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MarconeOito dias no fundo de um poço, com água acima da cintura, sem comer nada, sem dormir e sofrendo de crise de abstinência devido à ausência de álcool no organismo. Essa foi a luta pela qual passou o senhor Marcone, esse homem que estou abraçando na foto ao lado. Eu o conheci recentemente, quando estive em Campina Grande, na Paraíba, aonde fui pregar sobre os temas de meus dois livros mais recentes, O Fim do Sofrimento e Perdão total. Tive a oportunidade de ouvir sua história de vida numa viagem de carro de Campina Grande a João Pessoa, quando pegamos a estrada na companhia do querido pastor Marconni Cavalcanti, seu quase-xará. Aquele homem de 45 anos me contou, então, seu relato, do qual não me esquecerei.

Natural de uma pequena cidade do interior da Paraíba, Marcone passou mais de três décadas viciado em bebida alcoólica. Era cachaça de manhã à noite. Em consequência da dependência química, sua vida foi destruída, ele foi expulso de casa pela esposa e seus filhos não queriam mais saber dele. O alcoolismo o levou a tal ponto que chegou a ser ameaçado de morte pelo próprio sogro. Acabou se tornando um andarilho, que vagava por estradas e  matagais, dormia debaixo de pontes e se aquecia com folhas de papelão. O álcool chegou a afetar sua sanidade e ele passou a ouvir vozes e sofrer alucinações. Sua vida estava em ruínas e parecia que ele não tinha mais nada a perder. Até que, certo dia, durante uma de suas caminhadas sem destino pelo meio de um matagal deserto, Marcone, embriagado, despencou dentro de um poço profundo e sombrio. Longe de tudo e de todos, com água até acima da cintura, ele se viu preso e sem perspectiva de sair daquele buraco.

poço 1Foram oito longuíssimos dias. Não havia nada que pudesse comer. Tampouco era possível dormir, pois, sempre que começava a cochilar, ele afundava na água e despertava imediatamente. Seu corpo entrou num estado de dormência constante. A falta do álcool o levou a uma crise de abstinência que tornou o quadro ainda mais grave. Precisava fazer as necessidades fisiológicas dentro da mesma água em que estava imerso e só tinha dela para beber. Consegue imaginar a situação? O desespero, a impotência? Pois foi essa tortura agonizante que Marcone viveu por oito (oito!) dias, durante os quais tudo o que podia fazer era refletir sobre a própria vida.

No oitavo dia, dois homens que moravam em uma localidade próxima saíram para procurar uma ovelha perdida, que havia se desgarrado do rebanho. Eles se embrenharam no mato para tentar encontrar o animalzinho perdido. Quando Marcone ouviu a voz dos dois, começou a gritar com as poucas forças que lhe restavam, num desesperado pedido de socorro.

– Quando vi a cabeça daquele homem aparecer lá no alto, na abertura do poço, foi como se eu tivesse nascido de novo – contou-me ele, com sua voz grave.

poço 2Os dois homens conseguiram um fio comprido e, com o auxílio daquele tipo de corda, o puxaram para fora do poço. Dali, fraco e combalido, ele conseguiu se arrastar de volta à civilização. Tinha terminado seu longo suplício. Quinze dias depois, ele decidiu se internar num centro de recuperação, para tentar se livrar do alcoolismo. Foi ali que ele conheceu Jesus e encontrou forças suficientes para superar o vício. Hoje, Marcone já está dois anos sem pôr uma gota de álcool na boca. Com a ajuda dos pastores do centro de recuperação e da Igreja Cristã Nova Vida de Campina Grande, tem conseguido se reestruturar, retomou o contato com a mulher e os filhos (que não queriam nem pensar em voltar a falar com ele) e, aos poucos, tenta reconquistar a confiança dos parentes. Marcone tem trabalhado e conseguido ganhar o próprio dinheiro, que usa para se manter e para enviar alimentos à família. Também se reconciliou com o sogro. Pagou todas as dívidas pendentes em sua cidade de origem. Tem frequentado a igreja, onde ajuda na cantina. A verdade é que, depois daquele poço, sua vida começou a mudar drasticamente – e para muito melhor.

poço 3Todos nós temos um pouco de Marcone. Ninguém gosta de cair em poços, mas muitos de nós acabam em algum momento da vida no fundo de algum poço sombrio. Não um poço literal, como o que engoliu aquele paraibano de mãos calejadas, mas um poço construído por situações adversas da vida. Podem ser poços de sofrimento, dor, luto, abandono, doença, tristeza, depressão, perdas, ofensas, desemprego, escassez, falta de perdão, traições, incompreensão e tantos outros problemas que angustiam nossa alma, minam nossa esperança e fazem parecer que não temos como escapar.

É quando despencamos dentro de uma situação dessas que ficamos famintos de paz, parece que não conseguimos repousar e, quando o descanso parece ser possível, afundamos nas águas amargas e sujas de novas dificuldades. Como um alcoólatra em abstinência, temos alucinações e enxergamos saídas onde elas não existem, buscamos caminhos onde não há e vemos como possibilidades aquilo que na verdade não nos tirará do poço.

SupportÉ nessas horas que ouvimos uma voz. A voz de um pastor que sai em busca de suas ovelhas. Ele escuta nosso grito de socorro e, quando tudo parece perdido, parte em nosso auxílio. Se olhamos para os lados, tudo o que vemos são paredes escuras, que nos limitam e não apontam para nenhuma saída. Mas, se voltamos os olhos para cima, conseguimos vislumbrar o rosto do nosso Salvador. Ele nos lança um fio de esperança e nos puxa daquele local de trevas para a luz. Sem perceber, a transformação começou dentro daquele local de sofrimento.

Saímos combalidos e fracos desses poços de agonia, mas com forças suficientes para procurar auxílio junto a quem pode nos reaprumar e fortalecer. E, quando nos damos conta, percebemos que os momentos difíceis que enfrentamos no fundo daquele poço nos fortaleceu a ponto de conseguirmos mudar aspectos negativos de nós mesmos. Assim, nos aperfeiçoamos e ganhamos forças para empreender melhorias que, havia muitos anos, precisavam ser feitas.

Ao término de seu relato, perguntei a Marcone como ele se compara, hoje, ao homem que despencou naquele poço. Ele não titubeou:

– Não tem como comparar. Eu era um cabra ruim. Hoje sou bem melhor e sinto até nojo quando penso no que vivi antes.

Você está no poço da angústia, do sofrimento, da falta de esperança? Não consegue entender como Deus permite que passe pelo que está passando? Então sugiro que você pense nessas últimas palavras de Marcone e pode ser que consiga entender. Que Deus te dê forças para atravessar os momentos sombrios da vida, sabendo que, ao sair deles, você será uma pessoa muito mais madura, calejada, reflexiva e amoldada ao caráter de Jesus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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Pai1Já relatei em alguns posts do APENAS como minha experiência como pai me fez (e faz) enxergar de maneira muito mais profunda as realidades do relacionamento de Deus conosco, seus filhos. Se você é pai ou mãe certamente entende o que estou dizendo. Parece que cada episódio de nossa vida paterna é uma pregação. Cada dia com nossos filhos, um culto. Cada noite, uma vigília. A voz do Senhor e suas verdades tornam-se muito mais concretas diante daquilo que vivemos com nossos pequenos. Permita-me trazer mais uma reflexão sobre nossa fé a partir de algo que aconteceu comigo e minha filha de 3 anos.

Moro no Rio, cidade de praias. Naturalmente, levo minha pequena desde bebê para desfrutar desse playground natural. Ela sempre amou se esbaldar na areia e na água. Bem… nem sempre, na verdade. Quando completou 2 anos, um episódio teve grande impacto sobre ela. Sempre fui extremamente cuidadoso, pois sei os riscos que um segundo de distração paterna pode causar quando um filho está na água. Um dia, porém, estávamos na praia do Leblon, que tem uma arrebentação muito perto da beira, e um erro meu custou caro. De mãos dadas, eu a fazia pular por cima de cada onda que arrebentava, com aqueles gritinhos de “uúu!” que as crianças tanto amam. Ela estava eufórica, gargalhava e gritava “de novo!”. Mas, então, cometi um descuido. Eu me distraí com alguma coisa e não vi quando uma onda maior se aproximou e estourou em cima de nós. Resultado: a água entrou pelo nariz, os ouvidos, a boca e a alma da minha filhinha.

Entre engasgos e olhares assustados, ela se atracou ao meu pescoço, num gesto de desespero. Eu havia falhado e, por causa de um segundo de desatenção, a pequena parecia ter ficado traumatizada. Daquele momento em diante, nunca mais ela quis entrar na água do mar. Embora ame as aulas de natação e nade boas distâncias em uma piscina sem que ninguém a segure, daquele dia em diante ela começou a demonstrar pânico do mar. Ir à praia com ela passou a significar fincar âncora na areia e nem sonhar em chegar à beirinha da água.

Tentei muitas vezes. Cheguei mesmo a forçar a barra, entrando com ela no meu colo em águas calmas. Em vão: minha filha cravava as unhas no meu pescoço, escalava minha cabeça e, como um macaquinho que foge de um tsunami subindo ao ponto mais alto de uma árvore, ela se instalava no ponto mais alto dos ombros e da cabeça de seu papai, em pânico. Os fracassos sucessivos, durante meses, quase me convenceram de que não tinha mais jeito, o negócio era aceitar que ela tinha se tornado uma pessoa traumatizada e que nunca mais entraria no mar.

Mas um pai amoroso nunca desiste de seus filhos.

Pai2Decidimos passar as férias desse fim de ano em Cabo Frio, uma cidade essencialmente praiana. Como conheço bem a rotina do lugar, sei que ficar na cidade significa, em resumo, acordar, ir à praia, comer, ir à praia e dormir. Por um lado já estava antevendo a dor de cabeça que seria passar 20 dias na praia com uma filha que tem pavor de mar. Mas, por outro, decidi que aquela situação tinha de acabar. Então, em vez de simplesmente aparecer com ela diante do mar e tentar empurrá-la para dentro da água, desde que decidimos passar as férias em Cabo Frio resolvi trabalhar a ideia na mente dela. Decidi… pregar.

Comecei pedindo-lhe perdão por tê-la deixado se assustar uma vez e garanti que eu estaria sempre presente, extremamente atento a sua segurança. Deixei claro que o papai iria protegê-la e faria disso prioridade. Verbalizei tudo o que era possível para deixá-la totalmente segura naquela situação. E fiz isso por um longo tempo e muitas vezes. A fim de torná-la ciente do que vinha pela frente, passei a dizer rotineiramente que iríamos a um lugar de praia e que passaríamos muito tempo lá. Junto a isso, comecei a explicar repetidamente e frequentemente como é o mar, propositadamente iniciei uma série de preleções sobre as águas do oceano, explicando como funcionam as ondas, o que fazer para evitar que elas sejam incômodas e outros aspectos relacionados ao seu grande medo. Preguei, preguei e preguei.

Enfim chegou o dia.

Creio que eu estava muito mais ansioso do que ela. Chegamos a Cabo Frio, nos instalamos e logo fomos à praia. Assim que pisamos na areia, minha filhinha disse algo surpreendente:

– Eu adoro o mar!

Sorri, surpreso com aquela afirmação inesperada. Montamos a barraca e ela começou:

– Vamos, papai, vamos para a água!

Pai3Seria possível? Segurei minha pequenininha pela mão e caminhamos rumo às ondas. Para meu espanto, ela não hesitou um segundo sequer: saiu invadindo a água. Pulou, mergulhou, se jogou em cima de mim. Daqui a pouco pediu para que eu soltasse sua mão, pois queria nadar sozinha. Eu, temeroso, permiti que aquele pingo de gente se esbaldasse, mas minha atenção ficou focada em cada onda que vinha. Sempre que uma maiorzinha despontava, eu a suspendia no ar, livrando minha filha de tomar água na cabeça. Aprendi com meu deslize. E cumpri minha promessa.

Durante todas as nossas férias, fui acordado por aquele pingo de gente me sacudindo e dizendo “vamos para a praia, papai?”. Quando chegávamos, antes que eu começasse a montar a barraca ela perguntava umas trinta vezes “vamos para a água, papai?”. Conclusão: foi difícil manter minha filhinha longe do mar. Ela pedia, destemida, para ir até o fundo; queria nadar, pular, fazer tudo o que pudesse, excitadíssima com a diversão. Quando vinha uma onda maior, por iniciativa própria corria para os braços do pai. Se entrava água em seu nariz ou sua boca, dava ouvidos ao pai e assoava ou cuspia. Creio que ela amadureceu, a partir dos problemas do passado, das palavras de esclarecimento e segurança que ouviu com constância e pela confiança que desenvolveu de que nunca seria desamparada ou abandonada pelo papai (e pela mamãe), sua fonte de segurança e conforto. O conhecimento e a confiança em que estaria segura a permitiram viver momentos de extrema felicidade.

Agora pense:

Infant Grabbing Man's FingerDeus é um Pai muito melhor do que eu. Ele nunca nos desampara. Ao contrário de mim, nunca fica desatento, jamais se distrai. Nada passa despercebido diante de seus olhos. Sua atenção conosco é constante, focada e dedicada. Ele jamais é pego de surpresa por qualquer onda, mas muitas vezes deixa que uma ou outra nos atinja, pelas razões mais diversas. Doenças, desemprego, luto, perdas, dificuldades, problemas, vales, desertos, dores, seja o que for: quando esses males chegam, parece que estamos nos afogando, perdemos o fôlego, ficamos espantados. O Pai permite que isso aconteça não para que percamos a fé ou fiquemos com medo diante da vida, mas para que amadureçamos, tenhamos experiências, cresçamos, subamos a patamares mais elevados em nossa espiritualidade. O problema ocorre quando, em vez de aproveitarmos essas circunstâncias para evoluir, deixamos que nos afetem de modo negativo, o que nos leva a questionar o cuidado de Deus.

Será que ele me abandonou? Será que não ouve minha oração? Será que cometi algum pecado que fez Deus virar-me as costas? Será que o Senhor desistiu de mim? Nossa fé é abalada. A confiança no Pai é minada. Passamos a temer. Os desafios da vida se tornam monstros apavorantes. Escalamos a árvore até o galho mais alto, pois a segurança de que Deus cuidará de nós a cada segundo foi posta de lado. Temores. Medo. Ansiedade. Trauma. Depressão. Tristeza. Sensação de abandono.

– Pai, as ondas estão fortes demais, não consigo!

Mas o Aba, nosso protetor celestial, aquele que nos ama com amor incompreensível, em momento algum se ausentou. Ele tentou numerosas vezes nos fazer ver que estava nos segurando pela mão ou nos carregando no colo, mas os traumas com as dores e os sofrimentos do passado fizeram nossa fé totalmente infrutífera. É o fim? Nem de longe, pois Deus é seu Pai.

E um pai amoroso nunca desiste de seus filhos.

Pai5Então, por saber que muito virá pela frente, o Senhor começa o processo de cura de nossa alma. Para isso, Deus começa a falar conosco. Leituras da Palavra nos dão explicações e esclarecimentos. Pregações iluminadas pelo Espírito Santo nos revelam como funcionam as coisas, como o Senhor age, por que certos sofrimentos ocorrem, o que fazer quando chegam as tribulações. Livros escritos por irmãos e irmãs movidos pelo Divino abrem os olhos para realidades profundas da ação do Pai. Aos poucos, o poder das verdades celestes vai transformando nossos medos em paz, nossa dor em esperança, nossos traumas em aprendizado. Amadurecemos. Vemos a vida e Deus de maneira diferente e com muito mais transparência. Entendemos que ele nunca nos abandonou nem nunca nos abandonará. Torna-se clara a certeza de que, em meio a toda aflição, o Senhor não soltou nossa mão, mas deixou as ondas nos atingirem sem causar um dano permanente – e os propósitos do alto diante daquela situação ficam patentes.

Passamos a compreender. Somos fortalecidos na fé. Galgamos novos patamares em nossa intimidade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Conhecemos Deus, então, não mais por ouvir falar, mas por vê-lo com nossos próprios olhos espirituais. Com isso, ganhamos total confiança nele. E quando novas ondas despontam no horizonte, ameaçando nos afundar, afogar e machucar, dizemos com destemor:

– Vamos, papai, vamos para a água!

Pai6Passamos a encarar os problemas com segurança. Os momentos de trevas não nos apavoram mais. Sabemos que os vales virão, mas nosso Pai está e estará sempre ali, a nos proteger, guardar, escoltar, sustentar, salvar. Ele é Emanuel: Deus conosco. Conosco, nunca longe de nós (Mt 1.23). Ele está com você todos os dias, até a consumação do século (Mt 28.20). E temos a certeza de que “Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá” (Sl 139.8-10). Tudo o que temos de fazer, então, é entregar nosso caminho ao Senhor, confiar nele e saber que o mais ele fará (Sl 37.5). E se, em algum momento, sua fé vacilar e você acreditar na mentira de que teu Pai não ajudará a te sustentar, “Confia os teus cuidados ao SENHOR, e ele te susterá” (Sl 55.22).

Meu irmão, minha irmã, as ondas certamente virão, pois ninguém atravessa o mar da vida sem ser açoitado por elas. Mas tenha esta certeza: o teu Pai, que jamais se distrai ou se descuida, te susterá. Palavra de pai.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício