Arquivo da categoria ‘Pregação’

estudo biblico 2

Quando nos convertemos, passamos a ouvir quase que como um mantra que “o cristão tem de orar e ler a Bíblia”. Isso é pregado em púlpito, ensinado em escola dominical, estimulado nos pequenos grupos, incentivado nas conversas pessoais. Hoje, tendo caminhado alguns anos no evangelho, preciso dizer que discordo dessa ideia. Se por muito tempo acreditei que “precisamos orar e ler a Bíblia”… hoje não acredito mais. E explico a razão: apenas ler as Escrituras não basta. Por isso, entendo que o correto, aquilo que deveríamos pregar, ensinar e incentivar é que “o cristão tem de orar e estudar a Bíblia”. E por quê? Porque ler sem compreender é a mesma coisa que não ler. Pior: pode gerar compreensões erradas do texto sagrado, que levam ao surgimento de heresias e falsas doutrinas. Portanto, proponho que, a partir de agora, comecemos a ensinar que não basta ler, é preciso estudar a Bíblia.

A Bíblia é um livro que foi escrito em épocas passadas, em contextos específicos. Para que você compreenda uma passagem da Escritura, tem de saber quem falou aquilo, para quem, com que finalidade, em que situação. Vou citar alguns exemplos, para que você entenda o que quero dizer.

ARCA_NOEPrimeiro, precisamos estudar a Bíblia para que nosso conhecimento mínimo seja correto. Para que saibamos informações do relato bíblico sem erros. Vou te fazer uma pergunta muito básica, bastante elementar, para que você comece a entender o que quero dizer. Se eu te perguntar, por exemplo, quantos casais de cada espécie de animal entraram na arca de Noé, o que você responderia? Tenho quase absoluta certeza que você dirá “um casal de cada espécie de animal”, estou certo? Um casal de leões, um casal de jacarés, um casal de ornitorrincos e assim por diante. Ninguém tem dúvidas quanto a essa informação, uma criancinha sabe dizer isso, concorda? Pois bem, se você respondeu “um casal de cada espécie”… errou. O que mostra que você formou seu conhecimento sobre esse assunto a partir de informações e ensinos errados e, até, por influência da cultura popular. Quer saber quantos casais de cada espécie de animal entraram na arca de Noé? “Então o SENHOR disse a Noé: ‘Entre na arca, você e toda a sua família, porque você é o único justo que encontrei nesta geração. Leve com você sete casais de cada espécie de animal puro, macho e fêmea, e um casal de cada espécie de animal impuro, macho e fêmea, e leve também sete casais de aves de cada espécie, macho e fêmea, a fim de preservá-las em toda a terra'” (Gn 7.1-3). Sete casais. Não um casal. Uma informação básica que você errou a vida inteira, estou certo? É preciso estudar a Bíblia.

Outra questão de conhecimento bíblico: o que significa e em que versículo da Bíblia está a tão conhecida palavra shekiná? O significado é fácil: glória de Deus, não é? Mas onde ela se encontra nas Escrituras? Difícil? Vou simplificar: em que livro da Bíblia ela está? Ainda não sabe? Serei bem legal com você: está no Antigo ou no Novo Testamento? Continua sem saber? Bem… na verdade, a palavra shekiná, tão usada em pregações, que dá nome a corais de igrejas e até a ministérios, simplesmente não significa “glória de Deus”. Muito menos está na Bíblia. Espantado? Pois o significado real de shekiná é “habitar”, “fazer morada”. A palavra hebraica para “glória” é kavod, que se refere ao peso da glória de Deus. Bem, se é assim, de onde, afinal, surgiu o vocábulo shekiná? Desculpe informar, mas não da Bíblia. Veio da literatura mística rabínica, onde os judeus adeptos da Cabala começaram a usá-la a partir do século 13. Ou seja, o termo shekiná é fruto do misticismo judaico. É preciso estudar a Bíblia.

pater goneusVamos a outro exemplo, desta vez, um pouco mais complexo, por exigir conhecimento exegético, ou seja, estudo das línguas originais em que a Bíblia foi escrita. Paulo deu a seguinte determinação: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como convém a quem está no Senhor. Maridos, ame cada um a sua mulher e não a trate com amargura. Filhos, obedeçam a seus pais em tudo, pois isso agrada ao Senhor. Pais, não irritem seus filhos, para que eles não desanimem” (Cl 3.18-21). Observe as duas ocorrências da palavra “pais”. Tenho certeza absoluta de que você entende que a determinação aqui é que os filhos devem obedecer pai+mãe em tudo e que pai+mãe não devem irritar seus filhos. Acertei? Pois bem, se é essa a sua compreensão… errou. Não é isso o que diz o texto original. A palavra “pais” no versículo 20 é uma tradução do vocábulo grego goneus, que significa pai e mãe. Até aí, tudo bem. Mas, no versículo 21, a palavra “pais” no original é outra totalmente diferente, pater, que se refere somente aos homens que são pais. Essa percepção muda completamente o entendimento do texto. É preciso estudar a Bíblia.

carcereiro de filiposUm último exemplo, dessa vez relacionado à hermenêutica, isto é, às regras de compreensão da Bíblia (se quiser se aprofundar nesse assunto, recomendo o livro “Entendes o que lês?”, da editora Vida Nova). Você já deve ter ouvido muitas vezes pregadores dizerem que, se crermos no Senhor Jesus, nós e nossa casa seremos salvo. Isso é ensinado como uma promessa da Bíblia a todo aquele que crê, algo como uma “salvação hereditária”, na linha de “se você crer, consequentemente toda a sua família crerá também”. Só que isso está errado. Essa promessa simplesmente não existe. Atos dos Apóstolos 16 relato o episódio em que Paulo e Silas são lançados na prisão na cidade de Filipos. De repente há um terremoto, as portas do cárcere se abrem e o carcereiro, crendo que os presos haviam fugido, se prepara para cometer suicídio. Paulo o impede e, após ser questionado acerca de como poderia ser salvo, diz àquele homem: “Creia no Senhor Jesus, e serão salvos, você e os de sua casa”. A questão é que essa foi uma afirmação de Paulo exclusivamente para aquele homem. Foi algo dito de forma pessoal, única, para um indivíduo. De modo algum a Bíblia nos autoriza a acreditar que essa frase é universal, ou seja, uma promessa que se aplica a todas as pessoas, de todas as épocas e lugares. Tanto é assim que há milhões de parentes de cristãos que morrem sem terem crido em Cristo. É preciso estudar a Bíblia.

Teríamos como prosseguir com muitos exemplos. Eu poderia abordar o fato de que não existe na Bíblia a afirmação “Deus lança nossos pecados no mar do esquecimento”, tampouco “não cai uma folha da árvore se Deus não deixar” e montes de outras crenças populares de cristãos que não têm base bíblica alguma – são apenas fruto de falta de estudo das Escrituras. O resumo de tudo isso é: precisamos estudar a Bíblia, não apenas ler. Se queremos de fato conhecer Deus conforme revelado no texto sagrado, não podemos nos conformar com pouco. Leia bons livros cristãos, meu irmão, minha irmã, escritos por pessoas que se aprofundam no conhecimento da Palavra se Deus. Faça cursos sérios. Debata com quem conhece a Bíblia. Não se contente com pouco.

O fim do sofrimento_Capa 3DNas pesquisas que faço para escrever meus livros descubro informações impressionantes, que mudam minha maneira de compreender a Bíblia, Deus e a vida cristã. Quando fazia as pesquisas para escrever meu mais recente livro, “O Fim do Sofrimento – Um livro para quem busca consolo e esperança nos momentos mais sombrios“, fui confrontado com verdades impressionantes sobre a questão do sofrimento que todos nós enfrentamos. O mesmo ocorreu quando estudei para escrever o “Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar“. Fruto de investigações que foram além da simples leitura. E pode ter certeza de que o mesmo ocorrerá com você: caso se disponha a não apenas ler, mas a estudar, se informar, se aprofundar no texto sagrado, verá como passará a enxergar Deus com olhos mais aguçados e terá uma vida cristã muito mais rica, abundante e verdadeira.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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ristretto 1Eu tenho um ponto fraco: café. Confesso que sou um profundo apreciador dessa bebida e tomo muitas xícaras por dia. A máquina que faz meu café da manhã tem timer, que fica programado para alguns minutos antes de eu acordar, a fim de que o café esteja pronto e quente assim que meu despertador tocar. Além disso, tenho uma máquina de café espresso, daquelas que funcionam com cápsulas, pois, além de oferecer tipos de grãos diferentes e muito saborosos, permite que se faça uma xícara com bastante rapidez – durante um momento de concentração para trabalhar ou escrever, essa celeridade ajuda muito a não interromper um raciocínio no meio. Costumo pôr as cápsulas em uma espécie de suporte, que veio como brinde da Nestlé, e as vou pegando aos poucos. Qual não foi minha surpresa quando, há poucos dias, cheguei para tomar um café em uma tarde cinzenta e descobri que não havia mais dos sabores que costumo tomar (o ristretto ou o arpeggio), apenas cápsulas do lungo, um café para se tomar em canecas e não em xícaras. Pode parecer bobagem para você, mas, diante da ansiedade e da expectativa que eu estava para saborear o negro elixir divino, para mim foi um golpe baixo. Fiquei triste.

ristretto 2Voltei para minha mesa de trabalho e continuei a labuta. Mas sabe quando bate aquele inconformismo? Levantei, voltei à cozinha e fuxiquei no meio das cápsulas verdes do lungo. E, para meu delírio, eis que ali, posto por engano junto a elas, havia, escondida e soterrada, uma última cápsula negra do meu amado ristretto. É difícil explicar a alegria que foi. Fiz o café com um cuidado ímpar, apreciando o aroma como nunca, e o saboreei com gosto especial. É interessante isso, pois tinha o exato mesmo gosto de todos os outros ristrettos que sempre tomei, mas aquela xícara específica tinha um sabor de vitória, quase de júbilo, por representar a obtenção de algo que eu julgava perdido.

Jesus contou uma história que guarda certas similaridades com esse episódio: “Qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e, perdendo uma delas, não acende uma candeia, varre a casa e procura atentamente, até encontrá-la? E quando a encontra, reúne suas amigas e vizinhas e diz: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei minha moeda perdida’. Eu lhes digo que, da mesma forma, há alegria na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15.8-10). Fiquei pensando na alegria descrita pelo texto bíblico, em comparação com a que senti ao encontrar minha cápsula de café perdida.

É importante olharmos o contexto em que Jesus relata essa parábola. Ele a cita entre a parábola da ovelha perdida e a do filho pródigo. Ambas tratam de pessoas que pertenciam ao rebanho ou à família e se afastaram. Logo, a dracma mencionada também é uma alusão a membros do Corpo de Cristo que se perdem. O “pecador” que Cristo menciona não é, portanto, alguém que nunca experimentou o amor de Deus, mas, sim, o filho que se perdeu por conta de seus pecados. Assim como qualquer pai, Deus não gosta que seus filhos se afastem. E, para solucionar esse problema, ele estabeleceu um mecanismo para trazer filhos perdidos de volta à casa do Pai, ao aprisco seguro: você. Mas só você não basta. É preciso que você esteja cheio de amor.

love 1Uma das coisas mais tristes que vejo são cristãos que partem em busca de pessoas que estão distantes de Cristo (sejam “inconversos” ou “desviados”) como se fosse uma obrigação ou uma “missão”. Trazer a ovelha de volta ao aprisco jamais deve ser uma ação motivada por qualquer coisa que não seja amor. Guardadas as devidas e enormes proporções, eu não busquei a cápsula de café porque me obrigaram ou porque havia uma “missão” envolvida nisso, mas porque me sentia extremamente motivado. O “ide” da Igreja, a Grande Comissão, nunca deve ser visto com uma ordenança pura e simples: é um chamado ao amor pelo próximo.

Se não compreendermos que esta ordem divina, “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei” (Mt 28.19-20), é consequência direta desta outra ordem divina: “Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (Jo 13.34-35), não conseguiremos jamais levar a mensagem da cruz da volta ao lar para as pessoas do modo que Deus idealizou. Pois não consigo enxergar o Pai que “tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16) resgatando vidas por qualquer outra razão que não seja amor. Ele amou os que se foram, amou os que nunca vieram, e, por isso, devemos amá-los também. Só então, quando o amor for um fato transbordante, devemos partir em busca deles.

love 2O amor precede o evangelismo. O amor precede a busca dos que se desviaram. O amor precede o resgate dos apóstatas. O amor é o ponto de partida para a obra de Deus. Sem amor, tudo o que se faz para o Senhor é o mais puro e insosso ativismo religioso. Porque evangelizar não é “ganhar almas para Jesus”, evangelizar é “compartilhar um amor que transcende tanto tudo o que podemos entender que ninguém pode ficar indiferente a ele”. Ninguém “ganha almas para Jesus”. O que fazemos é servir de meio para que o amor de Jesus atraia irresistivelmente almas para si.

No que se refere a evangelizar e a trazer desviados de volta ao aprisco, o nosso papel, meu irmão, minha irmã, é sermos porta-vozes do amor de Deus. Nada mais do que isso. Devemos apontar para o amor celestial. Precisamos proclamar o amor, que produz a graça, que conduz à salvação. Ame. Ame sempre. Ame com todas as suas forças. Somente isso, e nada mais, poderá torná-lo o maior evangelista de todos os tempos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Deus está no controle 1­Deus está realmente no controle das coisas? Ele já tem tudo previsto ou existe margem para mudanças nos planos divinos? Se o Senhor está no controle, até onde vai sua esfera de intervenção nas coisas do mundo? Livre-arbítrio é uma heresia arminiana? Ou determinismo é uma heresia calvinista? É fato que o Todo-poderoso não está por trás das catástrofes, como alega o teísmo aberto? Como se explica a história de Ezequias, o rei israelita que ganhou 15 anos a mais de vida após orar a Deus? Se o Senhor já sabia que a humanidade pecaria, por que a criou? Se Jesus veio à terra para morrer por nossos pecados, por que pediu ao Pai que afastasse dele o cálice do sofrimento? Se Jesus é descendente de Davi por meio de Bate-Seba, a mulher com quem o rei adulterou, Deus queria que esse adultério ocorresse? Questões como essas dão nó nos neurônios de muita gente, para quem a grande equação por meio da qual Deus conduz o universo é um enigma incompreensível e insolúvel. Esta semana vivi uma experiência que me fez pensar muito sobre como o Senhor age em nossa vida.

Perdão Total_Capa 3D em altaDesde que foi lançado meu mais recente livro, Perdão Total — Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar, tenho sido convidado para pregar ou palestrar sobre o assunto em diferentes cidades do país. Domingo passado, estava agendado para que eu pregasse na Igreja Batista Jardim Icaraí, em Niterói (RJ). Como eu não dirijo, um casal querido, Ana e Renato, se dispôs a sair de Niterói e me pegar em casa, em Botafogo, bairro do Rio de Janeiro. Ficou combinado que eles me pegariam às 18h, pois o culto começava às 19h30. Iríamos eu, minha esposa e minha filha de 4 anos. Só que o imprevisto ocorreu, com toda força.

No meio da tarde, um temporal desabou sobre a cidade. Foi um daqueles aguaceiros que dão reportagem em jornais, com ruas alagadas, trânsito parado e caos. Resultado: depois de muito penar para chegar até meu prédio, fugindo de bolsões de água e trechos intransitáveis, Ana e Renato conseguiram estacionar, ilesos, no posto de gasolina em frente ao meu edifício. Só que já eram 19h e a chuva não dava sinal de trégua. Assim que chegaram, Ana me telefonou e tentei ir até eles, mas minha rua tinha virado um rio e era impossível dar um passo fora da portaria. Conversamos, então, por telefone e, depois de eles terem consultado o seu pastor, todos vimos que não conseguiríamos chegar à igreja a tempo do culto. Resultado: de comum acordo, decidimos adiar minha ida para outro dia. Depois de um tempo, as águas começaram a baixar e consegui fazer um malabarismo para ir até eles. Conversamos pessoalmente e a decisão foi reafirmada.

Confesso que subi de volta para meu apartamento decepcionado e questionando Deus. Já no elevador, eu comentava com o Senhor que não entendia aquilo. Será que ele não queria que eu compartilhasse a mensagem do perdão com os membros daquela igreja? Claro que tenho o entendimento de que o temporal não caiu só por minha causa, mas, como eu também sou uma letra na equação divina, entendo que minha vida também é incluída nas decisões de Deus. Assim como a sua. Assim como a de qualquer pessoa. Fato é que fiquei triste por não poder ir até Niterói pregar sobre um assunto que considero extremamente urgente.

E foi então que a história deu uma guinada.

Deus está no controle 2Cerca de vinte minutos depois de ter chegado em casa, minha filha, que passou o dia inteiro bem disposta, estava arrumada e animada para sair e ficou bem triste por não termos ido à igreja, começou a reclamar de dor de cabeça. Em minutos, a dor ficou extremamente forte e ela passou a sentir um mal-estar generalizado. De repente, o susto: a pequena se revirou na cama e vomitou em profusão. Enquanto eu limpava a sujeira, sua mãe a levou ao banheiro para lavá-la. Lá, mais vômitos. Achei que a crise tinha acabado. Dei-lhe um pouco de água para beber e deitamos no sofá da sala para assistir a uma apresentação de balé. Em poucos minutos, a pequena começou a acusar nova dor de cabeça e mal-estar. Virou-se para o lado e vomitou pela terceira vez, agora no chão da sala.

Foi quando percebi que a coisa ia além de um simples enjoo e tomei a decisão de levá-la para o hospital. Como alguém que já passou três dias internado em um CTI por infecção intestinal grave, levo muito a sério esse tipo de sintomas. Assim, nos vestimos rápido, descemos, vimos que a água já tinha baixado o suficiente para sairmos, pegamos um táxi e disparamos para a emergência pediátrica. Chegamos ao hospital e logo fomos atendidos. Assim que entrou na sala do médico, minha filha vomitou novamente, com espasmos bastante fortes. Seu estômago estava vazio e quase não saía mais nada. Depois dos exames preliminares, entramos na sala de atendimento de emergência, onde, enquanto aguardava para tomar uma injeção, a pequena vomitou pela quinta vez. A dor de cabeça era grande. O mal-estar e a moleza, generalizados. O médico decidiu fazer uma tomografia computadorizada da cabeça.

Vou resumir as três horas e meia seguintes, passadas entre exames e tratamentos, em um parágrafo: graças ao atendimento rápido, minha filha pôde ser liberada naquela mesma madrugada do hospital. Os médicos não conseguiram determinar o que ela teve, mas as suspeitas vão de intoxicação alimentar a viroses. A medicação rápida contribuiu muito para seu quadro não piorar. Ela ficou dois dias em casa, de repouso, ainda com dores, febre e enjoos, mas, com o tempo, o problema passou.

Deus está no controle 3Fiquei pensando. Se tivéssemos ido a Niterói, minha filha passaria mal longe de casa, talvez presa em algum engarrafamento, talvez momentos antes de eu subir ao púlpito para pregar. Imagine como teria sido. Tudo é um grande “talvez”, mas uma coisa é certa: o fato de estarmos em casa quando ela passou mal foi decisivo para que fosse rapidamente socorrida e, seja lá o que a tenha acometido, o mal ter sido debelado com o mínimo de dor e desconforto. Quem sabe, até, uma demora no socorro poderia ter agravado o quadro e gerado problemas mais severos.

E aí fica a pergunta: será que Deus me impediu de ir a Niterói para que eu pudesse socorrer minha filha? Teria ele sacrificado a pregação naquele dia específico em prol do que ele sabia que aconteceria com minha pequena? A resposta é que não sei, é muito complexo pensar sobre isso e eu não sou onisciente. Não tenho como afirmar nada. Mas, quando olho para a Bíblia, vejo que “O Senhor faz tudo com um propósito” (Pv 16.4). Mais ainda, percebo que “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Rm 8.28). Então, ao ler verdades como essas, solidifico em meu coração uma realidade: nada do que aconteceu foi à toa.

O acaso não existe. Sorte é um conceito antibíblico. O que prevalece é a soberania de Deus. E, nessa soberania, o Senhor fez com que, em meio a milhões de cariocas e niteroienses afetados pelo temporal de domingo, eu não fosse pregar conforme tinha sido planejado e, assim, estivesse em casa para socorrer com agilidade minha filha. Se você me perguntar se foi coincidência, vou sorrir, com toda a certeza do mundo de que Deus teve um propósito no que ocorreu e que ele agiu para o nosso bem.

Meu irmão, minha irmã, preste mais atenção às coisas que acontecem em sua vida. Não digo só as grandes; as pequenas e insignificantes também. Pois, se tudo Deus faz com um propósito e em todas as coisas ele age pelo bem dos que ama, lembre-se que tudo significa tudo. E todas as coisas significa todas as coisas. Não uma parte, não uma parcela, não umas e não outras. Tudo. Todas as coisas. Esse é o Deus da Bíblia.

Deus está no controle 4Com essa percepção, você vai passar a perceber a ação de Deus no engarrafamento, no chuveiro que pinga, no calor abrasador, no mendigo que lhe pediu dinheiro, no atraso do dentista, na gata que fugiu de casa, na topada do pé. Há gente que brinca com quem atribui tudo ao Diabo, criticando quem diz que “queimou o arroz, é culpa do Diabo”. Eu discordo. A “culpa” é de Deus. Pois ele tinha em mente aquele arroz queimado. Para quê? Sei lá! Mas ele sabe. A vida é uma grande engrenagem, que tem como finalidade nos conduzir à vida eterna, em Cristo. Como tudo isso funciona eu não faço ideia, os pensamentos do Senhor são muito mais elevados do que os meus para que eu consiga compreender. Mas de uma coisa eu sei: eu não preciso saber todos os mistérios do Senhor nem conseguir explicá-los, pois basta compreender que Deus sabe tudo. Peço apenas que ele me tome pela mão e conduza meus passos. Em outras palavras, “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

Digam o que quiserem, Deus está no controle. Uns chamam de sorte, eu chamo de Deus. Uns chamam de acaso, eu chamo de Deus. Uns chamam de livre-arbítrio, eu chamo de Deus. Uns chamam de determinismo, eu chamo de Deus. Chamem do que desejarem, elaborem as teorias teológicas que quiserem, a resposta será sempre uma só: Deus. E, com isso em mente, devemos fazer a nossa parte e, em seguida, agir como recomendou o salmista: “Entregue o seu caminho ao SENHOR; confie nele, e ele agirá” (Sl 37.5).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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post apenasFui convidado a pregar em uma igreja, no Rio de Janeiro, onde compartilhei uma mensagem acerca da urgência de perdoar e se perdoar, como venho fazendo em muitas igrejas desde o lançamento do meu livro “Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar”. Ao final do culto, estava planejado um momento para confraternizar com os irmãos e escrever dedicatórias a quem tivesse adquirido a obra na livraria do local. E assim aconteceu: ministrei a palavra, o culto terminou e me sentei a uma mesa, onde haviam posto exemplares do livro. Ela ficava localizada junto a uma janela que dava para a rua. Foi quando tive a experiência que me levou a esta reflexão. Eu estava trocando ideias com os irmãos e escrevendo dedicatórias nos livros quando reparei em uma senhora que estava parada na calçada, debaixo de chuva fina, do lado de fora da igreja. Ela me chamou especial atenção pelo seu jeito: solitária, séria, meio deslocada, olhando atenta para dentro do prédio, com uma atitude nitidamente diferente da dos irmãos e irmãs que conversavam animadamente à porta… algo nela captou meu olhar. Na foto que abre este post você pode vê-la, de óculos, atrás de uma esquadria preta da janela. Senti um impulso muito forte de conversar com aquela senhora, por isso levantei-me da mesa, pedi licença aos manos que estavam ao meu redor e caminhei para a rua. Parei ao lado dela e comecei a puxar papo.

Assim que ela falou a primeira palavra, notei de cara que estava bastante alcoolizada. O cheiro de cerveja era bem forte e sua fala estava arrastada, com palavras mal articuladas. Ainda assim, consegui entabular uma conversa. Comecei perguntando seu nome [que manterei em sigilo, vou chamá-la apenas de Maria]. Eu, então, me apresentei e indaguei se ela tinha acompanhado o culto, mesmo ali da rua. Ela me respondeu que estava no bar que fica exatamente ao lado da igreja, imersa em cerveja, quando começou a escutar a mensagem, o que a fez se levantar e ficar do lado de fora, mas sem coragem de atravessar a porta. Dali, não conseguia escutar muito bem a pregação. Que pena. Perguntei por que ela não tinha entrado e Maria respondeu que “não se sentia digna” de entrar no santuário. A meu pedido, aquela senhora passou a me relatar sua vida. Ela tinha sido membro justamente de uma das igrejas da denominação em que congrego. Por desavenças com pessoas da igreja e conflitos dentro da congregação que frequentava, acabou se afastando da comunidade de fé, desistindo de ir aos cultos e  se entregando a uma vida de pecados. Em resumo, ela tornou-se a típica “desviada”.

Confesso que meu coração sangrou ao ouvir sua história. Vi aquela preciosa vida ali, entregue às futilidades da existência, machucada por filhos de Deus, ouvindo o chamado do Pai, mas… sentindo-se indigna de entrar no santuário. Comecei, então, a lhe falar do amor de Cristo e da paz que só ele pode dar, do perdão e de tudo o que a entrega de uma vida a Deus realiza. Ela escutou atentamente. Ao final, perguntei se não gostaria de restabelecer os vínculos com Jesus, mas ela deu uma resposta que é muito comum ouvirmos:

– Primeiro eu preciso ficar limpinha… minha vida tá toda errada…  eu estou imunda…

sujeiraAquelas palavras foram como um soco no meu estômago. Tentei argumentar, explicando que Deus é quem limpa e purifica, mas ela fincou pé. Por saber que não é o homem quem convence do pecado, da justiça e do juízo, mas o Espírito Santo, perguntei, então, se não gostaria que orasse por ela. Mas Maria mostrou-se refratária. Parecia que estava se sentindo tão suja na alma que qualquer coisa relacionada à pureza divina a fazia se sentir indigna. Diante de sua recusa, compartilhei algumas palavras mais sobre Cristo e terminei dizendo que ele a estava esperando de braços abertos, independente de ela não estar “limpinha”. Ao me despedir, ela olhou fundo em meus olhos e segurou minha mão. Não disse palavra alguma. Apenas ficou ali, me olhando por longos segundos. Depois virou-se e foi sentar-se à mesa do bar. Eu retornei para a igreja e continuei com as dedicatórias nos livros.

Quando chegou a hora de ir embora, minha esposa foi pegar-me de carro. Abracei os irmãos e entrei no banco do carona. Foi quando olhei para o bar e vi que Maria permanecia sentada e olhava para mim pela janela do veículo com um olhar fixo. Partimos e fomos embora, mas notei que aquele par de olhos me seguiu enquanto o automóvel se afastava. Eu sei que, na verdade, aquela senhora não estava olhando para mim, mas para o que eu representei naquela noite: palavras de pureza, em Cristo.

sujeira 2Maria é uma em meio a uma incontável multidão. Você encontra milhões de marias pelas ruas, pelos shoppings, na escola, na faculdade, no trabalho, na sua família. Maria convive conosco, diariamente, e, muitas vezes, não a enxergamos. É invisível à nossa insensibilidade espiritual. Em todo o planeta há pessoas que se encontram distantes de Cristo e, por isso, buscam paz e felicidade em montes de coisas que não preenchem. Mortos na putrefação dos delitos e na imundice do pecado, sabem que precisam de algo, que não entendem bem o que seja; algo que sopre vida em suas almas e encha seus lábios mortos de sorrisos de alegria. Algo que as purifique e as faça ficar “limpinhas”. Nós sabemos que esse algo, na verdade, é alguém. E que ele não espera que vão ao seu encontro pessoas “limpinhas”: quem ele mais busca abraçar são as imundas.

Maria não quis o abraço de Cristo aquela noite. Eu fiz o meu papel: proclamei a salvação, a paz, o caminho, a verdade, a vida. Ela não quis receber nada daquilo naquele momento, embora estivesse absurdamente sedenta de tudo o que lhe apresentei. Sua alma, suja e malcheirosa pelo pecado, berrava, clamando por socorro, limpeza e purificação. No entanto, o sentimento de inadequação foi mais forte. Isso ocorre muito e é um alerta para nós: precisamos mostrar aos filhos pródigos que a casa do pai não os aguarda com castigos e recriminação, mas com festa, um anel no dedo e roupas novas e limpas. Temos de incluir em nossa proclamação das verdades sagradas que o evangelho é para os bêbados, os depravados, os assassinos, os ladrões, os corruptos, os indignos. Cristo não busca os purificados; ele purifica os que busca.

Sabe… Jesus veio à terra acostumado à imundície. Um aspecto interessante do Natal é que, geralmente, ao vermos presépios, o que encontramos são representações de estrebarias como lugares bonitinhos, com uma estrelinha no topo e bichinhos fofinhos rodeando um menino Jesus limpinho. Só que não foi assim o primeiro Natal. Um bebê nasce sujo dos líquidos corporais da mãe. Para ser limpo, imagino que Jesus deva ter sido lavado com a água destinada a ser bebida pelos animais (que outra água há numa estrebaria?). E o ambiente não era nada fofo: se você já visitou estábulos em hotéis-fazenda ou outros lugares similares, sabe que cheiram mal, têm fedor de estrume, xixi de vaca e muitas moscas. Então entenda: Jesus veio ao mundo num local imundo, indigno, insalubre. Os primeiros cheiros que nosso Deus sentiu na vida terrena foram de excremento e urina de animais. Insetos devem ter pousado em seu rostinho com as patas salpicadas daquilo em que eles gostam de pousar. Meu irmão, minha irmã, Cristo sabe o que é sujeira. Ele viveu desde o nascimento em contato direto com a sujeira. Ele conhece o cheiro de podridão. E entende o que é o fedor da miséria humana.

sujeira 3A boa notícia é que, ao subir aos céus, Jesus ascendeu com um corpo glorificado, incólume, sem sujeira ou mancha alguma. Puro. Digno. Limpo. Em paz. E isso é um sinal para nós. Neste Natal, busque as marias que você conhece, do jeito que elas estiverem, sujas e malcheirosas pelo fedor do pecado, e diga-lhes que, se elas não se sentem “limpinhas”, Deus tem para elas uma glória maior do que tudo o que se pode supor e imaginar. O Pai tem para elas pureza. Dignidade. Limpeza. E paz.

Faça isso e o Natal ganhará um significado totalmente novo em sua vida. E, mais ainda, na das milhões de marias que estão por aí, apenas esperando que alguém como você as conduza à fonte purificadora da água da vida. “Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida” (Ap 22.17).

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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Perdão é um assunto essencial para nossa saúde espiritual. A falta de perdão é um câncer que corrói a alma, gera culpa e ressentimento e nos afasta de Deus. Foi por isso que decidi me dedicar a esse tema em meu livro mais recente, Perdão Total – Um livro para quem não se perdoa e para quem não consegue perdoar (veja AQUI), que acabou de ser lançado pela editora Mundo Cristão. Semana que vem falarei um pouco mais sobre ele, se você me permitir. Hoje compartilho apenas um pequeno vídeo, que a editora me pediu para gravar, em que abordo um dos temas tratados no livro. Espero que aquilo que procuro compartilhar nessa fala de 2 minutos abençoe a sua vida.

Perdão Total_Youtube

(Se, ao clicar na imagem, o vídeo não abrir, clique AQUI)

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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

 

casar1É enorme a quantidade de casamentos problemáticos entre cristãos. Alguns dos posts mais lidos e comentados aqui do APENAS são os que versam sobre problemas matrimoniais. Muitos dos livros mais vendidos pelas editoras cristãs são os que tratam do assunto. Um dos tipos de ministério “direcionado” que mais surgem é o voltado a famílias e casamentos. Esses fatos denunciam que cristãos enfrentam problemas conjugais tanto quanto não cristãos. Pelo espaço dos comentários do blog chegam até mim muitos casos de pessoas que buscam respostas para problemas conjugais, em situações as mais variadas (se é o seu caso, procure seu pastor, ele é quem melhor pode aconselhá-lo). Em programas de rádio e palestras de que já participei sobre o assunto vejo tipos de problemas que jamais imaginaria, que vão da chamada “incompatibilidade de gênios” a casos de incesto. O que fica muito claro é que o casamento é uma das áreas mais visadas nos ataques espirituais contra os cristãos e por uma simples razão: ao se destruir uma família, ocorre a desestruturação dos cônjuges em diversos âmbitos, os filhos ficam traumatizados, as comunidades são abaladas e, com tudo isso, fere-se a Igreja de Cristo. Assim, qualquer ataque a um casamento é uma afronta direta a Deus. Para quem vive desilusões e problemas no matrimônio, muitas vezes o divórcio é a solução. Já para mim, uma das soluções para problemas matrimoniais é uma mudança na sua compreensão acerca do verdadeiro propósito do casamento.

Como todo mundo, eu me casei acreditando naquelas frases feitas, como “Casei para ser feliz” ou “Casei para fazer o meu cônjuge feliz”. De um modo ou de outro, o que por anos foi muito claro é que o matrimônio tem – no imaginário popular – como finalidade levar o casal à felicidade. É o que nos ensinam nos contos de fadas, em que príncipe e princesa necessariamente têm de “ser felizes para sempre” e ninguém ensina a nossos filhos que príncipes e princesas não vivem deitados eternamente em berço esplêndido, tampouco são lindos de morrer (lembra do príncipe Charles, por exemplo?). Pelo contrário, eles têm obrigações, cotidianos corridos e estressantes, assuntos complicadíssimos do reino para resolver, responsabilidades graves, estresse constante pelo assédio da imprensa (lembra de como foi a morte da princesa Diana, fugindo dos paparazzi?), que exigem demais deles. Mas a imagem ensinada aos pequenos é que príncipes e princesas são bonequinhos lindos e cheirosos, sempre felizes, eternamente de bem com a vida, numa utopia destrutiva para a formação de identidade de um ser humano – é por isso que sinto pânico quando ouço crianças serem chamadas por cargos da monarquia, como “reizinho” e “princesinha”. E, assim, somos adestrados desde os primeiros anos de vida a acreditar que o casamento tem de nos conduzir a esse estado de “ser feliz para sempre”. O que, aliás, é impossível, nunca acontecerá com ninguém e é propaganda enganosa. Mas todo mundo sobe ao altar acreditando nisso.

princesasA princesinha da mamãe um dia vai se casar com um ogro, que, por mais esforçado que seja, terá todos os defeitos que ela não espera (afinal, tirando o Shrek, os príncipes dos contos de fadas nunca têm defeitos). O principezinho do papai um dia se casará com uma mulher que não é delicadinha e obediente como a princesa dos desenhos animados (ou você acha que a rainha Elsa, de “Frozen”, nunca vai engordar, criar pelanca e dar ataques de TPM?). A realidade é a realidade, mas aprendemos de nossos pais e ensinamos a nossos filhos que nosso casamento tem de ser exatamente como na ficção. Que, como diz o nome, é ficção. A realidade tem cores, cheiros e um peso enormemente diferentes.

Adestrados por essa mentalidade equivocada, hedonista e antibíblica de que casamento foi feito para nossa felicidade ininterrupta, subimos correndo ao altar com essa ideia totalmente irreal em mente. Seguimos para a lua de mel com ela. E, pior de tudo, prosseguimos pela vida tomando-a como o critério para julgar se um casamento é bem-sucedido ou não. Só que, por acreditarmos no conto de fadas da felicidade ininterrupta, quando somos confrontados pela realidade é impossível não se frustrar com o cônjuge, não se desapontar, não se chocar com a enorme distância entre ele e aquele lindo príncipe sem espinhas, nariz escorrendo ou cheiro de suor que desperta a Branca de Neve de seu sono com um lindo beijo nos lábios (já imaginou o hálito da Branca de Neve depois de tanto tempo dormindo, sem escovar os dentes?).

washerEu acreditei por muitos anos na mentira da felicidade como critério para julgar a solidez de um casamento. E, assim como você, tive muitas infelicidades ao longo de minha vida matrimonial justamente porque em muitos momentos me vi infeliz. E, assim, a infelicidade alimenta a infelicidade, num ciclo que parece não ter fim. “Se quero ser feliz no casamento mas não sou sempre feliz na vida a dois, então meu casamento é um desastre”, cheguei a penar. Tudo mudou quando ouvi há poucos anos uma pregação do pastor Paul Washer, no YouTube, que causou uma grande transformação na minha forma de enxergar o matrimônio. Recomendo enfaticamente que você assista (clique AQUI). Como toda pregação eficaz e bíblica, ela mexeu com minhas estruturas e modificou minha forma de ver tudo.

Essencialmente, o que Washer ressalta, com muita correção bíblica, é que o casamento não foi criado por Deus para nos fazer felizes, ao contrário do que prega a sociedade em que vivemos. “O verdadeiro propósito do casamento é que ambos sejam conformes à imagem de Jesus Cristo”, diz. Essa percepção mudou totalmente a minha visão sobre o casamento. Ouvir essa pregação foi como uma cortina que se levantasse diante de meus olhos e me fez compreender enormemente coisas que antes eu não compreendia. Meus paradigmas foram transformados. E Deus promoveu em mim a metanoia, a renovação da mente de que Paulo fala em Romanos 12.2.

Meu casamento tornou-se perfeito depois disso? Claro que não. Eu não sou perfeito e minha esposa também não é, lógico que nosso matrimônio jamais seria (ou será) perfeito. Mas o entendimento do verdadeiro propósito do casamento fez com que meus esforços e minhas percepções começassem a me conduzir por caminhos completamente diferentes. Quando você compreende que não se casa para ficar sorrindo, dançando e pulando o tempo inteiro, com dentes brilhantes sob a luz do luar, passa a ter atitudes muito contrárias às que tinha antes.

casalEntenda algo. Se seu cônjuge é turrão e cabeça dura mas você acredita que ele teria de ser diferente para você ser feliz, então você viverá eternamente insatisfeito (ou você ainda acredita na ideia de que as pessoas mudam conforme o seu querer? A sua vontade de que mudem não mudará ninguém). Mas, se entende que seu cônjuge turrão faz com que você se torne alguém mais paciente, então enxerga que o seu casamento com alguém cabeça dura te conforma mais à imagem de Cristo. Outro exemplo: se o seu marido (ou a sua esposa) é meio brigão, comece a tentar ver que isso pode desenvolver em você um lado pacificador cada vez maior. Ou, ainda, se o seu cônjuge é do tipo que de vez em quando busca iniciar briguinhas e discussões, perceba quanto isso te leva a crescer em domínio próprio. Em outras palavras, cada defeito da pessoa com quem você se casou pode ser visto de duas maneiras: ou como um obstáculo à sua felicidade e à sua ideia de casamento conto de fadas, ou como um meio que Deus estabeleceu para que você seja cada vez mais assemelhado a Cristo. Como disse Paul Washer, “Ele [Deus] quer prová-lo e testá-lo de forma que você será conformado à imagem de Jesus Cristo”.

Sei que muitos não concordarão de imediato com essa visão, o que é totalmente compreensível. Não é fácil mudar décadas de uma ideia formatada, que foi inserida na sua cabeça desde que você usava fraldas. Mas, se você consegue adquirir a percepção de que seu cônjuge não é um adversário imperfeito que chegou para atazanar sua vida, mas, sim, um aliado imperfeito que chegou para criar mais e mais intimidade entre você e o Cordeiro de Deus… tudo muda. Em mim mudou.

aliançaO Senhor quer nos fazer crescer em misericórdia, graça e amor incondicional. Deus deseja que cresçamos a partir das fraquezas de nosso cônjuge – e ele, das nossas – para que cuidemos e amemos nossos maridos e nossas esposas mesmo quando eles não atenderem às nossas expectativas. Sei que você vai questionar muito o que escrevi aqui quando olhar seu cônjuge, lembrar de todos os defeitos, falhas e pecados dele – repetidos dezenas de vezes, muitas delas sem arrependimento. Vai achar loucura que ter de enfrentar isso seja algo que venha para o seu crescimento. E é mesmo: “a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18). Sim, é loucura a olhos humanos. Mas é crescimento espiritual aos olhos divinos. “‘Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos’, declara o SENHOR. ‘Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos'” (Is 55.8-9).

Desde que ouvi essa pregação, volto a ela com frequência. Ouço e ouço de novo. A demolição de ideias que nos acompanharam por décadas nunca é algo rápido ou fácil. Exige humildade e dói. Mas a reconstrução é libertadora. Só Deus sabe como essa nova percepção da realidade bíblica mudou totalmente a forma de enxergar meu casamento e minha esposa e, com isso, mudou muito em mim. O que antes eu via como defeito agora enxergo como canal de bênção. O que antes eu acreditava que subtraía hoje eu vejo que soma. Ainda estou no processo, mas já é possível observar a diferença que faz o abandono da teoria irreal de que casamento tem como finalidade a felicidade eterna. Pois essa teoria necessariamente pressupõe a existência de um cônjuge que seja perfeito a ponto de ser capaz de nos proporcionar felicidade eterna e, também, na existência de perfeição em nós, para que possamos proporcionar felicidade eterna a nosso cônjuge. Só que isso não existe, jamais existiu e nunca existirá. Ninguém jamais será perfeito, meu irmão, minha irmã. Você jamais será perfeito. Logo, o cônjuge ideal só existe nos nossos sonhos irreais. É por isso que você é um cônjuge tão imperfeito. A realidade é o que está dentro de sua casa – seu cônjuge e você. E é a partir dessa realidade que Deus quer conformar ambos à imagem de Cristo.

casal0Sei que deve ser muito duro para você ler isso. Acredite, não escrevo este texto com o coração leve. Pois entendo perfeitamente o que é alguém que vive realidades muito difíceis em sua vida conjugal olhar para elas e aceitar que Deus as permite para seu crescimento espiritual. Compreendo se você se revoltar contra esse pensamento, embora lamente caso não consiga enxergar a profundidade espiritual que ele carrega em si. Mas a sabedoria bíblica que essa mensagem compartilha é fulminante. Como diz Pr. Washer com extremo discernimento espiritual, “Como Deus te ama muito, ele não lhe dá alguém compatível com você. Isso ocorre porque Deus é muito melhor do que você e os seus presentes são muito maiores do que aqueles que você poderia sequer dar a si mesmo. Você ia querer uma vida fácil e com perfeita compatibilidade. Deus não vai te dar isso, porque isso nunca produz caráter cristão, piedade verdadeira ou conformidade com a imagem de Jesus Cristo”.

Vi em outro vídeo – de uma curta conversa entre John Piper, Tim Keller e D.A.Carson – que o  pastor, teólogo e mártir cristão Dietrich Bonhoeffer disse que “a aliança entre marido e mulher sustenta o amor e não o amor sustenta a aliança” (veja o vídeo AQUI). O pacto que fazemos no altar é, acima de tudo, de respeito a uma aliança, antes de ser de amor. Quando você compreende isso, tudo muda. E, pode acreditar, você passa a amar muito mais. E, se você rompe esse pacto, tudo torna-se muito pior. Por isso, fica aqui o conselho enfático: se você falhou nas promessas estabelecidas na aliança, não descarte esse casamento, pelo contrário, busque na graça de Deus o restabelecimento da aliança e prossiga em frente. Houve erros e pecados que feriram os termos da aliança entre você e seu cônjuge? Então recorra ao Senhor em busca da restauração – pois ele deseja, pode e vai restaurar seu casamento se você tão somente se dispuser a isso.

cruz de cristoPeço a Deus que todas as dificuldades de sua vida matrimonial venham a fazer você e seu cônjuge crescerem em intimidade com Deus. Que as falhas e imperfeições suas e de seu cônjuge sirvam para conformá-los cada vez mais à imagem de Cristo. Pois “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho…” (Rm 8.28-29). Você não é perfeito. Seu cônjuge não é perfeito. E, para tentar aproximar vocês dois um pouco mais da perfeição, o Ser perfeito criou essa estranha ferramenta chamada casamento. Use-a e torne-se a cada dia um pouco mais como Cristo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

teologia1Tive uma conversa com um amigo que me incomodou profundamente. Já conto o que aconteceu, mas antes me permita dizer algo, por favor. Eu amo teologia. Poucas atividades me dão tanto prazer quanto sentar com amigos e discutir as coisas de Deus, falar sobre livros de bons autores cristãos, discorrer sobre aspectos variados da fé, remoer sobre filosofias, ideologias e sistemas de pensamento. Tanto que cursei com muito prazer dois seminários teológicos, dei aulas em uma instituição acadêmica cristã por nove anos e sinto enorme alegria em ler com constância obras teológicas. Penso que tentar viver uma vida de fé sem conhecimento teológico é como dirigir um carro sem ter estudado as leis do trânsito – um perigo. Portanto, quero deixar bem claro que considero o estudo da teologia enriquecedor, prazeroso e, por que não dizer, indispensável. Incentivo que todos estudem a boa teologia ortodoxa. Mas vou te confidenciar uma coisa: tenho andado um pouco cansado de certas discussões teológicas que não me parecem ter nenhuma aplicação prática na vida de fé das pessoas e aparentam ter como principal objetivo mostrar que as pessoas que se envolvem nos referidos debates sabem muito. Sem falar que muitos desses debates e exposições são feitos num tom tão arrogante de superioridade intelectual que não consigo enxergar neles, de jeito nenhum, um espírito cristão – pois Cristo não tem parte com quem usa de arrogância e/ou agressividade no falar, mesmo que seja para defender Jesus e a sã doutrina.

Jesus falou o tempo inteiro sobre teologia. O Sermão do Monte é um belíssimo tratado teológico. A leitura atenta das palavras de Cristo nos evangelhos mostra que ele abordou temas de diferentes áreas da teologia sistemática: eclesiologia, escatologia, cristologia, pneumatologia, soteriologia, hamartiologia… o Senhor foi, de fato, um grande Mestre, um pensador, um teólogo. Portanto, viva a teologia! Mas há uma particularidade que chama minha atenção: tudo o que ele disse tem uma função. Uma aplicação no dia a dia. E ele fugia constantemente do rebuscamento: Jesus simplificava sempre o seu discurso: explicava profundas realidades teológicas por meio de simples parábolas, usava aspectos do dia a dia do povo como metáfora de conceitos teológicos complexos, e agia de fato a partir do que falava.

teologia2Este, aliás, é um ponto nevrálgico das atitudes do grande teólogo Jesus de Nazaré: seus ensinamentos “em sala de aula” eram sempre seguidos de “aulas práticas”. Jesus punha a mão na massa: andava com as pessoas, sentia o cheiro do povo, comia com os pecadores, dialogava com mestres da lei e com prostitutas, botava cuspe nos olhos do cego… ele suava a camisa. Mais ainda: o Senhor vivia a teologia que ensinava e, com isso, demonstrava a todos ao seu redor que ela fazia sentido e existia por uma razão consequente. Não eram apenas belas palavras formuladas e debatidas por um cérebro privilegiado: eram vida.

É por ver esse exemplo magnífico de Jesus que me espanta a enorme frequência com que vejo irmãos entrarem em debates, discussões e assuntos que te levam a pensar: “Tá, mas… e daí?”. Muitas vezes são até temas bem saborosos, dos que fazem o cérebro trabalhar a mil por hora, mas que não têm nenhuma consequência para o mundo real. E, diante disso, confesso meu nefasto pecado: por vezes, chego a supor que o único interesse dessas pessoas é mostrar que sabem muito e, com isso, alimentar sua vaidade. É maldade minha, eu sei, não deveria pensar isso. Mas penso. Perdoe-me.

Já me perguntaram algumas vezes por que uso neste blog uma linguagem tão popular. Esta semana fui questionado por um amigo acadêmico, em uma conversa, acerca do que escrevi no último post que publiquei aqui no APENAS, O futebol e a religião. Como citei no texto alguns aspectos teológicos relacionados ao pensamento de Anselmo de Cantuária sobre fé e razão, esse amigo querido disse coisas como “Finalmente você falou sobre teologia em um texto seu”, “Já que você é formado em Teologia, por que você não entra em questões teológicas mais acadêmicas?” e “Você não deveria estar escrevendo coisas mais profundas?”. Bem… eu explico: é porque não consigo enxergar nada que seja mais profundo do que refletir sobre verdades bíblicas fundamentais numa linguagem e num formato que sejam compreendidos por todos e que conduzam à transformação de vidas e a uma aproximação de Cristo na prática diária. Não me contento com nada menos do que isso.

PlatãoNo meu pequeno círculo de amigos amantes de teologia deixamos a mente voar solta e as conversas trafegam em outros trilhos, vamos de Karl Barth aos irmãos Boff, passando por Platão e Schaeffer; debatemos de Tertuliano a McGrath, trafegando por Tozer e Dallas Willard. Mas em situações e ambientes públicos como a internet, em palestras, pregações, programas de rádio, livros voltados para o grande público e similares eu não consigo me ver me posicionando de forma que as pessoas não me compreendam. Todas. Minha vaidade teológica nessas horas precisa permanecer muito bem trancafiada e amordaçada, porque ela impediria que eu fosse um proclamador do evangelho e me restringiria ao triste e deplorável papel de um intelectual que quer mostrar que sabe muito e usa palavras difíceis.

Na conversa que tive esta semana, ouvi que eu deveria “entregar os pontos”, porque “é impossível discutir teologia de forma acessível a todos”. Bem, eu discordo. Claro que é possível. Não é exatamente o que fazemos aqui no APENAS? E, se você leu o livro A Verdadeira Vitória do Cristão, viu que procurei fazer uma abordagem de conteúdo extremamente teológico e histórico, mas com uma linguagem conscientemente escolhida para ser a mais coloquial possível – pois desejo que qualquer pessoa entenda o que quero dizer e, assim, que meus escritos tenham consequência real em sua vida. Não me interessa ser aplaudido por poucos intelectuais, entrar em um pequeno círculo de notáveis, participar de eventos e debates teológicos se nada disso gerar frutos concretos para o reino de Deus. Se os resultados forem concretos, podem me chamar e debateremos com alegria. Mas se for apenas para ficar discutindo o sexo dos anjos, prefiro usar esse tempo para chorar abraçado a um homem que perdeu um filho num acidente de moto ou para falar do amor de Cristo a uma mulher que pensa em cometer suicídio.

O que me parece é que muitos excelentes pensadores perdem grandes oportunidades de se fazer entender porque se recusam a abandonar o academicismo de seu discurso. São teólogos falando para teólogos e não para pessoas comuns. Fico pensando em como seria se Jesus tivesse optado por falar numa linguagem tão elitizada que só os mestres da lei o compreenderiam. Você acha que ele não era capaz disso? Claro que era. Mas Jesus sabia que seria ineficaz, e ele não estava ali para mostrar apenas o que sabia, estava ali para mostrar, acima de tudo, quem era e o que fazia – salvar, perdoar, amar, curar, restaurar e por aí vai.

william_holman_hunt-the_shadow_of_deathEm círculos restritos, como na sala de aula, em uma conferência teológica ou em um evento de uma universidade, é compreensível que se adote o “teologuês”. Faz sentido e é natural que nesses ambientes seja assim, não tenho absolutamente nada contra. Faz parte do contexto. Mas, em foro público, em ambientes abertos a quantidades maiores de pessoas… para quê? Que voltemos à simplicidade do evangelho. Às palavras compreensíveis. Amo a teologia, ela é indispensável. Mas se vier a tornar-se um fim em si mesma, passa a ser dispensável. Embora eu ame teologia, sei que jamais devemos amá-la mais do que amamos Cristo – pois, se assim fizermos, nos tornamos idólatras teológicos. E quem ama Cristo usa a teologia meramente como uma ferramenta a serviço do reino de Deus, o que pressupõe proclamar o reino de modo que o próximo compreenda. Palavras bonitas, ideias complexas e discursos rebuscados jamais levaram ninguém para perto de Deus: a simplicidade da cruz é que leva.

A proclamação do evangelho, para ocorrer como Jesus fez, deve vir montada num jumentinho. Mais ainda: deve ser feita na linguagem de um carpinteiro.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício