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Acordei de manhã, cheguei na janela e vi esta triste cena: um belo passarinho morto em minha varanda. Seu aspecto era pacífico, deitadinho de costas, as asas cruzadas sobre o peito, como se tivesse repousado no chão, achado uma posição confortável, suspirado e deixado a vida escapulir devagarinho. Assim que o vi, fiquei longamente em silêncio e, imediatamente, veio um texto da Bíblia em minha mente: “Por isso eu lhes digo que não se preocupem com a vida diária, se terão o suficiente para comer, beber ou vestir. A vida não é mais que comida, e o corpo não é mais que roupa? Observem os pássaros. Eles não plantam nem colhem, nem guardam alimento em celeiros, pois seu Pai celestial os alimenta. Acaso vocês não são muito mais valiosos que os pássaros?” (Mt 6.25-26). Parecia uma contradição. Se Deus cuida dos pássaros, por que aquele pobrezinho estava morto em minha varanda? Esta pergunta passa constantemente pela mente de quem perdeu um ente querido: se Deus existe e é bom, por que quem eu amo morreu?

Essa semana tomei conhecimento de que uma irmã com quem caminho junto no Facebook perdeu dois filhos de forma muito triste: a vida deles foi tomada por assassinos enquanto dormiam. Como tomar conhecimento de algo assim e permanecer sereno, crendo que, sendo mais valiosos que os pássaros, Deus cuidará de nós? Será que cuidará mesmo? Como descansar diante do fato de que os pássaros do céu e gente amada de Deus morre? Estará a Bíblia mentindo? Como ficam as promessas de Deus diante dos duros fatos da vida?

Muitas pessoas se revoltam com Deus porque pensam que o cuidado divino tão mencionado na Bíblia seria uma promessa de imortalidade em vida. Leem o salmo 23 e entendem que Deus os blinda das maldades do mundo; em especial, da morte. A ideia é: se Deus cuida de nós e nos ama, não permitirá que morramos, em especial, “fora de hora”. Entender isso é muito importante, pois, se não compreendemos as realidades que envolvem esse fenômeno, seremos assolados por revolta, dúvida e depressão a cada pessoa amada que partir.

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Diante desse quadro, não podemos nos esquecer de três verdades bíblicas:

1. A morte é a grande certeza da vida. Embora a morte de seus santos seja custosa ao Senhor, um dia morreremos. Fato. Não é uma questão de “se”, mas de “quando”: “o Senhor Deus lhe ordenou: ‘Coma à vontade dos frutos de todas as árvores do jardim, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Se você comer desse fruto, com certeza morrerá’.” (Gn 2.16-17).

2. Nossa vida não escapa das mãos de Deus. Ele a tem muito bem conduzida debaixo de sua soberania e o momento da nossa morte não pega Deus de surpresa: “cada dia de minha vida estava registrado em teu livro, cada momento foi estabelecido quando ainda nenhum deles existia” (Sl 139.16).

3. O fato de morrermos não quer dizer que Deus não cuida de nós, nos abandonou ou não nos ama. Para quem está em Cristo, a eternidade ao lado do Senhor é uma certeza. “Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: ‘Vejam, o tabernáculo de Deus está no meio de seu povo! Deus habitará com eles, e eles serão seu povo. O próprio Deus estará com eles. Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Todas essas coisas passaram para sempre’.” (Ap 21.3-5).

Lembre-se de algo: aquilo que conhecemos por “vida” é apenas a porta de entrada da existência eterna. Se vivemos 20, 40, 60 ou 80 anos nesta terra, viveremos bilhões de anos, vezes bilhões de anos, na eternidade. Esta vida pesa muito para nós porque é o que conhecemos. E é normal, o próprio Cristo entrou em agonia no Getsêmani ao antever seu sofrimento e morte. O temor ante à morte faz parte, pois Deus nos deu o instinto de sobrevivência, que luta contra a ideia da mortalidade. Mas, se conseguimos olhar pelos olhos de Deus e contemplar o peso da eternidade, da vida que começa depois da vida, teremos mais paz ante à partida de pessoas queridas.

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E mais: se nós e nossos entes queridos vivemos em Cristo, morreremos em Cristo e com Cristo estaremos por toda a eternidade. Isso nos dá uma certeza extraordinária: a expectativa do reencontro. Para essa certeza, a morte não é um “adeus para sempre”, mas um “vou ali e já volto”. Devemos pensar sobre isso.

Meu coração apertou quando vi o passarinho em minha varanda. Fiquei pensando que nunca mais eu o ouviria piar, que no dia seguinte não seria alegrado pela beleza de seu voo, que as alegrias do convívio com aquele animalzinho cessavam ali. Isso entristece, claro, pois sempre queremos mais momentos com quem tem o dom da vida. Mas em nenhum momento questionei o amor de Deus. Sofri porque eu queria mais da vida daquele passarinho. Porém, pensativo, entendi que a boa, agradável e perfeita vontade do Senhor era que não mais tivesse isso. O Senhor deu, o Senhor tomou. Bendito seja o nome do Senhor.

Meu irmão, minha irmã, se você questiona o amor e o cuidado de Deus porque ele decidiu levar desta vida alguém que você ama, receba meu abraço apertado e sentido, mas lembre-se das verdades listadas neste texto. É natural que você chore de saudade, isso não é pecado nem demonstra falta de fé. Sim, saudade não é pecado. Chore mesmo, vai te fazer bem. Mas não questione o amor do Senhor ou o seu cuidado em razão da sua perda. Deus é bom. Ele segue sendo Deus. Ele segue no controle. Ele segue sendo amor.

Que Deus console o coração de todos que estão enlutados. Que, em seu infinito e perfeito amor, ele amaine a dor da saudade e dê paciência para aguardar pelo reencontro. E que, acima de tudo, o Senhor lembre a todos os que vivem o luto que ele mesmo deu o próprio Filho para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Você crê? Então lembre-se de que a vida eterna é a maior prova de todas do cuidado e do amor de Deus por você.

(A reflexão de hoje é dedicada a Irani e Laercio. Seus passarinhos voaram para longe, e eu sei que a saudade dói. Mas tenham a certeza de que voltarão a ouvi-los cantar…).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

IMG_2785Atrás do edifício em que moro há um grande condomínio. O que separa os dois é um precipício de cerca de sete andares de altura, que fica logo abaixo da janela do meu quarto, um vão enorme entre dois muros, que me lembra um pouco os antigos fossos dos castelos medievais (foto). Por ter um bosque e ser muito arborizado, o condomínio vizinho conta com uma fauna bastante rica, com pássaros, gambás, micos e gatos. Um gatinho escolheu como lugar de repouso um muro bem próximo de minha janela e, por isso, tornou-se conhecido da minha família. Chegamos a dar-lhe um apelido: Charlie. Recentemente, porém, Charlie nos surpreendeu: olhando para um vão que fica à beira do precipício, notei que o gato preto e branco aninhava em seu regaço três gatinhos. Sim, Charlie, para nossa surpresa, é uma fêmea. E, agora, mãe. Mas não foi esse aspecto que mais me chamou a atenção: confesso que o local que ela escolheu para dar à luz me preocupou muito, por ficar a centímetros do enorme abismo. Se um gatinho daqueles se arrastar uns vinte a trinta centímetros para o lado, mergulhará rumo à morte certa.

Infelizmente, não há nada que eu possa fazer, pois o local é inacessível. Fica junto à raiz de uma árvore, cravada na encosta do abismo. Tudo o que está ao meu alcance é orar e ficar observando, torcendo para que nenhum dos bichinhos perca a vida. Por isso, tenho passado alguns momentos, em diferentes dias, sentado junto à janela, observando como aquela família se comporta. Pois, se for o caso, me prontifiquei a chamar o corpo de bombeiros para remover os bichinhos para um local mais seguro.
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Tenho notado que há uma certa rotina nas ações da gata (que rebatizamos de Charlene, após descobrir que ele, na verdade, é ela). A esmagadora maioria do tempo, ela passa deitada, junto com os filhotes. Consigo ver que eles mamam bastante e ela fica ali, junto. Mas mamãe precisa se alimentar e, de vez em quando, sai do vão à beira do abismo para comer, beber e fazer qualquer outra coisa. Mas, enquanto pode, a gata fica junto de seus filhotes, protegendo, alimentando, cuidando, dando calor e aconchego. Há alguns dias choveu. E, mesmo assim, mamãe gato ficou ali, esquentando os filhotes com sua presença, totalmente encharcada, mas firme em seu papel de apoio, proteção e amparo.
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Houve um momento tenso: um dos três gatinhos começou a se arrastar e, pouco a pouco, foi se aproximando perigosamente da beira do abismo. Tive quase certeza de que ele cairia. De repente, Charlene se levantou, com bastante calma, foi até ele, segurou com a boca a pele da sua nuca e o carregou de volta ao local onde estavam deitados. Deitou-o cuidadosamente e voltou a se aninhar. Vi essa situação ocorrer, na verdade, duas vezes.
IMG_2771As horas em que mais fiquei nervoso foram aquelas em que a gata saiu do local e partiu para fazer qualquer outra coisa, deixando os três sozinhos. Eu sei onde Charlene se alimenta: os moradores de um prédio próximo deixam na calçada da rua um pote de ração e outro de água, a que ela e outros gatos da região sempre recorrem. Então, quando a mamãe sai, vejo que ela dispara em direção ao local de alimentação e desaparece por alguns minutos. Os filhotes ficam imóveis, o que me mostra que a gata só sai quando sabe que os três estão dormindo. Menos de dez minutos depois, ela reaparece e repete um mesmo ritual: segue até um telhado próximo, de onde consegue ver a cria, e anda para lá e para cá – acredito eu que para se exercitar um pouco, se alongar e se movimentar. Mas, assim que ela começa a ver movimento ou a ouvir o miado fraquinho de um deles, retorna à sua posição de mãe, aninhando os três em sua barriga e dando início a mais um longo período de permanência junto aos bebês (foto).
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Gostaria agora de fazer uma analogia entre essa situação e a vida de fé. Você provavelmente deve estar achando que vou comparar a gata a Deus e nós aos seus gatinhos, pois, afinal, a mamãe gato cuida dos filhinhos, certo? Na verdade, não. Embora seja natural enxergar o nosso Senhor em atitudes protetoras, minhas reflexões me levaram a ver muito mais outra pessoa no papel da gata: você.
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Deus não criou a Igreja como uma coletividade à toa. Porque seres que se isolam não encontram amparo em ninguém. O Senhor não idealizou uma comunidade de filhos solitários, ao estilo cada-um-por-si. Não. Ele deseja que cuidemos uns dos outros, segundo um princípio muito simples: “Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade” (Ec 4.9-12).
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Ninguém se basta, meu irmão, minha irmã; precisamos uns dos outros. A questão é que, em determinados momentos, uns precisam mais que outros. Hoje, eu preciso mais de você; amanhã, você precisa mais de mim. Nunca se sabe de que lado vai soprar o vento. Se estamos fracos, precisamos que alguém nos carregue para longe do abismo. Mas, quando vemos que o próximo é quem precisa de amparo, o nosso papel é entregar-nos em sacrifício de amor.
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Como filhos de Deus, que precisam amar o próximo como a si mesmos, precisamos aprender a sair do conforto, abrir mão de momentos de lazer, suportar chuva e frio ao lado dos irmãos. Não existe vida cristã sem compaixão. E “compaixão” é uma palavra que significa, exatamente, “sofrimento compartilhado”. Se você quer viver plenamente o evangelho, aprenda a compartilhar o sofrimento do próximo. A chorar com quem chora. A fazer o que Jesus fez: deixar por algum tempo seu conforto de lado por amor a quem precisa (Jo 3.16).
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Viver é uma atividade muito perigosa. A cada passo que damos, a cada curva do caminho, encontramos problemas: sofrimento, depressão, dor, medo, ansiedade, pânico, carência, solidão, desespero, falta de dinheiro, insegurança… Os minutos da existência são como instantes tensos à beira do abismo, sempre com o risco de perdermos o equilíbrio e mergulharmos rumo a um fim tenebroso e apavorante. Mas, se nos dispusermos a cuidar uns dos outros como uma gata cuida de seus filhotes, enfrentaremos tempestades, vento e frio à beira do precipício e vamos dar e receber calor, apoio, alimento, proteção.
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Alguém que você conhece está se arrastando cegamente em direção ao precipício? Não fique indiferente. Saia de seu conforto, vá até ele e o resgate. Traga-o de volta ao calor e à proteção da família, seja um agente de vida. Pois viver não é apenas não estar morto. Viver é ter sentimento de pertencimento, cuidado, carinho, afeto. Nesse sentido, seja um doador de vida.
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Os gatinhos desamparados precisam de você. Pois você é o instrumento que Deus pôs ao lado deles para zelar por sua jornada. Não espere que outros façam aquilo que está ao seu alcance. Se você for até a esquina, pode ser que, nesse meio-tempo, o gatinho caia no abismo. Não permita que isso ocorra: acolha-o enquanto ainda é tempo. E, se vier a chuva, molhe-se com ele, sem retroceder, sem dar as costas, porque, assim, você sentirá na pele o que o próximo está enfrentando. Não foi isso que Jesus fez ao tornar-se homem?
gatoTem um aspecto bonito nessa história, algo que ainda não mencionei. Charlene fica deitada à beira do precipício, mas seu companheiro, um gato branco e preto, fica constantemente  perto. Ele, em geral, permanece deitado no telhado de uma casa ao lado, sempre rondando (foto). Quando a mãe sai para se alimentar, ele fica vigiando a prole. Não sei dizer o que aconteceria se um dos filhotes aproveitasse a ausência da mãe para se dirigir ao abismo, pois isso não ocorreu até agora. Mas tenho a firme impressão que o pai vigilante correria e impediria que o gatinho perecesse. Deus nos delegou a atribuição de cuidarmos uns dos outros. Delegou a você essa tarefa. Mas pode ter certeza de que ele está constantemente atento, sempre por perto, mesmo que você não perceba. E, na hora em que as ameaças surgem, mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita, mas ele sempre sairá em socorro de seus filhos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Pai1Já relatei em alguns posts do APENAS como minha experiência como pai me fez (e faz) enxergar de maneira muito mais profunda as realidades do relacionamento de Deus conosco, seus filhos. Se você é pai ou mãe certamente entende o que estou dizendo. Parece que cada episódio de nossa vida paterna é uma pregação. Cada dia com nossos filhos, um culto. Cada noite, uma vigília. A voz do Senhor e suas verdades tornam-se muito mais concretas diante daquilo que vivemos com nossos pequenos. Permita-me trazer mais uma reflexão sobre nossa fé a partir de algo que aconteceu comigo e minha filha de 3 anos.

Moro no Rio, cidade de praias. Naturalmente, levo minha pequena desde bebê para desfrutar desse playground natural. Ela sempre amou se esbaldar na areia e na água. Bem… nem sempre, na verdade. Quando completou 2 anos, um episódio teve grande impacto sobre ela. Sempre fui extremamente cuidadoso, pois sei os riscos que um segundo de distração paterna pode causar quando um filho está na água. Um dia, porém, estávamos na praia do Leblon, que tem uma arrebentação muito perto da beira, e um erro meu custou caro. De mãos dadas, eu a fazia pular por cima de cada onda que arrebentava, com aqueles gritinhos de “uúu!” que as crianças tanto amam. Ela estava eufórica, gargalhava e gritava “de novo!”. Mas, então, cometi um descuido. Eu me distraí com alguma coisa e não vi quando uma onda maior se aproximou e estourou em cima de nós. Resultado: a água entrou pelo nariz, os ouvidos, a boca e a alma da minha filhinha.

Entre engasgos e olhares assustados, ela se atracou ao meu pescoço, num gesto de desespero. Eu havia falhado e, por causa de um segundo de desatenção, a pequena parecia ter ficado traumatizada. Daquele momento em diante, nunca mais ela quis entrar na água do mar. Embora ame as aulas de natação e nade boas distâncias em uma piscina sem que ninguém a segure, daquele dia em diante ela começou a demonstrar pânico do mar. Ir à praia com ela passou a significar fincar âncora na areia e nem sonhar em chegar à beirinha da água.

Tentei muitas vezes. Cheguei mesmo a forçar a barra, entrando com ela no meu colo em águas calmas. Em vão: minha filha cravava as unhas no meu pescoço, escalava minha cabeça e, como um macaquinho que foge de um tsunami subindo ao ponto mais alto de uma árvore, ela se instalava no ponto mais alto dos ombros e da cabeça de seu papai, em pânico. Os fracassos sucessivos, durante meses, quase me convenceram de que não tinha mais jeito, o negócio era aceitar que ela tinha se tornado uma pessoa traumatizada e que nunca mais entraria no mar.

Mas um pai amoroso nunca desiste de seus filhos.

Pai2Decidimos passar as férias desse fim de ano em Cabo Frio, uma cidade essencialmente praiana. Como conheço bem a rotina do lugar, sei que ficar na cidade significa, em resumo, acordar, ir à praia, comer, ir à praia e dormir. Por um lado já estava antevendo a dor de cabeça que seria passar 20 dias na praia com uma filha que tem pavor de mar. Mas, por outro, decidi que aquela situação tinha de acabar. Então, em vez de simplesmente aparecer com ela diante do mar e tentar empurrá-la para dentro da água, desde que decidimos passar as férias em Cabo Frio resolvi trabalhar a ideia na mente dela. Decidi… pregar.

Comecei pedindo-lhe perdão por tê-la deixado se assustar uma vez e garanti que eu estaria sempre presente, extremamente atento a sua segurança. Deixei claro que o papai iria protegê-la e faria disso prioridade. Verbalizei tudo o que era possível para deixá-la totalmente segura naquela situação. E fiz isso por um longo tempo e muitas vezes. A fim de torná-la ciente do que vinha pela frente, passei a dizer rotineiramente que iríamos a um lugar de praia e que passaríamos muito tempo lá. Junto a isso, comecei a explicar repetidamente e frequentemente como é o mar, propositadamente iniciei uma série de preleções sobre as águas do oceano, explicando como funcionam as ondas, o que fazer para evitar que elas sejam incômodas e outros aspectos relacionados ao seu grande medo. Preguei, preguei e preguei.

Enfim chegou o dia.

Creio que eu estava muito mais ansioso do que ela. Chegamos a Cabo Frio, nos instalamos e logo fomos à praia. Assim que pisamos na areia, minha filhinha disse algo surpreendente:

– Eu adoro o mar!

Sorri, surpreso com aquela afirmação inesperada. Montamos a barraca e ela começou:

– Vamos, papai, vamos para a água!

Pai3Seria possível? Segurei minha pequenininha pela mão e caminhamos rumo às ondas. Para meu espanto, ela não hesitou um segundo sequer: saiu invadindo a água. Pulou, mergulhou, se jogou em cima de mim. Daqui a pouco pediu para que eu soltasse sua mão, pois queria nadar sozinha. Eu, temeroso, permiti que aquele pingo de gente se esbaldasse, mas minha atenção ficou focada em cada onda que vinha. Sempre que uma maiorzinha despontava, eu a suspendia no ar, livrando minha filha de tomar água na cabeça. Aprendi com meu deslize. E cumpri minha promessa.

Durante todas as nossas férias, fui acordado por aquele pingo de gente me sacudindo e dizendo “vamos para a praia, papai?”. Quando chegávamos, antes que eu começasse a montar a barraca ela perguntava umas trinta vezes “vamos para a água, papai?”. Conclusão: foi difícil manter minha filhinha longe do mar. Ela pedia, destemida, para ir até o fundo; queria nadar, pular, fazer tudo o que pudesse, excitadíssima com a diversão. Quando vinha uma onda maior, por iniciativa própria corria para os braços do pai. Se entrava água em seu nariz ou sua boca, dava ouvidos ao pai e assoava ou cuspia. Creio que ela amadureceu, a partir dos problemas do passado, das palavras de esclarecimento e segurança que ouviu com constância e pela confiança que desenvolveu de que nunca seria desamparada ou abandonada pelo papai (e pela mamãe), sua fonte de segurança e conforto. O conhecimento e a confiança em que estaria segura a permitiram viver momentos de extrema felicidade.

Agora pense:

Infant Grabbing Man's FingerDeus é um Pai muito melhor do que eu. Ele nunca nos desampara. Ao contrário de mim, nunca fica desatento, jamais se distrai. Nada passa despercebido diante de seus olhos. Sua atenção conosco é constante, focada e dedicada. Ele jamais é pego de surpresa por qualquer onda, mas muitas vezes deixa que uma ou outra nos atinja, pelas razões mais diversas. Doenças, desemprego, luto, perdas, dificuldades, problemas, vales, desertos, dores, seja o que for: quando esses males chegam, parece que estamos nos afogando, perdemos o fôlego, ficamos espantados. O Pai permite que isso aconteça não para que percamos a fé ou fiquemos com medo diante da vida, mas para que amadureçamos, tenhamos experiências, cresçamos, subamos a patamares mais elevados em nossa espiritualidade. O problema ocorre quando, em vez de aproveitarmos essas circunstâncias para evoluir, deixamos que nos afetem de modo negativo, o que nos leva a questionar o cuidado de Deus.

Será que ele me abandonou? Será que não ouve minha oração? Será que cometi algum pecado que fez Deus virar-me as costas? Será que o Senhor desistiu de mim? Nossa fé é abalada. A confiança no Pai é minada. Passamos a temer. Os desafios da vida se tornam monstros apavorantes. Escalamos a árvore até o galho mais alto, pois a segurança de que Deus cuidará de nós a cada segundo foi posta de lado. Temores. Medo. Ansiedade. Trauma. Depressão. Tristeza. Sensação de abandono.

– Pai, as ondas estão fortes demais, não consigo!

Mas o Aba, nosso protetor celestial, aquele que nos ama com amor incompreensível, em momento algum se ausentou. Ele tentou numerosas vezes nos fazer ver que estava nos segurando pela mão ou nos carregando no colo, mas os traumas com as dores e os sofrimentos do passado fizeram nossa fé totalmente infrutífera. É o fim? Nem de longe, pois Deus é seu Pai.

E um pai amoroso nunca desiste de seus filhos.

Pai5Então, por saber que muito virá pela frente, o Senhor começa o processo de cura de nossa alma. Para isso, Deus começa a falar conosco. Leituras da Palavra nos dão explicações e esclarecimentos. Pregações iluminadas pelo Espírito Santo nos revelam como funcionam as coisas, como o Senhor age, por que certos sofrimentos ocorrem, o que fazer quando chegam as tribulações. Livros escritos por irmãos e irmãs movidos pelo Divino abrem os olhos para realidades profundas da ação do Pai. Aos poucos, o poder das verdades celestes vai transformando nossos medos em paz, nossa dor em esperança, nossos traumas em aprendizado. Amadurecemos. Vemos a vida e Deus de maneira diferente e com muito mais transparência. Entendemos que ele nunca nos abandonou nem nunca nos abandonará. Torna-se clara a certeza de que, em meio a toda aflição, o Senhor não soltou nossa mão, mas deixou as ondas nos atingirem sem causar um dano permanente – e os propósitos do alto diante daquela situação ficam patentes.

Passamos a compreender. Somos fortalecidos na fé. Galgamos novos patamares em nossa intimidade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Conhecemos Deus, então, não mais por ouvir falar, mas por vê-lo com nossos próprios olhos espirituais. Com isso, ganhamos total confiança nele. E quando novas ondas despontam no horizonte, ameaçando nos afundar, afogar e machucar, dizemos com destemor:

– Vamos, papai, vamos para a água!

Pai6Passamos a encarar os problemas com segurança. Os momentos de trevas não nos apavoram mais. Sabemos que os vales virão, mas nosso Pai está e estará sempre ali, a nos proteger, guardar, escoltar, sustentar, salvar. Ele é Emanuel: Deus conosco. Conosco, nunca longe de nós (Mt 1.23). Ele está com você todos os dias, até a consumação do século (Mt 28.20). E temos a certeza de que “Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá” (Sl 139.8-10). Tudo o que temos de fazer, então, é entregar nosso caminho ao Senhor, confiar nele e saber que o mais ele fará (Sl 37.5). E se, em algum momento, sua fé vacilar e você acreditar na mentira de que teu Pai não ajudará a te sustentar, “Confia os teus cuidados ao SENHOR, e ele te susterá” (Sl 55.22).

Meu irmão, minha irmã, as ondas certamente virão, pois ninguém atravessa o mar da vida sem ser açoitado por elas. Mas tenha esta certeza: o teu Pai, que jamais se distrai ou se descuida, te susterá. Palavra de pai.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício