Posts com Tag ‘crítica’

– Papai, seu rosto está gosmento.

A crítica da filhota incomodou. Afinal, quem gosta de ouvir a própria filha dizer que não quer lhe dar um beijo porque seu rosto está gosmento? Eu não gostei. Minha primeira reação foi reagir, me defender.

– Ah, bebê, para com isso. Não começa com frescura, hein.

Não adiantou. Minha bebê de 6 anos continuou se recusando a me dar o beijo.

– Mas, papai, tá gosmento!

Irritado, dei as costas e saí de perto. Poxa, ninguém gosta de ouvir uma crítica dessas! Não ficamos felizes quando alguém nos diz que estamos com mau hálito, que algo que fizemos não está bem feito, que erramos em algo. O grande problema é que, se nos fechamos à crítica alheia e nos recusamos a receber admoestações que podem nos fazer melhorar, seguiremos gosmentos, fedorentos, errados, incompetentes. Ao contrário do que muitos apregoam em nossos dias, críticas não são um mal: são uma bênção.

A Bíblia diz que Deus disciplina todos aqueles que ama. De igual modo, devemos receber as críticas que apontam nossas falhas como demonstrações de amor – se não de quem nos critica, do Senhor. Pois, por meio da crítica, ele nos revela muitas vezes falhas que não estamos vendo. Só existe um tipo de pessoa que não aceita bem as críticas: o arrogante.

Que desgraça é a arrogância! É um pecado notoriamente diabólico, que faz com que nos sintamos como Satã se sentiu ao tentar ser mais do que era. A Bíblia traz dezenas de passagens em que a arrogância é vista como abominação aos olhos divinos. “Abominável é ao SENHOR todo arrogante de coração; é evidente que não ficará impune” (Pv 16.5). O triste é que pouco se prega contra esse pecado em nossos púlpitos. E isso porque não se considera esse um pecado grave (como se existisse pecado “não grave”!). E mais: como muitos de nossos líderes são arrogantes e não estão dispostos a mudar, acreditam bizarramente que isso é uma qualidade, pois “Deus me fez assim”. Mas não é qualidade. É um defeito e um pecado! E, biblicamente, é abominação.

Fuja da arrogância, meu irmão, minha irmã! Fuja de quem não aceita ser criticado e prega que quem critica é recalcado ou coisa parecida! A crítica é um instrumento maravilhoso para melhorarmos, nos aperfeiçoarmos, identificarmos os erros e as falhas que não enxergamos. Ouça toda e qualquer crítica com respeito. Depois, analise, julgue e, se for o caso, arrependa-se e mude no que a crítica tiver razão.

Quando saí de perto de minha filha, irritado com ela, fui ao banheiro. Olhei-me no espelho, passei a mão no rosto e percebi que… sim, ele estava bastante oleoso, como resultado de um dia inteiro andando na rua debaixo de um sol escaldante. Em outras palavras, meu rosto estava bem gosmento. Tive de abaixar a cabeça e decretar minha derrota. Lavei bem a face, a sequei e voltei até minha filha.

– Você tinha razão, bebê. Meu rosto estava gosmento mesmo. Perdoa o papai.

Ela olhou para mim, analisou minha pele, abraçou meu pescoço e tascou um daqueles deliciosos beijos esmagados. Sabe de uma coisa? Bendita crítica foi aquela! Pois, enquanto eu me recusava a ouvi-la, minha filha ficava distante de mim. Mas, ao prestar atenção, analisá-la, dar-lhe crédito e mudar, ganhei o que tanto queria: aquele beijinho que todo papai ama. E você? O que está deixando de ganhar por, arrogantemente, não dar ouvidos às críticas que lhe fazem?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

Clicando nas imagens acima e abaixo você vai para a livraria virtual das lojas Saraiva.

APENAS_Banner três livros Zágari

Anúncios

mancha1Tenho uma mancha nas costas. Embora seja uma ligeira pigmentação na pele, não é uma mancha pequena, tem aproximadamente o tamanho de um gomo de tangerina. Por isso, ela não passa despercebido facilmente. Mas, acredite, eu só descobri que tinha essa marca de nascença quando já era adulto. Parece estranho? E é mesmo, mas tem uma explicação: ela fica localizada em um local das costas que não se vê facilmente no espelho, por isso eu nunca a tinha percebido antes (e ficar espiando minhas costas não é algo que eu costume fazer com frequência). Mas o que mais me chamou a atenção quando descobri que a mancha existia é que ninguém nunca havia me dito antes que eu a tinha. Quem comentou comigo pela primeira vez sobre ela foi um médico, já quando eu tinha uns 24 anos. Ele questionou há quanto tempo ela estava ali e eu, intrigado, respondi: “Mancha? Que mancha?”. Fui perguntar a meus pais, que, então, me disseram que eu nasci com ela. Fiquei chocado. Como era possível que em mais de vinte anos de vida eu nunca tivesse tomado conhecimento de que havia uma mancha nas minhas costas? Bem, a verdade é que ninguém jamais se preocupou em me falar nada sobre aquela penetra indesejável – talvez por desinteresse, talvez por constrangimento – por isso ela ficou ali, escondida de meus olhos, habitando minha vida sem meu conhecimento, por anos e anos. Pensando sobre isso, vejo como é importante haver por perto pessoas que tenham a liberdade de apontar as manchas que temos não só no corpo, mas, principalmente, na alma. Em outras palavras: críticos.

Uma das maneiras mais eficientes de errarmos em nossas atitudes e decisões é estabelecermos uma barreira que impeça críticas. No dia em que você não estiver aberto a ouvir dos outros o que eles veem de errado em você pode ter certeza de que aí é que as coisas começarão a dar errado mesmo. Afinal, é muito fácil não nos enxergarmos com clareza. Já reparou que a sua mão esquerda torna-se a direita no reflexo do espelho? Isso também acontece quando olhamos para nós mesmos: não costumamos ter uma visão precisa de quem somos e de quão corretas são nossas escolhas e atitudes. Podem ser muitas as razões para isso: egocentrismo, amor-próprio exacerbado, egoísmo, arrogância, autossuficiência e muitos outros pecados. Sim, isso mesmo: pecados. Pois considerar-se acima de erros é uma forma de idolatria. E não são poucas as pessoas que idolatram as próprias opiniões e atitudes, tornando-se aversas a qualquer tipo de crítica.

mancha2Eu tenho muitas manchas que não estão na minha pele, mas dentro de mim. São valores distorcidos, conceitos mal trabalhados, opiniões equivocadas, pecados, atitudes injustas, pensamentos incorretos, maus sentimentos e uma enormidade de outras marcas que interferem na pureza de minha alma. Muitas e muitas vezes esses problemas se escondem em lugares para mim difíceis de enxergar, cantos escuros do meu senso crítico, espaços sombrios do meu ego, regiões pouco iluminadas da minha autocrítica. São regiões que não consigo ver com clareza, o que possibilita que muitas dessas falhas de caráter ou imperfeições fiquem escondidas por períodos de tempo enormes sem que eu me dê conta de que estão ali.

mancha3Nessas horas, é fundamental que haja pessoas de confiança a quem possamos dar a liberdade de nos dizer que há manchas em nós e na nossa vida. Felizes são aqueles que escutam esses alertas com humildade e conseguem perceber que precisam fazer algo a respeito. Quem ouve críticas, exortações e toques legítimos e reage com indignação em vez de gratidão está sendo insensato. É muito comum vermos reações não muito amáveis a quem nos critica, a ponto de chegarmos a pensar: “Eu é que sou o dono do meu nariz!”. É verdade, mas… faça uma experiência. Tente olhar para o seu nariz, sem ser no espelho. Você o enxerga com nitidez? Será que alguém que está à sua frente não o vê melhor do que você? Assim é com relação à nossa vida: muitas vezes acreditamos saber o que é o melhor e, por isso, ignoramos a visão de quem está próximo, quando, muitas vezes, outros estão vendo a situação com muito mais clareza do que nós mesmos.

