Posts com Tag ‘desigrejado’

Ouvimos falar diariamente sobre diferentes “tipos” de igreja: igreja relevante, igreja reformada, igreja integral, igreja isso, igreja aquilo. Mas existe também outro “tipo” de igreja: a igreja ranheta. Quando eu era criança, ouvia minha avó falar muito essa palavra, “ranheta”: “Fulano é muito ranheta”, ela dizia. Se você não conhece o termo, preciso explicar que “ranheta” significa “rabugento”, “mal-humorado”. Sabe aquela pessoa que está sempre reclamando da vida, falando mal dos outros, criticando o tempo quando chove ou quando faz sol, constantemente com aquela nuvenzinha preta em cima da cabeça? Pois é, esse cidadão é o ranheta. Existe um tipo de cristão que é assim também. 

O cristão ranheta parece que não enxerga as coisas boas da Igreja. Ele só abre a boca para falar mal de algo. Fala mal dos pastores, fala mal do culto, fala mal das músicas, fala mal de livros, fala mal de pensamentos, fala mal de quem fala mal, fala mal de qualquer coisa que alimente sua sanha de ranhetice. Por sua natureza, o negócio dele é falar mal, só o que ele precisa é escolher a vítima do momento. Ele é um caçador de assuntos nos quais meter o malho. 

O cristão ranheta geralmente diz que é assim porque é profeta e está denunciando o pecado, porque é apologeta e está defendendo a sã doutrina, porque descobriu a verdade e precisa iluminar o entendimento dos ignorantes, algo assim. Na verdade, ele é assim porque é um ranheta incorrigível. Por natureza, é extremamente difícil para ele olhar a beleza da vida, as flores do campo, a poesia da Escritura, a riqueza da Igreja, o entardecer, o amor de Deus. Ele só enxerga as desgraças da vida, os espinhos do campo, o cajado das Escrituras, os erros da igreja, a ira de Deus. 

O cristão ranheta é um chato. Suas postagens na internet são sempre atacando alguém, se posicionando como o paladino da santidade, tecendo críticas mordazes a qualquer troço. Quando abre a boca para elogiar algo ou alguém geralmente é para valorizar algo que outro ranheta falou e que embasa o que ele ataca. O cristão ranheta em geral forma um séquito de seguidores, que enxergam nele um ícone a ser imitado e valorizado. Na verdade, ele é apenas um ranheta arrastando atras de si um bando de outros ranhetas que não agem em prol do reino, mas fazem o reino parecer o império da ranhetice.  

É importante frisar que existe uma diferença entre o ranheta e alguém que faz justas críticas, que tem dias maus ou posicionamentos pontuais sobre algo que está errado. Isso é natural, humano e todos fazemos isso. Mas o ranheta é um rabugento na essência. Não é alguém que está num dia ruim ou que se enfureceu com algo errado no momento. O ranheta é um irritadiço contumaz, que não conhece outro modo de ser. Por isso, quando se converteu, buscou no cristianismo alguma boa desculpa que lhe permitisse continuar sendo ranheta debaixo de alguma maquiagem “cristã”. 

Sim, o ranheta precisa urgentemente ser transformado por Cristo. Precisa ter seus olhos abertos para as coisas boas, para o que é belo e bom. Precisa passar pela renovação da mente. Ele ainda é um néscio quanto ao entendimento do amor, da gentileza, da compaixão, da tolerância, da beleza da diversidade, do trato manso com quem pensa diferente dele. E, quando se fala sobre essas coisas, ele vem logo falando de “cristianismo água com açúcar” ou algo assim. Para ele, falar de amor e seus desdobramentos é coisa de “mulherzinha” ou de “poetinha”, o negócio é baixar o cajado e denunciar os miseráveis pecadores! Muitos cristãos ranhetas são cristãos há décadas, mas ainda permanecem mundanos nesse aspecto de sua vida.  

Existem ranhetas em todos os ramos do cristianismo. Há o ranheta pentecostal e o cessacionista, o ranheta calvinista e o arminiano, o ranheta desigrejado e o igrejeiro, o ranheta intelectual e o ignorante, o ranheta teólogo e o que acha que teologia é “letra que mata”, o ranheta santarrão e o que usa a graça como desculpa para o pecado, o ranheta que batiza crianças e o credobatista, o ranheta emergente e o de toga, o ranheta pastor e o membro… o ranheta não se prende a rótulos. Onde ele estiver, vai achar “boas desculpas” para exercer sua ranhetice de pessoa não transformada para tornar o mundo um lugar mais feio e para dar a entender que o evangelho é o universo da ranhetice. Nada mais distante da verdade.

Meu irmão, minha irmã, paro por aqui, pois este meu texto já está começando a ficar ranheta demais para o meu gosto. Deixo apenas uma reflexão, para que você reflita no seu íntimo: será que você não tem sido um cristão ranheta? Será que você não precisa levar à cruz esse seu modo desagradável de ser e de falar, para que possa tornar-se, finalmente, um cristão mais conformado à natureza do Cristo que é alegria, amor, paciência, paz, bondade, amabilidade, mansidão, autocontrole? Será que não está na hora de ver o lado bom das coisas, só um pouquinho, para variar? De ver o mundo mais colorido e menos cinzento, por compreender que há muita desgraça, sim, mas também muitas coisas boas a celebrar? Porque, afinal, ser um cristão ranheta não faz de você alguém mais santo, crente, elevado, intelectual, sábio, justo, transformado, renovado, avivado ou o que for. Ser um cristão ranheta só faz de você uma pessoa bem pouco cristã e incomodamente ranheta. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

Clicando nas imagens acima e abaixo você vai para a livraria virtual das lojas Saraiva.

APENAS_Banner três livros Zágari

idolatria 1Você pode não perceber, mas talvez tenha erguido um ou mais bezerros de ouro no seu coração. Se for o caso, gostaria de propor uma reflexão, para que você tente identificar se esse mal de fato ocorre em sua vida e tome providências urgentes para mudar essa visão nociva. Deixe-me perguntar: como você lida com a sua denominação, a igreja em que congrega e seus líderes? Mais importante ainda: como você enxerga as outras denominações, igrejas ou líderes? Existe um mal escondido entre os cristãos, que é o da idolatria denominacional, eclesiástica ou pastoral, que ocorre quando você passa a considerar a sua denominação, a sua igreja ou o(s) seu(s) líder(es) como não deveriam ser considerados — como superiores de algum modo. De forma alguma estou estimulando a rebeldia ou a insubmissão, que são comportamentos pecaminosos e, portanto, eu os rejeito totalmente. A minha proposta é de reflexão, para que você não acabe pecando pela prática da idolatria. Pensemos sobre isso.

Você tem a sua denominação como a mais certa, a única que contém a verdade do cristianismo, irretocável em suas doutrinas? Você estufa o peito com orgulho quando diz “eu sou presbiteriano”, “eu sou batista”, “eu sou assembleiano” ou “eu sou metodista”? E o sintoma mais clássico da idolatria denominacional: você olha com um olhar ligeiramente superior para as outras denominações? Será que você é um pentecostal que chama a igreja presbiteriana de “sorveteriana”? Será que você é um presbiteriano que olha com pena para os pentecostais, como se fossem coitadinhos ignorantes e equivocados? Será que você acha que “os batistas não entendem nada, porque não batizam crianças”? Será que você faz piadas ou trata com superioridade outras denominações, porque não são calvinistas ou arminianas como a sua denominação? Será que, de certo modo, considera que o cristianismo puro e simples só é vivido totalmente na sua denominação e não nas outras? Você se irrita ou se chateia quando alguém aponta os erros ou critica a sua denominação? Cuidado. Se você percebe que tem algum tipo de comportamento ou pensamento como esses, é bem possível que tenha construído um bezerro de ouro denominacional no seu coração. E isso é pecado de idolatria.

idolatria 2O mesmo vale para sua igreja local. Você é apaixonado por ela? Considera a sua congregação um oásis no meio das demais igrejas “desviadas”, “não tão boas” ou “não tão certas”? Tem um indisfarçável orgulho quando enfatiza o pronome possessivo “minha igreja”? Convida pessoas não cristãs não para conhecer Cristo, mas para conhecer “a minha igreja”? Chega ao ponto de lamentar que pessoas cristãs que frequentam outras igrejas não estejam na sua? Você se irrita ou se chateia quando alguém aponta os erros ou critica a sua igreja? Cuidado. Se você percebe que tem algum tipo de comportamento ou pensamento como esses, é bem possível que tenha construído um bezerro de ouro eclesiástico no seu coração. E isso é pecado de idolatria.

E que dizer de seu líder (ou líderes)? Será que você o vê como alguém especial, único, maravilhoso, alguém que se destaca dos demais, de sabedoria ímpar, de conhecimento perfeito ou de santidade inabalável? O que ele diz você acata como um dogma sem jamais se perguntar se ele está certo? O que ele ensina você toma como a única verdade possível? Ao ouvi-lo você se deleita como se estivesse ouvindo o próprio Deus? Quando ele está ausente do culto você desanima porque gostaria que ele estivesse pregando? A figura dele é inquestionável para você? Você convida pessoas não cristãs para ir ao culto a fim de “ouvir o seu pastor” em vez de ser para conhecer Cristo? Você se irrita ou se chateia quando alguém aponta os erros ou critica seu líder? Cuidado. Se você percebe que tem algum tipo de comportamento ou pensamento como esses, é bem possível que tenha construído um bezerro de ouro pastoral no seu coração. E isso é pecado de idolatria.

Meu irmão, minha irmã, o ser humano é imperfeito. Absolutamente todo ser humano peca. Todo indivíduo se equivoca. Consequentemente, qualquer estrutura ou instituição formada por pessoas certamente terá erros. Esse é o perigo da idolatria denominacional, eclesiástica ou pastoral: depositar uma paixão inquestionável em algo ou alguém que jamais seria inquestionável, uma vez que é homem ou formado por homens.

idolatria 3O cristianismo como um todo não cabe em uma única denominação. Abraçar um pacote de doutrinas e práticas da denominação A ou B como inerrante, sem considerar que pode haver falhas nele é divinizar algo que é apenas uma forma humana de enxergar e viver a fé. Presbiterianismo não é o cristianismo em sua totalidade, é uma das muitas formas de se ver e praticar o evangelho do único Caminho. Pentecostalismo não é o cristianismo em sua totalidade, é uma das muitas formas de se ver e praticar o evangelho do único Caminho. Metodismo não é o cristianismo em sua totalidade, é uma das muitas formas de se ver e praticar o evangelho do único Caminho. E assim por diante. Discordar disso é tornar-se um mero religioso, alguém que enxerga métodos, doutrinas e liturgias como evangelho. E não são. São apenas meios humanos de lidar com o divino. Ouvir isso te incomoda? Hmmm… cuidado com os bezerros de ouro.

O mesmo vale para sua igreja local. Acredite: ela não é perfeita. Os membros são, todos, pessoas que pecam, erram e são incapazes de compreender Deus em sua plenitude sem incorrer em distorções. Congregar em uma família de fé é imprescindível, não concordo com a igreja dos desigrejados. Mas não é por isso que enxergo qualquer igreja local como perfeita — simplesmente porque nenhuma é. Viver em igreja é fundamental, pois a congregação é o local onde se praticam as ordenanças (batismo e ceia), onde os membros se encontram com propósitos mútuos de edificação, onde a assembleia se reúne para louvar coletivamente o Senhor e ouvir a exposição da Palavra, onde ações sociais podem nascer pela conjunção de corações amorosos, e muito mais. A igreja local é imprescindível. Mas cuidado. Enxergue-a como uma comunidade de pessoas que pecam e erram e estão ali para buscar o único que é Perfeito. Uma igreja não deve ser vista com admiração, mas com gratidão e humildade, por ser o local mais propício para sermos afiados, lapidados e conformados à imagem de Cristo. Ajude sua igreja a ser o melhor que ela puder, sem jamais deixar de enxergá-la como o que ela é: um ajuntamento de pecadores em processo de santificação, em busca de Deus. Mas ela não é a única boa, não é a melhor, não é nem de longe um paraíso. Ouvir isso te incomoda? Hmmm… cuidado com os bezerros de ouro.

idolatria 4Que dizer, então, dos líderes? Homens de carne e osso, sujeitos ao pecado e ao erro. Necessitados da graça de Deus, formados do mesmo pó que eu e você. São pessoas cheias de problemas, dúvidas, questionamentos, fraquezas, imperfeições, pecados ocultos, tentações e arrependimentos. Muitos lutam com questões internas, dificuldades conjugais, períodos de aridez, depressão, equívocos. O seu líder precisa do seu apoio e do seu amor, da sua parceria e da sua lealdade, mas tudo de que ele não precisa de jeito nenhum é que você se torne um seguidor cego e irracional de quem ele é e faz, pois isso o tornaria um ídolo — e Deus não tolera ídolos. Nem mesmo o anjo suportou que João se prostrasse ante ele, na visão do Apocalipse. Quer fazer mal ao seu líder? Enxergue-o e trate-o como alguém que tem algum tipo de superioridade, seja espiritual, seja moral, seja qual for. Pois ele não é superior: é igualzinho a você, com a diferença que Deus o chamou para liderar. Só. Ouvir isso te incomoda? Hmmm… cuidado com os bezerros de ouro.

Meu irmão, minha irmã, não despreze as denominações, as igrejas locais e os líderes. Eles existem com bons propósitos e ajudam a vivermos bem o evangelho. Eles proporcionam ordem, estrutura, direcionamento e são coisas boas. Devemos fazer parte de uma igreja (o que, em muitos casos, mas não necessariamente, pressupõe uma denominação) e precisamos de pastores. Deus quer que congreguemos e foi Deus quem estabeleceu os pastores, os mestres e os outros líderes. Devemos congregar e precisamos ser pastoreados, isso é agradável ao Senhor, é indispensável. Mas nunca, jamais, devemos ser cegos. Deus não quer que você se apaixone pela sua denominação, quer que ame a ele. Deus não quer que você venere a sua igreja local, quer que venere a ele. Deus não quer que você considere seu pastor como uma figura quase divina, quer que você reconheça Deus como o único ser divino. O que foge um milímetro disso torna-se um bezerro de ouro.

idolatria 5Lembre-se de que Pedro e Paulo cometeram pecados e erraram muito e que eles discordaram um do outro. Ambos eram cristãos e líderes, mas nenhum dos dois estava plenamente certo e era inerrante – assim como quaisquer denominações e líderes. Ai de quem tomasse Pedro ou Paulo como plenamente certos, pois teria errado. E foi esse mesmo Paulo quem escreveu em poucas palavras um ensinamento brilhante e inspirado pelo divino Espírito acerca de bezerros de ouro denominacionais, eclasiásticos ou pastorais (um pecado que, guardado o devido contexto, já havia no século primeiro, devido à mania humana de compartimentalizar o evangelho): “Irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo suplico a todos vocês que concordem uns com os outros no que falam, para que não haja divisões entre vocês; antes, que todos estejam unidos num só pensamento e num só parecer. Meus irmãos, fui informado por alguns da casa de Cloe de que há divisões entre vocês. Com isso quero dizer que algum de vocês afirma: “Eu sou de Paulo”; ou “Eu sou de Apolo”; ou “Eu sou de Pedro”; ou ainda “Eu sou de Cristo”. Acaso Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vocês? Foram vocês batizados em nome de Paulo?” (1Co 1.10-13).

Cuide de você e dos seus irmãos: tenha o entendimento óbvio de que nenhuma pessoa ou estrutura eclesiástica é inerrante e irretocável. Portanto, pressuponha que há erros. Há falhas. Contribua para o serviço de sua igreja e para fazer dela um lugar cada vez melhor (pois toda igreja sempre pode melhorar). Também seja leal e ajudador do irmão em Cristo que ocupa a árdua tarefa que é ser pastor. Mas enxergue-os como são: humanos. Isso evitará que você viva sem perceber em pecado de idolatria e que contribua para a idolatria de seres e instituições que Deus não quer que sejam idolatrados. Aceite de bom grado as críticas a eles. Tenha olhar positivamente crítico, como os bereanos. Suas eventuais críticas, desde que amorosas e graciosas, serão muito mais valiosas do que a sua cegueira ou o seu fanatismo. Porque Deus não quer religiosos fanáticos, quer filhos radicais – o que é muito, mas muito diferente.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

O fim do sofrimento_Banner APENAS
Clicando nas imagens acima e abaixo você vai à loja virtual da livraria Saraiva

Perdaototal_Banner Blog Apenas

 

desigrejados 1Tenho visto diferentes irmãos em Cristo compartilhar pelas redes sociais a seguinte frase: “Quem sai da igreja por causa de pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus“. Confesso que ler isso me deixou extremamente incomodado, chocado e chateado, pois me soa como uma frase bem pouco cristã e nada embasada naquilo que Jesus ensinou. É uma frase que não expressa amor. Vamos falar um pouco sobre ela, na esperança de que, se você já reproduziu essa afirmação ou mesmo se acredita nela, consiga perceber quão desumana ela é e, assim, pare de replicá-la.

Em primeiro lugar, permita-me dizer que esta reflexão não tem como objetivo entrar por discussões no campo de calvinismo versus arminianismo. O foco da minha abordagem não é se a pessoa que deixou de frequentar uma igreja era predestinada, se tinha livre-arbítrio e toda a discussão que considero desimportante na eterna querela entre os que creem e os que não creem na doutrina da eleição. E por que digo isso? Porque Jesus mesmo não deu muita atenção a essa questão. Repare que, independentemente de Jesus ser “calvinista” ou “arminiano”, o que os evangelhos mostram é que ele sempre destacou a importância de buscar a ovelha que se desgarrou do rebanho. Ponto. Isso é o que importa, a despeito da doutrina soteriológica que você siga. Afastou-se? Busque. Ponto final. E é aqui que a frase do título deste post torna-se tão repulsiva ao meu coração. Pois não consigo coadunar o que Cristo nos ensinou com essa afirmação.

desigrejados 2Temos de refletir muito bem sobre o que lemos por aí antes de acreditarmos naquilo e sairmos reproduzindo. E uma reflexão aprofundada sobre “Quem sai da igreja por causa de pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus” me dá a nítida ideia que quem diz essa frase segue e deseja propagar o seguinte raciocínio: se um indivíduo se desgarrou do rebanho porque foi ferido, magoado, traído ou ofendido de algum modo por membros ou líderes da igreja, o problema não foi o que fizeram com ele, mas a fé inexistente dele em Cristo – e, portanto, podemos deixar esse “infiel” para lá. Se concordamos com essa frase, estamos acreditando que a pessoa em questão era um falso convertido, um simpatizante mas não praticante do evangelho. Em outras palavras, estamos tomando para nós o poder divino de perscrutar corações e afirmar quem é salvo e quem não é. Se eu assinar embaixo dessa frase, vou deixar de desejar que líderes opressores parem de oprimir os membros da igreja, ou que irmãos e irmãs que ferem irmãos e irmãs percebam seu erro, se arrependam e mudem. Pois estarei pondo toda a responsabilidade na conta do ofendido. Afinal, ele “nunca entrou lá por causa de Jesus”. O que é um absurdo.

Pense em Pedro. Naturalmente, a igreja como existe hoje não existia na época de Cristo, mas creio que podemos fazer uma boa analogia entre os “desviados” de hoje e o apóstolo no episódio em que ele negou Jesus. Se entendermos que “estar na igreja” é um equivalente a “caminhar em fidelidade aos princípios comuns à fé cristã”, podemos considerar que Pedro, ao trair Jesus três vezes, “deixou a igreja”. Ele negou o Salvador. E – repare –  o fez por causa de pessoas, com medo dos que disseram que ele era um cristão. Logo, pelo pensamento em questão, Pedro nunca fez parte “da igreja” por causa de Jesus. E sabemos que isso simplesmente não é verdade. Simão apenas fraquejou por um tempo, devido a problemas com as pessoas ao seu redor. Posteriormente, arrependeu-se, foi perdoado pelo Senhor e convocado a se tornar um pastor do rebanho de Cristo. Tenho consciência de que essa não é uma analogia perfeita, mas penso que passa uma visão bem honesta do quanto a afirmação do título deste post não condiz com a realidade.

“Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou? E, se porventura a encontra, em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos” (Mt 18.12-14). Eu leio isso e, dentro do contexto da passagem, fico imaginando se Jesus diria à ovelha perdida: “Olha só, se você se extraviou do resto do rebanho porque algumas dentre as outras 99 ficaram te mordendo, dando coices e esfolando sua lã, é porque você nunca fez parte do rebanho”. Sinceramente, você consegue imaginar o mesmo Messias que ensinou a parábola da dracma perdida e do filho pródigo dizendo isso? Eu não.

desigrejados 3Quem reproduz essa frase está dando as costas para a dor do próximo. Para os sentimentos das pessoas. Para a humanidade dos seres humanos. É alguém que não consegue chorar com os que choram. Que não entende a dor que é para um cristão ser traído por um sacerdote, ao ter os pecados que confessou a ele serem vazados para outras pessoas, ou ao ser perseguido dentro da igreja por discordar de forma legítima e ética da liderança. Que não empatiza com um irmão que foi maltratado por pessoas da igreja. Que não compreende como sofre alguém que é machucado no lugar onde deveria ser abraçado, cuidado e tratado. Jesus se revela por sua Palavra, que ecoa nas atitudes das cartas vivas que deveríamos ser nós, cristãos (2Co 3.2-3); porém, se essas cartas não tiverem a letra e a cor da tinta de Cristo, como querer que os feridos e magoados enxerguem o mesmo Cristo no lugar onde elas estão? Em outras palavras, se quem deveria ser o sal da terra não salga e a luz do mundo não brilha, a culpa é de quem sofreu danos infligidos por esse sal que arde e essa luz que queima?

É claro que compreendo que um cristão sólido suportará pedradas e açoites. O cristão alicerçado na rocha ficará firme nas tempestades e nos vendavais, será lançado aos leões e entregará o pescoço à espada por amor ao Senhor. A Bíblia afirma isso e não sou eu quem vai discordar. Mas o que parece que os adeptos dessa frase sem coração se esquecem é que muitos e muitos dos que são enxotados da igreja “por pessoas” estão em início de caminhada de fé, ou ainda estão em desenvolvimento, não ganharam ainda tônus espiritual para aguentar as pancadas que sofreram no seio da igreja. Se para alguém que conhece Cristo há muitos anos e em profundidade já é difícil aguentar maus exemplos e más atitudes de líderes e irmãos, que dirá para quem ainda está em processo de conhecimento de Cristo e de aprofundamento de raízes.

desigrejados 4Meu irmão, minha irmã, temos de ser compassivos; isto é, de sentir em nós o sofrimento dos que estão sofrendo e não de ficar questionando a fé de quem já foi profundamente machucado por quem se diz cristão. Nosso papel como embaixadores de Cristo é sermos instrumentos de Deus para levantar o caído, restaurar o destruído, sarar o doente de alma, buscar o perdido. Jamais agir como essa frase cruel propõe. Fica aqui minha proposta para quem acredita que “Quem sai da igreja por causa de pessoas nunca entrou lá por causa de Jesus“: em vez de largar para lá esse indivíduo precioso e questionar a fé dele, parta em seu socorro e seja você aquele que mostrará que Cristo não é como aquelas pessoas que o feriram. Garanto que, assim, você estará agindo de modo muito, mas muito mais cristão – e poderá ajudar a cobrir uma multidão de pecados: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados” (1Pe 4.8). Faça parte do grupo dos que dão de comer a quem tem fome e não dos que negam alimento a quem agoniza, faminto, à beira da estrada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

Clicando nas imagens acima e abaixo você vai para a livraria virtual das lojas Saraiva.

APENAS_Banner três livros Zágari

O fim do sofrimento_Banner APENAS
Clicando nas imagens acima e abaixo você vai à loja virtual da editora Mundo Cristão.
  Perdaototal_Banner Blog Apenas

reclama1Você já observou como nós somos reclamões? Às vezes me impressiono com o tamanho da ingratidão que temos pelas coisas que Deus nós dá. Criticamos o povo israelita por ter murmurado no deserto após a libertação do Egito mas fazemos a exata mesma coisa. Pare para prestar atenção às coisas que os seus conhecidos falam ou que seus “amigos” publicam nas redes sociais e você perceberá a enorme quantidade de pessoas insatisfeitas com aquilo que têm e são. Chama especial atenção quando a ingratidão e as reclamações ocorrem em relação a algo que recebemos depois de muito pedir em oração.

Uma das áreas em que esse fenômeno mais acontece é a profissional. Todo universitário sonha com o dia em que entrará no mercado de trabalho; todo estagiário anseia por ser efetivado; todo desempregado fica ansioso por conseguir um emprego. Se for cristão, então, ele ora, jejua, chora aos pés do Senhor e faz todo tipo de barganha e promessa a Deus. Tem gente que chega a fazer campanha, subir monte, se engajar em correntes de oração e tudo o que se possa imaginar. Aí vem Deus e abre a tão sonhada “porta de emprego”. Seria de se esperar que a pessoa agradecesse diariamente por esse trabalho e exaltasse constantemente o Criador por sua generosidade. Só que basta o irmão começar a trabalhar que têm início as murmurações, pelos mais variados motivos: precisa acordar muito cedo para chegar ao trabalho, gasta muito tempo no trânsito, chega ao final do dia cansado, reclama diariamente do chefe, faz careta quando recebe o contracheque porque ganha menos do que gostaria, louva a sexta-feira porque terminou mais uma “terrível semana de trabalho”. Pediu a Deus o emprego e, quando recebe, tudo é só reclamação. Quem entende tamanha ingratidão?

reclama2Outra área em que isso acontece muito é o casamento. A moça sonha com seu “príncipe”. O rapaz clama pela sua “bênção”. Haja oração para que Deus envie logo a sua “metade”. Aí vem Deus e possibilita que você suba ao altar. Nos primeiros dois ou três anos é sempre uma maravilha, o conto de fadas que se realizou. Só que daqui a pouco começam as murmurações. É o marido que vê futebol demais. É a esposa que não gosta de cozinhar para o marido. Ele fica andando pela casa de meias e cueca. Ela deixa a calcinha pendurada no chuveiro. As reclamações crescem cada vez mais. As orações deixam de ser por agradecimento a Deus por, finalmente, lhe ter dado um cônjuge, e passam a ser para que ele transforme o marido ou para que ele faça a esposa tomar jeito. Reclamações se tornam a tônica. Pediu-se tanto um cônjuge e depois parece que ele é um presente de grego. Quem entende tamanha ingratidão?

Tem gente que sonha em ter filhos. Ora e jejua pedindo ao Senhor que lhe dê uma criança saudável e cria toda uma expectativa para a chegada do pimpolho. Aí vem Deus e concede ao casal a maravilhosa bênção da paternidade. Na primeira noite insone por causa do bebê surge o mau humor. Nos choros, a reclamação. A criança cresce e já vi pais que, inacreditavelmente, murmuram porque têm, por exemplo, de abrir mão de ver programas de televisão para brincar com o filho. Em vez de ser sempre celebrados como bênçãos do Senhor, muitos filhos levam os pais a reclamações constantes simplesmente porque os pequenos ainda estão aprendendo a ser gente e fazem traquinagens. Na hora da teimosia deles, muitos pais não encontram o prazer de ensinar o procedimento certo, mas sim vivem a tristeza de “aturar o pestinha”. Aqueles que foram tão ansiados acabam sendo vistos como fardos por quem deveria agradecer todos os dias a Deus, em lágrimas, por ter sido agraciado com o presente de valor incalculável que é uma criança. Quem entende tamanha ingratidão?

murmuraçãoO pecador estava perdido, sem Deus, sem salvação. Vive no atoleiro do pecado, caindo de transgressão em transgressão, caminhando a passos largos para o inferno. Aí vem Deus, estende a ele a sua graça, o adota como filho, o perdoa de seus erros, justifica, regenera e lhe abre as portas da vida eterna. Do inferno para o céu, motivo mais que suficiente para exaltar e glorificar o Senhor por todos os segundos de sua vida. Só que daqui a pouco o salvo começa a reclamar da vida de fé. A igreja de repente tem montes de defeitos. O pastor poderia pregar melhor. Os irmãos não são tão perfeitos como se pensava no início. O culto não é tão animado como a daquela outra igreja. Deus não atende a oração. A bênção não chega. Quero a minha cura e pra ontem! É um resmungo só. De repente a vida com Deus e na comunidade de fé se torna motivo não de alegria, mas de reclamação. Quem entende tamanha ingratidão?

Você não existia. O mundo estava muito bem, obrigado, sem você. Na verdade, você não fazia nenhuma falta. Aí vem Deus e resolve te dar de presente a vida. Te gera no ventre materno, te nutre, sustenta, forma, prepara, ama. Só que você cresce e descobre que a vida é dura, que há dores e sofrimentos, que as pessoas são más e há muita infelicidade no planeta, que viver inclui canseira e enfado. Por isso, se torna alguém que reclama da vida o tempo todo, para quem parece que nada nunca está bom. Suas palavras, em vez de celebrar a vida que Deus te concedeu como um presente de sua graça, se tornam um lamaçal de constantes murmurações. Você age como a hiena Hardy Har Har, do desenho animado, resmungando o tempo todo “ó, céus, ó, vida, ó azar…”. Parece que tudo sempre está ruim. Quem ouve suas palavras tem a sensação de que nada presta e que viver é um fardo desesperador. O Senhor te presenteou com a vida e você vive reclamando desse extraordinário presente. Quem entende tamanha ingratidão?

Reclama6Deus é bom, meu irmão, minha irmã. Logo, as coisas que ele nos dá são boas – muito embora não sejam perfeitas. É claro que há casos extremos, que devem ser tratados individualmente e que nos abatem, mas devemos ser gratos ao Senhor diariamente por cada uma de suas bênçãos – o emprego, o casamento, os filhos, o cônjuge, a igreja, a vida, tudo! Entenda: absolutamente tudo o que vem de Deus é bom, até mesmo o que nos parece mau. Pois, se dói mas vem de Deus, é bom, mesmo que não entendamos. É impossível o Pai te dar algo que seja ruim em suas finalidades últimas. Isso é absolutamente incompatível com a fé cristã. Se Deus deu, agradeça! Não reclame, não seja ingrato, não fique insatisfeito. Ele te dá o melhor e na medida certa. Agradeça. Em tudo dê graças. E se você desconfia de que, de repente, “não foi Deus quem deu”, procure desenvolver um relacionamento próximo e íntimo com o Senhor, pois dessa intimidade virão as respostas. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão” (Jo 10.27-28).

Quando vier a vontade de reclamar, procure fazer esta dinâmica: lembre-se das suas orações. Lembre-se daquilo que você pediu e o Pai lhe deu. Traga à memória tudo o que orou ao Senhor e recebeu. Se perceber que hoje você vive resmungando e reclamando de presentes da graça divina, está mais do que na hora de substituir a murmuração por louvor e ação de graças.

Antes de murmurar porque há uma goteira em sua casa, lembre-se de que Deus te deu uma casa. Antes de reclamar porque seu cônjuge está doente, lembre-se de que ele está vivo. Antes de reclamar que seu voo atrasou horas, lembre-se de que você poderia ter de viajar centenas de quilômetros de carro. Antes de reclamar que seu carro quebrou, lembre-se de que você poderia ter de andar sempre a pé. E antes de reclamar que você tem de andar sempre a pé, lembre-se de que você tem pés que andam. Celebre a vida. Celebre cada pequena coisa que Deus te deu, pois, se foi Deus quem deu, não é pequena. Seja grato, sempre.

cruz“Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13). Em outras palavras, aprenda a viver contente em todo tipo de circunstância. Pare de olhar sempre o buraco que há no centro da rosquinha, antes olhe a rosquinha que há em volta do buraco. Você tem Deus e ele te fortalece; e, tendo ele, você pode encarar o que é bom e o que é ruim – e superar ou suportar as contrariedades da vida.

As fases más vêm e há, sim, momento para chorar e se lamentar. Isso é humano e normal – e bíblico. O problema é quando o lamento se torna um estilo de vida. Viva, simplesmente, e seja grato por tudo o que tem. Santa insatisfação, santa murmuração, santa ingratidão? Não, nada disso. Porque murmuração, insatisfação e ingratidão… de santas não têm nada.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício