Arquivo da categoria ‘Igreja Emergente’

leoesPeço desculpas a você que acompanha o APENAS, pois escrevo sempre aqui no blog com a intenção de edificar, exortar ou consolar a sua vida, mas, hoje, gostaria de abordar um assunto que tem ferido a minha alma. Já explico, mas, para chegar ao ponto principal da minha reflexão, antes tenho de apresentar alguns argumentos. Se você tiver paciência de ler até o final, sigamos juntos. O fato é que, já há alguns anos, algo tem me incomodado muito. Mas muito. Muito. Demais. A desunião da Igreja de Jesus Cristo em nosso país alcançou patamares elevadíssimos. Para mim, preciso dizer, insuportáveis. Viramos uma família abençoada, porém, em enorme parte, problemática. Por mais que me doa muito dizer isso, nós, evangélicos, somos um povo desunido. O que ainda não é o pior: não satisfeitos em vivermos entre inimizades, porfias, […] discórdias, dissensões, facções” (Gl 5.20), tratamos os irmãos em Cristo de quem discordamos com um nível de agressividade, arrogância, desrespeito e falta de amor que considero espantoso para quem segue Jesus.

Essa constatação, atrelada à angústia que ela provoca, já me acompanha há um bom tempo. Quando abandonei as redes sociais, há uns dois anos, fiquei bem melhor, pois parei de ter acesso a muitos dos debates, videos, textos, vlogs e posts que promovem a segregação e o esquartejamento do Corpo de Cristo. Com o lançamento de meu livro Perdão Total, em outubro passado, retornei ao facebook por orientação da editora, como forma de manter o diálogo com leitores e irmãos a quem porventura eu pudesse vir a abençoar pelo que escrevo. Nesse sentido, foi ótimo, pois de fato foi possível interagir, conhecer novas pessoas, ter diálogos interessantes, divulgar a mensagem do perdão e da restauração. Mas isso teve um efeito colateral, um preço a pagar: voltei a ter acesso a posts, comentários, vídeos, vlogs e tudo o mais que, em nome “de Jesus”, da suposta “sã doutrina” e da “apologética”, promove dissensão, a compartimentalização e a ira entre as diferentes facções da Igreja. 
ovelha 1Assim, tenho visto calvinistas numa discussão eterna com arminianos, com troca de acusações, desrespeito e ofensas dos dois lados. Também cessacionistas em discussões antigas e insípidas com pentecostais. Ou, ainda, pedobatistas e credobatistas se pegando nos ringues virtuais. Adeptos da Missão Integral e adversários da Missão Integral quase comendo o fígado uns dos outros. Gente que não crê que Deus está no controle de tudo gritando e salivando contra quem crê que Deus está no controle de tudo e quem crê respondendo com igual ímpeto. Isso além de muitos outros grupos divergentes. Tudo “em defesa da sã doutrina”, claro.
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Sabe o que percebo que há em comum a todos esses grupos que polemizam na Internet e outros ambientes? São irmãos em Cristo tratando irmãos em Cristo com desrespeito, desamor, doses de agressividade, muita arrogância e outras posturas que são características do mundo, não de filhos de Deus – claro que, como acreditam estar fazendo isso em nome da sã doutrina, os que entram nesses debates creem que tudo podem, que o Senhor lhes dá carta branca para serem pessoas desagradáveis, já que acreditam verdadeiramente que o estão “defendendo”. Agem, talvez sem perceber, não segundo o  amor que o evangelho propõe, mas segundo a máxima do filósofo Maquiavel: “o fim justifica os meios”.
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Nas divergências, me assombro com a forma com que os “defensores da sã doutrina” atacam quem eles acreditam estar errados. Cheguei a ver irmãos em Cristo criticando irmãos em Cristo de quem discordam usando elogios como “paspalho”,  “idiota” e “palhaço”. Estou estarrecido com o que tenho visto e profundamente abatido por ver que meus irmãos acham que isso é justificável. Não é. É um absurdo bíblico. Só para lembrar: “Quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.22). Ou Jesus não quis dizer o que disse? Que outra interpretação haveria?
leos 2Repare que não estou falando de cristãos criticando hereges. Refiro-me a cristãos que discordam de cristãos. É briga familiar. Irmão contra irmão. Caim e Abel dos dias atuais. Se já me choco quando vejo a maneira horrível e mundana como muitos irmãos em Cristo tratam hereges e pessoas que discordam do evangelho, quanto mais quando observo as brigas entre os irmãos na fé. Muitos dos que põem o dedo na cara dos hereges falam deles com ira, chacotas, sarcasmo e ódio, muito ódio, em suas palavras e, naturalmente, no coração. “O que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem” (Mt 15.18). Sempre que vejo, leio ou ouço, por exemplo, cristãos falando de forma agressiva e cheia de ódio contra quem considera inimigo da fé, lembro-me do que Jesus nos ordenou: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?” (Mt 5.43-46). Se recebemos de Jesus o mandamento de amar os inimigos (e nunca vi tratar mal, xingar, ofender, desrespeitar ou agredir quem se ama), os inimigos da fé não se encaixariam na categoria “inimigos”? Ou inimigo não significa inimigo? Então não deveríamos tratá-los com amor? Jesus não quis dizer o que disse? Ou “não é bem assim”?
dallas willardMuitos cristãos acreditam que a defesa da fé (contra hereges ou contra cristãos dos quais se discorda) deve ser feita com agressividade, com testosterona, como cruzados numa batalha. Agem como zelotes, guerreiros da sua “sã doutrina”. Então, para os tais, vale tudo, inclusive tratar de quem discordam por nomes desrespeitosos e agredi-los da forma que der. Confesso que há alguns anos eu acreditava nisso também. E agi dessa forma, reconheço o meu pecado. Mas, então, fui percebendo o absurdo e o mundanismo presente nessa postura. Até que, há alguns meses, li a obra The allure of gentleness (“O fascínio da gentileza”, numa tradução livre), livro póstumo de Dallas Willard (foto), onde ele prova que a defesa da fé (com relação a hereges e também a cristãos de quem se discorda) para dar resultados tem de ser feita com educação, polidez, afeto e respeito. O que li foi a gota d’água para revolucionar de vez minha visão sobre o assunto. Hoje, meu estômago embrulha quando leio, vejo ou ouço qualquer cristão “defender a fé” com agressividade, altivez, ofensas, termos deselegantes, xingamentos e petulância – sempre “em nome de Jesus”, claro.
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Não é possível que as pessoas não percebam que algo feito em nome de Jesus mas que contraria o caráter de Jesus… tem qualquer origem, menos Jesus.
boko haram 1Venho observando e suportando tanta divergência feita sem amor por esses últimos quatro meses sem falar nada, mas, semana passada, aconteceu algo que me lançou em uma reflexão profunda e me conduziu a este desabafo. Por algumas razões, passei a buscar informações sobre a perseguição sangrenta e cruel que vem ocorrendo em nossos dias contra os cristãos em determinados países do mundo. Não sei se você sabe disso, mas nossos irmãos e nossas irmãs em Cristo estão sendo mortos como porcos em muitas nações dominadas pelo Isam. Hoje. No exato momento em que você está lendo este texto, confortável e despreocupadamente, milhares de irmãos na fé estão sendo estuprados, desapossados de seus bens, vendidos como escravos sexuais, espancados e assassinados. A forma preferida de matança de cristãos, por serem cristãos, é a decapitação.
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O grupo terrorista Estado Islâmico tem dizimado todo e qualquer cristão que encontra pelo caminho em países como Síria, Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Chipre e Turquia. E isso por enquanto, logo eles estarão em outros países. Talvez o Brasil. O Estado Islâmico obriga as pessoas que vivem nas regiões que controla a se converter ao islamismo, e aqueles que se recusam sofrem torturas, mutilações e estupros. E são executados.
boko haram 2Na Nigéria, o problema é semelhante. A organização Boko Haram (expressão que significa “a educação ocidental ou não islâmica é um pecado”) é um grupo  fundamentalista islâmico de métodos terroristas, que busca impor a lei muçulmana no norte do país. O Boko Haram opera com caminhões e carros blindados, cerca vilas cristãs e mata a população inteira, além de sequestrar e estuprar todas as meninas. Vídeos têm sido divulgados pela internet e mostram pastores e membros de igrejas sendo decapitados por espadas, simplesmente por ser cristãos e se recusar a negar sua fé. Volto a dizer: isso está ocorrendo agora, hoje, nesta época da história e debaixo do mesmo sol que eu e você. No exato mesmo segundo em que cristãos aqui no Brasil se ofendem e entram em discussões mal-educadas por questões secundárias da fé; em países como Nigéria, Síria e Jordânia pastores e membros estão sendo postos de joelhos e decapitados por espadas. As imagens são tão terríveis que foi difícil encontrar fotos para ilustrar este post que fossem publicáveis, a maioria é de embrulhar o estômago.
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E, finalmente, quero chegar ao ponto principal de tudo o que escrevi aqui. Eu li muitos textos e assisti a uma grande quantidade de vídeos sobre a perseguição e a devastação imposta a esses milhares de irmãos pelo Estado Islâmico e pelo Boko Haram. Sabe o que mais chamou minha atenção? Em nenhum deles, em nem um único sequer, vi qualquer designação desses mártires da fé que não fosse cristãos. Nenhuma manchete de jornal escreveu algo como “Reformados são assassinados” ou “Estupradas a meninas que se opõem à Missão Integral”. Tampouco “Milhares de pentecostais decapitados na Nigéria”, nem “Vilas de cessacionistas são invadidas por terroristas”. Ou “Batistas e presbiterianos são caçados por islâmicos, mas pentecostais e metodistas não”. Nada disso. O que leio é “Cristãos são mortos…”; “Cristãs são estupradas…”; “Cristãos foram decapitados…”. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos. Cristãos.
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Sabe a que conclusão cheguei? Quando vem a perseguição, todas as discussões sobre assuntos secundários deixam de importar. Os bate-bocas denominacionais desaparecem. As rusgas doutrinárias evaporam. Se a sua cidade for invadida por radicais islâmicos, você não vai dar a mínima para as questiúnculas periféricas que nos dividem e jogam irmão contra irmão. Assim como duvido que os cristãos de Iraque, Nigéria, Síria e outros países que sangram pela perseguição estejam dando a mínima para isso neste momento. Eles só sabem que são filhos de Deus e irmãos em Cristo. Porque, no instante em que o principal é posto no foco, as questões periféricas e menos importantes da fé desaparecem.
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O que sobra é o centro de tudo: a cruz. Nessas horas, nos lembramos dos temas fundamentais da fé, como amor a Deus e ao próximo, graça, perdão, restauração, evangelismo, negar-se a si mesmo, vida eterna, fruto do Espírito e tantos outros que permanecem esquecidos por muitos em tempos de paz.
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Eu tenho pavor que isso aconteça, mas a história das perseguições religiosas ao longo dos séculos mostra que a perseguição une, purifica e derruba as divisões da Igreja. Não que eu queira o Estado Islâmico ou o Boko Haram invadindo Copacabana, Deus nos livre! Jamais desejaria isso. Mas, no rumo em que estamos, seria uma das poucas coisas que poderiam remover os rótulos inúteis e unir, aqui no Brasil, as denominações, os adeptos das distintas linhas teólogicas e doutrinárias, os diferentes grupos soteriológicos, os que professam ideologias cristãs diferentes, os que divergem em assuntos periféricos e menos importantes da fé. As igrejas de países como Nigéria, Síria, Iraque e Jordânia que o digam.
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Não importa se você é batista, presbiteriano, pentecostal, anglicano,  metodista, cessacionista, emergente, pedobatista ou o que for. Se você foi alcançado pela graça divina, crê em Jesus como Senhor e Salvador pessoal e vive em piedade, passará a eternidade na presença de Deus, em novos céus e nova terra. E, sinceramente… você acha que qualquer uma dessas coisas importará lá? Então fica aqui a minha recomendação: importe-se aqui com o que importa na eternidade.
boko haram 5Desfrute da liberdade que você tem. Mas faça isso todos os dias como se vivesse num país em que te cortariam a cabeça só de saber que você é cristão. Porque, aí, todo rótulo deixará de importar e você poderá se orgulhar de ter como título simplesmente… cristão. Um cristão que ama e une e não um que promove a discórdia e polêmicas que gerarão bate-bocas e nenhum benefício. E peço a Deus de todo o meu coração que jamais seja preciso que seu pescoço esteja encostado na lâmina de uma espada para que isso aconteça.
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Amemo-nos. Unamo-nos. Deixemos de lado as rusgas sobre aspectos secundários da fé. Vamos dar as mãos naquilo que nos une, voltar os olhos para a cruz e começar, de fato, a amar o próximo. Sejamos, de fato, irmãos. Deus estende sua graça salvífica para um único tipo de pessoas: pecadores perdidos. Ou seja: antes de sermos salvos éramos todos iguais. Por que depois de sermos salvos temos de começar a nos segmentar, odiar, atacar? Pentecostais, tradicionais, cessacionistas, continuístas, pedobatistas, credobatistas, calvinistas, arminianos etc., etc., etc… nada disso importará no dia em que virmos Jesus face a face. O que Deus verá nesse dia é se temos o sangue do Cordeiro aspergido sobre nós. Somos todos cristãos, somos todos irmãos: que comecemos a agir como tal, para que cumpramos a oração de Jesus a nosso respeito. “Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um” (Jo 17.11).
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Paz a todos vocês que estão em Cristo,
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Justo1“Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Esse pequeno trecho da carta de Paulo aos romanos deveria ser alvo de reflexões diárias de todo cristão. Mostra que toda a humanidade faz parte do mesmo grupo de indivíduos: gente imperfeita, errada, pecadora e desesperadamente carente de Deus. Da cruz. De Cristo. Ninguém é justo por si mesmo, mas somos feitos justos por meio do sangue de Jesus. Essa percepção deveria nos levar a uma posição de extrema humildade e misericórdia; afinal nenhum de nós é melhor do que o outro. “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Meu irmão, minha irmã, eu e você somos culpados de transgredir toda a lei de Deus. Toda. Consequentemente, não somos melhores que o ladrão da cruz, Pilatos, Judas, os fariseus, Herodes, Charles Manson, Adolf Hitler, Mussolini… quem você quiser. Aliás, eu, você, seu pastor, o líder de jovens da sua igreja, os cantores mais famosos, os líderes da sua denominação, a dirigente do círculo de oração, madre Teresa de Calcutá… não importa: estamos todos no mesmo barco, que mina água todos os dias e afunda no mar de pecados. A salvação está exclusivamente em Jesus. Só. Ele é o único caminho. O único justo por mérito próprio. Ser humano nenhum vale alguma coisa por mérito pessoal, o enorme valor que temos vem por graça, justificação, misericórdia, adoção, concessão divina. Nosso valor não é uma característica inata, é um presente que recebemos. Somos galhos secos, o que temos de bom vem da seiva que corre para nós a partir da árvore em que fomos enxertados: Cristo. Uma leitura recente me fez enxergar isso com uma clareza ainda maior do que antes.

David Yonggi ChoAo ler o último exemplar da revista Cristianismo Hoje, me deparei com reportagens que me chamaram a atenção. Primeiro, o pastor sul-coreano David Yonggi Cho (foto), líder da maior igreja evangélica do mundo, a Yoido Full Gospel Church, foi preso e condenado a três anos de prisão pelo desvio do equivalente a R$ 30 milhões da igreja. Ele admitiu que cometeu o crime “movido pelo interesse de suprir dificuldades financeiras da obra missionária”. Segundo, o papa católico romano Francisco confessou publicamente que furtou um crucifixo do corpo de um colega morto, em pleno velório, quando era bispo em Buenos Aires. “Enquanto espalhava as flores, peguei a cruz que estava sobre o rosário”, admitiu.

Em comum, as duas histórias nos falam de líderes religiosos (independente da teologia ou doutrina que professam) que são referência em suas linhas de atuação e exemplos para seus seguidores e que cometeram pecados que nenhum de nós esperava que cometessem. Muita gente fica chocada ao tomar conhecimento de situações como essas. Ouço comentários do tipo “como pode, mas logo ele!”. A mim, porém, nada disso espanta. Pelo simples e bíblico fato de que, assim como eu e você, todos os líderes religiosos são pecadores, cometem atrocidades, acertam e erram, escorregam e caem. Pois são humanos. Necessitam diariamente de perdão por seus pecados. São iguaizinhos a mim. E a você.

Justo2Cada vez que leio relatos como esses, simplesmente me entristeço e penso “É, a Bíblia está certa mesmo”. Somos pó. Nossa natureza humana é má. Precisamos desesperadamente de Jesus de Nazaré. Vejo grandes homens de Deus confessarem pecados que comprovam que são simplesmente homens e isso me leva a ouvir com cada vez maior tristeza discursos de pessoas que se consideram cristãos mais santos do que outros e que, por isso, falam do próximo com superioridade. A queda de gigantes me mostra que devemos sempre amparar-nos, do maior ao menor, pois estamos todos no mesmo nível. Dos que ocupam os mais elevados cargos na hierarquia eclesiástica aos iniciantes na fé, todos equivalemos: somos aglomerados de pele, ossos, sangue e pecados e carecemos da piedade de nossos irmãos e da misericórdia de Deus. Todos exalamos o odor da desobediência e precisamos desesperadamente do perfume de Cristo.

Entenda que a compreensão acerca de nossa falibilidade não deve nos tornar abertos ao pecado ou confortáveis com ele. A transgressão à vontade divina deve ser sempre evitada, precisa constantemente ser alvo de nossas pregações, exortações e alertas. Sempre. Sempre. Sempre. Santidade não se negocia. O que considero triste é a postura de superioridade que alguns de nós assumem, por se considerarem espiritualmente menos falíveis do que os outros. E não tenho o olhar entristecido para essa postura a partir de mim mesmo: sigo o exemplo de Jesus, que criticou diversas vezes a hipocrisia dos mestres da lei e fariseus durante seu ministério terreno. O que Cristo sempre denunciava nesses doutores da teologia era a hipocrisia: serem pecadores não arrependidos e ficarem rebaixando, discriminando e atacando outros pecadores. É a velha história da trave e do cisco no olho, que você já conhece. E hoje, dois mil anos depois, a história se repete.

Justo3Quando leio relatos da queda de homens de Deus, meu coração rasga. Não só pelo pecado em si desses líderes, mas por ver muitos e muitos irmãos que – inacreditavelmente – parecem se alegrar com a queda deles. Como se tombos alheios valorizassem estarmos de pé. Podemos, por favor, chorar por eles? Será que você consegue orar por cada indivíduo pecador como você e pedir ao Santo dos Santos que os restaure e use de compaixão para com suas vidas? Se eles fossem membros da sua igreja ou pessoas de sua convivência diária, o que você faria? Será que os procuraria e lhes levaria palavras de conforto, amor, graça e reconstrução? Ou daria as costas, se afastaria, os largaria à própria sorte? A resposta a essa pergunta revela se você vive a hipocrisia ou a piedade – peço a Deus que seja a piedade.

E sempre devemos inserir na equação sobre como vemos esses homens que pecaram o fator arrependimento. Uma vez que cada um deles se arrepende do erro, confessa e deixa o pecado, está perdoado por Deus. Como poderíamos nós não perdoá-los se o próprio Criador os perdoou? Se Jesus foi à cruz por eles? Esses indivíduos, quando restaurados, podem e devem continuar exercendo seu ministério. Continuam sendo úteis para o Senhor. Seus livros continuam sendo valiosos e importantes, sua pregação segue sendo relevante, sua vida e seu ministério não morreram. Se você tem dificuldades de concordar com isso, lembre-se dos seus próprios pecados. Nada disso é graça barata: é graça, em sua essência mais pura e bíblica.

Precisamos compreender que o evangelho não são boas-novas de hipocrisia ou de superioridade: são boas-novas de salvação. Pois o que a cruz nos mostra acima de qualquer outra coisa é que a humanidade é toda perdida, nasceu igualmente destinada à miséria espiritual e só pode encontrar o caminho da paz em Jesus de Nazaré. Isso nos faz elevar os olhos para os montes, para o único que é digno de abrir os selos. Nossa pecaminosidade coletiva destaca a gloriosa pureza do Cordeiro de Deus.

OXYGEN Volume 22Meu irmão, minha irmã, fuja do pecado. Esforce-se no poder de Deus para se libertar de práticas pecaminosas, de pensamentos maldosos e de tudo o que fere o Senhor. Viva uma vida dedicada à proclamação da santidade. Isso é bíblico e é o certo. Mas, em nome de Cristo, viva também uma vida devotada a levar indivíduos a se aproximar de Jesus. E isso não acontece falando mal ou pondo o dedo na cara: Cristo se manifesta por meio do amparo, do auxilio, do aconselhamento, da mútua sustentação, do chorar com quem chora, da piedade, da compaixão, do perdão, da restauração. Não acredito no evangelho do irmão do filho pródigo. Acredito no evangelho do pai do filho pródigo. Comparo a atitude daquele pai com a do seu obediente e leal filho mais velho e enxergo um retrato fiel das nossas atitudes hoje: de um lado, os que abraçam o pecador que retorna; de outro o que se entristece porque o pecador foi restaurado – é mais interessante apenas criticá-lo (afinal, nos sentimos menos pecadores do que ele). Uns querem promover o banquete; outros se recusam a entrar na mesma casa. Um é o evangelho do “Não há justo, nem um sequer”; o outro é a religião do “raça de víboras!”.

Podemos escolher que tipo de cristãos seremos: hipócritas ou graciosos. Jesus foi gracioso e repreendeu os hipócritas. Os fariseus e mestres da lei foram hipócritas e repreenderam o Gracioso. E você, como será?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Já fui vítima de alguns desgraçados erros médicos, que me fizeram pensar muito sobre desgraçados erros bíblicos. Vou contar apenas duas histórias para depois chegar ao ponto. Anos atrás comecei a sentir uma dor forte na sola do pé, que mal me permitia andar. Fui a um centro de reumatologia e ortopedia, daqueles de plano de saúde, onde você tem de ser atendido em dez minutos para que se possa atender muita gente e os donos da empresa faturarem muito. Peguei minha senha, sentei na filinha e esperei minha vez. Depois de muito tempo, me chamaram e entrei no consultório. A médica, sem sair de trás da mesa, perguntou o que eu estava sentindo e descrevi o problema. Sem nem ao menos me examinar ou mandar eu tirar o sapato, ela decretou de sua cadeira: “É fascite plantar, você precisa pôr o pé em água gelada e fazer fisioterapia”. Ela é a médica, eu sou um leigo, logo obedeci caninamente o que ela disse: passei a pôr o pé todo dia em água gelada e a fazer a fisioterapia. Mas a dor não cedia. Pelo contrário: piorava. E piorava. E piorava. Chegou a um ponto em que, não aguentando mais, paguei uma consulta cara com um médico maravilhoso. Ele gastou tempo comigo. Mandou tirar o sapato e a meia, mexeu, apertou, fez diversas perguntas e diagnosticou: eu não tinha fascite plantar coisa alguma, tinha um músculo contraturado. O tratamento: pôr o pé em água quente, a água gelada fazia o músculo se contrair mais e a dor piorar. Com um dia pondo o pé no calor a dor desapareceu.

Ou seja: uma médica inconsequente, despreparada, que não fez o seu dever de casa, não só não resolveu meu problema como ajudou a piorá-lo. E ela tinha todo o aspecto de uma pessoa muito bem capacitada, vestia jaleco e roupa branca, ocupava um consultório numa clínica aparentemente muito bem estruturada. Tinha toda a aparência de deter o conhecimento que me auxiliaria, que me mostraria o caminho. Mas piorou a minha vida. Piorou a minha saúde. Cometeu um erro médico sério, que poderia ter causado lesões piores.

O segundo erro que relato foi ainda pior. Pois foi o erro de 4 médicos, todos com aparência de ter todo o conhecimento, alguns famosos, com nome na praça. Uma baixa de imunidade causada por estresse me fez ter candidíase na virilha. Trata-se de um fungo que todos nós temos mas que, quando as defesas do corpo baixam, isso permite que o fungo ataque seu organismo. Com muita coceira e inchaço, procurei um médico. Ele olhou e me receitou uma pomada que “me deixaria bom em 5 dias”. Apliquei pelo tempo prescrito mas o local continuava inchado. Erro médico número 1.

Como eu viajaria para passar uma semana numa conferência teológica numa cidade pequena e sem muita estrutura, resolvi procurar uma dermatologista, para não ter surpresas desagradáveis durante a viagem. Ela olhou e disse que realmente a doença ainda não havia cedido completamente. “O outro médico não te receitou nenhum antifúngico oral?”, perguntou em tom condenatório. Eu disse que não. Ela então me receitou um comprimido em dose única e mais um antifúngico de aplicação local, que chamarei de X, para aplicar por 14 dias. Foi o que fiz. Erro médico número 2.

Toda vez que aplicava o remédio X sentia o local arder. O 14o dia coincidiu com meu primeiro dia na Conferência, uma 2a feira. No dia seguinte, quando bati os olhos no local da doença fiquei apavorado: estava cheio de bolhas, inchaço, feridas em carne viva e sangrando. Tremi. Descobri junto ao plano de saúde o único hospital da cidade onde havia atendimento de emergência. Corri para lá e fui socorrido por um clínico geral. Contei a história toda. Ele examinou o local e disse que poderia ser herpes. Falou com uma tranquilidade assombrosa que eu poderia ter HIV. Mandou passar somente uma pomada no local “até melhorar”, pomada que na verdade é um coquetel de antibióticos e antifúngicos. Erro médico número 3.

Voltei na 6a feira ao Rio e já sábado de manhã procurei um especialista, pois em 5 dias não havia aparência de melhora. Novamente contei a história toda. Ele olhou o local e disse que achava que era herpes. Mandou tomar aciclovir e continuar passando a mesma pomada. Erro médico número 4.

Quando chegou na 5a feira seguinte, sem nenhum sinal de melhora, já cansado emocionalmente e cheio de dores, decidi procurar mais um médico. E graças a Deus que o fiz. Contei a via-crúcis inteira, ele examinou o local e disse: “A médica te passou o remédio X? Ela está louca? Ele é usado para micose de unhas! Isso parece ser uma queimadura causada pelo remédio”. Eu perguntei sobre a herpes. “Nenhum desses médicos a que você foi pediu um exame de sangue? Não temos que especular, existe um exame para isso, vamos fazer”. Depois me pediu para ver a pomada que estava passando. “Essa pomada é uma mistureba que não resolve nada, por isso o local está infeccionado, você tem que passar a pomada Y”, e me deu a receita. Saí do consultório, fiz o exame de sangue e passei a usar a pomada Y.

Resultado: no dia seguinte a dor sumiu e as feridas começaram a cicatrizar. O exame de herpes? Deu negativo. Não, eu não tinha herpes. Nem HIV. Tinha feridas provocadas primeiro porque um médico não soube me tratar, o que me levou a uma médica que me passou um remédio errado e piorou o meu problema gerando queimaduras químicas na pele, que um terceiro médico não soube diagnosticar e me receitou uma pomada que não resolveu nada e por um quarto médico que, tendo recursos para fechar um diagnóstico, só especulou, me apavorou e não ajudou em nada. Desgraçados erros médicos.

Quando finalmente encontrei alguém que sabia o que fazer, fiquei bom.

Essas duas histórias mostram o estrago que aparentes especialistas que na verdade são completamente mal-preparados são capazes de fazer com uma pessoa.

O mesmo acontece em nossa vida espiritual.

Muitas vezes, tomamos como referências pastores, pregadores, teólogos e até mesmo blogueiros que têm toda a aparência de conhecer Deus, a Bíblia, a Verdade, a sã doutrina. Nos apaixonamos por eles. Os seguimos cegamente. Cada receita que eles nos passam nós cumprimos. Afinal, somos leigos e eles, os detentores do conhecimento, os ungidos, os que sabem apontar o caminho. Falam bonito. Citam poetas. Escrevem coisas lindas em seus blogs e twitters. Gravam vídeos atraentes e bem produzidos no Youtube. São charmosos. Muitos não usam “aquela ultrapassada toga sacerdotal” nem terno e gravata, são in, falam a linguagem de nossos dias. Uns até falam palavrão. Outros citam Vinícius de Morais, Cecília Meirelles e Clarice Lispector.

Há também o que nos conquistam porque falam como machos. Gritam. Poem o dedo na cara dos pecadores. E daí se seus programas de TV só servem para vender produtos de suas empresas e se defender das acusações dos blogueiros pensantes? São nossos porta-vozes. Dizem aos gays o que gostaríamos de dizer. Esbravejam. Batem na mesa. Chamam outros cristãos de “trouxas”, “bundões” e adjetivos similares que demonstram como estão cheios de “poder de Deus” ou da “graça de Deus”. Os amamos.

Mas o que não percebemos é que muitos deles cometem desgraçados erros bíblicos. E, assim como os erros médicos que fizeram comigo e que tinham a aparência de solução mas só me prejudicaram, esses formadores de opinião arrastam multidões para longe de Deus. Pregam doutrinas de demônios. Receitam práticas, crenças e conceitos “bíblicos” que vão causar bolhas e feridas sanguinolentas em sua alma, meu irmão, minha irmã, e vão deixar sua alma em carne viva. Por isso, é essencial sabermos identificar esses homens.

Se algum pregador que você admira diz que é possível ser salvo por caminhos que não Jesus de Nazaré, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira diz que Deus abriu mão de sua soberania e não age nas tragédias do mundo, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira diz que Deus não controla as forças da natureza e que essa ideia é só influência de ensinos gregos, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira diz que se você der 900 reais ao ministério dele receberá unção financeira, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira traz representantes da Teologia da Prosperidade do exterior para dizer a você em seu programa de TV que você deve dar-lhe dinheiro como forma de semeadura, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira usa palavras torpes – como falar palavrão em púlpito, ofender outros pastores chamando-os de “bundões” ou afirmar que quem oferta para a obra de Deus por amor e não querendo receber dinheiro de volta é “trouxa” – ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira fala sobre graça mas é agressivo ao mencionar outros pregadores, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira manda você “tomar posse da bênção” ou “decretar/declarar a vitória”, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira realiza exorcismos na TV em que o suposto demônio diz que líderes de outras igrejas são guiados por Satanás, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira diz que é a favor do aborto, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira pede dinheiro e com isso compra fazendas ou jatinhos particulares com os recursos sagrados que os fieis dão à igreja, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira diz que é possível viver a fé cristã fora de uma comunidade, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira diz que não tem problema algum ir a shows de artistas do naipe de Ozzy Osbourne, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira diz que irmãos na fé são malditos porque creem em doutrinas em que ele não crê, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira diz que a Bíblia é apenas um conjunto de mitos que revelam uma verdade maior, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira ama mais o dinheiro do que pessoas, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira é visivelmente vaidoso ou arrogante, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira participa de campanha política, ele está te prescrevendo veneno.

Se algum pregador que você admira trai seu chamado sacerdotal e se candidata a um cargo político, ele está te prescrevendo veneno.

E se algum pregador que você admira não admite ser criticado…ele é o veneno.

Desgraçados erros bíblicos. Desgraçados não por ofensa, meu irmão, minha irmã, mas simplesmente porque estão totalmente fora da graça de Deus. E fora da graça de Deus não há salvação.

Deus tenha misericórdia de sua Igreja.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Lembro-me de um semestre no seminário teológico em que lecionei por 9 anos quando passei como trabalho para os alunos que fizessem uma análise sobre o que significavam as obras da carne descritas em Gálatas 5. Dos cinco grupos, dois entregaram o material com uma capa onde havia fotos de pessoas tatuadas, com piercings, espaçadores de orelhas, cabelos pintados de verde e similares. Isso deixou claro para mim que esses elementos compõem, no imaginário geral do evangélico brasileiro, o arquétipo do que seria a pessoa mundana, pecadora. E é muitíssimo frequente essa questão vir à tona: cristãos podem se tatuar? É um assunto secundário e de menor importância para o Evangelho, mas como é um pedido recorrente nos comentários do APENAS que eu fale sobre o tema e como cresce a cada dia nas nossas igrejas o número de irmãos que ostentam tatuagens, farei uma análise bíblica, histórica e cultural da questão. Antes de continuar, só um registro: não sou tatuado nem pretendo me tatuar.

Antes de entrar pelo assunto em si explico por que disse que é “assunto secundário e de menor importância para o Evangelho”. Nos dias de hoje, em que a Igreja padece com o destemor dos seus membros, a falta de devocionalidade, o menosprezo pela oração, o posicionamento da leitura bíblica em segundo plano, a falta de amor ao próximo, a total irreverência pelas coisas de Deus, o uso de palavras torpes por pastores em púlpito visto com naturalidade, o mundanismo invadindo o santuário por todas as frestas, o desprezo pelo fruto do Espírito, a supervalorização e o mau uso dos dons, o esfarelamento do Corpo em facções e panelinhas… algo como aplicar tinta sobre a pele continua sendo visto como um assunto importante. Quando me perguntam se eu gostaria de visitar a Disneylândia, respondo: “Claro, depois de visitar 238 lugares antes”, simplesmente porque não tenho o menor interesse em gastar meu tempo naquele parque de diversões. Prefiro antes conhecer Israel, a Grécia, a Rússia, o Japão. Gosto de História, quero ver castelos e ruínas. Não desmereço quem acha a Disneylândia o must, mas para mim o interesse é mínimo. Do mesmo modo, muitos setores da Igreja acham que a questão das tatuagens está entre o top ten das preocupações de Deus. E quando vejo a falta de amor ao próximo, a egolatria e a agressividade que têm crescido assustadoramente entre os cristãos olho para o tema das tatuagens e penso “como isso pode ocupar tanto a preocupação de tantos? Há 238 preocupações maiores”. Mas tudo bem, vamos lá.

Biblicamente não há qualquer proibição a se tatuar. Sim, eu sei, aí imediatamente alguém se levantará para citar Levítico 19.28: “Pelos mortos não ferireis a vossa carne; nem fareis marca nenhuma sobre vós. Eu sou o Senhor”. A primeira vista, parece óbvio: Deus manda não fazer nenhuma marca no corpo, a tatuagem é uma marca no corpo, logo é pecado se tatuar. Só que para entender esse texto temos que entender o contexto.

Por que Deus estabeleceu essa norma para os israelitas? A resposta é que havia um povo, chamado caldeu, que tinha como hábito religioso cortar a carne de seus próprios corpos e fazer marcas com lâminas afiadas na pele como parte dos seus rituais aos falsos deuses que seguiam (a exemplo do que ocorre atualmente em muitas tribos africanas). Eram marcas que denunciavam idolatria. Em outras palavras, o que Deus está dizendo é que os hebreus não deviam cometer as práticas idólatras dos povos pagãos com que tinham contato. Se fosse em nossos dias, seria mais ou menos como dizer “Não poreis despacho na encruzilhada” ou “Não rezareis para santos mortos”.

Essa orientação era tão direta e específica para aquele povo que se formos ler o versículo imediatamente anterior, teríamos hoje de cumprir o que ele determina: “Não cortareis o cabelo em redondo, nem danificareis as extremidades da barba” (Lv 19.27). Bem, não vejo nenhum pastor pregar contra cabelos arredondados ou contra fazer a barba – pelo contrário, em denominações como a Assembleia de Deus é até mal visto usar barba, a ponto de a Casa Publicadora dessa denominação apagar no photoshop a barba de indivíduos cujas fotos são publicadas em seus jornais e revistas.  Ou, ainda, teríamos hoje de guardar o sábado, visto que dois versículos depois, em Levítico 19.30, Deus especifica: “Guardareis os meus sábados e reverenciareis o meu santuário. Eu sou o Senhor”.  O contexto hermenêutico deixa claro que eram leis específicas para os israelitas daquela época e o contexto cultural mostra a razão de o Altíssimo proibir marcas nos corpos: não cometer as práticas religiosas idólatras dos povos vizinhos. Não tem rigorosamente nada a ver com tatuagens não-rituais e muito menos Lv 19.28 se aplica à Nova Aliança.

A conclusão é que, biblicamente, não: o ato de se tatuar em si não constitui pecado.

Ok, agora virá alguém e dirá que nosso corpo é templo do Espírito e que fazer tatuagens nele seria pecar contra o mesmo. A esse respeito há alguns aspectos: primeiro, se fazer qualquer coisa que prejudique nosso corpo é um atentado contra o templo, não poderíamos comer comida salgada, ingerir açúcar (muito menos adoçantes), comer pizza (cheia de gordura que causa obesidade e entope artérias), tomar refrigerante (das coisas que ingerimos uma das mais maléficas) ou comer torresminho (um pedido explícito para se ter um AVC). Comer no McDonald´s então seria pecado sem perdão. Logo, devemos olhar esse argumento com muito cuidado. Segundo, no contexto de 1 Coríntios 6.19, que diz “Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos?”, o que está sendo tratado aqui são questões de natureza sexual.

Veja os versículos anteriores, a partir do 15: “Vocês não sabem que os seus corpos são membros de Cristo? Tomarei eu os membros de Cristo e os unirei a uma prostituta? De maneira nenhuma! Vocês não sabem que aquele que se une a uma prostituta é um corpo com ela? Pois, como está escrito: “Os dois serão uma só carne”. Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele. Fujam da imoralidade sexual. Todos os outros pecados que alguém comete, fora do corpo os comete; mas quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo”. E aí vem o versículo em questão: “Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos?”. Logo, o que está sendo discutido aqui é o corpo como santuário do Espírito de Deus no que tange à imoralidade sexual, não tem nada a ver com tinta aplicada sobre a pele.

Sob o aspecto cultural, a repulsa que a Igreja sempre mostrou a essa prática vem do fato que, até algumas décadas atrás, nas sociedades ocidentais, os grupos que se tatuavam geralmente apresentavam um comportamento bastante mundano. Eram, em especial, marinheiros, que quando aportavam em alguma cidade podiam ser vistos em prostíbulos ou bastante bêbados, com atitudes bastante réprobas. Logo, sempre que a sociedade “bem-comportada” via essas pessoas tatuadas era em situações de devassidão, mau exemplo ou pecado. Assim, essa visão foi sendo passada de geração em geração e, para um grupo como os cristãos, para quem prostituição e beber álcool são o supra sumo da pecaminosidade, gente tatuada passou a ser sinônimo de gente pecadora. Só que o problema desses indivíduos não eram as tatuagens, era seu comportamento antibíblico.

O tempo passou e nos nossos dias a tatuagem perdeu essa conotação. Hoje há muitas e muitas pessoas de vida honesta que se tatuam. A associação de tatuados com baderneiros arruaceiros e gente de má fama deixou de existir. Então, com o passar do tempo, na sociedade ocidental aplicar pigmentos sobre a pele perdeu aquele aspecto negativo de décadas e séculos passados. Mas, por uma tradição cultural, as novas gerações herdaram das antigas que se tatuar é sinônimo de devassidão anticristã e por isso, sem conhecer as origens da questão, dão continuidade ao que aprenderam de seus pais, sem nem ao menos saber explicar as razões. Bem, aqui expliquei.

Portanto, não podemos dizer que biblicamente ou culturalmente haja condenação para o uso da tatuagem.

Mas, antes que os tatuados saiam dando gritinhos de alegria, temos que dar atenção a outros fatores, em especial no meio cristão. É de suma importância aos olhos de Deus a unidade do Corpo. Por isso, em diversas passagens da Bíblia somos alertados que existem coisas que “são lícitas mas não nos convém”. Devemos estar atentos para não levar os irmãos à murmuração, ao escândalo, ao julgamento. Muitas vezes o fazem por tradição, outras por ignorância ou mesmo por diferença de gerações, mas, indepentente da razão, o que importa é termos paz com todos. Romanos 14.13ss, nos alerta: “Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão. Como alguém que está no Senhor Jesus, tenho plena convicção de que nenhum alimento é por si mesmo impuro, a não ser para quem assim o considere; para ele é impuro. Se o seu irmão se entristece devido ao que você come, você já não está agindo por amor. Por causa da sua comida, não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu. Aquilo que é bom para vocês não se torne objeto de maledicência”.

Repare as palavras de Paulo: é mais importante não gerar maledicência ou escândalo entre os irmãos do que fazer aquilo que não tem nenhum problema segundo a Bíblia. O mesmo ele repete pouco depois, no capítulo 14: “Como alguém que está no Senhor Jesus, tenho plena convicção de que nenhum alimento é por si mesmo impuro, a não ser para quem assim o considere; para ele é impuro. Se o seu irmão se entristece devido ao que você come, você já não está agindo por amor. Por causa da sua comida, não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu. Aquilo que é bom para vocês não se torne objeto de maledicência. Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo; aquele que assim serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens. Por isso, esforcemo-nos em promover tudo quanto conduz à paz e à edificação mútua. Não destrua a obra de Deus por causa da comida. Todo alimento é puro, mas é errado comer qualquer coisa que faça os outros tropeçarem. É melhor não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve seu irmão a cair. Assim, seja qual for o seu modo de crer a respeito destas coisas, que isso permaneça entre você e Deus. Feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova”.

O que essas passsagens nos dizem? Tatuar-se biblicamente é pecado? Não. Tatuar-se culturalmente no Brasil é sinal de devassidão moral? Não. Mas ainda há aqueles que se escandalizam ao ver na igreja quem se tatue? Sim. Portanto, o grande problema de o cristão se tatuar não passa por “poder ou não poder”, passa pelo amor ao próximo.

É o mesmo caso de mulheres usarem saias ou calças em igrejas mais conservadoras. Esse hábito surgiu porque décadas atrás, no início do século 20, calça era roupa exclusivamente de homens. Absolutamente todas as mulheres no Brasil usavam saia. As décadas se passaram e a calça, entre os anos 50 e 60, deixou de ser traje exclusivo de homens e foi adotado pelas mulheres. Ninguém mais se escandaliza em nossa sociedade ao ver uma mulher, por exemplo, de terninho. Porém, nessas igrejas o costume foi passando de geração a geração, os mais antigos foram morrendo e os mais novos, sem saberem explicar a origem da proibição de calças na igreja por mulheres apenas mimetizam o que aprenderam, sem saber as origens ou as razões. E aí criamos um bando de estranhos ao século 21, que acreditam que mulher usar calça é pecado – quando não é, se for uma calça decorosa.

Mas, do mesmo modo que a tatuagem, se você opta voluntariamente por ser membro de uma congregação onde a norma seja a mulher usar saia, se usar calça estará sendo desobediente às regras da assembleia onde está e, portanto, em rebeldia – e pecará por levar os irmãos ao escândalo e à murmuração.

A conclusão é: se o meio que você frequenta tem usos e costumes, não afronte, faça parte. Se discordar, saia e procure outro meio. Ou fique, adote o hábito e tente com amor ir influenciando os irmãos no conhecimento da verdade. O confronto jamais é o caminho. Por uma razão simples: é pecado.

E há ainda alguns pontos a ponderar. Aqui tomo por base um texto muito bem refletido publicado no blog de Nathan Joyce (foto à esquerda), Pastor do Heartland Worship Center, em Paducah (EUA) e divulgado no twitter pela irmã Francine Veríssimo (@FranVerissimo_), de quem tirei as boas reflexões que acrescento abaixo. O artigo, originalmente em inglês, chama-se “O que tatuagens realmente dizem”. Após mencionar que estimados 45 milhões de estadunidenses hoje são tatuados, o autor lembra alguns pontos relevantes:

1. Você vai envelhecer e se tornar um avô ou avó. E ninguém quer identificar seus avós como aqueles que têm “uma caveira ou arame farpado”.

2. Lembre-se que, na medida em que envelhece, seu corpo muda. Sua tatuagem vai acompanhar as mudanças. Cuidado, pois ao passo que sua pele se torna mais flácida, a borboleta em seu ombro pode se transformar num pterodáctilo e sua rosa pode virar o planeta Saturno.

3. De jeito algum tatue o nome de um namorado ou noivo. Se o relacionamento acabar, seu futuro marido ou esposa não vai gostar nada disso.

Joyce se pergunta por que afinal alguém precisa tanto se tatuar. Tatuagens dizem algo a nosso respeito. Que necessidade tentamos suprir com elas? Qual é a psicologia das tatoos? Mais ainda: qual é a espiritualidade delas? E ele apresenta sua conclusão: as pessoas se tatuam porque desejam desesperadamente pertencer e se expressar. Desejamos ter vidas que digam algo, queremos nos identificar com algo publicamente e nos marcar permite que nos expressemos e nos identifiquemos com a imagem de nossa escolha. Certo ou errado, é uma tentativa de realizar uma necessidade humana. Uma vez que se tatua, você assumiu um compromisso de longo prazo com uma imagem que para sempre vai marcá-lo, ou seja, identificá-lo e expressar algo a seu respeito para os outros. Ou seja: nos etiquetamos.

E ele continua: “De onde vem essa necessidade? Do fato de que fomos feitos à imagem de Deus, que também ama o pertencimento e a autoexpressão. Mesmo antes da Criação, Deus se identificava e pertencia à Trindade e a Criação é uma autoexpressão de Deus. E assim o Senhor nos criou do mesmo modo. Somos incompletos, a menos que pertençamos a algo ou alguém – nosso desenvolvimento depende disso. Os humanos também almejam uma vida que expresse legado. O problema é que o pecado atrapalhou todo o processo. Por causa dele, nossa busca por identificação tornou-se tóxica e compulsiva e nossa necessidade de autoexpressão deixou de ser motivada por amor, mas por desejo de grandeza e egocentrismo. Nossa cultura ama se expressar, não porque desejemos amar o próximo por meio dessa expressão, mas porque amamos ser o centro das atenções”. No final, essa profunda necessidade humana de pertencimento e expressão não será alcançada por meios humanos – somente quando o amor passar a habitar em você. E não qualquer tipo de amor, mas o amor de Cristo. Esse amor lhe convida a pertencer a um Deus eterno e a expressar Seu amor e Seus propósitos eternos.

Ao final, Pastor Joyce tem uma magnífica epifania: tatuado ou não, o amor é a marca que identifica você com Cristo. Um amor expressado por boas obras em benefício do próximo deixa uma marca que jamais se apagará.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
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