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A senhora que faz limpeza em minha casa é uma irmã em Cristo. Há alguns dias ela chegou para o trabalho, tocou a campainha e abri a porta. Ela não deu dois passos dentro de casa e disparou a falar sobre o pastor fulano de tal, que fora preso porque tinha estuprado não sei quantas mulheres, isso, aquilo e aquilo outro. “No trem vindo pra cá todo mundo só falava sobre esse assunto”, disse, tentando puxar papo e dar continuidade à polêmica comigo. Eu estava por fora da história e, por isso, fiquei escutando enquanto ela, empolgadíssima, praticamente mandava o tal pastor para o inferno, já julgado e condenado. Depois de relatar a arrepiante história com a empolgação de uma criança que ganhou um presente novo, ela ficou enfim em silêncio, enquanto aguardava que eu disparasse palavras de condenação ao tal pastor. Eu pensei um segundo e disse a ela: “Bem, vamos aguardar que se prove que de fato ele é culpado, não é? E, se for, vamos orar pela restauração da vida dele”. Pela cara dessa senhora percebi que era tudo o que ela não esperava ouvir. Porque é muito mais gostoso e empolgante acreditar que algum cristão cometeu um pecado cabeludo do que crer na sua inocência – afinal, saber que os outros pecaram faz com que nos sintamos melhor com nossa própria natureza pecaminosa, como se o pecado alheio tivesse a capacidade de diminuir o nosso. Pude perceber que ela ficou sem ação diante do que falei, pois esperava que eu – como todas as pessoas do trem – começasse a alimentar a polêmica, assumir a culpa do homem e relegá-lo para o sétimo círculo do inferno. Só que não é isso que a Bíblia ensina.

Na faculdade de Jornalismo, aprendemos uma regra básica da profissão: nunca ouça um lado só da história. Pois todo relato sempre terá mais de uma versão, mais de um ponto de vista, e os implicados sempre vão defender os seus interesses. Isso é algo tão evidente que, se assim não fosse, não haveria juízes para intermediar disputas, nem árbitros, para dizer se foi pênalti ou não: o atacante sempre vai afirmar que o zagueiro pôs a mão na bola dentro da área e o zagueiro sempre vai negar. Por isso, ninguém conhece uma moeda por inteiro sem ver suas duas faces. No entanto, muito frequentemente nós assumimos verdades sobre outros só porque “alguém disse”. O que, em linguagem bíblica, é exatamente o que significa “julgar o próximo”.

Existe a regra de ouro do trânsito que, se for aplicada a sua vida, vai ajudá-lo muito a não cometer o pecado do julgamento: “Na dúvida, não ultrapasse”. Em outras palavras, se alguém te diz algo negativo sobre um terceiro indivíduo que não está ali para se defender, não assuma imediatamente como uma verdade, mesmo que a pessoa que te passou a informação em questão seja alguém próximo de você, o seu melhor amigo ou alguém da sua família. Sempre desconfie.

Lembre-se que uma mera afirmação contada como uma grande verdade não quer dizer absolutamente nada: se eu digo que o céu é vermelho ele não será menos azul por causa disso. Mas nós, seres humanos,  somos como grandes papagaios, que propagamos maldosas inverdades, meias-verdades ou realidades distorcidas só porque alguém nos falou – e como o ser humano tem um prazer sádico e inerente de falar mal dos outros, repetimos a quem quiser ouvir sem ter sequer escutado o que os réus têm a dizer. E acreditamos em tudo! Tenho visto isso com uma frequência avassaladora entre nós, cristãos. Lembre-se das mulheres que foram a Salomão para ele decidir de qual das duas era o filho. Ambas juravam de pés juntos que eram a mãe. Salomão não acreditou, simplesmente tirou a prova dos nove e averiguou sabiamente os fatos em sua totalidade.

Uma passagem bíblica específica sobre o assunto é o julgamento de Jesus, relatado em Mateus 26. Não só porque mostra como é a coisa mais fácil do mundo levantar falsas testemunhas cheias de provas e afirmações contra alguém, mas, principalmente, porque mostra o exemplo do Mestre acerca de como reagir. Repare: “Ora, os principais sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum testemunho falso contra Jesus, a fim de o condenarem à morte. E não acharam, apesar de se terem apresentado muitas testemunhas falsas“. Veja que estamos falando de pessoas que na sociedade eram altamente conceituadas, eram sacerdotes e autoridades e que apresentaram muitas provas. Mas foi tudo articulado com um único objetivo: sujar o bom nome daquele homem.

Vamos adiante: “Mas, afinal, compareceram duas, afirmando: Este disse: Posso destruir o santuário de Deus e reedificá-lo em três dias. E, levantando-se o sumo sacerdote, perguntou a Jesus: Nada respondes ao que estes depõem contra ti? Jesus, porém, guardou silêncio“. De tudo, as antipalavras do Mestre são o que mais me maravilha. O homem que teve sua honra achincalhada e seu nome lançado na lama não berrou nem esperneou para se defender. Não apresentou provas ou testemunhas que o inocentassem. Mas “guardou silêncio”. Confirmando Isaías 53.7: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca“. Eis o padrão cristão.

Sei que é difícil, pois nossa natureza clama por justiça. Mas foi o que o manso Cordeiro fez. Em seu exemplo, ele demonstrou que o juízo de Deus é muito, muito, mas muito mais severo que o dos homens – e do que qualquer coisa que você possa fazer para revidar ataques ou maledicências contra você. Lembre-se de Hebreus 10.31: “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo“. E tem mais uma coisa: um cristão autêntico – aquele que errou no passado, se arrependeu de seus pecados, alcançou a misericórdia de Deus e se esforça por não errar mais – não condena pessoas, ainda que sejam culpadas. Pois sabe que elas são tão pó como ele. Porque o cristão que se arrependeu de fato de seus erros e sabe que o ser humano é passível de errar e ser reerguido por Cristo não devolve mal com mal. Ora e torce pela restauração do pecador. O cristão de verdade não quer prejudicar ninguém – pois sempre tem a esperança de que o outro chegue ao arrependimento e produza frutos para o Reino de Deus. O cristão de verdade não destrói: constrói. Pois quem veio para destruir você sabe quem é.

Em Romanos 12, Paulo nos ensina algo que quase nenhum cristão faz: “Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor“. Depois de mostrar o que espera aquele que receberá a vingança de Deus pelo mal que praticou contra o próximo, o apóstolo nos diz o que fazer: “Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem“. Mas isso só faz quem é cristão de verdade.

Essa é a atitude bíblica. Esse é o procedimento. É isso o que pelo menos devemos tentar fazer. Vejo pessoas famosas do “meio evangélico” indo para a TV e a Internet para, em vez de pregar o Evangelho, agredir, atacar, ofender. Os modelos que a Igreja tem hoje agem contrariamente aos ensinamentos de Jesus. Não siga esses exemplos, meu irmão, minha irmã. Há muitos frequentadores de igreja que desejam o mal ao próximo. Que estimulam o disse-me-disse sobre o último escândalo da moda. Sem meias palavras: isso é demoníaco. É assim, entre outras coisas, que se mede um verdadeiro servo de Deus: como ele zela pelo próximo, em especial os que erraram contra si. Então, se você de fato é trigo e não joio, preserve as pessoas e lute em aconselhamento e oração para que cheguem ao arrependimento e à salvação.

Minha sugestão sincera: não se junte à massa dos que tomam de Deus o papel de juiz. Se pastor fulano estuprou alguém, se o irmão da tua igreja cometeu esse e aquele pecado, se estoura a última polêmica gospel… a atitude mais bíblica que você tem a fazer é se calar. Não se assente na roda dos escarnecedores cristãos. Não alimente o disse-me-disse. Não ponha lenha na fogueira. Sei que o Diabo fica tentando pôr a lenha na sua mão, mas resista a ele. Deixe que a língua coce, garanto que depois passa. Tente guardar silêncio e agir com amor perdoador e sofredor, pois aí a justiça do alto funcionará em favor de todos: dos acusados e dos acusadores. Inclusive você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

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Ultimamente tenho meditado muito sobre o amor de Deus. Tenho lido sobre sua graça e sobre seu perdão, que são frutos de seu amor. Um amor tão mal-compreendido, tão humanizado em nossos louvores e concepções.  Algo tão acima da capacidade humana – de compreender, aceitar, reproduzir. A maior e, provavelmente, única forma que o ser humano tem para se aproximar do amor de Deus é vivenciando, experimentando, sendo alvo desse amor. E quando conseguimos, quando sua suave presença nos alcança, sentimos o seu perdão sobre nossa multidão de pecados e a concepção que temos sobre Cristo e sobre seu relacionamento conosco muda totalmente: entramos numa nova dimensão na nossa caminhada de fé. E nos tornamos, creio eu, cristãos melhores.

As duas passagens principais que falam sobre o amor de Deus são as conhecidíssimas João 3.16 e 1 Coríntios 13. Tenho aplicado nos últimos tempos em minha vida o método de leitura da Bíblia de meditar por vezes uma semana um único trecho, estudar sobre ele em fontes diversas, deixar-me “engravidar” daquela passagem e das lições e virtudes ali contidas. Fiz isso em João 3.16, pois esse versículo é repetido tantas vezes nas igrejas que sua magnitude se banaliza e chega a passar despercebida por nós. Leia com atenção e vamos até além, ao normalmente ignorado versículo 17:  “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele“. Que extraordinário. Que sublime. Que humilhante.

Deus amou a mim e a você de tal forma que por isso abriu mão de sua glória celestial, de estar assentado no trono sendo louvado dia e noite pelos anjos, para vir à terra, sentir frio, calor, dor, desprezo, acusações, solidão, a coroa de espinhos, o açoite, a Cruz. E qual foi a única razão que o levou a isso? Dar a seres pecadores, desprezíveis, falhos, desobedientes, egoístas e rancorosos a vida eterna. Ou seja: Deus amou a mim e a você tanto que abriu mão de castigar-nos com o fogo que nunca se apaga, como seria justo, para exercer a misericórdia, sacrificar-se e, assim, conceder-nos vida eterna: o direito de passar os bilhões de anos que virão pela frente junto a Ele. Em outras palavras, o amor de Deus fez tudo isso para que nós pudéssemos estar juntos por toda a eternidade, glorificando seu santo nome.

O Filho, ao encarnar-se, sabia que viria por quem não o merecia. Eu não mereço o amor do Senhor. Pois pequei e destituído estou da glória de Deus. Não, não mereço. Mas mesmo assim Ele olhou para este saco de ossos, pele, defeitos, doenças, podridão que eu sou e… me amou. Quem entende? Só entende quem compreende a graça. Esqueça as frases feitas que você responde de bate-pronto: “O que é graça?”. “Favor imerecido”. Ok, sabemos disso. Mas vamos tentar parar e refletir mais profundamente sobre esse conceito.

Graça é Jesus, o Santíssimo, o Puríssimo, o Cordeiro sem mancha… fazendo-se como alguém nada santo, nada puro, cheio de manchas, justamente para trazê-lo para si e dizer: “Apesar de tudo isso, se te arrependeres, ainda assim terás o meu perdão, esquecerei teus erros, desafiarei como teu advogado junto ao Pai que atirem a primeira pedra e estaremos juntos no Paraíso”. Chegam a vir lágrimas nos olhos só de pensar nisso. O conceito de graça desafia nossa inteligência, nosso senso de justiça, tudo o que é humano. Pois somos ególatras, vingativos, rancorosos, imperdoáveis. Somos impiedosos. Literalmente: sem piedade. Somos o contrário exato de Cristo. O pecado que carregamos dentro de nós nos desfigurou a esse ponto. É por isso que dependemos tanto da soberania do Senhor: porque somos tão opostos que sem Ele nada podemos fazer.

O versículo 16 por si só já é magnífico, por revelar o caráter do Cordeiro. Um caráter traduzido em domínio próprio. Mansidão. Fé. Bondade. Amabilidade. Paciência. Paz. Alegria. E… amor. E no versículo seguinte vem a coroação: “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele“. Isso me emociona. A humanidade é uma desgraça. Eu e você somos atoleiros de pecados. Somos o vômito do cão. Somos dignos do inferno. Quem discorda disso não entendeu o que o pecado fez com o gênero humano, como nos tornou totalmente depravados e como somos o avesso de Cristo. Merecíamos, todos nós, o veredicto: CULPADO. Não adianta, meu irmão, minha irmã, eu e você nascemos com esse veredicto escrito em nossas testas. Nossa sentença deveria ser a mesma do diabo: o lago de fogo e enxofre. Mas aí… entra em cena o amor de Deus.

E esse amor diz que Cristo não veio para dar esse veredicto. Que Ele não veio julgar. Não veio nos condenar. Jesus não veio à terra com prego e martelo nas mãos para nos executar – como merecemos – e nos crucificar. Ele veio com as mãos e os pés expostos em oferta para que eu e você fossemos salvos por ele. Meu Deus, que amor incompreensível! Nós não sabemos nem dar a outra face, nascemos com gosto de sangue e de rancor na boca, enquanto Ele estendeu seu amor, como se dissesse: “Não mate o culpado, mate a mim, o inocente, eu me dou no lugar dele. Eu o perdoo. Eu não o condeno. E, com isso, eu o salvo. E que creiam nisso, para que este meu gesto permita o que eu mais quero: estar a eternidade ao lado dele – desse grande pecador arrependido pela minha graça”.

Não tenho como descrever, definir ou explicar o amor de Deus. Sinto-o apenas em ação, no perdão que ele me estende. O que eu fiz para merecer isso? Absolutamente nada. Nem mesmo crer nele é mérito meu, visto que o arrependimento dos meus pecados é fruto da atividade daquele que convence do pecado, da justiça e do juízo. Deus me estende a graça. Deus me dá a fé. Deus me convence do pecado. Deus intercede por mim como advogado. Deus me regenera. Deus me justifica. Deus me põe de pé. Tudo vem de Deus. Tudo. A mim resta agradecer, louvar e adorar por esse amor. Do qual tenho absoluta certeza que não sou digno.

1 Coríntios 13 apenas corrobora tudo isso. Ao contrário do que muitos pensam, o amor ali descrito não é o humano, é o ágape, o amor de Deus. Usar 1 Coríntios 13 numa carta para sua namorada, por exemplo, é um erro de interpretação bíblica. Venha lendo desde o capítulo 12 e no contexto verá que está sendo falado sobre os dons de Deus. E esse capítulo descreve o amor de Deus. Nenhum, absolutamente nenhum humano ama ou é capaz de amar daquela maneira. Só Deus. Só Deus.

Que o Cordeiro seja glorificado por esse amor, traduzido na graça que nos permitirá passar a eternidade ao lado dele… amando. Como será a vida eterna após a morte para os salvos? Não sei com certeza. A Bíblia dá algumas pistas. Mas de uma coisa tenho certeza: os eleitos de Deus viverão pelos séculos dos séculos experimentando o amor mais inexplicável que existe e já existiu em todo o universo. Um amor que hoje tem forma de Cruz, mas na eternidade terá forma de um homem com mãos e pés furados e os braços abertos para os arrependidos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Todo mundo parece que quer reinventar o Evangelho. Se você não sabe, a palavra “evangelho” significa “boas-novas” – e o Evangelho de Cristo são as boas-novas da salvação. Ponto. O Verbo encarnou, morreu e ressuscitou para que tivéssemos salvação, ou seja, vida eterna. Ponto. O resto é só o resto. Por isso me impressiona a quantidade de cristãos que acham que o Senhor encarnou para resolver os problemas desta vida, da nossa sociedade, do mundo. O Evangelho não são as “boas-novas do saneamento básico”, as “boas-novas do enriquecimento financeiro”, as “boas-novas da influência sobre a política social” ou as “boas-novas da luta pelo fim da miséria”. Isso é Evangelho 2.0, uma nova versão daquilo que Jesus ensinou: seu Reino não é deste mundo. Ponto.

Um homem brasileiro vive, em média, 72,5 anos, enquanto na eternidade teremos vida – ou morte – eterna por 72 trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de anos. E isso não será 0,1% da eternidade. E você realmente acha que Deus está tão preocupado assim com nossos anos sobre a terra? Um-hum. Claro que Ele se preocupa, mas esta vida, que a Bíblia diz que é como “um sopro” e “uma neblina”, é uma ridícula e minúscula portinhola de entrada para o porvir eterno. Daí a influência marxista sobre o Evangelho ser um equívoco tão elementar: Jesus se ofereceu ao sacrifício não para que seus servos fossem ao Planalto, fizessem comitês, organizassem passeatas, lançassem manifestos sobre política partidária. O sacrifício vicário é um sublime exercício espiritual, um estímulo à vida devocional.

Quando Jesus morre na Cruz não é a porta do palácio de Herodes que se rompe para que seus seguidores possam exigir melhores condições de vida, nem a fechadura da residência de Pilatos que arrebenta para que os discípulos tenham como reivindicar um melhor padrão de vida para as massas carentes: é o véu do templo que se rasga, para que o homem pecador tenha acesso ao Santo dos Santos, ao Altíssimo, ao Sagrado, ao espiritual, ao Pai. Para praticar o religare com o Todo-Poderoso, o tão mal-falado bicho papão do momento: religião. Uuuuuu, que medo, teve gente que só de ouvir essa palavra se arrepiou todo.

É lógico que agora, furiosos, os adeptos dessa linha terrena de Evangelho 2.0 virão com todos os argumentos das classes oprimidas, que temos que ajudar o próximo, que amparar os órfãos e as viúvas em suas tribulações. Isso é óbvio! A consequência das boas-novas é o amor pelo próximo. Não sou filho de família rica: meus pais eram professores do estado e tinham cada um quatro ou cinco empregos para poder sustentar os filhos. Mas não é pelas minhas raízes proletárias que segurarei a foice e o martelo e farei do foco da morte e da ressurreição de Cristo uma luta política por uma vida melhor. Segurarei a Bíblia. Meu compromisso, como o de todo cristão, é com a Jerusalém Celestial, não com Brasília.

Os problemas desta vida nós, que vivemos numa pseudodemocracia, resolvemos no voto. Ou, pelo menos, deveríamos resolver, se soubéssemos votar. A fé é sobre outras coisas. Amar o próximo, sem dúvida, mas a Deus sobre todas as coisas. Como disse o Cordeiro, a Videira, “de que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”. Quem não entende que o Evangelho é sobre nossa comunhão eterna com Deus e não sobre nossa comunhão momentânea com os problemas desta vida não compreendeu que o Pai deu seu Filho unigênito para que os que nEle cressem não perecessem, mas tivessem…adivinha o quê? Bem, você conhece João 3.16.

Olho para os mártires dos 313 primeiros anos de Cristianismo e não consigo ver nenhum deles morrendo no Coliseu para que os pobres tivessem acesso a educação e saúde. Não me ache um insensível, acredite, choro pelos que choram e faço a minha ação social – e o que faço Deus sabe, não preciso alardear aqui. Mas não é por isso que vou ignorar o testemunho dos mártires da Igreja primitiva, que fizeram o bem ao próximo, mas que, como os casos citados em Hebreus 11, deram suas carnes alegremente aos leões e às torturas pelo entendimento de que a meta é o Céu – e não asfaltar um bairro. Blandina, Romano, Policarpo, Estêvão e tão grande nuvem de testemunhas deram-se ao martírio em nome da eternidade. Por entenderem que o Evangelho não é a respeito deste sopro de vida. Que adianta erradicar a miséria e irmos todos para o inferno? Jesus não é um super-herói que veio à terra para salvar mocinhas em becos escuros de batedores de carteiras.

O Evangelho 2.0 é um equívoco. Simplesmente porque põe uma das muitas consequências da Cruz como a causa. Ação social, caridade, cavar poços artesianos, construir creches e escolas, influir sobre as instâncias do poder público… não foi por nada disso que Jesus encarnou, morreu e ressuscitou. Isso é consequência e não causa. Jesus veio para tirar pecadores do inferno e não pobres das favelas. Isso é Evangelho.

Quando eu era mais jovem, com meus 17 anos, cheio de testosterona, filiado a organizações estudantis de esquerda e crente que ia mudar o mundo, acharia o Evangelho 2.0 o máximo. Fui a comícios nas eleições de 1989, fui orador na minha turma de formatura na escola ostentando um button do partido que eu apoiava, discutia com os padres do colégio São Bento, onde estudei como bolsista, porque eles eram uns “reacionários de direita”. Mas aí os anos se passaram, a esquerda assumiu o poder no país e tudo continuou igual, veio a minha conversão e fui discipulado por um bom sacerdote, que me mostrou que a grande revolução social ocorre mediante a pregação do Evangelho (o 1.0, o original). Refiz meus pensamentos. Mudei minhas premissas. E compreendi a razão de Jesus ter vindo à terra. Entendi o que é graça e a diferença entre causa e consequência da Encarnação do Verbo. Cheguei a ir a um Congresso Teológico sobre a vertente evangélica e da moda da Teologia da Libertação para entender melhor as ideias que importamos do Equador sobre o tema. Continuo acreditando em caridade, em ação social e em dar de comer a quem tem fome e beber a quem tem sede, em amar o próximo, em ajudar o necessitado. Mas não acredito que isso suplante a pregação das boas-novas de salvação e que isso seja a locomotiva. Não é, é o vagão.

Que os adeptos do marxismo cristão joguem pedras. Não tem importância. Antes importa agradar a Deus que aos homens. Não sou rico, não sou da elite, amo o próximo e quero o bem de pobres e ricos. Não vou aderir ao Evangelho 2.0, porque desejo proclamar as boas-novas de salvação para os miseráveis e também para os milionários. Olho para as favelas e para os condomínios de luxo e o que vejo são a mesma coisa: almas. Pior: almas pecadoras, destituídas da graça de Deus. Cobrirei quem tem frio com um cobertor, visitarei o preso, darei pão ao faminto e água a quem tem sede. Farei isso por amor e porque Jesus nos ensinou a fazê-lo. Mas investirei a maior parte de meu tempo e de minhas forças e esforços em proclamar o Evangelho. Em proclamar a Cruz. Em anunciar o Caminho estreito. Em cumprir o ide para fazer discípulos bons e fiéis que um dia, tenham passado fome ou não nesta vida, compartilhem comigo dos quadrilhões de séculos que dura a eternidade ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ponto final.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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