Posts com Tag ‘Deus não muda’

O ser humano é curioso: por um lado, queremos que muita coisa permaneça como sempre foi. Por outro, precisamos constantemente de inovação, novidade, renovação. Algumas coisas mudam e nos chateamos por isso: “Estava tão bom, poxa vida, não precisava mudar!”. Já outras nos levam a ansiar por transformação: “Não aguento mais isso, bem que poderia ser diferente”. A virada do ano é uma ocasião propícia para reflexões sobre a chegada do novo e o abandono do velho (ou não), por isso aproveito este momento para refletir um pouco sobre um processo de mudança dos mais inevitáveis que há: o das pessoas. (E, antes de tudo, quero deixar bem claro que este texto não se refere a relacionamentos conjugais, que têm uma dinâmica própria e devem ser vistos como uma categoria à parte).
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 “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol” (Ec 1.9), escreveu o sábio. E se tem algo que não muda é a certeza da mudança das pessoas. Você pode verificar isso usando a si mesmo como exemplo: você é o mesmo que há dez anos? Eu não. Muita coisa mudou em mim: ideias, valores, sonhos, objetivos, prioridades, gostos, temperamento… tanta coisa! Perceba que você já foi muitas pessoas diferentes ao longo dos anos e, se conseguir se dar conta dessa realidade, essa percepção lançará um olhar mais complacente à mudança do seu próximo.
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 Eu sei que mudei, e muito. Hoje não tenho paciência para muita coisa que me fascinava na juventude. Não valorizo grande parte do que valorizava. Não admiro mais o que admirava. Observo o mesmo nas pessoas ao meu redor. Por essa razão, trocamos de amizades com frequência. Nosso melhor amigo de infância será um estranho aos 30 anos. Nosso unha-e-carne da juventude terá gostos bem diferentes na meia-idade. Adultos com quem convivemos antes da conversão se tornam pessoas que não nos agradam após conhecermos Cristo. Gente que morria de saudade de nós agora mal lembra que existimos. Aqueles que nos confidenciavam as profundidades de sua alma hoje tornaram-se oceanos profundos de segredos e pensamentos não compartilhados. Companhias constantes agora são esporádicas. E assim por diante. É natural. É a vida. Não há nada novo debaixo do sol.
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 Quando você se dá conta de que pessoas mudam, vive mais feliz. Pois, se espera que o próximo seja eternamente quem é hoje, sofrerá enormes decepções. Porém, se entende que virtudes e características que o fascinavam em alguém naturalmente se perdem pelo caminho e que isso inevitavelmente os distanciará, dará de ombros e prosseguirá em paz. Mais conformado. Sem frustrações. É o que é… paciência.
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 Meu irmão, minha irmã, o ano novo chegou, mas ele é tão velho quanto o que passou. A mudança de calendário significa apenas mais uma volta da Terra em torno do Sol. A realidade é que o que mudará no ano que chegou não é o ano, mas as pessoas, e não em consequência da mudança de ano, mas pelo fato de serem pessoas. Acostume-se à ideia. Respeite a transformação alheia. Deixe ir embora quem não quer ficar. Aceite que você já não é tão importante assim para quem um dia não conseguia viver sem você. Acolha com alegria quem chega. Essa é a dinâmica dos relacionamentos, que se baseia em um princípio elementar: pessoas mudam.
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Abrir-se para a chegada do novo obrigatoriamente significa abrir-se para a transformação do antigo. Não exija do próximo a imutabilidade. Respeitar que a pessoa que você amava de determinada maneira mudou e hoje é outra bem diferente faz parte de amar tal pessoa. E, se você está disposto a amar o próximo como a si mesmo, isso significa, entre outras coisas, respeitar as mudanças dele que o fizeram se afastar de você.
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 Sim, amar o próximo, cumprindo assim o grande mandamento, significa acatar as mudanças desse próximo, respeitar seus novos gostos, planos, valores e ideais e, na maioria das vezes, deixá-lo partir. Pessoas que optam por caminhar conosco por toda uma vida são raros, não são a maioria. Acostume-se à ideia.
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O pastor Osmar Ludovico escreveu: “Quando nos agarramos àquilo que já perdemos nos tornamos amargos, ressentidos e facilmente caímos no autoengano de julgar o caráter de Deus a partir das nossas circunstâncias.
Sim, todos nós temos perdas, e somos chamados ao exercício de tornar nossas perdas em abrir mão, em entregar”. Lindas palavras, Osmar. Fato é que, quando transformamos uma dolorosa perda em um suave abrir mão, transformamos uma hemorragia que não estanca em um barquinho de papel que desce o rio, suave e melancolicamente, correnteza abaixo.
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Se você enxergar com bons olhos a mudança do outro e deixar partir quem não vê mais em você uma prioridade, estará dando mostras de maturidade, racionalidade e amor. Afinal, aprender a abrir mão de pessoas é um caminho para alcançar a paz, de modo que torne suportável a perda até o dia em que estaremos com Aquele em quem não há mudança nem sombra de variação e que, por isso, jamais deixará de nos ver como prioridade, jamais se afastará de nós e jamais cessará de nos amar como se não houvesse amanhã. Até porque, na eternidade, na verdade não há.
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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susto-1Lá para setembro do ano passado eu já sabia direitinho como seriam os meses seguintes de minha vida: eu mandaria pintar meu apartamento para viver nele mais 15 anos, passaria as férias de janeiro em Cabo Frio, minha esposa seguiria feliz e contente em seu trabalho, meu irmão continuaria seu serviço missionário na Espanha sem interrupções, meu pai e minha mãe prosseguiriam em sua vida tranquila de aposentados… tudo na paz e sem grandes preocupações. Sem sobressaltos. Era só seguir o fluxo dos dias e minha bem roteirizada vida permaneceria planejadinha e previsível. Que tolo, eu. Em pouco tempo, veio o furacão. A vida tranquila de meus pais sofreu um baque quando o estado parou de pagar seus salários, e em vez de pintar meu apartamento vi a necessidade de trazer meus pais para morar comigo, e por isso passei a procurar casa nova, e pusemos à venda o apartamento de meus pais, e minha esposa teve uma mudança drástica no trabalho, e tive de cancelar as férias, e meu pai acabou adoecendo e falecendo, e por isso meu irmão teve de voar correndo para o Brasil, e minha mãe passou a morar comigo e…

Acredite: se você me dissesse em setembro que minha vida em fevereiro seria como está hoje, eu riria. Não tinha como. Mas… teve. 

susto-4A coisa mais previsível da vida é que o imprevisível acontece. De repente, você dobra uma esquina e um piano cai em sua cabeça. De uma hora para outra, vem o Estado Islâmico e, quando você vê, não mora mais em uma cobertura duplex na Síria, mas em um campo de refugiados na Grécia. Sem nenhum aviso, o governo muda uma regra e você passa a receber um salário bem menor. Imprevistos que mudam tudo. Em pouco tempo, o que era confortavelmente estável tem de ser refeito, repensado, replanejado. E esses imprevisto, creia, são totalmente previsíveis. A Bíblia nos mostra isso com clareza. Penso em Jó, pobre homem. Vivia em paz, feliz, cercado de uma família maravilhosa, cheio de bens, deleitando-se no Senhor. Dias depois, estava arrebentado, em crise existencial. Quem poderia prever isso? Pedro sempre foi pescador e creio que acreditou que sempre seria, até que aparece um nazareno e faz dele um pescador de homens. Quem poderia prever isso? Davi estava no campo, pastoreando como possivelmente acreditava que sempre faria, quando chega um profeta e faz dele rei de uma nação. Quem poderia prever isso? 

Tiago discorreu sobre a imprevisibilidade da vida: “Prestem atenção, vocês que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos a determinada cidade e ficaremos lá um ano. Negociaremos ali e teremos lucro’. Como sabem o que será de sua vida amanhã? A vida é como a névoa ao amanhecer: aparece por um pouco e logo se dissipa. O que devem dizer é: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isso ou aquilo’. Caso contrário, estarão se orgulhando de seus planos pretensiosos, e toda presunção como essa é maligna” (Tg 4.13-16). 

susto-5Jesus contou uma parábola sobre essa realidade: “Um homem rico tinha uma propriedade fértil que produziu boas colheitas. Pensou consigo: ‘O que devo fazer? Não tenho espaço para toda a minha colheita’. Por fim, disse: ‘Já sei! Vou derrubar os celeiros e construir outros maiores. Assim terei espaço suficiente para todo o meu trigo e meus outros bens. Então direi a mim mesmo: Amigo, você guardou o suficiente para muitos anos. Agora descanse! Coma, beba e alegre-se!’. Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Você morrerá esta noite. E, então, quem ficará com o fruto do seu trabalho?’.” (Lc 12.16-21)

Meu irmão, minha irmã, tenha esta certeza: a vida humana transborda de incertezas. A paz pode se transformar em guerra a qualquer segundo. A tristeza pode se transformar em alegria sem aviso. A incerteza é certa. O imprevisível é previsível. Diante disso, dá para viver bem? Sim, dá. Basta estar alicerçado naquele em quem não há variação nem sombra de mudança (Tg 1.17), pois, passem céus e terra, suas palavras não passarão. Ele não muda (Ml 3.6; Hb 13.8). Se tudo é fugaz e flexível, Cristo segue inabalável, sólido, confiável. 

Seu salário diminuiu? Deus segue grande. Um parente morreu? Deus segue vivo. Seus planos foram frustrados? Os planos de Deus não podem ser frustrados. Sua vida virou uma grande confusão? Deus segue sendo de paz e não de confusão. Subitamente ficou tudo ruim? Deus segue sendo bom. Haja o que houver, Deus segue sendo Deus. 

susto-3O imprevisível é previsível. De uma hora para outra, qualquer coisa pode mudar. Felizmente, também é previsível que para Deus nada é imprevisível. Ele sabe tudo de antemão. Aquilo que nos surpreende estava claramente esquematizado e planejado na mente divina. Os grandes sustos e as reviravoltas da vida não assustam nem desestabilizam o Deus que já sabia que ocorreriam. Nada – nada! – surpreende o Senhor. Nada é imprevisível no entendimento divino. O Criador tem controle absoluto das mínimas coisas. Por essa razão, na hora em que o imprevisível pular à sua frente, mantenha-se firme e confie que ele não é maior do que o Deus que, previsivelmente, ama você, cuida de você e deseja conformar você à natureza de Cristo. Pois Deus sabe que, ao permitir que o imprevisível roube o seu fôlego, ele o estará conduzindo cada vez mais ao centro da sua divina vontade. 

Perceber isso faz-nos chegar, afinal, à grande conclusão: o imprevisível não existe. Nós é que não sabemos quais são os planos de Deus e, por essa razão, nos iludimos ao achar que aquilo que nos é surpreendente surpreende a Deus. Portanto, meu irmão, minha irmã, quando vier o imprevisível, glorifique o Senhor, por saber que, acima dos sustos e das mudanças, paira, gloriosa, a vontade absoluta, inquestionável e magnífica do Todo-poderoso. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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