Posts com Tag ‘erro teológico’

Nós temos o hábito de supervalorizar nossos sonhos. Se um pregador quer empolgar as pessoas, basta fazer uma preleção em que diga coisas como “Deus tem grandes sonhos para sua vida” ou “Sonhe os sonhos de Deus e eles se realizarão” e o auditório irá ao delírio. Confesso que tenho sérios problemas com esse tipo de mensagem, que põe o foco nos “meus sonhos” e, em especial, quando os mistura com supostos “sonhos de Deus para minha vida”. E isso por duas razões principais.

Primeiro, “sonho de Deus” é um conceito antibíblico. Quando dizemos que temos um sonho, isso significa que temos um desejo no coração que esperamos que se realize, apesar de não haver nenhuma certeza de que ele ocorrerá. Há o desejo; não há a garantia. Nesse sentido, no sonho só cabem probabilidades.

Logo, se dizemos que Deus tem um sonho, isso o esvazia de toda onisciência e onipotência. O deus que sonha não tem certeza do futuro, mas transita no campo da expectativa. O deus que sonha não é Deus, pois não tem segurança de nada, não é soberano sobre o que vai acontecer, apenas cruza os dedos e fica na torcida. O deus que sonha é um deus sem glória. O Deus da Bíblia, por sua vez, é o Deus que tudo pode e cujos planos não podem ser frustrados (Jó 42.2).

Portanto, não, Deus não tem sonhos, tem linhas de ação. Ele já sabe o que fará e nada nem ninguém pode impedir.

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Portanto, além de a expressão “Sonhe os sonhos de Deus” ser antibíblica, ela esvazia Deus de seu poder, o destitui de seu trono e faz dele alguém que desconhece o futuro e tem a mesma capacidade de influenciá-lo que nós, seres criados. O deus cujos sonhos preciso sonhar é um ídolo, um bezerro de ouro.

O segundo motivo pelo qual não gosto de enfatizar meus sonhos é que sonhos são objetivos, metas, destinos, linhas de chegada. Se supervalorizo o sonho, isto é, aquilo que espero que aconteça lá na frente, deixo de valorizar tudo o que posso viver no decorrer da jornada. Nós não vivemos apenas para “chegar lá”, vivemos para experimentar a soma de todos os instantes que compõem o trajeto até atingirmos o alvo.

Ficar infeliz porque nossos sonhos não se realizaram é deixar de desfrutar da paisagem grandiosa da escalada só porque ainda não chegamos ao cume da montanha. Mas… o cume não é tudo! Cada etapa vencida é uma vitória, um deleite, uma gota de felicidade.

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Se o sonho é ter um filho, não despreze as alegrias dos nove meses de gravidez. Se o sonho é ter o emprego, não despreze o aprendizado do processo de consegui-lo. Se o sonho é o casamento, não despreze tudo de bom que a solteirice proporciona antes de subir ao altar. Em suma: pare de dar tanta ênfase ao sonho e passe a valorizar a jornada que o leva até o sonho.

Deus não tem sonhos, ele tem planos que se cumprirão e nada nem ninguém pode impedir. Já eu e você temos muitos sonhos, pois não conhecemos o futuro, e não há mal algum em tê-los. É saudável ter objetivos e desejar “chegar lá”. Nosso erro é achar que a alegria e o propósito da vida estão em ver os sonhos realizados. Nada disso. A felicidade está na soma de todos os pequenos e aparentemente insignificantes momentos que, juntos, nos levam até a realização, ou não, dos nossos sonhos.

Afinal, essa soma de momentinhos tristes e felizes, vitórias e derrotas, lágrimas e sorrisos é aquilo que compõe este presente tão maravilhoso que Deus nos deu, chamado… vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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BNJC_arte para blog APENAS

– Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa! Creia, meu irmão, que se você foi salvo por Jesus, toda a sua família também será salva! Isso é promessa de Deus para a sua vida!

Quem já não ouviu algum pregador dizer isso? Eu já, algumas vezes. O grande problema é que, não, isso não é promessa de Deus para você, nem para mim. Como assim? É o que veremos nesta reflexão. Se você acompanha o APENAS, talvez estranhe o post de hoje. Procuro sempre tratar neste espaço de questões de vida cristã cotidiana, mas hoje, excepcionalmente, vamos falar de um assunto da teologia (mas que tem influência direta sobre a sua vida prática). Como esse tema é algo que tem forte impacto sobre nossa compreensão da Palavra de Deus, decidi abrir esta exceção. Por isso, hoje vamos falar sobre um palavrão chamado hermenêutica. 

Que troço é esse? Por que é importante? Eu explico: hermenêutica é, em resumo, a área da teologia que nos ensina a interpretar corretamente o texto da Bíblia. Em outras palavras, as regras de hermenêutica nos ajudam a compreender exatamente o que o Espírito Santo quis nos dizer quando inspirou os escritores a redigir determinada passagem das Escrituras. O principal objetivo da hermenêutica bíblica é descobrir a intenção original do autor do texto. Por essa razão ela é tão importante. 

Se você lê a Bíblia sem seguir as regras de hermenêutica, é possível que deturpe, sem querer, a intenção do Espírito Santo. Sem compreender as normas de hermenêutica, cada pessoa atribui o sentido que prefere às palavras de Deus. O gigantesco mal é que, se entendemos a Bíblia do nosso modo e não dá maneira que Deus deseja que entendamos, a autoridade final fica sendo o homem, e não Deus. E vai dar tudo errado.

Deixe-me dar um exemplo prático: o texto com que abri esta reflexão. É extremamente comum ouvirmos pregadores dizendo “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (At 16.31) como uma afirmação de que qualquer pessoa  que vier a crer em Jesus, em qualquer época e em qualquer contexto, terá sua família salva. Já ouviu isso? O problema é que essa não é uma promessa universal. Ela simplesmente não se aplica a todas as pessoas, mas aplica-se a apenas uma: o carcereiro de Filipos. Paulo estava dizendo algo específico àquele homem e à sua família. Só. Tanto é assim que você deve conhecer centenas de crentes cujos parentes morrem sem crer em Jesus. Sabe por que tantas pessoas erram nisso e propagam esse ensinamento errado? Porque não analisaram o contexto e universalizam algo que, na realidade da Palavra, é individual. Falta de conhecimento de hermenêutica. 

Outro exemplo: o famoso vale de ossos secos mencionado em Ezequiel 37. É enorme a quantidade de pregações que usam essa passagem aplicada a qualquer processo de restauração, como restauração da vida financeira de um indivíduo, de seu casamento, de sua situação espiritual e coisas assim. Porém, quando você lê Ezequiel 36 e o final do capítulo 37, fica totalmente claro que a visão do profeta se relacionava especificamente à restauração da nação de Israel no contexto da época em que o livro de Ezequiel foi escrito: “estes ossos são toda a casa de Israel” (Ez 37.11), deixou bem claro o escritor. Portanto, se alguém usa essa passagem como uma promessa de que “Deus restaurará a sua vida financeira”, por exemplo, ou “Deus fará seu casamento reviver”, pode ter certeza: essa é uma promessa sem nenhuma garantia de que se cumprirá. Por que esse erro ocorre? Porque tais pregadores não analisaram o contexto e universalizaram algo que é individual. Falta de conhecimento de hermenêutica. 

Vamos a um terceiro exemplo: em Jeremias 1.5, lemos as palavras do Senhor: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações”. Já ouviu alguém usar esse versículo como argumento para dizer que Deus constituiu a mim e a você como profetas às nações? Eu já. O problema é que o versículo anterior deixa claro: A mim me veio, pois, a palavra do SENHOR, dizendo:”. Logo, fica claro que essa palavra é dirigida única e exclusivamente a Jeremias. Não a mim. Não a você. E, se é assim, por que isso é ensinado? Porque quem ensina dessa forma não analisou o contexto e universalizou algo que que é individual. Falta de conhecimento de hermenêutica. 

Esses são apenas três de inúmeros exemplos. Tenho visto e ouvido muitas pregações e tenho lido muitos textos que prometem o que a Palavra de Deus não promete, simplesmente porque os pregadores ou escritores não seguiram as regras de hermenêutica. Portanto, puseram na boca de Deus o que Deus não disse. E, com isso, agiram como guias cegos, que conduzem pessoas para o barranco. 

Se consegui despertar seu interesse em conhecer mais a fundo a hermenêutica bíblica, recomendo que busque se informar sobre as regras de correta interpretação da Palavra de Deus. Aqui eu listo algumas regras básicas:

1. Primeira Regra – É preciso, o quanto seja possível, tomar as palavras em seu sentido usual e comum.
2. Segunda Regra – É de todo necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase.
3. Terceira Regra – É necessário tomar as palavras no sentido indicado no contexto, a saber, os versículos que estão antes e os que estão depois do texto que se está estudando.
4. Quarta Regra – É preciso levar em consideração o objetivo ou desígnio do livro ou passagem em que ocorrem as palavras ou expressões obscuras.
5. Quinta Regra – É necessário consultar as passagens paralelas, “explicando coisas espirituais pelas espirituais”. (1Co 2.13).

Viu como não é algo tão complicado? Se você tiver interesse em se aprofundar no entendimento da hermenêutica (e recomendo enfaticamente que o faça, para não acreditar em promessas que não se cumprem), um livro fácil de entender e rico em ensinamentos é o Entendes o que lês? (editora Vida Nova). Acredite: vale o investimento. 

Meu irmão, minha irmã, o entendimento correto sobre o que o Espírito Santo quis dizer exatamente na Bíblia é fundamental e indispensável para termos uma vida cristã rica e ajustada à real vontade de Deus. Erramos no dia a dia, muitas vezes, porque não sabemos compreender corretamente as Escrituras. Não cometa esse erro. Viva uma vida baseada na verdade bíblica e não em desvios ensinados por pessoas que não sabem enxergar a verdade das Escrituras. Tenho certeza de que você consegue. E, com um pouquinho de leitura sobre o tema, você será capaz de entender verdadeiramente o que Deus quer lhe falar por meio da Bíblia e de se proteger de ensinos humanos que não encontram nenhum embasamento na Palavra de Deus. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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