Posts com Tag ‘diabo’

otica 1Uma das grandes lições que meu pai me ensinou é que experiências de vida são muito mais valiosas do que bens materiais. Por isso, na minha infância os presentes que ganhava dele eram bem chinfrins, mas, em compensação, todas as férias eram inesquecíveis: viajávamos de carro a lugares como Pantanal, Nordeste, Amazônia, Uruguai, Argentina, Bolívia. Foram muitas aventuras extraordinárias. Cresci e carreguei esse aprendizado comigo: bens passam, mas experiências permanecem. Por isso, alguns anos atrás, em vez de dar um objeto qualquer como presente de aniversário a minha esposa, dei-lhe um voo de helicóptero sobre a cidade do Rio de Janeiro. O dia estava lindo e, de fato, foi um passeio marcante. Algo em especial chamou minha atenção durante o voo: era impressionante como ver de outro ponto de vista os mesmos lugares que sempre frequentei me permitia ver as ruas, os bairros, as praias e tudo mais por uma ótica totalmente diferente. Aquele voo me fez entender com uma clareza inédita uma importante realidade da vida: tudo o que nos acontece pode ser analisado de ângulos diferentes e, dependendo de qual ponto de vista escolhemos, teremos percepções completamente distintas acerca das mesmas coisas.
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Para ficar mais claro o que quero dizer, tomemos por exemplo este relato bíblico: Naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes Jesus: Passemos para a outra margem. E eles, despedindo a multidão, o levaram assim como estava, no barco; e outros barcos o seguiam. Ora, levantou-se grande temporal de vento, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água. E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro; eles o despertaram e lhe disseram: Mestre, não te importa que pereçamos? E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança. Então, lhes disse: Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé? E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.35-41).
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ponto de vista 2Pare para pensar como as pessoas que estavam no barco com Jesus enxergaram esse episódio e como as que estavam nos “outros barcos [que] o seguiam” perceberam o ocorrido. Para todos, o fenômeno foi um só: eles saíram de uma margem, veio um grande temporal de vento, com altas ondas, de repente o tempo clareou e logo aportaram na outra margem. Mas as conclusões e as lições foram enormemente distintas: para  quem estava nos “outros barcos”, foi só isto: um fenômeno natural, climático, que se iniciou e terminou pelas forças da natureza. Mas, para quem estava no barco com Cristo, ficou claríssimo que houve uma intervenção sobrenatural de Deus por meio de Jesus. Assim, dependendo de em que barco se estava, a percepção da relação entre Jesus e o acontecido foi totalmente  diferente. Para uns, forças da natureza. Para outros, um milagre que comprovava a divindade de Cristo. Conclusões opostas, frutos de pontos de vista opostos.
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otica 2Pensemos agora sobre a sua vida. Quando chegam a tragédia, a desgraça, a dor e o sofrimento, como você os enxerga? Será que consegue perceber os fatos ruins da vida como parte da escola de Deus, eventos que têm a finalidade de lapidar o diamante bruto que você é e transformá-lo em joia preciosa? De que perspectiva você vê tudo de ruim que se abate sobre você ou aqueles que ama? Com a mesma murmuração do povo de Israel ao sair do Egito ou como Jó, que, ao perder todos os filhos, mortos num catastrófico desabamento, adorou o Senhor e foi capaz de dizer: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21)?
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Será que você consegue ver o Deus que é puro amor e misericórdia no controle de tudo, mesmo quando chegam as lágrimas e o abatimento? Qual tragédia você está vivendo? Será que é capaz de enxergá-la como parte do grande propósito divino ou como o abandono de um deus mau e raivoso? O ponto de vista que você decidir assumir fará toda a diferença – na sua forma de proceder, nas lições que extrairá, nas palavras que dirá, na solidez de seu relacionamento com o Criador.
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otica 3Muitos, quando ouvem que as tragédias fazem parte da grande equação de Deus rumo a um futuro que ele deseja construir a partir da soma de eventos da vida, se recusam firmemente a reconhecer esse fato. Deus é bom e as desgraças só podem ser atos do Diabo ou da maldade do mundo, dizem. Eu sei que é difícil compreender, entenda que eu sei disso. Por isso, nas horas em que parece que não dá para encaixar sofrimento no mesmo espaço que um Deus bom e amoroso, temos de olhar para a Bíblia e não para o que nós “achamos”. Lembre-se de José, que tinha tudo e, de repente, é traído pelos irmãos, passa anos como escravo, é caluniado, vira presidiário… come o pão que o Diabo amassou… Peraí… o Diabo? Veja a percepção que José tem após atravessar as desgraças todas, em seu discurso aos irmãos traidores: “Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus” (Gn 45.8). Uau, que homem de Deus era José. Ele compreendia com clareza que seu sofrimento fizera parte de um plano maior do soberano Criador, tal qual a dolorosa picada de uma injeção que, mesmo que machuque, tem por objetivo nos proteger de uma doença muito pior.
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Pense na cruz de Cristo, um sofrimento sem igual. Foi o Diabo que o levou à cruz? João 3.16 diz que o sofrimento de Jesus foi porque “Deus amou o mundo”. Pense no cativeiro babilônico de Judá e na conquista de Israel pela Assíria, foi o Diabo quem os causou ou foi tudo parte do plano didático do Deus que “disciplina todos os que ama”? Se você conhece a história bíblica, sabe a resposta.
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otica 4Meu irmão, minha irmã, o plano inicial de Deus não era o sofrimento da humanidade. Mas o sofrimento entrou, de penetra, como consequência do pecado. Está lá em Gênesis 3, basta ir à sua Bíblia ler. A partir daí, somos obrigados a conviver com ele, até que cheguem novos céus e nova terra. A questão toda é: é nesse meio-tempo? E no período em que estamos no mundo, sabendo que “no mundo tereis aflições”? Vamos olhar pelo ponto de vista humano, amaldiçoar a Deus e pedir a morte ou vamos olhar nossa dor pelos olhos divinos e, assim, adoraremos ao Senhor, a despeito das circunstâncias?
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Quando estivermos no cárcere, olhemos pelo ponto de vista de Deus e cantemos louvores. Quando estivermos na doença, olhemos pelo ponto de vista de Deus e o adoremos. Quando estivermos na desgraça, olhemos pelo ponto de vista de Deus e lhe rendamos honra. Deus é Deus e Deus é bom. A dor e o sofrimento não mudam esse fato. Mas tenha uma certeza: em meio às nossas angústias e aflições, jamais estamos sós. Pois Jesus prometeu que estaria conosco, todos os dias, até a consumação do século.
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cruzA sua lágrima não é derramada só por você. Saiba que há um Deus que decidiu enxergar a vida pelo meu e pelo seu pontos de vista. Por isso, ele se fez como um de nós. Viveu, suou, chorou, sofreu. Sofreu! Sofreu o pior dos sofrimentos! Mas ressuscitou. E hoje habita em glória, com lugar preparado  para nos receber. Você está sofrendo, meu irmão, minha irmã? Lembre-se: “A nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.17). Sim, Deus tem preparado para você uma glória eterna, que pesa mais do que todos os seus sofrimentos. Glória eterna. Paz. Felicidade. Creia: o fim do sofrimento virá. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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inferno 1Eu vi o inferno. Calma. Antes que você ache que vou contar mais uma dessas experiências de gente que afirma ter sido arrebatada e levada para um passeio pelo temido local de tormento eterno, deixe-me tranquilizá-lo; não é nada disso. Tampouco pretendo escrever um livro com “divinas revelações” do que há do outro lado da morte. A visão que tive do inferno na verdade é metafórica, fruto de um episódio simples que me fez ter um lampejo da terrível realidade de quem após esta vida adentra nesse ambiente tão misterioso onde há choro e ranger de dentes. Minha filha é muito apegada aos pais. Talvez pelo fato de não ter irmãos ou primos por perto e de conviver essencialmente comigo e minha esposa todos os dias e noites, ela aprecia muito estar em nossa companhia e detesta ficar longe de nós. Com a virada do ano, sua turma na escola ganhou novas professoras, que ela não conhecia antes. Bem aclimatada ao colégio, já há bastante tempo ela não faz escândalos quando a deixamos para a aula, acostumada que está aos coleguinhas e ao ambiente escolar. Até que…

No primeiro dia de aula deste ano, minha esposa é quem a levou para a escola. Tudo certo, sem incidentes. Mas, no segundo dia, foi minha vez. Pus a filhota na cadeirinha de minha bicicleta e fomos pela ciclovia, cantando e conversando, até o colégio. Cheguei, estacionei, descemos da bicicleta e caminhamos para o pátio em que eu a entregaria para a professora. Tudo normal, sem problemas. Só que, então, fui me despedir. Em vez do beijinho e do abraço usuais, seguido de um “tchau, Jesus te abençoe”, naquele dia a reação dela foi diferente. Pediu colo. Agarrou-se em meu pescoço com todas suas forças e começou a lamentar baixinho:

– Papai… papai… papai… papai…

Como um filhote de coala, ela se atracou em mim com braços e pernas e não desgrudava por nada. Desacostumado a esse tipo de comportamento já havia muitos meses, fui pego de surpresa. Tentei conversar. Usei muitos argumentos. Mas as palavras foram vãs e minhas tentativas, infrutíferas.

– Papai… papai… papai… papai…

Olhei para a professora nova com um olhar de “me ajuda” e ela veio em meu socorro. Tentamos fazer minha filha desgrudar e se juntar aos coleguinhas, mas foi pior. Quando percebeu que estavam tentando separá-la de mim, a filhota começou a chorar e a gritar. Foi um escândalo. Eu tentava argumentar, a professora oferecia convites e opções de atividades, mas absolutamente nada surtia efeito.

– Bebê, papai precisa ir…

– Papaaaaaaaaaaiiiiii!!!!!!! – a coisa só piorava.

Quando me dei conta, ela entrou em desespero. Por nada do mundo queria ficar longe de mim. O grito virou um urro. As lágrimas banhavam o rosto, que inchava e se avermelhava. O suor empapava a camisa. O cabelo começou a ficar desgrenhado, de tanto ela resistir. Eu tentava. A professora tentava. Uma auxiliar tentava. Até coleguinhas se aproximaram com olhar assustado para ver o que estava acontecendo. Nada adiantava.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaieeeeeeee!!!!!!

Consegui, com monumental esforço, puxá-la para longe do abraço e a pus no chão. Com um salto, ela se atracou a uma de minhas pernas e o choro piorou.

– Papaaaaaaaaaaiiiiiiii!!!!! Coloooooooooooo!!!!!!!

Olhei para o relógio e vi que, se não saísse dali naquela hora, me atrasaria para o trabalho. Olhei para a professora, que me olhou de volta. Pelo olhar decidimos que teríamos de desgrudar minha filha à força. E foi o que fizemos. Com o máximo de delicadeza que consegui, afastei os bracinhos dela de mim e a professora a segurou, enquanto eu caminhava apressadamente para a porta. Com o coração dilacerado pelos urros da minha filha, que dobraram de volume ao me ver me afastando, olhei para trás.

E foi quando tive a visão do inferno.

Separada do pai, aquela pobre alma babava e chorava, com as mãos estendidas em minha direção, os dedos contristados, gritos que clamavam pela presença do pai, olhos arregalados em desespero. Nada no mundo importava para ela naquele momento: a única coisa que desejava era estar com seu pai. Mas ela não podia. Apesar de todas as fibras do meu ser me impulsionarem para correr em sua direção, tomá-la em meus braços e levá-la comigo de volta para casa, eu sabia que não seria possível. Então assoprei um beijo de longe e gritei:

– Papai te ama! Muito!

E saí do pátio, em direção à bicicleta, enquanto ouvia os gritos e o choro da minha filhinha.

– Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaai!!!! Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!

inferno 2O que é o inferno? Esqueça todas as imagens simbólicas que já ouviu sobre isso. Esqueça diabinhos vermelhos cutucando pessoas com tridentes. Esqueça divinas revelações, esqueça livros de gente que afirma ter sido arrebatada, esqueça tudo. Inferno é uma coisa só: querer estar com o Pai e não poder. Só quem viu nos olhos de alguém o mais absoluto desespero por desejar ficar com o pai e não ter essa possibilidade, como eu vi, compreende o que significa o choro e o ranger de dentes.

Fomos criados para viver com Deus. Viver longe dele é algo totalmente antinatural. Por isso, nossa natureza clama angustiadamente por sua presença. Quando o Pai pôs Adão no Éden, insuflou nele o desejo de conviver diariamente consigo. Isso é o natural. O pecado, porém, criou o abismo entre Criador e criatura e, a partir daí, passamos a viver com um vazio do tamanho de Deus na alma. Fomos expulsos do jardim, e não fomos criados ou preparados para isso. Deus fez o homem para estar junto de si e qualquer coisa diferente disso é uma distorção astronômica da ordem original das coisas. O inferno foi criado para Satanás e seus anjos, lá não é nosso lugar. Não pertencemos ao inferno, mas ao Éden, à convivência permanente com o Pai. Por isso, é completamente artificial estar longe de Deus, não faz sentido, não encaixa, o mundo vira de cabeça para baixo numa situação dessas.

cruzMas, então, veio a cruz. Ela nos tirou dessa realidade irreal e surreal que é viver longe do Pai. Ao sermos adotados como filhos de Deus, mediante Cristo, retornamos ao estado original para o qual fomos formados: temos acesso ao Senhor, passamos a viver com ele – não mais em um jardim, mas em nós mesmos, feitos habitação do Santo Espírito. Ingressamos no reino do qual nunca deveríamos ter saído. Nossa comunhão com o Pai volta a ser constante, como sempre deveria ser e como nunca deveria ter deixado de ser, não fosse pela entrada do pecado em nosso coração.

Quem não tem Cristo, todavia, vive outra realidade. Na vida desses, a separação do Pai segue do nascimento até a morte. Distraídos com as alegrias desta vida, os prazeres, as festas e os benefícios que as riquezas proporcionam, seu foco torna-se o que está ao redor. O afastamento de Deus os cega a tal ponto que chegam a crer em outros deuses ou mesmo a não crer em nenhum. E, assim, a necessidade de retornar àquele estado original de comunhão constante com o Criador é embaçada pelas coisas desta vida. Consciência cauterizada.

Só que aí chega a morte.

E, após a morte, todas as distrações, todos os prazeres, tudo aquilo que ocupava a mente e o coração dos que deram as costas para Cristo durante seus anos na terra… desaparece. Simplesmente deixa de existir. O que resta? A ausência do Pai. Um vazio que nunca será preenchido. E isso leva, inevitavelmente, ao sofrimento. À dor. Ao desespero. Ao choro. Ao ranger de dentes. Sem as distrações da vida terrena, a alma sedenta da presença de Deus percebe que jamais a terá. Pelos séculos dos séculos, sua existência será marcada pela ausência do Pai. E tudo o que lhe resta é o tormento eterno que essa percepção gera.

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!!!!!!!

Só que aí não adianta mais nada clamar. O Pai não tem mais o que fazer, pois a cruz foi rejeitada. Aquela pobre alma deu as costas para Jesus. O Pai só pode olhar de longe e, cheio de amor e compaixão por aquela vida, afastar-se, ouvindo seus gritos do mais absoluto desespero, pois a justiça teve de ser cumprida: sem Deus nesta vida, sem Deus na eternidade. O que sobra? O nada. O nada absoluto.

Ao final da tarde, voltei à escola para pegar minha filha. Assim que ela me viu, correu em minha direção e, de um salto, pulou no meu pescoço. Ficou agarrada um longo tempo, enquanto eu, meio espremido em seu abraço, dava dezenas de beijos no seu rosto. Sem desgrudar, ela disse baixinho no meu ouvido:

– Papai… eu tava com saudade.

E respondi, com amor:

– Eu também, bebê. Mas agora o papai está aqui. E a gente vai ficar juntinho, viu? Vou te levar pra casa e vamos ficar agarradinhos.

Ela abriu um sorriso radiante. Deu um longo suspiro, relaxou os braços e apoiou a cabecinha no meu ombro. E foi quando eu percebi: agora, ali, no abraço do pai, minha filha estava… no céu.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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jo 1O início do livro de Jó nos mostra uma situação muito estranha. Em um primeiro olhar, temos a sensação de que o Senhor está engajado numa barganha com Satanás acerca da vida do “homem íntegro e justo; [que] temia a Deus e evitava fazer o mal” (Jó 1.1). Parece uma espécie de aposta, de desafio. Que esquisito. Como podemos entender isso? O que o relato desse diálogo entre o Senhor e o Diabo nos ensina? Se conseguirmos enxergar além, vamos perceber que Deus na verdade não barganhou em momento algum com Satanás, mas só deu papo para o inimigo e permitiu que ele afligisse Jó por uma razão bem específica, que veremos no último parágrafo deste texto.

É um enorme equívoco achar que Deus e Satanás estão numa batalha em pé de igualdade. Entenda: a única relação dos demônios com o Criador é no sentido de obedecer e implorar ao Senhor. Do mesmo modo que eu e você, como criaturas, dependemos da permissão do Pai para tudo, todo e qualquer ser espiritual tem de seguir o mesmo protocolo. Sim, Satanás é obrigado, em tudo, a dizer ao Todo-poderoso: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus”. Ele não tem escolha. Então o que esse trecho de Jó mostra não é um Deus que barganha com o Diabo, mas um Diabo que está submisso em tudo a Deus e tem necessariamente de obedecer-lhe – embora de muita má vontade, é verdade. Mas se o Senhor manda, o Diabo só pode dizer “amém” – as forças espirituais da maldade jamais moverão uma palha sequer se o Todo-poderoso não permitir.

jo 2Para tomar qualquer iniciativa, Satanás precisa que Deus conceda-lhe o direito. Veja que em Jó 1.12 o Senhor diz a Satanás: “Pois bem, tudo o que ele possui está nas suas mãos; apenas não toque nele”. Deus usa o verbo no imperativo, isto é, trata-se de uma ordem, algo que vem de cima para baixo: “Não toque”. Em nenhum momento há uma barganha: há uma concessão. E que vem não para satisfazer Satanás, mas para cumprir os propósitos divinos. Logo, do mesmo modo que Deus endureceu o faraó no Êxodo, usou Nabucodonosor, Ciro, Dario e outros incrédulos para realizar a sua soberana vontade, também só permite ao Diabo fazer suas diabruras se elas, no grande esquema das coisas, atenderem ao que o Senhor deseja. Nesse sentido, o Inimigo é como uma caneta que o Pai usa para escrever a História da eternidade. E canetas não têm autonomia, poder ou autoridade: são instrumentos usados para atender os desejos de quem os maneja.

As palavras de Cristo em Mt 4.10 (a tentação de Jesus no deserto) são absolutamente reveladoras: “Jesus lhe disse: Retire-se, Satanás!”. Perceba o que está acontecendo aqui. Jesus simplesmente dá uma ordem. E o que o Diabo faz quando Cristo diz “retire-se” é: “Então o Diabo o deixou”. Não há luta, não há barulho, não há disputa. Jesus diz e o Diabo simplesmente e subordinadamente obedece. A história se repete em Marcos 5, no episódio do endemoninhado gadareno. Quando aquela legião de demônios se vê diante do Rei dos Reis o que ela faz? “E implorava a Jesus, com insistência, que não os mandasse sair daquela região. Uma grande manada de porcos estava pastando numa colina próxima. Os demônios imploraram a Jesus: ‘Manda-nos para os porcos, para que entremos neles’” (Mc 5.10-12). Os demônios imploraram. Segundo o dicionário, isso significa que eles suplicaram, pediram encarecidamente e humildemente.

O livro de Jó nos antecipa o que veríamos séculos depois se cumprir em Cristo: a supremacia de Deus sobre o Diabo. Jesus lida com Satanás e os demônios sempre como um leão trataria um rato ou uma águia trataria uma serpente. Mateus 8.16 diz a respeito de Cristo: “Ao anoitecer foram trazidos a ele muitos endemoninhados, e ele expulsou os espíritos com uma palavra. Repare, uma única palavra! Jesus não se rebaixava a ficar conversando com demônios se não houvesse propósito para isso. Com uma única palavra os mandava embora.

jo 3A Bíblia é sobre Cristo. O evangelho é sobre Cristo. Nossa vida é sobre Cristo. Se você reparar que está gastando muito do seu tempo lendo sobre demônios, falando sobre eles e se preocupando com eles é sinal de que suas prioridades na vida de fé precisam ser reavaliadas. Cristianismo é sobre viver com Cristo e amar o próximo e não sobre ficar gastando horas e horas com demônios. Ao final do livro de Jó, vemos o resultado de tudo o que o Diabo lhe causou: “Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram” (Jó 42.5), disse o patriarca ao Senhor. Não, não houve barganha entre Deus e Satanás. Houve, isso sim, a mão do Pai em ação para fazer seu filho amado crescer em intimidade consigo: o sofrimento de Jó fez com que ele deixasse de ser apenas um homem que cumpria a lei de um Legislador para se tornar um filho que tinha intimidade com um Pai.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

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Formiga1Um programa de rádio evangélico me convidou para responder perguntas de ouvintes sobre casamento, família, relacionamentos, sexualidade e temas correlatos. Minha reação imediata foi recusar, por me sentir totalmente incompetente e indigno de fazê-lo – e já explico por quê. Mas o pastor responsável pelo programa insistiu que fosse eu. Diante disso, orei e pensei bastante sobre o assunto. Decidi ir em frente, pelas razões que compartilho com você neste texto. É possível que a linha de raciocínio que me fez aceitar o convite lhe seja útil em alguma situação que esteja vivendo ou venha a viver.

O primeiro motivo que, de cara, me fez querer recusar o convite foi a consciência de que há muitas pessoas infinitamente mais bem preparadas do que eu para falar sobre os temas referidos. Não digo isso com nenhuma falsa modéstia, é a mais pura constatação da realidade. Há tanta gente gabaritada, que estudou psicologia, que trabalha há anos com aconselhamento familiar, pastores e líderes, pessoas qualificadas e experientes. Eu, por outro lado, não sou um “especialista” em vida familiar, não sou sexólogo, tampouco cultivo um ministério na área de casais… nem ao menos um cargo eclesiástico tenho. Sou só uma ovelhinha balindo por aí. Então, a total consciência de que não sou a melhor pessoa para falar sobre esses assuntos me levou a dizer ao pastor responsável pelo programa que eu não era o convidado certo.

Como ele insistiu, orei e comecei a pensar em tudo aquilo que aparece em nosso caminho e que não nos sentimos qualificados para fazer. Isso já aconteceu com você? Em geral, é algo que ocorre em qualquer área de nossa vida (já teve de trocar uma tomada sem saber nada de eletricidade ou consertar a descarga do vaso sanitário sem entender a diferença de um parafuso para uma mola? Esse sou eu…). E, na vida eclesiástica, em especial, isso acontece com muita frequência. É quando, por exemplo, seu pastor te chama para liderar um departamento na igreja sem que você se sinta capaz. Ou quando um irmão te convida para participar do evangelismo e você não acha que dá conta. Ou mesmo quando a líder da escolinha infantil lhe oferece a possibilidade de ajudá-la no cuidado com os pequenos e você percebe que nunca educou uma única criança sequer na vida. Tarefas que você se sente incompetente para executar, mas que são postas nas suas mãos: e aí, o que fazer?

Formiga musculaçãoNão tenha absolutamente nenhuma dúvida de que o melhor é você ser um especialista, alguém que se preparou, estudou, leu muito sobre o assunto. Claro que há dons naturais, concedidos por Deus, mas se aprofundar no que precisa ser feito é o melhor dos mundos. Se o pastorado surge em seu caminho, melhor é que faça um seminário teológico, leia tudo o que puder e se dedique a cuidar de vidas humanas. Se é chamado para dar aulas, o ideal é que faça cursos e especializações pedagógicas. Se te convidaram para tocar no grupo de louvor e você sente que poderia ser um músico ainda melhor, procure estudar com um professor. E por aí vai. Seja qual for a atividade que te chamaram para realizar, o ideal é que você se aprofunde, leia livro atrás de livro sobre o assunto, estude, dedique-se, pratique, faça o que estiver ao seu alcance para se desenvolver. Mas, e se você não for um especialista e Deus, ainda assim, te chamar para realizar uma tarefa? Será que Deus errou? Não creio. Então, se o Senhor entregou algo em suas mãos, não fuja de Nínive: faça. Ou você pode acabar na barriga de um grande peixe.

Pedro era pescador, mas Deus o chamou para ser pregador. José não nasceu governador do Egito, certamente. Davi era pastor de ovelhas, mas o Senhor o convocou para se tornar guerreiro e rei. Moisés… bem, basta ler o diálogo dele com o Senhor em Êxodo 3-4 para ver quanto aquele homem se sentia despreparado para realizar a missão que lhe era confiada. Os exemplos são muitos. Conheço pastores que nunca cursaram um seminário teológico mas são cuidadores de almas infinitamente mais gabaritados, sábios e competentes do que muitos outros com doutorado em teologia. Se Deus te convocou para realizar algo, não se sinta incapaz: mãos à obra. E, uma vez que esteja com a mão no arado, faça de tudo para se especializar – leia muito sobre o assunto, estude, peça conselhos, vá à luta.

Formiga insignificanteMas houve uma segunda razão para eu querer, de cara, recusar quando o pastor me chamou para falar sobre vida familiar, relacionamentos e sexualidade. A questão é que eu mesmo já falhei tanto nessas áreas que me senti realmente indigno de abordar tais assuntos. Depois de 15 anos de casamento, não pense você que nunca tive problemas familiares. Claro que tive. Sou tão humano, falho e pecador como qualquer outra pessoa. Não serei hipócrita: já errei muitas e muitas vezes e deixei a desejar em incontáveis situações – como filho, como marido e como pai.

Estou aprendendo, errando e acertando, pecando e buscando não mais pecar. Tentando melhorar sempre, mais ainda longe, muito longe, da perfeição. Você também é assim? Eu sou, da cabeça aos pés. Pergunte a minha mãe sobre meus defeitos como filho e ela passará horas falando sem parar. Pergunte a minha esposa quantas vezes já pequei contra ela, a ofendi, entristeci e falhei em meu papel de marido e eu não teria coragem de ficar por perto para ouvir a resposta. Pergunte a minha filha meus deslizes como pai e… bem, graças a Deus a bebê ainda não percebeu que papai não é infalível, mas volte daqui a alguns anos e garanto que o relatório será extenso. Então este é o problema: a clareza sobre todos os meus muitos erros e pecados na vida familiar me fizeram pensar instantaneamente que não tenho nenhuma moral para opinar sobre o assunto. Quem sou eu para comentar sobre áreas em que já falhei tanto?

Mas, então, na oração que fiz após receber o convite, veio ao meu coração a lembrança de que Deus chamou pecadores para pregar contra o pecado. Convocou homens imperfeitos para pregar a perfeição. Intimou gente abatida para proclamar a alegria. Conclamou doentes a orar pelos enfermos. Constrangeu carentes a anunciar a plenitude. “O SENHOR olha dos céus para os filhos dos homens, para ver se há alguém que tenha entendimento, alguém que busque a Deus. Todos se desviaram, igualmente se corromperam; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.2-3). Deus nunca chamou pessoas irretocáveis para fazer sua obra – ele só usa gente capenga.

SuperformigaOu você acha mesmo que existem supercrentes? Cristãos infalíveis? Não viemos de Krypton, minha irmã, meu irmão: em pecado fomos gerados e, embora tenhamos sido justificados pela graça, seguimos atrelados ao “corpo sujeito a esta morte”: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?” (Rm 7.18-24), confessou o sincero Paulo, pecador que Deus chamou na estrada de Damasco para realizar exatamente o oposto daquilo que ele fez a vida inteira.

O pecado que habita em nós cisma em não ir embora e nossa natureza aguarda a ressurreição em glória, quando, só então, estaremos livres de errar. Até lá a coisa está feia. Mas, mesmo em meio a toda essa feiura, Deus nos convoca para proclamar a beleza das virtudes cristãs. Não conheço um único pregador que suba ao púlpito sem pecados, erros, falhas e fraquezas nas costas. Nenhum. Tampouco palestrantes – nacionais ou internacionais. Ou professores de seminário teológico ou de escola bíblica. Nenhum. Absolutamente todo ser humano que prega o evangelho e os valores cristãos tem montes e montes de defeitos e escorrega constantemente em sua falibilidade. Se você conhece alguém que ensine, aconselhe, pregue ou trabalhe na obra de Deus e seja impecável em suas ações, desconfie que é Jesus Cristo disfarçado – porque só ele é puro, só ele é digno. “Vi um anjo poderoso, proclamando em alta voz: ‘Quem é digno de romper os selos e de abrir o livro?’ Mas não havia ninguém, nem no céu nem na terra nem debaixo da terra, que pudesse abrir o livro, ou sequer olhar para ele. Eu chorava muito, porque não se encontrou ninguém que fosse digno de abrir o livro e de olhar para ele. Então um dos anciãos me disse: ‘Não chore! Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos’” (Ap 5.2-5). Nem uma única alma está isenta de indignidade. Quem nos dignifica é Cristo.

Vasos de barroQuando essa ficha caiu, percebi que não era a minha dignidade ou a minha infalibilidade que me tornaria apto a falar verdades bíblicas: o que tem efeito são a dignidade e a infalibilidade de Jesus e da Palavra de Deus. A leitura de 2Coríntios fechou para mim a questão: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor, e a nós como escravos de vocês, por causa de Jesus. Pois Deus, que disse: ‘Das trevas resplandeça a luz’, ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós” (2Co 4.5-7).

Por isso, meus muitos erros não devem me impedir de proclamar a verdade inerrante das Escrituras. É evidente e até desnecessário dizer que você deve sempre fugir do pecado e procurar com todas as suas forças manter-se em santidade – isso sempre, sempre e sempre. Sua falibilidade jamais deve ser uma desculpa para falhar. Mas entenda, meu irmão, minha irmã, que o fato de você ser falho não deve impedi-lo de pregar sobre Aquele que não falha. O fato de você errar não pode calar teus lábios para anunciar o único que não erra. A certeza da sua pecaminosidade jamais pode fazer com que você não pregue contra o pecado e exalte Aquele que nos livra do pecado. Em resumo, mesmo sabendo que não valemos nada, Deus nos chamou para disseminar a verdade, a pureza, o amor, a graça, a restauração, a união, o perdão e tudo aquilo em que falhamos tantas vezes e continuaremos a falhar.

Se Deus fosse esperar que pessoas perfeitas pregassem e ensinassem acerca do evangelho, jamais as boas-novas teriam sido pregadas ou ensinadas. Jamais. Mas é claro que o Diabo vai tentar usar a sua indignidade para calar você. Ele te acusará e tentará convencê-lo de que seus erros o tornam incapacitado para fazer qualquer coisa para Deus. Se você acreditar nisso, as trevas terão derrotado a luz. Não permita que isso aconteça. Judas permitiu e se enforcou. Pedro não permitiu e se tornou o grande apóstolo aos judeus.

E foi assim, com total consciência de que não sou a pessoa mais bem preparada do mundo e de que sou totalmente indigno de fazê-lo, que aceitei participar do programa de rádio. Espero que tenha abençoado algumas vidas. Espero que tenha servido aos propósitos do reino de Deus.

Dependente de DeusAproveito essa minha experiência para perguntar: quantas vezes você deixou de servir a Deus por se sentir despreparado? Quantas vezes você deixou de pregar sobre algo, ensinar, aconselhar, evangelizar, amparar, ajudar, edificar porque se sentia indigno de fazê-lo? Se Deus chamou, meu irmão, minha irmã, vá em frente. Se tem dúvidas de que foi Deus, busque o esclarecimento em oração. Mas, se sente aquela paz sobrenatural no seu coração, então seja forte e corajoso, não tema nem desanime. Porque, se o Senhor convocou você a fazer algo, ele garante. Acredite: o Todo-poderoso não é bobo nem toma decisões impensadas. Se é você o escolhido, nada nem ninguém impedirá Deus de usar a sua vida em prol de seus grandes, graciosos e eternos propósitos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Inimigo de nossas almas1Ele é mau. Sua natureza o faz agir diariamente contra nós. Ninguém tem maior capacidade de nos prejudicar do que ele. Seus pensamentos constantemente vão contra aquilo que é puro e bom. Suas ações cotidianamente sabotam nossa santidade. Ele é o grande responsável por cada um dos pecados que cometemos. Ele é o maior adversário de cada cristão na luta diária para ser fiel a Deus. Ele é o inimigo de nossas almas. Você sabe de quem estou falando. Sabe, não sabe? Então diga o nome dele em voz alta. Não se preocupe, ele não vai mordê-lo. Pode dizer.

Já disse?

Pois bem, se você disse “Satanás”, lamento, não é essa a resposta. O nome que deveria ter dito é… o seu próprio. Porque o maior inimigo de sua alma é você mesmo.

Para muitos o que acabei de dizer pode soar estranho. Mas, se você achava que seu grande adversário era o Diabo, está na hora de reconsiderar. Por uma simples razão: embora tente constantemente influenciá-lo, ele não obriga você a fazer absolutamente nada. Você faz porque decide fazer.

Inimigo de nossas almas2Vamos pensar em Adão e Eva. A serpente obrigou um dos dois a comer o fruto proibido? Não, não obrigou. Do mesmo modo que, em nossos dias, o Diabo não nos obriga a cometer nenhum pecado. O que ele fez com o primeiro casal e o que faz hoje é exatamente a mesma coisa: sedução. Satanás não força ninguém a nada, ele apenas sugere. Sussurra. Mostra possibilidades. Incentiva. Usa toda a sua lábia para fazermos o que ele quer. Mente que não haverá consequências. Mas quem toma a decisão de pecar somos eu e você. A única circunstância em que o Diabo obriga um ser humano a algo é na possessão demoníaca. Como não é o seu caso, não existe nada que Satanás possa levá-lo a fazer, contra a sua vontade, se você não consentir.

A verdade é que todas as vezes em que eu pequei, o fiz por decisão própria. Eu escolhi pecar. Tinha as duas possibilidades, o “sim” e o “não”, mas optei pelo “sim”. A responsabilidade por cada pecado da minha vida é  minha, o que me torna a pessoa com maior potencial de prejudicar a mim mesmo. Evidentemente, o Diabo tem um importante papel nessa equação. A ação dele é simbolicamente parecida com aquilo que você já viu em alguns desenhos animados, em que o personagem fica com um demoniozinho perto da orelha, ouvindo incentivos para fazer algo. Na vida real, os demônios só têm poder para fazer isto: tentar seduzir as pessoas para que pequem. O espírito maligno sugere: “Faça”. Mas quem faz… é você.

Inimigo de nossas almas3Paulo falou sobre isso. “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19). Note que ele não diz “o mal que não quero o Diabo me obriga a fazer”: Paulo assume a responsabilidade. Ficar pondo a culpa em Satanás por todas as coisas ruins que fazemos cria um grande problema para nós. Pois, se terceirizamos a culpa de nossas transgressões, acabaremos, como Pilatos, crendo que estamos com as mãos limpas porque as lavamos. “Eu fiz porque o Diabo me obrigou”, podemos dizer. Só que essa não é uma afirmação bíblica. Seria leviandade pôr a culpa de nossos erros em alguém que, por mais que tente de todo jeito fazer que pequemos, não tem poder nenhum de nos fazer pecar.

Eu peco porque decido pecar. Todos os meus pecados são responsabilidade minha. Eu é que darei contas de cada pensamento, palavra e ação que puser em prática. O mesmo se aplica a cada pessoa do planeta. Peço a Deus que essa percepção nos leve a tomar mais cuidado a cada nova tentação que atravessar nosso caminho.

Inimigo de nossas almas4Ah, sim, não quero que essa realidade deixe você triste. É uma verdade que não deve nos abater, mas sim nos deixar alertas, vigilantes, precavidos – atentos aos sussurros sedutores de Satanás e às nossas próprias atitudes. E uma boa notícia, de que você nunca deve se esquecer: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Jesus morreu na cruz para perdoar cada uma das suas transgressões. O sangue dele repousa sobre você. E não há nada que o Diabo possa fazer com relação a isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

foto.PNG Gosto muito de pôr minha filha para dormir. Temos uma espécie de ritual entre o instante que deitamos em sua cama e o momento em que ela pega no sono: começamos lendo livros juntos, eu conto histórias que invento, brincamos de coisas como sombra na parede e, por fim, oro por ela cantarolando uma oração, usando melodias de músicas calmas e tranquilas com palavras de intercessão. Em geral, ela adormece enquanto canto a oração, deitado ao seu lado. Geralmente, na hora de cantar, para deixá-la mais confortável escorrego para baixo no colchão e fico com a cabeça na altura de sua cintura, quase que aos seus pés. Isso permite que ela tenha mais espaço para esparramar os braços e também me facilita sair da cama quando minha filha dorme sem esbarrar demais nela e correr o risco de acordá-la. Domingo passado, seguimos essa mesma rotina. No momento em que eu estava cantarolando a canção, ela, já sonolenta,  virou-se para mim e sussurrou:

– Papai?

– Sim?

– Chega mais pra cima.

E abriu os braços. Eu sorri e, suavemente, pus minha cabeça no peito dela. Minha filhinha de três anos aconchegou o papai, pôs sua mão na minha e envolveu meu pescoço com o bracinho. Ali fiquei eu, recebendo aquele amor em forma de proximidade e toque, até que, algum tempo depois, senti sua respiração mais pesada e percebi que tinha adormecido. Quando estava aos pés dela, já articulava como eu faria para escapulir dali e ir fazer outras coisas. Mas, quando fiquei naquela posição de paz e extremo afeto, toda vontade de sair desapareceu. Tudo o que eu queria era ficar e desfrutar daquele amor.

cima1Se você é cristão, isso significa que vive aos pés de Jesus. Assim como Maria, a irmã de Lázaro, você se deleita em estar aos pés do Mestre, aprendendo dele, adorando e exaltando o seu amado. É um lugar confortável, pois permite que você esteja em postura de submissão, reverência, amor e servidão ao Senhor mas, ao mesmo tempo, com mobilidade para esticar os braços, mexer as pernas e até se levantar e ir embora, se desejar. Estar aos pés de Cristo é uma posição desejável ao servo de Deus, é digna e demonstra um relacionamento fiel ao Salvador.

Você vive aos pés de Jesus? Ótimo. Só que, às vezes, isso não basta. Pois é bem possível que, em determinado instante, você ouça o Mestre lhe falar:

– Chega mais pra cima.

Ao falar isso, o que Deus quer dizer é que ele anseia por mais do relacionamento de vocês. É quando ele deixa claro que não deseja que você fique apenas aos seus pés, mas que vá para o seu colo. E, do colo, para o abraço. Em outras palavras, o Senhor quer te elevar para um patamar de maior intimidade com ele.

Num primeiro momento, você pode estranhar o processo de elevação. Quando deitei no peito de minha filha, demorei um certo tempo até ficar confortável, pois tinha medo de pesar sobre ela ou de machucá-la com meu ombro, por isso fiz uma certa força para não pressionar demais seu corpinho. Embora fossem um lugar e uma situação deliciosamente agradáveis, havia um certo desconforto envolvido. Quando Deus nos convida para subir de seus pés e repousar a cabeça em seu peito ou descansarmos em seu abraço, há a probabilidade de que fará isso por caminhos que te deixarão desconfortável ou mesmo assustado.

Engraving of  by Dore, 1866Veja o exemplo de Jó. Toda a situação que ele enfrentou tinha apenas um objetivo, traçado no coração de Deus: fazer com que aquele servo fiel fosse elevado a um patamar superior de intimidade com o Senhor. Repare que Jó vivia aos pés do Pai: a Bíblia o define como um “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1.1). Estar mais aos pés do Todo-poderoso do que isso é difícil, quem me dera poder ser definido dessa maneira. Ao final do processo de elevação, porém, aquele mesmo servo fiel diz: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42.5). Você consegue perceber que transformação ocorreu no nível espiritual dele, que diferença? Embora vivesse em integridade, retidão, temor e santidade, Jó ainda estava apenas aos pés de Deus. Era preciso mais. O Pai queria que seu filho fosse para um outro nível de intimidade. Então ele diz:

– Chega mais pra cima, Jó.

E Jó enfrenta um processo longo e doloroso, mas que o eleva ao patamar de onde podia ver o Senhor com os olhos. Pense agora no menino mimado José, escolhido para viver uma grande experiência com Deus. O problema é que ele era extremamente imaturo. Foi preciso passar por escravidão, servidão, calúnia e prisão para alcançar o nível que o Senhor queria.

– Chega mais pra cima, José.

E lá foi o filhinho riquinho de Jacó amarrado como um bicho numa caravana de escravagistas estrangeiros, esforço importante para que ele deixasse de ser playboy e virasse um homem de Deus. Paulo de Tarso era outro que vivia aos pés do Senhor, mas de maneira completamente errada. Zeloso e dedicado a Jeová, perseguia cristãos e os prendia, como serviço ao Deus de quem só via a sola dos pés. Mas, então, Jesus aparece e lhe diz:

– Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões. Agora… chega mais pra cima.

E lá foi aquele homem, agora cego, deprimido, abatido, mas com sua mente renovada para experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. O fariseu Paulo tinha sido elevado a um nível de intimidade em que foi arrebatado ao paraíso e ouviu coisas indizíveis, coisas que ao homem não é permitido falar. A ponto de dizer, com segurança, ao final de sua vida:

– Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.

cima2Muitas vezes, atravessamos períodos de muita dificuldade, de esforço, sofrimento e falta de paz. Culpamos o Diabo, xingamos a vida, brigamos com Deus. Somos acusados de falta de fé, pecado, frieza espiritual. Não entendemos nada, ficamos sufocados pelas circunstâncias, questionamos o Pai: como pode um servo fiel como eu passar por tudo isso?! Se esse é o seu caso, procure o Senhor com serenidade, em oração e pelo estudo da Santa Palavra. De repente, tudo o que está enfrentando faz parte de um processo doloroso, mas necessário, para elevar você a novos patamares de intimidade com o Criador. O objetivo divino é tirá-lo dos pés e colocá-lo no abraço de Cristo. Tudo o que você precisa fazer para aguentar firme e superar essa fase é afinar seu espírito com o Espírito Santo e ouvir o sussurro suave daquele que nos ama com amor incompreensível:

– Chega mais pra cima, filho meu. E vem para o abraço do teu Pai…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Maledicência1Sim, eu creio em maldição hereditária. Não, não estou falando do tipo de maldição hereditária que você está pensando. O conceito amplamente difundido a define, em resumo, como a transmissão de um pecado (e suas consequências) de pai para o filho, depois para o neto, depois para o bisneto e assim por diante, o que abriria as portas para o Diabo agir em sucessivas gerações de uma mesma família. Absolutamente não é sobre isso que desejo falar. Quero tratar aqui de um conceito que eu mesmo inventei, a partir menos da teologia e mais da etimologia, ou seja, do significado das palavras. Assim, creio em um conceito de “maldição hereditária” que elaborei e que vejo como extremamente pernicioso. Permita-me explicar.

“Maldição”, pelo dicionário, pode significar “praga”, que é o sentido mais popular do termo. Só que a palavra tem a mesma raiz de “maldizer” (“maldito” seria, então, alguém sobre quem foi dito algo que não é bom, mas mal, logo, é “mal-dito”). Ou seja, “amaldiçoar” pode ter o sentido tanto de “rogar uma praga” quanto de “falar mal”, “promover maledicência”. E maledicência é a fofoca, a conversa escarnecedora, o tititi maldoso, a crítica destrutiva, o desdém pelas conquistas alheias, a conversação invejosa, as palavras que desqualificam o que é diferente só por ser diferente do que eu sou ou acredito, o desmerecimento de algo que é importante para o outro. Abrange desde o “vou te contar o que fulano fez mas é só pra você orar” até o sarcasmo e a ironia ao se referir ao próximo ou a algo relacionado ao próximo. Falar mal é… falar mal.

Já “hereditária” se refere a algo “que se recebe ou se transmite por herança” ou “que vem dos pais, dos antepassados”. Aqui me permito extrapolar esse sentido “familiar” para algo que se adquire não só de pai para filho, mas que faz parte do DNA cultural de um determinado grupo, ou seja, uma família, uma sociedade, uma turma de amigos ou mesmo uma igreja. Por esse conceito, por exemplo, o hábito de membros de determinada denominação se saudarem uns aos outros com “graça e paz”, “a paz do Senhor” ou “paz e bem” faz parte da hereditariedade desse grupo específico, do seu código genético cultural. É aquela coisa que um começa a fazer, o outro imita e logo todos adotam como algo natural e espontâneo.

Maledicência2Assim, juntando essas duas acepções do termo, o significado que inventei para “maldição hereditária” não tem nada a ver com um pecado ou uma praga passada sobrenaturalmente entre sucessivas gerações de uma família, mas sim à cultura de um grupo humano específico de praticar habitualmente a maledicência. Em outras palavras, o hábito disseminado em um determinado núcleo de pessoas de falar mal de outras. Portanto, sim, nesse sentido eu creio em “maldição hereditária”, pois vejo com muita frequência grupos em que falar mal de terceiros é tão natural como beber água. E estou me referindo a grupos de cristãos.

Sejamos sinceros: falar mal do próximo é algo que absolutamente todo mundo faz, em escalas diferentes e de formas distintas. É natural a seres humanos dizer coisas sobre outros seres humanos que configurem um certo grau de maledicência. Todos nós fazemos isso e negar seria hipocrisia. Mas estou me referindo a um patamar mais grave do problema. O que vejo é que existem certos grupos em que a maledicência, o maldizer, é visto de certo modo como uma virtude, algo natural, desejável e até engraçado. Em que há um certo orgulho por falar mal. É um jeito de ser que cria laços de intimidade entre os integrantes. Eles esperam que os outros membros daquele núcleo falem mal e os que não o fizerem acabam deslocados dos demais. Nesses grupos, o principal alvo de sua língua ferina em geral são os diferentes. Aqueles que, de algum modo, não compartilham daquilo que para os maledicentes culturais é habitual, valioso ou natural – sejam gostos, preferências, estilos de vida, ideias, valores e similares. Tristemente, isso acontece muito no nosso meio cristão.

É importante frisar que não estou me referindo a uma crítica saudável, construtiva ou, até mesmo, a conversas apologéticas válidas sobre aspectos errados ou heréticos de certos setores da igreja. Essa é a boa crítica e não configura falar mal, mas sim apontar erros com boa intenção, por amor à sã doutrina. Eu me refiro a falar mal mesmo, no sentido mais pejorativo do termo. Aquele maldizer que tem um certo veneno, uma “pimentinha”, que é uma boa dose de pura maldade. Você sabe do que estou falando.

Diga-me se estou errado: sente em volta de uma mesa com certos grupos pentecostais e você verá que não demorará muito para que comecem a falar mal dos irmãos de igrejas tradicionais, chamando-os de “frios” e coisas  similares. Desdenhando e, de certo modo, inferiorizando. O mesmo sentimento você encontrará em grupos de tradicionais que maldimaledicência3rão e depreciarão muitos aspectos do meio pentecostal. Outro exemplo é a eterna querela reformados (calvinistas) versus arminianos, em que a maledicência ocorre com uma frequência impressionante em certos círculos. Voam farpas dos dois lados, com comportamentos que vão das piadinhas a comentários agressivos e ofensivos. Uma tristeza.

Uma das áreas em que esse meu conceito de “maldição hereditária” cresce cada dia mais é na musical. A coisa mais comum é você ouvir pessoas que preferem um certo gênero ou estilo no louvor falar tudo o que você possa imaginar de ruim de quem não aprecia o mesmo. Esse sentimento de “tribo”, de “os nossos certos e os deles errados” vem impregnado muitas vezes de sarcasmo, desprezo, piadinhas e desmerecimento, seja por músicas, seja por músicos, seja por quem gosta do que o maledicente não gosta. Uns acusam outros de superficialidade; outros acusam uns de estagnação e anacronismo. Sempre com palavras nada amorosas. Uma tristeza.

Que dizer então de teorias teológicas? Perco a conta do número de vezes em que ouvi maledicências de certos grupos de cristãos acerca daqueles que não acreditam no que eles acreditam no que se refere aos mais variados aspectos da teologia cristã. E volto a dizer: não estou me referindo a divergências respeitosas e saudáveis, mas a conversas ferinas, depreciativas, cheias de desdém. Os pontos de controvérsia são muitos, e vão de línguas estranhas a teorias escatológicas; de crenças à discordância sobre a forma de batismo em águas; de opiniões sobre como escolher o cônjuge a visões sobre como deve ser a liturgia do culto. Uma tristeza.

E há a maledicência motivada por questões insignificantes. Já ouvi tititis porque o marido passou o braço pelos ombros da esposa durante o culto, ou veneno destilado sobre a roupa do irmão beltrano, sobre o cabelo de sicrana… o céu é o limite quando se trata de temas para maledicentes. Porque todo amante da maledicência tem algo em comum: não importa muito o tema, desde que possa falar mal. Uma tristeza.

Enfim, tenho visto grupos e mais grupos que têm em sua natureza o pecado da maledicência visto como algo normal e aceitável – até mesmo um elemento de união entre seus membros. Só que não é. Falar mal é, biblicamente, um horror. Veja:

maledicência4“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar” (Cl 3.8). Viu ali a maledicência? Pois o falar mal é diretamente associado à natureza terrena e a práticas terríveis, como a ira e a avareza.

Salmos 62.3-4 vai além e indica que o maldizer é uma atitude clara de hipocrisia e falta de amor ao próximo – ou seja, é um pecado contra o Grande Mandamento: “Até quando acometereis vós a um homem, todos vós, para o derribardes, como se fosse uma parede pendida ou um muro prestes a cair? Só pensam em derribá-lo da sua dignidade; na mentira se comprazem; de boca bendizem, porém no interior maldizem”.

Mas tem mais. Em 1Timóteo 5.14, falar mal dos outros é diretamente denunciado como uma prática satânica: “Quero, portanto, que as viúvas mais novas se casem, criem filhos, sejam boas donas de casa e não dêem ao adversário ocasião favorável de maledicência”.

Diante disso tudo, fica claro que o falar mal do próximo, em todas as suas acepções (com piadas, sarcasmo, ironia, maldade, falsa intenção de exortação ou o que for) é abominação para Deus.

maledicência5Agora, por favor, preste atenção a algo: o objetivo deste texto não é estimular você a olhar para o lado e ficar apontando e acusando tal e tal pessoa ou grupo que seja praticante dessa “maldição hereditária”. Isso não teria nenhuma utilidade para o evangelho ou para a sua vida espiritual. Caso você detecte que há grupos de maledicentes por perto, o mandamento do Senhor quanto a eles é claro e objetivo: “Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” (Lc 6.26-28). Não há margem para interpretação. O mandamento cristão é: se falarem mal de você, fale bem deles.

O que desejo com este post é levar você a refletir e responder à seguinte pergunta: “Será que eu faço parte de algum grupo que pratica habitualmente e/ou prazerosamente a maledicência?” Se você percebe que a pecaminosa prática da maledicência faz parte de um determinado grupo a que você pertença (seja família, turma de amigos, colegas ou mesmo os membros da sua igreja), o que deve fazer? Há dois caminhos a seguir.

Primeiro: converse com os que tais coisas praticam e os alerte sobre quão maligno é o que fazem. Traga à lembrança deles que é preferível calar do que maldizer: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29).

Segundo: se ainda assim os tais não ouvirem sua exortação e continuarem adeptos dessa cultura de “maldição hereditária”, afaste-se do grupo. Mateus 18 diz: “Se teu irmão pecar [contra ti], vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano”. Pois é melhor se afastar dos que amam falar mal dos outros do que permanecer contaminando-se com essa prática horrível. Em Mateus 5.29, Jesus recomenda: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno”. Arranque-se do grupo dos maledicentes antes que você sofra as consequências.

Maledicência0Que consequências? Vamos ouvir Tiago: “Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum!” (Tg 1.26). Em outras palavras, o irmão de Jesus está dizendo que a religião dos que não conseguem ficar calados se não têm algo edificante a dizer… não vale nada. Logo depois, ele dá o ultimato: “Com a língua bendizemos o Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim!” (Tg 3.9-10). No grego original, a palavra traduzida aqui por “bênção” é eulogia, que significa “fala elegante”, ou “discurso justo”. Já “maldição” foi traduzida de katara, que quer dizer “execração”, ou seja, “ódio profundo” ou “aversão exacerbada” (segundo o dicionário Houaiss). Dá para conciliar uma fala elegante com outra que carregue em si ódio e aversão? Biblicamente, não.

Chama minha atenção a frase final de Tiago: “Meus irmãos, não pode ser assim!”. Repare, primeiro, que ele está se dirigindo a cristãos, o que prova que esse mal ocorre em nosso meio. E, segundo, ele afirma que não se pode amaldiçoar. Falar mal. Maldizer. Isso está errado. Precisamos mudar, se o fazemos. Precisamos exortar em amor os que o fazem. E, se continuarem se orgulhando e praticando a maledicência, devemos nos afastar da roda dos escarnecedores que existem em nosso meio.

Pare por um momento de pensar nos maledicentes que você conhece. Faça, isso sim, uma análise de si mesmo e de seu procedimento. Se você perceber que tem seguido o caminho da maledicência e decidir parar com isso, a teu respeito dirá a Palavra de Deus: “Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito” (Tg 3.2). E, se você decidir não se assentar mais na roda dos escarnecedores, a teu respeito diz a Palavra de Deus: “É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera” (Sl 1.3). Reflita e responda: como você prefere ser conhecido nos céus: como alguém perfeito, que dá fruto e cujas folhas não murcham… ou como alguém que pratica o mesmo que o Diabo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício