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IMG_5053Algum tempo atrás cheguei a um momento em minha vida em que acreditava piamente que tudo o que vivera até ali tinha sido uma grande preparação para fazer o que então estava fazendo. Era como se minha vida fosse uma grande frase, em que cada palavra compunha um período de aprendizado para chegar aonde eu chegara: o ponto final. Dali em diante seria apenas prosseguir realizando o que estava realizando e isso cumpriria os propósitos de Deus para minha existência. Tudo me levava a crer que eu estava na posição em que o Senhor me queria e em função da qual tudo em minha trajetória tinha sido planejado por ele. Como se fosse o ponto de convergência de tudo. Parecia fazer sentido. Só que… aquele momento passou. A vida seguiu. As coisas mudaram. Hoje, olhando para trás, percebo claramente que aquilo que eu acreditava ter sido o ponto final na verdade era apenas uma vírgula, mais uma etapa de vivência e aprendizado para adquirir bagagem e continuar em frente.

Descobri que nossa vida terrena tem um único ponto final: a morte. Antes que ela chegue, tudo sempre faz parte de um processo contínuo e interminável de erros, acertos, lições, machucados, decepções, alegrias, conquistas, perdas, descobertas, pecados, arrependimentos, subidas e descidas. Não existe ponto final enquanto estamos vivos – para o bem ou para o mal. A caminhada é contínua e não tem linha de chegada.

IMG_5055Em retrospecto vejo o quanto aprendi depois que ultrapassei aquele ponto da vida que eu considerava ser o ápice de minha existência. Sobre os homens, sobre Deus, sobre mim mesmo. Eu me assombro ao ver o quanto ainda vivi após deixar para trás o que para mim era o clímax de uma vida. E, sem dúvida, aquela vírgula que eu pensava ser o ponto final foi somente mais uma importante etapa de vivência e amadurecimento. Se eu tivesse permanecido ancorado naquele momento de minha história, não teria descoberto o tanto que descobri depois. Aprendi, por exemplo, o real significado de graça. Compreendi como nunca antes o que é o perdão bíblico. Vislumbrei com clareza inédita o que é a hipocrisia sobre a qual Jesus tanto falou – não só a de outros, mas, principalmente, a minha própria. Experimentei a fragilidade do corpo humano e os efeitos dos defeitos que nosso organismo decadente tem sobre todas as áreas da nossa vida. Isso só de saída, muito mais aprendi.

Se você parar para pensar na sua própria vida, é possível que identifique fases semelhantes. Momentos ou situações em que acreditava ter alcançado um patamar tal que dali seria apenas seguir em frente, numa processo contínuo de manutenção. Como se já tivesse cumprido os planos de Deus para si. Mas, de repente, tudo mudou. sua existência deu uma guinada e, então, percebeu que aquele patamar não era a cobertura do edifício, mas apenas mais um entre tantos degraus na escada de subida.

IMG_5065A vida é surpreendente a esse respeito. Inclusive no que tange a sua finitude. Recentemente, meu querido tio Wil ficou doente. Foi internado. Desenganado. Meus primos foram ao hospital para se despedir. Um deles, meu amado Edu, conversou comigo com voz embargada ao telefone, acreditando ter falado pela última vez na vida com seu pai. Naquele leito de morte, meu tio octogenário aceitou Jesus. O desenlace era certo e previsto. O ponto final tinha chegado. Mas… ele começou a reagir. Foi desentubado. Saiu do CTI. Dias depois recebeu alta, para nosso espanto e alegria. Aquele maravilhoso milagre de Deus mostrou ser uma vírgula e não um ponto final. Não tem jeito: só o Senhor sabe o quanto e o que ainda temos pela frente.

Você deve estar estranhando as fotos que ilustram este post, o que elas têm a ver com o assunto em questão? Estou escrevendo este texto dentro de um avião, num lindo dia de céu claro. Daqui de cima, vejo o horizonte, o mar, montanhas, nuvens, rios e, se não me engana a vista, neste instante enxergo três cidades ao mesmo tempo. IMG_5091Creio que uma delas é aquela em que vive meu primo Edu. As fotos deste post estou tirando durante o voo. Sugiro que depois clique nelas para ampliá-las e observar bem os muitos detalhes de cada uma. Pois bem: repare como a visão é panorâmica e vai muito além do que iria se eu estivesse lá embaixo, no chão. Daqui vejo incomparavelmente mais coisas, minha percepção geral é enormemente mais ampla. A diferença entre a visão de Deus sobre a nossa vida e a nossa própria tem uma relação equivalente a isso. Nós, humanos, mal enxergamos um palmo à frente do nariz. Deus enxerga de forma panorâmica, ampla, ilimitada. Em sua onisciência, ele vê passado, presente e futuro de uma só vez, percebe todos os lugares simultaneamente, vê o horizonte, as montanhas, as cidades e o coração de cada um de nós, tudo ao mesmo tempo. Na verdade, pensando bem, na visão do Senhor não há horizonte, pois não há limites ou fim para o que o Altíssimo vê. Ele se ri quando pensamos que uma vírgula de nossa vida é um ponto final. Por isso, meu irmão, minha irmã, nunca diga que algo em sua vida é o fim da linha: só Deus pode afirmar isso.

A propósito, é comum ouvirmos em certos ambientes eclesiásticos que fulano “chegou ao fundo do poço”. Entenda: para Deus, isso não existe. Os poços da vida para Deus não têm fundo. Ninguém chega ao fundo de poço algum, aquilo é apenas uma vírgula em sua caminhada.

infinitoOlhando para trás e vislumbrando aquele momento que eu acreditava ser o ponto final do projeto de Deus para a minha passagem pela terra, recordo-me do relato bíblico de 1Reis 19, em que um homem chegou ao que achava ser o ponto final de sua trajetória. Seu nome era Elias. Perseguido é ameaçado de morte, fugiu. Eis o que conta o texto bíblico: “[Elias] se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte e disse: Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais. Deitou-se e dormiu debaixo do zimbro; eis que um anjo o tocou e lhe disse: Levanta-te e come. Olhou ele e viu, junto à cabeceira, um pão cozido sobre pedras em brasa e uma botija de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir”. Até aqui, o homem achava ter chegado ao ponto final. Mas então Deus, pela boca de seu anjo, lhe mostrou que era apenas uma vírgula: “Voltou segunda vez o anjo do SENHOR, tocou-o e lhe disse: Levanta-te e come, porque o caminho te será sobremodo longo”.

O meu e o seu caminho nunca terminam antes do ponto final. E não estou falando de morte, apenas, mas, principalmente, dos propósitos que Deus tem para a sua vida. Enquanto você não termina de combater o bom combate, tenha a certeza de que não chegou ao lugar em que o Senhor deseja que lance âncora. Enquanto seus olhos se abrem de manhã e o ar entra em seus pulmões, algo Deus ainda quer fazer em você e por meio de você. Não existe “clímax da vida”. O que existe é… vida.

Então, o que está esperando? Levanta-te e come, porque o caminho te será sobremodo longo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício