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arrogancia 1Ando pensando muito sobre nossa arrogância teológica. Se você não está familiarizado com essa expressão, permita-me tentar defini-la. “Arrogância teológica” é aquele sentimento que se manifesta em nós quando nos consideramos os donos da verdade em relação a nossas crenças espirituais e doutrinárias e, por isso, nos colocamos em uma posição de suposta superioridade em relação aos reles e pobre mortais que discordam da nossa forma de ver a fé. Esse problema sempre existiu, mas, com o surgimento das redes sociais, o fenômeno tem se manifestado de forma nunca antes vista e ganhado uma enorme visibilidade. O que, diga-se de passagem, é uma lástima.

Tenho visto a arrogância teológica crescer e se multiplicar. Na Internet, atualmente uma das formas mais frequentes que a vejo é na guerra (e uso o termo “guerra” conscientemente) que tem se travado entre calvinistas e arminianos, isto é, a grosso modo, entre quem crê na eleição divina para salvação e quem crê no livre-arbítrio. É uma guerra feia, pois reproduz, milênios depois, a abominação que houve entre Caim e Abel: lança irmão contra irmão, suscita ódio entre filhos do mesmo Pai e gera debates pueris onde deveria haver amor e união. Não consigo vislumbrar nada mais inútil e feio na fé cristã do que irmãos em Cristo usando sarcasmo, ironia, ódio e ofensas para tratar outras pessoas por quem Cristo igualmente deu a vida. Vejo os “reformados” (calvinistas) defenderem a predestinação e o TULIP como se isso fosse fazer evangelismo. Não é, nem de longe. E vejo arminianos reagindo com ataques de igual monta contra os calvinistas, como se fossem hereges. E não são, nem de longe.

calvinismoEsses ataques e essas picuinhas vão levar a Igreja de Cristo sabe aonde? A lugar algum. Somente a embates cheios de carnalidade e a uma “guerra civil” protestante, para deleite das forças espirituais da maldade. Entrar em debates, acusações, birras de Facebook ou o que for para ficar defendendo calvinismo ou arminianismo mediante ataques ao outro lado vai simplesmente provocar o que levou a rixa entre José e seus irmãos ou Jacó e Esaú: dissensões e facções – que, aliás, são obras da carne, como denunciado por Paulo em Gálatas 5.19-21. Quanta perda de tempo e energia…

Muitos me perguntam se sou calvinista ou arminiano. Minha resposta é: que importa? Que diferença faz? Não quero pregar predestinação ou livre-arbítrio, quero pregar amor, graça, perdão, pacificação, generosidade, amabilidade, bondade, mansidão, caridade, paz; pois essas são colunas do evangelho, comuns a todos os sistemas doutrinários protestantes, ortodoxos ou católicos. Como já disse alguém, durmo com a tranquilidade de um calvinistas e prego com a ênfase de um arminiano. Mas procuro fazer isso unindo e não segregando, tratando quem discorda de mim com afeto e carinho, e não com desdém e palavras ácidas, como tanto tem ocorrido por aí. Simplesmente porque quem age assim não está agindo como cristão.

Duvido que Cristo aprove que se defenda sua soberania com ódio, ofensas ou ironias entre irmãos. Não há nada errado em se defender o que se crê (eu mesmo estou fazendo isso aqui), mas, se o fazemos com soberba e altivez, nos tornamos abomináveis. “O temor do SENHOR consiste em aborrecer o mal; a soberba, a arrogância, o mau caminho e a boca perversa, eu os aborreço” (Pv 8.13).

Arrogante-1Outro aspecto da arrogância teológica está em desprezar aquele que o arrogante considera menos “acadêmico”, “culto” ou “profundo” do que ele próprio. A soberba leva o cristão que se encaixa nessa definição a desprezar pregações, palestras, textos e livros que não citem montes de pensadores e referências bibliográficas, que não usem os termos rebuscados da teologia, que não suscitem “debates intelectuais”. Algum tempo atrás fiquei muito chateado, pois vi uma pessoa criticar o escritor Max Lucado, desdenhando-o como um autor “raso”, “superficial”. Sou apaixonado por teologia, já cursei dois seminários teológicos, gosto e tenho frequentemente debates profundos e rebuscados sobre as coisas de Deus. Mas não é por isso que me ensoberbecerei em meus conhecimentos e desprezarei um autor cristão que contribui para levar consolo, paz, esperança e palavras de fortalecimento e fé a milhões de pessoas pelo mundo. Isso seria leviano. E diabólico.

Falo com conhecimento de causa. Quando eu era um arrogante teológico (sim, já fui isso) eu desprezava autores como Lucado e outros da mesma linha, que não se atêm a rebuscamentos da teologia, mas se dedicam a escrever de forma simples, aplicando conhecimentos teológicos à vivência do cristão. Mas, quando tive de atravessar o vale da sombra da morte, não encontrei a paz em teologias sistemáticas ou comentários bíblicos: encontrei alívio e refrigério (bíblicos, ressalte-se) em livros como os de Max Lucado, que me apontaram o amor de Jesus na prática. Esse irmão em Cristo (que tem crenças soteriológicas diferentes das minhas, permita-me ressaltar) foi quem me deu palavras de renovo, ânimo, conforto e esperança. Palavras como Cristo nos dá. E, enquanto os arrogantes teológicos o desprezavam e faziam piadinhas de sua “literatura rasa”, ele me ajudava a ficar de pé e a continuar a caminhar. Obrigado, Lucado, por isso.

boys-walking-on-raod-bw“Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé. Assim como o vinho é enganoso, tampouco permanece o arrogante, cuja gananciosa boca se escancara como o sepulcro e é como a morte, que não se farta; ele ajunta para si todas as nações e congrega todos os povos” (Hc 2.4-5). Nosso meio está cheio de pessoas que se enquadram nessa descrição, lamentavelmente. Eu fui muito abençoado em conferências teológicas que tratam de assuntos das rodas acadêmicas e da “intelligentsia” cristã. Washer, Piper, Sproul, DeYoung, Beeke e outros me edificaram, e muito, e jamais os desprezarei. O conhecimento deles e de outros excelentes pensadores soma, abençoa, constrói, edifica e devemos indispensavelmente ouvi-los. Que fique muito claro: não estou de modo algum dizendo que devemos descartar ou desprezar as profundidades da teologia, fazer isso seria cometer o mesmo erro (e um erro crasso), mas pelo lado oposto. O problema não é de jeito nenhum a teologia, sem a qual a fé cristã não subsiste. O problema é quando a teologia academicista despreza a sua aplicação prática coloquial e simples, quando a teologia diminui o chorar com quem chora, quando a teologia não quer sujar o pé no barro e despreza aqueles que o fazem. Teologia que não sai das salas de aula, das mesas de restaurante, dos vlogs e podcasts e dos auditórios de debate é mero correr atrás do vento para alimentar egos.

max lucadoEu gostaria muito que os grandes ministérios e as igrejas que organizam as principais  conferências teológicas no Brasil mudassem um pouco o foco. Que não tratassem de temas, muitas vezes, secundários e, até, improdutivos, e direcionassem suas atenções para os pontos nevrálgicos da fé cristã. Eu adoraria ir a uma conferência teológica cujo tema fosse o perdão, por exemplo (assunto essencial mas tão pouco tratado na Igreja de nossos dias), e que tivesse como preletor o Max Lucado. Ao ler isso, os arrogantes teológicos logo torceriam o nariz. Mas o que de diferente se esperaria de arrogantes teológicos?

Meu irmão, minha irmã, sempre que for tentado a cometer o pecado da arrogância teológica, lembre-se de que ela é tão arrogância como qualquer outro tipo de arrogância. E o que a Bíblia tem a dizer aos arrogantes é: “Abominável é ao SENHOR todo arrogante de coração; é evidente que não ficará impune” (Pv 16.5).

cruzFica minha proposta: se você é um líder, alguém responsável por organizar congressos, conferências ou outros tipos de fóruns de debate entre cristãos, não se deixe picar pela mosca azul da arrogância teológica. Não queira ser chique. Pense o seguinte: sobre que temas Jesus chamaria seus discípulos para debater numa conferência ou num congresso? Consegue fazer esse exercício de imaginação? Bem, na verdade, nem é preciso imaginar. Leia Mateus 5 a 7, o conhecido Sermão do Monte, essa belíssima conferência teológica que Jesus organizou e na qual palestrou com a simplicidade de um Max Lucado. Ali ele tratou de temas basilares, indispensáveis e urgentes do cristianismo, como humildade de coração, consolo, mansidão, misericórdia, pureza de coração, pacificação, confiança nos cuidados de Deus, santidade, a importância da reconciliação com os irmãos e outros temas centrais, fundamentais e prioritários da fé cristã. E, se Jesus priorizou tais temas, não deveríamos nós imitá-lo? O que está nos impedindo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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Arrogancia3A arrogância é uma doença espiritual maligna e silenciosa. Um dos efeitos dessa moléstia é que, em geral, o arrogante se acha a pessoa mais humilde do mundo – ele não se vê como verdadeiramente é. Constantemente aponta os erros dos outros mas não consegue perceber como a sua essência está contaminada – e, se consegue, tem a arrogância de dizer que não é arrogante. Lá vai bem longe o tempo de servos como Francisco de Assis, João da Cruz, Thomas-à-Kempis e outros homens de Deus verdadeiramente humildes. Hoje está totalmente disseminado  o conceito antibíblico de que é possível ser arrogante e ser um bom cristão. Não é. É absolutamente impossível ser um homem segundo o coração de Deus e ser arrogante ao mesmo tempo. São características que não cabem no mesmo indivíduo.

Arrogância é sinônimo de orgulho, altivez, soberba, prepotência. Mostre-me um arrogante e lhe mostrarei um homem sem Deus. Esse é um pecado tão grave que o salmista diz ao Senhor em Salmos 5.5: “Os arrogantes não permanecerão à tua vista”. Em 2 Timóteo 3.1-2, o apóstolo Paulo fala sobre o perfil dos homens nos últimos tempos: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes…”. Sim, o olhar altivo do arrogante é um dos defeitos que Deus mais detesta, como Salomão deixa claro em Provérbios 6.16-19.

Arrogancia2É fácil diagnosticar alguém que sofre de arrogância. Comece procurando uma pessoa que se acha especial. Diferente. O escolhido. O “cristão” altivo tem essa pretensão, achar que tem em si algo tão singular que Deus o separou do resto da humanidade. Pois os verdadeiramente separados pelo Senhor para realizar grandes feitos simplesmente os executam, não ficam fazendo alarde disso, e se mantêm com uma extraordinária postura de humildade (é só ver o caso do rei Davi). De certo modo, há em todo arrogante um pouco de nazista: ele se acha praticamente membro de uma linhagem superior, um ariano, eleito pelos céus para mostrar à humanidade errada que ele é quem está certo.

Essa é outra característica sempre e sempre presente no arrogante: ele se acha o dono da verdade. Se alguém discorda dele é porque é ignorante, atrasado, desinformado, rebelde, não foi tão iluminado por Deus, não entendeu as realidades do alto ou qualquer coisa do gênero. Isso acontece porque a arrogância cega. Ela não deixa o arrogante se ver como tal. Assim, qualquer verdade fora da sua verdade é inverdade. E ele trata quem dele discorda como culpado de uma suposta ignorância proposital. Discordar do arrogante é visto por ele praticamente como uma ofensa. Até porque, no seu entendimento, as outras pessoas existem em função dele.

Arrogancia1Lamentavelmente, o “cristão” arrogante em geral ganha discípulos. No caso do arrogante carismático, arrebanhará multidões, que se tornarão seus seguidores cegos – fãs tão fanáticos que não suportam ouvir uma crítica a seus ídolos. Hitler foi assim. Temos os nossos hitlers hoje em dia, líderes orgulhosos e altivos, que se tornam deidades das massas. Seu carisma atrai os incautos para a armadilha e a arrogância enterra seus seguidores, ao ser tomada como modelo e padrão aceitável. Em vez de uma triste doença, a soberba dos tais é vista e exaltada como uma qualidade, um sinal de força e posicionamento. Aos olhos de muitos, até como unção. Só que não passa da mais maligna e destrutiva soberba: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Pv 16.18). E há, por outro lado, os arrogantes sem carisma, que se impõem em geral por seus cargos, fazem poucos discípulos sinceros – os que nele de fato creem acabam reproduzindo a mesma arrogância. Seja o arrogante carismático ou não, tornar-se um discípulo dele é altamente prejudicial: “Bem-aventurado o homem que põe no Senhor a sua confiança e não pende para os arrogantes” (Sl 40.4).

O arrogante geralmente se prende a títulos e cargos para legitimar-se. Esteja ele em que grau da hierarquia estiver. “Sabe com quem está falando? Eu sou o diácono aqui”, empavona-se. Não se contenta em ser quem é, precisa do reconhecimento e do garbo. Sem adjetivos a sua arrogância sente-se ofendida. É por isso que nascem entre nós tantos “patriarcas”, “apóstolos”, “ungidos do Senhor”, “doutores em divindade”, “profetas de Deus”. “vice-deus” ou o que for – o arrogante em geral se esforça mais por obter títulos do que empreender realizações. Enquanto o mais importante e preeminente dos humildes contenta-se em ser chamado de “Zé”, se for o caso, o arrogante exige para si títulos acessórios, que ficarão pendurados em seu nome como penduricalhos na farda de um velho general.

Arrogancia4Mas, por mais que receba o louvor alheio, o arrogante não se contenta com isso – precisa de mais. Pois realmente acredita que merece mais – afinal, ele é um escolhido de Deus. Daí surgem os impérios eclesiásticos, as empresas evangélicas de um homem só, as capitanias hereditárias gospel, as catedrais mundiais de qualquer coisa. E, para pôr tais empreendimentos de pé, o arrogante se coloca acima do bem e do mal: faz associações em jugo desigual para ter mais poder, dá propinas para ver avançar seus sonhos pessoais, cria falsas campanhas espirituais como forma de arrecadar dinheiro… enfim, faz o que for preciso para que seus projetos avancem – e sempre tem uma boa desculpa para justificar-se de que aquilo não é pecado. Peca porque, afinal, está fazendo para o Reino. Só que, na verdade, está fazendo para si mesmo.

Não há arrogantes admiráveis – pense nos homens de Deus que você admira e, se enxerga neles altivez e prepotência, sugiro que deixe de admirá-los – pois não são tão homens de Deus assim. Só continua a admirar arrogantes, após se dar conta de que são arrogantes, quem admira a arrogância. E não se pode admirar a arrogância e Jesus ao mesmo tempo.

Arrogancia5A arrogância foi o pecado que fez aquele que ficava ao lado do Senhor no Céu tornar-se Satanás. Não bastava ele ser querubim da guarda ungido, permanecer no monte santo de Deus, andar no brilho das pedras. É interessante reparar o caminho de corrupção que ele percorre, de anjo a demônio. No início, “perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado”, só que, aos poucos, “se achou iniquidade” nele. O que me entristece é que, se o destino dos homens arrogantes for o mesmo do querubim arrogante, o que eles ouvirão ao final de suas vidas é: “te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer […] em meio ao brilho das pedras. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem” (Ez 28).

É uma certeza quase matemática, que não tem como dar errado. Como registra Isaías 2.17, “A arrogância do homem será abatida, e a sua altivez será humilhada”. Fico triste, realmente triste por causa dos arrogantes. Pois, em geral, foram bons cristãos no início, mas, com o passar do tempo, começaram de fato a acreditar que são mais do que os demais. Assim como Lúcifer era perfeito, mas deixou seu coração enganá-lo, o mesmo processo ocorre com todo arrogante. Seu fim, lamento crer, não será diferente. Se não for abatido nesta vida, será na próxima.

Arrogancia6Entre os salvos de Deus não há arrogantes, há os mansos e humildes de coração. Se um arrogante é alcançado pela graça da cruz ele deixa de ser arrogante. Seus olhos perdem a altivez. Suas palavras abandonam o egocentrismo. Sua alma despreza os títulos e adjetivos. Seus projetos de projeção pessoal são postos de lado. Seu conforto passa a importar menos do que a obra de Deus. Suas ações passam a devotar-se ao ferido, ao doente e ao sofredor. A arrogância morre e em seu lugar brota o amor. Pois onde há amor não pode haver arrogância.

O arrogante prioriza a si se aos seus. O humilde prioriza o próximo. Simples e bíblico.

Termino aqui, com uma explicação. Não dediquei tantas linhas aos arrogantes para acusá-los. Mas, primeiro, para compartilhar meu entendimento bíblico de que não existem cristãos arrogantes, é um conceito impossível à luz das Escrituras: se é de fato cristão não pode ser arrogante, se é arrogante não é cristão. Segundo, para que você veja se tem seguido ou mesmo sido alguém altivo e soberbo. E, por fim, para que oremos pelos arrogantes. Devemos amar os tais e pedir que o Senhor os cure dessa doença tão maligna – para que vivam e parem de contagiar ou ferir os que estão ao seu redor. Oremos em especial para que venham a conhecer Cristo e tirem a si mesmos do altar. Não devemos desejar o mal dos arrogantes nem combater a arrogância com ataques, mas com oração e amor. Pois, se atacarmos os arrogantes com ferocidade e nossas próprias verdades, estaremos sendo tão arrogantes como eles.

Propor isso é muito arrogante de minha parte?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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