A paixão cega, logo, não seria melhor ouvir o conselho de alguém de fora sobre aquele namorado? Muitas pessoas reclamam de você, logo, será que não há algo em que esteja errando? Suas atitudes geram montes de críticas, logo, será que algumas delas não estão corretas? Ninguém do seu grupo apoia o que está fazendo, logo, será que não é hora de reconsiderar? O pastor já chamou a sua atenção sobre o que a Bíblia diz a respeito de algo que você vem fazendo, logo, será que não seria bom lhe dar ouvidos? Em resumo, devemos estar abertos para perguntas que sugerem a existência de manchas em nossa alma: “Será que realmente estou certo?”. “Será que errei?”. “Será que estou pecando?”. “Será?”.

Saul é um exemplo de alguém que não deixou os outros lhe apontarem as próprias manchas. Roboão também ignorou o conselho de quem apontava problemas em suas decisões. Sansão preferiu seguir suas próprias vontades a ouvir a sabedoria dos que o amavam. Assim como eles, vemos na Bíblia muitos que fecharam os ouvidos à percepção alheia – em outras palavras, que repudiaram a crítica – e que tiveram de colher frutos amargos dessa atitude. Peço a Deus que não cometamos o mesmo erro.

mancha4Há, porém, duas precauções que você deve tomar. Primeiro, analise como chega a crítica. Paulo deu a fórmula: “Pois vocês sabem que tratamos cada um como um pai trata seus filhos, exortando, consolando e dando testemunho, para que vocês vivam de maneira digna de Deus, que os chamou para o seu Reino e glória” (1Ts 2.11-12). Assim, vemos que a exortação deve vir sempre junto com consolo e testemunho, não apenas com um dedo na cara e palavras de ataque. A exortação que vem envolta em amor e suavidade é a chamada “critica construtiva” e deve receber toda a nossa atenção; já a que vem meramente com acusações é fruto do Acusador – e deve ser ignorada. Segundo, pondere o que exatamente está sendo dito: embora suas pupilas sejam uma mancha negra no meio de seus olhos, não representam um problema. Do mesmo modo, nem toda exortação ou crítica faz sentido. “E o que fazer, então?”, você poderia perguntar. A resposta: é preciso ter conhecimento de Deus e discernimento.

Tudo o que chega até nós e que configura uma exortação, uma crítica, um olhar sobre manchas que carregamos em nossa alma deve ser confrontado com a Bíblia. É pela comparação entre o que nos é dito por quem aponta nossas manchas e o que Deus diz em sua Palavra que vamos ver se a crítica faz sentido. Assim, em tudo devemos buscar o conselho do justo e onisciente Juiz. Junto a isso, precisamos ter discernimento para saber se o que nos é dito tem por objetivo nosso bem ou não. E discernimento só se obtém mediante intimidade com o Espírito Santo, o único que conhece as intenções do coração.  Portanto, se você quer blindar-se contra as críticas nocivas sem se fechar às construtivas, o caminho é conhecer os pensamentos do Senhor revelados nas Escrituras e viver em intimidade com ele por meio de oração e outras disciplinas espirituais.

mancha5Algumas manchas em nossa pele são inofensivas; outras são tumores malignos, capazes de nos levar à morte. Eu não sei discernir umas de outras, por isso preciso de gente de fora que me diga aquilo que não tenho capacidade de ver sozinho. Também preciso de humildade para ouvir o que me disserem e entendimento para saber o que fazer a partir do momento em que ficar a par da realidade. Quando tomei conhecimento de que havia uma mancha em minhas costas, recorri ao dermatologista, que me disse que aquilo não era nada de mais e não oferecia qualquer risco. Mas pode ter certeza de que, se ele tivesse dito que se tratava de algo nocivo, eu teria procurado extirpar aquela mancha o mais rápido possível. E ai de mim se não tivesse dado ouvidos àquele médico – talvez eu não estivesse aqui hoje para contar a história.

E você? Como tem reagido quando alguém aponta as manchas da sua alma?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

tedioTenho viajado com certa frequência para outras cidades, por conta do meu trabalho. Isso tem me levado a passar algum tempo em salas de embarque de aeroportos. Como me interesso muito pelo comportamento humano, gosto de ficar observando as pessoas à minha volta. Estive recentemente em São Paulo e passei algumas horas no aeroporto. Poucos anos atrás, se eu estivesse numa situação semelhante, veria ali muita gente com cara de tédio, cochilando, lendo livros ou, simplesmente, pensando. Nos últimos anos, porém, a coisa mudou. Reparei que a esmagadora maioria de quem estava próximo a mim na sala de embarque mantinha-se profundamente entretida com seus smartphones, iPads, notebooks e outros aparelhos eletrônicos. Curioso, me levantei a caminhei um pouco ao redor do salão, espiando com o que exatamente estavam ocupando seu tempo. Muitos estavam em redes sociais, outros jogavam games, alguns batiam papo em programas de chat. Uma minoria fazia algo que parecia ligado a trabalho. Em resumo, o que percebo nas minhas viagens é que as caras de tédio estão se tornando quase que extintas nos aeroportos. Agora, os recursos eletrônicos ocupam com bastante competência o tempo e a mente das pessoas. Fiquei me perguntando: isso é bom ou mau?

tedio0Claro que é bom. Quem gosta de ficar entediado? Quem gosta de passar horas sem nada o que fazer? É muito melhor ter algo com o que ocupar a mente enquanto se espera o avião chegar. Na verdade, enquanto se espera por qualquer coisa, pois tédio não é exclusividade de aeroportos. No trajeto do ônibus até o trabalho, na fila do supermercado, na sala de espera do médico… as ocasiões em que o tédio se manifesta não têm limites. Surgem a qualquer momento e por todo lado. E se antigamente o não-ter-nada-o-que-fazer nos proporcionava como única alternativa passar o tempo pensando ou no máximo lendo um livro ou fazendo palavras cruzadas, agora temos ao nosso dispor bugigangas eletrônicas de todos os tipos, tamanhos e formatos, com uma infinidade de softwares e aplicativos, que chegaram para ocupar nossa mente, enxotar o tédio e nos livrar da penosa e irritante atividade que é pensar.

tedio2Epa. Percebeu algo estranho no que acabou de ler? Não? Então permita-me chamar a atenção: eu disse “penosa e irritante atividade que é pensar”.  Este é um fenômeno de nossos tempos: consideramos que “pensar” é sinônimo de “não ter nada o que fazer” e, portanto, é algo chato e incômodo. Logo, se não nos entretivermos e “apenas” ficarmos pensando, acabamos descontentes. A consequência? Temos procurado tão desesperadamente dar tarefas ao nosso cérebro que está sobrando muito menos tempo para a reflexão – estamos pensando incomparavelmente menos. Alguns anos atrás podíamos dedicar nossos momentos de espera e ócio à reflexão, a pensamentos sobre a vida, à análise de fatos e ideias, a muitas coisas importantes que exigem a nossa meditação – exigem cérebros direcionados exclusivamente para o pensamento. Os momentos de tédio nos davam espaço para devotar nossa mente não apenas a se ocupar, mas a elaborar. A ponderar. A investir tempo no questionamento. Isso nos permitia ser pessoas mais críticas, reflexivas, analíticas, criativas e inovadoras. Pois tínhamos tempo ocioso para fazer mais do que absorver informações: conseguíamos processá-las, pô-la sob os holofotes e examinar seus muitos ângulos, com cuidado e bastante reflexão. Mas, se “nos livramos da penosa e irritante atividade que é pensar”, estamos nos tornando seres que não pensam . Logo, aceitaremos tudo o que nos é apresentado como verdade, pois não teremos mais o hábito de parar e questionar: “Será verdade mesmo?”.

Assim, vemos que espantar o tédio é ótimo, mas pensar menos é uma tragédia. Em especial para o cristão.

cabeça oca1Se mantemos nossa mente ocupada em todos os momentos entediantes com atividades lúdicas (como games e redes sociais), sentiremos muito menos tédio, mas exercitaremos infinitamente menos nossa habilidade de pensar. Com isso, ao recebermos um ensinamento religioso, por exemplo, simplesmente o incorporaremos ao nosso grupo de verdades absolutas – pois não pararemos para refletir até que ponto ele é de fato bíblico. Nos dirão que a prática X ou Y deve fazer parte da nossa vida de fé e você aceitará sem senso crítico. Vão dizer que você pode ser um cristão agressivo porque “afinal, Deus respeita o seu temperamento” e você aceitará esse confortável absurdo sem questionar. Cantarão louvores cheios de erros bíblicos e você nem ao menos perceberá, visto que não pensou muito sobre eles. Você passará meses sem ouvir pregações que falem sobre assuntos centrais da fé – como amor ao próximo, graça, perdão, arrependimento, inferno, negar-se a si mesmo, preferir os outros em honra, e não devolver mal com mal – e achará que está tudo bem (pois não parou para pensar sobre o assunto). E por aí vai.

Pensar é uma atividade vital do ser humano. Mas não apenas pensar por pensar ou pensar de qualquer maneira: pensar, isto sim, de forma reflexiva, critica, analítica, demorada, focada. A questão é que, para podermos pensar de um modo que nos fará crescer e ser mais consequentes em nossa vida, precisamos de tempo. Uma boa conclusão ou decisão jamais é tomada em segundos: exige ponderação, olhar todos os lados da situação, concluir, questionar a conclusão, voltar a analisar, concluir de novo. Nesse sentido, os momentos de tédio são preciosos.

Einstein1A filosofia grega revolucionou o mundo pelos 2.400 anos seguintes ao seu surgimento. Tales de Mileto, Sócrates, Platão, Aristóteles e outros pensadores que mudaram os rumos de toda civilização ocidental só puderam criar seus conceitos porque viveram em um momento histórico em que podiam se dedicar ao pensamento. Albert Einstein só criou a teoria da relatividade porque trabalhava num escritório de marcas e patentes em que dava conta de todo o serviço na parte da manhã e tinha a tarde ociosa, sem ter nada a fazer exceto sentar-se no beiral de uma janela e matar o tédio… pensando. Os avanços da humanidade só surgiram quando pessoas começaram não a se entreter e ocupar a cabeça com informações irrelevantes, mas a pensar.

Na própria história do cristianismo vemos isso. O escolasticismo (movimento de reflexão e produção teológica iniciado no século 12 e que sucedeu a Idade Média) foi marcado por uma riqueza enorme de criatividade intelectual, promovida por um contexto sociocultural que estimulava o pensamento. E, sem esse movimento, não teríamos os pré-reformadores e muito menos a reforma protestante. Ou seja: sem o pensamento e a reflexão não haveria Igreja evangélica. Às vezes fico imaginando se os dois discípulos na estrada de Emaús, em vez de ocupar o tédio daquela longa caminhada conversando com Jesus, tivessem ficado com a cara enfiada em seu iPad durante todo o trajeto. O que não teriam perdido?

Você vai deparar com muitos momentos de tédio ao longo da próxima semana, do próximo mês, do resto de sua vida. É totalmente possível ocupá-los todos com aquilo que vê em seu smartphone, notebook ou tablet. Não tenha dúvidas de que conseguirá espantar o tédio com eficiência, vai se distrair, entreter-se e manter seu cérebro bem ocupado. Vai rir, ver vídeos legais no YouTube, admirar milhões de selfies dos seus amigos no Facebook, gastar horas jogando Candy Crush. Coisas do gênero. Nada contra. Mas se você não tomar a decisão de desfrutar de pelo menos parte desse tédio com a leitura de livros ou com a arte de pensar, corre o sério risco de se tornar alguém que não avança nem contribui – apenas reproduz o que alguém que pensa te falou. E isso seria muito triste. Improdutivo. E desastroso para você, a Igreja e a sociedade.

Tedio3Quer ser uma pessoa relevante? Quer ter opiniões bem formadas e refletidas e não apenas copiadas do que ouviu da boca de alguém que admira? Quer ter senso critico? Quer conseguir analisar algo que todo mundo diz que está certo e concluir que está errado? Então recomendo que dedique-se ao pensamento. E os momentos de tédio são preciosos e propícios para isso. Não perca a oportunidade. Use a chatice das horas entediantes para se tornar uma pessoa que usará suas reflexões para auxiliar vidas, formar uma igreja mais íntima de Cristo e construir um mundo melhor.

E, agora que acabei de escrever esta reflexão, surgida em um momento de tédio na sala de embarque de um aeroporto de São Paulo, peço licença mas vou ler um bom livro – afinal, ninguém é de ferro.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Maledicência1Sim, eu creio em maldição hereditária. Não, não estou falando do tipo de maldição hereditária que você está pensando. O conceito amplamente difundido a define, em resumo, como a transmissão de um pecado (e suas consequências) de pai para o filho, depois para o neto, depois para o bisneto e assim por diante, o que abriria as portas para o Diabo agir em sucessivas gerações de uma mesma família. Absolutamente não é sobre isso que desejo falar. Quero tratar aqui de um conceito que eu mesmo inventei, a partir menos da teologia e mais da etimologia, ou seja, do significado das palavras. Assim, creio em um conceito de “maldição hereditária” que elaborei e que vejo como extremamente pernicioso. Permita-me explicar.

“Maldição”, pelo dicionário, pode significar “praga”, que é o sentido mais popular do termo. Só que a palavra tem a mesma raiz de “maldizer” (“maldito” seria, então, alguém sobre quem foi dito algo que não é bom, mas mal, logo, é “mal-dito”). Ou seja, “amaldiçoar” pode ter o sentido tanto de “rogar uma praga” quanto de “falar mal”, “promover maledicência”. E maledicência é a fofoca, a conversa escarnecedora, o tititi maldoso, a crítica destrutiva, o desdém pelas conquistas alheias, a conversação invejosa, as palavras que desqualificam o que é diferente só por ser diferente do que eu sou ou acredito, o desmerecimento de algo que é importante para o outro. Abrange desde o “vou te contar o que fulano fez mas é só pra você orar” até o sarcasmo e a ironia ao se referir ao próximo ou a algo relacionado ao próximo. Falar mal é… falar mal.

Já “hereditária” se refere a algo “que se recebe ou se transmite por herança” ou “que vem dos pais, dos antepassados”. Aqui me permito extrapolar esse sentido “familiar” para algo que se adquire não só de pai para filho, mas que faz parte do DNA cultural de um determinado grupo, ou seja, uma família, uma sociedade, uma turma de amigos ou mesmo uma igreja. Por esse conceito, por exemplo, o hábito de membros de determinada denominação se saudarem uns aos outros com “graça e paz”, “a paz do Senhor” ou “paz e bem” faz parte da hereditariedade desse grupo específico, do seu código genético cultural. É aquela coisa que um começa a fazer, o outro imita e logo todos adotam como algo natural e espontâneo.

Maledicência2Assim, juntando essas duas acepções do termo, o significado que inventei para “maldição hereditária” não tem nada a ver com um pecado ou uma praga passada sobrenaturalmente entre sucessivas gerações de uma família, mas sim à cultura de um grupo humano específico de praticar habitualmente a maledicência. Em outras palavras, o hábito disseminado em um determinado núcleo de pessoas de falar mal de outras. Portanto, sim, nesse sentido eu creio em “maldição hereditária”, pois vejo com muita frequência grupos em que falar mal de terceiros é tão natural como beber água. E estou me referindo a grupos de cristãos.

Sejamos sinceros: falar mal do próximo é algo que absolutamente todo mundo faz, em escalas diferentes e de formas distintas. É natural a seres humanos dizer coisas sobre outros seres humanos que configurem um certo grau de maledicência. Todos nós fazemos isso e negar seria hipocrisia. Mas estou me referindo a um patamar mais grave do problema. O que vejo é que existem certos grupos em que a maledicência, o maldizer, é visto de certo modo como uma virtude, algo natural, desejável e até engraçado. Em que há um certo orgulho por falar mal. É um jeito de ser que cria laços de intimidade entre os integrantes. Eles esperam que os outros membros daquele núcleo falem mal e os que não o fizerem acabam deslocados dos demais. Nesses grupos, o principal alvo de sua língua ferina em geral são os diferentes. Aqueles que, de algum modo, não compartilham daquilo que para os maledicentes culturais é habitual, valioso ou natural – sejam gostos, preferências, estilos de vida, ideias, valores e similares. Tristemente, isso acontece muito no nosso meio cristão.

É importante frisar que não estou me referindo a uma crítica saudável, construtiva ou, até mesmo, a conversas apologéticas válidas sobre aspectos errados ou heréticos de certos setores da igreja. Essa é a boa crítica e não configura falar mal, mas sim apontar erros com boa intenção, por amor à sã doutrina. Eu me refiro a falar mal mesmo, no sentido mais pejorativo do termo. Aquele maldizer que tem um certo veneno, uma “pimentinha”, que é uma boa dose de pura maldade. Você sabe do que estou falando.

Diga-me se estou errado: sente em volta de uma mesa com certos grupos pentecostais e você verá que não demorará muito para que comecem a falar mal dos irmãos de igrejas tradicionais, chamando-os de “frios” e coisas  similares. Desdenhando e, de certo modo, inferiorizando. O mesmo sentimento você encontrará em grupos de tradicionais que maldimaledicência3rão e depreciarão muitos aspectos do meio pentecostal. Outro exemplo é a eterna querela reformados (calvinistas) versus arminianos, em que a maledicência ocorre com uma frequência impressionante em certos círculos. Voam farpas dos dois lados, com comportamentos que vão das piadinhas a comentários agressivos e ofensivos. Uma tristeza.

Uma das áreas em que esse meu conceito de “maldição hereditária” cresce cada dia mais é na musical. A coisa mais comum é você ouvir pessoas que preferem um certo gênero ou estilo no louvor falar tudo o que você possa imaginar de ruim de quem não aprecia o mesmo. Esse sentimento de “tribo”, de “os nossos certos e os deles errados” vem impregnado muitas vezes de sarcasmo, desprezo, piadinhas e desmerecimento, seja por músicas, seja por músicos, seja por quem gosta do que o maledicente não gosta. Uns acusam outros de superficialidade; outros acusam uns de estagnação e anacronismo. Sempre com palavras nada amorosas. Uma tristeza.

Que dizer então de teorias teológicas? Perco a conta do número de vezes em que ouvi maledicências de certos grupos de cristãos acerca daqueles que não acreditam no que eles acreditam no que se refere aos mais variados aspectos da teologia cristã. E volto a dizer: não estou me referindo a divergências respeitosas e saudáveis, mas a conversas ferinas, depreciativas, cheias de desdém. Os pontos de controvérsia são muitos, e vão de línguas estranhas a teorias escatológicas; de crenças à discordância sobre a forma de batismo em águas; de opiniões sobre como escolher o cônjuge a visões sobre como deve ser a liturgia do culto. Uma tristeza.

E há a maledicência motivada por questões insignificantes. Já ouvi tititis porque o marido passou o braço pelos ombros da esposa durante o culto, ou veneno destilado sobre a roupa do irmão beltrano, sobre o cabelo de sicrana… o céu é o limite quando se trata de temas para maledicentes. Porque todo amante da maledicência tem algo em comum: não importa muito o tema, desde que possa falar mal. Uma tristeza.

Enfim, tenho visto grupos e mais grupos que têm em sua natureza o pecado da maledicência visto como algo normal e aceitável – até mesmo um elemento de união entre seus membros. Só que não é. Falar mal é, biblicamente, um horror. Veja:

maledicência4“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar” (Cl 3.8). Viu ali a maledicência? Pois o falar mal é diretamente associado à natureza terrena e a práticas terríveis, como a ira e a avareza.

Salmos 62.3-4 vai além e indica que o maldizer é uma atitude clara de hipocrisia e falta de amor ao próximo – ou seja, é um pecado contra o Grande Mandamento: “Até quando acometereis vós a um homem, todos vós, para o derribardes, como se fosse uma parede pendida ou um muro prestes a cair? Só pensam em derribá-lo da sua dignidade; na mentira se comprazem; de boca bendizem, porém no interior maldizem”.

Mas tem mais. Em 1Timóteo 5.14, falar mal dos outros é diretamente denunciado como uma prática satânica: “Quero, portanto, que as viúvas mais novas se casem, criem filhos, sejam boas donas de casa e não dêem ao adversário ocasião favorável de maledicência”.

Diante disso tudo, fica claro que o falar mal do próximo, em todas as suas acepções (com piadas, sarcasmo, ironia, maldade, falsa intenção de exortação ou o que for) é abominação para Deus.

maledicência5Agora, por favor, preste atenção a algo: o objetivo deste texto não é estimular você a olhar para o lado e ficar apontando e acusando tal e tal pessoa ou grupo que seja praticante dessa “maldição hereditária”. Isso não teria nenhuma utilidade para o evangelho ou para a sua vida espiritual. Caso você detecte que há grupos de maledicentes por perto, o mandamento do Senhor quanto a eles é claro e objetivo: “Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” (Lc 6.26-28). Não há margem para interpretação. O mandamento cristão é: se falarem mal de você, fale bem deles.

O que desejo com este post é levar você a refletir e responder à seguinte pergunta: “Será que eu faço parte de algum grupo que pratica habitualmente e/ou prazerosamente a maledicência?” Se você percebe que a pecaminosa prática da maledicência faz parte de um determinado grupo a que você pertença (seja família, turma de amigos, colegas ou mesmo os membros da sua igreja), o que deve fazer? Há dois caminhos a seguir.

Primeiro: converse com os que tais coisas praticam e os alerte sobre quão maligno é o que fazem. Traga à lembrança deles que é preferível calar do que maldizer: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29).

Segundo: se ainda assim os tais não ouvirem sua exortação e continuarem adeptos dessa cultura de “maldição hereditária”, afaste-se do grupo. Mateus 18 diz: “Se teu irmão pecar [contra ti], vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano”. Pois é melhor se afastar dos que amam falar mal dos outros do que permanecer contaminando-se com essa prática horrível. Em Mateus 5.29, Jesus recomenda: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno”. Arranque-se do grupo dos maledicentes antes que você sofra as consequências.

Maledicência0Que consequências? Vamos ouvir Tiago: “Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum!” (Tg 1.26). Em outras palavras, o irmão de Jesus está dizendo que a religião dos que não conseguem ficar calados se não têm algo edificante a dizer… não vale nada. Logo depois, ele dá o ultimato: “Com a língua bendizemos o Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim!” (Tg 3.9-10). No grego original, a palavra traduzida aqui por “bênção” é eulogia, que significa “fala elegante”, ou “discurso justo”. Já “maldição” foi traduzida de katara, que quer dizer “execração”, ou seja, “ódio profundo” ou “aversão exacerbada” (segundo o dicionário Houaiss). Dá para conciliar uma fala elegante com outra que carregue em si ódio e aversão? Biblicamente, não.

Chama minha atenção a frase final de Tiago: “Meus irmãos, não pode ser assim!”. Repare, primeiro, que ele está se dirigindo a cristãos, o que prova que esse mal ocorre em nosso meio. E, segundo, ele afirma que não se pode amaldiçoar. Falar mal. Maldizer. Isso está errado. Precisamos mudar, se o fazemos. Precisamos exortar em amor os que o fazem. E, se continuarem se orgulhando e praticando a maledicência, devemos nos afastar da roda dos escarnecedores que existem em nosso meio.

Pare por um momento de pensar nos maledicentes que você conhece. Faça, isso sim, uma análise de si mesmo e de seu procedimento. Se você perceber que tem seguido o caminho da maledicência e decidir parar com isso, a teu respeito dirá a Palavra de Deus: “Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito” (Tg 3.2). E, se você decidir não se assentar mais na roda dos escarnecedores, a teu respeito diz a Palavra de Deus: “É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera” (Sl 1.3). Reflita e responda: como você prefere ser conhecido nos céus: como alguém perfeito, que dá fruto e cujas folhas não murcham… ou como alguém que pratica o mesmo que o Diabo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício