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Elogios são um perigo, uma ameaça real à saúde espiritual de qualquer um de nós. Porém, quando Deus usa uma pessoa para manifestar sua graça transformadora e curadora a outras, os elogios tornam-se inevitáveis, pois o ser humano é naturalmente inclinado a acreditar que existe um mérito qualquer em alguém que o Senhor usa para tocar seu coração. O resultado é que vemos constantemente um certo “carinho exagerado” das pessoas por outras, até mesmo no meio cristão. Surgem, assim, fãs de cantores gospel, admiradores de pregadores, defensores ferrenhos de teólogos, seguidores de escritores. Porém, como Deus ama as pessoas que usa e sabe que os elogios podem corromper o coração delas e torná-las arrogantes, vaidosas e egocêntricas, frequentemente permite que enfrentem situações difíceis.

O objetivo do Senhor com isso não é se deleitar no sofrimento de quem usa, mas estimular a humildade. É deixar quem ele usa sempre alerta ao fato de que é apenas um vaso de barro sem mérito, que carrega o tesouro divino em suas palavras; um cano enferrujado, por onde corre a água da vida. Meu irmão, minha irmã, Deus usa você de algum modo? Seja pregando, cantando, tocando, ensinando, aconselhando ou o que for? Então prepare-se: você será disciplinado por ele, a fim de preservar sua humildade. A questão é: como agir quando isso acontecer?

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Em uma situação de elogios, o maior perigo é você acreditar no que lhe dizem. No dia em que me dei conta da ameaça que são os elogios, com enorme potencial de envenenar nossa alma pecadora, passei a orar com frequência: “Pai, nunca me deixe esquecer de quem eu realmente sou. Que eu jamais tome como minha a excelência do teu Espírito”. E comecei a ver Deus atender essa oração – para minha felicidade e tristeza. Felicidade porque o Senhor me lembra com constância de que sou apenas um cano barrento e enferrujado por onde ele faz fluir para meus irmãos e irmãs a cristalina água da vida. E tristeza porque, em geral, ele me lembra disso por meios que doem muito. Isso acontece com você?

Deus permitiu o espinho na carne de Paulo para evitar que ele se tornasse arrogante (2Co 12.7). E ele continua fazendo o mesmo, em nossos dias, com aqueles que ama e decide usar para realizar seus propósitos. Canos enferrujados não matam a sede de ninguém. O que sacia o sedento é a água que passa pelo cano. E Deus não quer que nos esqueçamos dessa verdade fundamental da fé cristã. Por isso, temos de estar preparados para tomar uma chapuletada disciplinadora do Pai a cada elogio que recebemos a um texto, um livro, uma canção, uma pregação, uma aula, um trabalho bem feito. As pancadas vêm com todo amor do mundo, em uma disciplina fundamental e pela qual devemos ser gratos. Mas que dói, dói. E muito.

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Deus disciplina cada pessoa de um jeito personalizado. O que ele faz para me pôr diariamente em meu devido lugar não é o que ele faz a meu vizinho nem é o que fará a você. Nessas horas, temos de estar alertas e aceitar que as justiças ou injustiças que enfrentamos vêm mediante a permissão da soberana vontade de Deus. O que entristece você? O que o abate? O que faz você parar, baixar os olhos e pensar sobre a vida e seu papel nela? O que lhe lembra que você é barro, é pó, é cano enferrujado? Preste atenção, meu irmão, minha irmã, pois é exatamente isso que Deus permitirá que lhe suceda, a fim de que você traga constantemente à memória quem é e não seja vencido pelo próprio ego.

A grande questão é: o que fazer nessas horas?

O primordial é não murmurar e manter um coração constantemente grato. Você estará triste, sim, perderá o apetite, não entenderá nada, ficará confuso e passará por momentos melancólicos, mas nunca deixe que isso roube de seu coração a gratidão a Deus. Você é disciplinado? “Graças te dou, Senhor, por me lembrar do cisco que sou”. Pessoas apontam com justiça seus muitos erros e defeitos? “Graças te dou, Senhor, por nunca me deixar esquecer que sou somente um vaso de barro rachado, esfarelado e falível”. Pessoas o acusam injustamente de ser como você não é, de agir como não age e de ter intenções que não teve? “Graças te dou, Senhor, porque lhe aprouve me abater para que não me esqueça de que a excelência é tua e tão somente tua”.

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Meu irmão, minha irmã, quando a sofrida disciplina terapêutica vier, você precisa estar preparado para agir biblicamente, pois somente agindo segundo a vontade de Deus você atravessará os vales de maneira aprovada. E a sua atitude depende de o que você enfrentar ser justo ou injusto.

Se Deus permitir que você seja submetido a uma situação de disciplina justa, em decorrência de um mal que você de fato cometeu, ao receber o alerta quanto aos seus erros, apenas abaixe a cabeça e aceite a repreensão. É melhor ser corrigido em uma falta do que permanecer no erro. E, se você tem um coração em Deus, tenho certeza de que ser admoestado em seus pecados é algo que valoriza, pois permite que se arrependa e abandone o erro. Então, de forma prática, se você sofrer em decorrência de pecados que realmente cometeu, dê graças a Deus, confesse a ele os seus erros, os abandone em arrependimento sincero e mude de atitude. “Quem oculta seus pecados não prospera; quem os confessa e os abandona recebe misericórdia” (Pv 28.13).

Porém, se você for injustiçado em suas palavras, ações e intenções, deve tomar extremo cuidado com sua reação. Sofrer injustiças requer cuidado redobrado, pois, nessas horas, nossa tendência natural e humana é nos defendermos, bradando por justiça, restituição e, até mesmo, vingança. E aqui é que está o ponto. Pois Paulo nos diz que esse não é o caminho. Veja: “Abençoem aqueles que os perseguem. Não os amaldiçoem, mas orem para que Deus os abençoe. […] Nunca paguem o mal com o mal. Pensem sempre em fazer o que é melhor aos olhos de todos. No que depender de vocês, vivam em paz com todos. Amados, nunca se vinguem; deixem que a ira de Deus se encarregue disso, pois assim dizem as Escrituras: ‘A vingança cabe a mim, eu lhes darei o troco, diz o Senhor’. Pelo contrário: ‘Se seu inimigo estiver com fome, dê-lhe de comer; se estiver com sede, dê-lhe de beber. Ao fazer isso, amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele’. Não deixem que o mal os vença, mas vençam o mal praticando o bem” (Rm 12.14-21).

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O que isso significa na prática? Algo que você não vai gostar de ler: não revide. Não se defenda. Não fique gritando contra a injustiça feita contra você. Sim, eu sei como isso soa, pois maldades e injustiças fazem nossa alma gritar por esclarecimento e compensação. Mas, se tentamos fazer isso pela força do próprio braço, Deus não tomará a frente. Porém, se suportamos as humilhações com resignação, em silêncio e com gratidão a Deus pela disciplina que essa situação nos impõe, temos a certeza de que o Senhor conduzirá tudo a bom termo e de acordo com sua soberania e sua boa, agradável e perfeita vontade. Tudo o que ele quer é que você permaneça humilde.

Nessas horas, ore como orou o salmista: “O sofrimento foi bom para mim, pois me ensinou a dar atenção a teus decretos” (Sl 119.71). Seja grato. Seja fiel. Seja leal ao Senhor. Não murmure. A Bíblia é recheada de casos de pessoas que murmuraram ao serem submetidas ao sofrimento disciplinador e foram reprovadas por Deus. Jesus, por outro lado, nos deu o exemplo: como ovelha muda perante seus tosquiadores, ele não abriu a boca. E deixou o Pai conduzir tudo. Sigamos o exemplo do Mestre.

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Meu irmão, minha irmã, esteja sempre preparado, pois Deus te ama tanto que permitirá que seja lançado na sofrida fogueira da disciplina, de tempos e tempos, para, assim como Paulo, não se deixar vencer pela mentira da arrogância, da vaidade, do ego. Quando isso acontecer, seja agradecido e não murmure. Em tudo dê graças. Se a disciplina vier com justiça, arrependa-se e mude. Se ela vier com injustiça, silencie e aguarde no Senhor com resignação. Esse é o caminho bíblico.

Que Deus continue te usando, do modo que ele quiser, para cumprir seus divinos propósitos. E que ele siga te disciplinando, pelo amor que tem por você. Se passar pela poda do Senhor de maneira aprovada, com humildade e se comportando da forma correta, tenha a certeza de que o seu Pai de amor trará a paz. E que, em tudo o que você vier a fazer durante a sua provação, a Igreja seja edificada e o santo, maravilhoso, digníssimo e belo nome de Jesus Cristo seja glorificado.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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BNJC_arte para blog APENAS

castigo1A Supernanny do Brasil, a educadora argentina Cris Poli, é uma das autoras da editora em que trabalho, o que me permite o privilégio de editar os livros dela. Para um pai de uma menina de 3 anos, como eu, isso é ótimo, pois posso aprender muito sobre a criação de filhos enquanto trabalho. Confesso que, apesar da gritaria contra a Lei da Palmada, não sou adepto de bater em filhos, por isso adotei com minha bebê a técnica do Cantinho da Disciplina, defendida pela Cris, que nada mais é do que uma forma elaborada do bom e tradicional castigo: se há uma desobediência e a filhota não obedece depois da primeira advertência, tem de ficar três minutos sentadinha numa cadeira de minha casa, pensando sobre o que fez (é um minuto para cada ano de vida da criança). Ao final, a pequena precisa pedir desculpas e o pai termina a disciplina dando muitos beijinhos e abraços, com afirmações de “eu te amo”. Dá muito certo, recomendo. Houve um episódio recente que me fez ir além do que está na cartilha, para ensinar à pequena mais do que apenas obedecer.

Sempre que tenho oportunidade, procuro ensinar a ela valores cristãos, naturalmente utilizando recursos e linguajar adequados à sua idade. Concordo com um pastor conhecido, que diz que costumamos em nossas igrejas valorizar muito o ensino de histórias da Bíblia para as crianças, em detrimento da ética bíblica. Eu procuro, sim, contar as historinhas de Sansão, Ester, Jonas, Daniel e Jesus, mas também me esforço para transmitir as verdades sagradas fundamentais. Afinal, as Escrituras dizem o que devemos fazer: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Pv 22.6). Repare que o texto bíblico não diz que devemos ensinar histórias, mas apontar princípios. Então é o que tento fazer, sempre que surge oportunidade.

graça1Recentemente minha filha teve um dia complicado. Dormiu pouco, estava com sono e muito ranzinza. Por isso, acabou me desobedecendo e, por sua insistência em não fazer a coisa certa, decidi que deveria pô-la no Cantinho da Disciplina. Naquele dia, ela estava especialmente cabeça dura e se recusou a ficar sentada no lugar designado, pensando. Era eu colocá-la na cadeira e ela descia, se negando a ficar no local. Cumpri toda a cartilha da Cris: reconduzi minha filha à tal cadeira algumas vezes, com paciência e sem perder o autocontrole, mas a pequena sempre voltava a sair. Foi quando tive uma ideia e resolvi subverter a estratégia, aproveitando para ir além da pedagogia, a fim de ensinar princípios cristãos fundamentais.

– Filha, esta é a última vez que eu falo: você não vai ficar no castigo?

– Não – deu o ultimato, desafiadora.

Então eu respondi:

– Então quem vai ficar no seu lugar sou eu.

Sob o olhar espantado dela, caminhei até a cadeira do castigo e me sentei. Expliquei:

– Você desobedeceu e deveria ficar em disciplina. Bem, alguém precisa ficar de castigo por causa da sua desobediência. Então eu vou ficar. E como tenho 42 anos, vou ficar 42 minutos.

Sentei e me calei.

O efeito foi imediato e surpreendente. Ela ficou me olhando, estática, sem dizer uma palavra, por um longo tempo. Como viu que eu não estava brincando, percebi que ficou muito confusa com minha atitude. Como assim, o papai ficar no castigo em meu lugar?, eu lia claramente nos seus olhos. Mas foi o que aconteceu. Como avisei que faria, ali permaneci. Ela caminhou devagarinho para fora do quarto. Não deu um minuto e ela tinha voltado, se arrastando junto à parede. Chegou à porta e ficou espiando de canto de olho. Sumiu. Voltou de novo. Eu estava ali havia alguns minutos quando ela veio, apoiou as mãos na minha perna e falou, bem baixinho:

– Pa-paaaai?

– Sim, minha filha?

– Você vai ficar aí?

– Vou, filhinha.

– Por quê?

– Porque você desobedeceu e alguém tinha de ficar de castigo por isso. Então eu decidi que vou ficar no seu lugar.

Ela piscou algumas vezes, em silêncio, e percebi que tudo aquilo parecia muito estranho. Não fazia sentido. Notei quão reflexiva ela ficou ao ver minha atitude. A pequena saiu devagarinho do quarto, de novo. Passou um tempinho e ela retornou.

– Papai, já pode sair? Quer vir brincar comigo?

Eu respondi:

– Filhinha, eu até queria sair, mas não posso. Tenho de cumprir o castigo no seu lugar até o fim. Se eu sair antes dos 42 minutos não vou ter feito a minha parte e a disciplina não terá efeito.

Ela pensou um pouco, tentando entender a lógica de tudo aquilo. Quando, finalmente, parece que captou a razão de eu estar ali em seu lugar, ela se aproximou, deitou a cabeça no meu colo e ficou fazendo carinho nos pelos da minha perna. Ficamos ali, em silêncio, por mais de dez minutos. Ela, então, novamente se virou para mim e perguntou:

– Já acabou, papai?

Olhei para o relógio e respondi:

– Não, bebê, estou só na metade do tempo do castigo.

Ela voltou a se aninhar no meu colo, desta vez se encolhendo toda. E ali ficou. Quando me dei conta, estávamos abraçados, esperando, juntos, o tempo passar. De vez em quando ela me olhava, como se quisesse dizer “Já acabou?”, e eu apenas sorria, demonstrando que ainda faltava tempo. Até que os 42 minutos chegaram ao fim.

– Pronto, filhinha, papai já pode sair do seu castigo.

Ela abriu um largo sorriso. Abraçou-me e me beijou e, para minha surpresa, disse o que eu costumo dizer a ela ao final de um momento de disciplina:

– Eu te amo, papai.

Em seguida, imediatamente se empertigou e me puxou pela mão.

– Vem, papai, vem ler um livro pra mim!

E lá fomos nós, para uma tarde bastante agradável de intimidade entre pai e filha. Passadas umas duas horas do fim da disciplina, em um momento em que ela estava menos agitada, aproveitei e lhe perguntei:

– Filha, você sabe o nome daquilo que o papai fez, quando ficou no castigo em seu lugar?

Ela olhou, em silêncio, à espera da resposta.

– Aquilo se chama “graça”. Significa que eu fiz por você o que eu não precisava fazer e que você não merecia, mas por amor eu decidi pagar o preço da sua desobediência. Sabe quem também fez isso? Jesus.

E comecei a explicar, num linguajar adequado para sua idade, o que Jesus fez na cruz pela humanidade transgressora. Eu já havia falado sobre a cruz antes, mas acredito que, dessa vez, o relato do sacrifício do Senhor teve uma compreensão muito mais aprofundada.

Eu e minha esposa temos o hábito de, sempre que a pequena come o alimento todo nas refeições, celebrar com festinha e cantando uma musiquinha que inventamos com o nome dela. Se ela come tudo, cantamos; se não come, não tem música. No dia seguinte a eu ter sofrido o castigo no lugar dela, na hora do almoço minha filha não comeu tudo o que estava no prato. Ela pediu para cantarmos a musiquinha, mas eu respondi que não, porque ainda tinha ficado papá. Foi quando ela fez uma carinha fofa e sincera e disse:

– Papai, e por graça? Por graça vocês cantam?

graca0Eu sorri. Olhei para minha esposa e cantamos a música. Percebi que minha filha, hoje, compreende melhor o conceito principal da nossa fé: a graça de Deus. Ela sabe que Jesus é mais do que um desenho em uma Bíblia infantil ou um nome que a gente fala ao final da oração, antes de comer. Ela agora percebe que Jesus é alguém que fez de fato algo concreto por ela, num gesto de amor em que ele pagou o preço por algo de ruim que ela fez. E que nós recebemos as bênçãos do alto não necessariamente por retribuição a algo de bom que façamos, mas porque o coração de Deus é cheio dessa coisa chamada graça, que o levou a sofrer o castigo que ele não merecia, por compaixão por cada um de nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari