Posts com Tag ‘Éden’

inferno 1Eu vi o inferno. Calma. Antes que você ache que vou contar mais uma dessas experiências de gente que afirma ter sido arrebatada e levada para um passeio pelo temido local de tormento eterno, deixe-me tranquilizá-lo; não é nada disso. Tampouco pretendo escrever um livro com “divinas revelações” do que há do outro lado da morte. A visão que tive do inferno na verdade é metafórica, fruto de um episódio simples que me fez ter um lampejo da terrível realidade de quem após esta vida adentra nesse ambiente tão misterioso onde há choro e ranger de dentes. Minha filha é muito apegada aos pais. Talvez pelo fato de não ter irmãos ou primos por perto e de conviver essencialmente comigo e minha esposa todos os dias e noites, ela aprecia muito estar em nossa companhia e detesta ficar longe de nós. Com a virada do ano, sua turma na escola ganhou novas professoras, que ela não conhecia antes. Bem aclimatada ao colégio, já há bastante tempo ela não faz escândalos quando a deixamos para a aula, acostumada que está aos coleguinhas e ao ambiente escolar. Até que…

No primeiro dia de aula deste ano, minha esposa é quem a levou para a escola. Tudo certo, sem incidentes. Mas, no segundo dia, foi minha vez. Pus a filhota na cadeirinha de minha bicicleta e fomos pela ciclovia, cantando e conversando, até o colégio. Cheguei, estacionei, descemos da bicicleta e caminhamos para o pátio em que eu a entregaria para a professora. Tudo normal, sem problemas. Só que, então, fui me despedir. Em vez do beijinho e do abraço usuais, seguido de um “tchau, Jesus te abençoe”, naquele dia a reação dela foi diferente. Pediu colo. Agarrou-se em meu pescoço com todas suas forças e começou a lamentar baixinho:

– Papai… papai… papai… papai…

Como um filhote de coala, ela se atracou em mim com braços e pernas e não desgrudava por nada. Desacostumado a esse tipo de comportamento já havia muitos meses, fui pego de surpresa. Tentei conversar. Usei muitos argumentos. Mas as palavras foram vãs e minhas tentativas, infrutíferas.

– Papai… papai… papai… papai…

Olhei para a professora nova com um olhar de “me ajuda” e ela veio em meu socorro. Tentamos fazer minha filha desgrudar e se juntar aos coleguinhas, mas foi pior. Quando percebeu que estavam tentando separá-la de mim, a filhota começou a chorar e a gritar. Foi um escândalo. Eu tentava argumentar, a professora oferecia convites e opções de atividades, mas absolutamente nada surtia efeito.

– Bebê, papai precisa ir…

– Papaaaaaaaaaaiiiiii!!!!!!! – a coisa só piorava.

Quando me dei conta, ela entrou em desespero. Por nada do mundo queria ficar longe de mim. O grito virou um urro. As lágrimas banhavam o rosto, que inchava e se avermelhava. O suor empapava a camisa. O cabelo começou a ficar desgrenhado, de tanto ela resistir. Eu tentava. A professora tentava. Uma auxiliar tentava. Até coleguinhas se aproximaram com olhar assustado para ver o que estava acontecendo. Nada adiantava.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaieeeeeeee!!!!!!

Consegui, com monumental esforço, puxá-la para longe do abraço e a pus no chão. Com um salto, ela se atracou a uma de minhas pernas e o choro piorou.

– Papaaaaaaaaaaiiiiiiii!!!!! Coloooooooooooo!!!!!!!

Olhei para o relógio e vi que, se não saísse dali naquela hora, me atrasaria para o trabalho. Olhei para a professora, que me olhou de volta. Pelo olhar decidimos que teríamos de desgrudar minha filha à força. E foi o que fizemos. Com o máximo de delicadeza que consegui, afastei os bracinhos dela de mim e a professora a segurou, enquanto eu caminhava apressadamente para a porta. Com o coração dilacerado pelos urros da minha filha, que dobraram de volume ao me ver me afastando, olhei para trás.

E foi quando tive a visão do inferno.

Separada do pai, aquela pobre alma babava e chorava, com as mãos estendidas em minha direção, os dedos contristados, gritos que clamavam pela presença do pai, olhos arregalados em desespero. Nada no mundo importava para ela naquele momento: a única coisa que desejava era estar com seu pai. Mas ela não podia. Apesar de todas as fibras do meu ser me impulsionarem para correr em sua direção, tomá-la em meus braços e levá-la comigo de volta para casa, eu sabia que não seria possível. Então assoprei um beijo de longe e gritei:

– Papai te ama! Muito!

E saí do pátio, em direção à bicicleta, enquanto ouvia os gritos e o choro da minha filhinha.

– Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!

inferno 2O que é o inferno? Esqueça todas as imagens simbólicas que já ouviu sobre isso. Esqueça diabinhos vermelhos cutucando pessoas com tridentes. Esqueça divinas revelações, esqueça livros de gente que afirma ter sido arrebatada, esqueça tudo. Inferno é uma coisa só: querer estar com o Pai e não poder. Só quem viu nos olhos de alguém o mais absoluto desespero por desejar ficar com o pai e não ter essa possibilidade, como eu vi, compreende o que significa o choro e o ranger de dentes.

Fomos criados para viver com Deus. Viver longe dele é algo totalmente antinatural. Por isso, nossa natureza clama angustiadamente por sua presença. Quando o Pai pôs Adão no Éden, insuflou nele o desejo de conviver diariamente consigo. Isso é o natural. O pecado, porém, criou o abismo entre Criador e criatura e, a partir daí, passamos a viver com um vazio do tamanho de Deus na alma. Fomos expulsos do jardim, e não fomos criados ou preparados para isso. Deus fez o homem para estar junto de si e qualquer coisa diferente disso é uma distorção astronômica da ordem original das coisas. O inferno foi criado para Satanás e seus anjos, lá não é nosso lugar. Não pertencemos ao inferno, mas ao Éden, à convivência permanente com o Pai. Por isso, é completamente artificial estar longe de Deus, não faz sentido, não encaixa, o mundo vira de cabeça para baixo numa situação dessas.

cruzMas, então, veio a cruz. Ela nos tirou dessa realidade irreal e surreal que é viver longe do Pai. Ao sermos adotados como filhos de Deus, mediante Cristo, retornamos ao estado original para o qual fomos formados: temos acesso ao Senhor, passamos a viver com ele – não mais em um jardim, mas em nós mesmos, feitos habitação do Santo Espírito. Ingressamos no reino do qual nunca deveríamos ter saído. Nossa comunhão com o Pai volta a ser constante, como sempre deveria ser e como nunca deveria ter deixado de ser, não fosse pela entrada do pecado em nosso coração.

Quem não tem Cristo, todavia, vive outra realidade. Na vida desses, a separação do Pai segue do nascimento até a morte. Distraídos com as alegrias desta vida, os prazeres, as festas e os benefícios que as riquezas proporcionam, seu foco torna-se o que está ao redor. O afastamento de Deus os cega a tal ponto que chegam a crer em outros deuses ou mesmo a não crer em nenhum. E, assim, a necessidade de retornar àquele estado original de comunhão constante com o Criador é embaçada pelas coisas desta vida. Consciência cauterizada.

Só que aí chega a morte.

E, após a morte, todas as distrações, todos os prazeres, tudo aquilo que ocupava a mente e o coração dos que deram as costas para Cristo durante seus anos na terra… desaparece. Simplesmente deixa de existir. O que resta? A ausência do Pai. Um vazio que nunca será preenchido. E isso leva, inevitavelmente, ao sofrimento. À dor. Ao desespero. Ao choro. Ao ranger de dentes. Sem as distrações da vida terrena, a alma sedenta da presença de Deus percebe que jamais a terá. Pelos séculos dos séculos, sua existência será marcada pela ausência do Pai. E tudo o que lhe resta é o tormento eterno que essa percepção gera.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!!!!!

Só que aí não adianta mais nada clamar. O Pai não tem mais o que fazer, pois a cruz foi rejeitada. Aquela pobre alma deu as costas para Jesus. O Pai só pode olhar de longe e, cheio de amor e compaixão por aquela vida, afastar-se, ouvindo seus gritos do mais absoluto desespero, pois a justiça teve de ser cumprida: sem Deus nesta vida, sem Deus na eternidade. O que sobra? O nada. O nada absoluto.

Ao final da tarde, voltei à escola para pegar minha filha. Assim que ela me viu, correu em minha direção e, de um salto, pulou no meu pescoço. Ficou agarrada um longo tempo, enquanto eu, meio espremido em seu abraço, dava dezenas de beijos no seu rosto. Sem desgrudar, ela disse baixinho no meu ouvido:

– Papai… eu tava com saudade.

E respondi, com amor:

– Eu também, bebê. Mas agora o papai está aqui. E a gente vai ficar juntinho, viu? Vou te levar pra casa e vamos ficar agarradinhos.

Ela abriu um sorriso radiante. Deu um longo suspiro, relaxou os braços e apoiou a cabecinha no meu ombro. E foi quando eu percebi: agora, ali, no abraço do pai, minha filha estava… no céu.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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PecadoQual é a primeira palavra que a história da mulher adúltera traz à sua mente? Que conceito é o mais chamativo no relato da queda daquela israelita? Pare um momento. Pense no caso. Imagine a cena. Aquela transgressora é pega em flagrante delito. Nua. Deitada com outro homem. Seduzida pelas próprias paixões. Entregue aos prazeres da carne. Desviada dos caminhos de Deus. Distante da santidade. O que isso traz à sua mente? Que palavra resume a história daquela adúltera? Eu arriscaria dizer que o conceito que imediatamente vem ao seu pensamento é pecado. Estou certo? Afinal, o que ela fez foi cometer um terrível pecado. A punição solicitada para ela foi por causa do pecado. O que entrou em discussão com Jesus foi a respeito do que se faria com ela devido ao pecado. Só o que os mestres da lei e os fariseus enxergavam quando olhavam para ela era seu pecado. Ela cheirava a pecado. Tinha aparência de pecado. Transpirava pecado. Seu nome passou a ser pecadora. Então o foco do relato de João 8.1-11, sem dúvida alguma, é este: pecado.

Bem, na verdade, não. Para os homens é possível que sim. Mas, para Deus… será?

Acredito que a primeira palavra que a história da mulher adúltera traz à mente do Senhor é graça.

Pecado1A relação entre pecado e graça sempre deve ser vista segundo a análise do ponto de partida e do ponto de chegada. Para os mestres da lei e os fariseus, o pecado daquela mulher era o ponto de chegada. Nada mais importava. A vida dela não vinha ao caso. Seus erros e acertos do passado não faziam diferença. O arrependimento era inócuo. As possibilidades de seu futuro eram irrelevantes. Tudo o que tinha a ver com a existência daquele ser humano, naquele momento, era o pecado. Esqueçam se ela sempre foi uma serva fiel do Senhor. Que importa se viveu uma vida piedosa até então?! Nem perguntem a opinião do marido. Esqueçam tudo. Aos olhos daqueles homens, o pecado tornou-se corpo, alma e espírito; passado, presente e futuro daquela mulher. E só o que viam nela. Seu pecado. O ponto de chegada daquela alma. The end.

Jesus não. O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo viu o pecado daquela mulher como o ponto de partida. Para os olhos divinos, aquela transgressão não representava o topo da edifício, mas apenas mais um degrau da escada. No alto do pódio daquela história estava a graça de Deus. O pecado foi absorvido pela graça. Aquela vida arrependida era o náufrago e a graça, o bote salva-vidas. O pecado era a noite e a graça, o amanhecer. Pecado. Arrependimento. Perdão. Restauração. “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado” (v. 11). Graça.

A história da mulher adúltera é um magnífico retrato da graça de Deus. Do olhar do Senhor sobre nossas vidas. Um Deus que é santo, que ordena que abandonemos a vida de pecado, mas que também diz que não condena o pecador arrependido. Aquele episódio é uma síntese do plano de salvação: o homem peca, ele torna-se alvo do acusador, seu pecado o faz digno de punição, mas Jesus entra com graça e “já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

Pecado0Deus não deseja nos punir. Ele quer nos perdoar. Quer nos restaurar. Quer nos salvar. Quer arrependimento e esforço para abandonar o pecado. Onde nós, pecadores, enxergamos pecados sem volta, Deus vislumbra as maiores oportunidades de exercer sua graça. Os homens amam a punição. Deus ama o perdão. “Consequentemente, assim como uma só transgressão resultou na condenação de todos os homens, assim também um só ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens. Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos” (Rm 5.18-19).

Você pecou? O que mais chama a atenção em sua vida é o pecado? Pois então saiba que Deus olha para você e vislumbra o ponto de chegada: a graça. O segundo templo. A glória da salvação. De igual modo, ele olha para os pecadores que mais escandalizam você e vê neles uma excelente oportunidade de exercer sua graça, de fazer a cruz entrar em ação na vida de mais uma alma.

Nós olhamos para o pecado e queremos sangue. Deus olha para o pecado e se lembra do sangue de seu próprio Filho.

A caso da mulher adúltera não é uma história sobre pecado, é uma história sobre graça. O pecado triunfou no início, no Éden, no ponto de partida. Mas no ponto de chegada, na Jerusalém celestial, é Cristo quem triunfará, quando todos os que foram lavados no sangue do Cordeiro estiverem reunidos aos pés do Senhor, louvando e exaltando seu amor sem fim, seu perdão imerecido e sua maravilhosa graça.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio