 11.4)? Como entender o Pai ter feito um homem nascer cego “para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.3)? Sadismo divino? Maldade celestial? Não. A mais pura expressão de amor: uma dor momentânea, uma tristeza aguda, uma mágoa sofredora… em nome de algo muito mais excelente.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício