Arquivo da categoria ‘Poesia’

Tenho sentido falta de sorrisos. O mundo anda pesado, denso, carrancudo. E não só o mundo, nós, que não somos mundo mas vivemos nele, também. As redes sociais andam tristes. Sinto falta de que meus irmãos e minhas irmãs compartilhem alegrias, carinhos, gentilezas. Se o que o universo virtual transmite é a realidade dos bastidores, sou obrigado a concluir que uma enorme parte de meus amigos virtuais está tensa, irritada, assoberbada por uma caminhada cinzenta, nublada. Todos parecem ter uma lição de moral a dar, uma crítica ácida a fazer, uma exortação a cajadar, uma reclamação a expor. As redes sociais estão chatas, talvez porque eu esteja chato, talvez porque todos estejamos chatos. Talvez porque a vida esteja pesada e todos precisem desabafar.

Claro que a vida não é só alegria. Nunca foi e nunca será. Mas a nuvem está escura demais. Além do ponto. Você não tem essa impressão? Gostaria de ver mais gente falando e postando sobre coisas bonitas, como a poesia que leu, o entardecer que apreciou, o gesto de gentileza de que foi alvo ou com que alvejou alguém. Está faltando beleza, sabe? Tenho tido dificuldade de encontrar prazer no telejornal, nas postagens da minha timeline, na fala de muitos amigos. Os assuntos parecem sujeitar-se a uma ditadura do ruim, do feio, do errado, da maldade, do ódio. O cheiro do rancor parece impregnar as roupas e os cabelos de muitos. A raiva está demais. Antipatias. A humanidade parece doente, com uma febre e uma tosse que não passam nunca. 

Não temos nos visto como complementares, mas como antagonistas. É claro para mim que a maioria das pessoas tem entrado nas redes sociais não com o desejo de amar o próximo, mas com a vontade de pôr o outro no seu devido lugar. Sabe… não estou com vontade de pôr ninguém no seu devido lugar. Prefiro me pôr em algum lugar ao lado das pessoas e trocar uma ideia, saber o que pensa o outro, achar graça dos pensamentos de que discordo e influenciar mais com um sorriso, um abraço e muita paciência e tolerância do que com intermináveis discursos cheios de pretensa superioridade. 

 Talvez seja uma fase meio esquisita, não sei. Mas estou um pouco cansado das frases de para-choque de caminhão que estão enchendo as redes sociais e dos muitos que se pensam mestres quando ainda têm tanto a aprender. Tanto. Assim como eu, que tenho tão pouco a ensinar, creia. Você não precisa entrar no facebook apenas para dar lições, acredite. Pode apenas sorrir. Elogiar. Fazer um afago no seu amigo. Dar uma palavra bonita para deixar o dia de alguém mais feliz. É só uma sugestão que dou, nada muito sério. Só uma sugestão. 

Não me acho capaz de lhe ensinar nada neste momento, meu irmão, minha irmã. Hoje, pelo menos, não sinto vontade de fazer discursos teológicos, exposições doutrinárias, dissertações sobre dogmas e escolas de pensamento. Hoje, pelo menos, quero apenas conviver, sorver da existência do próximo e me deixar deleitar pelas enormes contrariedades que compõem cada ser humano. Sem brigas. Sem fazer das minhas falas discursos de palanque. Hoje, pelo menos, quero me restringir a olhar as flores do campo e os passarinhos, como Jesus ensinou.

Estou um pouco cansado de tantos pretensos mestres, tantas lições de moral, tantos convencedores, tanta gente que acha que veio ao mundo com a missão de corrigir a humanidade ignorante. E não sei como as outras pessoas também não estão, pois os relacionamentos são muito, mas muito mais do que só ensinar, ensinar, ensinar e corrigir, corrigir, corrigir. Os outros não estão tão mais errados assim do que nós, acredite. 

Fica a sugestão, meu irmão, minha irmã: deixe um pouco de lado seu smartphone. Só por um tempo. Abstenha-se por alguns dias de querer ensinar e convencer os outros. Economize frases de efeito e amaine a alegria de receber curtidas. As nossas lições e os nossos ensinamentos não farão falta por um tempo, acredite. O mundo ficará bem sem nossas exortações. Sei disso porque ficou sem as minhas, eu, que fiquei duas semanas sem escrever neste blog e acredito piamente que isso fez pouca falta. Abracei pessoas esses dias, e foi bom demais. Conversei mais, e foi bom demais. Ouvi mais, e foi bom demais. Cuidei de gente que amo, e foi bom demais. Fechei mais os olhos, e foi bom demais. Aprendi mais do que ensinei, e foi bom demais. Precisamos disso. Eu preciso, você precisa.

Tenho gostado de me achegar ao Cordeiro. Tenho me deleitado no silêncio. Quando o coração dispara e uma incômoda eletricidade parece percorrer perenemente a pele, com o sistema nervoso em 440 volts, é nele que encontro abrigo. Que dádiva é a presença do manso amigo! Nele, toneladas saem de nós. Embora Cristo tenha tantas lições de moral a dar, tanto a ensinar, tantos a convencer, tantos a corrigir e exortar, ele apenas me convida a reclinar-me em seu peito: “Descansa, Mauricio”. E eu descanso.

Não há nada igual. É apenas estar. É dar e receber afeto. E, por fim, suspirar e respirar… em paz. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

Clicando nas imagens acima e abaixo você vai para a livraria virtual das lojas Saraiva.

APENAS_Banner três livros Zágari

IMG_6313Havia muito tempo que eu não andava de metrô no Rio de Janeiro. Há alguns dias, porém, tive de pegar o metrô por conta de um compromisso e vivi uma experiência que me deixou bastante triste. O trem estava cheio e não havia lugar para sentar. Por isso, eu, minha esposa e minha filha de 4 anos ficamos em pé. Olhei ao redor e percebi algo que captou minha atenção: à  direita, havia uma senhora de idade, em pé. À esquerda, estava um rapaz com um dos braços engessado, em pé e segurando uma mochila. E lá estávamos eu e minha esposa, acompanhados de uma criança pequena, também em pé. Quando olhei para as pessoas que estavam sentadas próximo a nós, reparei que todos eram homens e mulheres jovens, fortes e saudáveis, que, simplesmente, não se mexeram. Onde estavam, permaneceram. Não deram a mínima.

IMG_6320Vou repetir: uma idosa, um homem de braço quebrado (foto) e um casal com uma criança pequena, todos em um espaço de menos de quatro metros quadrados. E absolutamente ninguém moveu uma palha sequer para ceder o lugar a quem quer que fosse. Isso me deixou extremamente pensativo sobre como o ser humano está tão desumano, egoísta e destituído de amor pelo próximo.

Quando eu era criança, minha mãe me ensinou a sempre, em qualquer circunstância, ceder o lugar para os mais velhos, mulheres e outras pessoas em necessidade. Durante todos os meus anos de escola, estudei em um colégio que ficava a cerca de uma hora de distância da minha casa, de ônibus. E,  durante o sete anos em que estudei lá, sempre fui obrigado a ir e voltar de ônibus e sempre cedi meu lugar, por mais cansado ou dolorido que estivesse. Não porque eu fosse uma pessoa magnânima ou acima da média, mas simplesmente porque aprendi com meus pais que isso era o certo. Por isso, confesso que até hoje me choca quando vejo jovens saudáveis e fortes permanecerem impassíveis ao ver pessoas de mais idade ou com crianças pequenas em pé. Porque, para mim, isso demonstra uma monstruosa falta de amor pelo próximo. É egoísmo e egocentrismo.

A Bíblia diz que nos últimos tempos o amor de muitos esfriaria. Se “o amor esfriar” não é ignorar as pequenas necessidades do próximo, não sei o que é. Infelizmente, é muito difícil mudarmos as outras pessoas. Mas o que podemos fazer é mudar a nós mesmos. Por isso proponho a você uma reflexão sobre suas atitudes. Será que você tem amado de fato o próximo?

Amor-bajo-el-espino-Blanco9Entenda que o amor ao próximo não se demonstra apenas em gestos grandiosos. Não é sendo missionário na África, tornando-se a Madre Teresa de Calcutá ou doando milhões de reais para a caridade que você será alguém que ama o próximo. Até porque, convenhamos, essas são ações que não estão ao alcance da esmagadora maioria das pessoas. Mas você tem a possibilidade de exercer o amor ao próximo diariamente, em pequenos gestos.

Ceder o lugar no ônibus, abrir a porta para senhoras passarem, puxar a cadeira no restaurante, ceder a vez no trânsito, permitir que gente idosa passe à sua frente na fila, deixar que o último pão da padaria seja comprado por outra pessoa, abrir mão do seu tempo para ouvir quem está triste, fazer elogios, dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede… Atitudes como essas custam muito barato ou nada e, acredite, não doem.

gestos-de-amorVocê pode achar que pequenos gestos como esses não fazem a diferença. Mas lembre-se de que é do acúmulo de uma grande quantidade de tijolos bem pequenos que você constrói um enorme edifício de dezenas de andares. Pequenos gestos de amor fazem toda a diferença. Jesus morreu pela humanidade, e isso foi um gesto grandioso. Mas ele também providenciou comida para pessoas que estavam com fome. Ele chorou em solidariedade à tristeza daqueles que estavam abatidos com a morte de Lázaro. Ele criou as galáxias mas também as pequenas sementes, o que demonstra que dá atenção ao macro e também ao micro. Perceba: Deus se preocupa com amor e não apenas com grandes gestos de amor. Se for amor, pode ter a dimensão que tiver, será apreciado pelo Senhor e fará toda a diferença para o próximo.

imagesVocê pode se justificar dizendo que “hoje em dia, todo mundo faz assim”. Que “ninguém mais cede o lugar no metrô”. Que homens com um braço quebrado “podem se segurar com um braço só”. Que crianças de 4 anos “são cheias de saúde e não têm necessidade de se sentar”. Pode ser que você pense que a pequena gentileza não importa mais,  porque, afinal, ninguém mais dá bola para isso. Que pequenos atos de solidariedade são coisa do passado. Que o feminismo aboliu o direito das mulheres de se sentarem no ônibus. Sinceramente, não creio que Deus gosta muito do feminismo. Tampouco acredito que Deus gosta de quem faz tudo como todos os outros fazem. Todos os samaritanos deixariam o judeu roubado espancado caído à beira do caminho, mas Jesus disse que quem amava o próximo era justamente aquele que fez o que todos os outros não fariam. Que exemplo! E lembre-se que Deus vive fora do tempo, por isso, o conceito de que “isso era gentileza mas não é mais” simplesmente não existe para o Senhor.

Amor é amor. O que revela o amor, seja “grande” ou “pequeno”, é um coração que abre mão de si pelo próximo.

Peço a Deus, meu irmão, minha irmã, que você faça a diferença. Que entenda que vivemos dias de muito desamor e que o amor é um item extremamente necessário e cada vez mais raro em nosso meio. Nem que sejam pequenas gotas de amor. Porque uma gota de amor após a outra, após a outra, após a outra… acaba gerando uma inundação de amor. Faça a sua parte. Ame. Por favor, ame. Pelo amor de Deus, ame. Abra mão de si em benefício do próximo, assim como Jesus abriu mão de si em nosso benefício. Pode ser que você fique com as pernas doendo com mais frequência ao ceder o lugar para pessoas que precisam mais do que você. Mas acredito que, ao chegar diante do Pai celestial, o teu pequeno sacrifício será reconhecido como um grandioso gesto de amor.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

.
O fim do sofrimento_Banner APENAS
Clicando nas imagens acima e abaixo você vai à loja virtual da livraria Saraiva

Perdaototal_Banner Blog Apenas

Desista1É muito comum ouvirmos em nosso meio evangélico que o cristão em tudo deve perseverar, que precisa buscar seus sonhos e nunca, sob nenhuma circunstância, desistir. Não creio nisso. Simplesmente porque a Bíblia não diz isso. A perseverança deve ser na santidade e na obediência, sempre. “Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida” (Ap 2.10). Mas, em se tratando de sonhos humanos, isso não se aplica. Lendo as Escrituras, vejo que o cristão deve ter ciência de que, em certas situações, chega um momento em que precisa desistir, abrir mão do que ele quer. Podemos ver muitos exemplos, como o de Jesus, que desistiu de pedir ao Pai que afastasse dele o cálice do sofrimento (Mt 26.36-46). Ou Paulo, que desistiu de orar a Deus pedindo que tirasse o espinho de sua carne (2Co 12.7-10). Sim, há ocasiões em que o Senhor espera que nos conformemos e entreguemos os pontos. Certas esperanças não devem ser alimentadas, em especial porque nosso coração é enganoso e não sabemos muitas vezes qual é a vontade divina. Assim, se o que almejamos difere do que Deus almeja, tenha a certeza: o melhor é desistir. Perca a tua esperança, pois ela está depositada em algo que não condiz com o querer do Senhor.

A pergunta imediata que se segue é: como posso saber se meu sonho está de acordo com que Deus quer? Há dois critérios principais: o que a Bíblia diz e a paz no coração.

A vontade de Deus está revelada nas Escrituras. Então conheça a Bíblia. Estude-a. Veja os princípios que ela defende. Nem sempre há uma resposta objetiva para a sua situação, mas há princípios bíblicos que podem responder teu questionamento e nortear teus sonhos e tuas metas. A resposta nem sempre vem num versículo claro, mas num conceito transmitido ao longo de toda a Escritura. Por exemplo: não existe nenhuma passagem bíblica que fale que não devemos fumar crack, mas há um princípio claro acerca dos cuidados que devemos ter com nosso corpo e com nossa mente. Ou, então, você tem aquela dúvida que assola milhões de solteiros: devo namorar aquela pessoa que não é cristã, na esperança de que ela vai se converter? É para persistir nesse relacionamento ou não? Aí você vai à Bíblia e vê que ela é clara sobre o fato de que esse é um namoro em jugo desigual (2Co 6.14-16), mas a Escritura não te dá a certeza de que o (a) jovem será salvo (a). Na dúvida, vá no certo, desista do erro (até porque Deus não precisa que você namore ninguém para que aquela alma seja alcançada, se o Espírito de Deus quiser salvá-la usará até uma mula).

O segundo critério é a paz no coração. Paulo escreveu: “Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração” (Cl 3.15). Portanto, se você vive uma situação de constante atribulação, é hora de pegar o primeiro retorno e dar no pé. Isso acontece muito, por exemplo, em relacionamentos afetivos. Sabe esses namoros que mais parecem dramalhões mexicanos, com arroubos de sofrimento, fins e recomeços, rompimentos dramáticos e voltas novelescas? Onde está a paz? Se não há paz, não insista, desista. Ou quando tem de fechar um negócio mas fica em agonia sobre se assina o contrato ou não? Ou, ainda, na decisão entre seguir a carreira que vai realizar você ou a que vai te dar dinheiro? Não insista no que agonia, desista.

Desista2Quando comecei a pensar no assunto para escrever este post, calhou que assisti ao belíssimo filme “A vida secreta das palavras”. Durante o longa-metragem, um personagem menciona um livreto curto e exuberante, “Cartas de amor de uma freira portuguesa”, de Mariana Alcoforado, e imediatamente me lembrei que essa obra trata exatamente disso: a necessidade de abandonar sonhos que dominam nosso ser com fúria. Resolvi reler essa pequena coletânea de cartas enviadas por uma freira ao homem que ama, que jamais voltou a encontrar pessoalmente e com quem nunca pôde se casar. A história é real e, naturalmente, a experiência de Mariana tem aspectos nada louváveis em termos cristãos (como você perceberá na leitura), mas a mensagem sobre a importância da desistência em certas situações está lá com uma força sem igual na literatura. Resolvi compartilhar o curto PDF desse livreto. Você pode fazer o download gratuito clicando neste link: < Cartas-de-Amor-de-uma-Freira-Portuguesa >. Minha recomendação é que reflita sobre a trajetória de Mariana, da total esperança à desistência. Em sua última carta, fica claro que desistir da esperança seria a única decisão que daria a ela forças para seguir vivendo. Não sei dizer se a distância do amado lhe trouxe a paz que ela desejava ao coração, mas pelo menos trouxe um tipo de paz meio genérico, catatônico e artificial – porém, suficiente para lhe dar forças para seguir.

Temos de saber a hora de render nossa vontade. Se Deus diz “não”… é não. Se insistirmos no “sim”, só o que conseguiremos é uma vida de sofrimento e dor à espera de algo que jamais chegará.

Recomendo que leia o livreto. É uma leitura que não dura mais que 15 ou 20 minutos. Depois sinta em si o sofrimento e a frustração de Mariana. Em seguida, veja se o melhor não foi ela dar adeus a seu sonho, que alimentou tão desesperadamente por tanto tempo. Por fim, pense se na tua vida há algum sonho que esteja sendo alimentado à toa, porque vai contra o desejo do coração de Deus. Se você tiver a convicção que perseverar nesse objetivo é a vontade do Senhor, vá em frente. Mas… e se não for? Nessa hora, entregue-se em sacrifício vivo ao Senhor e diga: “Seja feita a tua vontade” (Mt 6.10). E, se a vontade dele for que você abra mão de certos objetivos e sonhos, perceba que abandoná-los não significa falta de fé, de fidelidade ou de perseverança: é o cumprimento da boa, perfeita e agradável vontade de Deus e, certamente, é o que te trará felicidade.

Persista. Mas, se não for da vontade do Senhor, desista. E, aí sim, você estará cumprindo a vontade do Senhor. Sabendo que, muitas vezes, a desistência do que você tanto queria pode se tornar a maior bênção da sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Flor1Todos nós vivemos a vida com um certo grau de rotina. Acordamos, fazemos nossas orações, tomamos café, escovamos os dentes, vamos estudar ou trabalhar, voltamos para casa, jantamos, lemos um bom livro, voltamos a dormir. Normal, sem novidades. Mas também todos temos ocasiões em que essa rotina é quebrada por momentos fundamentais, fatos marcantes de nossa trajetória que ficam infinitamente cravados na lembrança ou que mudam para sempre nosso destino. Se eu te perguntasse quais os momentos mais decisivos da sua vida, você me faria uma lista de uns dez a quinze eventos: primeiro beijo, nascimento dos filhos, dia do casamento, noite de núpcias, data em que aceitou Jesus, batismo em águas, primeira viagem ao exterior, o dia em que recebeu o diagnóstico de uma doença mortal. Coisas assim. Sempre acontecimentos como esses compõem a lista dos eventos mais memoráveis de sua vida. Fiz essa experiência com algumas pessoas e, sempre, a lista tem mais ou menos essa quantidade de fatos. Dez, quinze. Em casos raros, vinte. Mas… em tantas décadas de vida, só isso? Como pode alguém ter apenas vinte eventos marcantes ao longo de trinta, quarenta, setenta anos de vida? Pensei um pouco sobre isso e acredito que nossas listas são tão limitadas porque não prestamos atenção à grandiosidade dos pequenos momentos.

Muitas vezes, há instantes que nos passam despercebidos, mas que são extremamente significativos. Aquele por do sol de beleza indescritível. O minuto em que você chegou ao ponto final de um livro esplêndido. Aquele café sentado Arpoadorna Colombo do Forte de Copacabana, bem de manhãzinha. O despertar espreguiçado naquele sábado de sol, céu lindo e pássaros cantando na janela. O entardecer de verão, quando as cigarras começam sua sinfonia. O momento em que fica com a cabeça no colo da pessoa amada, em silêncio, só desfrutando da presença. O instante em que leva à boca sua comida preferida, à beira da praia, num jantar de férias. A emoção de ouvir um violino tocar sua música preferida no Theatro Municipal. As lágrimas ao rever pela milésima vez seu filme favorito do Chaplin. O cheiro da sua livraria preferida. Momentos marcantes, essenciais para nossa vitalidade, mas que, por ter aparência de rotina e aspecto de normalidade, não entram na nossa lista dos mais marcantes.

Gostaria de convidar você a repensar os momentos mais marcantes da sua vida. Esqueça os clichês. Comece a analisar a majestade que há na aparente insignificância. E você verá que a tua existência é composta pela soma de uma sucessão de instantes magníficos.

Se você parar para pensar, verá que foi de pequenos eventos que grandes acontecimentos surgiram na história da humanidade. De instantes como outros quaisquer brotaram fatos que mudaram os rumos da civilização. E na sua vida? Você consegue identificar como momentos de aparente pequena importância definem os rumos da sua trajetória? Se consegue, valorize-os.

Às vezes faço um exercício de imaginação. Penso que sou um morador de Jerusalém, dois mil anos atrás, saindo de casa num dia normal e passando ao lado de um local onde criminosos rotineiramente eram executados. Eu poderia estar com pressa, atrasado para um compromisso qualquer, e mal daria atenção para mais aqueles dentre tantos criminosos mortos pelo Império Romano. Seria uma cena comum em um dia comum, entre tantos dias comuns. Nem olharia direito para a crucificação, preocupado com o grande evento da Páscoa, que ocorreria dia seguinte. Aquilo sim seria algo importante. Aquela crucificação era irrelevante. Agora, para você, que conhece a história toda, eu pergunto: era mesmo?

É num dia como outro qualquer que você conhecerá o único amor da sua vida. É numa noite comum que você comporá aquela música que entrará na história das artes. É do nada, quando você menos espera, que seu filho dirá a primeira palavra. É numa manhã chata que você descobre que passou para a faculdade que queria. É num período entediante que toca o telefone e é aquela pessoa querida que você não vê há anos. Todos momentos rotineiros. Todos momentos especiais. É numa noite chuvosa e incômoda que você verá o filme mais emocionante de sua vida. É num passeio qualquer que você verá a flor mais bela que já viu. Parece pouca coisa, papo de poeta meloso? Não para quem sabe apreciar a beleza que Deus semeou em cada pequeno dente de leão que flutua ao sabor do vento.

Arpoador1A Bíblia usa três imagens para definir nossa vida. Diz que ela é como uma neblina (Tg 4.14), como um sopro e como uma sombra que passa (Sl 144.4). Meu irmão, minha irmã, nossa vida terrena se esvai numa rapidez inexplicável. Quando você se dá conta, já é um idoso. Assim, num estalar de dedos. Os dias voam. Preste atenção nos minutos aparentemente insignificantes de sua vida. E viva-os ao máximo. Não desperdice um segundo sequer, pois você corre o risco de chegar ao fim da caminhada lamentando tudo o que poderia ter vivido e não viveu, porque ficou esperando eventos grandiosos e acontecimentos espetaculares enquanto podia ter saído da inércia para viver de forma destemida cada segundo da jornada. Se você tiver a coragem de não desperdiçar seus dias sobrevivendo um após o outro, como quem vira páginas de um livro desimportante, aí sim sua vida terá valido a pena.

Viva em plenitude cada momento, mesmo aqueles que parecem sem função. Se fizer isso, sua jornada nesta terra será marcada pela permanente grandiosidade das pequenas coisas.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Deus1Espanta-me muitas vezes a forma como certos cristãos falam sobre Deus e as coisas pertinentes a ele. Usam de uma frieza e de uma dureza que me soam como se o Senhor fosse alguém destituído de sensibilidade, de afetos, de amor. Tratam do evangelho como um martelo de ferro batendo em rocha dura, passando a imagem de que o Criador é alguém frio e calculista, como um daqueles vilões de filmes de Chuck Norris, que matam impassíveis montes de pessoas sem mexer um músculo do rosto. Um Deus de pedra. Um Deus estátua-de-gelo, com peito oco e alheio a toda forma de sensibilidade. Gosto de ver o Senhor como um poeta. Não por fazer poetismos melosos e sem função, mas por ter atributos típicos dos poetas: sua grande veia artística, seu enorme coração, sua capacidade de ver beleza onde há aridez, sua habilidade de transformar realidades difíceis em palavras expressivas, e seu amor sem fim – expresso em sua graça, em sua misericórdia, em sua compaixão.

Quando me lembro que Deus foi quem soprou cada uma das palavras dos Salmos no coração e na mente dos salmistas me encanto com seu espírito criativo. Quando me recordo que de seu interior nasceu o Cântico dos Cânticos e aquelas porções da Bíblia que os teólogos gélidos preferem esquecer que existem vejo um ser que pulsa em emoção. Quando leio que Jesus curava os enfermos “movido por íntima compaixão”, enxergo um Cristo mais amoroso do que os poetas mais parnasianos. O mesmo Jesus que chorou ao ter sua sensibilidade entranhavelmente abalada pela dor dos amigos do Lázaro morto, incapaz de permanecer alheio ao sofrimento dos que amava, mesmo sabendo que traria o defunto de volta da morte. Poetas são assim: choram com muita frequência.

Deus2Aliás, por falar de amor, fico profundamente comovido ao ler que o Todo-poderoso nos enviou o Filho pelo fato de nos ter amado. E não amado de um modo qualquer. Amado… “de tal maneira”. Ou seja: amou de forma rasgada, desbragada, entregue e devotada. Meu irmão, minha irmã, nós, que fomos resgatados pela graça e o amor do Senhor, somos a sua poesia. Ele nos compôs impulsionado pelo amor mais extraordinário já visto. Como as linhas de uma canção de amor, nascemos de sua inspiração, fomos idealizados em sua mente e acabamos concretizados como as palavras mais lindas do Verbo que se fez carne e que, de poeta, se faz poesia.

Deus sente. Deus sente, meu irmão, minha irmã. Que lamentável é vermos quem enxergue o Senhor de modo tão estático, frio e impassível como uma estátua. Em outras palavras, como um ídolo de barro.

Encanta-me saber que Jesus mandou que olhássemos para as flores quando quis falar do cuidado de Deus com nossas necessidades. Ele não teceu um tratado teológico cheio de notas se rodapé, paradigmas, cosmovisões, tabelas e gráficos explicativos. Simplesmente mandou que olhássemos para os lírios do campo. Que extraordinário! Profundas realidades espirituais em forma de poesia. “Você está preocupado? Olhe para as flores…”, disse o Mestre, com a simplicidade de um soneto.

Deus3Louvo a Deus por, ao nos fazer à sua imagem e semelhança, ter posto em nós lascas do gigantesco Espírito poético que ele tem. Porque a poesia não é um atributo de origem humana e seria muita petulância achar isso. O que temos de sensibilidade e arte é uma tênue reprodução daquilo que pulsa no coração do Senhor. A Bíblia que eu leio me mostra um Deus poeta. Sensivel. Criador. Criativo. Amante da beleza. Artístico. E que fez questão de inserir muita poesia na sua Palavra revelada, no livro que revela sua essência – acredito eu que para revelar que no Senhor há poesia. Caso contrário, qual seria a função de haver poesia na Bíblia?

Obrigado, Senhor, pelo dom de sentir. De me encantar. De ver beleza. De chorar ante uma flor, ante uma música, ante o sofrimento de um irmão. Obrigado, Senhor, por ter-se revelado esse poeta tão magnífico. E obrigado, acima de tudo, pela poesia da cruz: dois riscos que se cruzam e trazem na sua interseção um coração sangrando de tanto amar.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Alem1Você quer evoluir na sua espiritualidade? Quer crescer em intimidade com Deus? Quer aprender mais da Palavra? Se você é um bom cristão, provavelmente respondeu sim a todas essas perguntas. Mas será que existe algo que te limite nesse sentido? Algo que te faça achar que não vai conseguir? Ou, de repente, será que você está satisfeito e confortável com sua atual posição espiritual e não vê necessidade de galgar novos patamares? Te convido a refletir sobre isso.

Paulo escreveu em Romanos 12.2 que é condição para experimentarmos a boa, perfeita e agradável vontade de Deus que passemos por um processo de renovação da mente. Renovar significa tornar algo novo… de novo. Ou seja, para conhecermos o coração de Deus precisamos pegar o que já era novo e fazer novo novamente. Interessante pensar nisso.

É importante refletir sobre essa questão porque existe uma ideia equivocada entre nós. Achamos que, uma vez que tudo se fez novo na conversão, nunca mais é preciso mudar nada. Está feito. Conversão ocorrida, aprendemos os conceitos cristãos e pronto. Agora é só se agarrar ao que nos ensinaram, carregar esse vinho velho nas costas até a hora da nossa morte e tudo está bem. Só que, na verdade, não está. Romanos 12.2 que o diga.

Alem3A caminhada no evangelho pressupõe uma constante reavaliação de crenças, valores, conceitos, ideias. É a Igreja reformada sempre reformando – e a Igreja somos eu e você. A maior parte do que você aprende no seu primeiro ano pós-conversão descobrirá depois que eram introduções, verdades parciais ou mesmo erros. Era leitinho, alimento para quem dá os primeiros passos. A maturidade espiritual clareia muito essa percepção e muda tudo. Só que existe uma ideia que emperra a evolução de muita gente: a de que certas coisas não devem mudar ou não devemos aprender nada novo. Já ouvi frases como “não podemos pregar que passagens como Marcos 16 ou o trecho da mulher adúltera de João 8 não estão em muitos dos manuscritos originais da Bíblia, porque o povo não entenderia”. Bobagem. Tudo o que é bem explicado e vem para edificação pode ser compreendido – e, logo, deve ser ensinado. Temos de ensinar a verdade, na certeza de que absolutamente todos podem aprender, se desenvolver, crescer, mudar do leite para a comida espiritual sólida.

Recentemente tive uma experiência que mostrou com muita clareza o quanto subestimamos as pessoas. Gosto muito de ópera. Ouço óperas com muita frequência. Uma certa pessoa de meu círculo de relacionamentos desde que a conheço só ouvia músicas bem bobinhas, simples, para não dizer infantis. Eu a achava incapaz se gostar de algo mais profundo e elaborado. Alem4Semana passada eu estava junto com essa pessoa e resolvi assistir no computador à opereta “I Pagliacci”, de Rugero Leoncavallo. Achei que ela não fosse dar a mínima, ou mesmo reclamar. Para minha surpresa, essa conhecida fixou os olhos na tela e começou a prestar muita atenção. Passou a fazer montes de perguntas sobre a história, os personagens, a música. Fiquei empolgado. Nunca imaginei que ela pudesse gostar daquilo. Perguntei se estava apreciando. Disse que sim. Então propus que víssemos algumas partes da minha ópera favorita: “Carmen”, de Georges Bizet. Ela assentiu. Assistimos juntos a muitos trechos. O ápice foi quando, para meu assombro, chegou a ária “La fleur que tu m’avais jetté”, cantada pelo excelente tenor Jonas Kaufmann (o vídeo da ária está ao final deste post). Fiquei de queixo caído ao perceber que ela visivelmente se emocionou e, ante meu olhar estupefato, disse:

– Gostei. Quero ouvir de novo, papai.

Sim, essa pessoa era minha filhinha de 2 anos. E eu, que só dava “Patati Patatá”, “Homenzinho torto” e “Galinha Pintadinha” para ela ouvir… descobri que ela é capaz de apreciar ópera. E, creia: por quase duas horas ela ficou sentada no meu colo, sorvendo o que há de melhor nessa arte tão bela e sensível. Eu explicava tudo, o que era a orquestra, o som de cada instrumento, os cenários, a trama, técnicas vocais, o que é canto lírico… enfim, expliquei muito para alguém que eu achava que não entenderia nada. E anteontem, dois dias depois dessa experiência, ela chegou da creche e disse que queria assistir a óperas. Não desenhos animados: óperas. Essa experiência me mostrou como, muitas vezes, nós é que não levamos fé nas pessoas. Qualquer um é capaz de nos surpreender. De aprender. De se renovar. De evoluir. De coisas grandiosas. Você também.

alem5Pode ser que você acredite (ou alguém tenha feito você acreditar) que não dá para ir além de onde já chegou. Talvez, até, você mesmo creia que não precisa ir além, que está tudo bem como está. Que não precisa mudar, renovar a mente. Se é o caso, saiba que Paulo discordaria. Escute e escute bem: você pode ir muito além de onde já chegou. Pode ganhar muito mais conhecimento bíblico, teológico, histórico. Pode mergulhar muito mais profundamente na sua espiritualidade. Pode ter uma vida de oração bem mais sólida, uma rotina de estudo bíblico mais aprofundada, uma intimidade muito maior com Cristo. Você duvida? Bem, eu duvidava que minha filha de 2 anos trocasse a “Galinha Pintadinha” pela “Habanera”, de Bizet.

Nada é impossível. É desejo de Deus que você renove sua mente e cresça em sua devoção e em sua espiritualidade. Esse seria também o seu desejo? Então prepare-se para descobrir um mundo novo dentro da sua fé, porque, quando o desejo do seu coração encontra o desejo do coração de Deus, o resultado é uma harmonia espiritual com a beleza e a complexidade de uma ária de ópera.

Meu irmão, minha irmã, não fique estagnado, seja por que razão for. Se você se acha incapaz de crescer espiritualmente, saiba que tem toda a capacidade do mundo para isso. Se te disseram que não precisa evoluir, afirmo que não é verdade. Seja lá o que faz você permanecer estagnado onde está, saiba que, em Cristo, você pode ir muito além. Levante a âncora e se lance ao mar, reme com vontade. O resto deixe com os ventos do Espírito Santo de Deus, que te levará a novas, produtivas e emocionantes aventuras por oceanos que você nem sabia que poderia vir a conhecer.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Locus1Gosto muito de ler as passagens dos evangelhos que falam sobre quando Jesus buscava afastar-se da multidão, distanciar-se do vozerio, abrir espaço para os pensamentos e se isolar. Ele seguia, então, para algum monte, um jardim, um local afastado, calmo, de paz. É senso comum que ele ia a esses lugares para poder orar com mais tranquilidade. Gosto de pensar que havia outras razões para o Cristo buscar o isolamento e esses locais bucólicos: o silêncio. A quietude. A solitude. Nesses lugares especiais, ele conseguia, imagino eu, se desligar de tudo ao seu redor, ouvir o sussurro de sua alma, o pulsar de seu coração, o suave cicio de suas vozes mais interiores. Creio que ali ele se recompunha, reduzia o ritmo da respiração, buscava na poesia do silêncio a clareza de pensamentos, a sinceridade de sentimentos e a absoluta honestidade do seu coração. Esses lugares aonde Jesus ia têm um nome: locus amoenus.

Esse termo vem do latim e significa “lugar ameno”. Em resumo, é um elemento da literatura bucólica – ou poesia pastoral – o tipo de texto que exalta a vida campestre e a natureza. É bem característica de um estilo literário chamado arcadismo. Faz parte do grupo de conceitos que incluLocus2em, por exemplo, o fugere urbem (a proposta de fuga da vida urbana) e o carpe diem (algo como “faça este dia valer a pena”). O locus amoenus seria, assim, uma proposta de escape da vida burguesa pragmática e estereotipada, repleta de valores rasos, superficiais e que têm a ver mais com a subsistência e a rotina maçante da penosa existência cotidiana do que com uma vida plena de significado, mais simples, poética e bela. Representa a satisfação pela felicidade e é uma grande metáfora de um estado de espírito onde reside o amor, a paz, a quietude.

O locus amoenus é a representação exterior daquilo que almejam cultivar no interior de sua alma as pessoas que buscam dar um passo além da frieza da vida rotineira e pasteurizada. É uma grande metáfora da alma.

Locus3Gosto do silêncio. Talvez pelo fato de meus pensamentos constantemente gritarem muito alto (à minha revelia) e viajarem de forma incontrolável a milhares de quilômetros por segundo, valorizo demais os momentos de solitude, paz e reflexão. É a hora de suspirar fundo e ouvir a doce sinfonia do nada. É como deitar numa rede em uma noite escura, fitar a vastidão do espaço e ficar olhando dentro dos lindos e profundos olhos negros do infinito. E cada vez mais tenho valorizado esse estado de espírito, intimamente relacionado a lugares especiais. Tenho o meu locus amoenus, um lugar onde você se senta em uma rocha, ouve o mar acariciar as pedras, vê o sol se pôr num degradê entre o lilás e o carmesim e procura deixar o vento ser a única voz a sussurrar no seu ouvido.

Aliás, a única não.

O locus amoenus abre em si a possibilidade de ouvirmos com mais clareza a voz de Deus. Nos calamos para os pragmatismos e as inutilidades tão marketeadas da existência e, assim, conseguimos ouvir o calmo som da estrondosa voz divina no espaço vazio que se forma em nossa mente, nosso coração, nossos sentidos. A verdade é que tenho descoberto Deus cada vez mais no silêncio.

Sabe aqueles dias em que parece que você precisa gritar? Pôr pra fora multidões de sentimentos reprimidos, frases não ditas, palavras arquivadas em algum canto do seu superego, lágrimas que precisa derramar ou morre? Em que parece que ou você grita ou explode? Pois, diante de certas impossibilidades, o locus amoenus pode ser uma câmera de descompressão perfeita. Se você não tem um lugar como esse, minha recomendação é que – para o bem da tua alma – descubra um. Para onde, assim como o Mestre, você possa se retirar, silenciar, refletir e… sentir.

“Compeliu Jesus os seus discípulos a embarcar e passar adiante para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidão. E, tendo-os despedido, subiu ao monte para orar. Ao cair da tarde, estava o barco no meio do mar, e ele, sozinho em terra” (Mc 6.44-47). Jesus deixa todos. Sobe o monte, sozinho. E traz consigo a placidez da solitude à praia – sozinho.

Locus4A passagem que mais me mostra o quanto Jesus valorizava o locus amoenus é Marcos 14.32-36:
“Então, foram a um lugar chamado Getsêmani; ali chegados, disse Jesus a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou orar. E, levando consigo a Pedro, Tiago e João, começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia. E lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai. E, adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra; e orava para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora. E dizia: Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres.”

Repare: Jesus padecia de pavor e angústia e sua alma estava profundamente triste até à morte. Ele estava confuso, abalado, sem perspectivas, sem direção. Em sua mente, um peso de pensamentos e incertezas. Em sua alma, dor. Em seu coração, um vazio. Mas, em seu espírito, esperança. E foi no locus amoenus que ele buscou a paz.

Tenha um locus amoenus só para você ou para compartilhar com alguém que seja importante em sua vida. Nas horas de maior angústia e aflição, vá até lá. Sente-se. Acalme-se. Sinta a brisa. Deleite os olhos. Ore. Deixe morrer o pavor, a angústia. Recupere o prumo. E tenha em mente algo muito importante: o locus amoenus não precisa ser, necessariamente, um lugar. Na verdade, creio que o melhor locus amoenus de todos é, isso sim… uma pessoa. Aquela em cujos braços você se aconchegará, fechará os olhos, dará um suspiro e, enfim, encontrará a paz: Jesus de Nazaré.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício